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sexta-feira, 21 de junho de 2013

A pedagogia do medo na formação dos padres

José Lisboa Moreira de Oliveira

          O que vou narrar inicialmente não aconteceu na Idade Média e nem na primeira metade do século passado, antes da realização do Concílio Vaticano II. Aconteceu há poucas semanas atrás, em pleno século XXI, no ano da graça do Senhor de 2013.

Um seminarista, meu conhecido, pediu-me para ser seu amigo no Facebook. Como eu o conhecia, não tive problemas para adicioná-lo. Desde então comecei a receber mensagens dele. Logo notei a pobreza de tais mensagens ou, pior dizendo, o monte de baboseiras que era postado porele, que dizia estar cursando o segundo ano de teologia. Comecei, então, a fazer alguns comentários ao que ele postava. Na última postagem o seminarista colocou uma charge com a qual justificava a necessidade(notem bem o vocábulo!) do uso da batina. Na charge um padre, estando num lugar, sem batina, vestido como o comum dos mortais, recebia uma bela cantada de uma mulher.

Percebendo o absurdo, fiz um comentário no qual chamava a atenção para algumas coisas. Antes de tudo a presença da pedagogia do medo da mulher. Dizia para o seminarista que esse medo denotava insegurança vocacional e de identidade. Em segundo lugar, mostrava que tal posição estava carregada de preconceito contra a mulher, vista como a sedutora, aquela que induz ao "pecado da carne”. Além disso, mostrei-lhe que, pela minha experiência de mais de quarenta anos de convivência direta com os eclesiásticos, nem sempre é a mulher que seduz o padre. Na maioria absoluta dos casos são padres, afetivamente carentes e psicologicamente despreparados, os sedutores das mulheres. São constantes, ainda hoje, os casos de padres que engravidam mulheres e que, inclusive, as forçam a praticar o aborto. Na Itália existe uma ONG que cuida de filhos abandonados de padres. Por fim, lembrava ao ilustre seminarista queencontrei em vários seminários casos escabrosos que aconteciam na calada da noite, apesar do uso frequente da batina. Casos de pedofilia, de casais "estáveis” de seminaristas homossexuais, os quais eram defensores ferrenhos do celibato e do uso da batina até para dormir. Concluía, então, meu comentário dizendo que a batina, por si só, não funciona, se faltar ao seminarista e ao padre aquela maturidade psico-afetiva-sexual da qual tanto falam os documentos da Igreja sobre a formação dos presbíteros. O resultado do meu comentário você já deve ter deduzido: o seminarista me excluiu da sua lista de amigos no Facebook.

O caso me fez refletir sobre o que estaria acontecendo com a formação dos padres. O que leva um seminarista do segundo ano de teologia a ter uma visão tão desequilibrada e tão medrosa do celibato? E não tive alternativa a não ser me convencer, mais uma vez, de que a maioria absoluta dos seminaristas não está sendo preparada para encarar o celibato com naturalidade. E isso por uma simples razão: a maioria absoluta deles não é portadora desse dom do Espírito. Fingem tê-lo e os formadores e bispos, mais preocupados com a quantidade do que com a qualidade, continuam fazendo de conta que não estão vendo nada. Insistem em manter a lei obrigatória do celibato, mas se recusam a afastar do ministério presbiteral todos aqueles que não são portadores desse carisma. Toda opção tem consequências sérias. E a principal consequência séria da opção da hierarquia pelo celibato obrigatório é, sem dúvida alguma, a exclusão (esta é a palavra exata), através de um bom discernimento, de todos aqueles que não possuem este dom. E tal exclusão precisa ser realizada antes de tudo para o bem dos próprios seminaristas e depois para o bem da Igreja.

E ao dizer que estou convencido de que a maioria dos seminaristas não possui o dom do celibato, estou falando a partir de experiências concretas. Várias vezes, em diversos momentos e lugares, numa simples conversa, aberta e franca, aquela do tipo "olho no olho”, isso ficou muito claro para mim. Eles não conseguem esconder seus disfarces. É claro que os seminaristas não são culpados disso. A responsabilidade é da hierarquia da Igreja que insiste em fazer de conta que tudo vai muito bem; uma hierarquia que não é capaz de ler os sinais dos tempos e repensar a questão do celibato obrigatório.

De tudo isso, podemos deduzir duas consequências. A primeira é de termos padres distantes das pessoas; padres que colocam barreiras, como a batina, para não se aproximarem do povo e para que o povo não se aproxime deles. Padres que, diferentemente de Jesus, não se misturam com as pessoas, não assumem "em tudo a condição humana” (Hb 4,15). Padres incapazes de compaixão e de misericórdia porque não vivem como vive o povo, especialmente como vivem aquelas pessoas prostradas e abatidas, sem consolação, sem esperança, sem vida e para as quais eles deveriam ter um carinho especial (Mt 9,36). Por mais que se esforcem, estarão sempre distantes, uma vez que não há como ser próximo quando se usa de artimanhas para "passar adiante, pelo outro lado” (Lc 10,31-32), longe de quem está caído. Enquanto o Concílio Vaticano II pedia aos padres para mergulharem profundamente na vida do povo, convivendo com todas as pessoas (PO,6), a formação dada nos seminários, verdadeiros "redomas de vidro”, distancia o pastor das ovelhas.

A outra consequência grave é a constatação de uma profunda fragilidade desses futuros padres. A necessidade de usar escudos de proteção, como a batina, revela uma personalidade doente, imatura, carente e psicologicamente enfraquecida. Não se trata de pensar nos padres como super-heróis, mas de ajudá-los a serem, o quanto possível, pessoas normais, sem grandes amarras e humanamente acessíveis. Como podem padres assim ser sinais sacramentais do Cristo Pastor se são incapazes de "dar a vida” (Jo 10,11) pelas pessoas? Porque o dar a vida não se reduz ao martírio, mas implica um gastar-se, um consumir-se pela humanidade (Mc 6,31). E só é possível doar-se totalmente quando não se possui nenhum tipo de "reserva”, nenhum tipo de amarra, nenhum tipo de medo da outra pessoa (Mc 2,15-17).

Estudos sérios afirmam que o homem sempre teve medo da mulher inclusive do ponto de vista sexual. Giacomo Dacquino em sua obra Viver o prazer (Paulinas, 1992) chama a atenção para este aspecto, lembrando que esse medo se exasperou nas últimas décadas em razão da progressiva emancipação da mulher. Dacquino lembra que medos cultivados em relação à mulher podem revelar que o homem não superou o complexo de Édipo, mantendo certo vínculo edípico com a mãe e rejeitando a heterossexualidade, ou seja, qualquer relação ou aproximação afetiva com as outras mulheres (pp. 147-150).

O Concílio Vaticano II, no documento sobre a vida e o ministério dos presbíteros, afirmou que a missão do padre é ajudar as pessoas a conseguirem a maturidade cristã. Diz, sem meios-termos, que de nada adiantam cerimônias bonitas, "rebanhões”, procissões, curas, movimentos eclesiais florescentes se os cristãos e as cristãs não atingem a maturidade na fé. E para realizar essa tarefa os padres devem acolher todas as pessoas: jovens, casais, famílias etc. (PO, 6). O documento conciliar sobre a formação dos padres chega a dizer que para cumprirem fielmente essa missão os seminaristas devem ser educados sobre o valor e a dignidade do casamento e sobre o que significa realmente a renúncia ao matrimônio, a qual não é renúncia ao amor (OT, 10).

Causa, pois, enorme espanto que, cinquenta anos depois, ainda se dê uma formação que estimula o medo e o cultivo de barreiras na relação dos padres com as pessoas. Nico Dal Molin, em seu belíssimo livro sobre o amadurecimento psicoafetivo, intitulado Itinerário para o Amor (Paulinas, 1996), afirma que o amor maduro tem a coragem de derrubar barreiras, uma vez que as barreiras impedem a transparência e distorcem o modo de viver o amor (pp. 144-162). O amor, como sabemos, é o distintivo por excelência do discípulo e da discípula de Jesus (Jo 13,34-35). E "no amor não existe medo; pelo contrário o amor perfeito lança fora o medo, porque o medo supõe castigo. Por conseguinte, quem sente medo ainda não está realizado no amor” (1Jo 4,18). Tenho pena das comunidades que irão receber esses futuros padres, modelados na "fôrma”da lei do temor e não educados na pedagogia do amor.

domingo, 16 de junho de 2013

11º- DOMINGO DO TEMPO COMUM. ANO-C: Violência Policial em São Paulo.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 353. 11º Domingo do Tempo Comum.

11º Domingo do Tempo Comum. Ano- C.

A liturgia deste domingo apresenta-nos um Deus de bondade e de misericórdia, que detesta o pecado, mas ama o pecador; por isso, Ele multiplica “a fundo perdido” a oferta da salvação. Da descoberta de um Deus assim, brota o amor e a vontade de vivermos uma vida nova, integrados na sua família.

A primeira leitura apresenta-nos, através da história do pecador David, um Deus que não pactua com o pecado; mas que também não abandona esse pecador que reconhece a sua falta e aceita o dom da misericórdia.

Na segunda leitura, Paulo garante-nos que a salvação é um dom gratuito que Deus oferece, não uma conquista humana. Para ter acesso a esse dom, não é fundamental cumprir ritos e viver na observância escrupulosa das leis; mas é preciso aderir a Jesus e identificar-se com o Cristo do amor e da entrega: é isso que conduz à vida plena.

O Evangelho coloca diante dos nossos olhos a figura de uma “mulher da cidade que era pecadora” e que vem chorar aos pés de Jesus. Lucas dá a entender que o amor da mulher resulta de haver experimentado a misericórdia de Deus. O dom gratuito do perdão gera amor e vida nova. Deus sabe isso; é por isso que age assim.

EVANGELHO – Lc 7,36 – 8,3

MENSAGEM

           A personagem central é a mulher a quem Lucas apresenta como “uma mulher da cidade que era pecadora”. Não há qualquer indicação acerca de anteriores contactos entre Jesus e esta mulher, embora possamos supor que a mulher já se tinha encontrado com Jesus e tinha percebido n’Ele uma atitude diferente dos mestres da época, sempre preocupados em evitar os pecadores notórios e em condená-los.

A ação da mulher (o choro, as lágrimas derramadas sobre os pés de Jesus, o enxugar os pés com os cabelos, o beijar os pés e ungi-los com perfume) é descrita como uma resposta de gratidão, como consequência do perdão recebido (vers. 47). A parábola que Jesus conta, a este propósito (vers. 41-42), parece significar não que o perdão resulta do muito amor manifestado pela mulher, mas que o muito amor da mulher é o resultado da atitude de misericórdia de Jesus: o amor manifestado pela mulher nasce de um coração agradecido de alguém que não se sentiu excluído nem marginalizado, mas que, nos gestos de Jesus, tomou consciência da bondade e da misericórdia de Deus.

A outra figura central deste episódio é Simão, o fariseu. Ele representa aqueles zelosos defensores da Lei que evitavam qualquer contato com os pecadores e que achavam que o próprio Deus não podia acolher nem deixar-Se tocar pelos transgressores notórios da Lei e da moral. Jesus procura fazê-lo entender que só a lógica de Deus – uma lógica de amor e de misericórdia – pode gerar o amor e, portanto, a conversão e a vida nova. Jesus empenha-se em mostrar a Simão que não é marginalizando e segregando que se pode obter uma nova atitude do pecador; mas que é amando e acolhendo que se pode transformar os corações e despertar neles o amor: essa é a perspectiva de Deus. O perdão não se dá a troco de amor, mas dá-se, simplesmente, sem esperar nada em troca. A reação de Jesus não é um caso isolado, mas resulta da missão de que Ele se sente investido por Deus – atitude que Ele procurará manifestar em tantas situações semelhantes: dizer aos proscritos, aos moralmente fracassados, que Deus não os condena nem marginaliza, mas vem ao seu encontro para libertá-los, para dar-lhes dignidade, para os convocar para o banquete escatológico do Reino. É esta atitude de Deus que gera o amor e a vontade de começar vida nova, inserida na lógica do Reino.

O texto que nos é proposto termina com uma referência ao grupo que acompanha Jesus: os Doze e algumas mulheres. O facto de o “mestre” Se fazer acompanhar por mulheres (Lucas é o único evangelista que refere a incorporação de mulheres no grupo itinerante dos discípulos) era algo insólito, numa sociedade em que a mulher desempenhava um papel social e religioso marginal. No entanto, manifesta a lógica de Deus que não exclui ninguém, mas integra todos – sem excepção – na comunidade do Reino. As mulheres – grupo com um estatuto de subalternidade, cujos direitos sociais e religiosos eram limitados pela organização social da época – também são integradas nessa comunidade de irmãos que é a comunidade do Reino: Deus não exclui nem marginaliza ninguém, mas a todos chama a fazer parte da sua família.

 ATUALIZAÇÃO

 Considerar, na reflexão, as seguintes questões:

 1º-Em primeiro lugar, o nosso texto põe em relevo a atitude de Deus, que ama sempre (mesmo antes da conversão e do arrependimento) e que não Se sente conspurcado por ser tocado pelos pecadores e pelos marginais. É o Deus da bondade e da misericórdia, que ama todos como filhos e que a todos convida a integrar o seu família. É esse Deus que temos de propor aos nossos irmãos e que, de forma especial, temos de apresentar àqueles que a sociedade trata como marginais.

 2º- A figura de Simão, o fariseu, representa aqueles que, instalados nas suas certezas e numa prática religiosa feita de ritos e obrigações bem definidos e rigorosamente cumpridos, se acham em regra com Deus e com os outros. Consideram-se no direito de exigir de Deus a salvação e desprezam aqueles que não cumprem escrupulosamente as regras e que não têm comportamentos social e religiosamente correctos. É possível que nenhum de nós se identifique totalmente com esta figura; mas, não teremos, de quando em quando, “tiques” de orgulho e de auto-suficiência que nos levam a considerar-nos mais ou menos “perfeitos” e a desprezar aqueles que nos parecem pecadores, imperfeitos, marginais?

 3º- A exclusão e a marginalização não geram vida nova; só o amor e a misericórdia interpelam o coração e provocam uma resposta de amor. Frequentemente fala-se, entre nós, no agravamento das penas previstas para quem infringe as regras sociais, como se estivesse aí a solução mágica para a mudança de comportamentos… A lógica de Deus garante-nos que só o amor e a misericórdia conduzem à vida nova.

4º- Na linha do que a Palavra de Deus nos propõe hoje, como tratar esses excluídos, que todos os dias batem à porta da “fortaleza Europa” à procura de condições mínimas para viver com dignidade? E os moralmente fracassados, que testemunho de amor e de misericórdia encontram nas nossas comunidades?

 5º- Ultimamente, fala-se muito do papel e do estatuto das mulheres na comunidade cristã. Este texto diz-nos que, ao contrário do que era costume na época, as mulheres faziam parte do grupo de Jesus. Que significa isso: que elas devem ter acesso aos ministérios na comunidade cristã? Seja qual for a resposta, o que é importante é que não façamos disto uma luta pelo poder, ou uma reivindicação de direitos, mas uma questão de amor e de serviço.

 ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 11º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(Em parte adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

 1- ABERTURA DA CELEBRAÇÃO.

 A força dos textos deste domingo merece que nos preparemos desde o início da celebração para bem os acolher. Podemos realçar a palavra do salmo, mesmo antes do início do cântico de entrada: “perdoai, Senhor, minha culpa e meu pecado”. A fim de nos colocarmos em atitude de ser perdoados, um tempo de silêncio permitirá tomar consciência disso antes de serem proclamadas as primeiras palavras da saudação inicial: “a graça de Nosso Senhor…” O rito penitencial pode ser introduzido pelas palavras do salmo: “Feliz o homem a quem o Senhor não acusa de iniquidade e em cujo espírito não há engano”.

 2- BILHETE DE EVANGELHO.

 O fariseu que recebe Jesus à mesa pára o seu olhar sobre o que se vê: uma pecadora introduziu-se na sua casa; para ele, ela não é senão uma pecadora. Quanto a Jesus, lança o seu olhar sobre a mulher procurando ver, através do seu comportamento, tudo o que se passa no seu coração: se ela chora, é porque é infeliz e lamenta o seu passado; se ela molha com as suas lágrimas e limpa com os seus cabelos os pés de Jesus, se ela os beija e sobre eles derrama perfume precioso, é para manifestar o seu grande amor. Não é preciso mais nada para Jesus: Ele perdoa, não porque ela pecou muito, mas porque amou muito, mesmo se ela amou mal; sobretudo, é a sua fé que a salva. Ela faz a experiência do Amor louco de Deus que perdoa, experiência que o fariseu ainda não fez. Porque o fariseu e os convidados se ficam pelas aparências, encerram a mulher no passado. Porque Jesus olha para além das aparências, abre-se à mulher um futuro diferente, e ela parte em paz.

 3- À ESCUTA DA PALAVRA.

 Espantoso encontro na casa de Simão! O fariseu queria, sem dúvida, ver de mais perto este jovem rabino que dizia vir da parte de Deus. Falava bem, irradiava bondade. Porém… Tudo se desmorona! Eis que Jesus Se presta a uma cena no mínimo chocante, mesmo escabrosa. Esta mulher que se aproxima d’Ele é conhecida por ser da má vida, uma pecadora. Os seus gestos, ambíguos, dizem o que ela é. Mas o escândalo vem, sobretudo, da falta de reacção de Jesus. Simão pensava ter convidado um homem de Deus. E eis que está diante dele um homem como todos os outros, talvez mesmo um futuro “cliente” da mulher. Se ao menos Jesus tivesse retirado os seus pés, se tivesse protestado, colocado a mulher no seu devido lugar! Mas não! Segundo a Lei, deixar-se tocar por uma mulher impura tornava-o cúmplice do seu pecado. O paradoxo é grande! Cremos que Jesus é o Filho de Deus feito homem, totalmente santo, sem qualquer pecado.

Também para nós, a cena é incompreensível: de um lado, a pureza, a presença mesmo do Deus três vezes santo, o fogo ardente do seu amor; do outro, a impureza, o pecado, a água suja das nossas misérias. Como vai terminar este encontro? Jesus vai cumprir uma divina alquimia. Jesus dá a esta mulher um amor que transfigura os seus gestos ambíguos. Faz deste encontro uma ocasião para manifestar a maneira de agir de Deus para com os pecadores. Jesus não aprova o seu pecado. Mas acolhe esta mulher tal como ela é. Aceita o que ela é capaz de Lhe dar. Se Ele a tivesse afastado, tê-la-ia encerrado no seu pecado. Deixando-a fazer, quer fazer-lhe compreender que não quer tomá-la para Si, como os outros homens que ela encontrava. Dá-lhe um amor que ela nunca tinha recebido, um amor gratuito, para a fazer nascer ela própria. Ele transforma a água suja dos seus pecados em fonte purificadora, transfigurada pelo fogo do amor divino. Porque a pecadora recebeu um perdão infinito e gratuito, pôde, por sua vez, mostrar um grande amor, e nascer para a vida. É isso que Jesus nos convida a viver quando vamos até Ele!

4- PALAVRA PARA O CAMINHO.

A página do Evangelho deste domingo pode facilmente dar lugar a uma partilha. Porque não aproveitar para visitar uma pessoa um pouco isolada no seu sofrimento, e propor-lhe para falar à volta deste Evangelho? Isso poderia ajudá-la a se sentir amada e a “ir em paz”.

5- VIVER AS ATITUDES DO CORAÇÃO DE JESUS.

Estamos no mês do Coração de Jesus, cuja Solenidade celebrámos na passada sexta-feira. Podemos acolher a Palavra deste domingo sob essa luz, tentando descobrir as atitudes bem presentes no Coração de Jesus: pensar nas atitudes que recebemos do Coração de Jesus, tão presentes na liturgia da Palavra deste domingo: Amor, Misericórdia, Perdão, Bondade… (cada um pode continuar a lista); rezar essas atitudes em ambiente de adoração e vivê-las sempre com empenho, em particular ao longo deste mês. Mãos à obra! Continuação de fecundo mês do Coração de Jesus!
Fonte: http://www.dehonianos.org/

sexta-feira, 7 de junho de 2013

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 348. Festa do Coração de Jesus.

O Coração de Jesus: Deus de misericórdia

Frei Pedro  Caxito, O.Carm. In Memoriam
 
            Estamos em pleno mês de junho, mês do Sagrado Coração de Jesus. É um convite a celebrarmos o amor, as misericórdias do Coração do nosso Deus feito homem, que veio morar entre nós, "não para chamar os justos, mas os pecadores" (Mt 9,13).
            "As misericórdias do Senhor eternamente cantarei!" (Sl 88,2) dizia o salmista, repetia sempre Santa Teresa de Jesus e devemos nós mesmos sempre proclamar.
            Aquelas "entranhas de misericórdia do nosso Deus que, para nos visitar nos fez vir lá do alto o Sol Nascente" (Lc 1,78),  Jesus que de Maria veio até nós em Belém.
            Aquele Coração cheio de misericórdia, que como Bom Samaritano se inclinou sobre a pobre humanidade prostrada no caminho, sobre a pecadora da casa de Simão, o fariseu, sobre Mateus, Zaqueu e o paralítico de Cafarnaum e o outro da beira de Betesda, a piscina da "casa da misericórdia", sobre a adúltera envergonhada e tantos pecadores, sobre as criancinhas rejeitadas, sobre os pobres e sobre os doentes, porque "são os doentes que precisam de Médico e não os sãos" (Mt 9,12).
            «Andai, portanto, de volta para as vossas casas, a fim de aprenderdes o que é: "Quero misericórdia e não sacrifício" » (Mt 9,13), sacrifícios de bodes e carneiros (cf Os 6,6).
            Junho nos convida a vivermos a bem-aventurança: "Bem-aventurados os misericordiosos, porque misericórdia encontrarão" (Mt 5,7).
            Junho nos pede para reconhecermos as misericórdias do coração do nosso Deus, nelas confiarmos e as imitarmos. "Sede misericordiosos como é misericordioso o vosso Pai, que está no céu" (Lc 6,36).
           
RICO DE MISERICÓRDIA
 
            "Mas Deus, rico de Misericórdia, graças ao grande amor com que nos amou, mortos que estávamos por causa dos pecados, nos fez reviver com Cristo: de graça, na verdade, fostes salvos" (Ef 2,4-5).
            Misericordioso, o Coração de Jesus sente-se comover diante da miséria do povo cansado e abatido como ovelhas que não têm um pastor. Misericordioso quer dizer "um coração compadecido diante da miséria". E Ele é misericordioso. "Andava em volta por todas as cidades e aldeias, ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando toda doença e enfermidade" (Mt 9,35).
            Diz São Paulo aos Romanos: "Pois bem a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando ainda éramos pecadores. (...) É por Ele que já desde o tempo presente recebemos a reconciliação"
            É misericordioso e quer que o ajudemos a ser misericordioso: chama aqueles que Ele quer e "lhes dá o poder de expulsar os espíritos imundos e de curar todo tipo de doenças e enfermidades" (Mt 10.1), como Ele estava fazendo. "Proclamai que o Reino dos Céus está chegando. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, sarai os leprosos, expulsai os demônios" (Mt 10,7-8).
            Mas aqueles doze são poucos demais. "O Mediador único entre Deus e os homens" pede aos Homens que peçam ao Dono para mandar mais gente para a sua colheita. A messe está loura, esperando pela colheita (cf Jo 4,35), porque "Messe" é plantação já ansiosa por ser colhida. E o Dono deve ter pressa!...
            "Eu vos carreguei sobre asas de águia" como a águia carrega os seus filhinhos (Ex 19, 4). "Sacerdotes e reis, uma nação consagrada, um povo que Deus adquiriu para proclamarmos as suas obras maravilhosas" (1Pd 2,9), o seu amor e a sua misericórdia, devemos estar com Ele no seu esforço por libertar o irmão de toda miséria espiritual e material. "Filhinhos, não amemos com palavras ou com a língua, mas com os atos e com a verdade" (1Jo 3,18).

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 347. Menino de Ouro.

10º Domingo do Tempo Comum: O filho da viúva de Naim (Lucas 7,11-17).

Por irmã Kátia Rejane Sassi, da Congregação das Irmãs de São José de Chambéry. Teóloga, especialista em Assessoria Bíblica - DABAR - mestranda em Teologia Bíblica pelas Faculdades EST. Atualmente é professora e coordenadora do Curso Básico de Formação na ESTEF - Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana.
O texto da ressurreição do filho da viúva de Naim (Lc 7,11-17) só se encontra no evangelho de Lucas. Em seu ministério pela Galileia, Jesus se aproxima de uma pequena aldeia chamada Naim, próxima de Nazaré, onde se depara com uma cena comovente.
Vida x morte: dois cortejos se encontram
O evangelista Lucas relata dois cortejos, duas procissões que se encontram na entrada da aldeia de Naim. De um lado, o cortejo de morte, dos sem esperança, que sai da cidade: uma grande multidão acompanha a mãe viúva que leva seu filho único para ser sepultado. Naquele tempo, os cadáveres eram considerados impuros e, por isso, eram enterrados fora dos muros das cidades judaicas.
Do outro lado, o cortejo da vida que entra na cidade: Jesus é acompanhado de seus discípulos e também de uma grande multidão. Lucas emprega pela primeira vez o título de "Senhor", indicando que ele é o Cristo, o Senhor da Vida. 
 As lágrimas de uma mãe viúva
Na cena descrita por Lucas aparece uma mulher mãe e viúva. Naquele tempo, sua situação social como mulher viúva era muito difícil. Falecido o marido, ela ficava sob a proteção dos filhos e, não tendo estes, encontrava-se à mercê da própria sorte. O evangelho nos diz que o jovem falecido era filho único desta viúva (Lucas 7,12). Portanto, agora dependia da boa vontade dos seus vizinhos. Esta mulher estava sozinha no mundo.
Esta mãe e viúva encontrava-se num grande sofrimento, pois além de perder seu esposo perde também seu filho amado que constituía a única herança que tinha. Logo, enterraria sua única razão de viver. Sem nenhuma palavra, as lágrimas falam... A dor inconsolável das perdas e seu lamento profundo chegam até o coração misericordioso de Jesus, o Senhor da Vida.
 Jesus vê e tem compaixão
Jesus olha, contempla a situação de sofrimento e presta atenção na mãe viúva desamparada que acaba de perder seu único filho. Vê a angústia daquelas pessoas com quem se cruza ocasionalmente. O Senhor da Vida não é insensível e indiferente à dor humana, não passa ao lado, não se afasta.
Diferentemente de outros relatos de milagres e de pedidos de pais por seus filhos, aqui, ninguém pede a ajuda de Jesus. Seu olhar é cheio de ternura, sente-se tocado pela situação, toma a iniciativa diante das lágrimas de tristeza da mãe de Naim, movido pela compaixão. Em Jesus, o Deus libertador do êxodo está entranhado na história do seu povo: "Eu vi a aflição de meu povo... Ouvi os seus clamores...
Conheço os seus sofrimentos... Desci para libertar..." (Êxodo 3,7-8).
Jesus se compadece da viúva e de tantas pessoas cansadas, aflitas, enfermas e marginalizadas. Ele sente, sofre, assume a dor da mãe de Naim. E a compaixão entra em ação. Jesus se dirige à mulher que chorava e lhe diz apenas duas palavras de consolo: "Não chores!" Isso revela que havia uma esperança para aquela mulher e sua situação. Não vai mais existir motivo para essas lágrimas e essa dor.
Jesus se aproxima e suas palavras e gestos restituem a vida
A compaixão leva Jesus a falar e a agir. O Senhor da Vida se aproxima e, decidido, toca o esquife (caixão) e "os que o levavam pararam" (Lucas 7,14). Jesus se envolve com os dramas humanos e não tem receio de tocar algo impuro. Ele transgride o tabu religioso sobre a impureza legal de um cadáver (cf. Números 19,11.16). Para Jesus, a vida está acima de todo legalismo.
Com suas palavras, ele ordena ao jovem que se levante. "Levantar" é um dos verbos em grego para "ressuscitar". Jesus transforma as realidades de morte. Lucas acrescenta que o que estivera morto passou a falar. Restitui a vida e a palavra ao jovem. Num gesto de ternura, Jesus entregou à mãe de Naim seu precioso filho. Jesus não só chama o filho à vida, como também restitui a vida, a situação social desta mulher viúva.
Testemunho: Deus visitou o seu povo
A reação da multidão é de espanto e admiração que reconhece a ação salvífica de Deus: "Um grande profeta apareceu entre nós e Deus visitou seu povo" (Lucas 7,16). É o próprio Deus que visita seu povo; não mais através de profetas, mas ele mesmo que, assumindo a condição humana, vem nos trazer a libertação e a alegria. É o "Pai dos órfãos e o protetor das viúvas" (Salmo 68,6). Como Senhor da Vida e vencedor da morte, inaugura o tempo novo de esperança para todos os que creem.
E nós, hoje, que reescutamos esta narração de Lucas, somos interpelados/as pelos sentimentos, palavras e gestos de Jesus diante do sofrimento humano estampado nas páginas dos jornais e nas telas da televisão ou nas tragédias que acontecem perto de nós. Sua atitude nos ajuda a descobrir que nosso nível de humanidade é terrivelmente baixo. A dor dos outros produz em mim a mesma compaixão? Quando Jesus vê uma mãe chorando a morte de seu filho único, aproxima-se de sua dor como irmão, amigo, semeador de alegria e de vida. Que nossa presença junto aos pequenos, desamparados e sem esperança possa testemunhar: "Deus visitou o seu povo!".
Fonte: http://www.cebi.org.br

 

sábado, 1 de junho de 2013

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 343. 9º Domingo do Tempo Comum.

Reflexão para o IX Domingo do Tempo Comum

Pe. César Augusto dos Santos SJ

Cidade do Vaticano (RV) -   O tema da liturgia deste domingo enfoca o carinho de Deus por todos os homens, sejam seguidores da revelação judaico-cristã ou não. O importante é ter fé no Deus Vivo e Verdadeiro.

Na primeira leitura, extraída de 1Rs 8, 41-43, fica bem claro que o Povo de Israel tinha consciência de ser o povo escolhido, mas isso não era motivo para que somente suas súplicas fossem acolhidas, no Templo, pelo Senhor. Salomão faz uma bela oração naquele lugar sagrado e diz: “Senhor, escuta então do céu onde moras e atende todos os pedidos desse estrangeiro.”

No Evangelho de Lucas, no capítulo 7, versículos 7 a 10, Jesus age exatamente mostrando a misericórdia de Deus. Não importa se o pedido vem de um israelita ou de um estrangeiro, o que importa é que um ser humano suplica ao Senhor a cura de seu empregado. Mais ainda, esse estrangeiro mostra uma fé extraordinária no poder de Deus a ponto de dispensar a ida de Jesus à sua casa, pois sabe que para Deus basta querer para que alguém recupere a saúde ou algo seja mudado ou transformado, afinal, Deus é Deus! Essa atitude do estrangeiro foi louvada por Jesus exatamente por isso, por dar um salto qualitativo na fé. Se antes, na oração de Salomão aparecia a oração feita no Templo, agora fica claro que basta a fé no poder de Deus. A oração não só não precisa ser feita por um pertencente ao Povo de Israel, mas nem precisa ser feita no Templo de Jerusalém. Basta a fé no Deus Vivo e Verdadeiro.

Mas podemos tirar desse fato relatado por Lucas, outra lição. Deus dá maior importância à fé de quem suplica e não tanto à adequação de sua vida aos preceitos religiosos. O suplicante, um oficial romano, era um pagão. Apesar de ser um homem honesto e respeitoso para com os israelitas – até havia construído uma sinagoga para eles –, não havia se convertido, não havia feito a circuncisão e nem seguia os mandamentos de Moisés. Contudo, esse militar demonstra uma confiança radical em Jesus, no poder de Deus, que não se importa de modo público professar sua fé: “Senhor, ordena com tua palavra, e o meu empregado ficará curado”. Demonstra grande humildade: “Senhor, não sou digno de que entres em minha casa”. Mais ainda, nem se sentiu digno de ir ao encontro do Cristo, enviou alguns mensageiros para que, em seu nome, fizessem o pedido.

Qual a lição que levamos para o nosso dia a dia?

Deus quer que vivamos de acordo com seus mandamentos, de acordo com os preceitos que aprendemos quando fomos catequizados. Em uma ocasião Jesus disse que não veio abolir a Lei e nem mudar uma letra sequer. Mas só isso não basta, não faz levantar voo. O jovem rico cumpria todos os mandamentos, mas não foi capaz de largar tudo para seguir Jesus; o fariseu no Templo orava e agradecia a Deus por ele ser certo, honesto, correto com os preceitos religiosos, mas sua oração não foi ouvida porque ele atribuía tudo isso a si mesmo e se sentia orgulhoso por isso e desprezava o pecador publicano, que estava lá no fundo do Templo.

Devemos, antes de tudo, ter grande fé em Deus e sermos misericordiosos. Isso é o “plus”, o mais que o Senhor deseja de nós.
Neste Ano da Fé - proposto pelo Papa Bento XVI para o amadurecimento de nossa confiança em Deus, de nossa entrega total, radical ao Senhor -, a consciência de que Deus é Onipotente, que tudo pode; de que é Onisciente, que sabe tudo; e de que é Onipresente, que está em todo lugar; deverá atravessar nossa vida e nossas orações. Mas uma coisa nos falta ainda, é sabermos da radicalidade de Seu Amor por nós, de Sua Misericórdia, da grandeza de Seu Coração.
Somos chamados a sermos testemunhas vivas da fé no Amor de Deus para com todos os homens, sejam pecadores ou não, sejam cristãos ou não.

sábado, 25 de maio de 2013

EVANGELHO DOMINICAL: Santíssima Trindade (JO 16,12-15).


            


A Solenidade  que hoje celebrámos  não é um convite  a decifrar  a mistério  que se esconde por detrás de “um Deus em três pessoas”; mas é um convite a contemplar o Deus que é amor, que é família, que é comunidade e que criou os homens para os fazer comungar nesse mistério de amor.
A primeira leitura sugere-nos a contemplação do Deus criador. A sua bondade e o seu amor estão inscritos e manifestam-se aos homens na beleza e na harmonia das obras criadas (Jesus Cristo é “sabedoria” de Deus e o grande revelador do amor do Pai).
A segunda leitura convida-nos a contemplar o Deus que nos ama e que, por isso, nos, “justifica”, de  forma  gratuita  e  incondicional.  É  através  do  Filho  que  os  dons  de Deus/Pai se derramam sobre nós e nos oferecem a vida em plenitude.
O  Evangelho  convoca-nos,  outra  vez,  para  contemplar  o  amor  do  Pai,  que  se manifesta na doação e na entrega do Filho e que continua a acompanhar a nossa caminhada  histórica  através  do Espírito.  A meta  final  desta  “história  de amor”  é a nossa inserção plena na comunhão com o Deus/amor, com o Deus/família, com o Deus/comunidade.

 
ATUALIZAÇÃO

 
Considerar os seguintes desenvolvimentos:

O Espírito  aparece,  aqui,  como  presença  divina  na  caminhada  da  comunidade cristã, como essa realidade que potencia a fidelidade dinâmica dos crentes às propostas que o Pai, através de Jesus, fez aos homens. A Igreja de que fazemos parte tem sabido estar atenta, na sua caminhada histórica, às interpelações do Espírito? Ela tem procurado, com a ajuda do Espírito, captar a Palavra eterna de Jesus e deixar-se guiar por ela? Tem sabido, com a ajuda do Espírito, continuar em  comunhão  com  Jesus?  Tem-se  esforçado,  com  a  ajuda  do  Espírito,  por responder às interpelações  da história e por actualizar, face aos novos desafios que o mundo lhe coloca, a proposta de Jesus?

Sobretudo, somos convidados a contemplar o mistério de um Deus que é amor e que,  através  do  plano  de  salvação/libertação  do  Pai,  tornado  realidade  viva  e humana em Jesus, e continuado pelo Espírito presente na caminhada dos crentes, nos conduz para a vida plena do amor e da felicidade total – a vida do Homem Novo, a vida da comunhão e do amor em plenitude.

A celebração da Solenidade da Trindade não pode ser a tentativa de compreender e decifrar essa estranha charada de “um em três”. Mas deve ser, sobretudo, a contemplação de um Deus que é amor e que é, portanto, comunidade. Dizer que há três pessoas em Deus, como há três pessoas numa família – pai, mãe e filho – é afirmar três deuses e é negar a fé; inversamente, dizer que o Pai, o Filho e o Espírito são três formas de apresentar o mesmo Deus, como três fotografias do mesmo rosto, é negar a distinção das três pessoas e é, também, negar a fé. A natureza divina de um Deus amor, de um Deus família, de um Deus comunidade, expressa-se  na nossa  linguagem  imperfeita  das  três  pessoas.  O Deus  família torna-se trindade de pessoas distintas, porém unidas. Chegados aqui, temos de parar, porque a nossa linguagem finita e humana não consegue “dizer” o mistério de Deus.

As nossas comunidades  cristãs são, realmente,  a expressão  desse Deus que é amor  e  que  é  comunidade-  onde  a  unidade  significa  amor  verdadeiro,  que respeita a identidade e a especificidade do outro, numa experiência verdadeira de amor, de partilha, de família, de comunidade?

BILHETE DE EVANGELHO.

O pintor crente Roublev tentou mostrar, numa troca de olhares, a relação de amor que existe entre o Pai, o Filho e o Espírito: quando o Pai e o Filho se olham, cada um guarda a sua personalidade  e revela ao mesmo tempo a personalidade  do outro, e esta relação  de amor faz existir  o Espírito  que olha o Pai e o Filho, eles próprios deixando-se  olhar,  olhando  ao  mesmo  tempo  o  Espírito  de  Amor  que  faz  a  sua unidade. Muitas vezes basta um olhar para dizer muitas coisas, basta um olhar para dar de novo esperança, confiança e vida, basta um olhar para dizer “amo-te!” e ouvir dizer em eco: “amo-te!”

A Trindade é um intercâmbio de “amo-te!” Há unidade e, ao mesmo tempo, personalidades diferentes: cada um diz “amo-te!” e pode acrescentar “eu sou amado!” Tal é o segredo da sua existência e da sua eternidade. Mistério! Não por ser incompreensível, mas por, sem cessar, merecer ser melhor compreendido. E a Trindade não é o único mistério, a humanidade também o é, porque criada à imagem de Deus, homens e mulheres capazes de dizer “amo-te!” e capazes de dizer “eu sou amado!”

 
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O DOMINGO DA SANTÍSSIMA TRINDADE

(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

 
DAR LUGAR AO SILÊNCIO.

É sempre difícil falar da Trindade, de explicá-la, de descrevê-la… Daí a importância de prever algum (ou alguns) momento forte de interiorização e de adoração durante a celebração: depois da homilia… depois da comunhão… Dar espaço ao silêncio para que a Trindade ecoe em nós.

OLHAR JORNALISTICO ENTREVISTA -01: Frei Marcelo Aqui, 0.Carm.


SANTA MARIA MADALENA DE PAZZI. +1607


Frei Emanuele Boaga, O.Carm.
No século XVII o Mosteiro de Santa Maria dos Anjos em Florença é centro de fervorosa espiritualidade. Entre as várias pessoas que foram sublimes no caminho espiritual encontrados Santa Maria Madalena de’ Pazzi da qual se escreveu que “foi uma contemplativa eminentíssima ainda que não tenha uma doutrina sobre a contemplação e tão pouco sobre a meditação.” Ela vivia a CARIDADE para com Deus e o próximo, basca ler as suas obras. O trecho seguinte constitui uma série inteira de ensinamentos do que ela afirma sobre o “trato e a união com Deus.”
 
 
TRATO E UNIÃO COM DEUS
De: Santa Maria Madalena de Pazzi, “Ensinamentos
 
Mantende a vossa mente ocupada em Deus. “Esta ocupação em Deus me parece ser a bem-aventurança da alma na terra. Realmente e impossível pensar atualmente em Deus... mas estar sempre unida com Deus, tendo sempre a Ele em vista, isto é possível; porque se quando trabalhais para ele, quando vos fatigais, fatigai-vos para ele, para agradar a ele e dar a ele glória e para honrar a ele, isto e estar sempre unida a Deus.” Diz que com o conhecia mento de Deus faremos com ele uma estreita amizade e ele nos trata como seus íntimos; então nos e ele faremos como fazem os amigos Íntimos. “Em primeiro lugar os amigos se contemplam um ao outro com grande amor... assim faz Deus que nos olha continuamente coro grande amor: e nos olhamos a ele... Os amigos costumam contarem-se mutuamente os seus segredos; assim Deus manifesta a eles todos os seus segredos e eles manifestam a Ele os seus por não confiar em outros senão n’Ele.”
O amor também ao próximo e o fim da contemplação e a Santa via nesta chave o fim da Ordem: “Nos somos chamados a cousas maiores, somos chamados a uma vida maior, a qual não é de Marta nem de Maria separadas, porque no amor estão contidas umas e outra juntas.
Para ela o espírito da Ordem é “amar tudo e levar a amar, observando principalmente quanto isto agrada a Deus e quanto importa atender as obras internas e tratar interiormente com Deus”, como é prescrito na Regra Carmelitana, na redação da qual “os santos padres... tiveram mais atenção para a perfeição interior do que para a penitência e cousas externas.” “Eu vejo a meu Deus! ... Ele tem duas línguas... uma das quais é o louvor de Deus e a outra é a caridade e as duas clamam ao mesmo tempo. O que estou a ouvir, meu Senhor? A uma me obriga a minha profissão e a outra tu me a mandas estritamente. Ela procurava observar ambas.
Do seu mosteiro, que ela chama de “habitação de Maria”, nos diz que Deus quer “que assim como Maria foi um meio entre Deus e o homem, nos sejamos meio entre este Deus e o homem pelo zelo e desejo contínuo de ajudar as almas e conduzi-las a Deus”... Estar separadas do mundo, mortas viver em Deus, nada querer a não ser este Deus, em ansioso e contínuo desejo da salvação das almas.
“A alma unida a Deus fica toda amarrada por dentro e por fora o que a faz aparecer com semblante sereno sem jamais perturbar-se por qualquer contingência”. “Em tudo o que tende a fazer, seja interna ou externamente, lembrai-vos de vos voltar para Deus com olhares vivos e amorosos. Com tais olhares amorosos implorai o socorro das suas graças”.
“As obras exteriores devem ser feitas prontamente e com cuidado sem perda de vida interior”. “A oração é o espírito da religião, nas nunca ela deve servir de pretexto para qualquer dispensa, porque todos os exercícios da religião e da obediência, feitos na presença de Deus, são outras tantas orações.” A paz interior e um efeito da oração mental e é uma recompensa da união com Deus. “A verdadeira prudência dum religioso ou duma religiosa depende da íntima união que tem com Deus. E todos os nossos esforços e zelos devem originar-se do Sangue de Jesus Cristo.” Alem disto anota: “Se não gostais do doce silêncio é impossível deleitar-vos nas cousas de Deus”.
 
VEM, Ó ESPÍRITO SANTO
Das Obras de Santa Maria Madrilena de Pazzi
 
Vem,
Espírito de Verdade, Luz das trevas. Riqueza dos pobres,
Consolação dos Peregrinos.
Oh! Vem, Tu, refrigério, alegria e alimento de nossa alma.
Oh! vem e toma aquilo que e meu e infunde em mim somente aquilo que e teu.
Oh! vem, Tu que és alimento de cada pensamento puro,
plenitude de toda a bondade e cumulo de toda pureza.
Oh! vem, e queima em mim tudo aquilo que impede que eu seja, tomada por Ti
Oh! vem, Espírito que estas sempre com o Pai e com o Esposo, Jesus Cristo!

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 334. Não vou falar de Jesus Cristo.

CARMELITAS DESCALÇOS: Frei Jerônimo Gracián de la Madre de Dios, OCD.


Por Frei Emanuele Boaga, O.Carm. Institutum Carmelitanum. Roma, 27 de junho de 2003.

            

           No cenário das origens do Carmelo Teresiano uma figura tem suscitado, nos últimos anos, um grande interesse em razão do seu papel decisivo na reforma do Carmelo ao lado de Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz. Trata-se de Jerônimo Gracián de la Madre de Dios, nascido em 1545 em Valladolid. Já sacerdote, entrou em 1572 na família teresiana em Pastrana e muito se empenhou em sua difusão.
Sendo uma pessoa gentil, fascinante e cortês, tornou-se pouco a pouco o homem mais importante da reforma, à qual serviu com todo o ardor de sua alma, guiado e sustentado por Santa Teresa de Jesus. A sua vastíssima atividade em Castilha, Andaluzia e Portugal conheceu altos e baixos. Depois da morte de Santa Teresa, sua situação na Ordem mudou rapidamente. Dela foi expulso por divergências surgidas entre ele e o Pe. Nicolau Dória sobre o modo de considerar a vocação carmelitana na fidelidade à reforma teresiana.
Foi aprisionado por piratas turcos e levado para Tunísia; é incrível o quanto fez e sofreu durante os dois anos de sua prisão. Em seus pés foi impresso, com ferro quente, o sinal da cruz para que por toda a vida a pisasse. Inclusive esteve a ponto de ser queimado vivo. Resgatado por alguns amigos espanhóis, recuperou a liberdade. Após provar sua inocência em Roma retornou ao Carmelo, mas na Antiga Observância. Fixou-se em Bruxelas na Bélgica, onde morreu no mesmo ano em que foi beatificada Santa Teresa (1614).
            No passado, a historiografia tratou de modo injusto este grande carmelita, diminuindo a sua verdadeira contribuição para a reforma, e lhe atribuindo defeitos que na realidade não tinha. Cerca de vinte anos atrás começou a desenvolver-se uma ampla revisão de sua vida e das suas atividades, tendo como base uma releitura da abundante documentação de notável valor histórico pesquisada meticulosamente nos arquivos. Mesmo que esta documentação ainda não tenha sido totalmente analisada, as conclusões dos estudos nos últimos anos estão levando, com mais embasamento na realidade histórica, a uma maior valorização da personalidade e da atividade deste filho e discípulo predileto de Santa Teresa de Jesus. Em consequência disto, o Conselho Geral do Carmelo Teresiano no dia 15 de dezembro de 1999 declarou oficialmente a reabilitação do “colaborador fiel e incansável da nossa santa madre Teresa” e revogou a sentença de sua expulsão da Ordem.
            Neste contexto deu-se uma maior atenção aos numerosos escritos, maiores e menores, do Pe. Gracián, com publicações no original e traduções em várias línguas. Entre estas obras gracianas, importantes sobretudo para o conhecimento da origem e dos primeiros desenvolvimentos do Carmelo Teresiano, a mais famosa e conhecida é sem dúvida a Peregrinación de Anastasio. Nesta obra de forte caráter autobiográfico, estão narrados pelo próprio Pe. Gracián, que foi um dos protagonistas, os inícios do caminho da reforma dos Descalços, as primeiras fundações e a sua posterior difusão, que conheceu não só sucessos, mas também lutas e adversidades numa época rica de acontecimentos políticos-religiosos. Nesta obra autobiográfica Gracián redigiu em 1612, sob a forma de uma Carta a um amigo, uma breve síntese, que no presente livrinho é oferecida pela primeira vez em tradução portuguesa, feita com esmero pelo Carmelita Secular o professor José Alberto Pedra, ao qual se deve também as precisas notas ilustrativas e explicativas.
            Quero parabenizar o professor Pedra por este empreendimento, desejando-lhe também que possa em breve completar a tradução portuguesa da Peregrinación de Anastasio. Tenho certeza de que a presente publicação ajudará a admirar sempre mais a figura do Pe. Jerônimo Gracián, o incomparável colaborador de Santa Teresa de Jesus.

terça-feira, 21 de maio de 2013

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 330. Poder e Serviço.

Não tenhais medo! Da dificuldade de construir a ‘nova paróquia’

Paulo Suess, Missiólogo e assessor teológico do Cimi

Em sua 51ª Assembleia Geral, realizada de 10 a 19 de abril de 2013, em Aparecida, a CNBB aprovou "um texto de estudo” que lembra tópicos herdados dos documentos de Puebla, Santo Domingo e Aparecida (cf. P 644, SD 58, DAp 99e, 170, 179, 309): "Comunidade de comunidades: uma nova paróquia”. Como herança e imperativo de Puebla, Santo Domingo e Aparecida, a paróquia "comunidade de comunidades” foi genericamente assumida nas "Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, 2011-2015” (DGAE, n.99) que consideram ser "urgente que a paróquia se torne, cada vez mais, comunidade de comunidades vivas e dinâmicas de discípulos missionários de Jesus Cristo”. Agora, a 51ª Assembleia Geral procurou através da assunção contextualizada de um novo comunitarismo, na contramão do individualismo da época, construir "uma nova paróquia”.
O texto discutido na CNBB "tem por finalidade suscitar reflexões, debates e revisões da prática pastoral” no intuito de iniciar um "processo de construção da nova paróquia” (n. 5). O texto não foi pensado como ponto de partida para a construção de um novo documento da CNBB com a participação das bases paroquiais, mas como um modelo que, na prática pastoral, deve ser adaptado "aos diferentes contextos”. Dessa adaptação vai depender, assim reza a Introdução, o "êxito” da construção dessa nova paróquia (n. 5).
Algo semelhante aconteceu no começou do Vaticano II (1962). A Cúria Romana preparou textos e os bispos do mundo inteiro deveriam aceitar esses textos e adaptá-los às suas realidades. Mas os padres conciliares não aceitaram esse método. Provavelmente havia um mal-estar semelhante no setor maioritário da 51ª Assembleia de Aparecida, quando decidiu dar mais um tempo para transformar um "Caderno Amarelo” ou "Verde” em "Documento Azul”. Resta saber se o trabalho das bases é apenas fazer um novo arranjo de flores que já foram cortadas ou se é possível levar cestos de flores do campo ao santuário de Aparecida por ocasião da próxima Assembleia da CNBB.
1. Opção metodológica
Supõe-se que o envio do texto às bases é, em primeiro lugar, um envio ao povo de Deus e não aos assessores do povo de Deus. Segundo, que o texto não foi enviado para ser confirmado, mas para ser discutido e renovado. A partir dessas suposições, a primeira pergunta às comunidades deveria ser: "Vocês querem que se trabalhe as reflexões sobre a nova paróquia na moldura do método indutivo ou dedutivo?” A diferença entre os dois métodos e seu impacto sobre o conteúdo são grandes. Sinteticamente poder-se-ia dizer: O método dedutivo aplica princípios gerais aos contextos e sua realidade concreta. Faz 42 anos, que Paulo VI nos lembrou em sua Carta Apostólica Octogesima adveniens(14.5.1971), que não basta recordar os princípios, afirmar as intenções, fazer notar as injustiças gritantes e proferir denúncias proféticas; estas palavras ficarão sem efeito real, se elas não forem acompanhadas, para cada um em particular, de uma tomada de consciência mais viva da sua própria responsabilidade e de uma ação efetiva (AO 48,2).
O método indutivo procura, a partir da realidade concreta em que o povo vive, a partir da realidade contextual e histórica, a partir das causas de estruturas paroquiais caducadas, construir novos modelos comunitários que serão sempre submetias a novas experiências.
O texto da CNBB tem quatro capítulos: perspectivas bíblica (1), teológica (2), pastoral (4). Só no terceiro capítulo entra a realidade com uma reflexão sobre "novos contextos: desafios à paróquia”. Como as reflexões bíblicas e teológicas precedem os novos contextos e desafios paroquiais, não podem responder a esses contextos e desafios. É uma opção metodológica aquém do DAp. Aparecida traz já na primeira parte o "olhar dos discípulos missionários sobre a realidade” sociocultural, econômica, sociopolítica, étnica, ecológica (33-97) e eclesial diante de desafios novos e herdados [98-100]. Segundo Aparecida, a missão dos discípulos missionários nessa realidade é sempre implícita ou explicitamente uma missão evangelizadora, integral, específica, contextual e universal que nos conduz "ao coração do mundo”, onde abraçamos "a realidade urgente dos grandes problemas econômicos, sociais e políticos da América Latina e do mundo” (148).
O texto da CNBB, que propõe para a construção da nova paróquia "ter diante de nós [...] o próprio Jesus e sua maneira de suscitar, organizar e orientar a vida em comunidade” (n. 3), comete um equívoco histórico e mostra como o método dedutivo, por vezes, se aproxima ao fundamentalismo. Nesse caso, a reflexão bíblica não responde aos desafios posteriormente apontados nem apoia a "conversão pastoral” (DAp 370) almejada. A cristologia das entrelinhas se tornar jesulogia.
2. A tradição metodológica recente
A cura do cego, nos evangelhos sinóticos, é o último e mais significativo sinal de Jesus. Antes de aderir ao Caminho precisa vê-lo. O papa João XXIII autorizou e assumiu o método indutivo em sua Carta Encíclica Mater et magista (1961), onde escreve: "Para levar a realizações concretas os princípios e as diretrizes sociais, passa-se ordinariamente por três fases [...]. São os três momentos que habitualmente se exprimem com as palavras seguintes: ver, julgar e agir” (MM 232). É o método do aggiornamento, das portas abertas, do serviço à humanidade. A Constituição Pastoral Gaudium et spes assumiu o discurso indutivo, partindo da vida concreta da humanidade, de suas alegrias e esperanças, tristezas e angústias (cf. GS 1). A transformação da paróquia tem que levar em conta essa "vida concreta da humanidade”, seus horários e itinerários, seu lazer e trabalho, seus espaços de vida e suas redes de comunicação.
Em sua Encíclica Ecclesiam suam (n. 27), Paulo VI assume o discurso do aggiornamentode João XXIII "como orientação programática”. Na última sessão do Concílio, o papa respondeu ao setor que acusou o método indutivo do Concílio de ter desviado o foco teológico das matérias tratadas para um foco antropológico:
Desviado, não; voltado, sim. Mas quem observa honestamente este interesse prevalente do Concílio pelos valores humanos e temporais, não pode negar que tal interesse se deve ao carácter pastoral que o Concílio escolheu como programa, e deverá reconhecer que esse mesmo interesse jamais está separado do interesse religioso mais autêntico, devido à caridade que é a única a inspirá-lo (7.12.1965).
Sem análise da realidade da paróquia contemporânea e da vida das pessoas que vivem nos condicionamentos dessa realidade, a reflexão bíblica e teológica representam justaposições, oferecendo o verniz de ideais e princípios passado por cima das estruturas obsoletas. Aliás, o método indutivo é inclusive uma alternativa evangélica ao sistema capitalista, que impõe regras e metas a partir de uma matriz central para facilitar a criação de uma monocultura colonizadora supervisionada por capatazes que administram filiais.
O pensamento indutivo dá voz de intervenção à realidade concreta. Não teríamos que assim interpretar o gesto do papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude, no Rio, que, antes de falar aos jovens, visita o Hospital São Francisco de Assis que se dedica à recuperação de dependentes químicos e indigentes. Antes de dar orientações programáticas, o papa se reúne com a Comunidade da Varginha que faz parte de uma grande favela e com cinco jovens detentos. A "conversão pastoral” vai depender dessa voz da realidade que interfere sobre nosso discurso.
Na construção de um texto sobre a "nova paróquia” precisamos não só permitir, mas pedir e incentivar a participação das comunidades. Como transformar as estruturas comunitárias que existem nas igrejas, nos diferentes conselhos e nos sínodos, por exemplo, de instâncias consultivas em instâncias deliberativas? Como transformar estruturas de supervisão, de visitas rápidas e horas marcadas em estruturas de presença inculturada? O povo prefere, às vezes, um pastor tocável a um padre Fórmula 1. Essas perguntas configuram projetos e a metodologia do próprio texto poderia ser um exemplo para a construção da "nova paróquia” que será participativa, decentralizada e missionária.
3. A paróquia missionária
O método dedutivo do texto debatido na Assembleia da CNBB não corresponde às exigências da "nova paróquia” que precisa tomar as suas decisões a partir da realidade concreta e não a partir de princípios abstratos que não funcionaram. Se tivessem funcionado não refletiríamos, nesse momento, sobre a "nova paróquia”. A "conversão pastoral” é exatamente a transformação de uma pastoral dedutiva, concentrada na mão do pároco que considera as comunidades suas filiais com franquias padronizadas, em pastoral indutiva.
Desde os anos 60, essa "conversão pastoral” já está em andamento. Não precisamos inventar a roda, mas dar uma força institucional para fazer girá-la "em comunhão e participação”. Quantos de nós, leig@s, religios@s e sacerdotes não conhecem essas comunidades de comunidades nas quais aprofundamos a nossa fé com a fé do povo de Deus, ampliamos nosso horizonte de vida com o sofrimento dos pequenos e fortalecemos nossa esperança ao consolar os desesperados! À maioria dos agentes pastorais não faltam virtudes. Às vezes faltam e faltaram critérios na avaliação de sua vocação, faltam tempo e paciência para viver seu ministério no meio do povo, falta compreensão na administração de conflitos e mudanças.
Temos que fazer ressoar a mensagem do Ressuscitado: "Alegrai-vos! Não tenhais medo!” (Mt 28,9.10). Não tenhais medo de dizer às comunidades: "Vocês são Igreja plena e nós, agentes de pastoral, sobretudo os bispos, nos empenhamos que essa plenitude não seja apenas espiritual ou virtual, mas também sacramental”. As comunidades querem uma pastoral integral, nem "uma pastoral de conservação, baseada numa sacramentalização com pouca ênfase na prévia evangelização” (Medellín, 6,1.2), nem uma pastoral sem "a participação plena na Eucaristia dominical” (DAp 253, cf. 149), já que "a Eucaristia é o lugar privilegiado do encontro do discípulo com Jesus Cristo” (DAp 251) e o viático do missionário peregrino.
"Não tenhais medo” de dizer ao povo: para que essa plena participação na Eucaristia aconteça, existem, na Igreja Católica, dificuldades na compreensão da competência sacramental. Mas existe também o imperativo da lei suprema que representa o último Artigo (cf. Cân. 1752) do Direito Canônico: "A salvação das almas deve sempre ser a lei suprema”. Em função dessa "lei suprema” e da "comunidade de comunidades” precisamos repensar o tratado sacramental que se formou, basicamente, no tempo pós-apostólico e medieval. Ao menos precisamos explicar onde estão as dificuldades, as possibilidades e impossibilidades de avançar na discussão sobre os "viri probati” que parou logo depois do concílio.
Desde as origens da cristandade, o grande desafio pastoral, que é o pivô da "comunidade de comunidades missionárias” foi transformar os cristãos culturais e tradicionais em discípulos missionários. O processo de urbanização, a volatilidade religiosa pós-moderna e a estrutura ministerial inadequada à realidade pastoral, associados a muitos outros fatores, produziram, na América Latina e no Caribe, uma redução dos católicos e presbíteros em números absolutos (DAp 100a).
A precariedade numérica faz repensar a riqueza da "natureza missionária” do povo de Deus. Como deixar aflorar essa "natureza missionária”, aprisionada por estruturas institucionais? Como abrir os olhos dos batizados para a realidade do continente e do mundo, e chamá-los à sua responsabilidade (DAp 14, 33)? A realidade interpela aos cristãos e seus pastores; cobra coerência com as promessas e os imperativos do Evangelho e "um compromisso com a realidade” (DAp 491).
A análise foi feita por Aparecida. O texto sobre a "nova paróquia” não precisa repetir as análises, mas coloca-las no chão concreto das comunidades. Não tenhais medo de receber respostas ou propostas inesperadas das comunidades! Onde encontram-se exemplos dessa missionariedade? Não vamos dar respostas à perguntas que não existem! Não vamos proibir temas sobre os quais não se pode falar! Deixemos as comunidades falar sobre as estruturas paroquiais caducadas e sonhar com a "nova paróquia”! A novidade da paróquia será a sua missionariedade como paróquia samaritana e advogada da justiça dos pobres. Essa missionariedade perpassa todos os planos pastorais, o livro de caixa, a formação dos agentes. Ela é vivida a partir de pequenas comunidades que aprofundam sua fé na leitura da palavra de Deus, celebram sua vida na Eucaristia e, ao anunciar a proximidade do Reino, procuram seguir Jesus, na responsabilidade para com o mundo além de qualquer fronteira (urbi et orbi), capaz de se converter, de perdoar e de curar as feridas da humanidade (cf. Mc 1,15; RMi 14,2).
4. Horizonte metodológicos – Quatro passos
1.VISÃO: levantamento da realidade da paróquia e do povo com o povo.
2.PARTICIPAÇÃO: estruturar e discutir esse levantamento com lideranças que estão em processo de formação permanente.
3.COMUNHÃO: construção das comunidades com as lideranças bem esclarecidas sobre metodologia e objetivos.
4.MISSÃO: anúncio do Reino aos pobres, conversão, perdão, cura real e/ou simbólica das feridas da humanidade. Da MISSÃO, o discípulo missionário traz sempre uma VISÃO mais profunda da realidade. O processo metodológico é de uma espiral, não de um círculo.