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sábado, 24 de outubro de 2015

ORDEM DO CARMO: El Salvador-03.

ORDEM DO CARMO: El Salvador-02.

ORDEM DO CARMO: El Salvador-02.

ORDEM DO CARMO: El Salvador-01.

Papa Francisco critica bispos com "corações fechados" ao encerrar sínodo

CIDADE DO VATICANO (Reuters) - O papa Francisco, ao encerrar uma controversa reunião de bispos sobre questões familiares, neste sábado, censurou líderes imutáveis da Igreja que "enterram a cabeça na areia" e se escondem atrás de doutrina rígida enquanto as famílias sofrem.
O papa falou no final de um encontro de três semanas, conhecido como sínodo, onde bispos concordaram em uma abertura restrita para divorciados que se casaram novamente fora da Igreja Católica, mas rejeitaram pedidos de adoção de uma linguagem mais acolhedora em relação aos homossexuais.
Esse foi a mais recente de uma série de advertências do pontífice aos bispos, que ressaltou desde a sua eleição em 2013 que a Igreja 1,2 bilhão de membros deve estar aberta a mudanças, ao lado dos mais pobres e deve livrar-se da pompa e conservadorismo que tem afastado tantos católicos.
Em seu discurso final, o papa pareceu criticar ultraconservadores, dizendo que os líderes da Igreja devem enfrentar questões difíceis "sem medo, sem enterrar nossas cabeças na areia."
Ele disse que o sínodo tinha "desnudado os corações fechados que frequentemente se escondem por trás até mesmo dos ensinamentos da Igreja ou de boas intenções, a fim de se sentar na cadeira de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, casos difíceis e famílias feridas."
Ele também denunciou "teorias da conspiração" e as "visões limitadas" de alguns participantes no encontro, e disse que a Igreja não pode transmitir a sua mensagem para as novas gerações "às vezes incrustadas em uma linguagem que é arcaica ou simplesmente incompreensível".
O resultado de um encontro no Vaticano, presidido pelo papa Francisco, marcou uma vitória dos conservadores na questão homossexual e dos progressistas sobre a espinhosa questão do novo casamento.
O documento final do sínodo reafirmou os ensinamentos da Igreja de que os gays não devem sofrer discriminação na sociedade, mas também repetiu a posição de que "não há qualquer fundamento" para o casamento entre pessoas do mesmo sexo, que "não pode nem mesmo remotamente" ser comparado a uniões heterossexuais.
O documento indica que a assembleia decidiu evitar uma linguagem abertamente controversa e buscar o consenso, a fim de evitar impasse sobre os temas mais sensíveis, deixando para o papa lidar com os detalhes.
O sínodo é um órgão consultivo que não tem o poder de alterar a doutrina da Igreja. O papa, que é o árbitro final sobre qualquer alteração e que fez um apelo por uma Igreja mais misericordiosa e inclusiva, pode usar o material para escrever seu próprio documento, conhecido como um "exortação apostólica".

DIVORCIADOS
O documento do sínodo, por outro lado, ofereceu alguma esperança para a plena reintegração à Igreja de alguns católicos que se divorciaram e se casaram novamente em cerimônias civis.
Sob a doutrina atual da Igreja, eles que não podem receber a comunhão, a menos que se abstenham de ter relações sexuais com seu novo parceiro, porque seu primeiro casamento ainda é válido aos olhos da Igreja e eles são vistos como vivendo em pecado do adultério.
A única maneira para que esses católicos possa casar novamente é se receberem a anulação --decisão de que seu primeiro casamento nunca existiu em primeiro lugar por causa da falta de determinados pré-requisitos, como a maturidade psicológica ou livre arbítrio.
O documento fala de um chamado "foro interno", em que um sacerdote ou um bispo pode trabalhar com um católico que se divorciou e casou-se novamente para decidir conjuntamente, em particular e caso a caso, se ele ou ela pode ser totalmente reintegrados.

"Para que isso aconteça, as condições necessárias de humildade, discrição, amor à Igreja e seus ensinamentos devem ser garantidas em uma busca sincera da vontade de Deus", disse o documento. Fonte: http://br.reuters.com

CARMELITAS DESCALÇOS: Um Olhar-02

CARMELITAS DESCALÇOS: Um Olhar.

EL SALVADOR: Terra de Mártires.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

29º DOMINGO DO TEMPO COMUM: Canto de Comunhão.

Bancada evangélica cresce e mistura política e religião no Congresso

Homens de terno e mulheres de saia com a Bíblia na mão vão enchendo o auditório. Alguém regula o som do violão e dos microfones. A música que celebra "júbilo ao Senhor" estoura nos alto-falantes, e a audiência canta junto. Em um púlpito no palco, os pastores abrem o culto com uma oração fervorosamente acompanhada pelos fiéis.
Uma descrição comum de um culto evangélico não fossem os pastores, deputados, falando de um o púlpito improvisado no plenário Nereu Ramos da Câmara dos Deputados de um país laico chamado Brasil. E se o (até então) presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), anunciado do púlpito ao entrar no recinto pelos pastores João Campos (PSDB-GO) e Sóstenes Cavalcante (PSD-RJ), não tivesse deixado de lado a agenda oficial para participar da celebração e tirar selfies com pessoas que se amontoavam ao seu redor.
Certamente seria bem menos estranho se logo atrás de mim, no fundo do auditório, assessores de parlamentares não estivessem fazendo piadas de cunho homofóbico e rindo alto durante boa parte do evento, que se tornou show com a chegada da aclamada cantora gospel Aline Barros, vencedora do Grammy Latino 2014 e um dos cachês mais altos do mundo gospel brasileiro. Ela tinha viajado do Rio a Brasília com o marido, o ex-jogador de futebol e hoje pastor e empresário gospel Gilmar Santos, especialmente para cantar e orar naquela manhã de quarta-feira no Congresso. Ao final do culto/evento, todos receberiam um CD promocional de Aline.
Aline Barros entoou alguns de seus sucessos com o auxílio de um playback, antes da pregação do marido. O tema é a luta do profeta Elias contra Jezebel, a princesa fenícia que se casou com o rei de Israel e, uma vez rainha, perseguiu e matou profetas israelitas. A imagem da mulher poderosa de alma cruel é usada por dezenas de sites religiosos, que comparam Jezebel à presidente Dilma Rousseff, ameaçando-a de acabar como a rainha, comida por cães.
"Em Tiago capítulo 5, versículo 17, está escrito que Elias era um homem como nós. Ele orou e durante três anos e meio não choveu. Depois ele orou de novo e Deus manda vir a chuva", diz o pastor Gilmar, dirigindo-se aos parlamentares. "Muitas vezes a gente tem orado 'Deus sacode esse país, traz um avivamento, faz algo novo'. Deus está fazendo. Mas a forma que Deus está fazendo nem sempre é do jeito que a gente quer, da nossa maneira. Muitas vezes a gente queria que Deus fizesse chover dinheiro do céu, que fizesse anjo carregar a gente no colo pra levar a gente pra todos os lados e queria pedir pra Deus pra sentar numa rede, pra ele trazer um suco de laranja e operar, trabalhar. 'Manda fogo, destrói aquele endemoniado, aquele idólatra.' Mas Deus não faz dessa forma." Por que Deus escondeu Elias? Por que Deus tem escondido muitos de vocês e ainda não estão nos jornais como sonharam ou não tiveram reconhecimento como sempre sonharam? […] Deus está te escondendo, querido. No momento certo tudo vai acontecer, você vai ser exaltado. Deus sabe como honrar. […] Pode ser o momento mais difícil do seu mandato, mas continua confiando. Muitas pessoas podem estar vivendo uma seca nesse país. Nosso país pode estar vivendo o momento mais seco da história. Vidas secas. Mas o céu nunca vai estar em crise. Nunca tem crise, nunca tem crise."

Sem crise
O número de evangélicos no Parlamento cresceu, acompanhando o aumento de fiéis. Segundo os últimos dados do IBGE, que são de 2010, o número de evangélicos aumentou 61% na década passada (2000-2010). Por sua vez, a Frente Parlamentar Evangélica (FPE), encabeçada pelo deputado e pastor João Campos, agrega mais de 90 parlamentares, segundo dados atualizados da própria Frente – os números podem variar por causa dos suplentes – o que representa um crescimento de 30% na última legislatura.
A mistura de política e religião é a marca da atuação dos pastores deputados. Campos, por exemplo, é presidente da Frente Parlamentar Evangélica, autor do projeto de lei apelidado de "cura gay" e defensor destacado da redução da maioridade penal, como a maioria da chamada "bancada da bala" – em 2014 ele recebeu R$ 400 mil de uma empresa de segurança para sua campanha. Cavalcante ex-diretor de eventos do pastor Silas Malafaia, seu padrinho na fé e na política, é presidente na Comissão Especial que trata do Estatuto da Família.
Encorajada por Eduardo Cunha, que assumiu a presidência da Câmara dizendo que "aborto e regulação da mídia só serão votados passando por cima do meu cadáver", a bancada evangélica tem conseguido levar adiante projetos extremamente conservadores, como o Estatuto da Família (PL 6.583/2013), que reconhece a família apenas como a entidade "formada a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou de união estável, e a comunidade formada por qualquer dos pais e seus filhos", que deve seguir para o Senado nos próximos dias. A PEC 171/1993, que usa passagens bíblicas para justificar a redução da maioridade penal, também foi aprovada na Câmara e aguarda análise do Senado, sem previsão de votação. O próprio Eduardo Cunha é autor do PL 5.069/2013, que cria uma série de empecilhos para o direito constitucional das mulheres vítimas de violência sexual realizarem aborto na rede pública de saúde. Esse está na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara. Também foi nesta legislatura que a bancada conseguiu barrar o trecho que trata do ensino da ideologia de gênero nas escolas no Plano Nacional de Educação.
Ainda segundo os dados fornecidos pela FPE, a maioria dos parlamentares pertence a igrejas pentecostais: a Assembleia de Deus é a que mais congrega esses fiéis, seguida pela Igreja Universal do Reino de Deus, que tem como figura de destaque o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ). Também tem representantes no Congresso as igrejas Sara Nossa Terra e a Igreja Quadrangular.
Como acontece com os partidos na política, os membros também trocam de denominação. Eduardo Cunha recentemente trocou a Sara Nossa Terra pela Assembleia de Deus, onde já estavam os colegas João Campos e Marco Feliciano. Entre os membros das protestantes históricas estão Jair Bolsonaro (batista) e Clarissa Garotinho (presbiteriana).

O sociólogo e escritor Paul Freston, professor catedrático em religião e política da Wilfrid Lauries University, do Canadá, explica que as igrejas pentecostais se diferenciam das protestantes históricas principalmente pela ênfase da crença nos dons do Espírito Santo, como "falar em línguas" e agir em curas e exorcismos. "Por ser uma forma mais entusiasmada de religiosidade, depende menos de um discurso racional, elaborado. Você pode não saber ler ou escrever, pode ser alguém que não ousaria fazer um discurso racional em público, mas sob influência do Espírito você fala. Por isso pode-se dizer que a igreja pentecostal também tem esse poder de inverter as hierarquias sociais", explica o professor. E destaca: "Por ser mais próxima da cultura do espetáculo e menos litúrgica, também são as igrejas pentecostais que se dão melhor com as mídias". Fonte: http://noticias.bol.uol.com.br

sábado, 17 de outubro de 2015

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE PAPA FRANCISCO PARA O DIA MUNDIAL DAS MISSÕES 2015


Queridos irmãos e irmãs,
Neste ano de 2015, o Dia Mundial das Missões tem como pano de fundo o Ano da Vida Consagrada, que serve de estímulo para a sua oração e reflexão. Na verdade, entre a vida consagrada e a missão subsiste uma forte ligação, porque, se todo o baptizado é chamado a dar testemunho do Senhor Jesus, anunciando a fé que recebeu em dom, isto vale de modo particular para a pessoa consagrada. O seguimento de Jesus, que motivou a aparição da vida consagrada na Igreja, é reposta à chamada para se tomar a cruz e segui-Lo, imitar a sua dedicação ao Pai e os seus gestos de serviço e amor, perder a vida a fim de a reencontrar. E, dado que toda a vida de Cristo tem caráter missionário, os homens e mulheres que O seguem mais de perto assumem plenamente este mesmo caráter.
A dimensão missionária, que pertence à própria natureza da Igreja, é intrínseca também a cada forma de vida consagrada, e não pode ser transcurada sem deixar um vazio que desfigura o carisma. A missão não é proselitismo, nem mera estratégia; a missão faz parte da «gramática» da fé, é algo de imprescindível para quem se coloca à escuta da voz do Espírito, que sussurra «vem» e «vai». Quem segue Cristo não pode deixar de tornar-se missionário, e sabe que Jesus «caminha com ele, fala com ele, respira com ele, trabalha com ele. Sente Jesus vivo com ele, no meio da tarefa missionária» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 266).
A missão é uma paixão por Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, uma paixão pelas pessoas. Quando nos detemos em oração diante de Jesus crucificado, reconhecemos a grandeza do seu amor, que nos dignifica e sustenta e, simultaneamente, apercebemo-nos de que aquele amor, saído do seu coração trespassado, estende-se a todo o povo de Deus e à humanidade inteira; e, precisamente deste modo, sentimos também que Ele quer servir-Se de nós para chegar cada vez mais perto do seu povo amado (cf. Ibid., 268) e de todos aqueles que O procuram de coração sincero. Na ordem de Jesus – «Ide» –, estão contidos os cenários e os desafios sempre novos da missão evangelizadora da Igreja. Nesta, todos são chamados a anunciar o Evangelho pelo testemunho da vida; e, de forma especial aos consagrados, é pedido para ouvirem a voz do Espírito que os chama a partir para as grandes periferias da missão, entre os povos onde ainda não chegou o Evangelho.
O cinquentenário do Decreto conciliar Ad gentes convida-nos a reler e meditar este documento que suscitou um forte impulso missionário nos Institutos de Vida Consagrada. Nas comunidades contemplativas, recobrou luz e eloquência a figura de Santa Teresa do Menino Jesus, padroeira das missões, como inspiradora da íntima ligação que há entre a vida contemplativa e a missão. Para muitas congregações religiosas de vida ativa, a ânsia missionária surgida do Concilio Vaticano II concretizou-se numa extraordinária abertura à missão ad gentes, muitas vezes acompanhada pelo acolhimento de irmãos e irmãs provenientes das terras e culturas encontradas na evangelização, de modo que hoje pode-se falar de uma generalizada interculturalidade na vida consagrada. Por isso mesmo, é urgente repropor o ideal da missão com o seu centro em Jesus Cristo e a sua exigência na doação total de si mesmo ao anúncio do Evangelho. Nisto não se pode transigir: quem acolhe, pela graça de Deus, a missão, é chamado a viver de missão. Para tais pessoas, o anúncio de Cristo, nas múltiplas periferias do mundo, torna-se o modo de viver o seguimento d’Ele e a recompensa de tantas canseiras e privações. Qualquer tendência a desviar desta vocação, mesmo se corroborada por nobres motivações relacionadas com tantas necessidades pastorais, eclesiais e humanitárias, não está de acordo com a chamada pessoal do Senhor ao serviço do Evangelho. Nos Institutos Missionários, os formadores são chamados tanto a apontar, clara e honestamente, esta perspectiva de vida e acção, como a discernir com autoridade autênticas vocações missionárias. Dirijo-me sobretudo aos jovens, que ainda são capazes de testemunhos corajosos e de empreendimentos generosos e às vezes contracorrente: não deixeis que vos roubem o sonho duma verdadeira missão, dum seguimento de Jesus que implique o dom total de si mesmo. No segredo da vossa consciência, interrogai-vos sobre a razão pela qual escolhestes a vida religiosa missionária e calculai a disponibilidade que tendes para aceitar por aquilo que é: um dom de amor ao serviço do anúncio do Evangelho, nunca vos esquecendo de que o anúncio do Evangelho, antes de ser uma necessidade para quantos que não o conhecem, é uma carência para quem ama o Mestre.
Hoje, a missão enfrenta o desafio de respeitar a necessidade que todos os povos têm de recomeçar das próprias raízes e salvaguardar os valores das respectivas culturas. Trata-se de conhecer e respeitar outras tradições e sistemas filosóficos e reconhecer a cada povo e cultura o direito de fazer-se ajudar pela própria tradição na compreensão do mistério de Deus e no acolhimento do Evangelho de Jesus, que é luz para as culturas e força transformadora das mesmas.
Dentro desta dinâmica complexa, ponhamo-nos a questão: «Quem são os destinatários privilegiados do anúncio evangélico?» A resposta é clara; encontramo-la no próprio Evangelho: os pobres, os humildes e os doentes, aqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, aqueles que não te podem retribuir (cf. Lc 14, 13-14). Uma evangelização dirigida preferencialmente a eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer: «existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos jamais sozinhos!» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 48). Isto deve ser claro especialmente para as pessoas que abraçam a vida consagrada missionária: com o voto de pobreza, escolhem seguir Cristo nesta sua preferência, não ideologicamente, mas identificando-se como Ele com os pobres, vivendo como eles na precariedade da vida diária e na renúncia ao exercício de qualquer poder para se tornar irmãos e irmãs dos últimos, levando-lhes o testemunho da alegria do Evangelho e a expressão da caridade de Deus.
Para viver o testemunho cristão e os sinais do amor do Pai entre os humildes e os pobres, os consagrados são chamados a promover, no serviço da missão, a presença dos fiéis leigos. Como já afirmava o Concílio Ecumênico Vaticano II, «os leigos colaboram na obra de evangelização da Igreja e participam da sua missão salvífica, ao mesmo tempo como testemunhas e como instrumentos vivos» (Ad gentes, 41). É necessário que os consagrados missionários se abram, cada vez mais corajosamente, àqueles que estão dispostos a cooperar com eles, mesmo durante um tempo limitado numa experiência ao vivo. São irmãos e irmãs que desejam partilhar a vocação missionária inscrita no Baptismo. As casas e as estruturas das missões são lugares naturais para o seu acolhimento e apoio humano, espiritual e apostólico.
As Instituições e as Obras Missionárias da Igreja estão postas totalmente ao serviço daqueles que não conhecem o Evangelho de Jesus. Para realizar eficazmente este objetivo, aquelas precisam dos carismas e do compromisso missionário dos consagrados, mas também os consagrados precisam duma estrutura de serviço, expressão da solicitude do Bispo de Roma para garantir de tal modo a koinonia que a colaboração e a sinergia façam parte integrante do testemunho missionário. Jesus colocou a unidade dos discípulos como condição para que o mundo creia (cf. Jo 17, 21). A referida convergência não equivale a uma submissão jurídico-organizativa a organismos institucionais, nem a uma mortificação da fantasia do Espírito que suscita a diversidade, mas significa conferir maior eficácia à mensagem evangélica e promover aquela unidade de intentos que é fruto também do Espírito.
A Obra Missionária do Sucessor de Pedro tem um horizonte apostólico universal. Por isso, tem necessidade também dos inúmeros carismas da vida consagrada, para dirigir-se ao vasto horizonte da evangelização e ser capaz de assegurar uma presença adequada nas fronteiras e nos territórios alcançados.
Queridos irmãos e irmãs, a paixão do missionário é o Evangelho. São Paulo podia afirmar: «Ai de mim, se eu não evangelizar!» (1 Cor 9, 16). O Evangelho é fonte de alegria, liberdade e salvação para cada homem. Ciente deste dom, a Igreja não se cansa de anunciar, incessantemente, a todos «O que existia desde o princípio, O que ouvimos, O que vimos com os nossos olhos» (1 Jo 1, 1). A missão dos servidores da Palavra – bispos, sacerdotes, religiosos e leigos – é colocar a todos, sem excluir ninguém, em relação pessoal com Cristo. No campo imenso da atividade missionária da Igreja, cada batizado é chamado a viver o melhor possível o seu compromisso, segundo a sua situação pessoal. Uma resposta generosa a esta vocação universal pode ser oferecida pelos consagrados e consagradas através duma vida intensa de oração e união com o Senhor e com o seu sacrifício redentor.
Ao mesmo tempo que confio a Maria, Mãe da Igreja e modelo de missionariedade, todos aqueles que, ad gentes ou no próprio território, em todos os estados de vida, cooperam no anúncio do Evangelho, de coração concedo a cada um a Bênção Apostólica.
Vaticano, 24 de Maio – Solenidade de Pentecostes – de 2015.
FRANCISCO

NOVENA COM FREI PETRÔNIO: Bênção do Santíssimo-02.

NOVENA COM FREI PETRÔNIO: Bênção do Santíssimo-01.

ALAGOANOS NO RIO DE JANEIRO: Os Arcos da Lapa.

ALAGOANOS NO RIO DE JANEIRO: Onde está o Cristo?

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A CAMINHO DO RIO DE JANEIRO: Queima Jesus!!!

Santa Teresa de Jesus: discípula missionária

"Incentiva e orienta pessoas a trilharem o caminho de opção por Jesus Cristo e seu Reino; acompanha suas fundações, faz negócios, solicita ajuda para as necessidades e o cuidado com a pessoa das Irmãs, especialmente na saúde, vestuário, alimentação", escrevem Assunta Romio e Rita Romio, Irmãs Teresianas da Companhia de Santa Teresa de Jesus [1], artigo sobre o Quinto Centenário do Nascimento de Teresa de Ávila (2), doutora da Igreja, que se celebra hoje, dia 15 de outubro.

Eis o artigo.
É maravilhoso poder desfrutar os recursos atuais da comunicação. Em tempo real dá para acompanhar quem está longe ou perto, socializar o cotidiano e o extraordinário, interagir com poucas ou muitas pessoas, ou simplesmente clicar um “curtir”. Com certeza somos extraordinariamente privilegiadas/os!
Oxalá muitas pessoas que marcaram a história do cristianismo, tivessem esses meios à sua disposição! Sem eles fizeram tanto! É possível imaginar o que estariam inventando hoje, com tantas possibilidades!
Uma delas é uma mulher que nasceu em 1515, a Santa de Ávila que queria ser missionária e não lhe era permitido, somente “por ser mulher” (F1,6). Ela não sabia bem como poderia dar a sua contribuição. Além do mais, havia a Inquisição, que “tomam por suspeita, qualquer coisa, desde que venha de mulheres” (CE 4,1), se queixava Teresa. Suplicava então a Deus que lhe desse alguma luz, pois “não há razão para desprezar” pessoas “virtuosas e fortes, mesmo que sejam de mulheres” (CE 4,1).
Teresa, ainda adolescente fica órfã de mãe. O pai encarrega as agostinianas para educar sua filha. No internato, onde deve aprender o ideal para ser uma boa esposa, a jovem se deixa influenciar pela educadora Irmã Maria de Briceño (V2,6). Teresa sintoniza muito com ela e a vê como uma pessoa muito feliz. Um dia, esta religiosa lhe contou que a frase evangélica, “muitos são os chamados e poucos os escolhidos” havia impulsionado sua opção de vida (V3,1). A partir de então, Teresa começa a admitir a ideia de consagrar sua vida a Deus. E, sem permissão paterna, nos seus 20 anos de idade, a jovem resolve se consagrar a Deus, indo para o Convento da Encarnação.
O contexto conventual não era dos melhores. Como monja vive uma vida mediana, somatiza seus problemas a ponto de ficar fisicamente paralítica durante três anos. Prioriza as relações externas, deixando em segundo plano o projeto assumido. Passou alguns anos neste tipo de vida, mas em contínua busca de algo mais. Fiel à reflexão, oração e partilha com pessoas sábias, encontra o tesouro da sua vida, a verdade que sempre buscou: Jesus Cristo, seu sentido existencial. A partir de então, aos 39 anos de vida, seu único foco é o Reino de Deus. Quer ser missionária. Mas como poderia aspirar à essa missão, com todos os limites sociais e eclesiais que pesavam sobre a mulher?
Teresa vive no período da colonização espanhola nas Américas. Alguns dos seus irmãos também entraram nesta aventura de atravessar o mar para explorar as novas terras de Quito, Lima, Peru e Chile. Ela acompanha o que acontece com os povos conquistados e sofre muito, por esta causa. Através das suas Cartas, que chegaram a nós hoje, sabemos que ela manteve muitos contatos, especialmente com missionários defensores dos indígenas. Deixa registrado por escrito sua inquietação e angústia por se “sentir encurralada como mulher” (CE 4,1) e não poder colaborar na evangelização dos povos da América. Suplicava a Deus que a iluminasse.
No relato da Fundação do Convento de São José em Ávila, ela mesma conta que um dia receberam a visita do Frei Alonso Maldonado, missionário nas Índias (Américas). Este franciscano lhes falava sobre as necessidades na missão e o tratamento dado aos índios. Teresa ficou muito impactada: “recolhendo-me num oratório, clamei a Nosso Senhor. Coberta de lágrimas, supliquei-Lhe que me desse meios para que eu pudesse fazer algo” (F1,7), a serviço do Reino. Teresa percebe que dentro dela surge uma resposta; ela também poderia participar da missão evangelizadora na América, mesmo sendo carmelita e vivendo na clausura. Num momento de profundo recolhimento e oração, percebe a presença de Jesus Cristo que, com muito amor e confiança, lhe comunica: “Espera um pouco, filha, e verás grandes coisas!” (F1,8). A partir deste momento, nela se abre um novo horizonte, pois estas palavras “ficaram profundamente gravadas em meu coração” (F1,8). E assim entendeu como poderia ser missionária: “Decidi então fazer o pouquinho que estava ao alcance” e “ensinar mais com obras que com palavras” (F1,6).

“Realizar o pouco que está ao alcance!”
Teresa de Ávila empreendeu uma grande obra, provocando um movimento de mulheres com a meta de viver o espírito evangélico como orantes, pobres e iguais, as Carmelitas Descalças. E, como se não bastasse, ao propor isso aos homens, tornou-se um caso raro na história da Igreja, uma mulher reformadora de uma Ordem masculina, os Carmelitas Descalços.
Envolve pessoas amigas e familiares como colaboradores na sua obra; procura ser ponte de união na família; perante a problemática do seu irmão Pedro, doente e depressivo, encaminha seu irmão Lorenzo para assumi-lo; cria redes de relações com os jovens sobrinhos, com uma atenção especial aos adolescentes, com os quais mantém contato direto, incentivando-os a estudar e a se organizarem na vida.
Articula-se com os melhores teólogos da época. Assegura-se que o que ela pensa, busca e experimenta não seja contraditório à fé cristã.
Oriunda de uma família, na qual teve o privilégio de aprender a ler e escrever, registra por escrito a experiência da passagem de Deus na sua vida. Empenha-se para que todas as Irmãs Carmelitas aprendam a ler e escrever, garantindo-lhes mais autonomia nas diversas áreas como a comunicação, espiritualidade, teologia, e, até mesmo para poder acompanhar os acontecimentos.
Incentiva e orienta pessoas a trilharem o caminho de opção por Jesus Cristo e seu Reino; acompanha suas fundações, faz negócios, solicita ajuda para as necessidades e o cuidado com a pessoa das Irmãs, especialmente na saúde, vestuário, alimentação.
Utiliza intensivamente a mídia da época escrevendo bilhetes, cartas, livros. Usa todos os meios que pode e se comunica com as autoridades oficiais, tanto religiosas como civis, para solicitar ajuda, defender sua obra.
Teresa mantém suas antenas ligadas à evangelização eclesial, principalmente nas “Índias”, enviando cartas aos missionários, irmãos, parentes e amigos. Seu método: inicia as Cartas partilhando a sua própria experiência humana e espiritual. A seguir expressa interesse pelo destinatário, seu trabalho e como o realiza. Escrevendo aos missionários, quer saber como os índios são tratados, pois diz ter ouvido falar sobre a exploração indígena e critica determinadas práticas. Faz questão de expressar que gostaria de estar em terras de missão, mas como não pode, “por ser mulher”, assume ser missionária em tudo o que está ao seu alcance, vivendo intensivamente a proposta de Jesus e orando pela evangelização.
Sim, a Santa de Ávila, que neste ano de 2015 se comemora o V aniversário do seu nascimento, foi missionária, amando e experienciando a humanidade de Jesus Cristo. Para ela Deus é aquele que nos habita, está sempre nos esperando e “muito ajuda ter pensamentos elevados, para que as obras também o sejam” (C4,1).

Notas:
[1] O sacerdote espanhol Santo Enrique de Ossó e Cervelló desde jovem leu os escritos de Teresa de Jesus. Cativado pelos ensinamentos da Santa de Ávila, tornou-se seu incansável divulgador. Entre outras obras fundou a Companhia de Santa Teresa de Jesus (1876), as Irmãs Teresianas, desejando que fossem “santas e sábias” como Teresa de Jesus; “outras Teresas de Jesus” na atualidade, com a missão de “conhecer, amar e tornar Jesus Cristo conhecido e amado”.

[2] Curiosidades: entre as mulheres importantes que adotaram o nome da espanhola Santa Teresa de Ávila, por serem suas admiradoras e/ou discípulas, cita-se aqui: a francesa, Santa Teresinha do Menino Jesus (1873-1897); a chilena Santa Teresa dos Andes (1900-1920); a albanesa Madre Teresa de Calcutá (1910-1997). Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

*Um desafio à cristologia

Dom Vital João Wilderink, OCarm.
*In Memoriam

Em outubro de 1932, o Padre Tito Brandsma foi eleito reitor da universidade católica de Nijmegen. No dies natalis da universidade, ele fez um discurso sobre o conceito ou imagem de Deus. O discurso conheceu, mesmo depois da sua morte, repetidas edições porque conserva uma atualidade surpreendente.  Na época a formação teológica trazia o carimbo da neo-escolástica, caracterizada por uma linguagem especulativa e abstrata. Falava-se de Deus como se tratasse de uma espécie de realidade eterna, atemporal e imutável sobre a qual a nossa busca de peregrinos não tinha muito a dizer. Insistia-se, sem dúvida, na prática das virtudes, mas, como Tito dizia no seu discurso, não sem perigo de reduzir a vida espiritual a uma prática exterior. Para Tito, porém, Deus não independe de formas humanas de conhecimento que são marcadas pelo tempo e pelo contexto. Neste ponto ele insiste na necessidade de uma abertura em relação a novas evoluções na espiritualidade.
Ele começa o seu discurso dizendo: “Entre as muitas questões que eu me coloco, há uma que prende mais a minha atenção: é o enigma que o homem de hoje, tão convencido e orgulhoso do seu progresso, se afaste em tão grande número de Deus. Porque a imagem de Deus ficou tão obscurecida que a tanta gente não chega a dizer mais nada? Creio que seja  dever nosso olhar em torno a nós para esse fenômeno da negação de Deus. Não, porque devemos em primeiro lugar assumir uma atitude de defesa já existe apologia demais, mas, em vista desse fenômeno, deixar-se motivar para fazer conhecer a imagem de Deus em novas formas”.
O que Tito Brandsma procurava fazer era que aprofundar a fé submetendo as suas intuições ao exame crítico do intelecto e da sabedoria da tradição. Não por interesse próprio ou para ser original, mas para desembocar numa corrente que flui pelas artérias profundas do corpo da realidade. Sabemos que, entre nós aqui na América Latina, surgiu a partir de uma reflexão sobre a realidade, uma espiritualidade de libertação. Se espiritualidade é um processo que tem a ver com uma relação nossa com o Absoluto, é imprescindível ver a nossa inserção no mundo e no universo. Não podemos dizer que a plenitude do ser humano não tem nada a ver com essa realidade. Afinal somos um ícone do real.
            Ecclesia semper est reformanda. Também o corpo doutrinal, na sua tradição cristológica apela para uma reforma. É uma tarefa de grande responsabilidade uma vez que os dogmas estão entre eles intrinsecamente conectados. Não podemos passar com descuido sobre a rica herança teológica de dois milênios.
De outro lado há uma outra constatação feita inclusive por grandes estudiosos, de que o mundo se encontra diante de um dilema de proporções planetárias que exige uma mudança radical de "civilização", de sentido do humano, ou provocará uma catástrofe de proporções cósmicas. Isto exige um esforço inter-cultural para fazer um primeiro passo para uma conversão marcada pela esperança.
Não há espiritualidade cristã, nem carisma carmelitano quando se  passa por cima da condição humana na sua dimensão mais profunda e menos condicionada pelas vicissitudes históricas. Existe no ser humano um desejo de plenitude e de vida, de felicidade e de infinito, de verdade e de beleza que vai além das contingências religiosas e culturais.Para nós essa plenitude tem um nome: Jesus Cristo.
*Retiro da Província Carmelitana de Santo Elias. 28 de julho a 01 de agosto-2008. Belo Horizonte-MG.
*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm, foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo.


A PALAVRA... Nº 1002. Só sei que sou Carmelita...

FREI PETRÔNIO: Pensamento do Dia. (SEXTA, 25).

Íntegra do discurso do Papa Francisco ao Congresso Americano

Na quinta-feira, 24 de setembro, o Papa Francisco proferiu seu discurso ao Congresso Americano, em Washington.

Eis o discurso.
Senhor Vice-Presidente,
Senhor Presidente da Câmara dos Representantes,
Distintos Membros do Congresso,
Queridos Amigos!

Sinto-me muito grato pelo convite para falar a esta Assembleia Plenária do Congresso «na terra dos livres e casa dos valorosos». Apraz-me pensar que o motivo para isso tenha sido o facto de também eu ser um filho deste grande continente, do qual muito recebemos todos nós e relativamente ao qual partilhamos uma responsabilidade comum.
Cada filho ou filha duma determinada nação tem uma missão, uma responsabilidade pessoal e social. A vossa responsabilidade própria de membros do Congresso é fazer com que este país, através da vossa actividade legislativa, cresça como nação. Vós sois o rosto deste povo, os seus representantes. Sois chamados a salvaguardar e garantir a dignidade dos vossos concidadãos na busca incansável e exigente do bem comum, que é o fim de toda a política.
Uma sociedade política dura no tempo quando, como uma vocação, se esforça por satisfazer as carências comuns, estimulando o crescimento de todos os seus membros, especialmente aqueles que estão em situação de maior vulnerabilidade ou risco. A atividade legislativa baseia-se sempre no cuidado das pessoas. Para isso fostes convidados, chamados e convocados por aqueles que vos elegeram.
O vosso trabalho lembra-me, sob dois aspectos, a figura de Moisés. Por um lado, o patriarca e legislador do povo de Israel simboliza a necessidade que têm os povos de manter vivo o seu sentido de unidade com os instrumentos duma legislação justa. Por outro, a figura de Moisés leva-nos directamente a Deus e, por consequência, à dignidade transcendente do ser humano. Moisés oferece-nos uma boa síntese do vosso trabalho: a vós, pede-se para proteger, com os instrumentos da lei, a imagem e semelhança moldadas por Deus em cada rosto humano.
Nesta perspectiva, hoje quereria dirigir-me não só a vós mas, através de vós, a todo o povo dos Estados Unidos. Aqui, juntamente com os seus representantes, quereria aproveitar esta oportunidade para dialogar com tantos milhares de homens e mulheres que se esforçam diariamente por cumprir uma honesta jornada de trabalho, por trazer para casa o pão de cada dia, por poupar qualquer dólar e – passo a passo – construir uma vida melhor para as suas famílias. São homens e mulheres que não se preocupam apenas com pagar os impostos, mas – na forma discreta que os caracteriza – sustentam a vida da sociedade. Geram solidariedade com as suas actividades e criam organizações que ajudam quem tem mais necessidade.
Quereria também entrar em diálogo com as numerosas pessoas idosas que são um depósito de sabedoria forjada pela experiência e que procuram de muito modos, especialmente através do voluntariado, partilhar as suas histórias e experiências. Sei que muitas delas estão aposentadas, mas ainda activas e continuam a empenhar-se na construção deste país. Desejo também dialogar com todos os jovens que lutam por realizar as suas grandes e nobres aspirações, que não se deixam extraviar por propostas superficiais e que enfrentam situações difíceis, tantas vezes resultantes da imaturidade de muitos adultos. Quereria dialogar com todos vós, e desejo fazê-lo através da memória histórica do vosso povo.
A minha visita tem lugar num momento em que homens e mulheres de boa vontade estão a celebrar o aniversário de alguns americanos famosos. Apesar da complexidade da história e da realidade da fraqueza humana, estes homens e mulheres foram capazes, com todas as suas diferenças e limitações, de construir um futuro melhor com trabalho duro e sacrifício pessoal – alguns à custa da própria vida. Deram forma a valores fundamentais, que permanecerão para sempre no espírito do povo americano. Um povo com este espírito pode atravessar muitas crises, tensões e conflitos, já que sempre conseguirá encontrar a força para ir avante e fazê-lo com dignidade. Estes homens e mulheres dão-nos uma possibilidade de ver e interpretar a realidade. Ao honrar a sua memória, somos estimulados, mesmo no meio de conflitos, na vida concreta de cada dia, a haurir das nossas mais profundas reservas culturais.
Quereria mencionar quatro destes americanos: Abraham Lincoln, Martin Luther King, Dorothy Day e Thomas Merton.
Este ano completam-se cento e cinquenta anos do assassinato do Presidente Abraham Lincoln, o guardião da liberdade, que trabalhou incansavelmente para que «esta nação, com a protecção de Deus, pudesse ter um renascimento de liberdade». Construir um futuro de liberdade requer amor pelo bem comum e colaboração num espírito de subsidiariedade e solidariedade.
Todos estamos plenamente cientes e também profundamente preocupados com a situação social e política inquietante do mundo actual. O nosso mundo torna-se cada vez mais um lugar de conflitos violentos, ódios e atrocidade brutais, cometidos até mesmo em nome de Deus e da religião. Sabemos que nenhuma religião está imune de formas de engano individual ou de extremismo ideológico. Isto significa que devemos prestar especial atenção a qualquer forma de fundamentalismo, tanto religioso como de qualquer outro género. É necessário um delicado equilíbrio para se combater a violência perpetrada em nome duma religião, duma ideologia ou dum sistema económico, enquanto, ao mesmo tempo, se salvaguarda a liberdade religiosa, a liberdade intelectual e as liberdades individuais. Mas há outra tentação de que devemos acautelar-nos: o reducionismo simplista que só vê bem ou mal, ou, se quiserdes, justos e pecadores. O mundo contemporâneo, com as suas feridas abertas que tocam muitos dos nossos irmãos e irmãs, exige que enfrentemos toda a forma de polarização que o possa dividir entre estes dois campos. Sabemos que, na ânsia de nos libertar do inimigo externo, podemos ser tentados a alimentar o inimigo interno. Imitar o ódio e a violência dos tiranos e dos assassinos é o modo melhor para ocupar o seu lugar. Isto é algo que vós, como povo, rejeitais.
Pelo contrário, a nossa resposta deve ser uma resposta de esperança e cura, de paz e justiça. É-nos pedido para fazermos apelo à coragem e à inteligência, a fim de se resolverem as muitas crises económicas e geopolíticas de hoje. Até mesmo num mundo desenvolvido aparecem demasiado evidentes os efeitos de estruturas e ações injustas. Os nossos esforços devem concentrar-se em restaurar a paz, remediar os erros, manter os compromissos, e assim promover o bem-estar dos indivíduos e dos povos. Devemos avançar juntos, como um só, num renovado espírito de fraternidade e solidariedade, colaborando generosamente para o bem comum.
Os desafios, que hoje enfrentamos, requerem uma renovação deste espírito de colaboração, que produziu tantas coisas boas na história dos Estados Unidos. A complexidade, a gravidade e a urgência destes desafios exigem que ponhamos a render os nossos recursos e talentos e nos decidamos a apoiar-nos mutuamente, respeitando as diferenças e convicções de consciência.
Nesta terra, as várias denominações religiosas deram uma grande ajuda na construção e fortalecimento da sociedade. É importante que hoje, como no passado, a voz da fé continue a ser ouvida, porque é uma voz de fraternidade e de amor que procura fazer surgir o melhor em cada pessoa e em cada sociedade. Esta cooperação é um poderoso recurso na luta por eliminar as novas formas globais de escravidão, nascidas de graves injustiças que só podem ser superadas com novas políticas e novas formas de consenso social.
Penso aqui na história política dos Estados Unidos, onde a democracia está profundamente radicada no espírito do povo americano. Qualquer actividade política deve servir e promover o bem da pessoa humana e estar baseada no respeito pela dignidade de cada um. «Consideramos evidentes, por si mesmas, estas verdades: que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que, entre estes, estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade» (Declaração de Independência, 4 de Julho de 1776). Se a política deve estar verdadeiramente ao serviço da pessoa humana, segue-se que não pode estar submetida à economia e às finanças. É que a política é expressão da nossa insuprível necessidade de vivermos juntos em unidade, para podermos construir unidos o bem comum maior: uma comunidade que sacrifique os interesses particulares para poder partilhar, na justiça e na paz, os seus benefícios, os seus interesses, a sua vida social. Não subestimo as dificuldades que isto implica, mas encorajo-vos neste esforço.
Penso também na marcha que Martin Luther King guiou de Selma a Montgomery, há cinquenta anos, como parte da campanha para conseguir o seu «sonho» de plenos direitos civis e políticos para os afro-americanos. Aquele sonho continua a inspirar-nos. Alegro-me por a América continuar a ser, para muitos, uma terra de «sonhos»: sonhos que levam à acção, à participação, ao compromisso; sonhos que despertam o que há de mais profundo e verdadeiro na vida das pessoas. Nos últimos séculos, milhões de pessoas chegaram a esta terra perseguindo o sonho de construírem um futuro em liberdade. Nós, pessoas deste continente, não temos medo dos estrangeiros, porque outrora muitos de nós éramos estrangeiros. Digo-vos isto como filho de imigrantes, sabendo que também muitos de vós sois descendentes de imigrantes. Tragicamente, os direitos daqueles que estavam aqui, muito antes de nós, nem sempre foram respeitados. Por aqueles povos e as suas nações, desejo, a partir do coração da democracia americana, reafirmar a minha mais alta estima e consideração. Aqueles primeiros contactos foram muitas vezes tumultuosos e violentos, mas é difícil julgar o passado com os critérios do presente. Todavia, quando o estrangeiro no nosso meio nos interpela, não devemos repetir os pecados e os erros do passado. Devemos decidir viver agora o mais nobre e justamente possível e, de igual modo, formar as novas gerações para não virarem as costas ao seu «próximo» e a tudo aquilo que nos rodeia. Construir uma nação pede-nos para reconhecer que devemos constantemente relacionar-nos com os outros, rejeitando uma mentalidade de hostilidade para se adoptar uma subsidiariedade recíproca, num esforço constante de contribuir com o melhor de nós. Tenho confiança que o conseguiremos.
O nosso mundo está a enfrentar uma crise de refugiados de tais proporções que não se via desde os tempos da II Guerra Mundial. Esta realidade coloca-nos diante de grandes desafios e decisões difíceis. Também neste continente, milhares de pessoas sentem-se impelidas a viajar para o Norte à procura de melhores oportunidades. Porventura não é o que queríamos para os nossos filhos? Não devemos deixar-nos assustar pelo seu número, mas antes olhá-los como pessoas, fixando os seus rostos e ouvindo as suas histórias, procurando responder o melhor que pudermos às suas situações. Uma resposta que seja sempre humana, justa e fraterna. Devemos evitar uma tentação hoje comum: descartar quem quer que se demonstre problemático. Lembremo-nos da regra de ouro: «O que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles» (Mt 7, 12).
Esta norma aponta-nos uma direcção clara. Tratemos os outros com a mesma paixão e compaixão com que desejamos ser tratados. Procuremos para os outros as mesmas possibilidades que buscamos para nós mesmos. Ajudemos os outros a crescer, como quereríamos ser ajudados nós mesmos. Em suma, se queremos segurança, demos segurança; se queremos vida, demos vida; se queremos oportunidades, providenciemos oportunidades. A medida que usarmos para os outros será a medida que o tempo usará para connosco. A regra de ouro põe-nos diante também da nossa responsabilidade de proteger e defender a vida humana em todas as fases do seu desenvolvimento.
Esta convicção levou-me, desde o início do meu ministério, a sustentar a vários níveis a abolição global da pena de morte. Estou convencido de que esta seja a melhor via, já que cada vida é sagrada, cada pessoa humana está dotada duma dignidade inalienável, e a sociedade só pode beneficiar da reabilitação daqueles que são condenados por crimes.
Recentemente, os meus irmãos bispos aqui nos Estados Unidos renovaram o seu apelo pela abolição da pena de morte. Não só os apoio, mas encorajo também todos aqueles que estão convencidos de que uma punição justa e necessária nunca deve excluir a dimensão da esperança e o objectivo da reabilitação.
Nestes tempos em que as preocupações sociais são tão importantes, não posso deixar de mencionar a Serva de Deus Dorothy Day, que fundou o Catholic Worker Movement. O seu compromisso social, a sua paixão pela justiça e pela causa dos oprimidos estavam inspirados pelo Evangelho, pela sua fé e o exemplo dos Santos.
Quanto estrada percorrida neste campo em tantas partes do mundo! Quanto se fez nestes primeiros anos do terceiro milénio para fazer sair as pessoas da pobreza extrema! Sei que partilhais a minha convicção de que se tem de fazer ainda muito mais e de que, em tempos de crise e dificuldade económica, não se deve perder o espírito de solidariedade global. Ao mesmo tempo, desejo encorajar-vos a não esquecer todas as pessoas à nossa volta encastradas nas espirais da pobreza. Há necessidade de dar esperança também a elas. A luta contra a pobreza e a fome deve ser travada com constância nas suas múltiplas frentes, especialmente nas suas causas. Sei que hoje, como no passado, muitos americanos estão a trabalhar para enfrentar este problema.
Naturalmente uma grande parte deste esforço situa-se na criação e distribuição de riqueza. A utilização correcta dos recursos naturais, a aplicação apropriada da tecnologia e a capacidade de orientar devidamente o espírito empresarial são elementos essenciais duma economia que procura ser moderna, inclusiva e sustentável. «A actividade empresarial, que é uma nobre vocação orientada para produzir riqueza e melhorar o mundo para todos, pode ser uma maneira muito fecunda de promover a região onde instala os seus empreendimentos, sobretudo se pensa que a criação de postos de trabalho é parte imprescindível do seu serviço ao bem comum» (Enc. Laudato si’, 129). Este bem comum inclui também a terra, tema central da Encíclica que escrevi, recentemente, para «entrar em diálogo com todos acerca da nossa casa comum» (ibid., 3). «Precisamos de um debate que nos una a todos, porque o desafio ambiental, que vivemos, e as suas raízes humanas dizem respeito e têm impacto sobre todos nós» (ibid., 14).
Na encíclica Laudato si’, exorto a um esforço corajoso e responsável para «mudar de rumo» (ibid., 61) e evitar os efeitos mais sérios da degradação ambiental causada pela actividade humana. Estou convencido de que podemos fazer a diferença e não tenho dúvida alguma de que os Estados Unidos – e este Congresso – têm um papel importante a desempenhar. Agora é o momento de empreender acções corajosas e estratégias tendentes a implementar uma «cultura do cuidado» (ibid., 231) e «uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza» (ibid., 139). Temos a liberdade necessária para limitar e orientar a tecnologia (cf. ibid., 112), para individuar modos inteligentes de «orientar, cultivar e limitar o nosso poder» (ibid., 78) e colocar a tecnologia «ao serviço doutro tipo de progresso, mais saudável, mais humano, mais social, mais integral» (ibid., 112). A este respeito, confio que as instituições americanas de investigação e académicas poderão dar um contributo vital nos próximos anos.
Um século atrás, no início da I Grande Guerra que o Papa Bento XV definiu «massacre inútil», nascia outro americano extraordinário: o monge cisterciense Thomas Merton. Ele continua a ser uma fonte de inspiração espiritual e um guia para muitas pessoas. Na sua autobiografia, deixou escrito: «Vim ao mundo livre por natureza, imagem de Deus; mas eu era prisioneiro da minha própria violência e do meu egoísmo, à imagem do mundo onde nascera. Aquele mundo era o retrato do Inferno, cheio de homens como eu, que amam a Deus e contudo odeiam-No; nascidos para O amar, mas vivem no medo de desejos desesperados e contraditórios». Merton era, acima de tudo, homem de oração, um pensador que desafiou as certezas do seu tempo e abriu novos horizontes para as almas e para a Igreja. Foi também homem de diálogo, um promotor de paz entre povos e religiões.
Nesta perspectiva de diálogo, gostaria de saudar os esforços que se fizeram nos últimos meses para procurar superar as diferenças históricas ligadas a episódios dolorosos do passado. É meu dever construir pontes e ajudar, por todos os modos possíveis, cada homem e cada mulher a fazerem o mesmo. Quando nações que estiveram em desavença retomam o caminho do diálogo – um diálogo que poderá ter sido interrompido pelas mais válidas razões –, abrem-se novas oportunidades para todos. Isto exigiu, e exige, coragem e audácia, o que não significa irresponsabilidade. Um bom líder político é aquele que, tendo em conta os interesses de todos, lê o momento presente com espírito de abertura e sentido prático. Um bom líder político não cessa de optar mais por «iniciar processos do que possuir espaços» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 222-223).
Estar ao serviço do diálogo e da paz significa também estar verdadeiramente determinado a reduzir e, a longo prazo, pôr termo a tantos conflitos armados em todo o mundo. Aqui devemos interrogar-nos: Por que motivo se vendem armas letais àqueles que têm em mente infligir sofrimentos inexprimíveis a indivíduos e sociedade? Infelizmente a resposta, como todos sabemos, é apenas esta: por dinheiro; dinheiro que está impregnado de sangue, e muitas vezes sangue inocente. Perante este silêncio vergonhoso e culpável, é nosso dever enfrentar o problema e deter o comércio de armas.
Três filhos e uma filha desta terra, quatro indivíduos e quatro sonhos: Lincoln, a liberdade; Martin Luther King, a liberdade na pluralidade e não-exclusão; Dorothy Day, a justiça social e os direitos das pessoas; e Thomas Merton, capacidade de diálogo e abertura a Deus.

Quatro representantes do povo americano.
Concluirei a minha visita ao vosso país em Filadélfia, onde participarei no Encontro Mundial das Famílias. É meu desejo que, durante toda a minha visita, a família seja um tema recorrente. Como foi essencial a família na construção deste país! E como merece ainda o nosso apoio e encorajamento! E todavia não posso esconder a minha preocupação pela família, que está ameaçada, talvez como nunca antes, de dentro e de fora. As relações fundamentais foram postas em discussão, bem como o próprio fundamento do matrimônio e da família. Posso apenas repropor a importância e sobretudo a riqueza e a beleza da vida familiar.
Em particular quereria chamar a atenção para os membros da família que são os mais vulneráveis: os jovens. Para muitos deles anuncia-se um futuro cheio de tantas possibilidades, mas muitos outros parecem desorientados e sem uma meta, encastrados num labirinto sem esperança, marcado por violências, abusos e desespero. Os seus problemas são os nossos problemas. Não podemos evitá-los.
É necessário enfrentá-los juntos, falar deles e procurar soluções eficazes em vez de ficar empantanados nas discussões. Correndo o risco de simplificar, poderemos dizer que vivemos numa cultura que impele os jovens a não formarem uma família, porque lhes faltam possibilidades para o futuro. Mas esta mesma cultura apresenta a outros tantas opções que também eles são dissuadidos de formar uma família.
Uma nação pode ser considerada grande, quando defende a liberdade, como fez Lincoln; quando promove uma cultura que permita às pessoas «sonhar» com plenos direitos para todos os seus irmãos e irmãs, como procurou fazer Martin Luther King; quando luta pela justiça e pela causa dos oprimidos, como fez Dorothy Day com o seu trabalho incansável, fruto duma fé que se torna diálogo e semeia paz no estilo contemplativo de Thomas Merton.
Nestas notas, procurei apresentar algumas das riquezas do vosso património cultural, do espírito do povo americano. Faço votos de que este espírito continue a desenvolver-se e a crescer de tal modo que o maior número possível de jovens possa herdar e habitar numa terra que inspirou tantas pessoas a sonhar.
Deus abençoe a América!

TRÍDUO A SANTA TERESA DE LISIEUX: 3º Dia.


* Dom Frei Vital Wilderink, O Carm, In Memoriam.

Terceiro dia. Tema: O amor de Deus e do próximo

Acolhida
1. Criar um bom ambiente, dando as boas-vindas e colocando as pessoas à vontade.
2. Canto inicial. Sugestão: “Toda a Bíblia é comunicação”. Durante o canto são introduzidas a Bíblia e, em seguida, uma imagem de Santa Teresinha, e colocadas sobre uma mesinha no meio de grupo.
3. O presidente ou coordenador da celebração apresenta brevemente o assunto que vai ser refletido, meditado e rezado neste terceiro dia da novena.
4. Os participantes invocam a luz do Espírito Santo.

O caminho do amor
            Não há dúvida: o amor é a experiência mais universal, mais alta, doce e difícil do ser humano. Ela se reveste de diversos aspectos e dimensões,  de degraus e etapas, de diversas motivações e expressões. Mesmo inconsciente no início, é uma energia primordial que procura alcançar seu objetivo que é de ser aceito como bebê, criança, adolescente, jovem, adulto. É como um anseio do próprio desenvolvimento, sempre acompanhado de um apetite de prazer. Primeiro no plano biológico e psíquico, depois, com o nascer da consciência e do conhecimento, no nível  do afeto da alegria de ser aceito, respeitado e querido como gente. A busca da realização humana em todos seus aspectos sempre está ligada ao respeito da dignidade da pessoa. Do contrário, haverá uma quebra, uma ferida, uma diminuição da responsabilidade mútua que é inerente ao amor. Querer-se bem, querer o bem do outro é uma caminhada difícil que exige uma transformação do nosso eu para abrir o espaço para o amado. A experiência nos ensina que esse mesmo eu é frequentemente da sua própria prisão a vigia mais eficiente.
.           Do momento em que o ser humano faz sua entrada na terra, já no seio materno, manifesta-se nele uma energia primordial que o impulsiona para seu desenvolvimento. É uma força orgânica, biológica e psíquica que, como princípio de prazer, vai em busca de uma afirmação. Mas no ser humano não existe apenas um anseio pelo prazer. Esta aspiração se entrelaça com outro desejo forte: que me aceitem como gente. Querer ser aceito e respeitado é a primeira expressão da dignidade humana.  É toda uma trajetória, que se estende, de modo diferenciado, ao longo  dos anos da vida. e que vai configurando a relação existencial do ser humano  com o ambiente e seu próprio estado vital. Tudo isto ressoa, de maneira dificilmente discernível, na sua consciência e vai plasmando a afetividade do sujeito. O afetivo está presente em todos os setores e dimensões da vida de uma pessoa. No seu caminho de amadurecimento cabe-lhe não só interpretar os seus afetos, mas também tomar uma atitude diante delas.
            Algumas reminiscências que Teresinha guardou da sua infância esclarecem, de modo mais concreto, como isto se deu na vida dela. Ela tinha quatro anos e oito quando sua mãe morreu de câncer. Entre a mãe e a filha existia uma relação afetiva muito forte. Apenas podemos conjeturar o quanto a falta da afeição materna prejudicou a criança na sua evolução psicológica.  Teresinha tornou-se retraída, com uma sensibilidade à flor da pele. A nova e confortável residência em Lisieux para onde a família se mudou, era o ninho que lhe dava ainda certa segurança. O que faz uma criança nestas condições? Chora para atrair a atenção. Mesmo com seus 12 a 13 anos de idade, Teresinha não consegue vencer a sua sensibilidade infantil. “Era realmente insuportável” como comentará mais tarde. Mesmo o horizonte religioso, àquela altura já presente na sua consciência, não conseguia curá-la de sua hipersensibilidade. Às vezes procurava cumprir certas tarefas domésticas às escondidas, “unicamente por amor de Deus”. Mas quando os familiares  não manifestavam nenhum agradecimento ou elogio, as lágrimas da Teresinha já começavam a rolar.
            Mas na Festa do Natal de 1886, acontece o que Teresinha chamará de “a graça de sua conversão completa”. A família voltava da Missa do Galo. Chegando em casa, as crianças corriam para a lareira para pegar seus sapatos cheios de  presentes natalinos. O costume continuava mas só para  Teresinha, que uma semana depois faria quatorze anos! O pai, cansado com a Missa da meia noite, se irritou quando viu os sapatos  da sua filha caçula na lareira. Ainda fora da sala, Teresinha escutou o comentário mal humorado de seu querido pai: “Felizmente que esta vai ser a última vez!” As lagrimas já começaram a brilhar nos olhos da Teresa. Ela subiu a escada para tirar o chapéu. Deixemos que ela mesma conte: “Celina também estava bem a ponto de chorar, pois me queria muito bem e compreendia minha mágoa: “Ó Teresa, disse-me ela, não desça. Seria muito penoso ir neste momento ver o que há nos teus sapatos”. Teresa, porém, já não era a mesma. Jesus tinha transformado o seu coração. Depois de sufocar minhas lágrimas, desci lépida a escadaria. A comprimir as batidas do coração, peguei meus sapatos, coloquei-os diante do papai, e fui tirando alegre todos os objetos, com ar feliz, como o de uma rainha. Papai ria-se, tinha também recuperado a alegria, e Celina estava sob a impressão de um sonho!”.
            Constata-se que, quando o sujeito se vê forçado a reprimir uma tendência, esta é estimulada não somente pela presença de seu objeto conatural, mas também por efeito de um estímulo que encaminha para o objeto por uma associação às vezes casual. Desta maneira aparecem reações agressivas ou alterações nervosas no comportamento. De outro lado, o ser humano é capaz de interromper, por um ato de vontade, a sequência entre uma necessidade sentida e a sua satisfação. Por esta capacidade, exercitada ou não, o ser humano pode subtrair-se na sua conduta à direção do prazer e da dor. Aqui a razão entra no campo afetivo como outro princípio de ação e faz tomar distância do próprio ambiente de vida conseguindo assim impor o seu domínio.  Apresenta-se neste caso algo que possui um alcance maior que a simples necessidade: é o desejo. Os limites do desejo humano não se definem. Cada desejo aponta para um além. Se não fosse assim não haveria renovação do nosso ritmo vital. A nossa vida ficaria presa ao instante das necessidade percebida. Seria o tédio. ”O vento sopra para o sul, depois gira para o norte e, girando e girando, vai dando as suas voltas. Todos os rios correm para o mar, e o mar nunca transborda; embora cheguem Ao fim do seu percurso, os rios sempre continuam a correr”(Ecl 1, 6-7). Como ser pensante abre um parêntese, intercala um espaço não previsto, entre a sucessão das necessidades e suas satisfações. É um “silêncio” certamente não de agrado à sociedade de consumo e à lógica da eficiência do mercado.
            A afetividade humana tem na condição biológica o seu ponto de partida, seu primeiro suporte. Mas não se reduz a estímulos instintivos. Os sentimentos e emoções humanas superam a mera reação biológica. A afetividade humana, com suas duas vertentes, animal e racional, é fundada na unidade da consciência. O que implica na necessidade de uma disciplina pessoal e de uma opção que supõe uma visão do sentido da vida. Na visão da fé cristã, o homem não é uma “paixão inútil”. Reconhece, sim, que a sua existência tem um caráter dramático devido a uma deviação originária.
            No ser humana a afetividade se fundamenta tanto sobre a corporeidade como sobre a racionalidade. O que implica nele uma passividade em relação às suas necessidades e aspirações. Isto não só no âmbito biológico, mas também no nível do seu intelecto uma vez que a vida racional se abre para um horizonte de certo modo infinito. Se o ser humano, a partir dessas suas características fundamentais, não fosse “alvo”, não haveria ressonância de nada na sua consciência, ressonância que precisamente constitui a instância afetiva. Nem haveria, por conseguinte, um estímulo para o agir humano, que pressupõe, por sua vez, uma capacidade de discernir. A questão do discernimento será sempre complexa por causa da junção paradoxal da receptividade passiva e da atividade desbravadora. A repercussão afetiva de uma situação corresponde a condições objetivas ou é efeito de uma emotividade subjetiva?  É provável que haja sempre uma combinação dos dois fatores com um leque muito variável de proporções.
            Considerando a abertura universal da nossa inteligência, não se pode excluir da afetividade do ser humano em relação a Deus. Os escritos da tradição da fé judaico-cristã possuem uma linguagem claramente afetiva. Não aparece neles um Deus descoberto por filósofos a partir das aspirações transcendentes, mas de um Deus que Ele mesmo toma a iniciativa de ir ao encontro do homem. É o Deus que se revela, que estabelece uma aliança com o homem: é um Deus de amor.
            Apela-se à razão para negar objetividade a essa visão. Em defesa de uma explicação geral e objetiva do real, elaboram-se teorias com pretensões de filosofias universais, que tornam desnecessário qualquer outro nível de pensamento. São teorias que, excluindo a metafísica, explicam cientificamente a origem do real, até chegar a um ponto que lhes é cientificamente inatingível. Ponto onde adivinham uma necessidade, um acaso, enfim algo sem razão. Colocando o irracional como fundamento, fazem desabar sua própria construção racional, uma vez reduzem a própria razão a um produto casual do irracional. A fé cristã não interrompe a linha do racional pois coloca no princípio o Verbo, a força criadora da razão no princípio de todas as coisas.  Não se vê como declarar irracional o terreno em que os argumentos científicos e o próprio pensamento filosófico não conseguem penetrar. A fé cristã dá a esse terreno o nome de mistério, não porque deixa de optar pela primado do racional sobre o irracional, mas porque para ela a razão verdadeira é o amor e o amor é a razão verdadeira. Amor e razão coincidem. Há algo de irracional em negar que na sua unidade eles são as o verdadeiro fundamento e objetivo do todo o real. 
            Para a fé cristã Deus é um Deus que se revela ao homem entrando na sua história.  Revelação que atinge no mistério da Encarnação seu ponto mais alto. Deus assume em Cristo um coração humano. As manifestações afetivas do Coração de Cristo são sentimentos divinos: sua bondade, sua misericórdia, mas também seu medo e sua angústia. Santa Teresinha escreve: “Como é linda a nossa religião, em vez de restringir os corações (como imagina o mundo), eleva-os e torna-os capazes de amar, de amar com amor quase infinito”.   De fato, a revelação de Deus visa uma participação à sua vida divina. Assim afirma a segunda carta de Pedro: “O seu divino poder nos presenteou com tudo o que contribui para a vida e para a piedade, mediante o conhecimento daquele que nos chamou por sua glória e poder. Por sua glória e poder, ele nos presenteou com os bens prometidos, os maiores e mais valiosos, a fim de que vós vos tornásseis participantes da na-tureza divina, fugindo da corrupção que a concupiscência espalha no mundo”(2 Pd 1,3-4).  Santa Teresinha pedirá na sua oblação ao amor misericordioso de Deus que ele deixe transbordar em sua alma as ondas de infinita ternura que estão encerradas nele.  As expressões utilizadas por Teresa já manifestam a sua reação afetiva à iniciativa do amor misericordioso de Deus.
            Teresa se deixa monopolizar por esse amor infinito de Deus que nela se reveste de uma forte acentuação cristológica.  Trata-se de um conhecimento experiencial que a faz falar e agir. É neste olhar amoroso fixado em Jesus que se encontra o segredo do seu ardor missionário, do seu desejo de fazer com que Deus seja amado. Não é um sonho infrutífero. Ela encontrou nisto a sua missão na Igreja. Missão que ela traduz concretamente no dia-a-dia de seus relacionamentos humanos no espaço restrito do Carmelo de Lisieux. Em virtude desse dinamismo do amor, desencadeado pela iniciativa de Deus, Teresa se vê realizando todas as missões particulares que para ela são suscitadas pela mesma iniciativa divina. Mas ela descobre que a impossibilidade de ampliar o alcance de espaço e do tempo, não restringe a universalidade  da sua vocação que se deixa absorver pelo amor de Deus. Em agosto de 1897, diante de uma imagem de Joana d’Arc na prisão, ela afirmará: “Os santos encorajam também a mim, na minha prisão. Eles me dizem: ‘Enquanto estiveres acorrentada, não poderá cumprir tua missão; mais tarde, porém, após a tua morte, será a hora de teus trabalhos e conquistas’”.
            A pertença a Cristo conferida no batismo produz uma conformação real, uma relação de filho de Deus, condição que não pode deixar de ressoar na consciência traduzindo-se afetivamente. Assumir esta filiação significa tomar consciência da necessidade de uma entrega à vontade do Pai que “sabe que precisais de tudo isso”(Mt 6, 32). À medida que esse espírito filial crescer e se fortalecer, a apreensão diante do juízo, sempre presente no horizonte da consciência pecadora, vai se dissolvendo diante da confiança: “No amor não há temor. Ao contrário, o perfeito amor lança fora o temor, pois o temor implica castigo, e aquele que teme não chegou à perfeição do amor” 1Jo 4, 18).
            O evangelho de Jesus Cristo é uma revelação do amor, Amor que é o próprio Deus. Por isto, “quem permanece no amor, permanece em Deus e Deus permanece nele” ( 1Jo 4,16). A caridade como amor teologal, nos faz amar. Retifica, confirma, universaliza e diviniza a nossa capacidade de amar. O nosso próximo não nos oferece simplesmente uma ocasião para amar a Deus. Ele é amado, estimado e querido em si mesmo, enquanto participa do amor que vem de Deus. A caridade descobre essa amabilidade que o próximo tem em si, leva a ver o próximo em Deus, na inefável condescendência do Amor divino.
  
O amor na Bíblia
Introdução à leitura do texto bíblico.
A caridade como plenitude do amor unifica a pessoa por dentro. Por isto só uma pessoa que ama é capaz de sair de si mesmo, sem alarido, como canta São João da Cruz:
Em uma noite escura, às escuras, segura, com ânsias, em amores inflamada, pela secreta escada disfarçada, ó ditosa ventura!          ó ditosa ventura! Saí sem ser notada,            em trevas e em celada, ‘stando já minha casa sossegada,            ‘stando já minha casa sossegada.
Ao sair, não tem a impressão de ter deixado algo para trás pela simples razão de “a amada no Amado (estar) transformada” sem impressão de ter deixado um bem para trás pela simples razão de “a amada no Amado (estar) transformada”, como canta São João da Cruz. É uma sedução que paradoxalmente intensifica a liberdade, a espontaneidade e a responsabilidade daquele que ama. É vocação de todos nós caminhar para esta perfeição do amor.

Perguntas para a reflexão:
•Cada um comenta um pouco o diálogo entre Jesus e o jovem rico.
•Em que sentido o convite de Jesus ao jovem pode e deve ser aplicado a nós?

 Teresa, Doutora do Amor.
            Em 1998 Teresa de Lisieux foi proclamada Doutora da Igreja pelo Papa João Paulo II. Já no pontificado de Pio XI que a canonizou em 1925, houve tentativas de conceder a Santa Teresinha o título de Doutora da Igreja. Malgrado sua profunda devoção à nova Santa que ele chamava de  “Estrela do meu Pontificado”, Pio XI não atendeu a essa expectativa. O motivo? Porque se tratava de uma mulher. Mais tarde, duas outras santas mulheres receberam o título: Santa Teresa de Ávila e Santa Catarina de Sena. Hoje existe um movimento para que uma terceira carmelita, Edith Stein, seja proclamada doutora da Igreja. A condição feminina parece hoje um elemento até favorável para mostrar que a Igreja não é machista.
            Doutor da Igreja é um título oficialmente dado pelo Magistério da Igreja a certos escritores notáveis, tanto pela santidade de vida quanto pela importância e ortodoxia de sua doutrina. Sem dúvida, houve outros que ao longo dos séculos seguiram o pequeno caminho, como a Virgem Maria, mas devemos reconhecer que foi Santa Teresinha que lhe deu um brilho e uma influência universal. Pode-se perguntar o que existe de próprio na doutrina teresiana. Vários aspectos poderiam ser apontados, mas o centro é, sem dúvida, o amor. Amor, palavra muitas vezes banalizada. Teresa lhe devolve a sua seriedade ao fazer dele a sua própria vocação. Ela tornou-se Doutora do Amor.
A caridade deu- me a chave de minha vocação. Compreendi que, se a Igreja tinha corpo, composto de vários membros, não lhe faltava o mais necessário, o mais nobre de todos. Compreendi que a Igreja tinha coração, e que o coração era ardente de amor. Compreendi que só o amor fazia os membros da Igreja atuarem, e que se o amor se extinguisse, os apóstolos já não anunciariam o Evangelho e os mártires se recusariam a derramar  seu sangue. Compreendi que o amor abrange todas as vocações, alcançando todos os tempos e todos os lugares. Numa palavra é terno. Então no transporte de minha delirante alegria, pus-me a exclamar: Ó Jesus, meu amor, minha vocação, encontrei-a afinal: MINHA VOCAÇÃO É O AMOR.
            Amor será também a última palavra que ela pronuncia na sua agonia: “Oh! eu o amo!... Meu Deus... eu vos amo!...”.   Desde cedo, antes de entrar na sua adolescência, Teresa “sentia o desejo de amar só a Deus, de não encontrar alegria senão nele”.   Já no fim da vida, o mesmo desejo, amadurecido e purificado pelo sofrimento: “Vós o sabeis, ó meu Deus, nunca desejei outra coisa senão amar-vos, não cobiço outra glória. Vosso amor sempre me preveniu desde a infância, comigo cresceu, e agora se tornou um abismo, cuja profundeza não sei calcular. Amor atrai amor. Por isso, meu Jesus, o meu se atira em vossa direção, querendo atestar o abismo que o empuxa, mas infelizmente não representaria sequer uma gota de orvalho, diluída no oceano! Para vos amar como vós me amais, ser-me-ia necessário lançar mão de vosso próprio amor”. 
            Poderíamos perguntar se Teresa em todas essas declarações de amor, não manifesta uma ilusão de estar abrigada numa torre de marfim, fechada no seu eu que ela projeta num amor de Deus. Não faz lembrar Teresinha menina, que em passeio vespertino, segurando a mão de seu pai pedia-lhe que a guiasse?  “Então, não querendo ver nada desta terra mesquinha, sem olhar onde punha os pés, erguia a cabecinha bem alto para o ar, e não me cansava de contemplar o azul do céu estrelado!”   A autenticidade do nosso amor a Deus não se manifesta na qualidade do nosso amor aos outros nas realidades concretas onde se desenvolve a nossa existência? Certo, Teresa nunca deixou de sonhar com o dia em que estaria reunida com toda a sua família no Céu. Saudades sublimadas do tempo de sua infância?  É descobrindo o amor de Deus que Teresa faz o caminho de volta, da fugacidade do tempo e de todas as coisas para a preciosidade do momento presente: “Que me importa, Senhor, se no futuro há sombra? Rezar pelo amanhã? Minha alma não consente! Guarda meu coração puro! Cobre-me com tua sombra. Agora, no presente!”  Se penso no amanhã, temo ser inconstante, vejo nascer em meu coração a tristeza e o enfado. Eu quero, Deus meu, o sofrimento, a prova torturante agora, no presente!”
Teresa saiu do seu eu com seus inúmeros desejos de tira-gosto. O que sobrou foi o desejo do desejo de amar a Deus.  Suas três irmãs de sangue, carmelitas no mesmo mosteiro, se reuniam junto à cama da caçula da família. Escutemos o diálogo: “O que você quer que digamos hoje?... A melhor coisa seria não dizer absolutamente nada, porque, para dizer a verdade, não há nada para dizer. Tudo já foi dito, não é? Teresa fez um lindo sinalzinho com a cabeça: Foi!... Sofro somente um instante. Nós nos desanimamos e desesperamos apenas por pensarmos no passado e no futuro”.   Quem tem consciência de morar no amor de Deus, tem outra maneira de relacionar-se com o tempo. Não faz as coisas para poder fazer outras. Ele é o que faz.  
            A confiança e o abandono nas mãos de Deus e o sentir-se amada por Ele é em Teresa a fonte do amor aos outros. Deus é a única opção de Teresa. Mas o amor entre os dois não é um diálogo fechado. O mundo está presente nele. É um diálogo no tempo e na história que encontra a sua fonte no mistério da Encarnação, e, de modo denso, no mistério da Paixão de Cristo. “Como a torrente, lançando-se com ímpeto no oceano, arrasta após si tudo quanto encontra de passagem, assim também, ó meu Jesus, a alma que imerge no ilimitado oceano de vosso amor, arrebata consigo todos os tesouros que possui... Senhor, vós o sabeis, não tenho outros tesouros senão as almas que vos aprouve unir à minha. Tais tesouros, fostes vós que mos confiastes”. Teresa não seleciona as almas. É verdade que ela pensa nos pequenos. Ficaria até feliz se Deus pudesse encontrar almas que, em relação a ela, ganhassem em pequenez porque o critério será sempre a misericórdia divina. Pois foi do agrado do Pai revelar estas coisas aos pequeninos (Mt 11, 26).  Teresa recorre frequentemente às cartas de São Paulo. Também no tema da misericórdia de Deus, ela se reconhece no Apóstolo dos Gentios: “Jesus não chama os que disso são dignos, mas o que são de seu agrado, ou conforme diz São Paulo: ‘Deus tem compaixão de quem lhe apraz, e faz misericórdia a quem Ele quer aplicar misericórdia. Isto, portanto, não depende de quem quer, nem de quem corre, mas de Deus que se compadece”(Rm 9, 15-16).
O pensamento de Teresa não é arbitrário, mas atinge o mistério insondável da salvação. Por isso mesmo descobre a sua vocação de amor no coração da Igreja, como uma vocação profundamente apostólica: “Tenho vocação de ser apóstola... Quisera percorrer a terra, apregoar teu nome, e cantar em terra de infiéis tua gloriosa Cruz. Mas, ó meu Bem-Amado, uma única missão não me seria bastante. Quisera anunciar, ao mesmo tempo, o Evangelho pelas cinco partes do mundo até as ilhas mais remotas... Quisera ser missionária não só por alguns anos, mas quisera sê-lo desde a criação do mundo, e sê-lo até a consumação dos séculos... Mas, acima de tudo, quisera, ó meu amado Salvador, por ti quisera derramar meu sangue até a última gota...”.
De novo surge a tentação do ceticismo para quem a linguagem e a empolgação  de Teresa pode parecer uma fuga da vida cotidiana que ela levava no Carmelo de Lisieux. Ambiente em que não faltavam relacionamentos eivados de autoritarismo, mesquinhez e ciúme, que facilmente aumentam o volume da sua ressonância afetiva quando o espaço do mosteiro é reduzido pelo clausura, mas habitado por um número não pequeno de religiosas. As “alfinetadas” de que Teresa fala, fazem sonhar com horizontes mais amplos.  Mas o horizonte de Teresa não é feito de um sonho, mas é “o próprio Jesus, esta divina realidade” como ela sublinha. Ainda postulante, ela escreve para sua irmã Celina: “Antes de morrer pela espada, morramos às alfinetadas”.   As renúncias não procuradas que a cada momento se apresentam no relacionamento com as irmãs, principalmente no trato com as noviças por cuja formação Teresa é responsável, fazem-lhe descobrir e também ensinar melhor o seu pequeno caminho de amor. Teresa não quer saber de gestos heroicos de santidade. Para ela o ponto de referência é Jesus, que ela quer seguir amando. Jesus, o Filho de Deus que veio para fazer a vontade do Pai. Vontade que consiste em dar ao mundo o Filho, e nele o amor do Deus-Trindade. Um mês antes de sua morte, perguntaram-lhe se ficaria contente se soubesse que dentro de alguns dias iria morrer, ou se preferiria receber um aviso de que o seu sofrimento iria aumentar durante um longo período ainda. A resposta de Teresa: “Oh! não, absolutamente, não ficaria mais contente. A única coisa que me deixa contente é fazer a vontade do bom Deus”.  
Quando Teresa fala, reagindo às observações das suas irmãs que cuidam da enferma, as suas palavras não armam ao efeito. Seus comentários às admiradoras de sua paciência, beleza ou santidade, revelam um senso de humor que desloca a atenção para o seu Amado: “Bom, tanto melhor! Mas gostaria que o bom Deus o dissesse”.  

Celebremos o Amor de Deus
Santa Teresinha é Doutora do Amor que quer se doar. É a missão que ela descobriu.  
             
Quando ela começa a escrever a história de sua alma, ela afirma: “Só vou fazer uma coisa: começar a cantar o que devo repetir eternamente: As Misericórdias do Senhor!!!”.  Na segunda página do seu caderno, ela explica: “Compreendi que o amor de Nosso Senhor revela-se tanto na alma mais simples, que em nada resiste à sua graça, como na alma mais sublime. Na realidade, é próprio do amor rebaixar-se. Se todas as almas parecessem com as dos santos doutores que iluminaram a Igreja com a luz da sua doutrina, parece que Deus não desceria bastante ao vir até o coração deles. Mas criou a criança que nada sabe e só emite fracos gritos, criou o pobre selvagem que só tem como guia a lei natural e é até o coração deles que se digna descer; são as suas flores do campo cuja simplicidade O encanta... Descendo assim, Deus mostra sua infinita grandeza. Assim como o sol ilumina ao mesmo tempo os cedros e cada florzinha, como se ela fosse única sobre a terra, assim Nosso Senhor se ocupa particularmente de cada alma como se não houvesse outra igual. Como na natureza, todas as estações são determinadas de modo a fazer desabrochar, no dia marcado, a mais humilde margarida, assim tudo corresponde para o bem de cada alma”.

Preces
3. Em forma de prece vamos agradecer a Deus o dom que Ele nos fez em Santa Teresinha que, através da sua vida, nos apontou o caminho do amor.
4. Ler juntos as palavras de Jesus que foram escritas para todos nós:  “Assim como meu Pai me amou, eu também amei vocês. Se vocês obedecem aos meus mandamentos, permanecerão no meu amor, assim como eu obedeci aos mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. Eu disse isso a vocês para que minha alegria esteja em vocês, e a alegria de vocês eja completa. O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês”(Jo 14, 9-12).

Rezar o Pai Nosso.

Oração:
Ó Deus, criador de todas as coisas, volvei para nós o vosso olhar e, para sentirmos em nós a ação do vosso amor, fazei que vos sirvamos de todo coração, como nos mostrastes pelo exemplo de Santa Teresinha. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm- Eremita Carmelita- foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo.