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A Palavra do Frei Petrônio

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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

CARMELITAS: Contemplação e ação.

Emanuele Boaga, O. Carm. e Augusta de Castro Cotta, CDP

A compreensão que os Carmelitas têm da vida contemplativa, no seu caminho histórico, apresenta elementos próprios, além dos influxos provenientes do conflito entre a ação e a contemplação, presentes por muito tempo na espiritualidade cristã em geral. É fácil compreender como, também entre os carmelitas, existiram modos distintos de compreensão da vida contemplativa e da mesma contemplação.
Na primeira fase da experiência carismática carmelitana a vida contemplativa se nutre de elementos típicos do eremitismo (porém no “estilo” daquele tempo que é bem diverso das épocas seguintes); dos movimentos penitenciais e das peregrinações à Terra Santa, sem exclusão da atividade apostólica. A Norma de Vida de S. Alberto apresenta uma profunda unidade entre a contemplação e a ação.
Através da aprovação da Regra por parte de Inocêncio IV, em 1247, os Carmelitas de eremita-penitentes se transformam em mendicantes. Caem portanto as estruturas estritamente eremíticas. A vida contemplativa vem assim entendida no contexto da “vida mista” dos mendicantes, ainda que permaneça no interno da Ordem um apelo às origens (apelo também “romântico”!) Em seguida alguns carmelitas vêem no eremitismo um retorno ao verdadeiro espírito do Carmelo, mas não percebem que tal eremitismo é uma “nova” realidade, diversa do tipo daquela que se encontrava na experiência originária da Ordem. Este tipo de compreensão (ou melhor de incompreensão) determina ambigüidades e conflitos, por longo tempo, chegando a nossos dias.
Nos séculos XV-XVI o termo “vida contemplativa” era assumido pelos carmelitas quase como sinônimo de vida interior e de identificação com as estruturas que a promoviam. Nisto foi notório o influxo da “Devotio moderna”. Entre as formas de oração, que favoreciam a vida contemplativa, emergem, sobretudo a oração litúrgica (missa quotidiana e ofício cantando em coro) e a meditação pessoal favorecida pela prática do silêncio.
Ao mesmo tempo, a exclusão das monjas do apostolado externo (por imposição da clausura), produz nesta forma de vida uma intensificação da solidão e da oração. Nela os elementos “ contemplativos” da Regra (em particular: a meditação contínua da Lei do Senhor, o vigiar e orar sempre, o silêncio e as armas espirituais) se tornaram intensos desembocando na vida litúrgica, na meditação, no exercício da presença de Deus, no espírito de penitência. Nesta linha foram situadas as novas fundações das monjas (depois de 1452): as da Congregação de Mântua (como ex. os Mosteiros de Scopelli e Girlani) espalhando-se pouco a pouco até chegar a S. Maria Madalena de Pazzi.
S. Teresa dá a seus irmãos descalços as constituições e a espiritualidade das monjas, com acentuação de apenas alguns valores da Regra. Isto no contexto da “descalcez”, considerada então como única forma válida de vida religiosa. Tal impostação conduziu à seguinte passagem: contemplativo = eremítico= monja descalça = frei descalço. Esta passagem levou à seguinte consequência, na época, durando o equívoco até nossos dias:
verdadeiro carmelita = carmelita descalço.
A confusão e o equívoco, baseados na equação: contemplativo= eremítico, já estavam presentes mesmo antes de S. Teresa, porém não de forma difusa, como aconteceu no caso da Congregação de Albi e, depois desta, na Congregação de Mântua. (Ver “Releituras do carisma” em Como Pedras Vivas, p. 101, para recordar o assunto).
Depois de S. Teresa o termo “contemplativo” na nossa Ordem adquiriu um sentido muito restrito, chegando até mesmo a não poder ser aplicado nem à vida religiosa, nem mesmo à meditação, à oração vocal, ao ofício litúrgico.
Outra tendência surgida na Ordem, foi a de reduzir a “contemplação” ao grau mais elevado da oração e da vida interior, quase desprezando ou considerando a oração vocal somente como uma passagem, incluindo-se nesta a oração litúrgica. Surgiu dai a ênfase do papel da meditação considerada como a forma mais adequada de contemplação e portanto, mais própria para o desenvolvimento da vida interior.
Deve-se notar que em todo o caminho histórico da Ordem, do séc. XIV até à época recente, particularmente nas Reformas, a releitura do carisma e a revisão da vida da própria Ordem partiram sempre da contemplação e nunca do apostolado. Em matéria de oração encontram-se novos caminhos, mas ao mesmo tempo coloca-se o grave problema da relação ou dissídio “contemplação-ação”, que assinala profundamente a vida e o estilo da própria contemplação. A atividade apostólica é considerada geralmente como prolongamento da contemplação e ao mesmo tempo seu fruto. Deve-se também recordar que, mesmo neste contexto das reformas, não faltaram figuras eminentes que, através das formas de assistência aos pobres e aos humildes, típicas de sua época, têm enfrentado o desafio da encarnação da vida contemplativa. Entre esses, recordamos o Ven. Angelo Paoli, “pai dos pobres” na Roma do séc XVII e a terciária carmelita Mariangela Virgili, em Ronciglione (ver: Como Pedras Vivas, p. 119 e 150).
Os mesmos autores carmelitanos no decorrer dos séculos XVII-XIX, têm exortado àqueles que se dedicam a atividades apostólicas por chamado da Igreja para atender a suas necessidades, a adotarem uma atitude contemplativa. Nasce assim a insistência sobre as duas formas de oração consideradas adequadas a esta finalidade: o exercício da presença de Deus e da aspiração.
Dado que os nossos irmãos têm admirado e exaltado nas irmãs monjas a sua vida de oração como “a melhor forma” de realização do ideal contemplativo com o qual nasceu a Ordem”, deve-se ajuntar também algumas notas sobre sua relação com o apostolado por parte das próprias monjas, para que se tenha um quadro completo, evitando-se as mitizações ambíguas. Particularmente:
• é notório o desejo expresso nos primeiros núcleos de monjas carmelitas de serem úteis ao próximo através da oração de intercessão e da penitência;
• é também conhecida a motivação apostólica colocada na base da fundação das Descalças por S. Tereza de Jesus;
• para S. Maria Madalena de Pazzi, as monjas são chamadas “ad maiorem vitam” (isto é, aquelas dos primeiros carmelitas) em quem porém não se separa “Marta de Maria” (Marta sem Maria é “confusão” e Maria sem Marta é ociosidade”, diz a Santa). O genuíno influxo mariano na Carmelita tem como sinal o nascimento no coração, do desejo da saúde das almas. Portanto a vida interior, a vida apostólica e a vida mariana se fundamentam em uma síntese superior. Da união com Deus e Maria nasce a “salus animarum”, obtida e sustentada com a oração e com a ação para reconduzir as almas a Deus e a Maria. O apostolado é, então, “restituição” que se obtém também com uma vida pura, feita de fé, de simplicidade, de fidelidade.
• S. Teresa do Menino Jesus desejava ter todas as vocações para servir à Igreja. escolhendo então, se o “seu coração” através da oração e interesse missionário.

Atualmente a conflitualidade “contemplação-ação” parece superada teoricamente, como demonstram claramente os acenos que às questões são feitos nos documentos oficiais da Ordem, nestes últimos anos. A conflitualidade permanece porém, na prática, e sua solução postula uma profunda revisão e “conversão” de vida e obras.

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