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sábado, 5 de março de 2016
PASSA QUATRO: Fraternidade do Escapulário.
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sexta-feira, 4 de março de 2016
A PALAVRA DO FREI MÁRCIO: A Cruz.
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quinta-feira, 3 de março de 2016
Padre afastado por suspeita de assédio em Minas já enfrentou outras denúncias.
Investigado
por suspeita de assediar adolescentes e afastado de centro comunitário por
decisão da Justiça, padre de distrito de Diamantina enfrentou suspeitas por
onde passou
Distrito de
São João da Chapada, onde sacerdote é investigado: segundo documento, no fim
dos anos 1990 religioso foi removido de entidade do Rio Grande do Sul depois de
acusação (foto: Luiz Ribeiro/EM/D.A Press)
Diamantina – O padre investigado por suspeita de abuso em São João da Chapada,
distrito de Diamantina, no Vale Jequitinhonha – proibido pela Justiça de
frequentar o centro infantil que dirigia –, já foi denunciado por assédio a
menores em uma cidade do Sul do país. Nos lugares por onde passou, há um
histórico de acusações relativas ao seu comportamento, situação descrita em
documento expedido pela coordenação da própria a instituição religiosa ao qual
ele pertence, a Fraternidade, Palavra e Missão, ao qual o Estado de Minas teve acesso. O
documento foi juntado ao material reunido durante as investigações, que correm
sob sigilo.
Saiba mais
O documento
da fraternidade diz que “no final dos anos 1990”, o padre agora investigado em
São João da Chapada “foi flagrado por assistentes sociais fazendo (sic) assédio
a menores em um banheiro de uma obra social em Santa Cruz do Sul”. Segundo o
relatório, “a situação não foi tratada a fundo, porque o bispo (não
identificado) exigiu que o padre fosse retirado da diocese”. Logo depois do
episódio, o envolvido passou a “prestar serviços” em São Leopoldo e Santa
Maria, no Rio Grande do Sul, estado onde permaneceu até 2007. A Fraternidade,
Palavra e Missão também descreveu à época que “em todos os lugares por onde ele
(o sacerdote investigado) passou, sempre houve denúncias e conversas quanto ao
comportamento ‘não muito saudável’ do padre”.
Uma fonte de dentro da Igreja Católica, que conhece a trajetória do religioso, mas prefere não se identificar, confirmou ao EM a veracidade do documento e acrescentou que, na época, os assistentes sociais da unidade não levaram o caso à Justiça e optaram por “silenciar” o assunto. “Esses funcionários trabalhavam no Centro Comunitário Infantil de Santa Cruz do Sul, que foi desativado em 2010 e transformado em uma instituição de atendimento a idosos”, informou a fonte.
Uma fonte de dentro da Igreja Católica, que conhece a trajetória do religioso, mas prefere não se identificar, confirmou ao EM a veracidade do documento e acrescentou que, na época, os assistentes sociais da unidade não levaram o caso à Justiça e optaram por “silenciar” o assunto. “Esses funcionários trabalhavam no Centro Comunitário Infantil de Santa Cruz do Sul, que foi desativado em 2010 e transformado em uma instituição de atendimento a idosos”, informou a fonte.
Além de
confirmar a denúncia que foi acobertada, o integrante da Igreja revela haver
conhecimento sobre uma “disfunção emocional” do sacerdote. “Ele tem um desvio,
uma patologia para abuso de menores. Nunca tivemos casos concretos de abuso,
mas sempre se falou em situações de assédio”, explica a fonte, referindo-se a
situações de cerceamento de menores, oferta de presentes, abraços muito
carinhosos e criação de vínculos emocionais com crianças e adolescentes.
A fonte
revelou ainda que o investigado teria comportamento oscilante. “Ele tem reações
de intolerância. Já agrediu fisicamente uma voluntária do centro comunitário
infantil. Deu um murro nessa pessoa. Quem convive com ele relata que ele
alterna o comportamento de coronel e com o de cordeirinho”, disse a fonte. “Já
foi orientado a se tratar inúmeras vezes, mas nunca quis”, contou.
Medidas cautelares
Natural de
São Leopoldo (RS), o religioso envolvido nas denúncias tem 51 anos e completou
23 de ordenação em 26 de fevereiro. Ele começou a trabalhar em São João da
Chapada em 2013. As últimas denúncias vieram à tona em outubro do ano passado.
Inicialmente, foram feitas ao Conselho Tutelar e depois encaminhadas ao
Ministério Público e à Polícia Civil. As investigações são comandadas pela
delegada Kiria Orlandi, que chegou a pedir a prisão preventiva do suspeito, após
ouvir várias testemunhas e identificar duas vítimas, uma delas um rapaz de 18
anos, que relatou ter sofrido uma série de abusos sexuais durante os dois
últimos anos, além de um adolescente de 13. Durante a apuração, de acordo com
uma fonte, há relatos de que o suposto assédio teria sido cometido nas próprias
instalações da Igreja Católica e na entidade onde o padre trabalhava.
Com base nas investigações, o juiz Fábio Henrique Vieira, da 2ª Vara da Comarca de Diamantina, determinou uma lista de medidas cautelares a serem cumpridas pelo padre, sendo uma delas a proibição de frequentar o Centro Comunitário Infantil que dirigia e onde morava havia três anos, em São João da Chapada. Também foi impedido de manter contato com as cerca de 100 crianças e adolescentes atendidas pela entidade e de se aproximar de testemunhas.
Com base nas investigações, o juiz Fábio Henrique Vieira, da 2ª Vara da Comarca de Diamantina, determinou uma lista de medidas cautelares a serem cumpridas pelo padre, sendo uma delas a proibição de frequentar o Centro Comunitário Infantil que dirigia e onde morava havia três anos, em São João da Chapada. Também foi impedido de manter contato com as cerca de 100 crianças e adolescentes atendidas pela entidade e de se aproximar de testemunhas.
Há duas
semanas, o padre se mudou para a casa paroquial de São João da Chapada, mas
teria saído do povoado desde a noite de domingo, após celebrar a missa que
comemorou os seus 23 anos de ordenação. Ouvido ontem pelo EM, o advogado Cássio Malta Scuccato,
um dos defensores do padre, informou que seu cliente “nega veementemente as
acusações”. “Até agora, só foram ouvidas testemunhas de acusação e nenhuma de
defesa. A perícia em materiais apreendidos do padre (celular, HD externo e
computador) também não foi feita. Estamos aguardando a decisão do inquérito,
mas temos a convicção de que ele não será nem mesmo indiciado, pois faltam
provas”, disse o advogado. Segundo ele, a denúncia é caluniosa.
O EM fez contato ontem com a
Diocese de Diamantina para tratar do assunto, mas a informação é de que o
arcebispo dom João Bosco Oliver de Faria estava viajando. Já o superior da
Fraternidade, Palavra e Missão – à qual o religioso investigado pertence – padre
Cyso Assis Lima, informou que aguarda um posicionamento das autoridades
eclesiásticas de Diamantina, a quem primeiro cabe tomar qualquer atitude diante
da situação. Fonte: http://www.em.com.br
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Em Spotlight vence também jornalismo investigativo
"Sim, parecerá incrível, mas o salto de
qualidade na investigação virá somente do estudo e análise de algo oficial e
menos leak que se possa imaginar: anuários empoeirados mantidos em
arquivo", escreve Maria Antonietta Calabrò, jornalista, em
artigo publicado por Formiche, 29-02-2016. A tradução é de Ramiro
Mincato.
Eis o artigo.
Sim, é a vingança do jornalismo, o Oscar de
melhor filme para "Spotlight, segredos revelados".
Diria que se trata do ”velho” jornalismo investigativo. Aquele que não se
baseia nos Big Data, ou nos leaks, entregues em pacotes, caixas ou
dossiês, por gargantas profundas, mais ou menos interessadas. Todos a respeito
de jogos de poder, de cordatas internas à Instituição (neste caso, a Igreja de
Boston) objeto da investigação.
Deste ponto de vista, “Spotlight, segredos
revelados” é bastante diferente, inclusive do “Todos os homens do Presidente” (apesar
de lembrá-lo e de alguma forma ser-lhe assoante), a famosa investigação de Bob
Woodward e Carl Bernstein, no Washington Post, que acabou levando à
renúncia o Presidente Richard Nixon.
Diria que é a vingança do jornalismo que conta o
que está sob os olhos de todo mundo. Um jornalismo que parte da “decisão” de
narrar, tomada pelo então diretor do Boston Globe, Martin Baron, um
outsider em Boston, não só porque vinha de fora, de outra cidade e de outro
jornal, mas também porque não era católico.
As ferramentas de investigação descritas tão bem no
filme são verdadeiramente ordinárias. Em nada extraordinárias: entrevistas com
os abusados, com os advogados, mas sobretudo, consultas às assim chamadas
“fontes abertas” (open source), como o estudo dos Anuários da Igreja Católica.
Sim, parecerá incrível, mas o salto de qualidade na
investigação virá somente do estudo e análise de algo oficial e menos leak que
se possa imaginar: anuários empoeirados mantidos em arquivo, de cuja consulta
emergiu, para os jornalistas, uma “regularidade” estatística, a presença de
quase noventa padres, suspensos, retirados por doença ou transferidos de
paróquia em paróquia.
Os padres pedófilos que o então Cardeal Bernard Law não expulsou. E
por isto teve que “deixar” os Estados Unidos, transferido a Roma em 2002,
enquanto seu sucessor, Cardeal Sean O’Malley, não só preside a nova Comissão Pontifícia contra o abuso de menores, mas vendeu
muitos imóveis da Diocese para fazer frente ao ressarcimento das vítimas.
O espectador verá também os documentos judiciais
que contribuíram para um primeiro avanço significativo da investigação do Boston
Globe - obtidos de modo perfeitamente legal: preenchimento de
formulário específico, fotocópias à luz do sol.
Eis que, deste ponto de vista, o Spotlight,
segredos revelados, é verdadeiramente surpreendente. Mostra a
necessidade de trabalho constante, indica a necessidade de investir tempo e
recursos, e de corrigir erros. É o responsável do team do Spotlight, que
se dá conta que já fizera publicar em crônica um pequeno artigo que continha
claramente toda a história. E é ele, um insider, que consegue a confirmação
última do “sistema” de cobertura do escândalo de um outro insider, um expoente
católico de vulto da cidade, sem a qual o diretor não teria batido o enter para
publicação.
Acrescentaria ainda que o filme é a celebração do
jornalismo num País, como os Estados Unidos, onde os jornais não são
simplesmente uma instância de compensação do sistema.
Naturalmente, do ponto de vista do conteúdo, o
filme é “datado”. A investigação do team do Spotlight, que em 2002 ganhou
o prêmio Pulitzer, fotografa uma situação que não é mais a da Igreja
americana, que exatamente em 2002 elaborou as linhas guias para combater o
fenômeno dos abusos e proteger as crianças. Um bom trecho da estrada percorrida
no combate à pedofilia no clero foi levada adiante por Bento XVI. E novos
casos da Austrália (onde a Royal Commission está interrogando, desde
o dia 29 de fevereiro o Cardeal George Pell) ao Chile, a Honduras,
deverão ser enfrentados.
Martin Baron, no entanto, hoje diretor do Washington
Post, escreveu nestes dias: “A verdadeira satisfação virá se o filme conseguir
ter um grande impacto. Impacto sobre o jornalismo, sedutor e diretores
recomeçarão a dedicar-se ao jornalismo investigativo. Impacto sobre os leitores
céticos, porque os cidadãos serão estimulados a reconhecer a necessidade de uma
séria cobertura local e de fortes instituições jornalísticas. E impacto sobre
todos nós, graças a uma maior disponibilidade de escutar as pessoas humildes e
muito frequentemente, sem voz”. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
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quarta-feira, 2 de março de 2016
TANCREDO NEVES E RISOLETA NEVES: Um Olhar.
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domingo, 28 de fevereiro de 2016
ORDEM DO CARMO: Comunidade Edith Stein.
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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
ELIAS PEREGRINO EM ALAGOAS: Convite.
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
OUTRO OLHAR: O vírus Zika e a “pílula congolesa”
No voo de retorno
do México, no diálogo
com os jornalistas, Francisco,
respondendo a uma pergunta sobre o vírusZika e sobre as
ações que se querem ativar para freá-lo, falou de aberto e contracepção.
O Papa
distinguiu o aborto, que “não é um mal menor”, mas “um crime”, do evitar a
gravidez, que “não é um mal absoluto”. E citou o caso da admissibilidade da pílula anticoncepcional estabelecida
nos anos Sessenta para as irmãs em risco de violência. A reportagem de Andrea Tornielli, publicado
por Vatican Insider, 21-02-2016.
A tradução é de Benno Dischinger.
A querela da Humanae vitae
Como é sabido, aos
25 de julho de 1968, em pleno verão, no ano que marcará a história do século
vinte e será recordado para o início da contestação estudantil, o Papa Montini tornava conhecida a “Humanae vitae” a
encíclica com a qual reafirmava a doutrina tradicional da Igreja sobre o controle dos nascimentos, declarando ilícito
o uso dos meios anticoncepcionais.
Será sua última
encíclica. Nos dez anos subsequentes de pontificado não publicará mais, após a
ondada de críticas, contestações e ataques pessoais aos quais foi submetido
também em muitíssimos ambientes católicos. O problema da planificação
demográfica e da eventual abertura para a utilização dos contraceptivos da
parte dos esposos cristãos já tinha levando João XXIII a instituir, em março de 1963, uma comissão de
estudo.
La "pílula congolesa"
A questão já tinha
sido debatida pelos teólogos em 1961, quando explodiu o caso da assim dita “pílula congolesa”. No
decurso das desordens e das violências da guerra no ex Congo belga, muitas
religiosas católicas tinham sidoviolentadas.
Naqueles casos de estupro era lícito ou não o uso da pílula anticoncepcional? O tema foi
enfrentado por “Estudos Católicos”, a revista próxima ao Opus Dei, que confiou
a resposta a três estudiosos de teologia moral: monsenhor Pietro Palazzini, então secretário da Sagrada Congregação do
Concílio e futuro cardeal; Francisco Hürt, professor de Moral na Gregoriana e Ferdinando Lambruschini, docente da mesma
disciplina na Lateranense.
Todos os três
religiosos justificaram a utilização da pílula contraceptiva no
caso das Irmãs que haviam sofrido violência. Aquela discussão, ligada a um
episódio específico, marcou de certo modo um divisor de águas: os moralistas de
fato tinham recorrido a princípios e distinções (o princípio de totalidade, para o qual
uma mutilação é lícita para o bem total da pessoa, ou o princípio do conflito entre dois
males) que depois se teriam tornado argumentos para os defensores do abandono
da tradicional posição católica. Os argumentos usados para o caso-limite foram
imediatamente estendidos a outras situações e, de caso em caso, se começou a
por em discussão o princípio da intrínseca negatividade da prática anticoncepcional.
O efeito dominó
O debate é muito
bem narrado por dom Ambrogio Valsechi,
teólogo moralista que foi afastado de sua cátedra no seminário de Venegono, no
livro “Regolazione delle nascite” [Regulação dos nascimentos] (Queriniana, 1967): os argumentos
usados para a pílula congolesa “abriam
também a estrada ao emprego de pílulas para
regula a fecundidade. Pode-se perguntar: por que o que era lícito para uma Irmã do Congo em vista do seu bem pessoal-espiritual,
não podia ser permitido também à mulher desposada, quando a inibição ovulatória
mirava um bem igualmente grande (regulação dos nascimentos) sem as graves
dificuldades e riscos de uma completa abstinência? E não era possível que se
restringisse também na família o direito-dever de procriar e, por isso, também
neste caso a “esterilização” tivesse significado simplesmente biológico?”.
Dois anos após o
debate sobre a pílula congolesa por
primeira vez um católico, o ginecologista inglês John Rock, negava num livro seu o
caráter da ilícita esterilização ao emprego da pílula para o controle dos nascimentos. “Começou tudo dali,
foi o caso congolês que abriu a questão – recordará Guido Gatti, docente de Moral no
Pontifício Ateneu Salesiano – Começou-se a falar de legítima defesa, depois outros ampliaram
a novos casos, sempre mais distantes, até que se chegou àquela que foi chamada
a pílula católica. Depois se acenou
ao Concílio e, enfim,
se chegou ao pronunciamento do Papa”.
A “Humanae vitae” não se pronuncia sobre os casos-limite.
O Magistério da Igreja não
se pronunciará sobre o caso específico da violência e do estupro. “A Humanae vitae não
entrou no mérito destes casos – explicou Palazzini – A encíclica proibia o uso da pílula, mas no caso que temos
enfrentado se tratava de pessoas que eram constrangidas contra a própria
vontade a uniões sexuais. A diferença com respeito aos casos aos quais a
encíclica se referia é evidente”. Palazzini desmentirá
também a quantos afirmam que aquele parecer de 1961 sobre a “pílula congolesa”
tenha lesado a posição tradicional da Igreja sobre osanticoncepcionais.
“Contrariamente a
quanto pensam muitos, a pílula não
é condenada pela Igreja em absoluto. Ela o é somente em relação à intenção com
que é assumida. No caso por nós considerado, a intenção é a “legítima defesa”, e não vejo como não
deva ser considerado lícito o recurso à pílula da parte da mulher em perigo iminente de ser
agredida... AHumanae vitae, ao
invés, se refere à intenção de ter relações sexuais artificialmente fechadas à
hipótese da procriação em âmbito conjugal. É bem outra coisa...”.
Zika e o precedente da AIDS
Algumas das
motivações postas em campo pelos teólogos moralistas no caso da “pílula congolesa”
podem ser aplicadas ao caso do vírus Zika e da
concreta ameaça de graves malformações para o bebê? O Papa, citando o exemplo
africano, após ter rebatido que aborto e
contracepção não podem ser postos no mesmo plano, deixou entender que sim. Em
novembro passado, no voo de retorno da África Central, tinha sido perguntado a Francisco se
ante a difusão epidêmica da AIDS não seria o
caso para a Igreja mudar de posição sobre o não ao preservativo.
O Papa tinha
definido a pergunta como “parcial”, comparando-a àquelas que eram postas por Jesus aos doutores da lei: “É
lícito ou não curar num sábado?” Francisco havia
recordado que sim, o condon “é
um dos métodos” para limitar a difusão da infecção e que “a moral” da Igreja se
encontra sobre este ponto ante uma perplexidade”, devendo ter presente tanto a
necessidade de preservar a vida das pessoas evitando que sejam infectadas, como
de defender o exercício de uma sexualidade aberta à transmissão da vida.
“Mas, este não é o
problema – acrescentou o Papa – o problema é maior”. ‘É obrigatório curar”,
explicou, tornando própria a resposta de Jesus que curou o doente de hidropisia não
obstante fosse sábado, convidando porém a olhar aos grandes problemas da África: “A desnutrição, a exploração,
o trabalho em escravidão, a falta de água potável, estes são os problemas. Não
falamos se se pode usar tal emplastro para tal feria. A grande injustiça é uma injustiça social, a
grande injustiça é a desnutrição. Não me
agrada descer a reflexões casuísticas quando o povo morre pela falta de água e
pela fome”.
A resposta de Bento XVI
As aberturas à
utilização do profilático, em
particular para categorias em risco ou nas relações de casal em caso de um
cônjuge soropositivo, não são novas na Igreja: neste sentido tinham se
expressado, nas últimas décadas, os cardeaisCarlo Maria Martini, Dionigi Tettamanzi, Javier Lozano Barragán, Georges Cottier. A dizer o mesmo, provocando reações variadas e
também alguma dor de barriga, em 2010 tinha sido também Bento XVI, no
livro-entrevista com Peter Seewald “Luz
do mundo”.
“Concentrando-nos
somente no profilático – havia respondido o Papa Ratzinger – quer
dizer banalizar a sexualidade, e esta banalização representa precisamente a perigosa razão pela
qual tantas e tantas pessoas não vêm mais nasexualidade a expressão do seu amor, mas somente uma espécie de droga, que se
subministram por si.”
O Papa, porém,
acrescentava: “Podem existir casos singulares justificados, por exemplo quando”
quem se prostitui “utiliza um profilático, e isto
pode ser o primeiro passo para uma moralização, um primeiro ato de
responsabilidade para desenvolver de novo a consciência do fato de que nem tudo
é permitido e que não se pode fazer tudo o que se quer”. Neste caso se estava
falando da responsabilidade de não infectar e, portanto, de não por em risco a
vida do outro. No caso do vírus Zika se
trata de evitar a concepção de bebês com gravíssimas malformações cerebrais.
Aquelas palavras sobre a "Humanae vitae"
De resto, Bento XVI, precisamente no
livro-entrevista “Luz do mundo” havia falado em termos muito realistas
dacontracepção, confirmando-se
uma vez mais como teólogo e pastor fora dos clichês nos quais tantos
“ratzingerianos” procuraram e procuram enquadrá-lo. “As perspectivas da “Humanae vitae”
continuam válidas, mas outra coisa é encontrar caminhos humanamente
percorríveis.
Creio que sempre
haverá minorias intimamente persuadidas da justeza daquelas perspectivas e que,
vivendo-as, ficarão plenamente apagadas, assim, de se tornar para outros um
fascinante modelo a seguir. Somos pecadores. Mas
não deveremos assumir este fato como instância contra a verdade, quando não é
vivenciada aquela alta moral. Deveremos procurar fazer todo o bem possível, e
apoiar-nos e suportar-nos mutuamente”. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
A CIDADE DAS OLIMPÍADAS ALAGADA- 01.
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RECORDAÇÃO DO OLHAR: Encontro Carmelita em Mogi Mirim- 01.
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BIBLIOGRAMA DO PROFETA ELIAS NA LAPA: 5ª Parte.
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BIBLIOGRAMA DO PROFETA ELIAS NA LAPA: 4ª Parte.
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domingo, 21 de fevereiro de 2016
BIBLIOGRAMA DO PROFETA ELIAS NA LAPA: 3ª Parte.
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BIBLIOGRAMA DO PROFETA ELIAS NA LAPA: 2ª Parte.
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BIBLIOGRAMA DO PROFETA ELIAS NA LAPA: 1ª Parte.
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2º DOMINGO DO QUARESMA: Homilia do Frei Petrônio.
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
IMAGENS SANTA FÉ: Um olhar- 02.
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JESUS, O ROSTO DA MISERICÓRDIA DO PAI: Sobre o Jubileu da Misericórdia
Frei Carlos Mesters, Carmelita.
Convento do Carmo de Angra dos Reis/RJ.
"Jesus
Cristo é o rosto da misericórdia do Pai. O mistério da fé cristã parece
encontrar nestas palavras a sua síntese. Tal misericórdia tornou-se viva, visível
e atingiu o seu clímax em Jesus de Nazaré. O Pai, “rico em misericórdia” (Ef 2,
4), depois de ter revelado o seu nome a Moisés como “Deus misericordioso e
clemente, vagaroso na ira, cheio de bondade e fidelidade” (Ex 34, 6), não
cessou de dar a conhecer, de vários modos e em muitos momentos da história, a
sua natureza divina. Na “plenitude do tempo” (Gl 4, 4), quando tudo estava
pronto segundo o seu plano de salvação, mandou o seu Filho, nascido da Virgem
Maria, para nos revelar, de modo definitivo, o seu amor. Quem O vê, vê o Pai
(cf. Jo 14, 9). Com a sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa, Jesus de
Nazaré revela a misericórdia de Deus" (Misericordiae Vultus, 1).
Com estas
palavras o Papa Francisco começa a carta em que anuncia o Jubileu da Misericórdia.
Ele termina a carta informando
que o Jubileu terá início no dia 8 de dezembro de 2015 e será encerrado na
festa de Cristo Rei, 20 de novembro de 2016. Ele diz: "Será um Ano Santo extraordinário para viver, na existência de
cada dia, a misericórdia que o Pai, desde sempre, estende sobre nós. Neste
Jubileu, deixemo-nos surpreender por Deus. Ele nunca Se cansa de escancarar a
porta do seu coração, para repetir que nos ama e deseja partilhar conosco a sua
vida".
No dia 8 de
dezembro, o Papa dará início ao Jubileu abrindo a Porta Santa na basílica de São Pedro. Ele pede na carta que todos
procuremos abrir a porta do coração
para deixar-nos invadir pela misericórdia, e destaca a importância da
misericórdia em toda a ação de Deus ao longo da história, culminando em Jesus
que é o rosto da misericórdia do Pai,
Misericórdiae Vultus. Neste artigo
vamos ver como Jesus irradiava
a misericórdia do Pai no seu jeito tão simples de ensinar e de viver as oito
bem-aventuranças.
A misericórdia de Jesus para com os
pobres em espírito
Bem-aventurados
os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu.
Jesus via como os doutores da lei
ensinavam aos pobres a tradição dos antigos (Mc 7,1-5). Eles explicavam tudo
direitinho conforme a letra da lei, mas a muitos deles faltava o espírito da lei. Em nome da fidelidade à
letra, eles marginalizavam muita gente: os pobres, os doentes, os deficientes
físicos, as mulheres, os impuros, as crianças, os pobres. Diziam que a pobreza,
o sofrimento, os males da vida e as deficiências eram castigos de Deus (cf. Jo
9,2). Em vez de ensinar a lei de Deus como expressão do rosto misericordioso do
Pai, eles escondiam a imagem do Pai atrás de uma máscara de normas e obrigações
que tornavam impossível a observância da lei para os pobres (Mc 7,6-13).
Jesus experimentava Deus de outra maneira.
Sentia Deus como Pai, como Mãe. Ele tinha um outro espírito, que o fazia meditar a letra da lei com um novo olhar e o
levava a escutar os pobres com muita ternura. Jesus também era pobre. Vivia no
meio deles, igual a eles.
Porém, para Jesus, nascer pobre e ser
pobre não era uma fatalidade nem um castigo de Deus, mas sim a expressão de um
apelo de Deus. Jesus não era um pobre revoltado com inveja daqueles ricos que
acumulavam toda a riqueza para si. Na sua pobreza Jesus tinha uma riqueza
maior: Deus estava com ele. O Reino
de Deus vivia nele e o espírito do
Reino o levava a lutar para que a injustiça fosse eliminada e os bens da terra
fossem partilhados e se tornassem fonte de fraternidade para todos. Esta riqueza
do Reino de Deus, da fraternidade e da misericórdia, Jesus a irradiava no meio
dos pobres e queria que todos a descobrissem.
Jesus e seus discípulos viviam
misturados com os pobres e os excluídos (Mc 2,16; 1,41; Lc 7,37). Jesus
reconhecia a riqueza e o valor dos pobres (Mt 11,25-26; Lc 21,1-4). Proclamava-os
felizes (Lc 6,20; Mt 5,3). Não possuía nada para si, nem mesmo uma pedra para
reclinar a cabeça (Lc 9,58). E a quem desejava segui-lo para conviver com ele,
mandava escolher: ou Deus, ou o dinheiro! (Mt 6,24). Mandava fazer opção pelos
pobres (Mc 10,21). A pobreza, que caracterizava a vida de Jesus, caracterizava
também a sua missão. Ao contrário dos outros missionários (Mt 23,15), os
discípulos e as discípulas de Jesus não podiam levar nada, nem ouro, nem prata,
nem duas túnicas, nem sacola, nem sandálias, mas somente a Paz! (Mt 10,9-10; Lc
10,4-5). Eram pobres em espírito.
Tinham espírito de pobre. Eram animados
pelo mesmo espírito de Jesus.
Jesus anunciava o Reino para todos, para
pobres e ricos. Não excluía ninguém. Mas o anunciava a partir dos pobres e
excluídos: prostitutas eram
preferidas aos fariseus (Mt 21,31–32; Lc 7,37-50); publicanos tinham precedência sobre os escribas (Lc 18,9-14;
19,1-10); leprosos eram acolhidos e
limpos (Mc 1,44; Mt 8,2-3; 11,5; Lc 17,12-14); doentes eram curados em dia de sábado (Mc 3,1-5; Lc 14,1-6;
13,10-13); mulheres faziam parte do
grupo que acompanhava Jesus (Lc 8,1-3; 23,49.55; Mc 15,40-41); crianças eram apresentadas como
professores de adultos (Mt 18,1-4; 19,13-15; Lc 9,47-48); samaritanos eram apresentados como modelo para os judeus (Lc 10,33;
17,16); famintos eram acolhidos como
rebanho sem pastor (Mc 6,34; Mt 9,36; 15,32; Jo 6, 5-11); cegos recebiam a visão (Mc 8,22-26; Mc 10,46-52; Jo 9,6-7) e os
fariseus eram declarados cegos (Mt 23,16); possessos
eram libertados do poder do mal (Lc 11,14-20); a mulher adúltera era defendida contra os que a condenavam em nome da lei de
Deus (Jo 8,2-11); estrangeiros eram
acolhidos e atendidos (Lc 7,2-10; Mc 7,24-30; Mt 15,22). Os pobres perceberam a
novidade e acolheram Jesus dizendo: “Um
novo ensinamento dado com autoridade!” (Mc 1,27), diferente dos escribas e
dos fariseus (Mc 1,22). Todo este carinho de Jesus na convivência com os pobres
era a maneira de ele revelar a misericórdia do Pai.
A misericórdia de Jesus para com os que
choram
Bem-aventurados
os que choram, porque serão consolados.
Não existe pessoa neste mundo que nunca
chorou. Nem Jesus escapa. Nascemos chorando. Uns choram mais que os outros. O
choro pode ter muitas causas: choro de raiva e de ódio, choro de amor e de
compaixão. Choro alegre e choro triste. Jesus chorou várias vezes. Chorou sobre
Jerusalém, porque ela não soube perceber o dia da visita do Senhor (Lc
19,41-44). Chorou diante do túmulo de Lázaro (Jo 11,35), diante do povo faminto
que o procurava (Mc 6,34). Diante da tristeza de tanta gente, Jesus imitava o
Servo de Javé anunciado por Isaías: "Ele tomou sobre si as nossas
enfermidades e carregou as nossas doenças" (Mt 8,17).
Jesus enxugou muitas lágrimas e devolveu
a alegria a muita gente. Ele imitava Deus que, como diz Isaias, “enxugará as
lágrimas de todas as faces” (Is 25,8). Como devem ficado alegres a viúva de
Naím, cujo filho único ele ressuscitou (Lc 7,11-17); a Cananéia, cuja filha
curou (Mc 7,24-30); a mulher de hemorragia irregular que se curou graças à sua
fé em Jesus (Mc 5,25-34); o cego Bartimeu (Mc 10,46-52), o velho Zaqueu (Lc
19,1-10), a Samaritana (Jo 4,7-42), a mulher adúltera (Jo 8,1-11), a mulher
curvada (Lc 13,11), Madalena (Lc 8,2; Jo 20,11-18), Marta e Maria, irmãs de
Lázaro (Jo 11,17-44), tantos e tantas! Não dá para enumerar todos os casos de
aflição que se converteram em consolo e alegria graças à misericórdia de Jesus.
Ele combateu os males que faziam o povo
sofrer e chorar: a fome, pois
alimentou os famintos (Mc 6,30-44; 8,1-10); a doença, pois curou os enfermos (Mt 4, 24; 8,16-17); os males da natureza, pois acalmou a
tempestade (Mt 14,32; 8,23-27); expulsou os maus
espíritos e os proibia de falar (Mc 1,23-27.34; Lc 4,13); combateu a ignorância, pois ensinava o povo (Mt 9,
35; Mc 1,22); combateu o abandono e a solidão, pois acolhia as pessoas (Mt
9,36; 11,28-30); criticou as leis que oprimiam,
pois colocou o bem-estar do ser humano como lei suprema de todas as leis (Mt 12,1-5;
23,13-15; Mc 2,23-28); denunciou a opressão,
pois acolhia o povo oprimido (Mt 11,28-30; Lc 22,25); combateu o medo, pois dizia sempre: “Não tenham
medo!” (Mt 28,10; Mc 6,50).
Consolando assim os tristes e irradiando
a alegria do Reino, Jesus revelava a misericórdia do Pai. Ele mesmo se alegrava
vendo a alegria dos pequenos: "Eu te
louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios
e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do
teu agrado” (Lc 11,21; Mt 11,25-26).
A misericórdia de Jesus para com os
mansos
Bem-aventurados
os mansos, porque possuirão a terra.
Jesus disse: “Venham a mim todos vocês
que estão cansados de carregar o peso do seu fardo, e eu lhes darei descanso.
Carreguem a minha carga e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de
coração." (Mt 11,28-30). A mansidão de Jesus não é a de uma pessoa sem
fibra, sem vontade própria, que aprova tudo e concorda com tudo. A mansidão a
que ele se refere é a mansidão resistente do Servo de Javé, anunciado pelo
profeta Isaías: “Ele não grita, nem levanta a voz, não solta berros pelas ruas,
não quebra a planta machucada, nem apaga o pavio que ainda solta fumaça. Com
fidelidade promove o direito sem desanimar nem desfalecer, até estabelecer o direito
sobre a terra” (Is 42,2-4).
Assim era a mansidão de Jesus. Isaías
completa a descrição da mansidão dizendo que ela consiste em “saber dizer uma
palavra de conforto a quem está desanimado” (Is 50,4). E o próprio Servo
acrescenta: “O Senhor me abriu os ouvidos e eu não resisti, nem voltei atrás.
Ofereci minhas costas aos que me batiam e o queixo aos que me arrancavam a
barba. Não escondi o rosto para evitar insultos e escarros. O Senhor é a minha
ajuda! Por isso, estas ofensas não me desmoralizam. Faço cara dura como pedra,
sabendo que não vou ser um fracassado” (Is 50,5-7).
A mansidão de Jesus é a resistência que
nasce da fé de que a vitória final não será dos violentos, dos corruptos, dos
prepotentes, mas sim dos que tem a mansidão do Servo. Jesus era uma amostra
viva desta mansidão resistente. Para ele, tudo se resumia em imitar Deus : "Vocês
ouviram o que foi dito: Ame o seu próximo, e odeie o seu inimigo. Eu, porém,
lhes digo: amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês!
Assim vocês se tornarão filhos do Pai que está no céu, porque ele faz o sol
nascer sobre maus e bons, e a chuva cair sobre justos e injustos. Portanto,
sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu" (Mt
5,43-45 e 48; cf Lc 6,36).
Jesus imitou o Pai e revelou o seu amor.
Cada gesto, cada palavra de Jesus, desde o nascimento até à morte na cruz foi
um crescendo contínuo. A manifestação plena desta mansidão foi quando na Cruz
ofereceu o perdão ao soldado que o matava. O soldado, empregado do império,
prendeu o pulso de Jesus na cruz, colocou um prego e começou a bater. Deu
várias pancadas. O sangue espirrava. O corpo de Jesus se contorcia de dor. O
soldado bruto e ignorante, alheio ao que estava fazendo e ao que estava
acontecendo ao redor, continuava batendo como se fosse um prego na parede da
sua casa para pendurar um quadro. Neste momento Jesus dirige ao Pai esta prece:
“Pai, perdoa! Eles não sabem o que estão
fazendo!” (Lc 23,34) Olhando aquele soldado ignorante e bruto, Jesus teve
dó do rapaz e rezou por ele e por todos nós: “Pai, perdoa!” E ainda arrumou uma desculpa: “São ignorantes. Não
sabem o que estão fazendo!” Diante do Pai, Jesus se fez solidário com aqueles
que o torturavam e maltratavam. Era como o irmão que vem com seus irmãos
assassinos diante do juiz e ele, vítima dos próprios irmãos, diz ao juiz: “São
meus irmãos, sabe! São uns ignorantes. Perdoa. Eles vão melhorar!” Era como se
Jesus estivesse com medo de que o mínimo de raiva contra o rapaz que o matava
pudesse apagar nele o último restinho de humanidade que ainda sobrava nele.
Este gesto incrível de mansidão foi a maior revelação do amor e da misericórdia
de Deus. Jesus podia morrer: “Está tudo consumado!” (Jo 19,30). Sua vida foi
uma revelação desta mansidão misericordiosa do Pai.
A misericórdia de Jesus para com os que
têm fome e sede de justiça
Bem-aventurados
os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
No tempo de Jesus, muitos doutores da
lei ensinavam que a justiça só se
alcança observando a lei até nos seus mínimos detalhesNo ensino deles o acento
caía na observância, no merecer. Não havia espaço para a gratuidade do amor e da
misericórdia (cf Mt 9,13). Jesus não concordava com esta justiça e dizia: “Se a
justiça de vocês não for maior que a justiça dos fariseus e escribas, vocês não
vão poder entrar no Reino dos céus” (Mt 5,20).
Na raiz daquela falsa justiça estava a
injustiça maior da falsa imagem de Deus que a religião comunicava ao povo. Por
causa da insistência na observância da Lei, Deus aparecia como um juiz severo
que ameaça com castigo e condena, e não como um pai que acolhe e perdoa. Esta
injustiça para com Deus se manifestava nas coisas mais comuns do dia-a-dia. Por
exemplo, eles não podiam comer sem lavar as mãos (Mc 7,3); não podiam sentar à
mesa com pessoas de outra raça ou de outra religião (Mc 2,16); não podiam
entrar na casa de um pagão (At 10,28); não podiam arrancar espigas nem curar um
doente em dia de sábado (Mt 12,1-2; Mc 3,1-2). A lei ameaçava o povo de todos
os lados: “Pecado! Proibido! Não Pode!” O povo, em vez de sentir-se em paz
diante de Deus, tinha a consciência pesada, pois não conseguia observar a Lei,
nem alcançar a justiça (cf. Rom 7,15.19).
Jesus não pensava assim. Ele tinha fome
e sede de uma outra justiça. Para Jesus, o amor de Deus por nós não é fruto das
nossas observâncias, mas é um dom que recebemos de Deus. A mãe ama a criança
não porque a criança é boa e lhe obedece em tudo, mas porque ela mesma é mãe.
Mãe é Mãe! Amor de mãe não se compra, nem se merece, mas se recebe de graça
pelo simples fato de nascer. “Quisesse
alguém dar tudo o que tem para comprar o amor, seria tratado com desprezo”
(Ct 8,7). Temos que observar a lei de Deus, sim, sempre! Mas não para merecer
ou comprar o céu. Observamos a lei para agradecer a imensa bondade com que Deus
nos acolhe e “nos amou primeiro”, sem mérito algum da nossa parte (1Jo 4,19).
Aqui está a raiz da misericórdia!
Esta visão da justiça cresceu em Jesus,
desde pequeno, convivendo em casa com sua mãe que lhe falava do amor e da
misericórdia de Deus (cf Lc 1,54-55) e lembrava as histórias de Jeremias,
Oséias e Isaías e tantas outras pessoas. Ele descobria o amor de Deus Pai no
amor que recebia de Maria, sua mãe, de Ana, sua avó, e de José, seu pai, que
era um homem justo (Mt 1,19). Jesus traduzia
este amor naqueles gestos tão simples de ternura com que recebia e acolhia as
pessoas, desde as criancinhas até os adultos: Zaqueu (Lc 19,1-10), Bartimeu (Mc
10,46-52), a Talita (Mc 5,41), Nicodemos (Jo 3,1-15), Madalena (Lc 8,2; Jo
20,11-18), Levi (Mc 2,13-17), a mulher adúltera (Jo 8,1-11), a moça do perfume
(Lc 7,36-50), a Samaritana (Jo 4,7-26), a Cananéia (Mt 15,21-28), as mães com
crianças pequenas nos braços (Mc 10,13-16). Irradiando esta sua fome e sede de
justiça, Jesus irradiava a misericórdia do Pai.
A misericórdia de Jesus para com os
misericordiosos
Bem-aventurados
os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia.
Jesus era a misericórdia em pessoa. Miseri-cór-dia:
é ter o coração na miséria dos outros. Ele conhecia de perto a miséria e o
sofrimento do seu povo. Nas parábolas ele menciona a angústia dos desempregados
que viviam à espera de um biscate (Mt 20,1-6); a situação do povo cheio de
dívida, ameaçado de ser escravizado (Mt 18,23-26); o desespero que chegava a
levar o pobre a explorar seu próprio companheiro (Mt 18,27-30; Mt 24,48-50); a
extravagância dos ricos que ofendia os pobres (Lc 16,19-21); a luta da viúva
pobre pelos seus direitos (Lc 18,1-8). A miséria do povo enchia o seu coração.
O que Jesus mais fazia era atender às
pessoas que o procuravam em busca de alguma ajuda ou alívio. Ele fazia isto
desde pequeno. Lá em Nazaré, como todo mundo, ele trabalhava na roça e, além
disso, ajudava o povo como carpinteiro.
Naquela época, carpinteiro era aquela
pessoa bem prática do povoado a quem todos recorriam para resolver seus
problemas domésticos: mesa quebrada, telha estragada, arado desregulado, etc.
Este seu jeito natural de servir aos outros, Jesus o deve ter aprendido de sua
mãe que chegou a viajar mais de 100 quilômetros só para ajudar Isabel, sua
prima já idosa, no seu primeiro parto (Lc 1,36-39.56-57). Jesus dizia de si
mesmo, resumindo o sentido da sua vida: “Eu não vim para ser servido, mas para
servir” (Mc 10,45).
Sim, Jesus era a misericórdia em pessoa.
Certa vez, ele queria descansar um pouco e foi de barco para o outro lado do
lago (Mc 6,31). O povo soube e foi a pé na frente dele e ficou esperando por
ele na praia (Mc 6,33). Vendo o povo, Jesus esqueceu o descanso e dizia: “Tenho
dó desse povo. São como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34). Outra vez, em Cafarnaum,
terminado o sábado, no momento de aparecer a primeira estrela no céu, o povo
levou a ele todos os doentes da cidade, e ele curou a todos (Mc 1,32-34). Era
tanta gente que o procurava, que nem sobrava tempo para ele comer (Mc 3,20; Mt
6,31). O evangelho conta muitos episódios desta atenção misericordiosa de Jesus
para com as pessoas: com a mulher adúltera (Jo 8,11), com o paralítico (Mc
2,9), a moça pecadora (Lc 7,47), o bom ladrão (Lc 23,34). Perdoou até o soldado
que o estava matando (Lc 23,34).
Pedro, ouvindo Jesus falar tanto em
misericórdia e perdão, perguntou: “Quantas vezes devo perdoar, se meu irmão
pecar contra mim? Até sete vezes?" (Mt 18,21) O número sete significava a
totalidade. No fundo, Pedro pergunta: “Então devo perdoar sempre?” E Jesus
responde: "Não lhe digo que até sete vezes, Pedro, mas até setenta vezes
sete”. Ou seja: “Não lhe digo até sempre, mas até setenta vezes sempre!”
O evangelho conta também as brigas e discussões
que Jesus sustentava para defender os sofredores contra as agressões injustas
das autoridades religiosas. Defendeu a mulher que vivia curvada há 18 anos e
que foi agredida pelo coordenador da sinagoga (Lc 13,10-17). Defendeu a moça
que foi injuriada como pecadora na casa de um fariseu (Lc 7,36-50). Defendeu as
mães que queriam uma bênção para as crianças, contra a má vontade dos
discípulos (Mt 19,13-15). Defendeu os discípulos criticados por arrancarem
espigas em dia de sábado (Mt 12,1-8). Defendeu a mulher acusada de adultério
por alguns fariseus (Jo 8,1-11). Defendeu e curou o rapaz com mão seca dentro
da sinagoga em dia de sábado (Mc 3,1-6). Acolhia os leprosos, os doentes, os
cegos, os coxos, todos e todas que o procuravam. E ele explicou o motivo que o
levava a agir assim: “Quero misericórdia
e não sacrifício” (Mt 9,13; 12,7; 23,23). Agindo assim, Jesus irradiava para os
outros o amor misericordioso que ele mesmo recebia do Pai. Colocava em prática
o que ensinava aos outros: “Sede misericordiosos como o Pai de vocês é misericordioso”
(Lc 6,36).
A misericórdia de Jesus para com os
puros de coração
Bem-aventurados
os puros de coração, porque verão a Deus.
Coração puro gera olhar puro e assim faz
perceber os sinais de Deus na vida. Fazia parte da missão de Jesus “abrir os olhos
dos cegos” (Lc 4,18). Ele dizia aos discípulos: “A lâmpada do corpo é o olhar.
Quando o olhar é sadio, o corpo inteiro também fica iluminado. Mas, se o olhar
está doente, o corpo também fica na escuridão. Portanto, veja bem se a luz que
está em você não é escuridão” (Lc 11,34-35). Quem tem um olhar de inveja, não
enxerga corretamente as pessoas e não percebe a presença de Deus nos outros.
Quem tem um olhar de orgulho, de raiva ou de vingança, não consegue apreciar
direito os fatos da vida. Tais pessoas são cegas. Jesus dizia que alguns
fariseus eram cegos, porque não enxergavam direito nem a vida nem as coisas de
Deus (cf. Mt 15,14; 23,16-17; Jo 9,40-41). Mas quem tem um olhar puro, esse
consegue perceber os apelos de Deus na vida. Vê a Deus!
Jesus, ele tinha um olhar limpo, puro, e
o mantinha puro por meio da oração, tendo sempre presente a vontade do Pai (Jo
4,34; 5,19). Ele só fazia aquilo que o Pai lhe mostrava que era para fazer (Jo
5,19). Ele falava só aquilo que ouvia do Pai (Jo 5,30).
Jesus procurava ajudar os discípulos a
limpar o olhar: “Cuidado com o fermento dos fariseus e de Herodes!” (Mc
8,15-16). A mentalidade do “fermento de Herodes e dos fariseus” (Mc 8,15) tinha
raízes profundas na vida daquele povo. Também hoje, o fermento do consumismo tem raízes profundas na nossa vida e exige
uma vigilância constante. Jesus procurava atingir essas raízes para poder
arrancar o “fermento” que os impedia de perceber Deus na vida. É bonito ver
como Jesus, através do diálogo, ia ajudando as pessoas a ter um coração puro
para poder perceber melhor os apelos de Deus. O evangelho de João dá uma
atenção especial a esta preocupação de Jesus: a conversa de Jesus com a
Samaritana (Jo 4,7-26), com Nicodemos (Jo 3,1-15), com Marta (Jo 11,21-27), com
o cego que foi curado (Jo 9,35-39), até mesmo pessoas que resistiam contra ele:
alguns judeus (Jo 8,31-59) e Pilatos (Jo 18,33-38).
Vale a pena ver de perto como ele fazia
para purificar os olhos e o coração dos discípulos e como combatia o falso
fermento ou a falsa mentalidade que, até hoje, impede a visão correta das
coisas: Certa vez, alguém, que não era da comunidade, usava o nome de Jesus
para expulsar os demônios. João viu e proibiu, pois, assim ele dizia, aquela
pessoa não fazia parte do grupo (Mc 9,38). Era o fermento da mentalidade de grupo fechado. Jesus
responde: "Não impeçam! Quem não é contra é a favor!" (Lc 9,39-40).
Outra vez, os discípulos brigavam entre si pelo primeiro lugar (Mc 9,33-34).
Era o fermento da mentalidade de
competição e de prestígio. Jesus reage: "O primeiro seja o
último" (Mc 9,35). “Não vim para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45;
Mt 20,28; Jo 13,1-16). Outra vez, mães com crianças queriam chegar perto de
Jesus. Os discípulos as afastavam. Era o fermento da mentalidade de quem marginaliza o pequeno. Jesus os repreende:
”Deixem vir a mim as crianças!” (Mc 10,14). “Quem não receber o Reino como uma
criança, não pode entrar nele” (Lc 18,17). Outra vez ainda, vendo um cego os
discípulos perguntavam: "Quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse
cego?" (Jo 9,2). Era o fermento da mentalidade
de quem segue a opinião da ideologia dominante. Jesus responde: “Nem ele,
nem os pais dele, mas para que nele se manifestem as obras de Deus” (cf Jo
9,3).
Em todas estas atitudes Jesus se
esforçava para que as pessoas purificassem seu olhar sobre o próximo. Ele
dizia: “Tudo que vocês fizerem a um destes meus irmãos mais pequeninos é a mim
que o fizeram” (Mt 25,40). Ele se identifica com os pequenos: “Era eu!” (Mt
25,40.45). Ele levava as pessoas a perceber a presença dele até nas coisas mais
simples da vida como dar um copo de água (Mt 10,42; Mc 9,41).
A misericórdia de Jesus para com os que
lutam pela Paz
Bem-aventurados
os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.
A construção da Paz começa nas coisas pequena
como desejar um “Bom Dia!”, e só terminará quando o mundo estiver reconstruído:
sem guerra, sem fome, sem doenças, sem injustiça, sem opressão, todos vivendo
como irmãos e irmãs, uns dos outros. Este é o objetivo da construção da Paz, da
Paz completa. SHALÔM. A Paz é como uma casa para morar: ela é construída tijolo
por tijolo. Quem não cuida do tijolo, nunca terá casa para morar. Qual é o
tijolo que serve para construir a casa da Paz?
A vida de Jesus é uma amostra de como
ser construtor de paz. Onde havia ódio, levava o amor; onde havia ofensa,
levava o perdão; onde havia discórdia, levava a união; onde havia dúvida,
levava a fé; onde havia erro, levava a verdade; onde havia desespero, leva a
esperança; onde havia ofensa, levava o perdão; onde havia tristeza, levava a
alegria; onde havia injustiça, levava a justiça e o direito; onde havia trevas,
levava a luz.
Aos discípulos amedrontados dizia: “A
paz esteja com vocês!” Soprou sobre eles dizendo: “Recebam o Espírito Santo!”,
e deu a eles nós o poder de perdoar e de reconciliar (Jo 20,21-23). E quando os
enviou em missão, não permitia levar nada, a não ser uma única coisa: a Paz. E
quando chegavam em algum lugar, eles deviam dizer: “A Paz esteja nesta casa!”
(Lc 10,5). Assim começou e recomeça o processo da Paz que reverte o processo do
ódio, da confusão, da discórdia, da ofensa, da destruição, iniciado com Adão e
Eva (Gn 2,1-7), com Caim e Lamec, (Gn 4,8.24), com o Dilúvio (Gn 6,13-17) e com
a Torre de Babel (Gn 11,1-9). Assim recomeça a reconstrução do Paraíso da Paz.
Não se começa a construção da casa pelo
telhado, mas pelo alicerce. Qual o alicerce da casa da Paz? É a reconstrução do
relacionamento humano entre as pessoas, bem na base, para que possa nascer e
renascer a vida em comunidade. No tempo de Jesus, o povo esperava que o profeta
Elias voltasse “para reconduzir o coração dos pais para os filhos e o coração
dos filhos para os pais” (Ml 3,23-24). Eles esperavam que fosse refeito o
tecido básico da convivência humana, pois sem este alicerce, o resto não teria
consistência. Seria construir a casa em cima da areia (cf Mt 7,26). Seria
reboque em parede rachada. Esconde, mas não conserta.
O que Jesus mais fez foi exatamente
isto: refazer a vida comunitária nos povoados da Galiléia. Conforme o Evangelho
de Marcos, a primeira coisa que Jesus fez foi chamar discípulos para formar
comunidade com eles (Mc 1,16-20; 3,14). Ao redor dele nascia a nova
fraternidade, expressão do amor solidário de Deus, fundamento na construção da
Paz. Ele acolhia as pessoas, dava lugar aos que não tinham lugar, era irmão
para os que viviam isolados, denunciava as divisões que impediam a construção
da paz: divisão entre próximo e não-próximo (Lc 10,29-37); entre pagão e judeu
(Mt 15,28; cf. Lc 7,6); entre puro e impuro (Mt 23,23-24; Mc 7,13-23); entre
pobres e exploradores (Lc 20,46–47; 22,25). Quando curava uma pessoa ou
perdoava um pecador, dizia: “Vai em paz!” (Lc 7,50; 8,48; Mc 5,34). Quando,
depois da ressurreição, aparecia aos discípulos, ele dizia: “A Paz esteja com
vocês!” (Lc 24,30; Jo 20,19.26). Ele trouxe a paz que só Deus nos pode dar (Jo
14,27). É a paz como fruto da justiça, fruto de longa luta e de muito
sofrimento. Por isso disse que não veio trazer a paz, mas sim a espada e a
divisão (Mt 10,34; Lc 12,51).
Jesus reforçava a vida em comunidade que
é o fundamento da Paz, o lugar da reconstrução da Aliança. A Paz existe quando
todos e todas são acolhidos como irmãos e irmãs, uns dos outros, todos sendo
filhos e filhas do mesmo Pai. Jesus procurava reintegrar as pessoas
marginalizadas na convivência humana (Mc 1,40-45). A Comunidade deve ser como o
rosto de Deus, transformado em
Boa Nova para o povo. Jesus era ecumênico e universal.
Acolhia a todos: judeus, romanos, samaritanos, a mulher Cananéia.
A misericórdia de Jesus para com os
perseguidos por causa da justiça
Bem-aventurados
os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu”.
Como dissemos, a maior injustiça na
época de Jesus era a falsa imagem de Deus que a religião oficial comunicava ao
povo: um Deus severo, juiz que ameaçava com castigo e condenava. Por causa
desta falsa imagem de Deus, a própria vida humana era falsificada e aparecia de
um jeito que já não correspondia mais ao projeto de Deus. Em vez de abrir a
porta do Reino, a religião parecia querer fechá-la. Jesus dizia: “Vocês fecham
o Reino do Céu para os homens. Nem vocês entram, nem deixam entrar aqueles que
o desejam” (Mt 25,13).
Jesus não aguentava esse tipo de
religião que, em nome da lei de Deus mal interpretada, matava na alma do povo a
alegria de viver. Ele não veio para condenar o mundo, mas sim para salvá-lo (Jo
12,47). Jesus anunciava a Boa Notícia de um Deus-Misericórdia que acolhe e
salva e não a notícia triste de um Deus severo que condena e castiga. Ele dizia:
"Deus enviou o seu Filho ao mundo,
não para condenar o mundo, e sim para que o mundo seja salvo por meio dele” (Jo
3,17). Jesus irradiava este amor em atitudes concretas para com os pobres, os
mansos, os aflitos, os que tinham fome e sede de justiça, os que buscavam ter
misericórdia com os miseráveis, os que buscavam a presença de Deus na vida, os
que lutavam pela paz.
Por causa deste seu amor à justiça,
Jesus foi criticado e perseguido. Quando perdoou o paralítico, foi criticado
(Mc 2,6-7). Quando foi jantar na casa do publicano Levi, foi reprovado (Mc
2,16). Quando num sábado curou o cego de nascimento, foi denunciado (Jo 5,16).
Quando comia sem lavar as mãos, era ridicularizado (Mt 15,2). Tentaram
desmoralizá-lo dizendo que ele era um possesso (Mc 3,22), um comilão e beberrão
(Mt 11,19), um louco (Mc 3,21), um pecador (Jo 9,24), um blasfemo (Mc 14,64).
Quando Jesus desafiou as autoridades e dizia que a maneira de elas
interpretarem a Lei de Deus era contrária à vontade de Deus, elas decidiram
matá-lo (Mc 3,6).
Jesus sabia que não conseguiria mudar a
cabeça dos líderes do povo. Sabia que a sua fidelidade ao Deus misericordioso
que acolhe a todos como filhos e filhas seria interpretada como heresia e que o
seu destino seria prisão, a tortura e a morte de cruz. As profecias sobre o
Servo de Javé não deixavam dúvida a este respeito (cf. Is 50,6; 53,3-10). Se
quisesse, Jesus poderia ter escapado da morte. Mas Jesus não quis escapar.
“Pai, não se faça a minha, mas a tua vontade!” (Lc 22,42). Até o último respiro
da sua vida, ele continuou revelando a face da misericórdia de Deus. Era esta
sua obediência radical ao Pai, que o levava a desobedecer às autoridades
religiosas do seu tempo.
Por este seu jeito de ser e pelo
testemunho de sua vida, Jesus encarnava a misericórdia do Pai e a revelava ao
povo e aos discípulos (Mc 6,31; Mt 10,30; Lc 15,11-32). Foi esta a Boa Nova da
misericórdia do Pai que Jesus viveu e irradiou durante os três anos que andou
pela Galiléia anunciando o Reino de Deus. Sua mensagem desagradou aos poderosos
e eles o prenderam, condenaram e mataram na cruz. Mas Deus o ressuscitou,
confirmando assim para todos que este é o caminho que leva à vida.
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Frei Carlos Mesters,
O Ano Santo da Misericórdia,
Regra do Carmo
O Ano Santo da Misericórdia: Sugestões da Regra do Carmo para viver a misericórdia
Frei Carlos Mesters, carmelita.
Convento do Carmo de Angra dos Reis/RJ.
"Jesus
Cristo é o rosto da misericórdia do Pai. O mistério da fé cristã parece
encontrar nestas palavras a sua síntese. Tal misericórdia tornou-se viva,
visível e atingiu o seu clímax em Jesus de Nazaré.
O
Pai, “rico em misericórdia” (Ef 2, 4), depois de ter revelado o seu nome a
Moisés como “Deus misericordioso e clemente, lento na ira, e cheio de bondade e
fidelidade” (Ex 34, 6), não cessou de dar a conhecer, de vários modos e em
muitos momentos da história, a sua natureza divina.
Na
“plenitude do tempo” (Gl 4, 4), quando tudo estava pronto segundo o seu plano
de salvação, mandou o seu Filho, nascido da Virgem Maria, para nos revelar, de
modo definitivo, o seu amor. Quem O vê, vê o Pai (cf. Jo 14, 9). Com a sua
palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa, Jesus de Nazaré nos revela a
misericórdia de Deus"
Com
estas palavras o Papa Francisco começa a carta em que anuncia o Jubileu da
Misericórdia. Ele termina a carta informando que o Jubileu terá início no
dia 8 de dezembro de 2015 e será encerrado na festa de Cristo Rei, 20 de
novembro de 2016. Ele escreve: "Será
um Ano Santo extraordinário para viver, na existência de cada dia, a misericórdia
que o Pai, desde sempre, estende sobre nós. Neste Jubileu, deixemo-nos
surpreender por Deus. Ele nunca Se cansa de escancarar a porta do seu coração,
para repetir que nos ama e deseja partilhar conosco a sua vida".
No dia 8 de
dezembro, o Papa dará início ao Jubileu abrindo a Porta Santa na basílica de São Pedro. Na carta ele pede que todos
procurem abrir a porta do coração
para a misericórdia poder entrar e tomar conta de tudo. E ele destaca como a misericórdia de Deus alcança o seu ponto
alto, seu climax, em Jesus que é o rosto
da misericórdia do Pai, o misericordiae vultus.
Como
Província Carmelitana de Santo Elias queremos atender ao pedido do Papa e
empenhar-nos na vivência da misericórdia. O Papa pede três coisas:
1) abrir a porta
do coração para a misericórdia;
2) deixar-nos surpreender por Deus
3) perceber o clímax
da misericórdia de Deus em Jesus.
Nesta breve
reflexão, vamos aprofundar estes três pedidos do Papa Francisco veremos os
conselhos que a Regra do Carmo nos oferece para melhor
atender aos pedidos do Papa.
1) O primeiro pedido do
Papa: Abrir a porta do coração para a Misericórdia
A própria palavra
"misericórdia" tem a ver com o coração, pois ela é uma junção de dois
vocábulos: miseri e córdia,ou seja: miséria
e coração. Uma pessoa
misericordiosa é uma pessoa que tem o coração
aberto para a miséria dos outros. É a
atitude de quem não se fecha em si mesmo, mas se envolve nas necessidades dos
irmãos e das irmãs que cruzam o seu caminho. Foi o que Jesus fez e viveu.
Já no Antigo Testamento, os profetas
apontavam três portas para perceber a ação da misericórdia de Deus. São portas
que existem até hoje na vida de todos nós: (1) Isaías indicou porta do amor das
mães; (2) Jeremias indicou a porta da natureza; (3) Um discípulo de Isaías indicou
a porta do serviço. Não são três portas
diferentes, mas é uma única porta com três batentes.
(1) A
porta do amor das mães.
Porta antiga, sempre nova! Esta porta,
as mães a conhecem e vivem. Nós, os filhos e as filhas, a conhecemos e
experimentamos. Na época do cativeiro, o profeta Isaías chamou a atenção para
esta porta. Ele dizia às pessoas desanimadas: "O
povo anda dizendo: 'Javé me abandonou; o Senhor se esqueceu de mim'. Mas pode a
mãe se esquecer do seu nenê? Pode ela deixar de ter amor pelo filho de suas
entranhas? Ainda que ela se esqueça, eu não me esquecerei de você". (Is 49,14-15). Foi no amor das
mães que Isaías
descobriu uma expressão da misericórdia de Deus.
Jeremias dizia: "De longe Deus me apareceu e disse: Eu amo você com amor eterno;
por isso, conservo o meu amor por você". (Jr 31,3). Jeremias escutou esta
frase no momento mais escuro da história do povo. Foi no cativeiro da
Babilônia. É como se Deus dissesse ao povo: “Depois de tudo que você fez, você nem
mereceria ser amada. Mas meu amor por você não depende daquilo que você fez ou
faz por mim ou contra mim. Quando comecei a amar você, eu o fiz com um amor eterno. Por isso, apesar de tudo que
você me fez, apesar de todos os seus defeitos e pecados, eu gosto de você. Eu
amo você com amor eterno; por isso conservei o meu amor por você. Mesmo você me
matando, eu amo você e fico esperando o seu retorno”. Jesus confirmou este amor quando na cruz pediu perdão ao Pai
pelos seus assassinos: "Pai, perdoai! Eles não sabem o que estão fazendo!".
(2) A
porta da natureza.
Porta antiga, sempre nova! Na época do
cativeiro, o povo dizia: "Deus me
abandonou; o Senhor se esqueceu de mim". Eles achavam que não eram mais
povo de Deus. Tinham sido infiéis à aliança e o rei Nabucodonosor tinha
destruído todos os sinais da misericórdia de Deus. Achavam que Deus tinham
rompido com eles. Estavam sem esperança. O profeta Jeremias reagiu dizendo que
tinha muita esperança. "Jeremias, qual o fundamento da sua
esperança?" E ele respondia: "O sol vai nascer amanhã!" “Assim diz Javé, aquele que estabelece o sol
para iluminar o dia e ordena à lua e às estrelas para iluminarem a noite,
aquele cujo nome é Javé dos exércitos: quando essas leis falharem diante de
mim -
oráculo de Javé - então o povo de Israel também deixará de ser
diante de mim uma nação para sempre!” (Jr 31,35-36; cf. 33,20-21).
Jeremias chamava a atenção do povo para
a misericórdia de Deus que se manifesta no nascer do sol. Nabucodonosor pode
ser forte, mas ele não consegue impedir o nascimento do sol. O nascer do sol é
pura gratuidade, expressão do bem-querer do Criador. Jeremias ajudou o povo a
observar a natureza com um novo olhar.
Na certeza do nascer do sol, ele via um sinal da misericórdia de Deus. Ele experimentava
a misericórdia de Deus nos fenômenos da natureza e nas coisas da vida: no pôr
do sol, no sorriso de uma criança, na bondade de um amigo, no sofrimento
paciente de uma doente, na gratidão de um mendigo ao qual você tinha dado uma
esmola ...? Tantos sinais de misericórdia!
Aqui podemos acrescentar os inúmeros
salmos que cantam a beleza da natureza: o ar, o vento, as montanhas, as árvores,
o sol e a lua, as estrelas, os pássaros, as estações do ano, as tempestades, a
vida, etc. etc.
(3) A
porta do serviço
Porta nova a ser reaberta cada vez de
novo! No período dos reis, o ideal do povo era este: chegar a ser um povo
glorioso, escolhido, maior e mais forte que os outros povos. Mas este ideal não
deu certo. Pelo contrário! No cativeiro tudo se desintegrou. Descobriram que a
missão deles não é eles serem um povo forte e dominador, mas sim serem um povo
humilde e servidor. Na crise e na catástrofe do cativeiro, nasceu o ideal do
povo servidor. Os capítulos 40 a 66 do livro de Isaías trazem os quatro
cânticos do Servo ou servidor de Deus: (1) Deus apresenta o seu servo à
humanidade (Is. 42,1-9). (2) O Servo conta como descobriu a sua missão (Is 49,
1-7). (3) O Servo conta como está realizando a sua missão (Is 52,4-10). (4) Os
convertidos pelo testemunho do Servo contam como o Servo sofreu, morreu e
ressuscitou (Is 52,13-53,12). Estes cânticos do Servo eram a cartilha que
sustentava a esperança dos pobres e os orientava no caminho da vida.
*
Deus dizia ao povo: "Você é o meu servo; eu o escolhi e jamais o
rejeitei. Não tenha medo, pois eu estou com você. Não precisa olhar com
desconfiança, pois eu sou o seu Deus. Eu fortaleço você, eu o ajudo e o
sustento com minha direita vitoriosa". (Is 41,9-10).
*
Quando povo descobriu sua missão como servo, ele dizia: "Eu ainda
estava no seio materno, e o Senhor já me chamava; nas entranhas da minha mãe eu
estava, e Ele já pronunciava o meu nome. Ele disse: “Você é o meu Servo! Você
me traz muita satisfação!” E eu já andava dizendo: “Cansei-me em vão! Gastei
minhas forças com vento, com nada!” Na realidade, meu direito, o Senhor o
defendia, e o meu salário, Deus o assegurava! Fui levado a sério aos olhos do
Senhor, Deus se fez a minha força! (Is 49,1.3-6).
*
Foi a profecia do Servo que orientou Maria. Ela disse ao anjo Gabriel: "Eis
aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra!" (Lc 1,38)
*
Foi a profecia do Servo que orientou Jesus na escolha e realização da
sua missão. Ele dizia: "O Filho do Homem não veio para ser servido. Ele
veio para servir e dar a sua vida como resgate para muitos" (Mc 10,45). E
quando se apresentou pela primeira vez na sinagoga de Nazaré, ele se apresentou
ao povo com as palavras do resumo que Isaías fez da missão do Servo de Javé: "O
Espírito do Senhor está sobre mim e ele me ungiu ara anunciar a Boa Nova aos
pobres....!" (Lc 4,18s e Is 61,1-2).
Como abrir esta porta do amor, da
natureza e do serviço? Como a Regra do Carmo pode ajudar-nos para abrir esta
porta da misericórdia em nossas vidas?
Um primeiro conselho da Regra: a reunião semanal. A Regra diz: "Nos domingos ou em outros dias, caso
for necessário, vocês devem tratar da conservação da ordem e do bem-estar das
pessoas. Nesta mesma ocasião, sejam também corrigidas com caridade as faltas e
culpas que, por ventura, forem encontradas em algum dos irmãos" (Rc
15). A observância constante deste conselho leva o carmelita a sentir-se
responsável pelo andamento da sua comunidade e a preocupar-se com o bem estar
de cada irmão. Assim, o coração vai abrindo sua porta para sentir o problema
dos irmãos. É por esta porta que a misericórdia de Deus vai poder entrar e
tomar conta de tudo.
Um segundo conselho da Regra: a vida em comunidade. A Regra pede que,
no uso e na distribuição dos bens, estejamos atentos às necessidades de cada irmão
e irmã (Rc 12). Ela cita o exemplo de trabalho do apóstolo Paulo que vivia
preocupado para não ser peso para os outros. Ele dizia: “Estivemos
com vocês trabalhando dia e noite, sem descansa, para não dar despesa a
ninguém. Não como se não tivéssemos o direito, mas sim para dar-lhes um exemplo
a imitar. De fato quando estávamos com vocês, repetíamos com insistência: ‘Quem
não quiser trabalhar, também não coma!’.
Ora ouvimos dizer que entre vocês alguns levam uma vida irrequieta, sem
fazer nada. A estas pessoas avisamos e ordenamos, em nome do Senhor Jesus
Cristo, que trabalhando em silêncio ganhem e comam seu próprio pão". Este
caminho é santo e bom. É nele que devem andar! Paulo pede para que
ninguém viva à toa, à custa dos outros. Pelo contrário, cada um deve
estar compenetrado da sua obrigação de conviver em comunidade, prestando
serviço aos irmãos (Rc 20). A Regra pede ainda que todos façam um esforço para
viver em fraternidade como pessoas maduras e responsáveis (Rc 22 e 23).
Estes conselhos tão simples e
evangélicos da nossa Regra fazem com que o carmelita, aos poucos, vá abrindo a
porta do seu coração para as necessidades dos irmãos e para a misericórdia de
Deus.
2) O segundo pedido do Papa: Deixar nos surpreender por Deus
O Papa Francisco diz na sua carta: "Neste Jubileu, deixemo-nos surpreender
por Deus. Ele nunca Se cansa de escancarar a porta do seu coração, para repetir
que nos ama e deseja partilhar conosco a sua vida". Como deixar-nos
surpreender por Deus? Uma surpresa é algo que você não esperava e que acontece
de repente. E quando a surpresa tem a ver com algo dentro da gente que, de
repente, aparece iluminado por Deus, aí a surpresa é maior ainda. Deus, ele
mesmo, é a maior surpresa. Eis algumas destas inacreditáveis surpresas de Deus:
*
Ao ser assassinado na cruz, Jesus não fica com raiva nem pensa em
vingança, mas pede perdão pelos seus assassinos: "Pai, perdoa, ele não
sabem o que estão fazendo (Lc 23,24).
* Ao lado de Jesus na cruz, um ladrão recebe
esta promessa: "Hoje mesmo você estará comigo no Paraíso" (Lc 23,43).
O primeiro que entrou no céu é um ladrão arrependido!
*
Pedro quer saber quantas vezes deve perdoar: "Sete vezes?"
Sete significa sempre. Jesus
responde: "Setenta vezes sete!" (Mt 18,27), isto é: "Setenta
vezes sempre!"
*..Jesus está sentado à mesa na casa de
pecadores e publicanos. Criticado pelos fariseus, responde: "Não vim
buscar os justos, mas sim os pecadores!" (Mc 2,17)
* Na parábola, o filho mais novo pede: "Pai,
me dá a herança!" (Lc 15,12). Com outras palavras: "Quero que o
senhor morra!' O Pai atende e faz festa para este seu filho.
*..Ela foi pego em flagrante de
adultério. "Quem for sem pecado por jogar pedra!" Jesus disse: "Ninguém
te condenou? Eu também não te condeno" (Jo 8,10).
*
Judas o traiu. Pedro o negou três vezes. Todos os abandonaram. Ficou
totalmente só. Sabendo de tudo isto, Jesus disse: Depois da ressurreição espero
por vocês na Galileia" (Mc 14,27-28).
Dá para você imaginar surpresa maior do
que estas? O que devo fazer para deixar-me surpreender por Deus? Não temos
nenhum meio para obrigar Deus a se manifestar a nós. Isto depende dele, só
dele. Aqui também a Regra oferece alguns conselhos.
Um primeiro conselho da Regra: Meditar dia e noite na lei do Senhor
Este conselho diz respeito à carteira de
identidade do Carmelo: "Permaneça cada
um em sua cela ou na proximidade dela, meditando dia e noite na Lei do Senhor e
vigiando em orações, a não ser que esteja ocupado em outros justificados
afazeres" (Rc 10). Este meditar constante dispõe o coração para uma
atitude de entrega a Deus, para que Deus possa entrar e tomar conta. No
Carmelo, oração e meditação não são uma atividade ao lado das outras atividades,
mas são a própria vida do Carmelo. Não são um ladrilho ao lado dos outros
ladrilhos, mas são a parede que sustenta todos os ladrilhos. Quando as outras
atividades cessam, a meditação da Palavra e a oração permanecem.
A cela
ou o quarto oferece o espaço físico da solidão para a meditação e a oração. O
beato João Soreth diz que a cela material,
o quarto, é símbolo da cela interior,
para a qual deve ser recolhida a mente dispersa. A solidão material no quarto, sem
a cela interior do coração, não vale e não tem sentido. A permanência na cela
material ajuda a alimentar em nós a cela
interior. Muitas vezes, porém, acontece o seguinte. Carmelitas leigos que
vivem no borbulho da vida familiar, sem a cela material, vivem na sua cela interior muito mais do que nós frades
que vivemos, cada um, na sua cela material.
São João da Cruz descreve como
"recolher-se na cela", ou seja, como recolher a mente da distração e
da alienação; como desapegar-se do apego; como incomodar em nós o acomodado; como
perder a vida para poder possuí-la. Assim, aos poucos, o acesso à fonte vai ser
desobstruído e a água poderá inundar livremente a vida, e a surpresa da misericórdia
de Deus acontece.
Um segundo conselho da Regra: Usar as armas espirituais
Num longo capítulo a Regra descreve como
devem ser usadas as armas espirituais do cinto, colete, couraça, escudo,
capacete e da espada, para que possamos deixar-nos surpreender por Deus:
O cinto de castidade nos rins (Ef 6,14). Os
rins sugerem os sentimentos mais profundos. Devemos "proteger os
rins" para não virar joguete de tendências e estímulos contraditórios. O
cinto de castidade visa o controle equilibrado dos sentimentos e desejos do
coração. Ele ajuda a abrir a porta do coração para que a misericórdia de Deus
possa entrar e tomar conta de tudo.
O colete dos pensamentos santos para o
peito (Prov
2,11). Pensamento santo vem do Livro Santo. O peito indica o centro dos anseios
e do pensamento. O colete do pensamento santo sugere a aquisição de uma
consciência crítica frente à ideologia dominante. Ajuda a discernir se o meu
sentimento sobre Deus e sobre a misericórdia é verdadeiro, ou se é só um desejo
egoísta de autopromoção.
A couraça da justiça para o corpo (Mt 22,37; Dt
6,5). A Regra usa a palavra justiça
como sinônimo de amor a Deus e ao próximo.
Trata-se da justiça do Reino de que fala Jesus: "Buscai primeiro o Reino
de Deus e a sua justiça!" (Mt 6,33) Ou seja, o amor a Deus deve ser total:
de todo coração, de toda alma, com todas as forças. Esta entrega total a Deus
nos abre para a misericórdia.
O escudo de fé contra as flechas de fogo
(Ef
6,6). O capítulo 11 da carta aos Hebreus dá uma ideia do que vem a ser o escudo
protetor da fé. Ele descreve como, no passado, a fé foi a grande força que
animou e guiou o povo na sua caminhada. Pois, "sem a fé é impossível
agradar a Deus".
O capacete da salvação na cabeça (Ef 6,15). A
Regra associa a esperança com a salvação. Ter o capacete de salvação na cabeça
significa ter na cabeça a esperança de que só Jesus pode trazer a libertação. É
permitir que Jesus nos liberte de nós mesmos e nos leve a abrir a porta para a
misericórdia.
A espada da Palavra na boca e no coração (Col 3,17). A
espada é a única arma ofensiva. As outras são de defesa. A "espada do
Espírito" é a Palavra de Deus que deve "habitar" na boca e no
coração. Habitar significa sentir-se
em casa. Sentir familiaridade, liberdade e fidelidade, frente à Palavra de
Deus!
A finalidade do uso de todas estas armas
é uma só: fazer com que Deus possa penetrar nossos pensamentos e sentimentos através
da fé, da esperança e do amor, "para
que tudo seja feito na Palavra de Deus" (Rc 19) e, assim, vivamos e
irradiemos a misericórdia de Deus.
Um terceiro conselho da Regra: Fazer tudo na palavra do Senhor
A Regra recomenda por nove vezes a
leitura orante da Bíblia: (1) ouvir a Sagrada Escritura durante as refeições
(Rc 7); (2) meditar dia e noite a Lei do Senhor (Rc 10); (3) rezar os Salmos ou
horas canônicas (Rc 11); (4) participar diariamente da Eucaristia (Rc 14); (5)
ter pensamentos santos (Rc 19); (6) a Palavra deve habitar na boca e no coração
(Rc 19); (7) agir sempre de acordo com a Palavra de Deus (Rc 19); (8) ler com
frequência as cartas de Paulo (Rc 20); (9) ter diante de si o exemplo de Jesus
como está nos evangelhos (Rc 22).
A Palavra de Deus é capaz de abrir a
porta do coração e de nos fazer sentir a surpresa de Deus. Diz a carta aos
hebreus: "A palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante do que
qualquer espada de dois gumes; ela penetra até o ponto onde a alma e o espírito
se encontram, e até onde as juntas e medulas se tocam; ela sonda os sentimentos
e pensamentos mais íntimos" (Hb 4,12). Assim, pouco a pouco, se começa a
ver tudo à luz de Deus. Aos poucos, vai aparecendo a surpresa da misericórdia de
Deus.
3) O terceiro pedido do Papa: Perceber
a misericórdia de Deus em Jesus
O Papa Francisco diz que a Boa Nova da misericórdia
de Deus vem desde as primeiras páginas da Bíblia, mas ela "tornou-se
viva, visível e atingiu o seu clímax em Jesus de Nazaré". De fato, os
quatro evangelhos deixam transparecer de muitas maneiras como Jesus irradiava
esta misericórdia de Deus nas suas palavras e gestos para com as pessoas:
A moça do perfume (Lc 7,36-50),
A viúva de Naim (Lc 7,11-17),
As crianças (Mc 10,13-16),
O cego de Jericó (Mc 10,46-52),
Os doentes (Mt 4,23-25),
O povo faminto (Mc 8,1-9),
Os leprosos (Mc 1,40-45; Lc 17,12-19;
7,22),
O paralítico de trinta e oito anos (Jo 5,1-9),
A mulher adúltera (Jo 8,1-11),
A menina de doze anos (Mc 5,35-43),
A mulher de hemorragia irregular (Mc
5,25-34),
A mulher curvada durante dezoito anos
(Lc 13,10-17),
O pai do menino epilético (Lc 9,37-43),
A Samaritana (Jo 4,7-26),
A Cananéia (Mt 15,21-28),
Zaqueu (Lc 19,1-10),
O oficial romano (Mt 8,5-13),
A sogra de Pedro (Mc 1,29-31),
E tantas e tantos outros.
De fato, todos estes episódios que Jesus
é, como diz o Papa Francisco, "o clímax da misericórdia do Pai". Ele
é o centro de tudo. A mesma centralidade de Jesus transparece na Regra do
Carmo. Jesus é o centro de tudo! Eis um levantamento dos pontos onde a Regra
fala explicitamente de Jesus
* O prólogo da Regra define a vida
carmelitana como “viver em obséquio de
Jesus Cristo e servir a ele de coração puro e boa consciência” (Rc 2). A
preocupação de "viver em obséquio de Jesus" percorre a Regra de ponta
a ponta. Ela é o pano de fundo, contra o qual deve ser lido e interpretado tudo
o que segue nos vários capítulos da Regra.
*
"Meditar dia e noite na Lei do Senhor", isto é, meditar nas
palavras de Jesus (Rc 10).
*
Recomenda a Eucaristia diária, isto é, a vida deve estar centrada em
torno da vivência do Mistério Pascal de Jesus, morto e ressuscitado (Rc 14).
*
Recomenda o jejum desde o dia da exaltação da Cruz até o dia da
Ressurreição. Isto é, sugere uma contínua atenção ao mistério da pessoa de
Jesus durante o ano inteiro (Rc 16).
*
"Os que querem viver piedosamente em Cristo padecem perseguição"
(Rc 18). Ou seja, os que querem viver o ideal apresentado pela Regra terão a
cruz de Jesus como parte da sua vida.
*
Recomenda que o carmelita siga "o ensinamento e o exemplo do
apóstolo Paulo, pois por sua boca Cristo nos falava". No mesmo capítulo,
Alberto pede, "em nome de Senhor Jesus Cristo", que os preguiçosos e
vagabundos “trabalhem em silêncio e ganhem o seu próprio pão” (Rc 20).
*
Recomenda a prática do silêncio, lembrando a palavra de Jesus que diz
que "de toda palavra inútil que a gente disser teremos que prestar conta a
Deus" (Rc 21).
*
Lembra ao superior que ele deve imitar o que Jesus diz no Evangelho:
“Quem quiser ser o primeiro deve ser o servo de todos” (Rc 22)
*
Lembra aos súditos de ver a Jesus na pessoa do superior (Rc 23)
*
Evoca a parábola do Samaritano onde diz que o Senhor na sua volta pagará
(Rc 24).
Resumindo e Concluindo
A Vida em obséquio de Jesus tem um ritmo
diário, semanal e anual. Diário,
porque diariamente os carmelitas devem celebrar a eucaristia, rezar o ofício e
meditar a lei do Senhor. Semanal, porque
uma vez por semana devem fazer revisão de vida e verificar se estão vivendo
realmente em obséquio de Jesus. Anual,
porque, cada ano, devem jejuar desde a festa da Santa Cruz até Páscoa, seguindo
o ritmo do ano litúrgica que percorre a vida de Jesus, desde o nascimento até a
morte e ressurreição.
Este tríplice ritmo de vida cria um
ambiente que favorece viver em obséquio de Jesus Cristo e nos ajuda a abrir a porta do coração para a misericórdia, a deixar-nos surpreender por
Deus e a perceber o ponto alto da misericórdia de Deus em Jesus
Cristo, Nosso Senhor.
O apóstolo Paulo transmite a mesma
experiência do amor eterno de Deus quando diz: "Estou convencido de que
nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o
futuro, nem os poderes nem as forças das alturas ou das profundidades, nem
qualquer outra criatura, nada nos poderá separar do amor de Deus, manifestado
em Jesus Cristo, nosso Senhor" (Rom 8,38-39).
Aqui está a fonte permanente da
misericórdia, do serviço e da fraternidade, que o evangelho pede de nós e que o
Papa Francisco retomou para este Ano da Misericórdia.
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