Total de visualizações de página

Seguidores

Mostrando postagens com marcador Eremitério Fonte de Elias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Eremitério Fonte de Elias. Mostrar todas as postagens

domingo, 21 de setembro de 2014

As Provações da vida.

*Dom Frei Vital Wilderink O.Carm. In Memoriam.

Sem passar por provações não vamos descobrir quem nós somos na verdade. Enquanto não passarmos pelo fogo da provação, sabemos muito pouco de nós mesmos, e também de Deus. Por isto, Jesus não tem medo das provações pelas quais seus discípulos hão de passar. No texto do capítulo 6, anterior ao evangelho de hoje, Jesus se apresentou como o Pão que desceu do céu.  Esta fala dele escandalizou muitos dos seus ouvintes, principalmente quando acrescentou que eles não teriam vida neles se não comessem a carne do Filho do Homem e não bebessem o seu sangue. Mas, Jesus não pretende poupar a ninguém com esse realidade "chocante". Até, sem ser violento, parece aumentar a dose, provocando uma reação nos seus discípulos: "Esta palavra é dura. Quem consegue escuta-la?" Jesus perguntou: Isto vos escandaliza? E quando virem o Filho do Homem subindo para onde estava antes?".
É importante, até necessário, que a crise exploda que ela se apresente como de fato é: incompreensível e absurdo, sem sentido. Assim cada um é obrigado a descer no profundo para descobrir o que Deus lhe pede, e o que não pede. Esta tomada de consciência pode ser muito dolorosa, mas não há jeito de evitá-la. Não adiante girar em torno dela. Jesus não vai impedir a ninguém. Não vai violentar nenhuma liberdade. Pelo contrário, ele solta seus discípulos de toda ligação inútil e infrutífera que os prende a ele. Até dirige-se aos doze apóstolos: "Vocês também querem ir embora?" Não é uma pergunta tática. Jesus não vai impedir se alguém quer ir embora. Para Jesus os discípulos são livres. Mas para eles é um momento precioso e decisivo porque agora pode aparecer o amor verdadeiro e livre.  Tal liberdade parece dar-nos vertigens e às vezes fugimos antes de tomar consciência dela.  No entanto, é esta liberdade que nos torna pessoas autônomas, capazes de reconhecer amor e de responder a ele.
Não se exclui que Pedro também ficou murmurando diante dos ensinamentos de Jesus. Mas, de repente ele tem a impressão de que Jesus pretende deixá-lo. Pedro se você quiser, você também pode ir embora. Mas é precisamente esse respeito de Jesus à liberdade dele que faz com que Pedro volte sobre seus passos: "A que iremos Senhor, Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus".  No ponto mais profundo da crise sobra uma saída só: reconhecer que Jesus está presente e que toda a minha vida depende dele, do sim ou do não que sai dos seus lábios, da palavra de amor que só ele pode pronunciar. Todo o resto é fogo de palha. Só aí a alegria pode aparecer no nosso jeito de ser, graças a este amor em que, na verdade, nunca tínhamos chegado a acreditar. É num momento assim que podemos fazer uma opção livre. Só Jesus permanece: A que iremos Senhor? Nós cremos e sabemos que Tu és o Santo de Deus".
Sem a provação, Pedro não teria podido fazer um discernimento.É o Espírito que dá vida, a carne, isto é, o ser humano entregue a si mesmo não está em condições de saborear as coisas de Deus. Pedro descobriu isto: Senhor, tu tens palavras de vida eterna. É nisto que está o significado de cada provação: ela permite que a vida verdadeira apareça na superfície.
No mais profundo da cada provação, no ponto mais baixo de cada fragilidade, mesmo no pecado, quando tudo fica escuro e faz desaparecer o horizonte, ressoa a Palavra de Jesus. Não é a carne que a revela. Como tantos outros discípulos no evangelho estamos inclinados a tomar os nossos caminhos deixando de seguir o Senhor. Felizes somos nós que temos acesso a Ele porque este dom nos é concedido a cada momento pelo Pai.

*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm, foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo.

sábado, 20 de setembro de 2014

*O silêncio do Carmelo como caminho espiritual

O parágrafo que na Regra trata do silêncio apresenta na sua própria estrutura a imagem do silêncio do Carmelo.  No capítulo há duas partes:. A primeira parte consiste em citações de Isaías, a segunda trata da instituição religiosa do silêncio.
Na primeira parte há dois textos de Isaias que devem sublinhar a exortação de Paulo. Essas duas citações guardam a força fundamental do silêncio eliano. Neste silêncio havia dois eixos essenciais: o silêncio da morte que nos silencia até para dentro da nossa existência insignificante, até o ponto de perder referências de imagens nossas e de ser transformados interiormente em respeito; e a esperança silenciosa, que arde em nosso nada e, libertada da sua reclamação angustiada, nos abre para o Seu Silêncio sem imagem. São precisamente esses dois eixos que juntos formam uma só estrutura dinâmica, que a Regra coloca nas duas citações de Isaias  em primeiro lugar como inspiração fundamental.
            A primeira citação – silêncio fomenta justiça – salienta o primeiro eixo: silêncio é um viveiro para justiça, silêncio permite as sombras da vida, não as exporta para fora, não culpa os outros por elas, não foge delas, mas deixa o seu veneno agir como um fogo que acaba com as nossas referências e formação de imagens, até que, adquirida uma fluidez interior, chegamos ao que nós somos:’ uma sombra que passa’. A partir desta consciência do nosso próprio nada e espoliados das nossas fixações, cresce em nós um respeito a partir de dentro, uma reverência silenciosa pela qual podemos ajudar no amadurecimento de nós mesmos e dos outros. Não será mais necessário deformar a nós mesmos e aos outros conforme a imagem das nossas fixações. O forno do silêncio, aceso pela Voz martelando no silêncio, nos transforma em justiça: ‘O silêncio fomenta a justiça’.
            A segunda citação: ‘No silêncio e na esperança estará a vossa força’ – mostra sobretudo o segundo eixo. O nosso nada aspira com dores ter a vida, até grita por ela. O silêncio liberta esta esperança da sua angústia. Ele muda a correnteza das nossas aspirações, libertando-as da centralidade angustiada do seu ego e transferindo-as para o outro/Outro como este é sem imagem no seu silêncio inexpugnável. É esta a esperança silenciosa que não quer outra consolação que o próprio silêncio, em que o outro como outro se confronta comigo, um silêncio em que eu não tenho mais nada a perde, que assim me fortalece a partir da sua própria fonte. É a esperança silenciosa que Isaias nos deseja: ‘Em silêncio e esperança estará a vossa força’. É importante perceber a conexão entre os dois eixos. O silêncio profético deve sempre de novo abrir-se em receptividade mística à Sua Presença silenciosa. Vice-versa o silêncio místico pede sempre de novo ser aceso pelo silêncio da morte que nos silencia sempre. O dominante é formado neste caso pelo profético silêncio da morte. No Carmelo este dominante se expressa entre outros na atenção à vida de silêncio de Cristo e principalmente no silêncio da morte da sua Cruz. Também o amor preferencial à incognoscibilidade de Deus e à noite escura da fé encontra aqui a sua origem.
Na parte B do capítulo sobre o silêncio o silêncio é institucionalizado na forma de silêncio da noite e do dia. Primeiro o silêncio da noite que, como mediador do encontro com Deus, que nos conduz para fora do mundo das idéias fixas  e dos padrões de conduta, para nos levar para a entrega desnuda a Deus que é inimaginável e inefável. Esse movimento irá aos poucos  atingir todas as ‘ocupações’ da noite: horas litúrgicas e orações, leitura da Escritura e meditações, trabalho manual e sonos. Em seguida é institucionalizado o silêncio do dia que cujo espaço é caracterizado pelo falar com cautela (o menos possível, bem distante do falar-muito) e falar com atenção ( falar sim, mas como cultura de justiça). Silêncio forma desta maneira o dia em duas dimensões: por diminuição e atenção no falar, por sobriedade e pureza, por recolhimento e veneração. ‘O silêncio fomenta a justiça” (Is 32,7). Silêncio é um viveiro para a justiça, silêncio admite as sombras da vida e não as exporta para fora, não foge delas, mas deixa o seu veneno trabalhar como um fogo que acaba com as nossas autodefinições e imagens, até tornar-nos fluidos, chegados à nossa essência: uma sombra que passa. A partir desta consciência do nosso nada e liberados das nossas fixações cresce no nosso interior respeito, veneração silenciosa que nos fazem ver a nós mesmos e aos outros como somos. Não é mais necessário reduzir o outro e a nós mesmos à imagem das nossas fixações: ‘O silêncio fomenta a justiça’
            A segunda citação: ‘No silêncio e na esperança está a vossa força’. A nossa pequenez deseja com dor chegar a vida, até grita. O silêncio liberta esta esperança da sua angústia. Ela muda a direção do seu desejo libertando-o da sua ego-centralidade angustiada e fixando-o no outro/Outro como este é sem imagem no seu silêncio inexpugnável.  Esta é a esperança silenciosa que não quer outro consolo que o próprio silêncio, em que o outro se eleva frente a mim como outro, um silêncio em que não tenho mais nada a perder, que por isto me fortifica da sua própria fonte.  É esta a esperança silenciosa que Isaias deseja para nós: No silêncio e na esperança está a vossa força’. É importante a conexão dinâmica entre as duas partes do parágrafo. O silêncio profético sempre de novo deve ser aberto em receptividade mística referente á usa Presença silenciosa. Vice-versa, o silêncio místico pede constantemente de novo ser aceso pelo silêncio-morte que nos faz silenciar. O dominante Nisto, o dominante é formado pelo silêncio-morte profético. Esse dominante se expressa no Carmelo entre outros na atenção à vida silenciosa de Cristo e principalmente ao silêncio mortal da sua Cruz. Também o amor preferencial pela inefabilidade de Deus e pelo spcto noturno da fé encontra aqui a sua origem.
A Regra faz a diferença entre o silêncio durante a noite e o silêncio do dia. O silêncio da noite que, como mediadora do encontro com Deus, nos conduz para fora do mundo das idéias fixas e dos padrões de comportamentos, para nos conduzir à confiança despojada em Deus que é sem imagem e inefável. Esse movimento passará progressivamente por todas as ‘ocupações’ da noite: horas litúrgicas e orações, leitura da Bíblia e meditações, trabalho manual e sono. Em seguida foi instituída o silêncio do dia que caracterizado pelo falar ponderado (o menos possível, longe do falar muito) e falar com atenção (falar, mas como cultura de justiça).  Silêncio forma dessa maneira a noite de dois lados: por diminuição e atenção no falar, por sobriedade e pureza, por recolhimento e respeito.
            Também aqui é importante prestar atenção à estrutura dinâmica das duas formas de silêncio. O silêncio do dia é uma forma de justiça silenciosa, que na noite se abre ao Inefável como à verdadeira fonte e forma da nossa vida. Vice-versa, a experiência de banir imagens e formas nos prepara interiormente para um respeito acolhedor de nós mesmos e do outro. Neste sentido a repetição do provérbio de Isaias:’o silêncio fomenta a justiça’ diz muita coisa. Ele pode ser entendido em duas maneiras. O silêncio da noite forma a condição para o falar com justiça: o silêncio da noite faz crescer a atitude fundamental em que o silêncio do dia floresce. E vice-versa: a justiça cria a condição para o silêncio da noite. Só uma ‘boa consciência’ pode receber o silêncio da noite. No silêncio da noite que renuncia a tudo e que respeita profundamente o Mistério, floresce o silencioso respeito durante o dia.
A estrutura do capítulo sobre o silêncio conserva a estrutura típica do silêncio do Carmelo. A parte A forma  no  interior de tudo isso a esfera de valores: no  Carmelo trata-se da  encarnação de um silêncio específico. Nele o impulso profético do silêncio-morte em suas numerosas formas é o início e o princípio. Depois disso e a partir disso o caminho do silêncio conduz para o silêncio místico que está fora de si mesmo. Esta esfera de valores forma a essência do silêncio do Carmelo. Ela o orienta e motiva, ela é a sua alma.  Parte B forma dentro dessa totalidade o aspecto institucional do silêncio: a ‘institucionalização’ do silêncio  na forma do silêncio do dia e silêncio da noite. Como uma arquitetura do tempo ela ‘guarda’ o silêncio eliano. Este forma o cristal em que a luz pode quebrar.  ‘A luz, a luz branca de Deus se quebra em cores, cores são os atos da luz que quebra’ (Nijhoff).  Assim podemos dizer do silêncio do Carmelo: ‘O Silêncio, o silêncio Eliano se quebra em justiça e horizonte. Horizonte e justiça são os atos do silêncio que quebra’. Silêncio eliano e silêncio-instituição formam juntos um modelo de transformação, um caminho espiritual que nos convida a caminhar.

SILÊNCIO ELIANO---SILÊNCIO DO CARMELO --INSTITUCIONALIZAÇÃO

O silêncio fomenta -----------------esfera de valores----------------Silêncio da noite
a justiça (Is 32,17)                            orientação                       mediadora de encontro
                                                                                                         com Deus
Mística profética ---------------------transformação --------------- viveiro de justiça
No silêncio e na esperança--------- dar forma---------------------Silêncio do dia, falar
está a vossa força (Is 30,15)        trabalho manual                 ponderado e com atenção

O silêncio eliano encontra seu dominante no impulso profético para o silêncio. A ordem é: a) justiça e b) mística. É também desta maneira que as citações de Isaias estão conectadas: ‘Silêncio fomenta justiça’ é seguido por ‘No silêncio e na esperança está a vossa força’. Na institucionalização do silêncio a ordem é em sentido oposto: primeiro (b) o silêncio místico da noite depois (a) o silenciar do dia da justiça. Não somente em relação à ordem, mas também em relação à importância o silêncio da noite (com suas poucas palavras!) parece ser o ponto de referência. Pois após a institucionalização do silêncio da noite, a Regra continua com o silêncio do dia assim: ‘Fora deste tempo, porém, ----não é tão rigorosa a observância’. Assim mantêm-se em equilíbrio a esfera do silêncio eliano e a arquitetura do silêncio do dia e da noite.

*Tradução incompleta de um artigo de Kees Waaijman O.Carm.: De Karmelstilte, Oorspronkelijke tekst van de Engestalige bijdrage in: Carmelus 40 (1993) 11-42.
Eremitério Fonte de Elias, 22 de outubro de 2011.
+fr. Vital Wilderink O.Carm.

( Dom Frei Vital Wilderink, O Carm, foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo)