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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Relatório do Sínodo. A íntegra do texto em português

Publicamos a seguir a íntegra do Relatório do Sínodo dos Bispos sobre a Família. O relatório pode ser lido no original italiano aqui. A presente tradução foi feita por Família Cristã, 13-11-2014.
Eis o relatório.

INTRODUÇÃO

I PARTE
A escuta: o contexto e os desafios sobre a família
O contexto sociocultural
A relevância da vida afetiva
O desafio às pastorais

II PARTE
O olhar em Cristo: o Evangelho da família
O olhar em Jesus e a pedagogia divina na história da salvação
A família no desígnio salvífico de Deus
A família nos documentos da Igreja
A indissolubilidade do matrimônio e a alegria de viver junto
Verdade e beleza da família e misericórdia para com as famílias feridas e fragilizadas

III PARTE
O confronto: perspectivas pastorais

Anunciar o Evangelho da família hoje nos diferentes contextos
Guiar os nubentes no caminho de preparação ao matrimônio
Acompanhar os primeiros anos da vida matrimonial
Cuidados pastorais para com aqueles que vivem o matrimônio civil ou em convivência
Curar as famílias feridas (separados, divorciados não casados novamente, família monoparentais)

A atenção pastoral para com as pessoas de orientação homosexual
A transmissão da vida e o desafio da nãonatalidade
O desafio da educação e o papel da família na evangelização

CONCLUSÃO
INTRODUÇÃO

1. O Sínodo dos Bispos, reunido com o Papa, reflete sobre todas as famílias do mundo, com suas alegrias, fadigas e esperanças. Ele sente, de modo particular, o dever de agradecer a Deus a generosa fidelidade com que tantas famílias cristãs correspondem à sua vocação e missão. E o fazem com alegria e fé, também quando o caminho lhe oferece obstáculos, incompreensões e sofrimentos.
A essas famílias dirigimos o apreço, o agradecimento e o encorajamento de toda a Igreja e deste Sínodo. Na vigília de oração celebrada na Praça São Pedro, no sábado, 4 de outubro, sobre a família, o Papa Francisco evocou de maneira simples e concreta a centralidade da experiência da família na vida de todos. Disse o seguinte: “Já cai a noite sobre a nossa assembleia. É hora em que se volta de boa vontade para casa, a fim de reencontrar-se à mesma mesa, na segurança dos afetos, do bem realizado e recebido, nos encontros que aquecem o coração e o fazem crescer, com o vinho bom que antecipa nos dias do homem a festa que não termina. É também a hora mais difícil para quem se reencontra com a própria solidão, no crepúsculo amargo dos sonhos e dos projetos fracassados: quantas pessoas arrastam os dias no beco sem saída da resignação, do abandono, ou mesmo do rancor; em quantas casas falta o vinho da alegria, portanto, o sabor – a sabedoria mesma – da vida [...] De uns e de outros, lembramos esta noite com a nossa oração, uma oração por todos”.
2. Fonte de alegrias e de provas, de afetos profundos e de relações, por vezes feridas, a família é de fato “escola de humanidade” (Gaudium et Spes, 52), da qual se sente fortemente necessidade. Não obstante sejam tantos os sinais de crise da instituição familiar nos vários contextos da “aldeia global”, o desejo de família permanece vivo, especialmente entre os jovens, e motiva a Igreja, especialista em humanidade e fiel à sua missão, a anunciar constantemente e com profunda convicção o “Evangelho da família”, que lhe foi confiado mediante a revelação do amor de Deus em Jesus Cristo e, ininterruptamente, ensinado pelos Padres, pelos Mestres de espiritualidade e pelo Magistério da Igreja.
Para a Igreja, a família assume uma importância toda particular, e, no momento em que todos os fiéis são convidados a sair de si mesmos, é preciso que a família se redescubra como sujeito imprescindível para a evangelização. Lembramos o testemunho missionário de tantas famílias.
3. Sobre a realidade da família, decisiva e preciosa, o Bispo de Roma convidou o Sínodo dos Bispos a refletir na Assembleia Geral Extraordinária de outubro de 2014, para aprofundar depois tal reflexão na Assembleia Geral Ordinária, que acontecerá em outubro de 2015, além do ano inteiro que decorre entre os dois eventos sinodais. “O próprio reunir-se todos em torno do Bispo de Roma já é um evento de graça, em que a colegialidade episcopal se manifesta num sentido de discernimento espiritual e episcopal.” Foi assim que o Papa Francisco descreveu a experiência do Sínodo, indicando-lhe as finalidades na dúplice escuta dos sinais de Deus e da história dos homens e na dúplice e única fidelidade que daí deriva.
4. À luz dessas palavras, recolhemos os resultados de nossas reflexões e dos nossos diálogos, nas três partes que seguem: a escuta, para contemplar a realidade da família hoje, na complexidade de suas luzes e sombras; o olhar fixo em Cristo, a fim de repensar, com renovado frescor e entusiasmo, tudo quanto a revelação, transmitida pela fé da Igreja, nos diz sobre a beleza, sobre a finalidade e dignidade da família; o confronto, à luz do Senhor Jesus, a fim de discernir os caminhos pelos quais renovar a Igreja, e a sociedade, no seu empenho pela família, fundada sobre o matrimônio entre homem e mulher.


I PARTE
A escuta: o contexto e os desafios sobre a família

O contexto sociocultural
5. Fiéis ao ensinamento de Cristo, contemplamos a realidade da família hoje, em toda a sua complexidade, nas suas luzes e nas suas sombras. Pensamos nos pais, nos avós, nos irmãos e irmãs, nos parentes próximos e distantes e nos laços entre duas famílias que todo matrimônio une. A mudança antropológico-cultural influencia todos os aspectos da vida e requer uma aproximação analítica e diversificada. Ressaltam-se, antes de tudo, os aspectos positivos: maior liberdade de expressão e melhor reconhecimento dos direitos da mulher e da criança, ao menos em algumas regiões. Mas, por outro lado, é preciso considerar também o crescente perigo representado pelo individualismo exasperado, que desnatura os laços familiares e acaba por considerar cada membro da família como se fosse uma ilha, e faz prevalecer em certos casos a ideia de um sujeito que se constrói segundo os próprios desejos, assumidos como um absoluto. A isso, acrescenta-se a crise da fé que atinge tantos católicos e, com frequência, está na origem das crises do casamento e da família.
6. Uma das maiores pobrezas da cultura atual é a solidão, fruto da ausência de Deus na vida das pessoas, bem como da fragilidade das relações. Existe uma sensação geral de impotência, perante a realidade socioeconômica que frequentemente acaba por destruir as famílias. Dessa forma, é pela crescente pobreza e precariedade de trabalho que ela vive por vezes como um verdadeiro pesadelo, ou por razão de um rigor por demais pesado que certamente desencoraja os jovens para o matrimônio. Com frequência, as famílias se sentem abandonadas pelo desinteresse ou pela pouca atenção da parte das instituições. As consequências negativas do ponto de vista da organização social são evidentes: da crise demográfica às dificuldades educacionais, da dificuldade em acolher a vida nascente até o perceber a presença dos anciãos como um peso, até mesmo a difundir um mal-estar afetivo que chega por vezes até a violência. É responsabilidade do Estado criar condições, através de leis e de trabalho a fim de garantir o futuro dos jovens e ajudá-los a realizar seu projeto de fundar uma família.
7. Há contextos culturais e religiosos que propõem desafios particulares. Em algumas sociedades, ainda vigora a prática da poligamia e, em alguns contextos tradicionais, a prática do “matrimônio por etapa”. Em outros contextos, permanece a prática dos matrimônios combinados. Nos países em que a Igreja católica é minoritária, são numerosos os matrimônios mistos e de disparidade de culto, com todas as dificuldades que isto comporta em relação à configuração jurídica, ao batismo e à educação dos filhos e ao recíproco respeito do ponto de vista da diversidade da fé. Nesses matrimônios, pode existir o perigo do relativismo ou da indiferença, mas pode haver também a possibilidade de favorecer o espírito ecumênico ou o diálogo inter-religioso, numa harmoniosa convivência de comunidade que vive no mesmo lugar. Em muitos contextos, e não somente no Ocidente, vai-se difundindo amplamente a práxis da convivência que precede o matrimônio, ou, ainda, de convivência não orientada para assumir a forma de um vínculo institucional. A isso se acrescente frequentemente uma legislação civil que compromete o matrimônio e a família. Por causa da secularização, em muitas partes do mundo, a referência a Deus é fortemente diminuta e a fé não é mais partilhada socialmente.
8. Muitas são as crianças que nascem fora do casamento, especialmente em alguns países, e muitas crescem com um só dos pais, ou num contexto familiar alargado ou reconstituído. O número de divórcios é crescente e, não raro, é o caso de escolhas determinadas unicamente por fatores de ordem econômica. As crianças são frequentemente objeto de contendas entre os pais, e os filhos são as verdadeiras vítimas das dilacerações familiares. Os pais frequentemente estão ausentes, não só por questões econômicas, em situações em que se percebe a necessidade de assumiremclaramente a responsabilidade pelos filhos e pela família. A dignidade da mulher precisa ser defendida e promovida. De fato, hoje, em muitos contextos a mulher é objeto de discriminação e, ainda, o dom da maternidade é com frequência penalizado, e não apresentado como valor. Não são nem mesmo esquecidos os crescentes fenômenos de violência dos quais a mulher é a vítima, e por vezes até mesmo no seio da família, e a grave e difundida mutilação genital da mulher em algumas culturas. O desfrute sexual da infância constitui uma realidade das mais escandalosas e perversas da sociedade atual. Também as sociedades atingidas pela violência por causa da guerra, do terrorismo ou da presença da criminalidade organizada, assistem a situações familiares deterioradas, sobretudo nas grandes metrópoles; e nas suas periferias cresce o assim chamado fenômeno das crianças prostituídas. A migração também representa outro sinal dos tempos a ser enfrentada com toda a carga de consequências na vida familiar.

A relevância da vida afetiva
9. Diante desse quadro social delineado, encontram-se em muitas partes do mundo, nos particulares, uma necessidade maior de cuidar da própria pessoa, de conhecer-se interiormente, de viver melhor em sintonia com as próprias emoções e os próprios sentimentos, de buscar relações afetivas de qualidade; essa justa aspiração pode levar ao desejo de empenhar-se na construção de relações de doação e reciprocidades criativas, responsáveis e solidárias, tais como as familiares. O perigo do individualismo e o risco de viver de forma egoísta são grandes. O desafio para a Igreja é de ajudar os casais no amadurecimento da dimensão emocional e o desenvolvimento afetivo, mediante a promoção do diálogo, da virtude e da confiança no amor misericordioso de Deus. O pleno desenvolvimento exigido pelo matrimônio cristão pode ser um forte antídoto contra a tentação do individualismo egoísta.
10. No mundo de hoje, não faltam tendências culturais que parecem impor uma afetividade sem limites, de que se querem explorar todas as consequências, também aquelas mais complexas. De fato, a questão da fragilidade afetiva é de grande atualidade: uma afetividade narcisista, instável e mutável, que nem sempre ajuda os sujeitos a atingirem maior maturidade. É preocupante certa divulgação da pornografia e da comercialização do corpo, favorecida também pelo uso distorcido da internet e que denuncia a situação daquelas pessoas que são obrigadas a praticar a prostituição. Nesse contexto, os casais são por vezes inseguros, hesitantes, e têm de se esforçar para encontrar as maneiras de crescer. Muitos são aqueles que tendem a permanecer nos estados primários da vida emocional e sexual. A crise dos casais desestabiliza a família e pode levar até à separação, e os divórcios produzem sérias consequências sobre os adultos, os filhos e a sociedade, enfraquecendo o indivíduo e os laços sociais. Também a queda demográfica, causada por uma mentalidade contrária à natalidade e promovida por uma política mundial de saúde reprodutiva, não somente determina uma situação em que a sucessão das gerações não é mais assegurada, mas arrisca conduzir ao longo do tempo um empobrecimento econômico e a uma perda de esperança no futuro. O desenvolvimento das biotecnologias têm tido também um forte impacto na natalidade.

O desafio às pastorais
11. Nesse contexto, a Igreja sente necessidade de dizer uma palavra de verdade e de esperança. É preciso partir da convicção de que o homem vem de Deus e, por isso, uma reflexão capaz de propor as grandes perguntas, sobre o significado de ser homem, possa encontrar terreno fértil nas expectativas mais profundas da humanidade. Os grandes valores do matrimônio e da família cristã correspondem à busca que perpassa a existência humana ainda mesmo num tempo assinalado pelo individualismo e pelo hedonismo. É preciso acolher a pessoa na sua existência concreta, saber sustentar a busca, encorajar o desejo de Deus e a vontade de sentir-se plenamente parte da Igreja, também em quem experimentou o fracasso ou se encontra em situações de segregação. A mensagem cristã traz sempre em si a realidade e a dinâmica da misericórdia e da verdade, que convergem para Cristo.

II PARTE

O olhar em Cristo: o Evangelho da família

O olhar em Jesus e a pedagogia divina na história da salvação
12. Com a finalidade de “verificar o nosso passo no terreno dos desafios contemporâneos, a condição decisiva é a de manter fixo o olhar em Jesus Cristo, manter-se na contemplação e na adoração da sua face [...]. De fato, toda vez que voltamos à fonte da experiência cristã, abrem-se de imediato novos caminhos e possibilidades impensadas” (Papa Francisco, Discurso de 4 de outubro de 2014). Jesus olhou com amor e ternura as mulheres e os homens que encontrou, acompanhando os seus passos com verdade, paciência e misericórdia, ao anunciar-lhes as exigências do Reino de Deus.
13. Dado que a ordem da criação é determinada a orientar-se para Cristo, ocorre distinguir, sem separar, os diferentes graus mediante os quais Deus comunica à humanidade a graça da aliança. Em razão da pedagogia divina, cuja ordem da criação envolve o da redenção através de etapas sucessivas, é preciso compreender a novidade do sacramento nupcial cristão, em continuidade com o matrimônio natural das origens. É assim que se entende o modo de agir salvífico de Deus, seja na criação, seja na vida cristã. Na criação: pois tudo foi feito por meio de Cristo e em vista dele (cf. Cl 1,16), os cristãos “alegram-se por descobrir e prontos para respeitar aqueles germes do Verbo que se encontram aí escondidos; devem seguir atentamente a transformação profunda que se verifica no meio dos povos” (Ad Gentes,11). Na vida cristã: ao passo que no batismo o crente é inserido na Igreja mediante a Igreja doméstica, que é a sua família, ele empreende aquele “processo dinâmico que avança gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus” (Familiaris Consortio, 11), mediante a conversão contínua ao amor, que salva do pecado e dá plenitude à vida.
14. O mesmo Jesus, referindo-se ao desígnio primeiro do casal humano, reafirma a união indissolúvel entre o homem e a mulher, embora dizendo que “pela dureza de vossos corações, Moisés permitiu-vos repudiar vossas mulheres, mas no princípio não foi assim” (Mt 19,8). A indissolubilidade do matrimônio (“Portanto, aquilo que Deus uniu o homem não separe” (Mt 19,6), não deve ser interpretada, antes de tudo como um “jugo” imposto aos homens mas, sim, como um “dom” feito às pessoas unidas em matrimônio. Desse modo, Jesus mostra como a condescendência divina acompanha sempre o caminho humano, cura e transforma com a sua graça o coração endurecido, orientando para o princípio, através do caminho da cruz. Dos Evangelhos emerge claramente o exemplo de Jesus, que é modelo para a Igreja. De fato, Jesus assumiu uma família, deu início aos sinais na festa nupcial de Caná, anunciou a mensagem referente ao significado do matrimônio como plenitude da revelação, que recupera o projeto original de Deus (cf. Mt 19,3). Mas, ao mesmo tempo, pôs em prática a doutrina ensinada, manifestando assim o verdadeiro significado da misericórdia. Isso aparece claramente nos encontros com a samaritana ( cf. Jo 4,1-30) e com a adúltera (cf. Jo 8,1-11), em que Jesus, numa atitude de amor para com a pessoa pecadora, leva ao arrependimento e à conversão (“vai e não peques mais”), condição para o perdão.

A família no desígnio salvífico de Deus
15. As palavras de vida eterna que Jesus deixou aos seus discípulos compreendiam o ensinamento sobre o matrimônio e a família. Tal ensinamento de Jesus nos permite distinguir em três etapas fundamentais o projeto de Deus sobre o matrimônio e a família. No início, há a família de origem, quando Deus criador instituiu o primeiro matrimônio entre Adão e Eva, como sólido fundamento da família. Deus não somente criou o ser humano macho e fêmea (cf. Gn 1,27), mas os abençoou a fim de que fossem fecundos e se multiplicassem (cf. Gn 1,28). Por isso, “o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne” (Gn 2,24). Essa união foi prejudicada pelo pecado e tornou-se a forma histórica do matrimônio do Povo de Deus, pelo que Moisés concedeu a possibilidade de dar um atestado de divórcio (cf. Dt 24,1ss). Tal forma era vigente no tempo de Jesus. Com seu advento e a reconciliação do mundo decaído, graças à redenção por Ele operada, terminou a era inaugurada com Moisés.
16. Jesus, que reconciliou consigo todas as coisas, deu ao matrimônio sua forma original (cf. Mc 10,1-12). A família e o matrimônio foram redimidos por Cristo (cf. Ef 5,21-32), foram restaurados à imagem da Santíssima Trindade, mistério do qual surge todo amor verdadeiro. A aliança esponsal, inaugurada na criação e revelada na história da salvação, recebe a plena revelação do seu significado em Cristo e na sua Igreja. Por Cristo, através da Igreja, o matrimônio e a família recebem a graça necessária para testemunhar o amor de Deus e viver a vida de comunhão. O Evangelho da família atravessa a história do mundo desde a criação do homem à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26-27) até o cumprimento do mistério da Aliança em Cristo, e no fim dos séculos, com as núpcias do Cordeiro (cf. Ap 19,9; João Paulo II, Catechesi sull´amore umano).

A família nos documentos da Igreja
17. “No decurso dos séculos, a Igreja não deixou faltar seu constante ensinamento sobre o matrimônio e a família. Uma das mais altas expressões desse Magistério foi proposta pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, que dedica um capítulo inteiro sobre a promoção da dignidade matrimonial e a família (cf. Gaudium et Spes, 47-52). Este definiu o matrimônio como comunidade de vida e de amor (cf. Gaudium et Spes, 48), pondo o amor no centro da família, e mostrou, ao mesmo tempo, a verdade desse amor perante as diversas formas de reducionismo presente na cultura contemporânea. O “verdadeiro amor entre homem e mulher” (Gaudium et Spes, 49) implica mútua doação de si, inclui e integra a dimensão sexual e a afetividade, correspondendo ao desígnio divino (cf. Gaudium et Spes, 48-49). Além disso, Gaudium et Spes, 48, sublinha o enraizamento dos esposos em Cristo: Cristo Senhor “Vem ao encontro dos esposos cristãos no sacramento do matrimônio” e com eles permanece. Na encarnação, ele assume o amor humano, purifica-o e leva-o à plenitude, e doa aos esposos, mediante o seu Espírito, a capacidade de vivê-lo, impregnando toda a sua vida de fé, de esperança e de caridade. Dessa forma, os esposos são como que consagrados e, mediante uma graça própria, edificam o Corpo de Cristo e constituem uma Igreja doméstica (cf. Lumen Gentium, 11), de modo que a Igreja, embora conservando plenamente o seu mistério, defende a família cristã, que o manifesta de modo genuíno” (Instrumentum Laboris, 4).
18. “Nos passos do Concílio Vaticano II, o Magistério pontifício aprofundou a doutrina sobre o matrimônio e sobre a família. De modo particular, Paulo VI, com a Encíclica sobre a encíclica Humanae Vitae, evidenciou a íntima ligação entre amor conjugal e geração da vida. São João Paulo II dedicou à família uma atenção particular através das suas catequeses sobre o amor humano, a Carta às Famílias (Gratissimam Sane) e, sobretudo, com a Exortação Apostólica Familiaris Consortio. Nesses documentos, o Pontífice definiu a família como ‘caminho da Igreja’; deu uma visão de conjunto sobre a vocação ao amor do homem e da mulher; propôs as linhas fundamentais para a pastoral da família e para a presença da família na sociedade. De modo particular, ao tratar da caridade conjugal (cf. Familiaris Consortio, 13), descreveu o modo em que os cônjuges, no seu mútuo amor, recebem o dom do Espírito de Cristo e vivem o seu chamado à santidade” (Instrumentum Laboris, 5).
19. “Bento XVI, na Encíclica Deus Caritas Est, ele voltou ao tema da verdade do amor entre homem e mulher, que acende-se totalmente, só à luz do amor de Cristo crucificado (cf. Deus Caritas Est, 2). Ele salienta, que: ‘O matrimônio baseado num amor exclusivo e definitivo torna-se o ícone do relacionamento entre Deus e seu povo e vice-versa: maneira de Deus amar torna-se a medida do amor humano’ (Deus Caritas Est, 11) . Além disso, na Encíclica Caritas In Veritate, destaca a importância do amor como princípio da vida em sociedade (cf. Caritas In Veritate, 44), um lugar onde você aprende a experiência do bem comum” (Instrumentum Laboris, 6) .
20. “O Papa Francisco, na Encíclica Lumen Fidei, sobre a ligação entre a família e a fé, escreve: “O encontro com Cristo, o deixar-se guiar pelo seu amor, alarga o horizonte da existência, doa-lhe uma esperança sólida que não desilude. A fé não é um refúgio para as pessoas sem coragem, mas a dilatação da vida. Ela faz descobrir um grande chamado, a vocação para o amor, e assegura que esse amor é confiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque o seu fundamento se encontra na fidelidade a Deus, que é mais forte do que toda a nossa fragilidade” (Lumen Fidei, 53)”. (Instrumentum Laboris,7).

A indissolubilidade do matrimônio e a alegria de viver junto
21. O dom recíproco, que constitui o matrimônio sacramental, está radicado na graça do batismo, que estabelece a aliança fundamental de toda pessoa com Cristo na Igreja. No recíproco acolhimento e com a graça de Cristo, os nubentes prometem-se dom total, fidelidade e abertura para a vida, eles reconhecem como elementos constitutivos do matrimônio os dons que Deus lhes oferece, tomando a sério o seu recíproco empenho, em seu nome e perante a Igreja. Ora, na fé, é possível assumir os bens do matrimônio como empenhos melhor sustentáveis, mediante a ajuda da graça do sacramento. Deus consagra o amor dos esposos e o confirma com a indissolubilidade, oferecendo-lhes ajuda para viver a fidelidade, a integração recíproca e a abertura à vida. Portanto, o olhar da Igreja volta-se para os esposos como ao coração da família inteira, que volta, também ela, o olhar para Jesus.
22. Nessa mesma perspectiva, fazendo nosso o ensinamento do Apóstolo, segundo o qual toda a criação foi pensada em Cristo e em vista dele (cf. Cl 1,16), o Concílio Vaticano II quis exprimir seu apreço ao matrimônio natural e aos elementos válidos presentes em outras religiões (cf Nostra Aetate, 2) e nas culturas, não obstante os limites e as insuficiências (cf Ad Gentes,11), poderia ser aplicada, por alguns aspectos, também à realidade matrimonial e familiar de tantas culturas e de pessoas não cristãs. Portanto, há elementos válidos também em algumas formas fora do matrimônio cristão −, e entretanto, fundados em relações estáveis e verdadeiras entre um homem e uma mulher −, e que, em todo caso, consideramos sejam a ele orientados. Com o olhar voltado para a sabedoria humana dos povos e das culturas, a Igreja reconhece também essa família como a célula básica e fecunda da convivência humana.

Verdade e beleza da família e misericórdia para com as famílias feridas e fragilizadas
23. Com íntima e profunda consolação, a Igreja contempla as famílias que permanecem fiéis aos ensinamentos do Evangelho, agradecendo-as e encorajando-as pelo testemunho que oferecem. De fato, graças a elas, a beleza do matrimônio indissolúvel e fiel permanece acreditável e fiel para sempre. Na família, “que se poderia chamar de Igreja doméstica” (Lumen Gentium, 11), amadurece a primeira experiência eclesial de comunhão entre as pessoas, na qual se reflete, pela graça, o mistério da Santa Trindade. “É aqui que se aprende o esforço e a alegria do trabalho, o amor fraterno, o perdão generoso, sempre renovado e, sobretudo, o culto divino através da oração e da oferta da própria vida” (Catecismo da Igreja Católica, 1657). A Santa Família de Nazaré é o modelo admirável, em cuja escola nos “compreendemos porque devemos ter uma disciplina espiritual, se quisermos seguir a doutrina do Evangelho e tornar-nos discípulos de Cristo” (Paulo VI, Discurso sobre Nazaré, 5 de janeiro 1964). O Evangelho da família alimenta também aquelas sementes que ainda esperam para amadurecer e deve cuidar daquelas árvores que se tornaram áridas e necessitam de cuidados.
24. A Igreja, como mestra segura e mãe solícita, embora reconheça que para os batizados não haja outro vínculo nupcial senão o do batismo, e que toda ruptura deste é contra a vontade de Deus, tem consciência da fragilidade de muitos de seus filhos que sentem dificuldade no caminho da fé. “Portanto, sem diminuir o valor do ideal evangélico, precisa acompanhar com misericórdia e paciência as possíveis etapas de crescimento das pessoas que se vão construindo dia por dia. [...] Um pequeno passo, em meio aos grandes limites humanos, pode ser mais agradável a Deus do que uma vida externamente correta que transcorre seus dias sem enfrentar maiores dificuldades. A todos deve chegar o consolo e o estímulo do amor salvífico de Deus, que age misteriosamente em cada pessoa, não obstante seus defeitos e suas quedas” (Evangelii Gaudium, 44).
25. Sobre uma aproximação pastoral das pessoas que contraíram matrimônio civil, e que são divorciados e casados pela segunda vez, ou que simplesmente convivem, compete à Igreja revelar-lhes a pedagogia divina da graça na sua vida e ajudá-las a chegar à plenitude no plano de Deus para elas. Seguindo o olhar de Cristo, cuja luz brilha em todo homem (cf. Jo,1,9; Gaudium et Spes, 22), a Igreja volta-se amorosamente para aqueles que participam de sua vida de modo incompleto, e reconhece que a graça de Deus age também em suas vidas, dando-lhes coragem para fazer o bem, para cuidar com amor um do outro e estar a serviço da comunidade na qual vivem e trabalham.
26. A Igreja olha com apreensão a desconfiança de tantos jovens para com o compromisso conjugal, sofre com a precipitação com que tantos fiéis decidem pôr fim ao vínculo conjugal, assumindo outros. Tais fiéis, que fazem parte da Igreja, precisam de uma atenção pastoral misericordiosa e encorajadora, que distinga adequadamente as situações. Os jovens batizados são encorajados a não hesitarem diante da riqueza que o sacramento do matrimônio oferece aos seus projetos de amor, fortes pela sustentação que lhes dá a graça de Cristo e pela possibilidade de participarem plenamente da vida da Igreja.
27. Nesse sentido, uma nova dimensão da atual pastoral familiar consiste em dar atenção à realidade dos matrimônios civis entre homem e mulher, aos matrimônios tradicionais e, feitas as devidas diferenças, também às convivências. Quando a união atinge uma estabilidade notável através de um vínculo público, tem uma conotação de afeto profundo, de responsabilidade em relação à prole, à capacidade de superar as provações pode ser vista então como uma ocasião de acompanhar um desenvolvimento para o sacramento do matrimônio. Mas com frequência, ao invés, a convivência se estabelece não em vista de um futuro matrimônio, sem intenção alguma de estabelecer uma relação institucional.
28. Conforme o olhar misericordioso de Jesus, a Igreja deve acompanhar com atenção e solicitude os seus filhos mais frágeis, marcados pelo amor ferido e desviado, dando-lhes novamente confiança e esperança, como a luz do farol de um porto ou de uma chama posta no meio das pessoas, a fim de iluminar aqueles que se desviaram da rota ou se encontram em meio à tempestade. Conscientes de que a misericórdia maior é dizer a verdade com amor, vamos para além da compaixão. O amor misericordioso, assim como atrai e une, também transforma e eleva. Convida à conversão. Do mesmo modo, entendemos a atitude do Senhor, que não condena a adúltera, mas lhe pede que não peque mais (cf. Jo 8,1-11).

III PARTE
O confronto: perspectivas pastorais

Anunciar o Evangelho da família hoje nos diferentes contextos
29. O diálogo do Sínodo considerou atentamente algumas instâncias pastorais mais urgentes a serem confiadas à concretização em cada Igreja local, na comunhão cum Petro et sub Petro. O anúncio do Evangelho da família constitui uma urgência para a Nova Evangelização. A Igreja é chamada a atuá-lo com ternura de mãe e clareza de mestra (cf. Ef 4,15), na fidelidade à kenosis misericordiosa de Cristo. A verdade se encarna na fragilidade humana não para condená-la, mas para salvá-la (cf. Jo 3,1-17).
30. Evangelizar é responsabilidade de todo o povo de Deus, cada qual segundo o próprio ministério e carisma. Sem o testemunho alegre dos cônjuges e das famílias, igrejas domésticas, o anúncio, ainda que correto, arrisca a ser incompreendido ou a afogar-se no mar de palavras que caracteriza a nossa sociedade (cf. Novo Milennio Ineunte, 50). Os Padres sinodais sublinharam várias vezes que as famílias católicas, em força da graça do sacramento nupcial, são chamadas a ser, elas mesmas, sujeitos ativos da Pastoral Familiar.
31. Será decisivo ressaltar o primado da graça, e, portanto, a possibilidade de que o Espírito Santo a conceda no sacramento. Trata-se de fazer a experiência de que o Evangelho da família é alegria que “enche o coração e a vida inteira”, porque em Cristo “somos libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior e do isolamento” (Evangelii Gaudium,1). À luz da parábola do semeador (cf. Mt 13,3), é nossa tarefa cooperar na semeadura: o restante é obra de Deus. Não é preciso nem mesmo esquecer que a Igreja que prega sobre a família é sinal de contradição.
32. É por isso que se requer de toda a Igreja uma conversão missionária: é preciso não se manter num anúncio meramente teórico e desligado dos problemas reais das pessoas. Jamais se esqueça de que a crise de fé é que trouxe a crise do matrimônio e da família; e, como consequência, interrompeu-se com frequência a transmissão da mesma fé dos pais para os filhos. Perante uma fé forte, a imposição de algumas perspectivas culturais que enfraquecem a família e o matrimônio não encontra espaço.
33. A conversão deve estender-se também à linguagem, para que seja de fato significativa. O anúncio deve fazer experimentar que o Evangelho da família é resposta às atitudes mais profundas da pessoa humana: à sua dignidade e à plena realização na reciprocidade, na comunhão e na fecundidade. Não se trata apenas de apresentar uma norma, mas de propor valores, respondendo à necessidade de que isso aconteça também nos países mais secularizados.
34. A Palavra de Deus é fonte de vida e espiritualidade para a família. Toda a pastoral familiar deverá se deixar modelar interiormente e formar membros da Igreja doméstica, mediante a leitura orante e eclesial da Sagrada Escritura. A Palavra de Deus não é somente uma boa notícia para a vida particular da pessoa, mas também um critério de julgamento e uma luz para discernir nos vários desafios que enfrentam os cônjuges e as famílias enfrentam.

35. Ao mesmo tempo, muitos Padres sinodais insistiram num aspecto mais positivo das riquezas das várias experiências religiosas, sem calar sobre suas dificuldades. Nessas diversas realidades religiosas e na grande diversidade cultural que caracteriza as nações, é oportuno apreciar primeiro as possibilidades positivas e, à luz destas, avaliar seus limites e carências.
36. O matrimônio cristão é uma vocação que se recebe com uma adequada preparação num itinerário de fé, com discernimento maduro, e não deve ser considerado apenas como uma tradição cultural ou uma exigência social ou jurídica. Portanto, é preciso realizar percursos que acompanhem a pessoa e o casal, de modo que à comunicação dos conteúdos da fé se acrescente a experiência de vida de toda a comunidade eclesial.
37. Foi repetidamente lembrada a necessidade de uma renovação radical da práxis pastoral à luz do Evangelho da família, que supere a ótica individualista que ainda a caracteriza. Por isso se tem insistido sobre a renovação da formação dos presbíteros, dos diáconos, dos catequistas e de outros agentes de pastoral, mediante um maior envolvimento das próprias famílias.
38. Ao mesmo tempo, encareceu-se a necessidade de uma evangelização que denuncie com franqueza os condicionamentos culturais, sociais, políticos e econômicos, como o excessivo espaço dado à lógica do mercado, o qual impede uma verdadeira vida familiar,= e que determina discriminação, pobreza, exclusões e violência. Por isso, desenvolvam-se um diálogo e uma cooperação com as estruturas sociais e encorajem-se e sustentem-se os leigos que se empenham, como cristãos, em âmbito cultural e sociopolítico.

Guiar os nubentes no caminho de preparação ao matrimônio
39. A complexa realidade social e os desafios que a família de hoje deve enfrentar requerem um empenho maior de toda a comunidade cristã, em preparação dos nubentes ao matrimônio. É preciso lembrar a importância das virtudes. Entre elas, a castidade, como condição preciosa para o genuíno crescimento do amor interpessoal. Relativamente a essa necessidade, os Padres sinodais concordam em sublinhar a exigência de um maior envolvimento de toda a comunidade, privilegiando o testemunho das próprias famílias, além de uma radical preparação ao matrimônio no caminho de iniciação cristã, sublinhando o nexo do matrimônio com o batismo e os outros sacramentos. Evidenciou-se ao mesmo tempo a necessidade de programas específicos para a preparação próxima ao matrimônio, que sejam uma verdadeira experiência de participação na vida eclesial e que aprofundem os vários aspectos da vida familiar.

Acompanhar os primeiros anos da vida matrimonial
40. Os primeiros anos de matrimônio constituem um período vital e delicado, durante os quais os casais crescem na consciência dos desafios e do significado do matrimônio. Daqui emerge a exigência de um acompanhamento pastoral que continue após a celebração do sacramento (cf. Familiaris Consortio, parte III). Resulta, de grande importância para essa pastoral, a presença de casais de esposos com experiência. A paróquia é considerada como o lugar onde os casais experientes possam ser colocados à disposição dos mais jovens, com o eventual concurso de associações, movimentos eclesiais e novas comunidades. É preciso encorajar os esposos para uma atitude fundamental de acolhimento do grande dom dos filhos. Destaca-se a importância da espiritualidade familiar, da oração e da participação na Eucaristia dominical, encorajando os casais a reunirem-se com regularidade para promover o crescimento da vida espiritual e a solidariedade nas exigências concretas da vida. Liturgia, práticas devocionais e Eucaristia, celebradas pelas famílias, sobretudo no aniversário de casamento, são mencionadas como vitais para favorecer a evangelização através da família.

Cuidados pastorais para com aqueles que vivem o matrimônio civil ou em convivência
41. Enquanto continua a anunciar e promover o matrimônio cristão, o Sínodo encoraja também o discernimento pastoral das situações de tantos que não vivem mais essa realidade. É importante entrar em diálogo pastoral com tais pessoas, a fim de evidenciar os elementos de sua vida que possam conduzir a uma maior abertura para o Evangelho do matrimônio, na sua plenitude. Os pastores devem favorecer a evangelização e o crescimento humano e espiritual. Uma nova sensibilidade da pastoral moderna consiste em colher os elementos positivos presentes nos matrimônios civis e, respeitadas as devidas diferenças, nas convivências. Acontece que na proposta eclesial, embora afirmando com clareza a mensagem cristã, indicamos também elementos construtivos nessas situações que não correspondem ainda ou que não mais correspondem.
42. Notou-se também, em muitos países, um “crescente número de casais que convivem ad experimentum, sem qualquer matrimônio, nem canônico, nem civil” (Instrumentum Laboris, 81). Em alguns países, isso acontece sobretudo no matrimônio tradicional, acertado entre a família e, frequentemente, celebrado em várias etapas. Em outros países, ao contrário, cresce continuamente o número daqueles que, após terem vivido juntos por longo tempo, pedem a celebração do matrimônio na igreja. A simples convivência é, frequentemente, aceita por causa da mentalidade geral contrária às instituições e aos empenhos definitivos, mas também pela espera de uma segurança existencial (trabalho e salário fixo). Em outros países, ao invés, as uniões são de fato muito numerosas, não somente pela rejeição dos valores da família e do matrimônio, mas sobretudo pelo fato de que o se desposar é percebido como um luxo, por causa das condições sociais, de modo que a miséria material impele a viver uniões de fato.
43. Todas essas situações são enfrentadas de modo construtivo, procurando transformá-las em oportunidade de caminho para a plenitude do matrimônio e da família, à luz do Evangelho. Trata-se de acolhê-las e acompanhá-las com paciência e delicadeza. A esse respeito é importante o testemunho atraente de autênticas famílias cristãs, como sujeitos da evangelização da família.

Curar as famílias feridas (separados, divorciados não casados novamente, famílias monoparentais)
44. Quando os esposos vivem problemas nas suas relações, devem contar com a ajuda e o acompanhamento da Igreja. A pastoral da caridade e da misericórdia tende a recuperar as pessoas e as relações. A experiência mostra que, com uma adequada ajuda e com a ação de reconciliação da graça, um grande porcentual de crises matrimoniais se supera de maneira satisfatória. Saber perdoar e sentir-se perdoado é uma experiência fundamental na vida familiar. O perdão entre os esposos permite experimentar um amor que dura para sempre e que não passa jamais (cf. 1Cor 13,8). Às vezes é difícil, mas quem recebeu o perdão de Deus tem a força para dar o autêntico perdão que regenera a pessoa.
45. No Sínodo ressoou uma clara necessidade de decisões pastorais corajosas. Reconfirmando com força a fidelidade ao Evangelho da família e reconhecendo que a separação e o divórcio são sempre uma ferida que causa profundo sofrimento para os cônjuges e filhos filhos, os Padres sinodais sentiram a urgência de novos caminhos pastorais, a partir da realidade real da fragilidade familiar, sabendo que essa, com frequência, é “mais percebida” como sofrimento do que escolhida com plena liberdade. Trata-se de situações diferentes, seja por fatores pessoais, culturais ou socioeconômicos. É preciso um olhar diferenciado, como são João Paulo II sugeria (cf. Familiaris Consortio, 84).
46. Cada família seja, primeiro de tudo, ouvida com respeito e amor, fazendo-se companheiro de caminhada, como Cristo com os discípulos na estrada de Emaús. Valham de modo particular, em tal situação, as palavras do Papa Francisco: “A Igreja deverá iniciar os seus membros – sacerdotes, religiosos e leigos – nesta ‘arte de acompanhamento’, a fim de que todos aprendam sempre a tirar as sandálias perante a terra santa do outro (cf. Ex 3,5). Devemos dar ao nosso caminho o ritmo salutar da proximidade, com um olhar respeitoso e pleno de compaixão, mas que, ao mesmo tempo, seja sadio, livre e encorajador, para amadurecer na vida cristã” (Evangelii Gaudium, 169).
47. É indispensável um discernimento particular para acompanhar pastoralmente os separados, os divorciados, os abandonados. Acolha-se e valorize-se, sobretudo, o sofrimento daqueles que são constrangidos pelos maus-tratos do cônjuge, a romper a convivência. O perdão pela injustiça sofrida não é fácil, mas é um caminho que a graça torna possível. Surge daqui a necessidade de uma pastoral da reconciliação, através também de centros de acolhida especializada, a ser implantada nas dioceses. Ao mesmo tempo, tenha-se em conta que é sempre necessário considerar, de modo leal e construtivo, as consequências para os filhos, da separação ou do divórcio, as quais são sempre vítimas inocentes da situação. Eles não podem ser um “objeto” de contendas e devem ser considerados na forma melhor, a fim de que possam superar o trauma da cisão familiar e crescer, o mais possível, de maneira serena. Em todo caso, a Igreja deve sempre ter em conta a injustiça que, frequentemente, causa a situação do divórcio. Especial atenção seja dada ao acompanhamento das famílias monoparentais, de modo particular sejam ajudadas as mulheres que devem levar sozinhas a responsabilidade da casa e da educação dos filhos.
48. Um grande numero de Padres sublinharam a necessidade de tornar mais acessível e ágil e, possivelmente gratuito, os procedimentos para reconhecimento dos casos de nulidade. Entre as propostas, foram indicadas: a superação da necessidade da apresentação da dupla sentença concorde; a possibilidade de determinar, por via administrativa, sob responsabilidade do bispo diocesano; um processo sumário a ser enviado nos casos de nulidade notória. Todavia, alguns Padres se dizem contrários a essa proposta, porque não garantiriam um juízo confiável. Contesta-se que, em todos esses casos, trata-se de um acerto entre a verdade da validade do vínculo. De acordo com outras propostas devem, então, ser dada a oportunidade de dar importância ao papel da fé dos nubentes, em ordem à validade do sacramento do matrimônio, entre os batizados, mantendo que todos os casamentos são sacramento válido.
49. Acerca das causas matrimoniais, a atenuação do procedimento exigido por muitos, além da preparação de agentes suficientes, clérigos e leigos com dedicação particular, exige que se tenha em conta a responsabilidade do bispo diocesano, o qual poderia, na sua diocese, encarregar consulentes devidamente preparados que possam gratuitamente conciliar as partes sobre a validade do seu matrimônio. Tal função pode ser realizada por um oficial ou pessoas qualificadas (cf. Dignitas Connubii, art. 113,1).
50. As pessoas divorciadas, mas não casadas em segundas núpcias, que frequentemente são testemunhas da fidelidade matrimonial, podem ser encorajadas a encontrar na Eucaristia o alimento que as sustenta no seu estado. A comunidade local e os pastores devem acompanhar tais pessoas com solicitude, sobretudo quando há filhos ou é grave a situação dessas pessoas, por causa da pobreza.

51. Também a situação dos divorciados, casados pela segunda vez, exige um atento discernimento e um acompanhamento de grande respeito, evitando-se toda linguagem e atitude que os façam se sentirem discriminados e se promova a sua participação na vida da comunidade. Ter cuidado com eles não é, para a comunidade cristã, um enfraquecimento da sua fé e do seu testemunho sobre a indissolubilidade do matrimônio; antes, esse cuidado exprime exatamente a sua caridade.
52. Refletiu-se sobre a possibilidade de que os divorciados e casados em segundas núpcias tenham acesso aos sacramentos da Penitência e da Eucaristia. Diversos Padres sinodais insistiram em favor da disciplina atual, em virtude da relação entre a participação da Eucaristia e a comunhão com a Igreja e o seu ensinamento sobre o matrimônio indissolúvel. Outros se expressaram por um acolhimento não generalizado à mesa eucarística, em algumas situações particulares em condições bem precisas, sobretudo quando se trata de casos irreversíveis e ligados a obrigações morais para com os filhos, que viriam a sofrer injustamente. O eventual acesso aos sacramentos deveria ser precedido por um caminho penitencial, sob a responsabilidade do bispo diocesano. Aprofundou-se ainda a questão, tendo bem presente a distinção entre situações objetivas de pecado e circunstâncias atenuantes, dado que “a imputabilidade e a responsabilidade de uma ação podem ser diminuídas ou anuladas” [...] “por diversos fatores psíquicos ou mesmo sociais” (Catecismo da Igreja Católica, 1735).
53. Alguns Padres afirmaram que as pessoas divorciadas e novamente casadas, ou que convivem, podem recorrer com fruto à comunhão espiritual. Outros Padres perguntaram por que então não podem ter acesso à comunhão sacramental. Foi, portanto, solicitado um aprofundamento da temática para fazer emergir a peculiaridade das duas formas e a respectiva conexão com a teologia do matrimônio.
54. As problemáticas relativas aos matrimônios mistos voltaram frequentemente nas intervenções dos Padres sinodais. A diversidade da disciplina matrimonial da Igreja ortodoxa coloca, em alguns contextos, problemas sobre os quais é preciso refletir em âmbito ecumênico. Analogamente, para os matrimônios inter-religiosos será importante o contributo do diálogo com as religiões.

A atenção pastoral para com as pessoas de orientação homossexual
55. Algumas famílias vivem a experiência de ter no seu interior pessoas com orientação homossexual. A esse respeito, interrogamo-nos sobre qual atenção pastoral seja oportuna perante tal situação, em referência a quanto ensina a Igreja: “Não existe fundamento algum para assimilar ou estabelecer analogias, nem mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimônio e a família”. Apesar disso, os homens e as mulheres com tendências homossexuais devem ser acolhidos com respeito e delicadeza. “A respeito deles, evitar-se-á toda atitude de discriminação injusta” (Congregação para a Doutrina da Fé, Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, 4).
56. É de todo inaceitável que os Pastores da Igreja sofram pressões nesta matéria e que os organismos internacionais condicionem as ajudas financeiras aos países pobres para a introdução de leis que instituam o “matrimônio” entre pessoas do mesmo sexo.

A transmissão da vida e o desafio da nãonatalidade
57. Não é difícil constatar que se difunde uma mentalidade que reduz a geração da vida a uma variável da projeção individual ou de casal. Os fatores de ordem econômica determinam um peso por vezes determinante, contribuindo para uma forte queda na natalidade, o que debilita o tecido social e compromete a relação sobre as gerações e torna mais incerto o olhar sobre o futuro. A abertura para a vida é exigência intrínseca do amor conjugal. Nessa luz, a Igreja apoia as famílias que acolhem, educam e circundam com seu afeto os filhos com diferentes dons.
58. Também aqui ocorre a necessidade da escuta às pessoas e dar a razão da beleza e da verdade de uma abertura incondicional à vida, como aquilo de que o amor humano necessita para ser vivido em plenitude. É sobre essa base que se pode apoiar um ensinamento adequado sobre os métodos naturais para a procriação responsável. Esta ajuda a viver de maneira harmoniosa e responsável a comunhão entre os cônjuges, em todas as suas dimensões, juntamente com a responsabilidade de gerar. E redescobre-se a mensagem da encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI, que sublinha a necessidade de respeitar a dignidade da pessoa na avaliação moral dos métodos de regulação da natalidade. A adoção de crianças órfãs e abandonadas, acolhidas como filhos próprios, é uma forma específica de apostolado familiar (cf. Apostolicam Actuositatem, III,11), mais vezes reclamada e encorajada pelo magistério (cf. Familiaris Consortio, III,II).
A escolha da adoção e da entrega exprime uma fecundidade particular da experiência conjugal, não somente quando esta é marcada pela esterilidade. Tal escolha é sinal eloquente do amor familiar, ocasião para testemunhar a própria fé e restituir a dignidade filial a quem dela foi privado.
59. É preciso ajudar a viver a afetividade também no vínculo conjugal, como um caminho de amadurecimento, no acolhimento sempre mais profundo do outro e na doação sempre mais plena. Deve-se insistir, nesse sentido, sobre a necessidade de oferecer caminhos de formação que alimentem a vida conjugal e a importância de um laicado que ofereça um acompanhamento feito de testemunhas vivas. É de grande ajuda o exemplo de um amor fiel e profundo, feito de ternura, de respeito, capaz de crescer ao longo do tempo e que, no seu completo abrir-se à geração da vida, faz a experiência de um mistério que nos transcende.

O desafio da educação e o papel da família na evangelização
60. Um dos desafios fundamentais em que se encontra a família hoje é seguramente a da educação, tornada mais exigente e complexa pela atual realidade cultural e pela grande influência das mídias. Tem-se na devida conta as exigências e atitudes de famílias capazes de ser, na vida cotidiana, lugar de crescimento, de transmissão concreta e essencial das virtudes que dão forma à existência. Isso indica que os pais podem escolher livremente o tipo de educação a dar aos filhos, de acordo com suas convicções.
61. A Igreja tem um papel precioso de sustento às famílias, a partir da iniciação cristã, através da comunidade acolhedora. A esta se pede hoje, mais ainda do que ontem, tanto nas situações complexas como naquelas ordinárias, de apoiar os pais no seu empenho de educar, acompanhando as crianças, adolescentes e jovens, no seu crescimento, através de caminhos personalizados capazes de introduzir ao sentido pleno da vida e de suscitar escolhas e responsabilidades, vividas à luz do Evangelho. Maria, pela sua ternura, misericórdia, sensibilidade materna pode nutrir a fome de humanidade e vida, por quem for invocada das famílias e do povo cristão. A pastoral e uma devoção mariana são um ponto de pertença oportuno para anunciar o Evangelho da família.

Conclusão
62. As reflexões propostas, fruto do trabalho sinodal, realizado em grande liberdade e num estilo de escuta recíproca, querem colocar questões e indicar perspectivas que deverão ser amadurecidas e precisadas pelas reflexões das igrejas locais durante o ano que nos separa da Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos prevista para o mês de outubro de 2015, dedicada à vocação e à missão da família na igreja e no mundo contemporâneo. Não se trata de decisões tomadas, nem de perspectivas fáceis. Entretanto o caminho colegial dos bispos e o compromisso de todo o povo de Deus sob a ação do Espírito Santo, olhando para o modelo da santa família, poderão guiar-nos a encontrar vias de verdade e de misericórdia para todos. São os auspícios que desde o início de nossos trabalhos o Papa Francisco nos manifestou convidando-nos à coragem da fé e à acolhida humilde e honesta da verdade na caridade.

CARMELITAS EM JOÃO MONLEVADE/MG: Um Olhar (3ª Parte).

A Palavra do Padre Provincial: Missa no Eremitério.

CARMELITAS EM JOÃO MONLEVADE/MG: Um Olhar (1ª Parte).

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 727: Vinheta.

O cardeal italiano garante que “o Papa pode estar em perigo”

“O Papa pode estar em perigo, porque alguns podem ter a intenção de querer eliminá-lo”. A opinião é do cardeal Francesco Coccopalmerio (na foto, à esquerda), um dos homens mais próximos a Francisco e presidente do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos da cúria romana. E acrescentava que Bergoglio “parece não perceber o perigo, talvez porque confia no Senhor que está com ele e em seu anjo da guarda, que deve ser muito poderoso”. A reportagem é de José Manuel Vidal e publicada no sítio Religión Digital, 05-11-2014. A tradução é de André Langer.
O prestigioso cardeal, que recebeu o doutor honoris causa pela Pontifícia Universidade de Comillas, onde também fez uma conferência, não especificou de onde pode provir o perigo para o Papa, mas admitiu que, em alguns círculos vaticanos, há resistências à sua reforma.
Perguntado sobre as recentes declarações nada amistosas sobre o Papa por parte de cardeais como Burke, Rodé, Pell, De Paolis ou Müller, o purpurado canonista explicou que “não podemos dizer que haja uma resistência organizada contra o Papa nem contra a sua reforma. Mas há pessoas que estão muito convencidas do que pensam e temem que os princípios doutrinais possam ser prejudicados”.
Perguntado também se esses cardeais “resistentes” visitaram o Papa emérito, para torná-lo partícipe das suas diferenças com Francisco, Coccopalmerio limitou-se a responder: “Eu também li essa informação, mas me parece exagerada”.
Reivindicou, ao contrário, a figura do seu mestre, o falecido cardeal Carlo María Martini, de quem disse que “neste momento, estaria com o Papa Francisco, porque ambos compartilhavam a mesma hermenêutica das pessoas”. Ou seja, ambos estão convencidos de que “na pastoral da Igreja é necessário afirmar claramente a doutrina, mas, às vezes, é mais necessário ainda olhar para as pessoas e os seus sofrimentos concretos e dar-lhes respostas”. Por isso, o arcebispo de Milão costumava dizer provocativamente: “Não quero crentes, quero pensantes”.

O segredo de Francisco
Em todo o caso, o cardeal italiano considera que o Papa conta com o apoio do povo de Deus, que “o sente muito próximo”, e acredita que “até mesmo os bispos são sensíveis a esta influência de Francisco”. E que, na sua opinião, “o segredo do sucesso de Bergoglio é que quer bem as pessoas”.
E acrescenta: “Quando vê você, olha nos seus olhos, como para lhe dizer ‘você é importante para mim, lhe escuto e aprecio’. E as pessoas percebem esta dinâmica que vai do Papa às pessoas e vice-versa. As pessoas se sentem tocadas por esta atenção genuína e não formal”.
Neste sentido, Coccopalmerio considera que Francisco “é um amigo, como um avô, consciente de que as pessoas necessitam de carinho e sentirem-se amadas, como uma necessidade vital”.

Um moderador da cúria romana
Dentro do pontificado reformador de Francisco, Coccopalmerio destacou a importância da reforma da cúria romana com “pessoas competentes e capazes”. Na sua opinião, não se trata apenas de internacionalizar o governo central da Igreja, mas também e sobretudo encontrar as pessoas adequadas que “cumpram com a função encomendada a serviço do Papa, dos bispos e dos fiéis”.

Neste sentido reivindicou sua antiga proposta de um “moderador da cúria”, cuja atividade essencial deveria se centrar em “ver se cada dicastério está cumprindo sua função, algo que, neste momento, ninguém faz”.
O presidente da Congregação para os Textos Legislativos também abordou o recente Sínodo, do qual saiu com “uma boa impressão, porque todos os padres sinodais se sentiram à vontade e puderam falar com total liberdade”. E, na sua opinião, “o Sínodo foi um bom debate fraterno, com muita sensibilidade para as questões pastorais”.
No âmbito das questões pastorais referentes ao matrimônio, Coccopalmerio avançou que, na sua opinião, “o procedimento de nulidade deveria ser mais simples e mais rápido”. E, para isso, ofereceu várias propostas concretas. Por exemplo, “caminhar para um juiz único” ou para que “em certas ocasiões, o próprio bispo pudesse declarar um matrimônio nulo”.
Por último, declarou que “o catolicismo espanhol está sendo bem visto por Roma” e agradeceu o doutorado honoris causa à Faculdade de Direito Canônico da Pontifícia Universidade de Comillas, onde tem muitos amigos e colaboradores.

Honoris Causa
O cardeal Francesco Coccopalmerio, atual presidente do Pontifício Conselho para a Interpretação dos Textos Legislativos, e Hermann-Josef Sieben, SJ, foram investidos no dia 05 de novembro doutores honoris causa pelas Faculdades de Direito Canônico e de Teologia, respectivamente, da Pontifícia Universidade de Comillas ICAI-ICADE.
O reitor Julio L. Martínez, SJ, ao referir-se ao cardeal, destacou em seu discurso a busca da verdade a partir do campo do Direito, já que “há décadas assumiu a nobre missão da revisão e reforma solicitada pelo Concílio Vaticano II do Código de Direito Canônico”.
Coccopalmerio lidera toda uma geração de canonistas por sua reconhecida autoridade e sua alta responsabilidade, e porque impulsionou “a mudança de atitude e mentalidade canônicas para que a lei necessária à Igreja seja para os fiéis um autêntico serviço e uma eficaz garantia no exercício de seus direitos fundamentais”, segundo o reitor.
José Luis Sánchez Girón, vice-decano da Faculdade de Direito Canônico e padrinho do doutorando, por sua vez, destacou “o enfoque pastoral e não falto de rigor científico” das obras de Coccopalmerio, “um expoente que marcou uma geração de canonistas”. Sánchez Girón destacou a proximidade do cardeal com os pobres e desfavorecidos, e afirmou que “quando se está com ele parece que não se está com um cardeal”.
Com o doutorado honoris causa, a Comillas ICAI-ICADE reconhece ao professor Hermann-Josef Sieben, SJ, ter dedicado sua vida à busca da verdade como puro serviço, sem pretender títulos nem reconhecimentos. “Sua vida esteve consagrada ao Senhor em um trabalho abnegado onde os tenha realizado, que, mesmo sem pretendê-lo, mereceu o reconhecimento expresso não apenas de seus discípulos e de seus pares, mas do próprio Papa emérito Bento”, destacou o reitor. Além disso, “seu imenso trabalho de pesquisa guiou os nossos professores e através de suas obras puderam foram gerações de alunos na Faculdade de Teologia. Entre os seus serviços à Comillas cabe destacar a direção das duas excelentes teses de doutorado dos professores Madrigal e Uríbarri, nossos dois últimos decanos”, recordou o reitor.

Discursos de aceitação
Em seu discurso de aceitação, intitulado “Amor ao direito, amor à lei”, Coccopalmerio referiu-se à “impossibilidade de entender a lei sem compreender antes o dever, e que não se pode entender este sem ter uma compreensão do direito”. “Direito significa a exigência de receber determinados benefícios e deve ser considerado como uma condição da pessoa, já que é uma estrutura e uma realidade intrínseca dela”.

O cardeal assinalou que “não existe o direito, mas a pessoa titular do direito” e que não se pode entender este sem uma compreensão do direito. “Onde existe um direito existe um dever, que deve ser considerado como uma necessidade vital ou como uma condição da pessoa, inclusive como a própria pessoa”.

Hermann-Josef Sieben, SJ, por sua vez, intitulou a sua intervenção “Como os Concílios definiram sua relação com o Papa e vice-versa durante o primeiro milênio”. Nela, fez uma revisão histórica na qual mencionou diferentes papas, como Leão I, Dâmaso I e Bonifácio I, e recalcou que “as duas instituições centrais da Igreja, o papado e os concílios, “não apenas mantiveram relações de fato entre si, mas plasmaram esta relação de forma explícita através de textos de natureza distinta”. Entre eles destacou as referências ao Concílio de Sárdica (ano 342), que contém “a primeira manifestação, e a única durante muito tempo, de um concílio referente à relação de um concílio com o Papa”. Fontes: http://bit.ly/1EtaP0H; www.ihu.unisinos.br

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO Nº 726. Quando eu morrer...

"Evangelho" traduzido diz que Jesus se casou e teve 2 filhos

Manuscrito de mil anos conta que Maria Madalena teria sido a mulher do Messias

Jesus não morreu solteiro.  Pelo menos é o que afirma um novo “Evangelho” escrito há mil anos em aramaico e traduzido recentemente por dois estudiosos, Barrie Wilsion e Simcha Jacobovici, que conta que o Messias teria se casado com Maria Madalena e tido dois filhos. As informações são do The Mirror UK.
Os detalhes do novo livro, descoberto na Biblioteca Britânica, serão revelados em uma coletiva de imprensa nesta quarta-feira. Mas, segundo os especialistas, o manuscrito afirm a que Jesus se casou com Maria Madalena, que aparece em todos os outros Evangelhos da Bíblia, especialmente em momentos importantes da vida de Cristo, como em sua ressurreição.
Ela teria tido dois filhos com ele. E, ao que tudo indica, o novo “Evangelho” cita o nome dos supostos descendentes.
Em alguns livros, como em Lucas, Maria Madalena é descrita como “pecadora”, sendo associada à prostituição.

sábado, 8 de novembro de 2014

VATICANO: Conhecendo o Museu (2ª Parte)

Grupos pressionam pelo fim do celibato na Igreja Católica.

Em petição, mulheres apaixonadas por padres pedem ao papa fim da proibição a relacionamentos amorosos.
Estima-se que, nos últimos 50 anos, 10 mil homens abandonaram o sacerdócio para se casar no Reino Unido.

ELISABETTA POVOLEDO
DO "NEW YORK TIMES", EM ROMA

Eles não planejavam se apaixonar. Não queriam ser alvo de fofocas maldosas. Não haviam imaginado manter encontros secretos, mas foi assim que aconteceu desde que uma mulher e um padre desafiaram um tabu da Igreja Católica e se envolveram.
"Algumas pessoas me veem como o diabo", disse a mulher, que, em companhia do padre com o qual está envolvida, concordou em falar sobre sua situação.
Os dois pediram anonimato temendo agravar a desaprovação dos pais, que sabem da situação, e o desdém de amigos e paroquianos, que suspeitam de que a amizade seja mais do que platônica.
"Corro o risco de perder tudo se isso se tornar público", disse o padre. Eles aceitaram falar, diz sua parceira, porque "sofrer nos leva a tentar mudar essa injustiça".
Uma busca online com o termo "apaixonada por um padre" leva a uma sucessão de blogs de amantes contestados pela igreja.
No Facebook, um grupo de 26 mulheres chegou a fazer uma petição ao papa Francisco pela mudança do celibato obrigatório para os sacerdotes católicos, o que aliviaria seu sofrimento.
"É realmente difícil explicar essa relação a alguém que não tenha passado por isso", disse uma das signatárias, que também está envolvida com um padre. "Queríamos informar ao papa que esse sofrimento é generalizado."
Ela voltou a escrever ao papa em setembro, pouco antes do Sínodo Episcopal, uma reunião de cerca de 200 religiosos convocados ao Vaticano para discutir questões que as famílias enfrentam nas sociedades contemporâneas.
Foi o sínodo acompanhado com mais atenção em décadas, e alguns vaticanistas traçaram paralelos com outro convocado pelo papa Paulo 6º em 1971, no qual o celibato obrigatório dos padres foi a questão central.
Naquele momento, após uma discussão acalorada, o sínodo reconfirmou o celibato obrigatório, e não houve revisão oficial dessa posição em 40 anos. Aqueles que esperavam que a questão fosse retomada no sínodo de outubro sofreram nova decepção.
Mas cada vez mais organizações de padres nos EUA, Austrália, Irlanda e outros países continuam a pressionar por mudanças.
Aqueles que contestam o celibato clerical apontam para a escassez mundial de padres e para estudos que demonstram que o celibato desencoraja jovens que desejam se tornar sacerdotes.
As estatísticas recolhidas pela Congregação para o Clero não especificam os motivos para que padres "desertem", mas os críticos sugerem que o celibato clerical seja em parte a razão.
Embora não haja números específicos, o Advent, grupo de apoio a padres que deixaram a vida sacerdotal no Reino Unido, estima que cerca de 10 mil homens tenham abandonado o sacerdócio católico para se casar nos últimos 50 anos, e isso apenas na Inglaterra e País de Gales.
A escassez exerceu impacto significativo sobre várias paróquias, diz Alex Walker, líder da Advent, que deixou o sacerdócio para se casar.
"Os bispos podem continuar orando por mais jovens com vocação para o sacerdócio, ou podem estudar o que fazer a respeito", completou.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br
OBS: Veja o site sobre o assunto. Clique aqui:http://www.padrescasados.org/


terça-feira, 4 de novembro de 2014

FREI JERRY: Ordenação Presbiteral (3ª Parte)

*A PALAVRA DO CARDEAL CARLO MARIA MARTINI- 01: In Memoriam

“A vida do homem é tão complicada como a ascensão numa parede de rocha, em que tudo é questão de sutil equilíbrio entre os diversos movimentos. Mas quando se aprendeu os ritmos, a ascensão enche o coração de alegria. De alegria, não de despreocupação, porque se sabe que um erro mínimo pode levar ao precipício! A vida do homem é uma complicação simples, na qual ele se simplifica recolhendo toda a própria existência como dom.
Deus permanece assim o único adorado, contemplado, amado, servido e tudo o mais é equilíbrio da subida onde a alegria do agir ajuda a olhar para o alto e a tender para o único necessário”.   
(Do Livro: A Mulher no seu povo: O Caminho de Maria com os homens e mulheres de todos os tempos. Página 67).
*Cardeal Carlo Maria Martini, Jesuíta, S.J. Memoriam. Ex- Arcebispo de Milão, líder da corrente modernista defensora do chamado “espírito do Concílio Vaticano II”. Morreu aos 85 anos, no 31 de agosto-2012, em Milão, Itália.
DADOS: No fim de 1979, João Paulo II o nomeou arcebispo de Milão, a maior diocese da Europa, que dirigiu por 22 anos.
Entre outras tomadas de posição, criticou duramente em 2008 a encíclica "Humanae Vitae" do papa Paulo VI, que rejeitava a contracepção, considerando que a Igreja se "afastou muito das pessoas".
Sua opinião era muito ouvida dentro da Igreja pela acuidade de suas análises e por seu humanismo, e denunciou "a tentação" de alguns católicos de "se refugiar" em novos movimentos da Igreja, fornecendo a eles um "valor absoluto" e transformando-os em verdadeiras "ideologias".
Também denunciou as "novas pestes" da sociedade, como a droga, e também a corrupção e a solidão.
Considerava que uma "evolução" no âmbito do celibato dos sacerdotes era possível, sem que a Igreja de Roma renunciasse inteiramente ao tema, o que teria "consequências mais negativas que positivas".
Amigo pessoal de João Paulo II, discordou dele em algumas questões, sobretudo morais. Trocou uma carta com o escritor Umberto Eco sobre a fé.
Em 1999 "teve um sonho": convocar um novo Concílio, um Vaticano III, porque achava que o Vaticano II (1962/65) estava, de certa forma, obsoleto.
Em 2007 afirmou que não realizaria a missa em latim, quando ela foi autorizada novamente pela Igreja sob o papado de Bento XVI.
Antes de se aposentar, em julho de 2002, à idade canônica de 75 anos, realizou seu sonho: ir a Jerusalém. Neste ano também anunciou que sofria de Parkinson.
Voltou à Itália em 2008, onde se retirou em uma casa de estudos jesuítas em Gallarate, no noroeste de Milão. Fonte: https://br.noticias.yahoo.com

domingo, 26 de outubro de 2014

30º Domingo do Tempo Comum: Um Olhar

A liturgia do 30º domingo Comum diz-nos, de forma clara e inquestionável, que o amor está no centro da experiência cristã. O que Deus pede – ou antes, o que Deus exige – a cada crente é que deixe o seu coração ser submergido pelo amor.
O Evangelho diz-nos, de forma clara e inquestionável, que toda a revelação de Deus se resume no amor – amor a Deus e amor aos irmãos. Os dois mandamentos não podem separar-se: “amar a Deus” é cumprir a sua vontade e estabelecer com os irmãos relações de amor, de solidariedade, de partilha, de serviço, até ao dom total da vida. Tudo o resto é explicação, desenvolvimento, aplicação à vida prática dessas duas coordenadas fundamentais da vida cristã.
O que é “amar a Deus”? De acordo com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor a Deus passa, antes de mais, pela escuta da sua Palavra, pelo acolhimento das suas propostas e pela obediência total aos seus projetos – para mim próprio, para a Igreja, para a minha comunidade e para o mundo. Esforço-me, verdadeiramente, por tentar escutar as propostas de Deus, mantendo um diálogo pessoal com Ele, procurando refletir e interiorizar a sua Palavra, tentando interpretar os sinais com que Ele me interpela na vida de cada dia? Tenho o coração aberto às suas propostas, ou fecho-me no meu egoísmo, nos meus preconceitos e na minha auto-suficiência, procurando construir uma vida à margem de Deus ou contra Deus? Procuro ser, em nome de Deus e dos seus planos, uma testemunha profética que interpela o mundo, ou instalo-me no meu cantinho cómodo e renuncio ao compromisso com Deus e com o Reino?
O que é “amar os irmãos”? De acordo com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor aos irmãos passa por prestar atenção a cada homem ou mulher com quem me cruzo pelos caminhos da vida (seja ele branco ou negro, rico ou pobre, nacional ou estrangeiro, amigo ou inimigo), por sentir-me solidário com as alegrias e sofrimentos de cada pessoa, por partilhar as desilusões e esperanças do meu próximo, por fazer da minha vida um dom total a todos. O mundo em que vivemos precisa de redescobrir o amor, a solidariedade, o serviço, a partilha, o dom da vida… Na realidade, a minha vida é posta ao serviço dos meus irmãos, sem distinção de raça, de cor, de estatuto social? Os pobres, os necessitados, os marginalizados, os que alguma vez me magoaram e ofenderam, encontram em mim um irmão que os ama, sem condições?

Fonte: http://www.dehonianos.org/ (Leia na íntegra. Clique aqui no link do olhar- A PALAVRA DE JESUS CRISTO- e procure pelo 3º Domingo do Tempo Comum)

FALHA NOSSA: A Palavra do Frei Petrônio, no Vaticano.

“EU VOTO A FAVOR DOS POBRES, EU VOTO DILMA”. Frei Petrônio.

POMPEIA: Para Marco Moretto

800 ANOS DE SANTO ALBERTO: Frei Bruno Secondin. (1ª Parte)

800 ANOS DE SANTO ALBERTO: Momento de Espiritualidade.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 714º. A Igreja de Francisco.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 715º. Evangelho do dia.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 713º. A Igreja não é do Papa...

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 713º. A Igreja não é do Papa...

Deus é gay?

Frei Betto, OP.

Jesus transitou, sem discriminação, entre o mundo dos ‘pecadores’ e dos ‘virtuosos’. Agora, o papa Francisco ousa se erguer contra o cinismo.

Nunca antes na história da Igreja um papa ousou, como Francisco, colocar a questão da sexualidade no centro do debate eclesial: homossexualidade, casais recasados, uso de preservativo etc. O Sínodo da Família, realizado no Vaticano, só dará sua palavra final sobre esses temas em outubro de 2015, quando voltará a se reunir.
Quem, como eu, transita há décadas na esfera eclesiástica sabe que é significativo o número de gays entre seminaristas, padres e bispos. Por que não gozarem, no seio da Igreja, do mesmo direito dos heterossexuais de se assumir como tal? Devem permanecer “no armário”, vitimizados pela Igreja e, supostamente, por Deus, por culpa que não têm?
É preciso reler o Evangelho pela ótica gay, como pela feminista, já que a presença de Jesus entre nós foi lida pelas óticas aramaica (Marcos); judaica (Mateus); pagã (Lucas); gnóstica (João); platônica (Agostinho) e aristotélica (Tomás de Aquino).
A unidade na diversidade é característica da Igreja. Basta lembrar que são quatro os evangelhos, não um só: quatro enfoques distintos sobre Jesus. Até a década de 1960, predominava no Ocidente uma única ótica teológica: a europeia, tida como “a teologia”. O surgimento da Teologia da Libertação, com a leitura da Palavra de Deus pela ótica dos pobres, causa ainda incômodo aos que consideram a ótica eurocentrada como universalmente ortodoxa.
Diante dos escândalos de pedofilia, dos 100 mil padres que abandonaram o sacerdócio por amor a mulheres, e da violência física e simbólica aos gays, Francisco ousa se erguer contra o cinismo dos que se arvoram em “atirar a primeira pedra.”
Como Jesus, a Igreja não pode discriminar ninguém em razão de tendência sexual, cor da pele ou condição social. O que está em jogo é a dignidade da pessoa humana, o direito de casais gays serem protegidos pela lei civil e educarem seus filhos na fé cristã, o combate e a criminalização da homofobia, um grave pecado. A Igreja não pode continuar cúmplice e, por isso, acaba de superar oficialmente a postura de considerar a homossexualidade um “desvio” e “intrinsecamente desordenada”.
A dificuldade de a Igreja Católica aceitar a plena cidadania LGTB se deve à sua tradição bimilenar judaico-cristã, que é heteronormativa. Por isso, os conservadores reagem como se o papa traísse a Igreja, a exemplo do que fizeram no passado, quando se recusaram a aceitar a separação entre Igreja e Estado; a autonomia das ciências; a liberdade de consciência; as relações sexuais, sem fins procriativos, dentro do matrimônio; a liturgia em língua vernácula.
Deus é gay? “Deus é amor”, diz a Primeira Carta do apóstolo João, e acrescenta “o amor é de Deus, e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus.” E, se somos capazes de nos amar uns aos outros, “Deus permanece em nós.”
Por ser a presença de Deus entre nós, Jesus transitou, sem discriminação, entre o mundo dos “pecadores” e dos “virtuosos”. Não apedrejou a adúltera; não fugiu da prostituta que lhe enxugou os pés com os cabelos; não negou a Madalena, que tinha “sete demônios”, a graça de ser a primeira testemunha de sua ressurreição. Jesus também não se recusou a dialogar com os “virtuosos” — aceitou jantar na casa do fariseu; acolheu Nicodemos na calada da noite; dialogou sobre o amor samaritano com o doutor da lei; propôs ao rico que, “desde jovem” abraçava todos os mandamentos, a fazer opção pelos pobres.
Sobretudo, ensinou que não é escalando a montanha das virtudes morais que alcançamos o amor de Deus. É nos entregando a esse amor, gratuito e misericordioso, que logramos fidelidade à Palavra.
Fé, confiança e fidelidade são palavras irmãs. Têm a mesma raiz. E a vida ensina que João é fiel a Maria, e vice-versa, não porque temem o pecado do adultério, e sim porque vivem em relação amorosa tão intensa que nem cogitam a menor infidelidade.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

HISTÓRIA DE SAN GENNARO: Biografia.

Por volta do ano de 305, San Gennaro era diácono da igreja da cidade de Miseno Sosio e depois foi Bispo em Benevento, cidade da região de Campânia, próxima a Nápoles (Italia), quando sofreu perseguição por parte do imperador romano Diocleciano. A tradição conta que o Santo foi reconhecido e preso pelos soldados do governador de Campânia quando se dirigia à prisão para visitar os cristãos detidos, sendo morto decapitado.
Como era costume nos martírios da época, os cristãos recolheram um pouco do sangue de San Gennaro numa ampola de vidro para ser colocada diante de seu túmulo, sendo, após isso, sepultado numa estrada entre Pozzuoli e Nápoles.
 Em 413 seu corpo foi transferido para as catacumbas napolitanas na Colina Capodimonte. Mais tarde, foi novamente removido para Benevento (Abadia de Montevergine) e por fim, no ano de 1492, seus restos mortais foram transferidos para Nápoles, por ordem do Arcebispo Alessandro Carafa.
Já no ano de 472 da Era Cristã, os cristãos buscavam a ajuda de San Gennaro. Naquela feita, o estrago da erupção do Vesúvio prometia ser catastrófico. Aturdidos com a perspectiva, os napolitanos correram para o túmulo de San Gennaro e, de mãos juntas, rogaram proteção ao mártir cristão. Milagrosamente, as lavas estacionaram às portas de Nápoles, poupando-lhe o mesmo destino trágico de Pompéia.
Desde 1608, os restos mortais encontram-se na Capela do Tesouro, em cumprimento da promessa feita pelos napolitanos em 1527, por ocasião de uma peste que assolou a região, mas Nápoles foi preservada pelo Santo. Também em duas outras ocasiões San Gennaro protegeu a cidade : na cólera que assolou a região em 1884 e na erupção do Vesúvio em 1631.
Desde aquele ano, o culto a San Gennaro só tem aumentado. Especialmente em maio e setembro, quando o napolitano ruma em massa para o Duomo, a histórica catedral onde está guardado o frasco com o sangue coagulado do santo.
A devoção a San Gennaro é conhecida no mundo inteiro pela liquefação do sangue do bispo mártir, que ocorre três vezes por ano: no sábado que precede o 1º domingo de maio; no dia 19 de setembro que é a festa do Santo e em 16 de dezembro, aniversário da erupção do Vesúvio em 1631.
A ocorrência, que vem sendo verificada desde 1389, consiste na passagem do sangue de San Gennaro do estado sólido para o estado líquido, perdendo no peso e aumentando no volume.
Existem uns 5 mil processos, que confirmam o fenômeno, inclusive a declaração de Montesquieu, que assistiu duas destas liquefações em 1728.
Em 1902, o conteúdo das ampolas foi submetido a exame electroscópio diante de testemunhas e o cientista Sperindeo declarou que não há dúvida de que se trata de sangue humano que, uma vez coalhado, não perde o estado sólido. São 600 anos de fé, superstição e ceticismo, que acompanham o mistério dos milagres do sangue do padroeiro de Nápoles e da Mooca, em São Paulo.
Acreditam os fieis que quando o sangue do mártir não se liquefaz, sempre ocorre uma catástrofe, como aconteceu no caso de várias epidemias em Nápoles, nas várias perigosas erupções do Vesúvio e no começo da 2ª Guerra Mundial.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 711º. O Carmelo em Roma.

A PALAVRA DO FREI SÍLVIO FERRARI, Nº 02: São Paulo, Apóstolo.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

800 ANOS DE SANTO ALBERTO: Frei Fernando Millán (3ª Parte)

UM OLHAR SOBRE A ITÁLIA: Chegando a Nápoles (1ª Parte)

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 708. Frei Bruno Secondin.

O carmelita na América Latina.

*Dom Frei Vital Wilderink, O. Carm. In Memoriam.

A nova Ratio da Ordem que trata da formação no Carmelo descrevendo-a como um processo de transformação, coloca a contemplação no coração do carisma carmelitano. É precisamente o segredo da viagem que continua, pois ninguém se põe em caminho se o objetivo final da caminhada não estivesse de alguma maneira presente desde os primeiros passos.
A viagem é feita dentro da história em que nos encontramos inseridos, no meio do povo. A própria viagem toma-se missão. A dificuldade que muitos sentem é como ligar este cerne do carisma que é a contemplação ou experiência de Deus com os desafios dessa história, no nosso caso, com a realidade da América Latina. Continua persistente, também entre nós, um certo dualismo. Mesmo fazendo uma leitura sócio-pastoral da Igreja tropeçamos em fenômenos que fazem perceber a dificuldade de ligar fé e vida, revelação e experiência humana, Esta dificuldade provém em grande parte da imagem de Deus que não passa pelo filtro do nosso tempo. É preciso reconhecer que muita coisa de positivo foi feito para desfazer essa mentalidade dualista, principalmente através da pastoral bíblica (círculos bíblicos), pela teologia de libertação, na prática das comunidades de base, para mostrar que não se pode separar a revelação de Deus da caminhada do povo. O povo de Israel descobriu a presença de Deus na libertação da escravidão do Egito. E os profetas sempre insistem nessa manifestação de Yahweh quando o povo se torna infiel a essa aliança estabelecida com Ele.
"Como nós carmelitas deveríamos situar-nos frente à realidade que nos envolve na América Latina?" Faço minha esta pergunta feita na carta de quem me convidou para participar deste encontro. A resposta pode parecer simplista ou até um círculo vicioso: fazer com que a questão de Deus permaneça central na nossa existência. Não se trata em primeiro lugar da questão sobre um Ser supremo. A questão de Deus está ligada à questão da realidade. Se a questão de Deus deixa de ser central, ela será substituída pela problemática que nos envolve. A questão que se coloca é do sentido da vida, do destino da terra, da necessidade ou não de um fundamento. Perguntamos simplesmente qual é para cada um de nós a última questão, ou por que esta questão não é colocada. Mas para poder admitir a questão e refletir sobre ela, há necessidade de um silêncio interior, ou como diz a Regra de uma pureza de coração. Sem esse preliminar nem se percebe de que se trata. Já na Idade Média falava-se da necessidade do olho da fé É o órgão da
faculdade que nos dá acesso a uma dimensão que transcende, sem negar o que captam o olho dos sentidos e o olho da inteligência.
O discurso sobre Deus é radicalmente diferente de outros discursos, pois Deus não é um objeto. Do contrário ele seria um ídolo. Nenhum instrumento pode localizar Deus, nem a teologia acadêmica. Pode haver especialistas em teologia ou mesmo, em espiritualidade e mística. Não há, porém, cursos de especialização em Deus. A única mediação somos nós mesmos. Santo Tomás já dizia: "A criatura é a mediação entre Deus e o nada". Jamais podemos colocar Deus do nosso lado contra os outros. Talvez um texto de São Bernardo possa ilustrar o que acabamos de afirmar. Num sermão sobre o Cântico dos Cânticos ele confessa que recebeu com certa freqüência a visita do Verbo, mas que não soube explicar como Ele entrou. Por onde entrou? Ou será que Ele não entrou, visto que não vem de fora? Pois Ele não é nenhuma das coisas que estão fora de nós. Também é certo que não veio de dentro de mim, porque Ele é bondade, e bem sei que em mim não existe nada de bom. Daí eu me elevei acima de mim mesmo, mas o Verbo está mais além. Intrigado, sondei o que está abaixo de mim, mas Ele está em maior profundidade. Olhando para fora de mim, concluí que está além de tudo o que do lado de fora fica o mais longe de mim. E olhando para dentro de mim, que a sua presença é mais interior que o meu íntimo. E assim compreendi a verdade daquilo que eu tinha lido: "Nele vivemos, nos movemos e somos" (At 17,28).
Não é possível falar de um Deus puramente transcendente. Seria inclusive uma coisa supérflua, e mesmo, contraditória. Por isso o deísmo, herança recebida do Iluminismo, não nega a existência de Deus como Ser supremo, mas não admite a sua revelação porque é o próprio homem que determina o lugar que Deus pode ocupar. Aos poucos Deus vai se tornando uma hipótese inútil.
Mas Deus se revelou e, portanto, se engajou na história dos homens. A revelação é essencialmente Deus que se doa a nós. É o acontecer de um encontro. E neste encontro não atingimos algo de Deus, um aspecto ou um segmento do seu mistério. O que Deus revela é o seu "coração". Ao mesmo tempo, porém, Deus permanece sempre maior do que o nosso coração, Ele será sempre um Deus escondido, Ele é mais do que a sua revelação. Esse mais não deve ser pensado em termos quantitativos, mas significa que Deus não se torna objeto da revelação. Deus permanece o sujeito da revelação e como tal transcende a sua revelação, é anterior a ela. Deus é o mistério maior que não se esgota na sua relação reveladora. Além disso, não podemos aduzir nenhuma razão que explica ou justifica a revelação de Deus. É o seu "desígnio secreto" (Ef 1,9). "Ele nos amou primeiro" (1 Jo 4,10). A gratuidade do amor de Deus deixaria de ser gratuidade se pudéssemos explicá-la. Vale aqui a declaração de P. Evdokimov, teólogo ortodoxo: "Não é o conhecimento que ilumina o mistério, é o Mistério que ilumina o conhecimento".
Nenhuma linguagem humana é capaz de descrever o mistério de Deus. O que faz entender porque a Regra fala em dois parágrafos sobre o silêncio, não só como exercício ascético para chegar à pureza do coração, mas também como matriz de toda palavra autêntica. O que faz pensar no que escreveu santo Ireneu: "Do silêncio primordial surgiu o logos". No silêncio se entrelaçam o tempo e a eternidade. Uma vida de silêncio não é a mesma coisa que o Silêncio da Vida. O mesmo santo Ireneu escreve sobre essa Vida: "A glória de Deus é a Vida do homem, e a vida do homem é conhecer a Deus". A primeira parte deste texto foi muito citada em ambientes de pastoral social: a glória de Deus é a vida do homem. Omitindo a segunda parte surge de novo um certo dualismo entre fé e vida, entre revelação de Deus e caminhada do povo. Neste caso a opção pelos pobres, aos excluídos corre o perigo de ser reduzida a uma mera obrigação ética. "Tudo o que vocês fizerem ao menor de meus irmãos, e a mim que o fizestes". É uma afirmação ontológica da presença de Cristo no outro. Jesus manifesta nessa tomada de posição parcial, a universalidade do desígnio de Deus. Cristo não é símbolo para a realidade, mas da realidade. A evangélica opção preferencial se situa no nível do que Raimon Panikkar chama de cristofania. Por Cristo, com ele e nele, todas as dimensões da realidade se juntam: "Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito de tudo o que existe" (10 1,2). O universo inteiro é chamado a participar da vida trinitária em Cristo e por Cristo. O que dá uma perspectiva profunda ao "viver em obséquio de Jesus Cristo" da Regra. . Volta aqui a contemplação como cerne do nosso carisma. Penso que sem esse cerne não encontramos uma resposta à pergunta que me foi feita na carta mencionada: "Como nós carmelitas deveríamos situar-nos frente à realidade que nos envolve na América Latina?"
A questão de uma vida de silêncio e do Silêncio da Vida pode parecer uma espécie de fuga do mundo, um viver no abstrato. Neste sentido ouve-se freqüentemente a crítica: basta de belas teorias, precisamos da prática. Cabe fazer aqui uma distinção entre o que é urgente e o que é importante. O urgente com suas características de imediato desvia a nossa atenção daquilo que é importante. Se o urgente não é importante nós nos lançamos numa prática contraproducente. Se o importante não é urgente mergulhamos numa teoria errônea: o importante será uma simples abstração. No urgente destacamos o fator do tempo, no importante acentuamos o fator do peso. A sabedoria conste em combinar o urgente com o importante. É a arte de fazer calar as atividades da vida que não são a Vida. Não são as atividades que produzem o ativismo, mas a falta de silêncio interior. Ativismo é como a gravidez psicológica: seus efeitos visam o presente. A gravidez real se dá no presente mas, não para o presente. Freqüentemente agimos a partir de atributos que configuram a nossa personalidade: sou professor, diretora de um colégio, empresário, operário, pároco, superior, etc. É assim que somos identificados, é assim que os olhos dos outros se fixam em nós. Quem se identifica exclusivamente a partir dessas atribuições, estas freqüentemente começam a sufocar-lhe a identidade profunda. De certa maneira deveria haver um despojamento do conjunto dessas atribuições para poder chegar ao Silêncio da Vida. Enfocando o relacionamento que deve existir entre o prior e os irmãos, Alberto ofereceu aos eremitas do Monte Carmelo uma pista para chegar a esse despojamento.
Tu, irmão B. e seja quem for indicado Prior depois de ti, tenhais sempre em mente e cumpram na prática o que o Senhor diz no evangelho: Todo aquele que entre vós quiser tornar-se o maior, seja o vosso servidor, e quem quiser ser o primeiro, seja o vosso empregado.
E vós, os demais irmãos, honrai humildemente o vosso Prior, pensando, mais do que nele, em Cristo que o colocou acima de vós, e que diz aos que estão à frente das igrejas: Quem vos ouve, é a mim que ouve; quem vos despreza, é a mim que despreza, a fim de que não sejais julgados como réus por menosprezo, mas possais merecer por obediência a recompensa da vida eterna.
Seria empobrecer o conteúdo do texto citado fosse reduzi-lo a uma exortação piedosa ou moral. Como em toda a Regra do Carmelo, também aqui aparece a tensão que existe entre o urgente e o importante, entre prática e teoria. Já no primeiro parágrafo da sua exposição, em que fala da eleição do Prior, Alberto insiste na obediência que cada um dos irmãos deve prometer ao que tiver sido eleito, e no empenho de cumprir na verdade da prática o que prometeu. É claro que na prática podem surgir abusos e comportamentos imaturos de ambas as partes. O que, porém, não invalida a perspectiva cristocêntrica que a Regra abre também para o relacionamento mútuo entre o Prior e os demais irmãos. O essencial é a obediência ao que ressoa além do meu horizonte. Trata-se da "salvação no Senhor" que Alberto deseja aos carmelitas já no início da sua carta. Salvação é "participar da natureza divina"(2 Pd 1,4) por Cristo. É precisamente nisto que consiste o mistério envolvido em silêncio desde sempre, mas agora revelado em Jesus (Rm 16,25) que veio para que todos tenham Vida, e a tenham plenamente (Jo 10,10).
Muitas vezes identificamos a Vida com as atividades da vida e nos alienamos da nossa própria fonte estabelecendo uma dicotomia entre o fundamental ou essencial e o relativo. O essencial não seria essencial se não o descobríssemos a partir do relativo. O fato de vivermos no tempo, a nossa vida se desenvolve ao longo de uma linha temporal. A própria consciência que temos das coisas é marcada pelo tempo. Além disto, pelo fato de vivermos no espaço a nossa consciência é atingida pelo parcial e pelo distante que supõe o caráter material da realidade. Isto faz com que tudo em nós tenda para algo mais que não se estenda pelo tempo e pelo espaço. Surgem assim as interrogações fundamentais: de onde viemos e aonde vamos? São questões que sempre permanecem abertas, pois nenhuma resposta nossa é capaz de exauri-Ias. O desconhecido permanece e não se deixa manipular. E ao inverso, o relativo só pode ser relativo porque existe uma relação a partir do essencial. Teresa de Ávila o diz às suas filhas: Deus se faz encontrar também na cozinha no meio das panelas. E outro escritor que compara o homem e a mulher casados às duas margens de um mesmo rio. Não se trata, portanto de negar a importância das atividades e ocupações da vida. Não podemos viver sem sentir, sem amar, sem comer, sem trabalhar. Os parágrafos que a Regra dedica à refeição e ao trabalho, não são apenas de natureza disciplinar: apontam para o essencial. Agora sem o silêncio dos sentidos e do intelecto, o olho dá fé fica atrofiado e não conseguimos nos abrir à Vida que é anterior às suas expressões nas nossas diversas atividades. Lembro-me aqui de Tito Brandsma que sabia combinar o urgente com o importante e abrir-se ao Silêncio da Vida. Era um homem que se situava junto à Fonte. Sabia unificar-se por dentro e por isso estava inteirinho na sua cela, no atendimento aos humildes, aos estudantes, aos jornalistas, aos nazistas que o interrogavam e o maltratavam.

*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm, foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo.