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sábado, 4 de outubro de 2014

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 700. São Francisco de Assis

CENTRO INTERNACIONAL St. Albert (CISA) - ROMA 10-12 outubro 2014

Para comemorar o oitavo centenário da morte de Santo Alberto de Jerusalém, o Conselho Geral da Ordem organizou um seminário para um fim de semana em Roma, 10-12 outubro 2014, têm o prazer de anunciar que irá apresentar o patriarca latino de Jerusalém, Sua Beatitude Fouad Twal, que falará no seminário. Haverá também o nosso Prior Geral, Fernando Millán Romeral, O. Carm., E o Superior Geral dos Carmelitas Descalços, Padre Saverio Cannistra, OCD. O seminário será realizado em duas línguas: italiano e inglês. O número de vagas é limitado: existem alguns quartos do CISA e da Cúria O. Carm. para membros da Ordem, especialmente para aqueles que vêm de fora da Itália (de acordo com a reserva acima). O registro é essencial para que os participantes do seminário, mas a missa de domingo às 8:00 da manhã é aberto a todos.

Programa de Estudos

Sexta-feira 10
19:30
Jantar (a ser reservado com antecedência no formulário de inscrição, por favor)

20:30 Vésperas (capella CISA)
[Presidente: P. Saverio Cannistra, OCD, Superior Geral]
Bem-vindo pelo Padre Fernando Millán Romeral, O. Carm. Prior Geral 

Sábado 11
7:30 - 8:30
Café da manhã para os moradores
(Para aqueles que querem: Comunidade Missa é às 6:40)

09:00 Lodi
[Presidente Miceal P. O'Neill, O. Carm., Prior do CISA]

9:30-10:15
Antes da conferência: Vincenzo Mosca, O. Carm.
"Albert de Jerusalém e sua Regra"

10:15 Perguntas de esclarecimento

10:30 Pausa

11:00-11:45
Segunda Conferência: P. Kees Waaijman, O. Carm.
"Silêncio e trabalho na Regra"

11:45
Perguntas de esclarecimento

00:00
Grupos Focais:
1 "A Regra e pesquisa"
2 "A Regra e o serviço pastoral"
3 "A Regra e o desafio de contemplação"
4 "A Regra e a Família Carmelita"

13:00
Almoço

15:00
Três respostas (15 minutos cada):
- Entre. Patrick Mullins, O. Carm. P. em Moscou
- P. de Bruno Secondin, O. Carm. P. Waaijman
- Irmã Anastasia de Jerusalém, O. Carm. resumo das intervenções.

16:00
Pausa

17:00
Discurso de Sua Beatitude Fouad Twal, Patriarca Latino de Jerusalém
Discussão

19:30
Vésperas (Capela CISA) [presidente P. Fernando Millán Romeral, O. Carm. Prior Geral]
[Os participantes são livres para visitar Roma na noite e / ou pode jantar fora, mas deve ser indicada no formulário de inscrição]
domingo, dia 12

08:00
Missa na Igreja das Carmelitas de S. Maria em Traspontina
[comemora o patriarca latino de Jerusalém]
09:30
Mesa Redonda:
participar: Vincenzo Mosca, Kees Waaijam, Patrick Mullins, Secondin Bruno, Anastasia de Gerusalmme, além do Prior Geral e do Superior Geral. Presidida pelo Reitor do Instituto carmelita.

11:30
Partida para Angelus do Papa na Praça de São Pedro, às 12h00.

13:00

Buffet no CISA

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

HELOÍSA HELENA: Eu recomendo o seu voto.

A Carmelita Missionária: Epifania de uma identidade.

*Dom frei Vital Wilderink, O. Carm. In Memoriam.

"Sem mim, não podeis fazer nada" (Jo 15,5). Expressão paradoxal que, aparentemente, denota uma falta de identidade própria.  A psicologia poderia comentar: a pessoa que se encontra em tais condições ainda não se encontrou a si mesma.  De fato, hoje deve haver muitas pessoas assim, que encontram na moda a única evidência convincente. E, permanecendo ainda no nível da psicologia, podemos acrescentar: faltou a tais pessoas um encontro vivo.  Quem não se depara com uma presença viva que suscita  uma atração e nos provoca, não vai descobrir seu próprio coração" sede das nossas exigências e opções fundamentais.   Não faltam na nossa época moderna e pós-moderna tendências e realidades que prolongam a escravidão, o sem-sentido que impedem o agir verdadeiramente libertador.
O projeto "Rumo ao novo milênio" em preparação ao Jubileu da Encarnação do Filho de Deus, é um projeto de evangelização, de epifania da identidade. É um projeto de restauração da humanidade, de reparação que encontra em Cristo sua referência viva. É um desafio porque a cada passo esbarramos com um poder que tenta atrofiar o desejo humano, "andando em derredor como um leão que ruge, procurando a quem devorar" (1 Pd 5, 8).  As palavras da carta de Pedro, inseridas na Regra do Carmelo, não perderam a sua atualidade.  Basta constatar as situações das nossas sociedades em nível político, sócio-econômico e cultural. Um historiador do século XX concluía sua obra mais recente: "Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, vamos fracassar".  O escritor em questão prescinde de quaisquer critérios hauridos numa fé religiosa. No entanto, as suas argumentações e conclusões baseadas em ciências sociais e econômicas, não deixam de questionar a nossa fé cristã. O mistério da Encarnação de Deus na precariedade da historia humana, faz com que o cristianismo seja uma realidade voltada para o futuro porque mais centrado numa presença do que numa utopia. É desta Presença que se alimenta a identidade espiritual da Carmelita missionária e a sua esperança que deverá impedir que a sua ação missionária se limite a uma pastoral de simples manutenção.
Madre Maria Crocifissa vivia de uma presença.  Presença que nela provocava experiências místicas de encontro com Cristo, seu Amado.  Encontro que lhe fazia compreender melhor a situação daqueles que vivem sem sentido.  E nesse encontro ela acompanhava o seu Amado até a sua paixão redentora. É neste ponto que ela se faz solidária com os vencidos do mundo e se acende a sua sensibilidade profética diante do mal. É deste seu encontro com Jesus que brota o seu desejo de reparação que sobe até Deus que se envolve na historia e no destino da humanidade, sofre com seus desvios, mas não a abandona.  Madre Crocifissa vivia apegada aos sinais da Presença do Senhor.  Se ela os encontrava na Eucaristia, no Coração de Jesus, em Maria, nos Santos, marcados sem dúvida pelo contexto eclesial de sua época, é porque a totalidade de sua vida quotidiana era atingida pela presença do Senhor.

A Carmelita missionária, filha de Madre Crocifissa, só encontrará a sua identidade espiritual no encontro com o Senhor.  Trata-se de uma experiência de fé viva, não de uma prática devocional.  No fundo, trata-se de fazer ressoar a pergunta feita por Jesus a seus discípulos: "Para vós, quem sou eu?".  Ligada a esta pergunta, existe uma outra: o que significa crer em Jesus Cristo hoje? O homem e a mulher de hoje, (e não há razão para não identificar-nos com eles), se encontram numa situação muito semelhante à do cego de nascença (Jo 9.1-41). Jesus se dirige a ele: "Tu crês no Filho do Homem?". É melhor ter a simplicidade do mesmo cego: "Mas, quem é, Senhor, para que eu creia nele?". É só assim que começamos a crer. É preciso reconhecer que uma configuração histórica do cristianismo (também aquela da Madre Crocifissa) parece estar se esgotando e com ela a plausibilidade social que servia de suporte a uma maneira de crer, de viver e de transmitir a fé. A questão da identidade espiritual da Carmelita missionária se coloca hoje em termos diferentes.  Mas sempre vale como lei universal: a pessoa torna-se presente a si mesma num encontro. Estamos agraciados pela presença de Deus, mas não é fácil percebê-1a.  Aderir à pessoa de Jesus Cristo deixou de ser algo "evidente".  Somos afetados por uma situação de desamparo.  Tem-se a impressão de que uma porta se interpõe entre a presença de Deus e a nossa condição e situação atuais. "Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, eu entrarei na sua casa e tomaremos a refeição, eu com ele e ele comigo" (Ap 3,20). Se a porta nos oculta a presença, será que ela pode converter-se em lugar onde ressoa o chamado, em ocasião de nossa resposta e disponibilidade?
Não vamos descrever detalhadamente as dificuldades que o nosso tempo tem para descobrir a presença de Deus. Basta lembrar-nos do fenômeno da secularização que apagou em extensas zonas da vida pessoal e social os sinais da presença de Deus que, ao longo da historia, o homem vinha descobrindo. A razão tornou-se a medida das coisas; o que levou a um desencantamento do mundo e fez o homem escravo do outro homem.  Esse desencanto dificulta enormemente a percepção dos elementos como símbolos de uma realidade de outra ordem. O desencanto oculta as dimensões mais profundas, o lado inefável das coisas que antes levavam o homem a dar um rosto à presença do Transcendente.  A secularização da cultura é um processo que vai penetrando também na consciência do homem.  Ao declarar a autonomia da ordem social, da ordem da razão e da ordem ética, o homem se faz surdo a todo chamado religioso e fica "sem noticias" de Deus.
O silêncio de Deus adquiriu nos últimos tempos uma nova forma.  Para muitos os gritos dos oprimidos eram um rumor da presença de Deus.  Hoje, cada vez mais, nos acostumamos ao clamor das vítimas de toda sorte de violência e de injustiça. Penso no continente africano tão visivelmente marginalizado porque não traz interesses para o sistema reinante.  Penso nos meninos da rua, nos que morrem por balas direcionadas ou perdidas nas ruas do Rio de Janeiro.  Penso em adversários políticos que se eliminam mutuamente... Não vale a pena dar-se ao trabalho de identificar os desonestos e corruptos porque tudo termina em "pizza" mesmo!  Há portas largas que se escancaram para o não-sentido.  Portas que, ao mesmo tempo, abrem campos para restaurar a humanidade:
"Assim diz o Senhor: No tempo da graça eu te escutei, no dia da salvação eu te ajudei. Eu te guardei e coloquei como aliança entre o povo, para reergueres o país, devolveres as propriedades arrasadas, para dizeres aos cativos: Saí livres!, aos presos em cárcere escuro: Vinde para a luz" (Is 49,8).
"Recapitular tudo em Cristo" diria São Paulo (Ef 1, 10).  Trata-se de centrar em Cristo todos os seres. Foi esse o projeto programático da vida de Madre Crocifissa.  Está aí o segredo da reparação em que insiste no seu diário espiritual e nas suas cartas.  Ela se deixa atingir, ela primeira, por esse centrar-se em Cristo.  Percebe com lucidez o quanto ela mesma necessita. É nisto que ela se empenha com sua oração, suas mortificações.  Não há nenhum aspecto da sua vida que pode ficar fora desse movimento.  Esforçada, firme também com suas filhas, ela sabe ao mesmo tempo, que a iniciativa desse movimento para Cristo pertence à misericórdia de Deus.
Seria interessante pesquisar como, mesmo nas peculiaridades pessoais da Madre Crocifissa, ressoa aqui a influência de Sta Teresinha.  Não é sem razão que o nome dessa jovem carmelita francesa figura no próprio título da Congregação. Oferecer-se como vítima tem nas duas carmelitas matizes diferentes, pelo menos enquanto pude depreender dos escritos de ambas.  Madre Crocifissa também fala constantemente em "offrirsi vittima assieme alla Prima Vittima d'Amore". Ela se sente vítima enquanto unida a Cristo vítima, considerado na sua Paixão, sempre em vista da reparação.  Seguindo a espiritualidade da sua época, a reparação é vista na perspectiva da justiça divina.  Esta reparação encontra a sua fonte sacramental no Coração eucarístico de Jesus.  Mas o que motiva o seu desejo de reparação é sempre o amor, amor que nos seus escritos assume as características de um amor esponsal.  Faltam-nos os dados para poder acompanhar Madre Crocifissa, até a sua morte em 4 de julho de 1957, nesse seu itinerário de amor reparador.
Teresa de Lisieux morre jovem, muito jovem, com apenas 24 anos de idade.  Um ano antes de sua morte, ela escreve a sua irmã Marie du Sacré-Coeur: "No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor".  Levando em consideração o clima jansenista que se respirava na sua época, também no Carmelo de Lisieux, as suas palavras denotam um conhecimento surpreendente de Deus e da Igreja.  Teresa tem uma única preocupação: a união com Deus união de amor na oferta de si mesma em resposta ao dom de Cristo.  Como Madre Crocifissa ela se sente arrastada por esse oceano de amor sempre em movimento, amor que só deseja doar-se.  Também Teresa se une ao próprio sofrimento ao Cristo sofredor. Como Madre Crocifissa, ela sente um grande desejo de trabalhar pela conversão dos pecadores.  Ela vivia numa época em que o racionalismo e o cientificismo espalhavam uma descrença agressiva e um anti-clericalismo sarcástico.  Teresa sofre, entrando ela mesma nas trevas, na noite da fé, sentando-se à mesa com os pecadores.  Mas ela não cessa de amar o Esposo, na própria aceitação da sua ausência.
*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm, foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Teresinha, Doutora do Amor.

*Dom Frei Vital Wilderink, O. Carm. In Memoriam
  
Em 1998 Teresa de Lisieux foi proclamada Doutora da Igreja pelo Papa João Paulo II. Já no pontificado de Pio XI que a canonizou em 1925, houve tentativas de conceder a Santa Teresinha o título de Doutora da Igreja. Malgrado sua  profunda devoção à nova Santa que ele chamava de  “Estrela do meu Pontificado”, Pio XI não atendeu a essa expectativa. O motivo? Porque se tratava de uma mulher. Mais tarde, duas outras santas mulheres receberam o título: Santa Teresa de Ávila e Santa Catarina de Sena. Hoje existe um movimento para que uma terceira carmelita, Edith Stein, seja proclamada doutora da Igreja. A condição feminina parece hoje um elemento até favorável para mostrar que a Igreja não é machista.
Doutor da Igreja é um título oficialmente dado pelo Magistério da Igreja a certos escritores notáveis, tanto pela santidade de vida quanto pela importância e ortodoxia de sua doutrina. Sem dúvida, houve outros que ao longo dos séculos seguiram o pequeno caminho, como a Virgem Maria, mas devemos reconhecer que foi Santa Teresinha que lhe deu um brilho e uma influência universal. Pode-se perguntar o que existe de próprio na doutrina teresiana. Vários aspectos poderiam ser apontados, mas o centro é, sem dúvida, o amor. Amor, palavra muitas vezes banalizada. Teresa lhe devolve a sua seriedade ao fazer dele a sua própria vocação.
A caridade deu me a chave de minha vocação. Compreendi que, se a Igreja tinha corpo, composto de vários membros, não lhe faltava o mais necessário, o mais nobre de todos. Compreendi que a Igreja tinha coração, e que o coração era ardente de amor. Compreendi que só o amor fazia os membros da Igreja atuarem, e que se o amor se extinguisse, os apóstolos já não anunciariam o Evangelho e os mártires se recusariam a derramar  seu sangue. Compreendi que o amor abrange todas as vocações, alcançando todos os tempos e todos os lugares. Numa palavra é terno. Então no transporte de minha delirante alegria, pus-me a exclamar: Ó Jesus, meu amor, minha vocação, encontrei-a afinal: MINHA VOCAÇÃO É O AMOR.[1]
Amor será também a última palavra que ela pronuncia na sua agonia: “Oh! eu o amo!... Meu Deus... eu vos amo!...”.[2]  Desde cedo, antes de entrar na sua adolescência, Teresa “sentia o desejo de amar só a Deus, de não encontrar alegria senão nele”.[3]  Já no fim da vida, o mesmo desejo, amadurecido e purificado pelo sofrimento: “Vós o sabeis, ó meu Deus, nunca desejei outra coisa senão amar-vos, não cobiço outra glória. Vosso amor sempre me preveniu desde a infância, comigo cresceu, e agora se tornou um abismo, cuja profundeza não sei calcular. Amor atrai amor. Por isso, meu Jesus, o meu se atira em vossa direção, querendo atestar o abismo que o empuxa, mas infelizmente não representaria sequer uma gota de orvalho, diluída no oceano! Para vos amar como vós me amais, ser-me-ia necessário lançar mão de vosso próprio amor”.[4]
Poderíamos perguntar se Teresa em todas essas declarações de amor, não manifesta uma ilusão de estar abrigada numa torre de marfim, fechada no seu eu que ela projeta num amor de Deus. Não faz lembrar Teresinha menina, que em passeio vespertino, segurando a  mão de seu pai pedia-lhe que a guiasse?  “Então, não querendo ver nada desta terra mesquinha, sem olhar onde punha os pés, erguia a cabecinha bem alto para o ar, e não me cansava de contemplar o azul do céu estrelado!”[5]  A autenticidade do nosso amor a Deus não se manifesta na qualidade do nosso amor aos outros nas realidades concretas onde se desenvolve a nossa existência? Certo, Teresa nunca deixou de sonhar com o dia em que estaria reunida com toda a sua família no Céu. Saudades sublimadas do tempo de Les Buissonnets, ninho de sua infância?  É descobrindo o amor de Deus que Teresa faz o caminho de volta, da fugacidade do tempo e de todas as coisas para a preciosidade do momento presente:

“Que me importa, Senhor, se no futuro há sombra?
Rezar pelo amanhã? Minha alma não consente!
Guarda meu coração puro! Cobre-me com tua sombra
     Agora, no presente!”

Se penso no amanhã, temo ser inconstante,
vejo nascer em meu coração a tristeza e o enfado.
Eu quero, Deus meu, o sofrimento, a prova torturante
            Agora, no presente!”[6]
Teresa saiu do seu eu com seus inúmeros desejos de tira-gosto. O que sobrou foi o desejo do desejo de amar a Deus.  Suas três irmãs de sangue, carmelitas no mesmo mosteiro, se reuniam junto à cama da caçula da família. Escutemos o diálogo: “O que você quer que digamos hoje? ...A melhor coisa seria não dizer absolutamente nada, porque, para dizer a verdade, não há nada para dizer. Tudo já foi dito, não é? Teresa fez um lindo sinalzinho com a cabeça: Foi!  ... Sofro somente um instante. Nós nos desanimamos e desesperamos apenas por pensarmos no passado e no futuro”.[7]  Quem tem consciência de morar no amor de Deus, tem outra maneira de relacionar-se com o tempo. Não faz as coisas para poder fazer outras. Ele é o que faz.[8] 
   A confiança e o abandono nas mãos de Deus e o sentir-se amada por Ele é em Teresa a fonte do amor aos outros. Deus é a única opção de Teresa. Mas o amor entre os dois não é um diálogo fechado. O mundo está presente nele. É um diálogo no tempo e na história que encontra a sua fonte no mistério da Encarnação, e, de modo denso, no mistério da Paixão de Cristo.
“Como a torrente, lançando-se com ímpeto no oceano, arrasta após si tudo quanto encontra de passagem, assim também, ó meu Jesus, a alma que imerge no ilimitado oceano de vosso amor, arrebata consigo todos os tesouros que possui... Senhor, vós o sabeis, não tenho outros tesouros senão as almas que vos aprouve unir à minha. Tais tesouros, fostes vós que mos confiastes”.[9]
Teresa não seleciona as almas. É verdade que ela pensa nos pequenos. Ficaria até feliz se Deus pudesse encontrar almas que, em relação a ela, ganhassem em pequenez porque o critério será sempre a misericórdia divina. Pois foi do agrado do Pai revelar estas coisas aos pequeninos (Mt 11, 26).  Teresa recorre freqüentemente às cartas de São Paulo. Também no tema da misericórdia de Deus, ela se reconhece no Apóstolo dos Gentios:
“Jesus não chama os que disso são dignos, mas o que são de seu agrado, ou conforme diz São Paulo: ‘Deus tem compaixão de quem lhe apraz, e faz misericórdia a quem Ele quer aplicar misericórdia. Isto, portanto, não depende de quem quer, nem de quem corre, mas de Deus que se compadece”(Rm 9, 15-16).
O pensamento de Teresa não é arbitrário, mas atinge o mistério insondável da salvação. Por isso mesmo descobre a sua vocação de amor no coração da Igreja, como uma vocação profundamente apostólica:
“Tenho vocação de ser apóstola... Quisera percorrer a terra, apregoar teu nome, e cantar em terra de infiéis tua gloriosa Cruz. Mas, ó meu Bem-Amado, uma única missão não me seria bastante. Quisera anunciar, ao mesmo tempo, o Evangelho pelas cinco partes do mundo até as ilhas mais remotas... Quisera ser missionária não só por alguns anos, mas quisera sê-lo desde a criação do mundo, e sê-lo até a consumação dos séculos... Mas, acima de tudo, quisera, ó meu amado Salvador, por ti quisera derramar meu sangue até a última gota...”.[10]
De novo surge a tentação do ceticismo para quem a linguagem e a empolgação  de Teresa pode parecer uma fuga da vida cotidiana que ela levava no Carmelo de Lisieux. Ambiente em que não faltavam relacionamentos eivados de autoritarismo, mesquinhez e ciúme, que facilmente aumentam o volume da sua ressonância afetiva quando o espaço do mosteiro é reduzido pelo clausura, mas habitado por um número não pequeno de religiosas. As “alfinetadas” de que Teresa fala, fazem sonhar com horizontes mais amplos.  Mas o horizonte de Teresa não é feito de um sonho, mas é “o próprio Jesus, esta divina realidade” como ela sublinha. Ainda postulante, ela escreve para sua irmã Celina: “Antes de morrer pela espada, morramos às alfinetadas”.[11]  As renúncias não procuradas que a cada momento se apresentam no relacionamento com as irmãs, principalmente no trato com as noviças por cuja formação Teresa é responsável, fazem-lhe descobrir e também ensinar melhor o seu pequeno caminho de amor. Teresa não quer saber de gestos heróicos de santidade. Para ela o ponto de referência é Jesus, que ela quer seguir amando. Jesus, o Filho de Deus que veio para fazer a vontade do Pai. Vontade que consiste em dar ao mundo o Filho, e nele o amor do Deus-Trindade. Um mês antes de sua morte, perguntaram-lhe se ficaria contente se soubesse que dentro de alguns dias iria morrer, ou se preferiria receber um aviso de que o seu sofrimento iria aumentar durante um longo período ainda. A resposta de Teresa: “Oh! não, absolutamente, não ficaria mais contente. A única coisa que me deixa contente é fazer a vontade do bom Deus”.[12]  Quando Teresa fala, reagindo às observações das suas irmãs que cuidam da enferma, as suas palavras não armam ao efeito. Seus comentários às admiradoras de sua paciência, beleza ou santidade, revelam um senso de humor que desloca a atenção para o seu Amado: “Bom, tanto melhor! Mas gostaria que o bom Deus o dissesse”.[13] 
* Dom Frei Vital Wilderink, O Carm, foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo.



[1] História de uma alma IX, 254 (Manuscrito B 3v)
[2] CA 30.09
[3] História de uma alma IV 113 (Manuscrito A 36)
[4] Ibid.  XI 336 (Manuscrito 35)
[5] Ibid. II 62 (Manuscrito A 18).
[6] Poesia 5 Meu canto de hoje.
[7] CA 19.08. 8.10.
[8] A expressão é de C.S. Lewis (1898-1963) na sua autobiografia espiritual: “I am what I do”.
[9] História de uma alma XI 334-335 (Manuscrito C 34).
[10] Ibid. IX 251 (Manuscrito B 3).
[11] CT 86.
[12] CA 20.08.2.
[13] CA 3.92.

Santa Teresinha: A Festa dos seus quinze anos.

*Dom Frei Vital Wilderink, O. Carm. In Memoriam

Com 15 anos de idade, Teresa Martin queria entrar no Carmelo. Acompanhada de seu pai, foi falar com o Bispo diocesano para conseguir a autorização. Levantou os cabelos para parecer mais velha. Não adiantou. Aproveitou de uma viagem à Itália para pedir licença ao Papa Leão XIII. Também a audiência com o Papa não parecia ter dado resultado. Mas o interesse dele pelo caso de Teresinha levou o Bispo a conceder a tão esperada licença.
Dia 30 de setembro de 1897, Teresa morre no mosteiro das carmelitas de Lisieux. Seus dois pulmões estavam gravemente atingidos pela tuberculose. Sufocada, ela pronuncia suas últimas palavras: “Meu Deus...eu... vos amo”!
            Celebramos o primeiro centenário da morte dessa jovem carmelita. Inúmeros livros foram escritos sobre o breve percurso da sua vida. Pode ser que nem todos sejamos entusiastas de sua “História de uma alma”. A sua linguagem, marcada por um universo religioso que não é nosso, pode provocar em leitores do nosso tempo uma certa alergia. Como não é a todos que agrada a tradicional imagem da santa desfolhando pétalas das rosas que ela segura nos braços. No entanto, se por baixo desses enfeites não houvesse um segredo mais profundo, não se explicaria a atração que, durante o último século, Teresa de Lisieux tem exercido sobre inúmeros católicos. Mesmo no Brasil existem cerca de 111 paróquias dedicadas a ela, sem contar as capelas.
            O que, sem dúvida, chamou a atenção do mundo cristão foi a espiritualidade de Teresinha. Ela mesma falava do seu Pequeno Caminho.  Não foi a partir de uma teoria bem elaborada mas  a partir de sua experiência de cada dia que ela reconheceu e aceitou progressivamente a sua pequenez e fragilidade. Mesmo com seus imensos desejos, ela descobriu
que só tinha pequenas coisas para oferecer a Deus. Tanto assim que pessoas próximas a ela questionavam a santidade da jovem carmelita. É que a pequenez e a confiança em Deus constituíam o fundamento da sua doutrina. Ela descobre no seu amor próprio a causa de suas inquietações, de suas tristezas e das humilhações que a deixam aborrecida. Não se revolta contra essa descoberta mas encara de frente a sua realidade. Nem por isto renuncia aos seus desejos audaciosos  para entregar-se a uma mediocridade. Sabe fazer de sua fragilidade o material para servir ao seu projeto de santidade. Entendeu que sua fraqueza não a afastava de Deus que veio ao nosso mundo, para partilhar na precariedade humana a pobreza radical do homem a fim de transformá-la na sua força divina. Esta consciência leva Teresinha a sentar-se à mesa dos pobres e dos pecadores. Sua fé e esperança a fazem oferecer-se como vítima ao amor misericordioso de Deus. É o segredo do seu elã  missionário no qual ela quer atingir a todos, sem exclusão, mesmo os ateus, para que encontrem o caminho para o amor de Deus que salva e liberta.
            Mas o seu Pequeno Caminho precisava ser testado. Se a fé e a esperança faziam crescer a sua entrega de amor, esta continuaria mesma numa aparente ausência de fé e esperança?
            Nos últimos dezoito meses da sua vida, a fé de Teresinha foi duramente provada. Ela já estava atingida pela tuberculose quando, na noite de 2 ao 3 de abril de 1896, a doença se manifestou por uma primeira expectoração de sangue. Alguns dias depois a sua alma começou a ser torturada por dúvidas sobre a fé. Se os seus sofrimentos físicos, sempre mais fortes,  já provocavam uma sensação de impotência, a noite das dúvidas tirava o último apoio para suportá-los. O olhar da fé dá uma visão nova da vida. É dentro dessa visão que o cristão encontra o sentido da existência, a razão de ser, de viver, de agir, de servir e de sofrer. Uma prova de fé questiona tudo o que a pessoa suporta. Provoca nela uma vertigem, a vertigem do nada. Todo o equilíbrio de seu ser é ameaçado. “Acreditas sair um dia do nevoeiro que te envolve, avança, avança,  alegra-te com a morte que te dará, não aquilo que tu esperas, mas uma noite ainda mais profunda, a noite do nada”. Quem poderia ter escrito essas palavras, seria Nietzsche, filósofo contemporâneo de Teresa, que proclamou a morte de Deus. Mas foi a própria Teresinha que as escreveu  na sua cama, três meses antes de morrer. Ela acrescentava: “Não quero escrever mais, receio blasfemar... receio até ter falado demais...”.
            Teresa vivia na França do fim do século XIX. Época em que o racionalismo e o cientismo espalhavam uma descrença agressiva e um anticlericalismo sarcástico. Teresa, mergulhada na noite da dúvidas, compreende  que  certos  ateus  podem de boa fé e sem ir contra seu pensamento negar a existência do Céu. Mesma tendo guardado a sua inocência batismal, Teresa chega até o fundo da sua pequenez e, desta maneira, ao núcleo daquilo que constituía toda a sua razão de viver: sua relação com Deus. É uma tomada de consciência, uma aceitação.  Jamais poderia suportar com lucidez essa desapropriação de si mesma, se não fosse habitada por um grande Amor, mistério que vai além de suas próprias iniciativas e possibilidades. A descoberta desse mistério maior de Deus, se faz a partir da experiência das nossas mãos vazias. É disto que brota em Teresa a atitude de confiança e de abandono. É o caminho que ela indica para todos, sentando-se à mesa dos incrédulos e pecadores.
            A nossa época não conhece o ateísmo virulento do tempo de Teresinha. O que sempre mais se impõe em nossos dias é uma espécie de vazio que nenhuma ideologia consegue preencher. A ciência e a tecnologia fazem o homem viver no ritmo de “projetos”. São valores relativos mas que não geram uma sabedoria, um sentido último de todos esses significados particulares. Há uma sensação de banalidade que escurecem o sentido da própria vida e história humana.
Teresa de Lisieux, figura simples e afável, aparentemente sem problemas, mas mergulhada nas torturas da dúvida, provoca uma brecha na crosta das verdades convencionais do homem moderno. Sentemo-nos com ela à mesa para que nos fale da sua vida tão cheia de humanidade e de sabor de Deus.

* *Dom Frei Vital Wilderink, O Carm, foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo.

PORQUE TE AMO, MARIA!

Santa Teresinha do Menino Jesus.

Oh! Eu quisera cantar, ó Mãe porque te amo, e porque, teu nome dulcíssimo faz palpitar forte meu coração, e porque, ao pensar em tua grandeza imensa o medo não pode dominar-me, oh! não. Se eu te contemplasse na glória sublime, Ultrapassando em brilho todos os eleitos, nem ao menos poderia crer, que sou tua filha, e diante de Ti, eu abaixaria o olhar.

Para que uma criança possa amar sua mãe é preciso que esta, com ela chore e partilhe sua dor. O’ Rainha do meu coração, nesta terra do exílio, para atrair-me a ti, quantas lágrimas choraste! Contemplando tua vida, nas páginas do Evangelho, eu ouso olhar-te, e aproximar-me de Ti, e crer-me tua filha, pois eu te vejo, ó Mãe, mortal e sofrida como eu. [....]

Tu me fazes sentir, que não é impossível, caminhar sobre teus passos, ó Rainha dos eleitos. Tu me tornaste visível o caminho estreito do céu, Praticando sempre as mais humildes virtudes. Maria, junto de Ti, eu gosto de sentir-me pequenina. Das grandezas da terra eu vejo a vaidade. Em casa de Isabel, que recebe tua visita, eu aprendo a praticar a ardente caridade. [....]

Eu sei que em Nazaré, ó Virgem cheia de graças tu vives pobrezinha, nada querendo a mais. Vida simples, sem êxtases, arroubamentos ou milagres. O número dos pobrezinhos é bem grande sobre a terra. Estes podem sem medo elevar para Ti os olhos. Por vias comuns, ó incomparável Mãe, Eu quero caminhar par levá-los ao céu. [....]

Tu me apareces, Maria, no cume do Calvário, de pé junto da cruz, como um sacerdote no altar, oferecendo para apaziguar a justiça do Pai, teu bem amado, o Emanuel. Um profeta o disse, ó Mãe muito amada. “Não existe dor, semelhante à tua dor”. O’ Rainha dos céus, permanecendo no exílio, dás para nós todo o sangue de teu coração.

A casa de São João torna-se a tua casa, O filho de Zebedeu substitui o teu Jesus, o Filho de Deus. Eis o último detalhe, que me dá o Evangelho sobre Ti, ó Mãe, Virgem Maria. Mas, teu profundo silêncio, ó Virgem Mãe querida, não nos revela, que o Verbo eterno, quis Ele mesmo, cantar os segredos de tua vida para encantar teus filhos todos os eleitos do céu?

Também eu ouvirei esta doce melodia. Também no belo céu, eu vou Te ver. Tu que vieste sorrir-me na manhã da vida, Vem, sorri-me ainda, ó Mãe, eis a tarde!
Eu não temo o brilho da tua suprema glória. Contigo eu sofri, e quero agora
Cantar sobre teus joelhos, Virgem, Porque Te amo, e repetir para sempre que eu TE AMO!

 



[1] Alguns trechos da última poesia de Santa Teresinha do Menino Jesus. Tradução de Sor Teresa Margarida, do Carmelo de São José, Três Pontas- MG.

A PALAVRA DO PADRE PROVINCIAL: Santa Teresinha.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 698. Santa Teresinha.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Quando pulei de alegria.

*Dom frei Vital Wilderink, O. Carm. In Memoriam.

Foi em 21 de junho de 1963 na Praça de São Pedro. Não eram apenas o entusiasmo contagiante da multidão ali presente nem a minha idade ainda juvenil que me fizeram pular de alegria quando o Cardeal Ottaviani anunciou o gaudium magnum  do   “habemos Papam ...  Johannem Baptistam Montini... “
            Durante os anos que passei em Roma, não faltaram encontros com Paulo VI em audiências gerais e outras mais restritas. A realização do Concílio Vaticano II, ainda em curso naquela época, fazia-nos mais atentos às palavras e aos gestos do Santo Padre. O seu encontro com o Patriarca Atenágoras, fixado em fotografia, permanece até hoje um ícone do ecumenismo que o atual Pontífice João Paulo II reproduz e multiplica com novas e esperançosas tonalidades.
            Mas, a lembrança mais viva que guardo de Paulo VI refere-se à sua visita à  Colômbia, em agosto de 1968,  por ocasião da abertura da Conferência de Medellín. Era a época em que os países da América Latina, já atingidos por tantas situações de injustiça, estavam sendo invadidos por regimes ditatoriais. A presença física do Papa entre nós parecia abrir um espaço momentâneo para o grito do povo sofrido. E Paulo VI assumiu esse grito. As manchetes dos jornais reproduziam as suas palavras e chamavam-no “advogado dos pobres”.  É claro que nos comentários jornalísticos não faltavam determinadas opções ideológicas. Lembro-me de uma pequena publicação que apresentava na folha de rosto uma foto do Papa, ladeada pelos retratos de Che Guevara e Camilo Torres. Naqueles anos havia, mesmo em ambientes cristãos, acaloradas discussões sobre a legitimidade da violência em certas circunstâncias. Recorria-se a antigos teólogos que tinham tratado do atentado contra tiranos, e à doutrina moral que falava da autodefesa. Haveria possibilidade de resolver o problema essencial da América Latina sem  o recurso à violência? Paulo VI respondia: “Con la misma lealtad con la qual reconecemos que tales teorias y prácticas encuentram frecuentemente su última motivación en nobles impulsos de justicia y de solidaridad, debemos decir y reafirmar que la violência no es evangélica ni cristiana”.
            O documento de Paulo VI que talvez me tenha marcado mais profundamente não só na ação pastoral mas também no caminho da vida espiritual, foi o Evangelii Nuntiandi sobre a evangelização no mundo contemporâneo. Aproveitando todo o material de reflexão pastoral e teológica acumulado na preparação e realização do Sínodo dos Bispos de 1974, Paulo VI, apelando ao seu múnus de sucessor de Pedro, assume a tarefa de confirmar e reconfortar os seus irmãos para que, animados pela esperança, se empenhem em anunciar o Evangelho em tempos de incertezas. Já no primeiro parágrafo o documento revela que seu próprio autor compartilha com seus irmãos o medo e a angústia - expressões da existência humana -, diante do desafio da missão evangelizadora num contexto de desorientação. A fé de Paulo VI não deixava de ser uma busca feita às apalpadelas para encontrar uma síntese entre a fidelidade à única verdade da Revelação e a problemática da sua transmissão. Devemos muito a Paulo VI, peregrino na fé!
            Faço parte do número dos últimos bispos nomeados por Paulo VI. A minha ordenação episcopal aconteceu uma semana depois da sua morte. Na minha primeira visita ad limina apostolorum rezei e meditei junto aos túmulos de Pedro e de Paulo VI. O túmulo do Papa Montini corresponde bem ao último adendo que escreveu no seu testamento, testemunho singelo da fé de um humilde cristão: “Não desejo nem túmulo especial, nem qualquer monumento. Alguns sufrágios”.
*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm, foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo.                                                                                          

BATE PAPO CARMELITANO: Frei Miro, O. Carm. (3ª Parte)

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 695. Herodes e Jesus.

ORDEM TERCEIRA DO CARMO: Retiro Provincial-10

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

VIVER O CARMELO: VOCAÇÃO À SANTIDADE( Comentário da Regra do Carmelita secular)

*Dom frei Vital Wilderink, O. Carm. In Memoriam.
(Eremitério Fonte de Elias, 13.01.2006).

Recentemente recebi carta de uma pessoa amiga. Fiquei matutando sobre uma frase que nela estava escrita: “Descobri que eu não tenho vocação para ser santo”. Se tivesse dito: “Sinto que não tenho vocação para o ministério sacerdotal ou para a vida religiosa”, eu até poderia concordar porque se trata de vocações especiais a serviço da santidade da Igreja. Mas a vocação à santidade é universal, como o Concílio Vaticano II nos ensina com muita insistência, dedicando um capítulo inteiro a essa temática no documento sobre a Igreja (Lumen gentium). Além disso, parece que o nosso amigo tem uma ideia, não digo completamente errada, mas pelo menos insuficiente, do que a vem a ser santidade. Aliás, é uma idéia bastante difundida entre os cristãos que veem a santidade como conquista nossa, fruto extraordinário de esforços humanos, até heroicos, impossíveis para a maioria dos cristãos. É verdade que o exercício heroico das virtudes, é sinal de santidade e por isso é um ponto obrigatório nos processos de beatificação e canonização que a Igreja exige para declarar que uma pessoa cristã já falecida pode ser considerada e invocada como santa.
É importante que a Igreja nos apresente oficialmente modelos de santidade de várias origens, raças, culturas, estados de vida e contextos históricos para conscientizar-nos da nossa própria vocação à santidade. Neste sentido santa Teresinha se manifesta uma mestra. No seu terceiro manuscrito autobiográfico, a jovem carmelita escreve que sempre desejou ser santa, mas que, comparando-se com os grandes santos, constatou que lhe era impossível chegar a tais alturas. Mas não desanimou, dizendo a si mesma: “Deus não poderia inspirar desejos irrealizáveis, portanto posso, apesar da minha pequenez, aspirar à santidade”. Daí, lembrando-se do elevador elétrico, invenção nova na época dela, Teresinha faz uma comparação: “Eu também quisera encontrar um elevador para me elevar até Jesus, pois sou demasiado pequena para subir a íngreme escada da perfeição”. Na Bíblia (Is 66,12) ela encontra uma passagem que justifica a comparação: Sereis levados ao colo, sobre os joelhos sereis acariciados. Assim ela chega a formar a sua maneira de ser santa: “O elevador que deve me elevar até o céu, são vossos braços, ó Jesus! Para isso, eu não preciso crescer, pelo contrário, preciso que eu fique pequena, que eu me torne pequena cada vez mais”. A linguagem da Teresinha, a gosto do ambiente religioso da sua época, talvez não agrade à nossa mentalidade moderna, mas não deixa de colocar o segredo da sua pequena via numa perspectiva teológica muito sólida e profunda: Deus mesmo é a fonte da nossa vocação à santidade.

Santidade não é mérito, mas é dom.
Em última análise, só Deus é santo. É uma afirmação paradoxal para quem quer refletir sobre a nossa vocação à santidade. Mas é isto mesmo que a liturgia da missa na aclamação ao final do prefácio insiste em dizer: Santo, Santo, Santo, Deus do universo! Como dizer uma palavra sensata sobre a santidade de Deus, se Ele “habita em luz inacessível” como reza o prefácio da oração eucarística IV? Todos os nossos conceitos e categorias para definir uma realidade são humanos, forjados pela nossa inteligência a partir das nossas experiências sempre fragmentadas no tempo e no espaço. O conhecimento adquirido pela razão pode ser profundo e abrangente, mas nunca é exaustivo, não consegue penetrar até o fundo daquilo que existe e é. Como criaturas estamos sempre em caminho, inclusive na procura e no crescimento da nossa identidade mais profunda. Balbuciando uma possível descrição da santidade de Deus, podemos dizer que Deus é santo porque, em todo o seu ser e fazer, é perfeitamente idêntico a si mesmo, à sua majestade, à sua justiça e à sua bondade.
Se não temos acesso a Deus e à santidade dele, como podemos nos dirigir a Ele chamando-o de Pai que estais no céu?  Subir até a sua glória nas alturas, nem pensar! E como, Ele mesmo viria até nós sem descer? Não há nenhuma maneira de representar-se um relacionamento entre Deus e o ser humano que seja tão paradoxal e fora do alcance da nossa razão, que a Encarnação. No entanto, também não há maneira mais concreta de pensar essa descida impossível. Toda a liturgia do tempo de Natal fala deste admirável intercâmbio entre o céu e a terra pelo qual o Criador da humanidade, feito homem, nos doou sua própria divindade. Podemos agora falar de Deus-Trindade falando da história, e falar da história falando da Trindade. São Paulo fala disto na sua carta a Tito, cristão convertido do paganismo e companheiro dele:  “Quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor pela humanidade, ele nos salvou, não por causa dos atos de justiça que tivéssemos praticado, mas por sua misericórdia, mediante o banho da regeneração e renovação do Espírito Santo. Este Espírito, ele o derramou copiosamente sobre nós por Jesus Cristo nosso Salvador” (Tt 3, 4-6).
                       
Creio na Igreja santa católica
                        Deus convocou por meio de seu Filho, feito carne e história humana, um novo povo. A santidade da Igreja não tem sua origem na própria Igreja, mas nessa iniciativa de Deus: “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, a fim de santificar pela palavra aquela que ele purifica pelo banho da água” (Ef 5,25-26). Por isto, a santidade da Igreja também não é fruto da santidade dos seus membros. A pergunta que se faz aos catecúmenos: você quer ser batizado? equivale a: você quer fazer-se santo?  Isto faz entender melhor por que Paulo ao escrever uma carta à comunidade dos cristãos em Corinto, se dirige “aos que foram santificados no Cristo Jesus, chamados a ser santos” (1Cr 1,2).
                     A santidade da Igreja não é um toque de espiritualidade ou um enfeite, mas é uma dinâmica que lhe é intrínseca e qualificativa. Por isto  a Igreja não seria ela mesma se não fizesse da vocação universal à santidade uma urgência da sua pastoral permanente. Na sua carta programática para o terceiro milênio, o Papa João Paulo II escreve: “Em primeiro lugar, não hesito em dizer que o horizonte para que deve tender todo o caminho pastoral é a santidade”.
                     Mas, também é bom reconhecer que a história da Igreja, inserida na história dos homens, não é sempre, sob muitos aspectos, uma narração gloriosa. Já no século III falava-se da Igreja como um corpo misturado de santos e pecadores. São Cipriano, bispo e mártir, dizia que para a Igreja a santidade é um dom, para seus membros uma tarefa. Por isso a santidade doada por Cristo à sua Igreja, não é anulada, embora não deixe de ser turvada pela infidelidade à vocação à santidade por parte de seus membros

Restaurar todas as coisas em Cristo
                        A santidade encontra sua origem em Deus: “Só vós sois o santo” como  diz hino de louvor no início da missa dominical. Deus revelou a sua santidade no Filho que assumiu a nossa humanidade. A nossa santidade consiste na nossa união com Cristo. É um dom que nos foi feito através do batismo. Mas, o dom gera, por sua vez, uma tarefa, um dever: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1Ts 4,3). A união com Cristo em que consiste a santidade incide no nosso ser para transformá-lo. É muito significativo o gesto do sacerdote na hora do ofertório quando derrama um pouco de água no cálice com vinho enquanto reza baixinho: “Pelo mistério desta água e deste vinho possamos participar da divindade do vosso Filho, que se dignou assumir a nossa humanidade” A transformação do nosso ser deve envolver também o nosso agir, isto é a santidade deve atingir a dimensão moral da nossa vida. É o terreno em que atuam a nossa consciência e a nossa liberdade. Neste campo da moral não podemos dizer-nos: a minha união com Deus ou seja a minha vocação à santidade vai até certo ponto. É na vida de cada dia que a santidade vai se apropriando, num dinamismo contínuo, do nosso agir com todas as características pessoais de cada um. A união com Cristo não acontece em pessoas que vivem numa redoma, num espaço esterilizado, mas em pessoas reais inseridas em histórias concretas. Em última análise, na sua vocação à santidade elas refletem o movimento mesmo da encarnação.
                        Isto nos faz entender que a vocação à santidade é um chamado para “ajudar” Deus a restaurar todas as coisas em Cristo. A obra da redenção não visa apenas cada pessoa como indivíduo, “O que esperamos, de acordo com sua promessa, são novos céus e uma nova terra”. (2 Pd 3,13). A santidade tem tudo a ver com isto. A vocação à santidade não passa por cima dos problemas, múltiplos e intrincados, que afligem o mundo de hoje, repercutindo fortemente na sociedade, nas famílias e na vida de cada pessoa.  São Paulo diria: “Toda a criação espera ansiosamente a revelação dos filhos de Deus ... e não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito” (Rm 8,19.23). Não existe nenhuma fórmula mágica para solucionar os problemas que envolvem a humanidade.. Aliás, formulas mágicas (apresentadas também por  certas ideologias) jamais podem revelar ao ser humano quem ele é. Não será uma fórmula a salvar-nos, mas Alguém que nos infunde uma certeza: Eu estarei convosco!

O Carmelo e a vocação à santidade
A Ordem do Carmo nasceu de um grupo de homens, provavelmente leigos na sua maioria, que queriam “viver em obséquio de Jesus Cristo e servi-lo fielmente com coração puro e reta consciência”. É assim que se encaixavam na Igreja cuja missão é refletir a luz de Cristo. Para realizar esse imperativo da sua vocação, foram estabelecer-se na Terra Santa no Monte Carmelo. Mas para viver em obséquio de Jesus Cristo era preciso que se tornassem contemplativos do seu rosto, a fim de que a luz desse rosto pudesse refletir na vida deles. A Regra de Alberto, patriarca de Jerusalém, ofereceu-lhes orientações básicas para realizar o objetivo que tinham em mente. A Regra apresenta  uma pedagogia de santidade em que a oração ocupa um lugar de destaque. Esta tradição carmelitana, como carisma suscitado pelo Espírito Santo, é uma das expressões da santidade da Igreja. Através dos tempos houve sempre pessoas e grupos de pessoas, freqüentemente reunidas em forma de instituições, que descobriram na tradição do Carmelo um espaço acolhedor para a sua aspiração a um encontro com Deus, experimentando que a Graça dele nos precede para realizar a vocação à santidade. Também o carmelita secular deve ser alguém que busca a Deus, pisando com os dois pés neste mundo de criaturas humanas, vulneráveis e vulneradas, com as quais vive e celebra, movido a partir de dentro pela Misericórdia com que Deus o envolve.

*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm, foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 694. Padres Encapotados.

domingo, 21 de setembro de 2014

As Provações da vida.

*Dom Frei Vital Wilderink O.Carm. In Memoriam.

Sem passar por provações não vamos descobrir quem nós somos na verdade. Enquanto não passarmos pelo fogo da provação, sabemos muito pouco de nós mesmos, e também de Deus. Por isto, Jesus não tem medo das provações pelas quais seus discípulos hão de passar. No texto do capítulo 6, anterior ao evangelho de hoje, Jesus se apresentou como o Pão que desceu do céu.  Esta fala dele escandalizou muitos dos seus ouvintes, principalmente quando acrescentou que eles não teriam vida neles se não comessem a carne do Filho do Homem e não bebessem o seu sangue. Mas, Jesus não pretende poupar a ninguém com esse realidade "chocante". Até, sem ser violento, parece aumentar a dose, provocando uma reação nos seus discípulos: "Esta palavra é dura. Quem consegue escuta-la?" Jesus perguntou: Isto vos escandaliza? E quando virem o Filho do Homem subindo para onde estava antes?".
É importante, até necessário, que a crise exploda que ela se apresente como de fato é: incompreensível e absurdo, sem sentido. Assim cada um é obrigado a descer no profundo para descobrir o que Deus lhe pede, e o que não pede. Esta tomada de consciência pode ser muito dolorosa, mas não há jeito de evitá-la. Não adiante girar em torno dela. Jesus não vai impedir a ninguém. Não vai violentar nenhuma liberdade. Pelo contrário, ele solta seus discípulos de toda ligação inútil e infrutífera que os prende a ele. Até dirige-se aos doze apóstolos: "Vocês também querem ir embora?" Não é uma pergunta tática. Jesus não vai impedir se alguém quer ir embora. Para Jesus os discípulos são livres. Mas para eles é um momento precioso e decisivo porque agora pode aparecer o amor verdadeiro e livre.  Tal liberdade parece dar-nos vertigens e às vezes fugimos antes de tomar consciência dela.  No entanto, é esta liberdade que nos torna pessoas autônomas, capazes de reconhecer amor e de responder a ele.
Não se exclui que Pedro também ficou murmurando diante dos ensinamentos de Jesus. Mas, de repente ele tem a impressão de que Jesus pretende deixá-lo. Pedro se você quiser, você também pode ir embora. Mas é precisamente esse respeito de Jesus à liberdade dele que faz com que Pedro volte sobre seus passos: "A que iremos Senhor, Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus".  No ponto mais profundo da crise sobra uma saída só: reconhecer que Jesus está presente e que toda a minha vida depende dele, do sim ou do não que sai dos seus lábios, da palavra de amor que só ele pode pronunciar. Todo o resto é fogo de palha. Só aí a alegria pode aparecer no nosso jeito de ser, graças a este amor em que, na verdade, nunca tínhamos chegado a acreditar. É num momento assim que podemos fazer uma opção livre. Só Jesus permanece: A que iremos Senhor? Nós cremos e sabemos que Tu és o Santo de Deus".
Sem a provação, Pedro não teria podido fazer um discernimento.É o Espírito que dá vida, a carne, isto é, o ser humano entregue a si mesmo não está em condições de saborear as coisas de Deus. Pedro descobriu isto: Senhor, tu tens palavras de vida eterna. É nisto que está o significado de cada provação: ela permite que a vida verdadeira apareça na superfície.
No mais profundo da cada provação, no ponto mais baixo de cada fragilidade, mesmo no pecado, quando tudo fica escuro e faz desaparecer o horizonte, ressoa a Palavra de Jesus. Não é a carne que a revela. Como tantos outros discípulos no evangelho estamos inclinados a tomar os nossos caminhos deixando de seguir o Senhor. Felizes somos nós que temos acesso a Ele porque este dom nos é concedido a cada momento pelo Pai.

*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm, foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo.