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A Palavra do Frei Petrônio

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quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A ESPIRITUALIDADE LITÚRGICA CARMELITANA (1ª Parte)

Frei James Boyce, O.Carm.

Introdução

A riqueza da tradição litúrgica carmelitana está estritamente ligada à interessante história da própria Ordem. O objetivo deste livreto é discutir a singularidade da liturgia carmelitana, examinar suas festas significativas ao longo da história da Ordem e sugerir como a liturgia carmelitana contemporânea poderia ser mais fiel à sua tradição histórica.

Esquema do livreto
A tradição litúrgica carmelitana divide-se convenientemente em quatro seções principais:

1-A atividade litúrgica dos primeiros eremitas no Monte Carmelo;
2-A liturgia medieval dos carmelitas como mendicantes, do começo do século XIV ao Concílio de Trento;
3-A liturgia Tridentina do século XVI até o século XX;
4-A liturgia carmelitana moderna como uma resposta ao Vaticano II.
Ainda que algumas pessoas afirmem que um ou outro período aponta para um seguimento mais verdadeiro do carisma carmelitano, este livreto espera mostrar que os quatro períodos demonstram um esforço genuíno para expressar a identidade carmelitana num estilo litúrgico apropriado.

A relação entre liturgia e espiritualidade
Muito já se discutiu sobre a interação entre liturgia e espiritualidade[i] bem como as distinções entre as diversas abordagens que ordens religiosas deram à sua própria definição de liturgia. Liturgia diz respeito à oração pública da comunidade orante e não à oração particular de seus membros.[ii] Mas, ao mesmo tempo, as festas celebradas por uma determinada comunidade orante revelam os valores partilhados e os modelos que abraçaram, de modo que a liturgia também revela a vida espiritual dos participantes. No caso dos carmelitas, o desenvolvimento de sua tradição litúrgica permitiu que eles venerassem seus exemplos de vida e honrassem os membros que alcançaram a santidade.

O caráter evolutivo da espiritualidade litúrgica carmelitana
A espiritualidade litúrgica carmelitana evoluiu mais do que a liturgia da maioria das Ordens por duas razões:
Eles não tinham um fundador específico cujas virtudes pudessem ser facilmente imitadas ou que tenha dado opiniões específicas sobre a liturgia;
sua auto-compreensão mudou radicalmente quando abandonaram o estilo de vida eremítico num único local, o Monte Carmelo, tornando-se uma Ordem mendicante internacional.
A velocidade com que esta mudança radical se realizou, uns cinquenta anos desde o recebimento de uma Regra, complicou a compreensão de sua identidade e a maneira de expressá-la liturgicamente.
Os carmelitas são designados pelo seu lugar de origem, em vez de serem identificados pelo fundador. O local do Monte Carmelo, além da tradição de santidade, associados a tantos grupos diferentes que lá viveram, modelou a auto- compreensão carmelitana.[iii]  Os nomes dos membros fundadores nunca foram registrados, exceto B e seus seguidores, a quem a Regra foi endereçada.[iv]  Isto teve o efeito de libertar os carmelitas para formularem e determinarem seu próprio impulso espiritual, em vez de se ajustarem à direção de um fundador. Na ausência de um fundador, cuja memória e desejos precisariam ser honrados depois de sua morte, os carmelitas tiveram a liberdade de se adaptar continuamente às exigências da Igreja oficial, enquanto aprofundavam a consciência de sua identidade litúrgica e espiritual.
Isto justifica a ausência de qualquer festa específica para um fundador canonizado, equivalente a São Domingos ou São Francisco, em sua liturgia medieval. Sua auto-definição foi um processo lento e evolutivo, de modo que as festas especificamente carmelitanas como a dos santos Elias e Eliseu, ou mesmo a de Nossa Senhora do Monte Carmelo demoraram para ser formuladas e, geralmente, não aparecem nos ofícios litúrgicos carmelitanos medievais.
As rápidas mudanças que ocorreram desde o começo da Ordem, quando eles mudaram de um estilo de vida eremítico para o mendicante, estimulou-os a refletir constantemente sobre suas origens, adaptando sua vida litúrgica e espiritual às necessidades de uma Igreja em transformação. Em vez de retornarem a costumes mais antigos, tais como os do Monte Carmelo, os carmelitas tiveram que se adaptar a uma nova situação, preservando neste processo a essência de sua auto- compreensão.



[i]  Madigan (1988) discute esta questão.
[ii]  Livros padronizados sobre liturgia incluem Adam (1985 e 1981), Talley (1986), Vogel (1986), Wegman (1985), Harper (1991) e Jungmann (1959).
[iii]  Friedman (1979) discute os vários grupos que se estabeleceram no Monte Carmelo em diferentes épocas.
[iv]  Clarke e Edwards (1973), p. 12.

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