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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

CARMELITAS. OS VOTOS- UM CHAMADO À TRANSFORMAÇÃO: O VOTO DE OBEDIÊNCIA.


Frei Quinn R. Conners, O. Carm.

Obediência – A Escuta como Transformação
A forma mais radical de obediência na Bíblia é a escuta fiel da voz de Deus que vem a nós através da comunidade, através de nossos mestres e líderes e através dos fatos da história. Deuteronômio 6,4-9 é a expressão perfeita da virtude bíblica da obediência.
Ouça, Israel! Javé nosso Deus é o único Javé. Portanto, ame a Javé seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma e com toda a sua força. Que estas palavras, que hoje eu lhe ordeno, estejam em seu coração. Você as inculcará em seus filhos, e delas falará sentado em sua casa e andando em seu caminho, estando deitado e de pé. Você também as amarrará em sua mão como sinal, e elas serão como faixa entre seus olhos. Você as escreverá nos batentes de sua casa e nas portas da cidade.
Este credo, o famoso Shema, capta concisamente a noção judaica de como a vida dos judeus é totalmente centrada em Deus. Por Israel estar tão convencido da presença amorosa de Deus na história, por estar tão agarrada à realidade de Deus, sua única resposta é aquela de obediência reverente e de abertura confiante na direção amorosa de Deus feitas diariamente.
As grandes figuras do Antigo Testamento nos mostram que este tipo de obediência é um desafio. O exemplo de obediência radical destas figuras pode coexistir com a confusão e a ira diante dos caminhos misteriosos de Deus. Por exemplo, Moisés, que tira suas sandálias em reverência diante da presença de Deus na sarça ardente, também pode quebrar as tábuas de Deus com ira diante da estupidez do povo de Deus e dos confusos caminhos de Deus. O Salmista, cuja poesia lírica louva o poder e a grandeza criadora de Deus, também pode captar a raiva e a frustração diante das exigências de Deus. Jeremias, o profeta que fala de Deus como um fogo ardente em seus ossos, também pode chamar Deus de um rio enganador que corre para o deserto apenas para desaparecer em terras áridas. A obediência é uma experiência humana e multidimensional.
No Novo Testamento, Jesus se torna a plena expressão da obediência. Ele conhecia o poder da fé bíblica. Jesus foi o único Filho em quem Deus permaneceu. Ele foi plenificado com o Espírito de Deus, buscando muitas vezes a comunhão silenciosa com seu “Abba”. No evangelho de João ouvimos muitas vezes sua confiança de conhecer Deus e de ser conhecido por Deus. Contudo, antes do mistério da paixão e da morte, Jesus também se tornou o Filho obediente de Deus, enquanto esbravejava contra a escuridão e o silêncio da voz de Deus: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Sl 22,1).
Jesus lutou para ser fiel ao Pai: “Embora sendo Filho de Deus, aprendeu a ser obediente através de seus sofrimentos” (Hb 5,8). Ele fez muitas orações para se tornar capaz de conquistar esta posição (Hb 5,7; Lc 22,41-6). Mas ele não foi conquistado. Ninguém, nenhuma autoridade em qualquer época foi capaz de interferir neste segredo mais profundo de Jesus. Aqueles que tentaram interferir chocaram-se com uma parede impenetrável. Ele foi obediente até a morte, e morte de cruz (Fl 2,8).
A comunhão entre Jesus e o Pai não foi automática, mas sim o fruto da luta que Jesus travou dentro de si mesmo para obedecer ao Pai em tudo e para estar sempre unido a ele. Jesus disse: “Eu não posso fazer nada por mim mesmo. Eu julgo conforme o que escuto” (Jo 5,30). “O Filho não pode fazer nada por sua própria conta; ele faz apenas o que vê o Pai fazer” (Jo 5,19). Como e onde Jesus viu e ouviu o que o Pai queria dele? Como a vontade do Pai se manifestou a Jesus?
Em primeiro lugar, Jesus descobriu a vontade do Pai assumindo sua condição de pobre. O que para alguns era a condenação do destino, para Jesus era a manifestação da vontade do Pai. Jesus nasceu pobre. Continuar ao lado dos pobres foi a decisão do Filho querendo ser obediente ao Pai até a morte e “morte na Cruz”.
Em segundo lugar, Jesus descobriu a vontade do Pai nas Sagradas Escrituras e na história de seu povo. Jesus buscou as Escrituras como a fonte da autoridade (Lc 4,18). Ele se orientou através das profecias do Servo de Deus e do Filho do Homem para realizar sua missão como Messias (Mc 1,11; 8,31). Foi nas Escrituras que ele encontrou as respostas contra as tentações que experimentou. “Não faço nada por mim mesmo, pois falo apenas aquilo que o Pai me ensinou” (Jo 8,28). A Boa Nova do Reino foi e continua sendo, antes de mais nada, a face do Pai a ser revelada ao povo, especialmente aos pobres.
Assim, a obediência bíblica é elaborada no contexto das escolhas da vida real. O sofrimento, as frustrações, a aridez espiritual, são preços a serem pagos. Mas o povo das Escrituras apega-se ferozmente à sua fé na realidade da presença de Deus na história, sua história pessoal.
Os carmelitas entram nesta tradição bíblica da obediência em seu voto. Pelo voto, que está enraizado no chamado para a obediência absoluta dirigida igualmente a cada cristão no batismo, o religioso carmelitano situa seu total compromisso com a vontade de Deus no contexto de uma comunidade que caminha nas pegadas de Jesus Cristo.
A Regra (n.º 22 e n.º 23) propõe como assumir esta obediência. Alberto se refere ao ofício do prior, que é apresentado primeiramente no n.º 4. Aqui o ofício do prior foi estabelecido num nível estrutural para a boa ordem da comunidade. Contudo, nos nn. 22 e 23 o prior e a comunidade têm que descobrir Cristo na “mútua co-responsabilidade da obediência”.[i]  Alberto nos recomenda ver Jesus Cristo como o único centro de nossas vidas. Permanecer em nossas celas é “permanecer na vinha”. Aprendendo a não possuir nada, experimentamos como Jesus não possuía lugar para recostar sua cabeça. Celebrando juntos a Eucaristia, nos tornamos pedras vivas com Cristo como a pedra fundamental. Quando nos reunimos no capítulo e na correção fraterna, ele está em nosso meio.[ii]  Basicamente, somos obedientes ao poder do Espírito de Cristo manifestado em nós mesmos, em nossa comunidade e sob sua liderança.
No nível do humano, o voto de obediência levanta a questão de como usamos nosso poder e nossa liberdade, tanto comunitária como pessoalmente. A última metade do século XX viu a queda do patriarcado como vimos nos anos 60 e 70 com as revoltas estudantis, nos blocos comerciais unindo muitas nações ocidentais, o fim dos regimes coloniais, militares e outros regimes repressores e o crescimento do feminismo. Concomitantemente, este período também testemunhou um individualismo excessivo e uma obsessão pela auto-realização, especialmente no hemisfério ocidental, que causou forte impacto em muitas partes do mundo.
Estes fatores históricos e culturais influenciam nossa compreensão e o exercício do poder,[iii]  a esfera política da vida, que interfere no voto de obediência. Ao assumir este voto nos confrontamos com as mesmas perguntas que qualquer outro ser humano faz. Que poder tenho sobre os outros? Que esforço comum posso utilizar? Qual minha contribuição para a vida da sociedade e da comunidade? Qual minha influência em determinar direções comuns? Embora todos os cristãos se engajem nestas questões, o contexto em que elas se realizam varia muito. Para os religiosos, o contexto é a comunidade com a qual estão comprometidos.
Professando a obediência os religiosos dizem que querem usar sua capacidade de dialogar com os outros na busca pela vontade de Deus. O poder deles é mais humano e eficaz quando ouvem e agem de acordo com as inspirações pessoais que Deus lhes oferece. Estas inspirações vêm através de muitos meios. Basicamente, a obediência vem pela ponderação da Palavra de Deus e pelos sinais da presença de Deus em nosso mundo, de acordo com nossos irmãos e irmãs no Carmelo e com aqueles que escolhemos para liderar a comunidade.
Em primeiro lugar, a obediência exige um confronto contínuo com a Palavra de Deus. As Escrituras, refletidas individual e comunitariamente, nos dão acesso à revelação da presença de Deus no meio das comunidades judeu-cristãs do passado. É a revelação de como Deus se comunicou com seu povo e é uma fonte de discernimento da presença de Deus entre nós hoje. Devemos conhecer as Escrituras com nossos corações e nossas mentes para penetrar no coração e na mente de Deus.
Em segundo lugar, a vontade de Deus também está presente nos sinais dos tempos. A meditação da Palavra de Deus deve ser feita no contexto de nossa realidade para conhecermos a vontade de Deus. Nossas circunstâncias históricas devem dialogar com as Escrituras, para discernirmos o lugar para onde a obediência nos chama. Estas circunstâncias históricas têm muitos níveis: o individual/pessoal, o apostólico, a comunidade local e provincial, as lideranças locais e provinciais e o social. Qualquer uma destas áreas pode exigir mais atenção e significado numa determinada hora, dependendo da situação. Então a obediência se torna mais desafiadora e o discernimento da vontade de Deus requer maior disciplina e humildade.
Num terceiro ponto vemos que a obediência se realiza no diálogo com nossa comunidade e sua liderança. O chamado para a vida comunitária é fundamental para o carisma carmelitano. Desse modo, acreditamos que o Espírito de Deus se move através da voz coletiva da comunidade e daqueles que escolhemos para liderá-la. Qualquer discernimento da vontade de Deus deve incluir necessariamente nossa escuta da comunidade. Além disso, a obediência religiosa pode ser um verdadeiro testemunho evangélico, pela compreensão do poder que ela transmite, especialmente em nossas estruturas governamentais. Muitas comunidades, principalmente as congregações femininas, estão trabalhando rumo a estruturas mais participativas. Surgem novos modelos de governo, tais como grupos regionais que se encontram regularmente, capítulos onde todos os membros participam ativamente, líderes engajados num processo comunitário de tomar decisões. Desta forma, eles revelam uma maneira diferente de exercer o poder e a autoridade, longe do antigo modelo hierárquico e patriarcal. Estes modelos participativos permitem que cada membro possa discernir a vontade de Deus assim como exercer o poder coletivo na comunidade.
A liderança em tais modelos é realmente um chamado ao serviço (Lc 22,26-27). Ela exige um novo jeito de administrar a complexidade da vida religiosa, a habilidade em conduzir a atenção da comunidade para uma visão partilhada que unirá os esforços individuais, inspirados pela missão da província e da comunidade local, e a capacidade de formular estratégias para alcançar tudo isso.[iv]  Esta liderança pede a habilidade de entender as estruturas subjacentes, os modelos e as forças que devem ser avaliados para se ir de um ponto ao outro.
Finalmente, a obediência é realmente o cultivo de uma união amorosa com Deus. Esta união se torna a base de todas as nossas escolhas que, por sua vez, nos une profundamente com Deus. Ao estarmos conscientemente mais unidos com Deus, começamos a ver tudo com os olhos de Deus e a buscar a verdade no amor. Em muitas circunstâncias pode existir apenas uma escolha para nós. No entanto, em outras situações podem existir várias escolhas. Nem sempre existe uma escolha que é melhor do que as outras. Nem é o caso de Deus ter pré-julgado o que devemos fazer. Buscar a vontade de Deus, obedecer a Deus é fazer as escolhas e tomar a decisão mais amorosa que podemos em qualquer momento. A longo prazo, a obediência consiste formalmente no como e no porquê fazemos uma certa escolha, em vez de o que realmente escolhemos.[v]
Como carmelitas caminhando nas pegadas de Jesus Cristo, a obediência deveria nos levar à liberdade para escolher a vida como Jesus o fez. Em qualquer circunstância em que ele se encontrava – na festa de casamento em Caná, com a samaritana junto ao poço, na morte de seu amigo Lázaro ou na sua própria morte – ele escolheu fazer a vontade de seu Pai, mesmo quando ele não a compreendia. O contexto no qual buscamos a vontade de Deus é essencialmente contemplativo. É um meio de sondar e procurar, um modo de escutar e de orar que é transformador. Os anseios do Espírito de Deus em nós, a comunidade, a liderança comunitária, o povo e o tempo ao qual servimos, deveriam nos levar a uma maior generosidade e liberdade, para melhor testemunharmos a presença amorosa de Deus no mundo.

PERGUNTAS PARA REFLEXÃO (Pessoal e em grupo)
1-Que símbolo, história ou provérbio do Antigo ou do Novo Testamento lhe ocorre como uma imagem da obediência? Descreva o que significa para você.
2-Que símbolo, história ou provérbio da história atual, de sua própria experiência ou da experiência de outras pessoas lhe ocorre como uma imagem de obediência? Descreva o que ela significa para você.
3-Que vantagem você percebe na vivência deste voto?
4-Que compromissos você traz para a vivência deste voto?





[i]  Kees Waarjman, O.Carm., A identidade carmelitana a partir da perspectiva da Regra, 13º Conselho das Províncias (Nantes). Publicações Carmelitanas: Melbourne, 1994, p. 48.
[ii]  Ibid., pp. 48-49.
[iii]  Congregação para Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica. Diretivas sobre a formação nos institutos religiosos, # 12. Origens, 19 (20 de março de 1992).
[iv]  D. Nygren e M. Ukeritis, ‘O futuro das ordens religiosas nos Estados Unidos’. Origens 22 (1992), 267. Os autores relatam que a incapacidade de formular uma estratégia para alcançar um propósito ou uma missão é a fraqueza mais surpreendente entre os líderes atuais.
[v]  S. M. Schneiders, I.H.M. Odres novos: Reimaginando a vida religiosa hoje. Mahwah, NJ: Paulist Press, 1986, p. 142.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Um olhar sobre a vida religiosa: Os Conselhos Evangélicos ou votos.

 Introdução
Os conselhos evangélicos que um religioso professa devem ser compreendidos num determinado contexto. Os votos são uma realidade vivida. São valores evangélicos proclamados publicamente na Igreja por homens e mulheres. Precisamos compreendê-los menos como um ideal, ou um estado de perfeição para o qual trabalhamos, do que como um contexto ou uma condição para seguir Jesus Cristo hoje. Eles apontam para o futuro, para o eskáton. No entanto, eles também são um modo de viver e testemunhar hoje a presença misericordiosa de Deus no mundo. Depois destes esclarecimentos, refletiremos sobre os votos a partir de três princípios básicos ou contextuais.
Em primeiro lugar, a reflexão teológica para nossa discussão sobre os votos é a encarnação de Jesus Cristo. Uma teologia pré-Vaticano II enfocava a natureza escatológica dos votos, dando uma ênfase ao relacionamento espiritual com Cristo e com o mundo. Este conceito de vida religiosa como um estado de perfeição baseava sua teologia na interpretação da história do jovem rico (Mt 19,16-22), enfatizando a ideia de dois caminhos. O melhor caminho é aquele dos conselhos evangélicos oferecidos a algumas almas escolhidas com a pretensa superioridade do estado religioso definido mais tarde como o estado da perfeição. Por outro lado, uma teologia inserida vê Jesus Cristo como a encarnação do amor de Deus por nós. A realidade histórica de Jesus, e a entrada de Deus na história humana através dele, mudou a forma de experimentarmos Deus. Por ter sido agraciada por Deus em Jesus, a experiência humana é o principal veículo para a experiência do amor de Deus. Então, no contexto dos votos, devemos encará-los como um meio específico de viver a vida cristã e carmelitana hoje, sem considerá-los exclusivamente como uma como uma escolha privilegiada.
Em segundo lugar, a contribuição carmelitana para nossa discussão dos votos é a Regra de Santo Alberto. Em resposta ao Espírito Santo os primeiros carmelitas desenvolveram um modo de vida no seguimento de Jesus Cristo.   Embora os votos na Regra sejam apenas mencionados mas não explorados explicitamente, os elementos fundamentais do carisma carmelitano expressos na Regra são o contexto no qual somos chamados a viver os votos. A busca pela face de Deus   no contexto da vida comunitária   e no serviço ao povo de Deus   é o local e o processo para vivermos os conselhos evangélicos.
Este carisma é uma expressão do chamado evangélico à constante conversão em nossos relacionamentos com Deus. Ele é uma expressão do que significa seguir Jesus. Então, os três votos tornam-se uma outra maneira de ajudar nesta experiência contínua de conversão. Uma vida de oração, vivida em comunidade e no serviço aos outros, torna-se o contexto para a vivência dos votos como religiosos. Os votos, vividos no contexto carmelitano, deveriam nos ajudar no processo que “nos transforma na existência amorosa de Deus”.
Finalmente, o terceiro ponto para nossa discussão dos votos é o contexto cultural que cada um de nós leva para a vivência dos votos. O desafio para cada um de nós é viver os votos em nosso próprio contexto. Em outras palavras, o cenário histórico e cultural de cada carmelita é um sacramento para nós.

História
A história dos votos religiosos nos mostra uma evolução na vida da igreja. Ao longo da história da Igreja, a forma e o conteúdo dos votos mudam de acordo com as necessidades e expectativas da comunidade cristã. Em outras palavras, a vida religiosa nem sempre foi identificada com os três conselhos evangélicos, tais como os conhecemos hoje.
Os primeiros eremitas e cenobitas não faziam uma profissão religiosa formal. Enquanto a castidade, que possuía uma ênfase mais unitiva e mística, era a virtude característica das mulheres que faziam votos ao serviço de Deus na Igreja, a virtude que caracterizava a vida monástica era a obediência, que possuía uma ênfase mais ascética. Um monge, por exemplo, ia para o deserto e colocava-se sob a obediência de um pai espiritual. Este pai espiritual o guiaria em sua jornada espiritual e no desenvolvimento das outras virtudes evangélicas, incluindo, é claro, a castidade e a pobreza.
Enquanto o estilo de vida cenobítico crescia, reunindo várias pessoas vivendo juntas em comunidade, a obediência se tornou um meio de organizar e harmonizar a comunidade. É difícil determinar quando o compromisso de obediência entrou na vida monástica, mas nos primeiros anos do século VI, o abade não era visto simplesmente como o guia espiritual, mas como aquele que está no lugar de Cristo, dirigindo a família monástica de fé.
Com a Regra de São Bento foram introduzidas outras promessas. Bento exigiu que o monge professasse a estabilidade, a mudança de vida e a obediência.   Ele menciona a castidade apenas uma vez como um dos setenta e dois Instrumentos das Obras de Caridade no capítulo quatro de sua Regra. Caso o monge ainda não tivesse renunciado à sua propriedade antes de entrar para o mosteiro, ele deveria doá-la ao mosteiro “não retendo nada para si, sabendo com isso que, deste dia em diante, não seria dono nem de seu próprio corpo”.
Durante as Reformas Carolíngias, entre o fim do século VIII e início do século IX, a Regra de São Bento tornou-se a regra normativa para os monges na Igreja ocidental. Assim a profissão da obediência, da mudança de vida e da estabilidade eram os votos religiosos padrões. Durante os séculos que se seguiram a Bento, especialmente do século VIII até o século XI, muitas das abadias cresceram e se tornaram estabelecimentos muito prósperos.
Enquanto a Regra Beneditina tornava-se universal entre os mosteiros da Europa ocidental ao longo do século IX, surgiu uma forma alternativa de vida religiosa que buscava inspiração em outro lugar. Um número significativo de monges e cônegos, seguindo a Regra Agostiniana, que se desenvolveu no início do século XI, optaram por ser eremitas orantes e um número de mosteiros começou a se reformar e a se voltar para um estilo de vida mais simples. O século XII foi um período de revolução econômica na qual a base da riqueza mudou do capitalismo feudal para o capitalismo comercial. Enquanto as cidades se revitalizavam através da expansão do comércio, ocorreu uma revolução social. A riqueza e o poder na sociedade passaram da nobreza rural para os comerciantes urbanos.
Esta revolução econômica gerou um tremendo sentimento de ansiedade moral, na medida em que as pessoas viam a ordem estabelecida sucumbir e ser substituída. Nesta tensão, surgiram muitos movimentos que glorificavam a pobreza evangélica. Os valdenses, os umiliati e, finalmente, os franciscanos tentaram responder a esse momento, especialmente este último grupo. Nasceu assim o movimento mendicante: uma proposta radical de viver o evangelho.
A Regra que Alberto de Jerusalém deu aos primeiros carmelitas exigia que os eremitas professassem apenas a obediência.   Nesta ocasião a autoridade era vista cada vez mais como algo adquirido pelos cidadãos que escolhiam seus líderes para governar, a partir de um consenso entre o povo. Esta mudança social se refletia num novo estilo de liderança fraterna nas comunidades religiosas deste período. As novas comunidades rejeitaram o governo abacial em favor dos priores que governavam suas comunidades com o consentimento do capítulo. A obediência determinada na Regra Carmelitana refletiu este novo espírito.
 O chamado para um único voto na Regra não sobreviveu à mitigação de 1247 de Inocêncio IV. Uma das modificações era expressar diretamente que os carmelitas professam “obediência – que, ao prometer, o carmelita deve tentar fazer de seu ato uma verdadeira reflexão – e também a castidade e a renúncia da propriedade”.   É interessante observar que a fórmula de profissão não foi mudada para mencionar a castidade e a renúncia da propriedade até as Constituições de John Soreth em 1462.
A razão precisa para esta mudança, que afetou todos os mendicantes, não está clara. Obviamente os frades não poderiam assumir os votos monásticos, já que a estabilidade era contrária à visão de Francisco, que queria que seus frades pregassem o evangelho de cidade em cidade. De fato, para Francisco o que substituía a estabilidade era a pobreza. Enquanto a Igreja do tempo de Bento necessitava de monges que respondessem a um pai espiritual confiável, a Igreja no tempo de Francisco necessitava de religiosos que possuíssem aquela santidade testemunhada pela pobreza. A pobreza dos valdenses (um grupo de radicais seguidores do evangelho) e a pobreza e a castidade reconhecidamente rigorosa dos cátaros (um grupo radical no movimento de vita apostolica) exigia que estas virtudes fossem intensamente vividas pelos frades. Portanto, faz sentido que a Igreja tenha ligado estas duas virtudes à obediência, apresentando-as como as qualidades essenciais da vida religiosa no começo do século XIII.
Quanto ao voto de pobreza, originalmente os mendicantes queriam um novo estilo de pobreza. Não significava simplesmente que o indivíduo não tinha qualquer bem pessoal, mas também obrigava a própria comunidade à pobreza. As ricas abadias não eram mais o ideal. Os dominicanos e os franciscanos tinham visões ligeiramente diferentes a respeito desta pobreza comum. Embora nenhum dos dois possuísse propriedades de produção de renda, os dominicanos tiveram a permissão de possuir conventos com as plantações que forneciam alimento para sua mesa, ao passo que os franciscanos não possuíam nem o título de suas casas. Gregório IX impôs um estilo de pobreza franciscana aos carmelitas em sua Bula de 1229. “... proibimos estritamente de qualquer forma que vocês aceitem ou ousem manter como sua propriedade tanto suas ermidas ou bens ou casas ou outra renda...”
Já que Gregório IX foi um admirador e confidente de Francisco, era natural para ele impor o ideal de Francisco como o modelo a partir do qual os outros religiosos deveriam se confrontar. No entanto, tal idealismo não resistiu ao século. Na verdade, nas últimas décadas do século XIII as comunidades carmelitanas não apenas possuíam seus conventos e hortas, mas também propriedades com produção de renda, tais como casas particulares, vinhas, lojas, fazendas e igrejas paroquiais.

Assim, os votos têm sido uma realidade que evoluiu na vida religiosa. A forma tríplice tem se mantido em vigor desde o século XIII. Contudo, está claro que seu papel na vida religiosa e o significado dos votos particulares mudou através de toda história da vida religiosa. Então, é importante perceber que como símbolos de um compromisso interior eles querem ser uma personificação de um valor evangélico vivido num determinado momento histórico. Eles precisam falar com renovado vigor em cada situação nova que os religiosos e suas comunidades enfrentam. A história nos ensina que apenas as coisas que estão abertas para um renovador significado e para uma compreensão nova, sobrevivem de uma geração à outra e continuam a contribuir para a vida do corpo de Cristo.