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sábado, 14 de fevereiro de 2015
CARNAVAL-2015: O Sorriso de Deus no rosto dos pobres-01
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Artigos do Frei Petrônio de Miranda
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CARNAVAL-2015: O Grito de Castro Alves.
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Artigos do Frei Petrônio de Miranda
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Campanha da Fraternidade de 2015: Igreja e Sociedade.
Servir a partir do injustiçado e de jeito libertador.
Frei Gilvander Luís Moreira[1]
1.
Iniciando a reflexão.
Realizada
desde 1964, há 51 anos, com o tema “Fraternidade:
Igreja e Sociedade” e lema “Eu vim para servir” (cf. Mc 10, 45),
a Campanha da Fraternidade de
2015 (CF/15) objetiva animar a
vocação e missão de todas as pessoas cristãs e das comunidades, a partir do que
propõe o Concílio Ecumênico Vaticano II (1962 a 1965): Igreja povo de Deus,
ecumenismo, inculturação e profecia.
Os
Temas e Lemas das Campanhas da Fraternidade já realizadas contribuíram muito
para colocar na pauta da política e das forças vivas da sociedade brasileira grandes
injustiças que se tornaram clamores ensurdecedores. Para refrescar a memória,
citamos: CF/74: Onde está o teu irmão?; CF/75: Repartir o pão, logo após o
milagre econômico de 1973, denunciava ricos cada vez mais ricos à custa de
pobres cada vez mais pobres; CF/78: Trabalho e Justiça para todos; CF/79: sobre
Ecologia, com o lema “Preserve o que é de todos”; CF/80: sobre Migrantes, com o
lema “Para onde vais?”; CF/81: Saúde para todos, o que contribuiu para a
criação do SUS em 1988; CF/83: Fraternidade, sim; Violência, não; CF/85: Pão
para quem tem fome; CF/86: sobre a terra, com o lema “Terra de Deus, terra de
irmãos”, contribuiu para legitimar a atuação da Comissão Pastoral da Terra, do
MST, recém criado, e fez nascer dezenas de movimentos sociais do campo; CF/87:
sobre crianças abandonadas, com o lema “Quem acolhe o menor a mim acolhe”. Essa
foi imprescindível na criação do Estatuto da Criança e do Adolescente em 1991; CF/88:
sobre Os Negros, com o lema “Ouvi o clamor desse povo”, fez surgir e fortalecer
o Movimento Negro, movimento popular de luta contra o racismo; CF/89, “Comunicação
para a verdade e a paz” denunciou a concentração do poder midiático (mídia) em
poucas nas mãos; CF/90: contra o machismo e o patriarcalismo, com o lema “Mulher
e Homem, imagem de Deus”; CF/91, Solidários na dignidade do trabalho; CF/92 e
CF/13: sobre a Juventude, denunciando o extermínio de jovens pelo tráfico,
violência social etc; CF/93: sobre Moradia, com o lema “Onde moras?”, fez
surgir inúmeros movimentos de luta por moradia; CF/95: sobre os Excluídos, com
o lema “Eras tu, Senhor?” fortaleceu o Movimento Nacional do Povo de Rua e a
Pastoral do povo de rua; CF/96: sobre Política, com o lema “Justiça e Paz se
abraçarão”, fortaleceu o Movimento que luta por ética na Política Partidária; CF/97:
Os encarcerados, acolhendo os gritos dos milhares de presos e denunciando que eles
estão submetidos a situações degradantes e desumanas em prisões superlotadas;
CF/98: Educação, o que ajudou a legitimar a luta por educação pública de
qualidade; CF/99: Desemprego, com o lema “Sem trabalho, por quê?”; CF/01: sobre
Drogas, com o lema “Vida, sim; drogas, não”; CF/02: sobre Povos Indígenas, com
o lema “Por uma terra sem males”, contribuiu para o surgimento e fortalecimento
de inúmeros movimentos indígenas; CF/03: sobre Pessoas idosas, contribuiu para
a Criação do Estatuto do Idoso em 2003; CF/04: sobre A água, com o lema “Água,
fonte de vida”; CF/06: Pessoas com deficiência; CF/07: sobre Amazônia; CF/09:
sobre Segurança Pública, com o lema “A paz é fruto da justiça”; CF/10: Economia,
questionando com veemência o modelo econômico capitalista-neoliberal e
apontando a necessidade e justeza de fortalecermos a Economia Popular Solidária;
CF/11: Vida no Planeta, com o lema “A criação geme em dores de parto”, refletiu
sobre a crise ecológica mundial; CF/12: sobre Saúde Pública; CF/14: sobre Tráfico
humano.
Subsidiando
a vivência da Opção pelos pobres, o Texto Base da CF/2015 está organizado em
quatro partes. No primeiro capítulo são apresentadas reflexões sobre “Histórico
das relações Igreja e Sociedade no Brasil”, “A sociedade brasileira atual e
seus desafios”, “O serviço da Igreja à sociedade brasileira” e “Igreja –
Sociedade: convergência e divergências”.
2.
Bases bíblicas e teológicas para a CF/15:
Fraternidade e Sociedade, com o Lema “Eu vim para servir”.
Não
esqueçamos: Javé, o Deus solidário e libertador, optou pelos pobres, ao ouvir o
clamor dos oprimidos e descer para libertá-los (Cf. Ex 3,7-10) das garras do
imperialismo dos faraós do Egito. As profetisas e os profetas da Bíblia fizeram
opção pelos injustiçados ao denunciar as injustiças dos fazendeiros, do sistema
monárquico, o ritualismo de muitos sacerdotes, ao desmascarar os falsos
profetas, aqueles defensores da Teologia da Prosperidade. Optaram pelos
empobrecidos ao consolar os aflitos (cf. Is 43,1-5) e ao incomodar os chefes da
nação, como o profeta Miquéias que profetizou: “Ouvi, peço-vos, chefes e príncipes, vós que odiais o bem, e amais o
mal, que arrancais a pele de cima dos pobres, e a carne de cima dos seus ossos.
E que comeis a carne do meu povo, e lhes arrancais a pele, e lhes esmiuçais os
ossos, e os repartis como para a panela e como carne dentro do caldeirão
(Miq 3,1-3).”
Jesus
de Nazaré optou pelos empobrecidos indo da solidariedade à luta pela justiça, o
que lhe custou condenação à morte pelos podres poderes da época. Jesus anunciou
e testemunhou um projeto de libertação integral. Em seu programa consta
libertação política (libertação dos presos), social e econômica (evangelizar os
pobres), restituição da visão (libertação ideológica), e “espiritual”
(proclamação do Ano de Graça do Senhor). Isso em Lc 4,16-21, onde Jesus resgata
o Jubileu Bíblico, que cultiva a utopia de reviver
a experiência de fraternidade das origens camponesas, do tempo do deserto; recomeçar tudo de novo a partir dos
oprimidos; refazer a História a
partir dos injustiçados; resgatar as
identidades que humanizam; conquistar
justiça para os injustiçados a partir deles; redistribuir as terras dando-lhes função social; perdoar as dívidas interna e E(x)terna;
redistribuir riquezas e rendas; restituir os direitos roubados, voltar
a conviver de modo fraterno com a nossa mãe Terra, que é nossa única casa.
As
primeiras comunidades cristãs se organizaram a partir das casas (Oikia, em grego), comunidades locais,
onde buscavam vivenciar um projeto coletivo para o bem comum de todos (At
2,42-47). Ao invés de acumular, partilhavam tudo o que tinham, o que sabiam,
seus problemas e buscas comunitárias. Ao longo da História dos cristianismos “144
mil” foram martirizados, porque ousaram ser luz que incomoda o mundo de trevas
dos sistemas que moem vidas, foram sal na terra incomodando a comida e se
fizeram fermento que causa coceira na massa (cf. Mt 5,13-16).
Sob
inspiração do Concílio Vaticano II e das Conferências dos bispos da América
Afrolatíndia (1ª no Rio de Janeiro, 1950; 2ª em Medellín/Colômbia, 1968; 3ª em Puebla/México,
1979; 4ª em Santo Domingos/República Dominicana, 1992; e a 5ª em Aparecida/Brasil,
2005), a Igreja Povo de Deus, reunida nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)
e nas Pastorais Sociais, com o respaldo e inspiração da Teologia da Libertação,
milhares de pessoas cristãs doaram suas vidas na luta por reforma agrária,
reforma urbana, em defesa dos Direitos Humanos e demonstraram compromisso com a
construção de uma sociedade justa e solidária. Uma multidão de mártires ao
longo de 514 anos de história de opressão no Brasil. Citamos alguns: Frei
Caneca, Padre Henrique, Padre Ezequiel Ramin, Padre Josimo Tavares, Chico
Mendes, Santo Dias, Margarida Alves, padre Gabriel, Irmã Dorothy Stang, Dom
Oscar Romero, Eloy Ferreira, cristãos que se engajaram em sindicatos dos
trabalhadores, no MST, na CPT, no CIMI, em muitos movimentos sociais populares
e inúmeras pessoas anônimas que ao se posicionar contra as violências foram
eliminadas fisicamente. Foram mortas, assim como o Galileu de Nazaré, mas estão
ressuscitadas na luta. O exemplo de luta nos anima a seguir lutando
coletivamente sendo luz, sal e fermento na sociedade.
2.1.Pressuposto básico teológico: Deus na história e o
divino no humano.
O
Deus do cristianismo é um Deus da história, quer dizer, age nas entranhas dos
fatos e dos acontecimentos. O Deus da vida, mistério de infinito amor, não faz
mágica. Desde que Deus, por infinito amor à humanidade, se encarnou-se, o
divino está no humano.
O
Concílio de Calcedônia, no ano de 451, reconheceu Jesus Cristo com “natureza” divina
e humana. O apóstolo Paulo reconhece que Jesus é o Cristo, filho de
Deus, mas “nascido de mulher” (Gal 4,4), ou seja, humano como nós desenvolveu
seu infinito potencial de humanidade. “Jesus, de tão humano, se tornou divino,”
dizia o papa João XXIII.
“Não é ele o filho de Maria e Jose?”. Progressivamente, na
Galileia, Samaria e Judéia, Jesus se revela, à primeira vista, em aparentes
contradições, mas, no fundo, com tal equilíbrio que chama a atenção de todos.
Assim, ele testemunha que Deus é mais interior a nós do que imaginamos. A
mística “encarnatória” revela a pessoa humanamente divina e divinamente humana.
“Quem me vê, vê o Pai”.
Jesus,
antes de se tornar mestre, foi discípulo. Antes de ensinar, aprendeu muito com
muitos: com Maria e José, com o povo da sinagoga, com os vizinhos, amigos, com
os acontecimentos históricos, com a natureza etc.
Somos
discípulos/as de Jesus Cristo, um jovem camponês, da periferia, que foi condenado
à pena de morte pelos podres poderes da política, da economia e da religião.
Somos discípulos/as de um mártir. Feliz quem não esquece a vida, o testemunho e
o ensinamento dos mártires.
Destemido, o Galileu de Nazaré vai enfrentando todas
as perseguições, convicto de que é profundamente amado pelo Pai – Deus,
mistério de infinito amor que nos envolve – e que é amado e reconhecido pelos
oprimidos e injustiçados.
Jesus não está mais na fase da priorização das ações
de solidariedade. Ele, na convivência com os empobrecidos e lendo os sinais dos
tempos e dos lugares, adquire a clareza de que o sofrimento que se abate sobre
o povo é causado principalmente pelo imperialismo romano, pelos saduceus
(grandes latifundiários da época que praticavam uma religião da Teologia da
Prosperidade), pelos que comandavam o poder religioso, tipo padroado, que fazia
sacerdotes privatizarem na prática o sistema de saúde ao cobrarem para atestar
curas e, assim, excluíam os pobres, os doentes, as mulheres e os estrangeiros
com a famigerada lei da pureza e da impureza, que dizia: Quem é rico e sadio é
abençoado por Deus. Quem é pobre e doente é porque é pecador e Deus está
castigando. Assim, privatizando Deus, faziam terrorismo religioso. Jesus, pelo
seu ensinamento e práxis, vai questionando tudo isso e, consequentemente,
atraindo sobre si a ira de todos os que se beneficiavam com o sistema opressor
muito bem entrosado nos poderes político, econômico e religioso.
2.2- Tarefas emancipatórias que a Dimensão Social da Fé
Cristã exige de nós.
A
Campanha da Fraternidade de 2015 – Fraternidade e sociedade – quer fortalecer a
Dimensão Social da Fé Cristã, que, com os movimentos espiritualistas,
volatilizadores e desencarnadores da fé cristã, anda meio atrofiada em muitos
ambientes religiosos. Vamos elencar na reflexão, abaixo, uma série de tarefas
que julgamos decorrer da Dimensão Social da Fé Cristã.
2.2.1 – Promover libertação integral.
Uma
das tarefas das pessoas cristãs é lutar pela libertação integral das pessoas e
de tudo e não apenas por libertação espiritual. No programa de Jesus, em Lc
4,16-21, consta uma libertação política (“libertar os presos”), social e
econômica (“anunciar uma boa notícia aos pobres”), libertação ideológica
(“restituir a visão”, e espiritual (“proclamar o Ano de Graça do Senhor”).
Assim, Jesus resgata o Jubileu Bíblico (Lev 25,8-12). No ano do Jubileu,
toca-se o “berrante” (em hebraico “sofar”),
que acontece no primeiro ano após sete vezes sete anos. Neste Jubileu, todas as
dívidas devem ser perdoadas; todas as terras devem voltar ao primeiro dono (aos
ancestrais); todos os escravos devem ser libertados. Enfim, é tempo de se fazer
uma reorganização geral na sociedade; tempo para recriar as relações humanas
com fraternidade, justiça, solidariedade libertadora, reconciliação e novos
sonhos.
2.2.2 – Acreditar na ortopráxis.
Outra
tarefa é defender uma ortopráxis (= testemunho libertador), não uma ortodoxia
(= opinião certa). O que de fato faz diferença não é tanto o que a gente pensa
ou em que acreditamos, mas o que fazemos (ou deixamos de fazer). É hora de
compromisso com o modelo de Igreja querido pelo papa Francisco: Igreja popular,
justa e misericordiosa. Urge compromisso com outro projeto de sociedade, que
seja justo, ecumênico e sustentável ecologicamente.
2.2.3 - Rever conceitos.
Verdade
não é adequação de um conceito a um objeto. Isso é verdade formal. “Verdade é o
que liberta todos e tudo”, diz o quarto evangelho da Bíblia. A verdade deve ser
buscada conjuntamente. Ninguém é dono da verdade. Verdade como o que liberta
deve ser buscada a partir dos pobres (últimos, pequenos,
discriminados): pobre, excluído, sem terra, indígenas, negros, pessoas com
deficiências, idosos, desempregados, homossexuais, mãe terra, irmã água,
favelados, vítimas da violência etc.
É
hora de perceber que a coisa mais sagrada é também profana. Profanar é retirar
do uso exclusivo para dar acesso a todos. Pro-fanar vem do verbo grego faneo, que quer dizer “brilhar”. Ou
seja, que o brilho do sagrado seja estendido a todos sem distinção e sem
nenhuma discriminação. É hora de gritar “Não a todo e qualquer dualismo!” Não
há separação entre espiritual e material, entre sagrado e profano, entre divino
e humano, entre santo e pecador, entre puro e impuro etc. Tudo está intimamente
relacionado.
Jesus
não morreu na cruz porque Deus quis, mas foi condenado à pena de morte pelos
podres poderes político-econômico e religioso.
Jesus
doou sua vida por todos e tudo. Jesus testemunha um caminho de salvação, porque
nos amou demais e não porque sofreu demais.
Jesus
tornou-se Cristo, pois conseguiu desenvolver o infinito potencial de humanidade
que cada pessoa traz consigo ao chegar a este mundo. “Jesus foi tão humano, tão
humano, que só podia ser Deus”, disse o papa Paulo VI.
Milagre
não é algo fruto de um poder extraordinário que está acima do humano. Milagre é
uma maravilha de Deus, conforme diz o Primeiro Testamento da Bíblia. Milagre é
um gesto solidário e libertador de Deus agindo nas entranhas da história.
Deus
não é juiz, pois Deus é amor. O único poder que Deus tem é o poder do amor, que
é de fato o que constrói.
Deus
não é transcendente, mas transdescendente. Na Bíblia, de ponta a ponta, vemos a
imagem de um Deus apaixonado pelo humano.
Deus
não é neutro diante dos conflitos. Deus faz opção preferencial pelos pobres
(cf. Ex 3,7-10).
Não
existe inferno, nem purgatório e nem limbo como locais destinados aos
pecadores, como descrito de forma tradicionalista por muitos nas igrejas.
Satanás (satã, em hebraico) ou diabo (diabolos,
em grego) não são entes abstratos, um deus negativo que faz oposição ao Deus da
vida. Satanás (diabo) é tudo o que divide, separa, desune, oprime, exclui,
discrimina e depreda. Pode ser uma dimensão interior nossa, mas em uma
sociedade capitalista neoliberal como a nossa, trata-se prioritariamente de
estruturas e instituições que oprimem, excluem e depreda a natureza. Podemos
dizer que o agronegócio é satânico, pois concentra riqueza em poucas mãos,
expulsa os pequenos do campo e devasta a biodiversidade. Uma democracia
burguesa formal que não respeita a Constituição Brasileira e pisa na dignidade
das pessoas é uma falsa democracia, algo também satânico.
Ser
cristão implica ser anticapitalista. Não dá para compactuar com os pretensos
valores do capitalismo: concorrência, competição, acumulação, lucrar e lucrar.
Ser cristão é ser outro Cristo, alguém que consola os aflitos, mas que também
incomoda os acomodados. Tarefa da pessoa cristã é buscar vida e liberdade para
todos e tudo – e não apenas para alguns - mas a partir dos últimos.
2.2.4 - Sentir-se igreja, membro vivo de
uma comunidade de fé libertadora.
“Igreja
é Povo de Deus”, nos ensina o Vaticano II. É hora de percebermos que o
sacerdócio comum está acima do sacerdócio ordenado. Os jovens não podem aceitar
uma relação que os coloquem como infantis e em uma postura de quem só deve
obedecer. Nada disso. Os jovens têm o direito e o dever de dialogar, discutir e
reivindicar o direito de decidir conjuntamente todos os assuntos que envolvem a
vida da comunidade cristã e da sociedade.
2.2.5 – Comprometer-se com a Opção pelos
pobres e pelos jovens.
O
apóstolo Paulo, ao escrever sobre o Concílio de Jerusalém, acontecido por volta
dos anos 49/50 do 1º século diz que a circuncisão, a maior de todas as
barreiras, tinha sido abolida e que a única coisa que os apóstolos fizeram
questão de alertar foi: “Não esqueçam os pobres.” (Gal 2,10) Esse alerta deve
ser acolhido por todas as pessoas cristãs. Mas faz bem ter um bom entendimento
sobre quem é pobre. Primeiro, o carente economicamente. Depois, a mulher, o
indígena, o negro, o homossexual, a divorciada, a mãe terra, a irmã água, o
meio ambiente.
O
pobre não é apenas como um poço de carência, mas principalmente um portador de
força ética e espiritual. Deus age a partir dos pequenos. “O mundo será melhor
quando o menor que padece acreditar no menor”, dizia Dom Hélder Câmara, o santo
rebelde.
2.2.6 - Partir da periferia, do
oprimido.
O Evangelho de Lucas interpreta a vida, as ações e os ensinamentos de Jesus ao
longo de uma grande caminhada da Galileia até Jerusalém, ou seja, da periferia
geográfica e social ao centro econômico, político, cultural e religioso da
Palestina. A Palavra, no Evangelho de Lucas, é a palavra de um leigo, de um
camponês galileu, “alguém de Nazaré”, pessoa simples, pequena, alguém que vem
da grande tribulação. Não é palavra de sumo sacerdote, nem do poder.
2.2.7 - Priorizar a formação. Na grande viagem de subida para Jerusalém,
Jesus prioriza a formação dos discípulos e discípulas. Ele percebe que não tem
mais aquela adesão incondicional da primeira hora. Jesus descobriu que para
consolar os aflitos era necessário também incomodar os acomodados e denunciar
pessoas e estruturas injustas e corruptas. Assim, o homem de Nazaré começou a
perder apoio popular. Era necessário caprichar na formação de um grupo menor
que pudesse garantir os enfrentamentos que se avolumavam. Jesus sabia muito bem
que em Jerusalém estava o centro dos poderes religioso, econômico, político e
judiciário. Lá travaria o maior embate.
2.2.8 - Não fugir do combate. O Evangelho de
Lucas diz: Jesus, cheio do Espírito, em uma proposta periférica alternativa,
vai, em uma caminhada, de Nazaré a Jerusalém; ou seja, vai da periferia para o
centro, caminhando no Espírito. Em Jerusalém acontece um confronto entre o projeto
de Jesus e o projeto oficial. Este tenta matar o projeto de Jesus (e de seu
movimento) condenando-o à morte na cruz. Mas o Espírito é mais forte que a
morte. Jesus ressuscita. No final do Evangelho de Lucas, Jesus diz aos
discípulos: “Permaneçam em Jerusalém até
a vinda do Espírito Santo” (Lc 24,49).
2.2.9 - Estar sempre em movimento. Seguir Jesus exige uma dinâmica de permanente movimento. A
sociedade capitalista leva-nos a buscar segurança, o que é uma farsa. É hora de
aprendermos a seguir Jesus de forma humilde e vulnerável, porém mais autêntica
e real. Isso não quer dizer distrair com costumes e obrigações que provêm do
passado, mas não ajudam a construir uma sociedade justa, solidária e
sustentável ecologicamente.
2.2.10 - Andar na contramão. Seguir Jesus implica andar na contramão,
remar contra a correnteza de tantos fundamentalismos e da idolatria do
consumismo. Exige também rebeldia, coragem, audácia diante de costumes que
entortam o queixo e de modas que aniquilam o infinito potencial humano existente
em nós. Ser ,
na prática, luz no mundo, sal na comida, fermento na massa, algo que sempre
incomoda.
2.2.11 - Saber a
hora de conviver e a hora de lutar. O Evangelho de Lucas apresenta dois
envios de discípulos para a missão. No primeiro envio (Lc 10,1-11), Jesus
indicou aos discípulos que fossem para o campo de missão despojados e
desarmados. Assim deve ser todo início de missão: conhecer, conviver,
estabelecer amizades, cativar, assumir a cultura do outro, tornar-se um irmão
entre os irmãos para que seja reconhecido como “um dos nossos”. No segundo
envio (Lc 22,35-38), em hora de luta e combate, Jesus sugere que os discípulos
devem ir preparados para a resistência. Por isso “pegar bolsa e sacola, uma espada – duas no máximo.” (Lc 22,36-38).
Durante a evolução da missão, chega a hora em que não basta esbanjar ternura,
graciosidade e solidariedade. É preciso partir para a luta, pois as injustiças
precisam ser denunciadas. Ao tomar partido e “dar nomes aos bois” irrompem-se
as divisões e desigualdades existentes na realidade. Os incomodados tendem
naturalmente a querer calar quem os está incomodando. É a hora das perseguições
que exigem resistência. Confira a trajetória de vida dos/as mártires da
caminhada: Padre Josimo, Padre Ezequial Ramin, Chico Mendes, Margarida Alves,
Sem Terra de Eldorado dos Carajás, Irmã Dorothy, Santo Dias, Chicão Xucuru,
Padre Gabriel etc.
2.2.12 -
Resistir, o que não é violência, mas legítima defesa. Diante de
qualquer tirania e de um Estado violentador, vassalo do sistema capitalista que
sempre tritura vidas e pratica injustiças, é dever das pessoas cristãs
resistirem contras as opressões perpetradas contra os empobrecidos, os
preferidos de Jesus. Lucas, em Lc 22,35-38, sugere desobediência civil –
econômica, política e religiosa. Em uma sociedade desigual, esse é “outro
caminho” a ser seguido (cf. Mt 2,12) por nós, discípulos e discípulas de Jesus,
o rebelde de Nazaré.
2.2.13- Quarto sinal
do Evangelho de João e paralelos em Mt, Mc e Lc: A partilha dos pães, uma pedagogia que liberta e emancipa. (Jo 6,1-15)
A
fome era um problema tão sério na vida dos primeiros cristãos e cristãs que os
quatro evangelhos da Bíblia relatam Jesus partilhando pães e saciando a fome do
povo.[2] É
óbvio que não devemos historicizar as narrativas de partilha de pães como se
tivessem acontecido tal como descrito. Os evangelhos foram escritos de quarenta
a setenta anos depois. O quarto evangelho, por volta dos anos 90. Logo, são interpretações teológicas que
querem ajudar as primeiras comunidades a resgatar o ensinamento e a práxis
original de Jesus Cristo. Não podemos também restringir o sentido espiritual da
partilha dos pães a uma interpretação eucarística, como se a fome de pão se
saciasse pelo pão partilhado na eucaristia. Isso seria espiritualização dos
textos. Eucaristia, celebrada em profunda sintonia com as agruras da vida, é
uma das fontes que sacia a fome de Deus, mas as narrativas das partilhas de
pães têm como finalidade inspirar solução radical para um problema real e
concreto: a fome de pão.
A
beleza espiritual das narrativas de partilha de pães – o correto é partilha de
pães e não multiplicação de pães[3] -
está no processo seguido: uma série de passos articulados e entrelaçados que
constituem um processo libertador. O milagre – no caso de Mt, Mc e Lc – ou o
sinal – no caso de Jo - não está aqui ou ali, mas no processo todo. Aqui o
nosso foco de análise é o Evangelho de João, mas considerando que narrativas
semelhantes estão também em Mt, Mc e Lc, melhor
analisar a Partilha dos pães a partir dos quatro evangelhos e não apenas
a partir do quarto evangelho.
Eis, abaixo, uma série de dez características presentes nas
narrativas de partilha de pães que nos revelam uma Pedagogia que liberta e
emancipa:
1)
Cidade, lugar de violência? O evangelho de Mateus mostra que o povo faminto
“vem das cidades (Mt,13).” As cidades, ao invés de serem locais de exercício da
cidadania, se tornaram espaços de exclusão e de violência sobre os corpos
humanos. Faz bem recordar que Deus criou – e continua criando -, nas ondas da
evolução, tudo “em seis dias e no sétimo
dia descansou (Gen 2,2 ).” Conta-se que alguém teria perguntado a Deus
porque ele resolveu descansar após o sexto dia. Deus teria dito que já tinha
criado tudo com muito amor e para o bem da humanidade e de toda a
biodiversidade. Quando viu que faltava criar a cidade, o Deus criador concluiu
que era melhor descansar.
2)
Ir para o meio dos excluídos e injustiçados. “Jesus atravessa para a outra margem do mar da Galileia” (Jo 6,1),
entra no mundo dos gentios, dos pagãos, dos impuros, enfim, dos excluídos e
injustiçados. Jesus não fica no mundo dos incluídos, o mundo do status quo e da legalidade, mas
estabelece comunicação efetiva e afetiva entre os dois mundos, o dos incluídos
e o dos excluídos. Assim, tabus e preconceitos desmoronam-se.
3)
“Jesus subiu a montanha e sentou-se aí
com seus discípulos (Jo 6,3).” Jesus transitava da planície para a montanha
e vice-versa. Na montanha fazia a experiência da contemplação, encontrava com
Deus Pai, o mistério de amor que nos envolve, encontrava com seu eu mais
profundo e com todas as criaturas da biodiversidade. Assim, a experiência da
montanha, o animava a se lançar na planície para encontrar o povo nos porões da
humanidade, oprimido e injustiçado. “Sentou-se.” Mais do que a postura de
sentar, devemos ver aqui Jesus assumindo a postura de mestre, aquele que ensina
um ensinamento libertador com autoridade. “Com seus discípulos.” Podemos intuir
: “e com suas discípulas também.” Jesus não era um franco atirador, um agente solitário.
Jesus nasceu, cresceu e se formou no meio de um movimento popular religioso.
Aprendeu muito com Maria, sua mãe, com José, seu pai, com João Batista, com
determinado tipo de fariseus, com o povão, com a natureza. Quando deixa de ser
discípulo e passa a ser mestre, Jesus age e ensina quase sempre acompanhado
pelo seu movimento de discípulos e discípulas. Isso para nos ensinar que
problemas sociais, que são problemas de muita gente e não de apenas algumas
pessoas, devem ser encarados em ações comunitárias e coletivas. “A nossa força
está no grande número de pessoas que aderem à luta”, ensina-nos o Movimento dos
Sem Terra e o Movimento dos Sem Casa.
4)
Nunca perder a capacidade de se comover e de se indignar. Profundamente
comovido, porque “os pobres estão como
ovelhas sem pastor” (Mc 6,34), Jesus percebe que os governantes e líderes
da sociedade não estavam sendo libertadores, mas estavam colocando fardos pesados nas costas do povo. Com olhar
altivo e penetrante, “Jesus vê uma grande
multidão de famintos que vem ao seu encontro (Jo 6,5).” Isso nos remete à
lembrança de que no Brasil há milhões de
pessoas que têm os corpos implodidos pela bomba silenciosa da fome ou da má
alimentação.
5)
Postura crítica. Jesus não sentiu medo dos pobres, encarou-os e procurou
superar a fome que os golpeava e humilhava. Apareceram dois projetos para
resgatar a cidadania do povo faminto. O primeiro foi apresentado pelo discípulo
Filipe: “Onde vamos comprar pão para
alimentar tanta gente?” (Jo 6,5). No mesmo tom, outros discípulos tentavam
lavar as mãos: “Despede as multidões para
que possam ir aos povoados comprar alimento.” (Mt 14,15). Desculpas
esfarrapadas não faltam. A de Filipe era: Nem 182,5 salários mínimos seriam
suficientes para saciar os famintos. Hoje se repete à exaustão: “Não temos orçamento suficiente. São muitas
as necessidades. O poder público não dá conta de responder positivamente a tudo. Os
cortes nas áreas sociais serão para impedir a inflação de subir mais etc.” Filipe
representa os que estão dentro do mercado e pensam a partir do mercado, o
capital. Filipe está pensando que o mercado é um deus capaz de salvar as
pessoas. Cheio de boas intenções, Filipe não percebe que está enjaulado na
idolatria do mercado e do capital. A história brasileira está cheia de exemplos
de governantes dizendo: “Esperem o bolo
crescer para depois repartirmos. Esperem na fila da moradia que vocês terão a
casa própria. .” Mas a história demonstra que sem lutas coletivas o bolo
nunca é partilhado e se torna cada vez mais concentrado. O povo organizado tem
aprendido como somente na luta conquistam-se direitos como terra e teto.
6)
Postura criativa. O segundo projeto é posto à baila por André, outro
discípulo de Jesus, que, mesmo se sentindo fraco, acaba revelando: “Eis um menino com cinco pães e dois peixes”
(Jo 6,9). Jesus acorda nos discípulos e discípulas a responsabilidade social,
ao dizer: “Vocês mesmos devem alimentar
os famintos” (Mt 14,16). Jesus quer mãos à obra. Nada de desculpas
esfarrapadas e racionalizações que tranquilizam as consciências. Jesus pulou de
alegria e, abraçando o projeto que vem de André (em grego, andros = humano), anima o povo a “sentar na grama” (Jo 6,10). Aqui aparecem duas características
fundamentais do processo protagonizado por Jesus para levar o povo da exclusão
à cidadania, da injustiça à justiça. Jesus convida o povo para se sentar. Por
quê? Na sociedade escravocrata do império romano somente as pessoas livres e
cidadãs podiam comer sentadas. Os escravos deviam comer de pé, pois não podiam
perder tempo de trabalho. Deviam engolir rápido e retomar o serviço árduo. Um
terço da população era escrava e outro terço, semiescrava. Logo, quando Jesus
inspira o povo para se sentar, ele está, em outros termos, defendendo que os
escravos são seres humanos e, portanto, têm direitos e devem ser tratados como
cidadãos.
“Um menino ... (Jo 6,9).” O discípulo
André não apontou que a solução para o problema da fome poderia vir de um sumo
sacerdote, nem de um rei, nem de um saduceu, nem de um fariseu, mas apontou que
poderia vir de um menino, uma criança. Isso para nos ensinar que é a partir do
pequeno, do simples e dos humildes que surgem as verdadeiras soluções. Atuando
de forma coletiva e comunitária, os pobres são protagonistas e sujeitos de sua
libertação. É como dom Moacyr Grechi ensinou
no 12º Intereclesial das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), em Porto
Velho, em Rondônia: “Pessoas simples
fazendo coisas simples, multiplicando aos milhares, conseguem grandes
transformações.”
“Cinco pães e dois peixes ...(Jo 6,9).”
Não é a partir do muito e nem do forte que se supera os problemas mais graves
que afligem o povo, mas é a partir do pouco de cada um/a.
7)
Organização é o segredo da pedagogia de Jesus. Jesus estimula a organização
dos famintos. “Sentem-se, em grupos de
cem, de cinquenta, ...” (Jo 6,10; Mc 6,40). Assim, Jesus e os primeiros
cristãos e cristãs nos inspiram que o problema da fome e todos os outros
problemas sociais só serão resolvidos, de forma justa, quando o povo
marginalizado e injustiçado se organizar e partir para lutas coletivas.
8) Gratidão. “Jesus agradeceu a Deus (Jo 6,11).” A
dimensão da mística foi valorizada. A luz e a força divinas permeiam e
perpassam os processos de luta. Faz bem reconhecer isso. Vamos continuar
cantando com Manoelão - cantor e compositor das Comunidades Eclesiais de Base
que já partilha vida em plenitude - cantos revolucionários, tal como: É madrugada, levanta povo! / A luz do dia vai nascer de novo! / Rompe as cadeias, abre o coração,/ Vamos dar as mãos, já é o reino do povo!
/ O povo agora é Senhor da história,
/ Somos rebentos desta nova era. / A liberdade, a fraternidade. / São as bandeiras desta nova terra!
9)
Não ser paternalista. Quem reparte o pão não é Jesus, mas os discípulos.
Jesus provoca a solidariedade conclamando para a organização dos injustiçados
como meio para se chegar à cidadania de e para todos. Dar pão a quem tem fome
sem se perguntar por que tantos passam fome é ser cúmplice do capital que rouba
o pão da boca da maioria.
10)
Reaproveitar. “Recolham os pedaços
que sobraram, para não se desperdiçar nada (Jo 6,12)”, nos ensina Jesus no
final da narrativa da partilha de pães no quarto evangelho. Economia que evita
o desperdício. Atualmente quase 1/3 da alimentação produzida é jogada no lixo,
enquanto tantos passam fome. É hora de reduzir o consumo. Reaproveitar,
reciclar. Nada deve se perder, mas ser tudo transformado. Em uma casa ecológica
tudo é reaproveitado, inclusive as fezes são consideradas recursos, pois viram
adubo fértil e orgânico. Envolvidos pela crise ecológica, com aquecimento e
escurecimento global é hora de reduzir, reutilizar, reciclar, reaproveitar,
recusar, recuperar e repensar.
2.14 - Participar
da vida pública transformando a sociedade (Lc 10,38-42).
Seguindo para Jerusalém, Jesus entra na casa
de duas mulheres, Marta e Maria. Tradicionalmente, a narrativa de Lc 10,38-42
tem sido interpretada como uma oposição entre vida Ativa e vida contemplativa.
Ao longo dos séculos e ainda hoje, muitos usam e abusam de Lc 10,38-42 para
justificar a vida contemplativa, mas essa interpretação não tem consistência
exegética. Não há nenhuma referência no texto que diga que Jesus estivesse
rezando ou orando com Maria. Para entender bem Lc 10,38-42 é preciso considerar
algumas coisas.
Primeiro, nas duas perícopes anteriores, Lucas
revelou uma oposição, um contraste: humildes X entendidos (Lc 10,21-24) e
samaritano X sacerdote e levita (Lc 10,29-37). Em Lc 10,38-42 também há uma
oposição, um contraste: Maria X Marta. A postura de Maria é elogiada por Jesus
e a postura de Marta é censurada: “Marta,
Marta! ... uma só coisa é necessária...” (Lc 10,41-42).
Segundo, precisamos considerar a situação das
mulheres na época de Jesus e de Lucas. As mulheres eram - não todas, é óbvio -
propriedades do pai e, depois de casadas, dos maridos; não participavam da vida
pública, deviam ficar restritas ao lar; não aprendiam a ler e a escrever; não
recebiam os ensinamentos da Torá. Encontra-se
escrito no Talmud dos Judeus (Escritura não-sagrada): “Que as palavras da Torá sejam queimadas, mas não transmitidas às
mulheres”. A oração que muitos judeus piedosos rezavam dizia: “Louvado sejas Deus por não ter-me feito mulher!”
Ao sentar-se aos pés de Jesus, para ouvir-lhe os
ensinamentos, Maria reivindica para si o direito de ser discípula. Ela reclama
para si o direito de ser cidadã no sentido pleno. “Sentar-se aos pés” era a atitude dos discípulos dos rabis.
Em Lc 10,38-42, Maria faz desobediência civil e
religiosa, pois fica aos pés de Jesus ouvindo-o. Só os homens judeus podiam ficar
aos pés de um mestre e se tornarem discípulos. Ouve Jesus e, provavelmente,
dialoga com Jesus e o interroga, e se torna discípula.
Um judeu entrar em uma casa onde só havia mulheres
também era algo censurável pela sociedade. Jesus desobedece a essa regra moral
e entra na casa de duas mulheres. Assim, Jesus vai formando seus discípulos e
discípulas enquanto caminha para Jerusalém.
2.15
- Ser simples como
as pombas e esperto como as serpentes.
Após
uma longa marcha da Galileia a Jerusalém, da periferia à capital (Lc
9,51-19,27), Jesus e seu movimento estão às portas de Jerusalém. De forma
clandestina, não confessando os verdadeiros motivos, Jesus e o seu grupo entram
em Jerusalém, narra o Evangelho de Lucas (Lc 19,29-40). De alguma forma deve
ter acontecido essa entrada de Jesus em Jerusalém, provavelmente não tal como
narrado pelo evangelho, que tem também um tom midráxico, ou seja, quer tornar
presente e viva uma profecia do passado.
Dois discípulos recebem a tarefa de viabilizar
a entrada na capital, de forma humilde, mas firme e corajosa. Deviam arrumar um
jumentinho – meio de transporte dos pobres -, mas deviam fazer isso
disfarçadamente, de forma “clandestina”. O texto repete o seguinte: “Se alguém
lhes perguntar: “Por que vocês estão desamarrando o jumentinho?”, digam
somente: ‘Porque o Senhor precisa dele’”. A repetição indica a necessidade de
se fazer a preparação da entrada na capital de forma clandestina, sutil, sem
alarde. Se dissessem toda a estratégia a entrada em Jerusalém seria proibida pelas
forças de repressão.
Com
os “próprios mantos” prepararam o jumentinho para Jesus montar. Foi com o pouco
de cada um/a que a entrada em Jerusalém foi realizada. A alegria era grande no
coração dos discípulos e discípulas. “Bendito
o que vem como rei...” Viam em Jesus outro modelo de exercer o poder, não
mais como dominação, mas como gerenciamento do bem comum.
Ao
ouvir o anúncio dos discípulos – um novo jeito de exercício do poder – certo
tipo de fariseu se incomoda e tenta sufocar aquele evangelho. Hipocritamente
chamam Jesus de mestre, mas querem domesticá-lo, domá-lo. “Manda que teus discípulos se calem.”, impunham os que se julgavam
salvos e os mais religiosos. “Manda...!” Dentro do paradigma “mandar-obedecer”,
eles são os que mandam. Não sabem dialogar, mas só impor. “Que se calem!”,
gritam. Quem anuncia a paz como fruto da justiça testemunha fraternidade e luta
por justiça, o que incomoda o status quo
opressor. Mas Jesus, em alto e bom som, com a autoridade de quem vive o que
ensina, profetisa: “Se meus discípulos
(profetas) se calarem, as pedras gritarão.” (Lc 19,40). Esse alerta do
galileu virou refrão de música das Comunidades Eclesiais de Base: “Se calarem a voz dos profetas, as pedras
falarão. Se fecharem uns poucos
caminhos, mil trilhas nascerão... O poder tem raízes na areia, o tempo
faz cair. União é a rocha que o povo usou pra construir...!”
2.16 - Ser intransigente diante da
opressão econômica e política.
Os quatro evangelhos da Bíblia[4]
relatam que Jesus, próximo à maior festa judaico-cristã, a Páscoa, impulsionado
por uma ira santa, invadiu o templo de Jerusalém, lugar mais sagrado do que os
templos da idolatria do capital que muitas vezes tem a cruz de Cristo pendurada
em um ponto de destaque. Furioso como todo profeta, ao descobrir que a
instituição tinha transformado o templo em uma espécie de Banco Central do país
+ sistema bancário + bolsa de valores, Jesus “fez um chicote de cordas e
expulsou todos do templo, bem como as ovelhas e bois, destinados aos
sacrifícios. Derramou pelo chão as moedas dos cambistas e virou suas mesas. Aos
que vendiam pombas (eram os que diretamente negociavam com os mais pobres
porque os pobres só conseguiam comprar pombos e não bois), Jesus ordenou:
‘Tirem estas coisas daqui e não façam da casa do meu Pai uma casa de negócio.”
Essa ação de Jesus foi o estopim para sua condenação à pena de morte, mas Jesus
ressuscitou e vive também em milhões de pessoas que não aceitam nenhuma
opressão.
2.17
- Algumas conclusões.
Durante
a leitura, meditação e estudo do Texto-Base da Campanha da Fraternidade de 2015,
inúmeras vezes me veio à mente e ao coração a pessoa do papa Francisco, sua
práxis e seu ensinamento como guia da Igreja Católica no mundo. Vejo muita
sintonia entre o que nos pede Jo 5 a 8 e o que nos anima o papa Francisco. Por
isso registro aqui algumas afirmações do papa Francisco na Exortação Apostólica
A Alegria
do Evangelho, principalmente fazendo referência ao cap. IV, que trata
justamente da Dimensão Social da Evangelização:
“Se a dimensão social da evangelização não
for devidamente explicitada, corre-se o risco de desfigurar o sentido autêntico
e integral da missão evangelizadora.” (n. 176).
“Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter
saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se
agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o
centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos.” (n.
49).
Além
de ser pobre e para os pobres, a Igreja desejada por Francisco é corajosa em denunciar o atual
sistema econômico, "injusto na sua
raiz" (A alegria do Evangelho, n. 59). Como disse João Paulo II,
a Igreja "não pode nem deve ficar à
margem na luta pela justiça" (n. 183).
"Saiam!" é a essência da mensagem
que o papa Francisco envia a bispos, padres, membros da comunidade. Saiam para
fora das suas cômodas estruturas eclesiais burguesas e do caloroso círculo dos
convencidos – anunciem o Evangelho às periferias das cidades, aos
marginalizados pela sociedade, aos pobres, aos injustiçados.
Às questões
sociais, o papa Francisco dedica
dois dos cinco capítulos da Exortação Apostólica A Alegria do Evangelho, o
segundo e o quarto. Critica o "fetichismo do dinheiro" e "a
ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano",
versão nova e implacável da "adoração do antigo bezerro de ouro".
Francisco
critica o atual sistema econômico: "esta
economia que mata" porque prevalece a "lei do mais forte". Ele volta à cultura do
"descartável" que criou "algo
novo" e dramático: "Os excluídos
não são 'explorados', mas resíduos, 'sobras'" (n. 53). Enquanto não se
resolverem radicalmente os problemas dos pobres, renunciando "à autonomia
absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas
estruturais da desigualdade social – insiste –, não se resolverão os problemas
do mundo e, em definitivo, problema algum". E indica na "desigualdade social" as raízes dos
males sociais.
A Igreja não
pode ficar indiferente a tais injustiças. "A economia não pode mais recorrer a remédios que são um novo veneno,
como quando se pretende aumentar a rentabilidade reduzindo o mercado de
trabalho e criando assim novos excluídos". Ele dedica páginas à
denúncia da "nova tirania invisível,
às vezes virtual" em que vivemos, um "mercado divinizado", onde reinam a "especulação financeira", "corrupção ramificada", "evasão fiscal egoísta" (n. 56).
Enfim, seguir
Jesus implica andar na contramão, remar contra a correnteza de tantos
fundamentalismos e da idolatria do consumismo. Exige também rebeldia, coragem,
audácia diante de costumes que entortam o queixo e de modas que aniquilam o
infinito potencial humano existente em nós.
Para
concluir não concluindo, contamos com todas as pessoas cristãs para vivenciar a
Opção preferencial pelos Pobres e pelos Jovens, buscar alternativas para a
superação da atual crise socio-política-econômica-cultural e religiosa. Apoiar
firmemente a Economia Popular Solidária, as lutas pela Reforma Agrária, por
agricultura familiar, por preservação ambiental, pela mudança do atual modelo
econômico neoliberal. Queremos um modelo econômico que seja popular,
democrático, soberano, inclusivo e sustentável ecologicamente. Queremos
construir outro modelo de igreja, onde, de fato, a igreja seja povo de Deus, em
comunidades que se relacionam em sistema de rede.
2.18- Referências de
práxis libertadora.
Preferimos nesse artigo não citar nenhuma obra da
literatura bíblica ou teológica, mas dizer que o que nos inspirou o tempo todo
na construção do texto foi a experiência de luta dos Sem Terra do MST, dos Sem
Casa, do povo das Comunidades Eclesiais de Base, das Pastorais Sociais e dos
Movimentos Sociais Populares: povo que de forma coletiva, com fé no Deus da
vida, fé nos companheiros/as, fé nos pequenos e injustiçados, de mãos dadas,
seguem marchando e lutando para conquistar direitos fundamentais como um
pedacinho de terra, moradia digna e respeito. Enfrentam um tsunami de conflitos
e de perseguições, mas não desistem. A todo esse povo dedico esse texto.
2.19- Apêndice.
Sugestão
de textos e eventos bíblicos libertadores que podem inspirar a vivência da
dimensão social da fé cristã, Fraternidade e Sociedade:
1) Gn
1: Toda a Criação é muito boa, imagem e semelhança de Deus.
2) Ex
1,15-22: O Movimento das parteiras faz Desobediência civil e religiosa. Cf.
Gandhi, Martin Luther King, as camponesas da Via Campesina.
3) Ex
3,7-10: Deus ouve o clamor dos oprimidos e faz opção pelos injustiçados.
4) Davi
vence Golias.
5) Is
65,17-25: Eis um novo céu e uma nova Terra.
6) Dn
2,31-37: Uma pedrinha destrói um gigante de pés de barro – a força da profecia.
7) Jo
6,1-15: Solução radical para a fome de pão – partilha de pães.
8) Mt
21,12-13: Jesus expulsa os capitalistas do Templo.
10) Ap
12,1-17: Uma mulher grávida, em dores de parto, vence um Dragão.
11) At
21,1-7: Deus deixa o céu e arma sua tenda no meio dos pobres.
Angra dos Reis, RJ, Brasil, 07
de fevereiro de 2015.
Frei Gilvander Luís Moreira,
gilvanderlm@gmail.com
Face: Gilvander Moreira
[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; natural de Rio
Paranaíba, MG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em
Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto
Bíblico de Roma, Itália; doutorando em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT
(Comissão Pastoral da Terra), do CEBI (Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos),
do SAB (Serviço de Animação Bíblica) e de Movimentos Sociais de luta por terra
e moradia; conselheiro do Conselho Estadual dos Direitos Humanos de Minas
Gerais – CONEDH; e-mail: gilvanderlm@gmail.com
– www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br - www.twitter.com/gilvanderluis - Facebook: Gilvander Moreira
[2] Cf. Mt
14,13-21; Mc 6,32-44; Lc 9,10-17 e Jo 6,1-15.
[3] Falar em
multiplicação de pães induz a pensar em uma ação mágica de Jesus. Não foi o que
aconteceu.
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
ASSEMBLEIA PROVINCIAL-2015: Salmo de Meditação.
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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
A CAMINHO DE SALVADOR-BA: Um olhar
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Artigos do Frei Petrônio de Miranda
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Vaticano abre portas para padres casados e cria dilema
O ex-padre anglicano Robin Farrow (de
óculos) é casado e tem quatro filhas, mas será ordenado na Igreja Católica em
abril
Com quatro filhas ainda crianças e um
bebê para chegar em alguns meses, a mulher de Robin Farrow já avisou: ele
precisará levar a caçula para o trabalho nos dias mais complicados.
É uma situação que dificilmente chamaria
a atenção em qualquer lugar do mundo, não fosse o fato de que Farrow está
prestes a receber sua ordenação como padre católico.
O britânico faz parte de um grupo de
novos padres anglicanos que se converteram à Igreja Católica no Reino Unido sem
a obrigação de adotar o celibato – ao contrário do que se exige dos sacerdotes
originalmente católicos.
"Sei que muitos fiéis católicos
podem estranhar a figura de um padre casado. Mas na minha paróquia eu tenho
conversado com os fiéis há meses e recebi muitas palavras de apoio à minha
situação. Estudei para uma vida religiosa desde os sete anos", conta
Farrow, de 42 anos, em entrevista à BBC Brasil.
Dispensa
especial
A regra para sacerdotes anglicanos está
em vigor desde 2009, chancelada pelo então papa Bento 16. A decisão surpreendeu
por causa do perfil conservador do pontífice alemão, e muitos analistas do
Vaticano a viram como uma manobra para atrair para a Igreja anglicanos insatisfeitos
com algumas decisões mais polêmicas de seu ramo do cristianismo, em especial a
ordenação de bispos homossexuais.
O celibato, imposto no século 12,
simboliza o triunfo do espírito sobre a carne. A premissa é de que apenas a
dedicação total à Igreja faz um padre.
A possibilidade de dispensa no Reino
Unido teve o objetivo de reforçar os quadros católicos num país em que o
catolicismo é minoria. No entanto, há limites para a dispensa.
Papa
Bento
Bento XVI foi quem abriu as portas para
mais conversões de padres anglicanos e aceitou novas ordenações especiais
"Se por acaso minha esposa
falecesse, que Deus proíba, eu não poderia casar de novo", conta Farrow. O
divórcio também está fora de questão.
Amazônia
Casos como o de Farrow alimentam o
argumento dos defensores de uma revisão da questão celibatária por parte da
Igreja. Entre os que propõem a flexibilização está Dom Erwin Kautler, bispo
austríaco que há 30 anos é o responsável pelo Prelado do Xingu, no Pará.
Dom
Erwin
Bispo do Xingu, Dom Erwin diz contar com
apenas 27 para 800 comunidades da região
Mais conhecido por seu envolvimento em
causas ambientais e pelas críticas à injustiça social na região Norte do
Brasil, Dom Erwin tem expressado recentemente sua preocupação com a escassez de
sacerdotes a seu dispor. Uma das maiores circunscrições eclesiásticas do
Brasil, com 365 mil quilômetros quadrados, o Xingu dispõe apenas de 27 padres.
Não é preciso muito esforço matemático
para entender o problema de Dom Erwin. E o bispo não vê outra solução que não
uma flexibilização do Vaticano em relação ao celibato.
Ele cita por exemplo a regra de que os
diáconos, clérigos de quem não se exige o celibato, possam celebrar alguns
sacramentos, incluindo o batismo, mas não a comunhão.
"Não estou defendendo o fim do
celibato. Defendo que presidir a celebração da eucaristia, por exemplo, não
seja um prerrogativa exclusiva de um homem celibatário", afirma o bispo à
BBC Brasil.
"O que muitos bispos querem – e sou
um deles – é propor outro tipo de sacerdote ao lado do tradicional. E tomar uma
posição em favor de comunidades como as da Amazônia, que praticamente estão
excluídas da Eucaristia. Quem optar pela vida celibatária tem todo o direito de
fazê-lo. E há inúmeras pessoas, tanto homens e mulheres, que fazem essa opção e
são felizes."
De acordo com estatísticas apresentadas
por um estudo da universidade americana de Georgetown, citando documentos do
Vaticano, o número de católicos no mundo cresceu 64% entre 1975 e 2008,
atingindo pela primeira vez a casa de 1 bilhão. O mesmo estudo, no entanto,
estima que o número de padres no mundo seja de pouco mais de 400 mil e que
tenha estacionado nos últimos 40 anos.
Detalhe
do Vaticano
Segundo estudos, o número de padres
ordenados no mundo teria estacionado nos últimos 40 anos, enquanto o de fiéis
disparou
No Brasil, no mais recente censo do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 120 milhões de
brasileiros se declararam católicos. O Censo Anual da Igreja Católica no Brasil
estima em cerca de 22 mil o número de padres.
Escândalo
Especialistas citam diversas causas para
a desproporcionalidade, incluindo uma redução no número de frequentadores de
missas. Mas o imenso sacrifício pessoal exigido dos interessados em virar padre
frequentemente é citado não só para desestimular novas chegadas, mas como fator
de "deserções".
Na Itália, bem perto das muralhas do
Vaticano, estima-se que 6 mil padres tenham abandonado a batina para assumir ou
iniciar relacionamentos. O país atualmente tem 33 mil padres.
O
papa Francisco
O papa Francisco tem recebido pedidos
para reavaliar a posição da Igreja Católica em relação ao celibato
A discussão ganhou força depois da
revelação de diversos escândalos de pedofilia na Igreja nos últimos anos.
"Ninguém discute que o celibato tem
seu valor, mas ele deve ser facultativo justamente para evitar desvios de
comportamento por quem não está preparado para assumir um compromisso tão
ilustre", explica Alex Walker, padre britânico que em 1988 deixou a vida
religiosa para se casar.
Leia mais: Católicos não devem
"reproduzir-se feito coelhos", diz Papa
Atualmente, ele faz parte do Advent
Group, que pressiona por mudanças na postura do Vaticano e oferece assistência
para sacerdotes que sigam o mesmo caminho de Walker.
Padre dando mão à moça
Na Itália, calcula-se que milhares de
padres deixaram o sacerdócio nos últimos para se casar.
"Estou casado há 25 anos e não
teria deixado a Igreja se o celibato fosse opcional. Conheço muitos fieis que
prefeririam que seus padres pudessem se casar."
Resistência
Dom Erwin diz ter apresentado seu caso
ao papa Francisco, mas acredita que só uma articulação dos bispos brasileiros
junto ao Vaticano possa levar a questão adiante.
O mais recente pronunciamento do
pontífice sobre o celibato ocorreu em agosto do ano passado. Em entrevista ao
jornal italiano La Repubblica, Francisco é citado como admitindo que a
exigência havia "criado problemas" para a Igreja.
Não são apenas os anglicanos que
conseguem ser exceção à regra. Nos Ritos Orientais, um ramo autônomo pouco
conhecido do Catolicismo, os padres podem ser casados.
Paul
Sullins
Para o sociólogo e padre casado Sullins,
a posição da igreja não é contraditória por causa da aceitação dos anglicanos
convertidos
Curiosamente, porém, padres de exceção
também estão entre os defensores do status quo católico.
É o caso de Paul Sullins, padre
americano casado convertido ao catolicismo. Sociólogo da Universidade Católica
Americana, em Washington, ele lançará em livro em abril um estudo sobre padres
casados nos EUA – o número segundo ele, chega a cem.
"O exemplo de alguém que renuncia
ao casamento e ao sexo numa sociedade tão sexualizada quanto a nossa é algo
formidável. E este sacrifício tem um valor institucional importante para a
Igreja", diz o sociólogo.
Robin Farrow concorda: "A Igreja
sofreria muito em termos de imagem junto aos fiéis se adotasse muitas mudanças
nesse sentido. O celibato ajudou muito a Igreja em termos de carisma".
Postado por
Artigos do Frei Petrônio de Miranda
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