Prepósito Geral da Ordem dos Irmãos
Carmelitas Descalços
da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte
Carmelo
Querido Irmão:
Ao completar-se
os 500 anos do nascimento do nascimento de Santa Teresa quero unir-me,
juntamente com toda Igreja, à acção de graças da grande família do Carmelo
Descalço – religiosos, religiosas e leigos – pelo carisma desta mulher
excepcional.
Considero uma
graça providencial que este aniversário coincida com o ano dedicado à vida
consagrada, em que a santa de Ávila resplandece como guia seguro e modelo
atraente da entrega total a Deus. É mais uma ocasião para olhar para o passado
com gratidão e redescobrir “a centelha inspiradora” que deu impulso aos
fundadores e às suas comunidades do início (cf. Carta aos consagrados, 21 de
Novembro de 2014).
Que bem imenso
nos continua a fazer a todos o testemunho da sua consagração, nascido
directamente do encontro com Cristo, a sua experiência de oração, como diálogo
contínuo com Deus e a sua vivência comunitária, enraizada na maternidade da
Igreja!
1- Santa Teresa é antes de tudo mestra
de oração. Na sua experiência, foi central a descoberta da humanidade de
Cristo. Levada pelo desejo de partilhar essa experiência pessoal com os outros,
escreve sobre ela dum modo vital e simples, ao alcance de todos, pois consiste
simplesmente num “tratar de amizade com quem sabemos que nos ama” (V 8, 5).
Muitas vezes a própria narrativa se converte em oração, como se quisesse
introduzir o leitor no seu diálogo íntimo com Cristo. A de Teresa não foi uma
oração restrita a um espaço ou momento do dia; surgia espontânea nas mais
diversas ocasiões: “Triste coisa seria que só pelos cantos, se pudesse fazer
oração” (F 5, 16).Estava convencida do valor da oração contínua, mesmo que nem
sempre fosse perfeita. A Santa pede-nos que sejamos perseverantes, fiéis, mesmo
nos momentos de aridez, das dificuldades pessoais ou das necessidades urgentes
que nos reclamam.
Para renovar hoje a vida consagrada,
Teresa legou-nos um grande tesouro. Cheio de propostas concretas, caminhos e métodos
para rezar que, longe de nos fecharmos em nós mesmos ou de procurar um simples
equilíbrio interior, nos fazem recomeçar sempre a partir de Jesus e constituem
uma autêntica escola de crescimento no amor a Deus e ao próximo.
2- A partir do seu encontro com Jesus
Cristo, Teresa viveu “uma nova vida”; tornou-se numa comunicadora incansável do
Evangelho (cf. V 33, 1). Desejosa de servir a Igreja e perante os graves
problemas do seu tempo, não se limitou a ser expectadora da realidade que a
rodeava. Da sua condição de mulher e com as suas limitações de saúde,
“determinei-me – diz ela - fazer este pouquito que está na minha mão: seguir os
conselhos evangélicos com toda a perfeição que eu pudesse e procurar que estas
poucas que aqui estão fizessem a mesmo” C 1, 2). Por isso iniciou a reforma
teresiana, em que pedia às suas irmãs que não gastassem o tempo tratando “com
Deus negócios de pouca importância” quando o “mundo está ardendo” (C 1, 5).
Esta dimensão missionária e eclesial foi sempre apanágio do Carmelo Descalço.
Como então,
também hoje a Santa nos abre novos horizontes, convoca a uma grande empresa, a
ver o mundo com os olhos de Cristo, para procurar o que Ele procura e amar o
que Ele ama.
3- Santa Teresa era consciente de que
nem a oração nem a missão se podiam manter sem uma autêntica vida comunitária.
Por isso, o alicerce dos seus mosteiros foi a vida fraterna: “nesta casa… todas
tem que ser amigas, todas se hão-de querer, todas se hão-de ajudar” (C 4, 7). E
teve o cuidado de avisar as suas religiosas sobre o perigo que corriam de puxar
a atenção sobre si próprias na vida fraterna, que consiste “tudo, ou em grande
parte, em perder o cuidado de nós mesmos e das nossas comodidades” (C 12, 2) e
de por tudo o que somos ao serviço dos outros. Para não correr este risco. A
Santa de Ávila, enaltece a suas irmãs, sobretudo, a virtude da humildade que
não é retraimento exterior encolhimento interior da alma, mas conhecer o que
cada um é capaz de fazer por si e Deus nele (Relações 28). O contrário é o que
ela chama “honra negra” (V 31, 23), origem de murmurações, ciúmes e de
críticas, que prejudicam seriamente a relação com os outros. A humildade
teresiana é feita de autoaceitação, de consciência da própria dignidade, de
audácia missionária, de agradecimento e de abandono em Deus.
Com estas nobres raízes, as comunidades
teresianas estão chamadas a tornar-se casas de comunhão, que deem testemunho do
amor fraterno e da maternidade da Igreja, apresentando ao Senhor as
necessidades do nosso mundo, dilacerado pelas divisões e
pelas guerras.
Querido irmão,
não quero terminar sem agradecer aos Carmelos teresianos que confiam o Papa com
uma especial ternura à protecção da Virgem do Carmo e acompanham com a sua oração
os grandes reptos e desafios lançados à Igreja. Peço ao Senhor que no seu
testemunho de vida, como o de Santa Teresa, transpareça a alegria e a beleza de
viver o Evangelho e atraia muitos jovens a seguir Cristo de perto.
Concedo a minha Bênção Apostólica a toda
a família teresiana.
"Já é
tempo de caminhar, andando pelos caminhos da alegria, da oração, da
fraternidade, do tempo vivido como graça! Percorramos os caminhos da vida pela
mão de santa Teresa. Seus passos conduzem-nos sempre a Jesus"
(Papa Francisco).
O Papa Francisco dirige a seguinte carta ao bispo de Ávila, Monsenhor
Jesús García Burillo, por ocasião do início do Ano Jubilar celebrativo do V
Centenário do nascimento de Santa Teresa (1515-2015).
A Monsenhor Jesús García Burillo
Bispo de Ávila
Ávila
Querido Irmão:
A 28 de março de 1515 nasceu em Ávila uma menina que com o passar do
tempo seria conhecida como santa Teresa de Jesus. Ao aproximar-se o quinto
centenário do seu nascimento, volto o olhar para essa Cidade para agradecer a
Deus pelo dom desta grande mulher e animar os fieis da querida diocese de Ávila
e a todos os espanhóis para que conheçam a história dessa insígnia fundadora,
para que leiam os seus livros, os quais, a par das suas filhas nos numerosos Carmelos
espalhados pelo mundo, nos continuam a dizer quem e como foi a Madre Teresa e o
que nos pode ensinar aos homens e mulheres de hoje.
Na escola da santa andarilha aprendemos a ser peregrinos. A imagem do
caminho pode sintetizar muito bem a lição da sua vida e da sua obra. Ela
entendeu a sua vida como caminho de perfeição pelo qual Deus conduz o homem,
morada após morada, até Ele e, ao mesmo tempo, o põe em caminho para os homens.
Por que caminhos quer levar-nos o Senhor seguindo as pegadas e pela mão de
santa Teresa? Gostaria de recordar quatro que me fazem muito bem: o caminho da
alegria, da oração, da fraternidade e do tempo próprio.
Teresa de Jesus convida as suas monjas a «andar alegres servindo»
(Caminho 18,5). A verdadeira santidade é alegria, porque “um santo triste é um triste santo”. Os santos, mais do que
esforçados heróis são fruto da graça de Deus aos homens. Cada santo
manifesta-nos um traço do multiforme rosto de Deus. Em santa Teresa
contemplamos o Deus que, sendo «soberana Majestade, eterna Sabedoria» (Poesia
2), revela-se próximo e companheiro, tem as suas delícias em conversar com os
homens: Deus alegra-se connosco. E, por sentir o seu amor, experimentava uma
alegria contagiosa que não podia dissimular e que transmitia à sua volta. Esta alegria
é um caminho que temos de andar durante toda a vida. Não é instantânea,
superficial, barulhenta. É preciso procurá-la já «nos princípios» (Vida 13,l).
Expressa o gozo interior da alma, é humilde e «modesta» (cf. Fundações 12,l).
Não se alcança pelo atalho fácil que evita a renúncia, o sofrimento ou a cruz,
mas que se encontra padecendo trabalhos e dores (cf. Vida 6,2; 30,8), olhando
para o Crucificado e procurando o Ressuscitado (cf. Caminho 26,4). Daí que a
alegria de santa Teresa não seja egoísta nem auto-referencial. Como a do céu,
consiste em «alegrar-se que se alegrem todos» (Caminho 30,5), pondo-se ao
serviço dos demais com amor desinteressado. Da mesma forma que disse a um dos
seus mosteiros em dificuldades, a Santa diz-nos também hoje a nós, especialmente
aos jovens: «Não deixem de andar alegres!» (Carta 284,4). O Evangelho não é uma
bolsa de chumbo que se arrasta pesadamente, mas sim uma fonte de gozo que enche
de Deus o coração e o leva a servir os irmãos!
A Santa transitou também o caminho da oração, que definiu de forma bela
como um «tratar de amizade estando muitas vezes a sós com quem sabemos que nos
ama» (Vida 8,5). Quando os tempos são “difíceis”, são necessários «amigos fortes de Deus» para dar sustento aos fracos
(Vida 15,5). Rezar não é uma forma de fugir, também não é evadir-se, nem
isolar-se, mas sim avançar numa amizade que tanto mais cresce quanto mais se
trata com o Senhor, «amigo verdadeiro» e «companheiro» fiel de viagem, com quem
«tudo se pode sofrer», pois sempre «ajuda, dá esforço e nunca falta» (Vida
22,6). Para orar «não está a coisa em pensar muito mas sim em amar muito»
(Moradas IV,1,7), em voltar os olhos para olhar aquele que não deixa de
olhar-nos amorosamente e sofrer por nós pacientemente (cf. Caminho 26,3-4). Por
muitos caminhos pode Deus conduzir as almas para si, mas a oração é o «caminho
seguro» (Vida 213). Deixá-la é perder-se (cf. Vida 19,6). Estes conselhos da
Santa têm uma atualidade perene. Sigam, pois, pelo caminho da oração, com
determinação, sem deter-se, até ao fim! Isto vale particularmente para todos os
membros da vida consagrada. Numa cultura do provisório, viva a fidelidade do
«para sempre, sempre, sempre» (Vida 1,5); num mundo sem esperança, mostrem a
fecundidade de um «coração enamorado» (Poesia 5); e numa sociedade com tantos
ídolos, sejam testemunhas de que «só Deus basta» (Poesia 9).
Este caminho não podemos fazê-lo sozinhos, mas sim juntos. Para a santa
reformadora o caminho da oração transcorre na via da fraternidade no seio da
Igreja mãe. Esta foi a sua resposta providencial, nascida da inspiração divina
e da sua intuição feminina, aos problemas da Igreja e da sociedade do seu
tempo: fundar pequenas comunidades de mulheres que, à imitação do “colégio apostólico”, seguiram Cristo vivendo simplesmente o
Evangelho e sustendo toda a Igreja com uma vida feita oração. «Para isto vos
juntou Ele aqui, irmãs» (Caminho 2,5) e tal foi a promessa: «que Cristo andaria
connosco» (Vida 32,11). Que linda definição da fraternidade na Igreja: andar
juntos com Cristo como irmãos! Para isso não recomenda Teresa de Jesus muitas
coisas, simplesmente três: amar-se muito unos aos outros, desprender-se de tudo
e verdadeira humildade, que «ainda que a digo por último é a base principal e
as abraça todas» (Caminho 4,4). Como desejaria, nestes tempos, umas comunidades
cristãs mais fraternas onde se faça este caminho: andar na verdade da humildade
que nos liberta de nós mesmos para amar mais e melhor aos demais, especialmente
aos mais pobres! Nada há mais belo do que viver e morrer como filhos desta
Igreja mãe!
Precisamente porque é mãe de portas abertas, a Igreja sempre está em
caminho para os homens para levar-lhes aquela «água viva» (cf. Jo 4,10) que
rega o horto do seu coração sedento. A santa escritora e mestra de oração foi
ao mesmo tempo fundadora e missionária pelos caminhos de Espanha. A sua
experiência mística não a separou do mundo nem das preocupações das pessoas.
Pelo contrário, deu-lhe novo impulso e coragem para a ação e para os deveres de
cada dia, porque também «entre as panelas anda o Senhor» (Fundações 5,8). Ela
viveu as dificuldades do seu tempo – tão complicado – sem ceder à tentação do lamento amargo, mas antes aceitando-as na fé
como uma oportunidade para dar um passo mais no caminho. E é que, «para fazer
Deus grandes mercês a quem de verdade o serve, sempre há tempo» (Fundações
4,6). Hoje Teresa diz-nos: Reza mais para compreender bem o que acontece à tua
volta e assim atuar melhor. A oração vence o pessimismo e gera boas iniciativas
(cf. Moradas VII, 4,6). Este é o realismo teresiano, que exige obras em vez de
emoções, e amor em vez de sonhos, o realismo do amor humilde ante um ascetismo
trabalhoso! Algumas vezes a Santa abrevia as suas saborosas cartas dizendo:
«Estamos de caminho» (Carta 469,7.9), como expressão da urgência em continuar
até ao fim com a tarefa começada. Quando arde o mundo, não se pode perder o
tempo em negócios de pouca importância. Oxalá contagie a todos esta santa
pressa para sair e percorrer os caminhos do nosso próprio tempo, com o Evangelho
na mão e o Espírito no coração!
«Já é tempo de caminhar!» (Ana de São Bartolomeu, Últimas ações da vida
de santa Teresa). Estas palavras de santa Teresa de Ávila às portas da morte
são a síntese da sua vida e convertem-se para nós, especialmente para a família
carmelita, para os habitantes de Ávila e para todos os espanhóis, numa preciosa
herança a conservar e enriquecer.
Querido Irmão, com a minha saudação cordial, a todos vos digo: Já é
tempo de caminhar, andando pelos caminhos da alegria, da oração, da
fraternidade, do tempo vivido como graça! Percorramos os caminhos da vida pela
mão de santa Teresa. Seus passos conduzem-nos sempre a Jesus.
Peço-vos, por favor, que rezem por mim, pois necessito. Que Jesus vos
abençoe e a Virgem Santa vos proteja.
Frei Fernando Millán
Romeral, O. Carm. Prior Geral.
Uno-me a todos nesta ocasião especial na qual vos reunis para celebrar o V
centenário do nascimento de Santa Teresa. É importante, como haveis bem
programado, não somente celebrar liturgicamente esta memória, mas também
refletir sobre a figura e o legado humano e espiritual deixado por santa Teresa
para o Carmelo e para a Igreja.
Neste ano, no qual a Igreja convoca a
Vida Religiosa, em suas diversas formas e expressões, a refletir sobre a
própria identidade e missão, o Santo Padre nos convida a assumir três atitudes
fundamentais: “olhar com gratidão o passado” e recordar a própria história como elemento necessário para manter
viva nossa identidade;“viver com
paixão o presente”, deixando-nos interpelar pelo Evangelho e fazendo dele o
referencial ultimo para o radicalismo de vida a ser testemunhado; “abraçar com esperança o futuro”,
radicados naquela “esperança que não desilude”, com a consciência de que o
Espírito continua a impelir esta porção do Povo de Deus, que é a vida
religiosa, a fazer grandes coisas. Neste contexto, a mensagem e o testemunho de
Santa Teresa podem servir como fonte de inspiração para acolhermos com
responsabilidade e alegria os grandes desafios aos quais estamos submetidos e
construir respostas corajosas em meio às vicissitudes do tempo e da história.
Com sabedoria e maestria, ela soube conjugar o passado, o presente e o futuro para dar luz à sua grande obra de
serviço à Igreja.
Aproximamo-nos sempre de Teresa com santa reverência, aceitando o convite a
entrar em diálogo profundo e sincero com sua experiência pessoal da qual emerge
a autoridade do seu magistério espiritual. Tomados pela mão, na qualidade de
aprendizes, devemos nos deixar conduzir por ela, fazendo nosso o seu itinerário
humano e espiritual, descobrindo com ela as vias para a maturação de nossa
vocação, radicados em nossa existência concreta, muitas vezes atormentada, mas
escolhida por Deus como percurso necessário para a conquista daquela liberdade
que se transforma em experiência de pertença a um único e inalienável amor.
Santa Teresa
viveu intensamente sua vida em comunhão com os grandes dramas eclesiais do seu
tempo. Sentiu o peso da mediocridade que muitas vezes invade a vida daqueles
que assumiram a responsabilidade de viver com radicalidade a própria vocação.
Como resposta pessoal, ela travou batalhas interiores para reencontrar forças
para viver a audácia de uma fidelidade sem restrições. Deixou-se encontrar por
aquele que sempre leva a sério o desejo genuíno de fidelidade do coração
humano, descobriu-se amada apesar de suas fraquezas, reformou-se e compreendeu
que não podia conter em si a novidade de sua descoberta. Encontrou-se com
outros que compartilhavam o seu desejo e foi ousada em sua capacidade de romper
com os esquemas de uma vida religiosa por demais estabelecida. Como fruto
maduro do encontro entre natureza e graça, descobriu a alegria de ser discípula
e, com corajosa simplicidade buscou as fontes de uma vida “sem mitigações” como
caminho para a reforma e renovação do Carmelo.
Depois de cinco
séculos, encontramo-nos, como Santa Teresa, diante de encruzilhadas que nos
desafiam em todos os níveis: pessoal, comunitário e institucional. O mundanismo
material e espiritual, invocado pelo Santo Padre como uma das doenças de nossa vida
de discípulos, armou sua tenda e entre nós, roubando-nos a alegria, a paixão e
a coragem da fidelidade, transformando nossa existência em um “empasto” de
superficialidade e mediocridade. Como Santa Teresa, se quisermos recuperar a
beleza de nossa vida, devemos assumir o esforço de “nadar contra a corrente”,
reformando-nos para reformar, recuperando a beleza e a alegria de nossa
condição de discípulos, ofuscada pela tentação de autossuficiência e pela
ilusão de que, com nossas ideias e nossos talentos, podemos atingir a perfeição
em nossa vida.
Santa Teresa nos
ensina a via régia da humildade, virtude adquirida depois de muito penar e fruto
maduro da consciência de que é Deus quem tem em mãos o timão de nossa
existência e de nosso projetos. Resta-nos, finalmente, deixar brotar do nosso
coração a pergunta-resposta com a qual Teresa exprime sua disponibilidade sem
reservas aos caminhos de Deus: “Vossa
sou, para vós nasci, que mandais fazer de mim”? Sua vida, sua doutrina e seu carisma
espiritual, marcados pela singular capacidade de “penetrar com profundidade o
mistério de Cristo e o conhecimento da alma humana” (Paulo VI), possuem uma
atualidade incontestável para os homens e mulheres de nosso tempo marcados por
aquela inquietação interior que os impele a buscar um “algo a mais” como
qualificativo para a própria experiência de fé.
Que, Santa
Teresa, mestra de oração e de vida, com seu exemplo e sua doutrina, incite os
vossos corações a percorrer a fascinante estrada da intimidade com Deus, que se
transforma em serviço e missão para a Igreja e para o mundo.
Mas"'o sant' guappone"encorajou ou não oPapa Francisco? Três dias depois da visita, ainda
há debate emNápoles: o sangue da ampola
dissolvido pela metade significa queSão Januário[San
Gennaro] encoraja o papa a avançar no seu caminho ou lhe sugere mais
cautela? É um "meio fracasso" ou um "meio milagre",
como interpretou o pontífice, servindo-se da dissolução incompleta para
encorajar os fiéis a darem mais?
A reportagem é deGian Antonio Stella, publicada
no jornalCorrieredella Sera, 25-03-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
O fato é que fiéis, não crentes e ateus, 17 séculos
depois do martírio do bispo decapitado, ainda estão lá discutindo em torno do
"milagre" e da fé popular que o rodeia. Tão arraigada a ponto de
levar a própria Igreja, recalcitrante em relação a certas devoções que têm algo
de pagão, a se deixar "conquistar".
Tudo se deve, escreveuPietro Treccagnoli, ao perfil
do santo: "São Januárioé um santo interclassista e
interconfessional, seguramente pop, com uma iconografia que atravessou os
séculos, dagrande arteao
artesanato mais grosseiro, passando pelo barroco ao merchandising".
Um santo que "nunca diz não. Mas, até sábado
passado, havia dito não justamente aos papas. Nada de milagre paraPio IX,João Paulo IIeBento XVI. Na presença deFrancisco,homem do Sul, ele mudou de ideia".
Um santo capaz de apaixonar até mesmoAlexandre Dumas, que lhe dedicou páginas
memoráveis: "São Januárionão teria existido semNápoles, nem Nápoles poderia existir sem São
Januário. É verdade que não existe nenhuma cidade no mundo que, mais vezes do
que esta, foi conquistada e dominada pelo estrangeiro; mas, graças à
intervenção ativa e vigilante do seu protetor, os conquistadores desapareceram,
eNápolespermaneceu.
Os normandos reinaram sobre Nápoles, masSão Januárioos expulsou. Os suábios reinaram sobre
Nápoles, masSão Januárioos expulsou. Os angevinos...".
Nada de sorrisinhos, explicouLuciano De Crescenzo, que é engenheiro, mas, antes
ainda, napolitano: "Os napolitanos podem parecer um povo de crédulos, que
confiam na lenda deSão Januárioe do seu sangue", mas, "se
realmente os napolitanos são tolos, não vão além damédia nacional.
Então, o que dizer dos horóscopos, do zodíaco, que enlouquecem nos jornais até
muito notáveis, nos telejornais, na web? Digam-me vocês se são mais tontos os
napolitanos que acreditam no sangue que se dissolve, ao qual, ao menos, podemassistirao vivo, ou se são mais imbecis
aqueles que esperam se apaixonar porqueVênusentrou no seu signo".
Ocorre no dia 28 deste mês de Março, 500
anos do nascimento de Santa Teresa de Jesus, ou Santa Teresa de Ávila, como é
também conhecida esta Virgem e Doutora da Igreja. A pedido do Superior Geral
dos Carmelitas Descalços, o Papa Francisco aceitou que nos dias 27 e 28todas as comunidades carmelitas do mundo, dediquem
uma hora de oração pela paz na Terra.
O mundo está em chamas, gritava Teresa
perante os conflitos e divisões que devastavam a sociedade do seu tempo – disse
o Superior Geral – frisando que também o nosso mundo está em chamas e, por
vezes, não temos bastante sensibilidade ou então a fé necessário para acreditar
que podemos apagar o fogo que nos circunda. Absortos, não raro, pelas nossas
pequenas coisas quotidianas e pelos problemas mais imediatos, nos esquecemos de
levantar o olhar para escrutar o horizonte e descobrir os sinais de sofrimento
presentes na nossa sociedade: guerras, conflito, terrorismo, violência pública
e doméstica, gritos de dor, silenciadas ainda antes de poderes ser lançadas –
prosseguiu o P. Savério Canistrá,
remando que não podemos atribuir a responsabilidade de resolver os problemas
apenas aos governos. A voz de Santa Teresa tem de ecoar nos nossos corações,
levando a não perder-se em coisas banais, mas a abrir os nossos corações ao
perdão e a rezar pela paz no mundo.
O Superior anunciou com grande alegria
aos seus confrades, a adesão do Papa a esta iniciativa de oração pela paz.
Aliás, esta manhã, no final da Missa em Santa Marta, o Papa referindo a esta
iniciativa de oração – disse:
“Uno-me de coração a esta iniciativa, a
fim de que este amor de Deus vença os
incêndios de guerra e de violência que afligem a humanidade e em todo o lado
prevaleça o diálogo sobre o recontro armado. Santa Teresa de Jesus interceda
por esta nossa suplica.”
Está em curso desde 15 de Outubro
passado uma peregrinação por trinta países dos cinco continentes, das relíquias
de Santa Teresa, peregrinação denominada “Caminho de Luz”. Os quatro principais
peregrinos e artífices de “Caminho de Luz” encabeçado pelo P. António
Gonçalves, foram recebidos no passado dia 11 pelo Papa Francisco, o qual beijou
o bastão da Santa dizendo com um inconfundível acento argentino “A velha
caminha com isto”.
Durante essa audiência o Papa recordou o
5º centenário de nascimento de Santa Teresa como exemplo de apostolado
exprimindo o desejo de que o seu vigor espiritual estimule a dar testemunhar
com alegria a fé.
O acolhimento da parte do Papa
representou o momento mais alto dessa longa peregrinação mundial da relíquia de
Santa Teresa que se conclui precisamente no 28 em Ávila. A partir de Abril “Caminho de Luz iniciará um novo percurso que
se prolongará até Julho, passando pela fundações teresianas e outros lugares
emblemáticos dos Carmelitas Descalços em Espanha.
Os responsáveis do “Caminho da Luz”
conferiram ao Papa Francisco o titulo de “Peregrino de Honra” do Percurso
Teresiano “Do Berço ao Sepulcro”. Foi também oferecido ao Papa, em nome da
Associação Turismo da Moranha que patrocinou a peregrinação a “Pluma Teresiana
2015” como peregrino modelo da Igreja e como aquele que convida ao caminho de
oração de Santa Teresa.
Charge do
cartunista Vitor Teixeira sobre os Gladiadores do Altar, da Igreja Universal do
Reino de Deus.
A assessoria jurídica da Igreja Universal do Reino
de Deus pressionou extrajudicialmente o cartunista Vitor Teixeira e retirar de
sua página no Facebook uma charge que, segundo ela, incita a intolerância
religiosa.
A charge, segundo seu autor, era uma crítica aos
Gladiadores do Altar, grupo de fieis da igreja que apareceram recentemente em
diversos vídeos divulgados nas redes sociais marchando, batendo continência e
usando uniformes análogos aos do Exército Brasileiro.
O grupo virou alvo de críticas e de denúncias ao
Ministério Público por ter sido visto como análogo a uma organização
paramilitar. A Universal nega as acusações e diz que o grupo tem como objetivo
"pregar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo".
Na notificação, a advogada frisa que o grupo
promove atividades "culturais, sociais e esportivas para auxiliar no
resgate e amparo de populações de rua, viciados, jovens carentes e em conflito
com a lei".
No desenho feito por Teixeira, um homem com
capacete de gladiador e uma camiseta com o símbolo da Universal enfia uma
espada em uma mãe de santo.
"Minha intenção foi denunciar uma empresa que,
a meu ver, está endossando a criação de uma suposta milícia. E não sou apenas
eu que acho isso, tanto que o assunto foi levado ao Ministério Público. Estou
debatendo a iniciativa de uma empresa, com sede internacional, com um poderoso
grupo de mídia por trás de si e com uma assessoria jurídica que usou todo seu
poder contra um cartunista independente. Eles dizem que não irão me processar
porque retirei a charge 'voluntariamente', mas que opção eu tinha?"
Teixeira disse ainda que a imagem da mãe de santo
foi usada devido ao tratamento que a igreja dá às religiões de matriz africana.
Em 2007, o bispo Edir Macedo, fundador da Universal, sofreu processo do
Ministério Público e teve seu livro "Orixás, Caboclos e Guias, deuses ou
demônios?" retirado temporariamente de circulação. No entanto o TRF da 1ª
região entendeu que a obra, apesar de conter expressões e mensagens preconceituosas,
deveria voltar a circular no intuito de prevalecer a liberdade de expressão,
garantida pelo artigo 5º da Constituição.
"Quando vi os vídeos daqueles gladiadores,
pensei que se existia um grupo que seria alvo deles certamente seriam as
religiões africanas, que já são atacadas em seus cultos", disse o
cartunista. Na notificação, a Universal nega que incite ódio contra essas
religiões. Diz apenas que "não concorda" com elas.
Liberdade de Expressão
Logo após o cartunista divulgar em seu perfil no
Facebook a notificação que recebera, a assessoria jurídica da igreja enviou
outra correspondência dizendo que a Universal "não trabalha nem nunca
trabalhou baseada em ameaças" e que "a pretexto da liberdade de
expressão, não é admissível a incitação ao ódio religioso".
Procurada pela reportagem do UOL sobre o
caso, a assessoria de imprensa Igreja Universal do Reino de Deus respondeu:
"O autor produziu e publicou uma ilustração
acusando a Universal assassinar, ou de pretender matar praticantes de religiões
de matriz africana. Incitar o ódio é crime. Acusar falsamente de cometer um
crime, também é crime. No estado de direito, a liberdade de expressão não
autoriza ou legitima absurdos como tal imagem horrenda, veiculada de modo
irresponsável. Voluntariamente, o chargista apagou a postagem, certamente por
reconhecer o erro que cometeu. A Universal respeita e defende as liberdades
constitucionais de crença, de culto e de opinião. Mas jamais aceitará calada
ataques delinquentes de preconceito e rancor. Casos semelhantes terão
tratamento igual perante a Justiça."
Mt 6,6: “Quando você rezar, entre no seu quarto, feche a porta, e reze
ao seu Pai ocultamente; e o seu Pai, que vê o escondido, recompensará você”.
O Beato Frei Titus Brandsma
escreveu que “a oração é vida, não um oásis no deserto da vida’. A oração é uma
parte essencial do carisma carmelitano. Espera-se que sejamos homens de oração
e que formemos comunidades orantes. O Carmelo é certamente símbolo da oração
para a maioria das pessoas em todo mundo.
A Ratio (art. 29) faz uma
distinção entre oração e contemplação, embora afirme que na tradição
carmelitana a oração foi muitas vezes identificada com a contemplação. A oração
é a porta para a contemplação (Castelo Interior, 1,7). Na Regra, temos um
equilíbrio entre oração em comum e tempo sozinhos com Deus na cela. A oração
litúrgica certamente é a forma mais alta de oração já que é a oração de Cristo
dirigida ao Pai no Espírito Santo. Quando celebramos a liturgia estamos
partilhando dessa oração, dessa comunicação íntima entre o Pai e o Filho, que é
o Espírito Santo.
Para o carmelita, a celebração
diária da liturgia é muito importante. Somos incumbidos de celebrar o ofício
divino para o mundo em nome da Igreja. Esse é um compromisso muito sério que
aceitamos na profissão solene. Contudo, celebrar a liturgia em certos momentos
do dia não é o suficiente. A liturgia deve influenciar cada momento de nossa
vida. A idéia da Liturgia das Horas é santificar todo o dia e recordar a
presença de Deus a cada momento. É muito importante viver a Eucaristia,
aprender com o exemplo de Cristo a nos doarmos aos outros, a viver na presença
de Deus. Logo, a Eucaristia e a Liturgia das Horas não são celebrações
momentâneas, mas o coração de cada dia. Na liturgia ganhamos força para servir
ao Povo de Deus e para viver em harmonia com nossos irmãos e irmãs.
Gostaria de enfocar a oração
pessoal. Se vamos crescer em nosso relacionamento com Deus, é essencial termos
um tempo sozinhos com Deus. Existem muitas maneiras de rezar, mas todas elas se
voltam para estabelecer uma amizade íntima com Jesus Cristo. Santa Teresa
d’Ávila nos advertiu que devemos fazer tudo para aumentar nosso amor pelo
Senhor. O único modo de julgar a oração é se ela transforma nossas vidas. Isto
é: estamos tratando as outras pessoas um pouco melhor? As Constituições nos
lembram que: “Uma vida de oração também
exige que examinemos nosso modo de vida à luz do Evangelho, para que a oração
possa influenciar tanto nossas vidas pessoais quanto as vidas de nossas
comunidades” (art. 81). O modo como rezamos depende muito de nossas
personalidades e do tipo de relacionamento que temos e queremos ter com Deus.
Talvez a Lectio Divina seja o
modo mais tradicional de crescer no relacionamento com Deus. Existem muitas
formas de usar esse modo de oração. Ela pode ser usada tanto comunitária quanto
individualmente. Podemos usá-la como a estrutura de todo nosso dia. Na Missa ou
na Oração da Manhã lemos a Palavra de Deus. Durante o dia podemos recordar essa
Palavra em determinados momentos, repetindo uma frase curta ou mesmo uma única
palavra. Os eremitas no Monte Carmelo meditavam dessa forma. Ás vezes isso pode
permitir que nossos corações falem diretamente com Deus respondendo aos acontecimentos
de nosso dia. Quando chega o momento da oração pessoal, podemos simplesmente
abandonar nossos pensamentos e palavras e repousar em Deus.
A Prática da Presença de Deus
Foi o carmelita descalço de
Lourenço da Ressurreição quem primeiro viveu e tornou famosa a Prática da
presença de Deus. Essa prática é muito simples e, ao mesmo tempo, muito
difícil. A Regra nos lembra: “que tudo
seja feito na Palavra do Senhor” (Regra 19). Isso é um eco da carta aos
Colossenses: “E tudo o que vocês fizerem
através de palavras ou ações, o façam em nome do Senhor Jesus” (Cl 3,17). A
prática da presença de Deus é um método de oração simples porque não requer
qualquer regra complicada. Significa simplesmente viver na verdade. Deus está
presente em cada momento de nossas vidas, mantendo-nos vivos. Essa prática
envolve partilhar com Deus tudo que acontece com você. Não é necessário
conversar com Deus apenas sobre coisas sagradas. Podemos falar com Deus sobre o
que nos interessa e partilhar com Deus o que acontece conosco. Lourenço da
Ressurreição conversou com Deus sobre todos os detalhes práticos de seu
trabalho como cozinheiro e tesoureiro comunitário. Santa Teresa d’Ávila nos
lembra que Deus caminha entre os utensílios da cozinha. Deus está no meio da
realidade que nos rodeia, seja ela qual for. Nós não trazemos Cristo para as
circunstâncias em que vivemos. Ele está lá antes de nós.
A prática da presença de Deus é
um modo de continuar o diálogo com Deus durante todo o dia. O Concílio Vaticano
Segundo enfatizou o perigo da divisão entre fé e vida. Elas são e devem ser
uma. Partilhar os eventos do dia é um modo de permitir que a Palavra de Deus
influencie tudo que fazemos, pensamos ou dizemos. Se não temos vergonha de
fazer ou dizer alguma coisa na presença de Deus, estamos vivendo uma ilusão ou
nossas ações e palavras estão realmente de acordo com a vontade de Deus. Nosso
falso eu levantará todos os tipos de razões para nos assegurar de que estamos
certos e que não precisamos de mudança. Para vivermos na presença de Deus e trilharmos
o caminho espiritual, a honestidade é uma virtude algumas vezes dolorosa, mas
essencial.
A devoção a Maria, a Mãe de Jesus.
A devoção mariana está
intimamente ligada à Ordem Carmelitana. Maria é a Padroeira, Mãe e Irmã dos
Carmelitas e cada um de nós deve pôr em prática seu próprio relacionamento com
ela. O rosário é uma devoção popular resistente. Existem inúmeras maneiras de
usá-lo para a oração. Ele só se limita à criatividade de cada pessoa. O símbolo
mais importante da devoção mariana entre os carmelitas é o escapulário. Foram
feitas diversas tentativas de atualizar esse símbolo para nossos dias. Pela
ocasião do 750º aniversário da devoção ao escapulário, o Papa escreveu uma
carta na qual descreveu seus dois elementos fundamentais. O escapulário faz
parte de todo conjunto da espiritualidade carmelitana e nos lembra
especificamente a presença constante de Maria em nossas vidas. Ela é a mãe da
vida divina dentro de nós e nos acompanha até que essa vida cresça e nos
transformemos em Deus. Esse
é o objetivo de nossa existência. O segundo elemento fundamental da devoção ao
escapulário é nosso compromisso de assumir as virtudes de Maria.
No Evangelho que usamos para a
Solenidade de Nossa Senhora do Monte Carmelo, ouvimos as palavras que Jesus
disse na cruz ao dar Maria ao discípulo amado como mãe a um filho. Então o
evangelista nos fala que o discípulo assumiu Maria “para si”. Geralmente essa
frase é traduzida como “a recebeu em sua casa”, mas a língua Grega não queria
dizer isso. Acredito que o texto diz que o discípulo amado, que representa
todos nós, levou Maria para o local mais precioso para ele. O que caracteriza o
discípulo amado acima de tudo é seu relacionamento com Jesus. Logo, ele colocou
Maria no centro do seu relacionamento com Jesus e Maria colocou o discípulo no
centro do seu relacionamento com seu Filho.
A Oração Silenciosa
A Ratio nos diz que a oração é
essencialmente um relacionamento pessoal, um diálogo entre Deus e o ser humano.
Somos convidados a cultivá-la e a encontrar tempo e espaço para estarmos com o
Senhor. A amizade só pode crescer através “estando
muitas vezes a sós com quem sabemos que nos ama” (Santa Teresa d’Ávila –
Livro da Vida 8,5) (Ratio 31). A Ratio continua dizendo que além de todas as
questões da forma da oração, o importante é cultivar um relacionamento profundo
com Cristo. Ela cita Santa Teresa mais uma vez dizendo que a oração perfeita “não consiste em muito pensar, e sim em muito
amar” (Fundações 5,2; Castelo Interior 4, 1, 7) (Ratio). As Constituições
nos lembram que: “A oração em silêncio é
de grande ajuda no desenvolvimento de um espírito de contemplação. Portanto,
devemos praticá-la diariamente por um período de tempo apropriado” (Art.
80).
Então o que é a oração em
silêncio e o que é um período de tempo apropriado? Nossas vidas são muito
agitadas, mas precisamos estabelecer prioridades. A oração é absolutamente
essencial. O período de tempo depende do relacionamento da pessoa com Deus e,
até certo ponto, depende da criatividade em encontrar espaço e tempo.
Todo relacionamento tem seu
próprio ritmo. Geralmente, após um período de tempo, um relacionamento tende a
ser menos complicado quando as duas pessoas se acostumam com o jeito uma da
outra. Quando você não conhece bem uma pessoa, é difícil sentar em silêncio com
ela. Temos a tendência de conversar. Ao conhecermos melhor a pessoa, o
relacionamento torna-se mais fácil e sentar-se no silêncio amistoso torna-se
normal e agradável. Quando entramos em harmonia com o outro podemos começar a
ler seu silêncio. Trata-se de um relacionamento íntimo. O silêncio pode ser
mais eloqüente do que muitas palavras.
É muito normal que no decorrer do
tempo nossa oração se torne mais e mais simples. Pode ser que já tenhamos uma
palavra que resuma tudo que queremos dizer a Deus. Dizer essa palavra significa
milhares de coisas. Jesus abriu seu coração a seus discípulos e partilhou
conosco o nome especial que tinha para Deus. Esse nome é “Abba”. Essa palavra
contém todo relacionamento de Jesus com o Pai. É muito útil ter nosso próprio
modo de nos relacionarmos com Deus, para que possamos lembrar durante o dia da
presença constante de Deus conosco ao repetirmos uma simples palavra ou frase.
Cada relacionamento com o Senhor
é diferente. Se você aproveita o máximo em sentar-se e conversar com o Senhor,
ou de meditar sobre um tema, ou de ler e pensar sobre uma passagem da
Escritura, ou de refletir sobre um livro espiritual, isso é bom. Por favor,
continue a fazer isso. No entanto, podem existir momentos numa jornada de
oração quando a pessoa se torna um pouco confusa e procura para onde ir. Também
é comum ser levado ao silêncio durante a oração e, a princípio, isso pode
parecer estranho e assustador. Não sabemos o que fazer e temos a sensação de
estarmos perdendo tempo. A grande tentação é deixar de lado a oração porque não
podemos mais encontrar o consolo que tivemos e ceder à sensação de perda de
tempo. Como Santa Teresa d’Ávila, insisto que você não ceda a essa tentação e
tenha uma “determinação muito determinada” de agarrar-se à oração especialmente
quando ela não está de acordo com os seus planos.
É uma experiência muito comum
passar por períodos prolongados de aridez na oração. Mais uma vez sentimos como
se estivéssemos desistindo ou chateados. Sentimos que Deus foi embora não
deixando endereço. Se, de alguma forma, mesmo no meio da confusão e da aridez,
estamos convencidos do valor da oração, devemos apenas nos sentar na poeira e
esperar por Deus. Em ocasiões muito estranhas em que um pensamento santo flutua
sobre o rio de nossa consciência, temos a tendência de nos precipitarmos sobre
ele e sufocá-lo, exaurindo-o por estarmos ressecados. No entanto, existe outra
forma de lidar com esses pensamentos santos ocasionais. Não importa o quanto
possam parecer santos, eles são nossos pensamentos, por isso subtende-se
que deixamos que eles venham ou não. Se esses pensamentos forem verdadeiramente
de Deus, retornarão em outro momento.
Existem muitos métodos de esperar
por Deus no silêncio. Gostaria de propor um método de oração que pode fazer com
que o silêncio seja muito produtivo e que pode nos ajudar a esperar por Deus no
silêncio. Trata-se de um método de oração cristão baseado na rica tradição
contemplativa e, especialmente, num livro clássico dessa tradição, “A Nuvem do
Não-Saber”, um escrito anônimo do século XIV. Não estou sugerindo que devemos
deixar de lado outras formas pessoais de oração, mas esse método pode
aprofundar esses outros métodos e torná-los mais produtivos. O mais importante
para esse tipo de oração é estar convencido de que Deus não está longe, mas
muito perto. Deus faz sua morada em nós (cf. Jo 14,23).
Esse método de oração pode ser
chamado de oração do silêncio ou de oração do desejo porque, no silêncio, nos
voltamos para Deus com nosso desejo. Ele também foi chamado de oração em
segredo, seguindo o conselho de Jesus para entramos em nosso quarto e rezarmos
ao Pai ocultamente (M 6,6). A primeira fase dessa oração é encontrar um local
adequado onde as interrupções sejam reduzidas ao mínimo. Depois se coloque numa
posição confortável que você possa manter durante todo tempo da oração.
Recomenda-se um mínimo de 20 minutos. Pode-se começar essa oração com uma
pequena leitura da Bíblia. Não é hora de pensar no significado das palavras.
Esse tipo de meditação fica para outra hora. Agora é hora de simplesmente estar
na presença de Deus e de consentir na ação divina com nossa intenção. Então,
com os olhos fechados, introduza gentilmente uma palavra sagrada em seu
coração. Uma palavra sagrada é aquela que tem um grande significado para você
em seu relacionamento contínuo com Deus. A palavra sagrada deve ser sagrada
para você. De acordo com o ensinamento de “A Nuvem do Não Saber”, é melhor que
essa palavra seja breve, de uma sílaba se possível. Sugiro algumas palavras: “Deus, Senhor, Amor, Jesus, Espírito, Pai,
Maria, Sim”. Escolha uma palavra significativa para você. Talvez você pense
em uma, se pedir a ajuda de Deus.
Quando peço que você introduza
uma palavra sagrada no seu coração, não estou sugerindo que você a pronuncie
com seus lábios, ou mesmo mentalmente, mas acolha-a dentro de você sem pensar
em seu significado. Não é necessário forçar a palavra sagrada. Ela deve ser
muito gentil. A palavra sagrada não é um mantra a ser repetido constantemente.
A palavra concentra nosso desejo e sempre a usamos do mesmo modo simplesmente
voltando nosso coração para o Senhor assim que percebemos que estamos
distraídos. Essa é uma oração de intenção e não de atenção. Nossa intenção é
estar na presença de Deus e consentir na ação divina em nossas vidas. A palavra
sagrada expressa essa intenção e, assim, quanto tomamos consciência de que
estamos pensando em algo diferente, podemos decidir se continuamos com a
distração por ser mais interessante, ou se voltamos nossa intenção para a
presença de Deus e consentimos com aquilo que Deus quer realizar em nós. Voltamos nosso
coração para Deus pelo uso da palavra sagrada. Ela é um símbolo de nossa
intenção. Não é necessário repeti-la freqüentemente, apenas quando desejamos
voltar nosso coração para Deus.
Durante essa oração, não é hora
de conversar com Deus usando belas palavras ou mesmo de ter pensamentos santos,
mesmo que pensemos que são inspirações de Deus. É melhor deixar essas coisas
para outro momento. Nosso silêncio e nosso desejo valem mais do que palavras.
Através da palavra que
escolhemos, expressamos nosso desejo e nossa intenção de permanecer na presença
de Deus e de consentir com a ação divina purificante e transformadora. Voltamos
para a palavra sagrada, que é o símbolo de nossa intenção e de nosso desejo,
apenas quando tomamos consciência de estarmos envolvidos em algo diferente.
A oração consiste simplesmente em
estar na presença de Deus sem pensar em nada em especial. Se você
compreende como estar em silêncio com outra pessoa sem pensar ou fazer algo em
especial, então você será capaz de compreender do que trata a oração. Nem todas
as pessoas se adaptam a esse método de oração. Se você sentir um chamado
interior para um silêncio maior, ele pode ajudá-lo.
No final do período que você
decidiu dedicar à oração, talvez você possa dizer um Pai Nosso ou outra oração
lentamente. É bom permanecer em silêncio por alguns momentos para se preparar
para levar o fruto de sua oração para sua vida pessoal.
Pauta prática para a Oração em Segredo:
1- Escolha uma palavra sagrada
como símbolo de sua intenção em consentir na presença e na ação de Deus dentro
de você.
2- Sente-se confortavelmente e,
com os olhos fechados, fixe brevemente e introduza a palavra sagrada
silenciosamente como símbolo de seu consentimento da presença da ação de Deus
dentro de você.
3- Quando estiver envolvido com
seus pensamentos, volte sempre gentilmente à palavra sagrada.
4- No final do período de oração,
permaneça em silêncio com os olhos fechados por alguns minutos.
Novo lançamento da L&PM, "Que
Seja em Segredo" reúne poemas eróticos de autoria de freiras ou inspirados
nelas e "escritos na devassidão dos conventos brasileiros e portugueses
dos séculos 17 e 18", como descreve a própria editora. Trata-se de um
relançamento da obra, que já saiu pela editora Dantes nos anos 1990 e havia
esgotado.
Os escritos são de uma época em que a
vocação religiosa não era o principal motivo para jovens serem enviadas aos
conventos. Naquele tempo, qualquer mulher considerada "difícil" podia
acabar enclausurada. Portanto, esse era muitas vezes o destino das moças
excessivamente sexuais, rebeldes, homossexuais, bastardas, das amantes
indesejadas e das que perdiam a virgindade antes de se casar ou até mesmo por
estupro. Às vezes, até garotas que não eram consideradas problemáticas podiam
acabar passando o resto da vida em um convento, graças ao status que as
famílias conseguiam por ter uma filha freira.
Mas essa clausura não era tão hermética
quanto se imagina. Alguns homens iam encontrar as freiras nas missas ou nos
próprios conventos, atraídos justamente pela "proibição" representada
por elas e pelas fantasias eróticas que isso despertava. Nascia assim a figura
do "freirático", ou "aquele que frequenta freiras". Esse
sujeito podia ter com as religiosas relações que iam desde platonismo inocente
até encontros tórridos que não deviam nada a "Cinquenta Tons de
Cinza", como no relato abaixo.
As religiosas do convento de Santa Ana
de Vila de Viana tinham nas proximidades várias casinhas aonde iam, fora de
clausura, com pretexto de estarem ocupadas a cozinhar, e recebiam ali homens
que entravam e saíam de noite, denunciou em 1.700 o rei, em Lisboa. Nas celas
os catres rangiam, os corpos alvos das freiras suavam sob o calor dos nobres,
estudantes, desembargadores, provinciais, infantes. Os gemidos eram abafados
com beijos
Ana Miranda, em trecho do texto de
introdução de "Que Seja em Segredo"
"Poemas luxuriosos, românticos, por
vezes sarcásticos, escritos para e por freiras, em plena Inquisição, documentam
tal costume dessa época em que a interdição sexual teve a função de
afrodisíaco. Como consequência, celas e conventos eram ambientes de grande
licenciosidade", define a escritora Ana Miranda, vencedora do prêmio
Jabuti em 1990 por "Boca do Inferno" e responsável pela pesquisa e o
excelente texto de introdução da obra, que não apenas contextualiza o leitor,
como também faz uma belíssima reflexão sobre desejo e sensualidade.
Entre os freirático notáveis citados em
"Que Seja em Segredo" estão o rei de Portugal dom João 5º e o poeta
Gregório de Matos. O primeiro era um entusiasta tão inveterado das religiosas
que chegou a mandar construir uma passagem secreta entre sua casa na cidade de
Odivelas e o convento local, para que pudesse "frequentar as freiras"
com maior discrição e receber leituras de poemas com freiras sentadas em seu
colo.
Já Gregório de Matos deixou depoimentos
de suas aventuras com as "cortesãs enclausuradas" no Brasil. Incluindo
o curioso relato de quando a cama de uma freira com quem estava literalmente
pegou fogo. Decerto resultado de uma vela caída, mas o poeta, conhecido como um
escritor "maldito", atribuiu as chamas ao "amor que queimava os
corpos através dos espíritos".
As freiras, no começo, não respondiam às
cartas, e apenas os mais persistentes prosseguiam até receber uma resposta, um
bilhete recortado com tesoura, salpicado com água de córdova ou outro perfume
caro, dizendo que não podia amar, que era muito feia, coisas assim. Mais uma
carta de lá, outra de cá, uma cena de ciúmes, de rivalidade, e estava consumada
a aproximação. 'Já que tem de ser, que seja em segredo', escrevia finalmente a
freira ao pretendente.
Ana Miranda, em trecho do texto de
introdução de "Que Seja em Segredo"
Belo Horizonte- MG. Casa de Retiro São José. De 26
-30 de janeiro-2015.
Tema: 500 Anos de Santa Teresa de Jesus.
Pregador:
Professor Francisco Catão, São Paulo.
A pedagogia
de Santa Teresa de Jesus vista por um teólogo nos dias de hoje
Por
Professor Francisco Catão, São Paulo.
3ª
Parte: O Caminho de Teresa.
Teresa completava 41 anos. Sua vida
espiritual atingira a maturidade. Assistida por diversos “letrados”, principalmente
dominicanos e jesuítas, sentira necessidade de harmonizar a vida conventual com
as exigências da oração.
Sonhou, então com um pequeno mosteiro em
que as religiosas não fossem tão numerosas, podendo se conhecer pessoalmente e
se amar de fato, umas às outras, ao contrário do mosteiro onde vivia, com quase 200 religiosas que
praticamente se ignoravam como pessoas, dando prioridade às observâncias
claustrais e ao culto, e em que as amizades pareciam sempre suspeitas.
O importante para Teresa era que, na
comunidade, o amor tivesse sempre a primazia – “vede como se amam!” dizia-se dos primeiros cristãos – amor sobre
cujas bases as religiosas pudessem edificar sua vida pessoal de intimidade com
Deus, que vem a nós na pessoa do próximo.
É importante registrar essa percepção de
Teresa, como que antecipando nossos tempos, em que a necessidade de centrar o
Evangelho no amor do próximo é posta em evidência pelo papa Francisco, que vê,
no segundo mandamento, o caminho que nos leva ao primeiro de acordo o Evangelho,
que o qualifica de “semelhante ao primeiro”(cf.
Mt 22,39).
Além de favorecer a perfeição da
santidade, um convento assim constituído seria como que um reduto da fidelidade
a Jesus, capaz de sustentar espiritualmente a Igreja no combate que travava
contra o assédio dos reformadores. Cumprir-se-ia assim a missão de intercessão,
que já os monges antigos se atribuíam, de sustentáculo do mundo -
No sonho de Teresa, despontavam a
segurança teológica, carisma da futura Doutora da Igreja, a lucidez e a coragem,
a habilidade e a perseverança da fundadora. O novo mosteiro nasceu na própria
Ávila, São José, como primeiro de um rosário de 17 fundações até a de Alba de
Torres, pouco antes de sua morte, em 1582.
Para realizar seu projeto, Teresa adota
a “regra primitiva”, que justifica a volta ao monaquismo das origens
carmelitas. Interpreta-a, porém a seu modo, pondo em prática seu gênio de
priora e formadora, contando, principalmente, com sua própria experiência, mais
do que com qualquer teoria ou ideal preconcebido.
Nada mais simples: visa diretamente às
jovens monjas de São José, que convencem Teresa a colocar por escrito seus
ensinamentos e conselhos sobre a oração, dando origem à sua primeira obra
espiritual destinada a ser divulgada. Sanciona, de próprio punho, o título sob
o qual passa a ser conhecida: Ocaminho de perfeição (1566/7).
A
caminho da perfeição.
O caminho
de perfeição, nas suas duas redações e em seus primeiros apógrafos, foi
acompanhado de perto pela autora, como nenhum outro escrito teresiano,
reconhecem-no os especialistas (cf. Tomás
Álvarez, p. 165).
Ela mesma segue os ensinamentos que
transmite no desempenho de suas funções de superiora e priora, conferindo-lhes
uma autoridade única, como norma a ser observada nos carmelos reformados,
primeiro femininos e depois, também masculinos. Daí se poder considerar o Caminho, como expressão fidedigna do
ensinamento espiritual de Teresa. Nele nos baseamos.
Comecemos pelo título. Aparece pela
primeira vez no autógrafo original, conhecido como Manuscritode Valladolid, inserido no título que
lhe havia dado Teresa, que o sancionou, porém, quando reviu a cópia manuscrita
de Toledo, em 1579, nos últimos anos de sua vida (ib.). Temos o direito de nos perguntar que entendia Teresa por
“caminho de perfeição”?
A ideia de caminho para designar o curso
que segue nossa vida pessoal e da comunidade cristã é genuinamente bíblica.
Prende-se, talvez à condição nômade do povo hebreu: Abrão se pôs a caminho a
chamado de Deus (Gn 12,1-5). A metáfora ganhou toda sua importância com a
narrativa fundadora do Êxodo e da marcha através do deserto até a terra
prometida.
Mais tarde, os salmos e toda a literatura
sapiencial, falam do caminho a ser trilhado por todo verdadeiro israelita: o
Ensinamento (Torá) de Deus, lembrando
que qualquer outro caminho conduz à ruína e ao fracasso.
No Novo Testamento, no entanto, o
Caminho é Jesus como o reconhece o quarto evangelista (cf. Jo 14,6). Teríamos o direito de nos perguntar até que ponto
Teresa se refere a Jesus, quando escreve o caminho? Somos pela resposta
afrmativa, pelo menos indiretamente, pois é Jesus que lhe inspira o caminho, na
sua estrutura e até nas particularidades de suas observações sobre as
exigências da perfeição, assim como a fidelidade a Jesus, no seio do judaísmo,
levou as primeiras comunidades cristãs a se designarem simplesmente como o
caminho (cf. At 9,2; 18,25; 24,22),
velando de certo modo o mistério da Igreja, ainda no seio do judaísmo.
Para exprimir a novidade de seu projeto,
sem romper com a tradição carmelita vigente no seu Mosteiro da Encarnação,
Teresa adotou a designação de caminho para caracterizar seu escrito, velando o
alcance fundador de seus ensinamentos.
São José de Ávila e todas as fundações
que se seguiram, são comprovações práticas de
O Caminho: mosteiros
organizados em vista da perfeita união com o Esposo. Concebiam-se como um
caminho de perfeição, a ser livre e generosamente abraçado por todos os que se
sentissem chamados a seguir Jesus até o fim, até o Horto e a Cruz, colocando a
oração no centro de sua vida, em outros termos, a viver toda a vida centrada na
intimidade com Deus, buscando verdadeiramente a Deus – si revera Deum quaerit – na expressão da Regra Monástica (Regra de são Bento, c. 58).
Mas o que entende Teresa por perfeição? Ela
certamente se deixou impressionar pelo ensinamento de Jesus no sermão da
montanha: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48), que
ocupa no Novo Testamento lugar equivalente ao “Sereis santos porque Eu sou
santo” (Lv 11,45; 19,2) da Torá.
Teresa conhece a interpretação
generalizada na tradição teológica, que vê a santidade a que somos chamados
como participação na vida de Deus. Mas vai além. Não se detém na esfera do ser,
ocupa-se da perfeição do agir. Mudança de perspectiva nem sempre levada em
conta pelos intérpretes, que comanda, por outro lado, grande parte da renovação
do pensamento teológico, bem assim como filosófico: não basta explicar o ser, é
preciso descrever o agir, comoo procura fazer a fenomenologia.
Teresa segue Jesus não apenas no seu
ser, na Encarnação, no natal, mas sobretudo no seu agir, na sua Paixão, na
páscoa, que antecipa a ressurreição e manifesta de maneira espetacular, é seu
lado barroco, a exigência de total e exclusiva fidelidade de cada um de nós à
vontade divina. A perfeição, que coroa o agirm, é fruto de nosso livre e
efetivo acolhimento à divina vontade do Pai.
É o que explica longamente no seu
comentário ao “venha o teu Reino e faça-se a tua vontade” da petição do Pai
nosso. Não basta pedir.
Fazendo
o Pai aquilo que Lhe pedis, nos dá a possibilidade de cumprir aquilo que nos
ensina a pedir, pois feita a terra céu, será possível fazer-se em nós a sua
vontade. Sem esta transformação da terra em céu, não é possível compreender
como se faria na minha, a tua vontade (cf.
Caminho, 32,2)
O dom do Reino, a graça, comunicação da
santidade divina, torna possível agir divinamente na terra, cumprir livremente
a vontade divina e alcançar assim, psicológica e moralmente, a perfeição, nossa
libertação.
Teresa passa então a descrever o que é a vontade de Deus:
Quero
agora avisá-las e recordar em que consiste a vontade de Deus [...] Para
ver como o Pai procede com os que Lhe pedem
que se cumpra a sua vontade, perguntem-no a seu glorioso Filho. Na
oração do Horto, vendo a determinação do Filho, o Pai cumpriu sua vontade nEle:
deu Lhe trabalhos, dores, injúrias e perseguições, até que se Lhe acabou a
vida, com a morte da cruz (cf. Caminho, 32,6).
Não basta pedir que se cumpra a vontade
do Pai, é preciso agir segundo a vontade do Pai, acolher com amor todos os
trabalhos que nos oferece, a exemplo de Jesus que, no horto, acolheu a paixão e
a morte na cruz.
Todos
os avisos que lhes tenho dado neste livro,O Caminho, vão dirigidos a
nos darmos de todo ao Criador, e pôr a nossa vontade na Sua; desapegarmo-nos
das criaturas [...] a fim de nos dispormos para percorrer rápidos o caminho e beber da água viva. Sem nos darmos
totalmente à sua vontade, jamais nos dará a beber dessa água, que é a contemplação, sobre a qual vocês me pediram
lhes escrevesse (ib. 32,9).
Observe-se aqui a nota de totalidade, e o sentido do termo contemplação que significa oração, o
“trato de amizade com Deus”, a que está ordenada toda a vida conventual, que
favorece o acolhimento do dom de colocar toda vontade própria na vontade do
Senhor.
Ó
irmãs minhas, que força tem este dom! Quando se vai com a determinação com que
se deve ir, não pode menos do que trazer o Todo-Poderoso a ser um com a nossa
baixeza e transformar-nos em Si, faz a união do Criador com a criatura (cf. Caminho, 32,11).
Dou-lhes,
porém, este aviso: não pensem chegar aqui por sua força e diligência. É inútil.
Mesmo que antes sentissem devoção, ficariam frias. É indispensável, para tudo
vencer, dizer, com simplicidade e humildade: fiat voluntas tua! (ib. 32,14).
O caminho de Teresa são, pois, as
experiências subjetivas pelas quais interiormente aceitamos de ser preparados
por Deus para viver desde agora, nessa vida mortal, na intimidade, habitando na
morada mais secreta de nossa alma, onde está a Trindade, como vai expor nas Moradas,seu segundo grande manual de espiritualidade.
A
intercessão
Antes de analisarmos o caminho de Teresa
em si mesmo, voltado para a contemplação, a intimidade com Deus, convém
registrar o perfil de austeridade de que historicamente se revestiu a tradição
carmelita, no seio da tradição monástica.
A austeridade carmelita, para Teresa,
não é fruto de sua visão essencial da vida espiritual, culminando na perfeita
intimidade com Deus, mas uma forma de se associar à vida da Igreja, que
combatia em duas frentes, a externa, em face dos desafios das descobertas do
novo mundo, e a interna, contra as pretensões dos reformadores.
Já mencionamos as raízes monásticas da
ideia reformadora de Teresa: ela quer um mosteiro de verdade, que volte às
origens da Ordem. Procuraremos mostrar em seguida o alcance desse princípio.
Mencionamos também o reconhecimento, pelo monaquismo, de seu papel intercessor.
Mas nos parece necessário sublinhar desde já a fisionomia própria que esse
papel adquire no projeto teresiano.
Basta ler, na verdade, o primeiro
capítulo do Caminho:
No
princípio da fundação deste mosteiro (pelos motivos referidos no livro que
escrevi e onde referi algumas grandezas do Senhor, em que Ele deu a entender o
muito que seria servido nesta casa), não era minha intenção que houvesse tanto
rigor no exterior, nem que fosse sem renda; antes quisera que houvesse
possibilidades para que nada nos faltasse (Caminho, 1,1).
Teresa, embora reconheça que não
procurava sua própria comodidade fundando seu
mosteiro, também não pensava, ao que deixa transparecer, em dar maior
ênfase ao aspecto de austeridade, que acabou se destacando:
Agia
como fraca e ruim, embora animada por bons intentos e não visasse tanto à minha
satisfação
(ib.)
Mas as condições históricas da Igreja
reclamavam, aos olhos de Teresa, um empenho maior:
Neste
tempo, chegaram-me notícias dos danos e prejuízos causados em França por estes
luteranos e quanto crescia esta desventurada seita. Deu-me grande pesar e, como
se eu pudesse ou fosse alguma coisa, chorava com o Senhor e suplicava-Lhe
pusesse remédio a tanto mal.
Parecia-me
que mil vidas daria para remédio de uma alma, das muitas que ali se perdiam. E,
como me vi mulher, ruim e impossibilitada de trabalhar como eu quisera, no serviço
do Senhor, toda a minha ânsia era, e ainda é, pois Ele tem tantos inimigos e
tão poucos amigos, que estes fossem bons. Determinei-me, pois, fazer o pouco
que está em minha mão: seguir os conselhos evangélicos com toda a perfeição que
eu pudesse e procurar que estas poucas irmãs que aqui estão fizessem o mesmo (Caminho, 1,2).
Na sua relação pessoal com Deus, de uma
forma bem feminina, ela pensa agradar ao seu esposo, que tantas agressões
recebe dos hereges e que tanto sofre por causa das almas que se perdem, ao se determinar a deixar tudo, seguindo, de
maneira radical, os conselhos evangélicos de pobreza, virgindade e obediência.
No convento, ainda que poucas, todas as
irmãs,
ocupadas em oração pelos defensores da Igreja
e pregadores e letrados, ajudam como podem ao Senhor que faz tanto bem e é
atribulado por estes traidores que parecem querer de novo pregá-lo na cruz (ib.)
Ó
Redentor meu! Meu coração não pode vê-lo sem muito se afligir! Que é isto agora cristãos? Hão de ser sempre os que mais
Vos devem os que Vos aflijam? Aqueles a quem melhores obras fazeis, aos que
escolheis para Vossos amigos, entre quem andais e Vos comunicais pelos Sacramentos?
Não estão ainda fartos dos tormentos que por eles passastes? (Caminho, 1,3)
Convencida de que a determinação de
viver totalmente para Deus faz-nos participar do ato de amor total do Filho
Jesus, entregando-se ao Pai “por nós homens e por nossa salvação” (cf. Credo) que nos salvou, tornando-nos
a todos agradáveis a Deus, Teresa completa o perfil de sua intercessão, vivendo
a mesma totalidade do amor na prática radical dos conselhos evangélicos:
Ó
irmãs minhas em Cristo! Ajudem-me a suplicar isto ao Senhor, que para isto as
juntou Ele aqui. Esta é a sua vocação; estes hão de ser os seus negócios; estes
hão de ser os seus desejos; aqui as suas lágrimas; estas as suas petições [...]
O mundo está ardendo, querem tornar a condenar Cristo, como dizem, pois Lhe
levantam mil falsos testemunhos; querem deitar por terra a sua Igreja, e
havemos de gastar tempo em coisas do mundo? Não, minhas irmãs, não é tempo de
tratar com Deus negócios de pouca importância (Caminho, 1,5).
Concluindo
A distinção operada por Teresa no início
do Caminho, entre o rigor no exterior (sem renda e
clausura), desde que a forma adotadapermitisse
que nada lhes faltasse (Caminho, 1,1) e sua decisão final, dada
a situação histórica em que se encontrava a Igreja, exprime, em germe, uma
preocupação que vai atravessar a vida da Igreja na modernidade e que se tornou
explícita no Vaticano II: pensar a vida consagrada, inclusive contemplativa,
levando em conta as exigências da época em que vivemos.
Essa preocupação se prende à nossa
condição histórica, como veio a ser colocada: é o cerne da questão da relação
da Igreja com o mundo. Não se pode hoje falar em renovação da Igreja nem de
vida consagrada ou de espiritualidade cristã, sem ter em vista as condições da
humanidade no tempo em que vivemos.
Essa visão realista das condições
históricas da humanidade é talvez o traço mais profundo da vinculação de Teresa
à tradição monástica, mas das menos visíveis na leitura de sua obra, sobretudo
pelos autores que buscam explicações de ordem puramente culturais, históricas,
culturais, psicológicas ou mesmo psiquiátricas de suas experiências
espirituais. O tema pode até parecer polêmico, mas não podemos deixar de
abordá-lo, quando nos propomos fazer uma análise teológica de sua pedagogia
espiritual. Dedicamos-lhe, em seguida, breve reflexão.