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quinta-feira, 4 de junho de 2015

Boicote ao Boticário na Marcha para Jesus? Não, prefiro meu perfume.

Religiosos criticam a propaganda, mas consideram pedido de boicote "exagerado demais". Comercial do Boticário testa o risco de tomar posição no Brasil

Amanda Ornelas e o namorado, Luis Henrique, decidiram aproveitar o feriado de sol em São Paulo para acompanhar milhares —340.000, de acordo com a Polícia Militar—,  na Marcha para Jesus 2015, uma tradicional passeata anual convocada por denominações evangélicas, o grupo religioso que mais cresce no Brasil. Na zona norte da cidade, Amanda, 18, e Luis Henrique, 21, vestidos com a camisa do evento em azul forte, comentaram o tema que deflagrou disputa nas redes sociais nesta semana: a propaganda do Boticário com casais gays. “Acho que é errado passar em um horário que crianças possam ver”, lançou Luis Henrique, que não gostou do comercial. “Mas a verdade é que tem coisa bem pior na TV.” “Mesmo se o meu pastor pedisse, eu não faria, não penso em deixar de usar os produtos deles”, disse ela, sobre a decisão do pastor Silas Malafaia, presidente da Assembleia de Deus, uma das mais fortes e influentes denominações evangélicas do Brasil, de gravar um vídeo conclamando os fiéis a boicotar a marca de cosméticos. “Se alguém quiser me dar um desodorante deles eu aceito, porque estou precisando”, brincou o pai de Amanda, Orlando.
O tom mais ameno da família, em comparação à agressiva disputa virtual em torno do tema, foi o que prevaleceu. A pedagoga Renata Ferreira Dauta, 43, que frequenta a igreja Renascer em Cristo, disse apoiar a presença de gays em comerciais. “Achei [a propaganda de O Boticário] atual. Hoje em dia tem que abordar de tudo, não dá para deixar a questão do homossexualismo de fora”. Quanto ao boicote, Renata diz que “por mais que o Malafaia peça, os fiéis não vão deixar de comprar. Até porque, se for para boicotar empresas que apoiam gays, teria que deixar de lado muitas marcas”.
“O pastor Silas é muito rígido. É óbvio que não gostei da propaganda, mas deixar de comprar uma marca por isso também não é o caso”, concordou Ideli Maria de Souza, 50, também na marcha. Ela conta que uma sobrinha de seis anos viu a propaganda e lhe perguntou o porque de dois homens trocando presentes: “Eu não soube responder. Pedi para que ela fosse perguntar para os pais dela”.
A rejeição ao boicote, apesar do incômodo provocado pelo reclame, pode ser lido como um sinal de alento para o Boticário, que resolveu testar, em propagandas na TV aberta, o risco de tomar posição num tema que desagrada as lideranças dos evangélicos. Segundo o levantamento do Censo 2010, os dados mais recentes disponíveis, a população evangélica no Brasil passou de 15,4% em para 22,2% em dez anos. São 42,3 milhões de pessoas, um eleitorado considerável, menor apenas que os católicos, que movimentam um mercado que se segmenta para agradá-los, de roupa à música e até experimentos em redes sociais.
Na loja de O Boticário da rodoviária do Tietê, não muito longe da Marcha de Jesus, os funcionários não estavam interessados —ou autorizados— a comentar a polêmica. Durante a visita do EL PAÍS, o casal Steffani Ortiz e Jessica Thawani, as duas de 17 anos, mostraram a outra ponta da história. “Comprei um presentinho de Dia dos Namorados para ela”, afirma Jessica, que é evangélica. Ela e Steffani gostaram da propaganda, mas com ressalvas. “Eu por exemplo, que tenho uma identidade de gênero e um jeito de me vestir mais masculino, não me sinto muito representada”, seguiu Jéssica.
"Não vou mentir: me desagrada ver gays se beijando, a bíblia fala que é errado. Mas também é errado agredi-los”, diz, distraída com a vitrine, Josida Maria da Silva, 57, frequentadora  da igreja Assembleia de Deus, a de Malafaia. Sobre o pastor, ela diz: "Como eu disse para você, eu gosto da marca".

Luciano Siqueira, gay de 29 anos, deixa a loja, satisfeito, de sacola na mão - um presente para a prima. Para ele, a propaganda com casais gays da marca tem efeito pedagógico na população: “As pessoas precisam ver casais homossexuais na TV e nas ruas até se acostumar. Essa história de boicote é coisa de quem não tem mais o que fazer. Com tanto problema sério por aí as pessoas vão querer se preocupar com a vida dos outros?”. Fonte: http://brasil.elpais.com

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 897. Dom Hélder e o Corpus Christi.

AO VIVO- AGORA (10h). Missa de Corpus Christi direto do Carmo/RJ.

terça-feira, 2 de junho de 2015

A Contemplação na Igreja

RAFAEL CHECA CURI
  
            Este mistério da relação Deus-Homem, que teve suas tipificações no Antigo Testamento, alcança sua plenitude no Novo. No Filho de Deus se consuma a relação inefável entre Deus e o Homem-Jesus Cristo e desde então todos os homens têm oportunidade de uma intimidade com o Senhor, intimidade que só será alcançada, excepcionalmente, pelos homens-tipo do povo de Deus.
            Jesus se converte no modelo deste novo relacionamento entre o Homem e
deus. O mistério pascal da morte e da ressurreição de Jesus Cristo é a realização paradigmática dessa outra morte e ressurreição que se protagoniza em cada homem. O que se liberta, pela redenção de Jesus, da escravidão do pecado e ressuscita para a plenitude da graça, pela ação do Espírito Santo, é o mesmo homem que, a níveis de contemplação, vive na plenitude de vida divina. A este respeito se afirma:
"O fato místico que testemunha a história da espiritualidade cristã, oriental e ocidental, é um fato cristocêntrico, eclesial. Quaisquer que sejam suas formas e conteúdos, a experiência mística se concebe somente como uma participação privilegiada, do mistério morte e ressurreição, presente em uma Igreja sacramental e hierárquica, cuja missão é a de colaborar para a redenção do mundo."(8)
            Efetivamente, é na Igreja comunidade dos fiéis, e pelo sacramento de entrada, como se explica a vitalidade mística e contemplativa de seus membros. Comentando o Cântico B. cap. 23, num. 6, de são João da Cruz, diz-nos certo autor: "O mistério fundamental realiza-se na cruz; sua aplicação concreta a cada alma faz-se no batismo, participação sacramental no mistério da redenção. O esplendor e a perfeição deste desposório batismal realizam-se mediante a experiência do desposório espiritual do qual fala o Santo no Cântico. Existe unidade intrínseca: é a mesma graça; existe diversidade na realização: na passagem da alma por via de perfeição." (9)
            A Igreja se fez cada vez mais consciente desta realidade, e sabe que o mistério de suas relações esponsais com Cristo tem uma ressonância plena em cada um de seus membros que participam de sua vida.
            O Concílio Vaticano II explicita-o em vários de seus documentos. A Igreja sabe que vive na história, entretanto projeta-se para a eternidade; tem um compromisso humano e visível, vive, contudo a tensão do invisível e do contemplativo. (S.C. 2).

            A Igreja nutre-se da Palavra e está mesma ela dá aos fiéis como alimento de sua contemplação e conversação com Deus (D.V.B), "esta tradição com a Escritura de ambos os Testamentos, são o espelho em que a Igreja peregrina contempla a Deus, de quem tudo recebe, até vê-lo face a face como Ele é" (D.V. 7). E assim recomenda igualmente aos que se sentem comprometidos no empenho apostólico a que "alimentem e fomentem sua ação na abundância da contemplação" (L.G. 41).

OS CARMELITAS NO MEIO DO POVO

2Ts 3,7  “Vocês sabem como devem imitar-nos: nós não ficamos sem fazer nada quando estivemos entre vocês,
8  nem pedimos a ninguém o pão que comemos; pelo contrário, trabalhamos com fadiga e esforço, noite e dia, para não sermos um peso para nenhum de vocês.
9  Não porque não tivéssemos direito a isso, mas porque nós quisemos ser um exemplo para vocês imitarem.
10  De fato, quanto estávamos entre vocês, demos esta norma: quem não quer trabalhar, também não coma.
11  Ouvimos dizer que entre vocês existem alguns que vivem à toa, sem fazer nada e em contínua agitação.
12  A essas pessoas mandamos e pedimos, no Senhor Jesus Cristo, que comam o próprio pão, trabalhando em paz.
Quanto a vocês, irmãos, não se cansem de fazer o bem”.  (Ver também o capítulo 20 da Regra onde este texto é citado).

SERVIR E TRABALHAR
Como resultado da aprovação da Regra pelo Papa Inocêncio IV, os carmelitas se colaram à serviço da Igreja (Cons. Art. 10). De acordo com a Regra, somos chamados em primeiro lugar ao serviço. Servimos a Jesus Cristo fielmente, com um coração puro e uma consciência serena (Regra 1). O serviço no meio do povo é um elemento essencial de nosso carisma de acordo com a Ratio: “Somos chamados a dar uma expressão concreta à missão de evangelização e de salvação em união com o Senhor e com sua Igreja, para que todos possam receber a mensagem do evangelho e tornar-se parte da família de Deus” (Ratio, 8).
Como carmelitas não estamos ligados a nenhum trabalho apostólico específico. Isso tem sido uma grande bênção através dos séculos porque fomos capazes de nos adaptar às mudanças do tempo. Devemos revelar o amor de Deus em todos os nossos trabalhos pela humanidade. Podemos fazer isso de diferentes maneiras.
Um elemento de nosso carisma que não foi muito desenvolvido é o papel de São Paulo na Regra. Ele é muito citado na Regra e é apresentado aos carmelitas como um modelo para o trabalho. O capítulo 20 da Regra diz: “Vocês devem fazer algum trabalho, para que o diabo sempre os encontre ocupados e não consiga, através da ociosidade de vocês, encontrar alguma brecha para penetrar nas suas almas. Nisto vocês têm o ensinamento e o exemplo de São Paulo apóstolo, por cuja boca Cristo falava e que por Deus foi constituído e dado como pregador e mestre dos gentios na fé e na verdade. Se seguirem a ele, não poderão desviar-se”. Continua citando o texto da Escritura que mencionamos no começo tirado da segunda carta aos Tessalonicenses.
Em seu livro, “O Espaço Místico do Carmelo”, Kees Waaijman reflete porque o exemplo de São Paulo é tão enfatizado na Regra. Sua resposta é que Paulo dá o exemplo de como os cristãos devem trabalhar neste mundo enquanto se voltam para o Fim dos tempos. No livro do Gênesis, o trabalho é visto como uma punição imposta aos seres humanos por Deus (3,17-19). No Eclesiastes o trabalho é considerado tormento e vaidade (2,18-23). Para o salmista do Salmo 104, o trabalho é um modo de se unir a Deus na criação das coisas baseado na sabedoria de Deus (v. 23-24). O Salmo 8 vê os seres humanos como representantes de Deus. A humanidade governa a criação da parte de Deus e em nome de Deus. O trabalho humano é visto a partir de uma variedade de perspectivas. Em Tessalônica, Paulo deparou-se com um problema. Algumas pessoas estavam tão convencidas que o Fim era iminente que pararam de trabalhar e atrapalhavam as outras pessoas. Ele adverte aos cristãos daquela cidade e a nós que o trabalho é muito importante. Não devemos trabalhar para construir nosso próprio pequeno reino. Em vez disso, nosso trabalho deve ser preparar a vinda do Reino de Deus.
A questão do motivo para nosso trabalho emerge da idéia de trabalho na Regra. O trabalho de Paulo estava voltado para construir o Corpo de Cristo. Para não ser um fardo e não dar oportunidade a seus inimigos de levarem as pessoas para o mau caminho, ele se recusou a receber o que tinha direito como emissário do Evangelho. Então, ele trabalhou noite e dia. A maioria de nós trabalha muito. Aqueles que não trabalham e interferem no trabalho dos outros, podem simplesmente ler novamente a Regra e as passagens de São Paulo lá citadas. Contudo, peço àqueles que trabalham, que voltem sua reflexão para os motivos que os levam a realizar tal trabalho.
O falso eu, que é a parte egoísta de cada um de nós, deve morrer para que tenhamos vida. O falso eu enfoca uma única pessoa e é muito sutil. A jornada espiritual carmelitana trata da transformação em Cristo. Essa transformação não é simplesmente uma mudança do comportamento exterior. Ela atinge as raízes de nossa existência e transforma nossa motivação. Seguimos em frente, vendo como Deus vê e amando como Deus ama. Nosso modo de ser e de amar é distorcido sob a influência do falso eu.

AS TENTAÇÕES DE JESUS
Aparentemente, Jesus passou um longo tempo se preparando para sua missão, cerca de 30 anos. Ele trabalhou como carpinteiro (Mc 6,3). Essa experiência não facilitou a aceitação de sua mensagem por certos setores da sociedade. Antes de anunciar sua missão na sinagoga de Nazaré, Jesus passou algum tempo comungando com seu Pai na solidão do deserto (Lc 4,1-13). Ele foi tentado pelo diabo e as três tentações principais são muito instrutivas para nós porque tocam o âmago de sua identidade e de sua missão. Elas também podem falar muito sobre nós mesmos e irradiar luz sobre nossa missão.
A primeira tentação diz respeito a autocompreensão de Jesus como o Filho de Deus: “Se tu és Filho de Deus, manda que essa pedra se torne pão”. Jesus poderia abusar de seu poder divino em seu próprio benefício e fazer sua própria vontade em vez da vontade do Pai? Todos nós estamos numa jornada de transformação. Essa é normalmente uma longa jornada com muitas curvas e desvios enquanto tudo que é falso dentro de nós gradualmente se transforma em Cristo. A tradição carmelitana fala da noite escura, que é um grande bênção de Deus. É o momento em que Deus está alcançando as partes escondidas de nossos corações para nos transformar completamente. A noite escura não é tão escura. Pelo contrário, ela é brilhante, muito brilhante para nós e por isso nos parece escura. Esta sala pode parecer bem limpa, mas se trouxermos algumas lâmpadas super poderosas, veremos então toda sujeira que não é visível a olho nu.
Não iniciamos a jornada espiritual como se já estivéssemos transformados. Somos marcados por nossa natureza decadente e, por isso, somos fundamentalmente egoístas não importa o quanto nos sentimos ou parecemos santos para os outros. São João da Cruz ressalta as muitas faltas do iniciante em seu livro “A Noite Escura” para que ele ou ela perceba que a perfeição ainda está distante. O falso eu se concentra totalmente na realização de suas necessidades e desejos egoístas. É vital compreender que o falso eu não é destruído simplesmente porque começamos a levar Deus a sério. O falso eu é bem feliz numa situação religiosa desde que possa usar este ambiente para realizar seus próprios desejos.
A primeira tentação de Cristo no deserto também está dirigida a nós. Como usaremos os dons e talentos que nos foram dados, em nosso benefício ou em prol do Reino de Deus?
Lembre-se que o falso eu é muito desonesto. Posso servir as pessoas de forma que não as liberte para serem cidadãos do Reino de Deus, mas para que se tornem cada vez mais dependentes de mim. A jornada espiritual alcança as profundezas escondidas do coração humano e purifica o coração de tudo o que não é Deus. Temos a tendência de pensar que somos generosos e que nos dedicamos no serviço ao próximo, mas isso certamente não é verdade no início de nosso ministério.
É importante lembrar as palavras do sábio:
Meu filho, se você se apresenta para servir ao Senhor, prepare-se para a provação. Tenha coração reto, seja constante e não se desvie no tempo da adversidade. Una-se ao Senhor e não se separe, para que você no último dia seja exaltado. Aceite tudo o que lhe acontecer, e seja paciente nas situações dolorosas, porque o ouro é provado no fogo e as pessoas escolhidas, no forno da humilhação. Confie no Senhor, e ele o ajudará; seja reto o seu caminho, e espere no Senhor” (Eclo 2,1-6).
A razão para esse teste é que precisamos ser purificados para que sejamos capazes de servir aos outros de coração puro. Contudo, não iniciamos a jornada com um coração puro. Trata-se de um processo gradual. Muitas vezes nossa oração será seca, mas isso não significa que Deus não esteja falando conosco. Deus normalmente fala fora do tempo da oração em meio à nossa vida diária. Na medida em que o Reino de Deus já está presente no mundo, podemos estar amorosamente conscientes da presença de Deus. Mas na medida em que ele ainda não está presente, devemos estar amargamente conscientes da ausência de Deus. No entanto, não podemos estar conscientes da ausência de Deus (ou aparente ausência porque Deus não está ausente de lugar algum) a menos que tenhamos experimentado a presença de Deus. Experimentamos a presença de Deus na oração. É na oração que Cristo forma em nós sua própria mente e coração. Essa experiência permite que nos tornemos constantemente conscientes da presença de Deus na realidade que nos cerca, mesmo nas situações menos prováveis.
É durante o tempo da oração que Deus purifica nossos sentidos espirituais para que sejamos capazes de discernir sua voz em meio a tantas outras vozes que ouvimos a cada dia. Às vezes, Deus usa palavras de consolo, mas às vezes também nos aponta algo que necessita ser modificado. É vital que aceitemos isso e que façamos algo sobre isso, do contrário não cresceremos. Sem dúvida, nosso falso eu fará uso de todos os tipos de argumentos para não mudar e isso parecerá razoável. Devo permitir que qualquer emoção forte se acalme e, então, perguntar a mim mesmo o que posso aprender com o que foi dito ou com o que aprendi sobre mim mesmo. Seria proveitoso perguntar por que surgiram essas emoções fortes? Lentamente me desligarei de minhas próprias opiniões, do meu jeito de fazer as coisas e serei capaz de discernir o que Deus está me dizendo.
A segunda tentação de Jesus no deserto dirige-se ao desejo do ser humano pelo poder. Todos têm algum poder. Mesmo se estamos na base da pirâmide, ainda podemos chutar o cachorro! Todos os reinos da terra e suas riquezas são oferecidos a Jesus, mas ele recusa e reitera mais uma vez seu compromisso com a vontade de seu Pai. Estamos tentando realizar a vontade de quem em nosso ministério? Portanto, a purificação de nossa motivação é importante para que qualquer poder ou autoridade que tenhamos, por menor que pareça, seja usada para a glória de Deus e não para nossa própria glória.
A terceira e última tentação de Jesus no deserto é realizar maravilhas para atrair a admiração das multidões. Jesus realmente realiza milagres, mas sempre como sinais da presença do Reino de Deus e não para chamar atenção sobre si mesmo. No final de seu ministério público, ele foi desafiado a descer da cruz para que o povo acreditasse nele. Ele permaneceu na cruz, dando sua vida para a salvação do mundo.

SERVIR NA ESPERANÇA
O falso eu concentra-se em si mesmo. Ele é fundamentalmente egoísta. Como nas tentações anteriores, somos desafiados a nos questionar sobre nossas ações. Jesus nos diz no Evangelho para não julgar. A razão para isso é bem simples: não sabemos qual a motivação de uma pessoa e todas as circunstâncias que a levaram a agir. A advertência para não julgar geralmente é compreendida num sentido negativo, isto é, para não julgar alguém negativamente. No entanto, também podemos estar errados se julgarmos positivamente. É compreensível considerarmos que alguém que cuida dos enfermos é um cristão maravilhoso, muito melhor do que alguém cujo trabalho não conhecemos. Contudo, não sabemos porque a pessoa cuida dos enfermos. É possível realizar boas obras pelos motivos errados como, por exemplo, usar outras pessoas para chamar atenção para si mesmo. Então é melhor deixar todo julgamento para o Senhor. Acredito que teremos uma ou duas surpresas!
O coração humano é muito sutil e requer uma purificação profunda. Esse é o propósito da jornada espiritual. Ao crescermos mais e mais à semelhança de Cristo, aprendemos a nos ver como realmente somos. Somos chamados a servir as pessoas como comunidades contemplativas. Respondendo ao chamado de Cristo para segui-lo, empenhamo-nos a assumir sua visão e valores. No entanto, logo descobrimos que somos incapazes de viver de acordo com nossos ideais sozinhos. Ao amadurecermos em nosso relacionamento com Deus, damos espaço para que Deus nos purifique. Assim começamos a ver como Deus vê e a amar como Deus ama. Esse modo de ver e amar é doloroso para o ser humano porque requer uma transformação radical do coração. O clamor do pobre penetrará em nossas defesas e nossa resposta, livre da distorção do falso eu, virá de um coração puro.
No início de Regra (cap. 2), Santo Alberto diz que, como todos os cristãos, nos empenhamos à serviço do Mestre. Mas adiante, ele nos dá o exemplo de São Paulo, que trabalhou incansavelmente e sem medo por Cristo e não em nome de sua própria reputação. No final da Regra, parece que estamos diante de um outro modelo, o do estalajadeiro na história do Bom Samaritano. Kees Waaijman comenta sobre o paralelismo entre a história e a Regra: “Se alguém fizer mais do que o prescrito, o Senhor mesmo lhe retribuirá quando voltar” (Regra 24). Ele afirma que esse ‘mais’ não se refere àqueles que têm maior generosidade e zelo, mas é uma proposta para todos os carmelitas. Precisamos trabalhar como o estalajadeiro, não com os olhos na recompensa, mas prestando atenção naquele dia, talvez muito distante, quando o Mestre retornará.

“Os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano concebeu o que Deus reservou para aqueles que o amam”.

Perguntas para reflexão:
Pessoal:
1-Como você trabalha para a vinda do Reino de Deus?
2-Releia as tentações de Jesus (Lc 4,1-13). Como você responde à tentação em seu ministério?

Em Grupo:
1-Qual é a missão da Ordem Terceira do Carmo, e como ela pode ser melhorada?
2- Qual é o programa de formação permenente que permite que os membros da Ordem Terceira do Carmo  trabalhem para a vinda do Reino de Deus?


AO VIVO- Direto de Sapopemba/SP. (Edição-01).

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 895. Segura na Mão de Deus.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

A ORDEM DO CARMO NO BRASIL

A nossa História no Brasil começou em 1580 quando aqui chegaram, vindos de Portugal, quatro Religiosos Carmelitas liderados por Frei Bernardo Pimentel Ord. Carm. Sucederam-se então as fundações dos nossos conventos: em 1584 o Convento de Olinda/PE, em 1589 o de Santos/SP, em 1590 o do Rio de Janeiro/RJ, em 1594 ode São Paulo/SP, em 1608 ode Angra dos Reis/RJ, em 1627 o de Mogí das Cruzes/SP, em 1622 o de Vitória/ES, e em 17180 de ltú/SP.
Até aqui, esses conventos pertenceram como Vice-Província àProvíncia Carmelitana de Portugal e somente em 1720 constituiu-se a Província Carmelitana Fluminense que em 1963 passou a chamar-se Província Carmelitana de Santo EIias.
A Ordem do Carmo no Brasil cresceu muito, chegamos até a ter três Províncias: a do Rio de Janeiro, a da Bahia e a de Pernambuco e ainda uma Vigararia, a do Maranhão. As atividades apostólicas dos Carmelitas estenderam-se por todo o litoral de São Luís do Maranhão até a cidade de Santos e, as suas atividades missionárias se estenderam até o Pará e o Amazonas.
Há uma tradição de que o imenso convento de Salvador chegou a abrigar até 100 Religiosos. Entretanto, nas épocas de Brasil-Colônia e Brasil-Império a Ordem do Carmo passou momentos sombrios, tenebrosos, de muitos conflitos com o envolvimento de Vice-reis, da Rainha D. Maria I, das autoridades eclesiásticas, etc. Um dos momentos mais dolorosos de nossa História foi a proibição de aceitar Noviços, resultado de uma circular do Ministro da Justiça e de sua Majestade o Imperador (D. Pedro II), que cassava a licença de entrada de Noviços nas Ordens Religiosas. Com esta medida governamental a Ordem do Carmo experimentou os estentores da agonia.
Em 1881 havia na nossa Província apenas quatro Religiosos nos conventos da Lapa, de Angra dos Reis e de Mogí das Cruzes. Os conventos de Belém do Pará, Itú, Santos e Vitória estavam sem Carmelitas. A situação era tão dramática e desoladora que o Papa Leão XIII em 1891 submeteu as Ordens Religiosas do Brasil à inteira dependência dos Prelados Diocesanos tanto no temporal como no espiritual. Foi então que o internúncio apostólico confiou aos Beneditinos Belgas a restauração dos mosteiros Beneditinos do Brasil; aos Franciscanos da Alemanha a restauração dos conventos Franciscanos e aos Carmelitas Espanhóis a restauração dos conventos Carmelitas: A 15 de novembro de 1889 aconteceu a Proclamação da República no Brasil, D.Pedro II e a Família Real retornaram a Portugal. Foi decretada a separação entre a Igreja e o Estado e as Ordens Religiosas receberam a autorização do governo de fundar conventos, abrir noviciados e administrar os seus próprios bens.
Em 1892 governava o Brasil o Marechal Floriano Peixoto de quem herdamos este feliz pronunciamento: “Não é nem pode ser intenção do Governo da República apossar-se dos bens que a piedade dos fiéis doou as Ordens Religiosas, mas não lhe pode ser indiferente vera decadência em que se acham; trate a Santa Sé de reformá-las e conte com o meu apoio”! Com estas palavras, o Marechal Floriano Peixoto deu um belo testemunho de bom senso de Magistrado do Governo Brasileiro.
Em 1893, iniciaram-se os entendimentos entre o Pe. Geral Aloísio Maria Galli e o Provincial espanhol Frei Anastácio Borras. Deste entendimento resultou a vinda da Espanha de seis Religiosos Carmelitas, liderados por Frei Joaquim Maria Guarch; isso aconteceu a 08 de agosto de 1894. Além deste primeiro grupo, sucederam-se outros grupos Religiosos espanhóis entre sacerdotes, professos e irmãos leigos, totalizando 21 Religiosos espanhóis que muito se empenharam em restaurar o Carmelo Brasileiro nas três Províncias: a Fluminense, a da Bahia e a de Pernambuco.
De 1894 a 1904, muita coisa aconteceu no Carmelo Brasileiro; dificuldades inúmeras de relações em que estiveram envolvidos: a Santa Sé, a Província Espanhola, os Religiosos Carmelitas do Rio de Janeiro, da Bahia, de Pernambuco, etc. Até que em abril de 1904, num Capítulo Provincial da Espanha foi resolvido que os Carmelitas espanhóis deixariam o Rio de Janeiro e a Bahia e iriam a Recife. Em junhode 1904, iniciaram-se os entendimentosentre o Pe. Geral Frei Pio Mayer e o Provincial holandês Frei Lamberto Smeets; ficou decidido que a Província Carmelita da Holanda iria assumir a Missão de continuar a restauração da Província Fluminense.
A 31 de outubro de 1904 seis sacerdotes e dois irmãos leigos, tendo como superior o Frei Cirilo Thewes, embarcaram em Antuérpia, Bélgica, num vapor alemão; quatro deles desembarcaram em Salvador e alguns dias depois seguiram para o Rio de Janeiro e na madrugada do dia 27 de novembro, os outros quatro aportaram no Rio de Janeiro. No mesmo dia, 27 de novembro de 1904, Frei Eliseu Duran por delegação do Pe. Geral, Frei Pio Mayer, entregou a Província Carmelitana Fluminense aos Carmelitas holandeses que, com muita dedicação se atiraram à penosa missão de dar continuidade ao zeloso trabalho iniciado pelos Carmelitas espanhóis: restaurar a Província Carmelitana Fluminense. A 27 de novembro a Província Carmelitana de Santo Elias procederá à abertura do Centenário de Restauração de nossa Província.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 894. Uma história de fé.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Vaticano diz que casamento gay é “derrota para a humanidade”

Secretário de Estado diz que a Igreja precisa reagir ao resultado do referendo irlandês
Irlanda, o primeiro país a aprovar o casamento gay em um referendo

O sim da católica Irlanda ao casamento homossexual caiu como uma bomba no Vaticano. Seu mais graduado funcionário, o secretário de Estado Pietro Parolin, um diplomata com muitos anos de experiência e fama de moderado, assim se referiu ao resultado do referendo: “Não só se pode falar de uma derrota dos princípios cristãos, mas também de uma derrota da humanidade”.
O cardeal italiano Parolin acrescentou que se sente “muito triste pelo resultado” – 62% dos votos favoráveis ao casamento entre homossexuais, 37% apostaram contra – e pediu à Igreja que reaja. “O arcebispo de Dublin”, acrescentou o secretário de Estado durante um ato da fundação Centesimus Annus, “disse que a Igreja deve levar em conta essa realidade, mas me parece que no sentido de reforçar seu esforço evangelizador. A família tem que continuar no centro, e devemos defendê-la, tutelá-la e promovê-la. O futuro da humanidade e da Igreja depende da família. Golpeá-la seria como tirar os alicerces do edifício do futuro”.
As palavras de Parolin chamam a atenção por dois aspectos. Primeiro porque ele não costuma se estender – e muito menos com tal eloquência – quando fala em público. Seu trabalho até agora era no sentido de sustentar de forma calada, quase invisível, os esforços do papa Francisco para renovar a Igreja e, sobretudo, colocar a máquina diplomática do Vaticano a serviço da paz. Em segundo lugar, desde que o Papa se referiu à homossexualidade durante seu voo de volta do Brasil – “Quem sou eu para julgar os gays” – a Santa Sé vinha procurando atualizar os velhos clichês.
Mas, até o momento, tratava-se apenas de uma aproximação mais respeitosa, talvez mais compreensiva em relação aos homossexuais, mas deixando claro –como faz nesta quarta-feira o cardeal Angelo Bagnasco, presidente da Conferência Episcopal Italiana, em uma entrevista ao jornal La Repubblica – que a Igreja continua rejeitando as uniões civis. “Acreditamos”, observa Bagnasco, “na família que nasce da união estável entre um homem e uma mulher, potencialmente aberta à vida; esta união, que constitui um bem essencial para a sociedade, não é equiparável a outras formas de convivência”.
Talvez as palavras de Pietro Parolin possam ser explicadas pelo fato de a Igreja temer um efeito-dominó do referendo europeu no resto da Europa.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

¡Romero Mártir por amor a los pobres!

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 888. A Mulher invisível.

Carta aberta ao bispo de Maceió, Dom Antônio Muniz

Dom Antônio Muniz, Arcebispo Metropolitano de Maceió:

Rogo a atenção de V. Exa. Revma. para fixar ainda mais o seu olhar sobre Alagoas. O estado não consegue controlar a epidemia de violência homicida que tem enlutado milhares de famílias.
Alagoas, nas últimas duas décadas, alcançou o primeiro lugar no ranking dos estados mais violentos. São números trágicos e vergonhosos que se assemelham aos de guerra. 
O Mapa da Violência de 2014 revela que entre 2008 e 2012 ocorreram 10.159 homicídios em Alagoas; desses, 6.114 são jovens, na faixa etária de 15 a 29 anos, ocorrendo 60% dos homicídios entre negros e pobres.
Os dados estatísticos produzidos pela Secretaria de Defesa Social (SDS) em 2013 revelam 2.260 crimes violentos letais, uma média de 6,19 homicídios/dia, e em 2014 foram assassinados mais 2.199; a média mantida é de 6,02 homicídios/dia. A soma do período é de 14.618 homicídios.
Esse contingente de jovens negros e pobres em idade escolar não teve o direito de viver com o mínimo de dignidade; foram assassinados e os motivos nunca serão esclarecidos pela policia alagoana, fato que mantém a impunidade como regra geral e política de Estado.
Dom Antônio, as condições em que o Estado se encontra é de sucateamento, notadamente nas áreas em que a população mais necessita: educação, saúde, assistência social, e com taxa de desemprego crescente.
As políticas públicas essenciais não existem concretamente, a não ser na propaganda oficial. A possibilidade de incluir os jovens no mundo do trabalho e da cultura é impensável em Alagoas.
O Núcleo Estadual de Atendimento Socioeducativo (Neas), localizado no Tabuleiro, em Maceió, é um depósito em condições inferiores às das piores pocilgas. A tortura física e psicológica tem sido o método de castigo implementado pelos agentes públicos. Não bastou o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, em 2014, ouvir dos adolescentes relatos de torturas e de que a comida era deplorável, pois as condições permanecem iguais ou o que mudou tem efeito meramente cosmético.      
Dom Antônio, a presença mais visível do estado nos bolsões de pobreza e miséria é através da presença da polícia, que insiste na “guerra contra a criminalidade” como meio de “oferecer segurança pública”. Essa prática retrógrada se mantém com o apoio e incentivo público dos responsáveis pela segurança pública.
Essa prática tem servido tão somente para incitar o ódio estatal contra o fenômeno crescente de violência, identificado como um estágio de epidemia. Toda a fúria policial é um instrumento que operacionaliza o processo de “limpeza social e étnica” instaurado há décadas no seio da segurança pública.
Dom Antônio, como cidadão preocupado com essa questão, me reporto ao tempo em que era criança em Anadia, interior de Alagoas. Era então comum ouvir o dito popular: “vá se queixar ao bispo”. É o que me ocorre diante do estado de entorpecimento das autoridades de Alagoas.
Apelo a V. Exa. Revma. por identificar na figura do arcebispo metropolitano e na Igreja Católica a possibilidade de intervir nesse quadro desolador.
Os meus respeitos e admiração
Geraldo de Majella


quarta-feira, 20 de maio de 2015

Freira argentina 'ativista' irrita o Vaticano

A freira argentina de clausura Lucía Caram, que vive em um convento na Catalunha, acusou o governo da Espanha de pressionar o Vaticano para calá-la por causa de seu ativismo.  
Nascida em Tucumán, em 1966, a monja pertence a uma ordem dominicana contemplativa fundada em 1206 por São Domingos de Gusmão com o objetivo de orar em silêncio e evangelizar. Ela reside há 20 anos no convento de Santa Clara de Manresa, nos arredores de Barcelona.  
No entanto, sua constante exposição midiática, inclusive em um programa culinário na televisão espanhola, irritou a Santa Sé, que a convocou para uma reunião na última quinta-feira (14), no Vaticano, com o secretário da Congregação para os Institutos da Vida Consagrada, José Rodríguez Carballo.  
Na ocasião, o frade disse que Caram precisa abandonar a vida em clausura se quiser manter sua intensa atividade pública. Mais tarde, a freira afirmou à imprensa local que seu discurso social "incomoda o governo" de Mariano Rajoy, a quem acusou de ter pressionado o Vaticano.  
Uma das causas defendidas pela religiosa é a independência da Catalunha e, apesar do ultimato, ela participou nesta quarta (20) de um ato de campanha ao lado do presidente da região autônoma, Artur Mas, em vista das eleições municipais do próximo domingo (24).  
Há alguns meses, ela também criticou o aumento das barreiras entre Marrocos e Melilla (enclave espanhol no norte da África) implantado por Rajoy para dificultar a entrada de imigrantes ilegais no país.  
"O governo se queixou junto à Nunciatura e o núncio [Renzo Fratini] enviou uma carta convidando minha comunidade a me calar", disse a monja. Segundo o jornal catalão "La Vanguardia", o caso pode até levar ao fechamento do convento de Santa Clara e à transferência de suas ocupantes para outras instituições.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O Deus da esperança e o nosso futuro

Jürgen Moltmann, teólogo protestante alemão.

Nesta noite, às 20h45, junto ao Centro de Congressos João XXIII de Bergamo, o teólogo protestante alemão dará uma palestra sobre o tema.
“Pensar a esperança. Crer no futuro para viver no presente” foi o tema de uma conferência proferida por Jürgen Moltmann em Bergamo, na Itália, no dia 9 de maio.
Moltmann é um dos mais conhecidos teólogos da segunda metade do século vinte, discípulo de Ernst Bloch e famoso por sua obra “Teologia da esperança” (Queriniana, 1970). Aqui publicamos um extrato de sua lectio, publicado pelo jornal Avvenire, 09-05-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o artigo.
Os cristãos são capazes de futuro. Mas, de qual futuro? Como se pode, afinal, falar de futuro, se nem sequer teve início? Como se podem narrar os acontecimentos que se aproximam, mas que de fato ainda não aconteceram? Não se trata de infundados desejos ou de visões angustiadas e igualmente infundadas? Não é melhor dizer, com Albert Camus: “Pensar lucidamente e não esperar em nada?”
Não, na esperança cristã não falamos dos nossos desejos e das nossas angústias, e nem mesmo do futuro em si. Falamos de Jesus Cristo e de seu futuro. Nós recordamos a história de Jesus Cristo: sua vinda a este mundo, sua alegre novidade do Reino de Deus para os pobres, os enfermos e as crianças, o seu sofrimento e sua morte na cruz – e sua gloriosa ressurreição, com a plenitude da vida eterna que ele revelou.
A esperança cristã no futuro de Deus tem sua sã ancoragem no tornar presente sua história e sua ressurreição. E, no meio dia história está a sua cruz. A cruz, na comunidade de Cristo, é a pedra do escândalo para todos os espíritos utópicos e apocalípticos. Somente quem tem consistência ante o vulto do Cristo crucificado é esperança cristã.
Com o sinal da cruz são de fato expulsos também os espíritos enfermos e malignos dos por eles possuídos. Somente por trás da cruz sobre o Gólgota surge o sol da ressurreição. Somente além da cruz de Cristo desponta a aurora do novo mundo de Deus. A esperança cristã não é, de fato, otimismo que promete às pessoas de sucesso dias melhores. A fé em Cristo difunde esperança aonde de outro modo não há mais nada a esperar.
Com os braços da esperança cristã abraçamos o mundo inteiro e não damos nada nem ninguém por perdido. Assim como o Cristo ressurgido tem o seu futuro em Deus, ele não é somente o Redentor das nossas almas, mas também o Reconciliado do cosmos. De sua vinda esperamos, por isso, a grande transformação do mundo “do corpo corruptível à incorruptibilidade e do corpo mortal a imortalidade”, como anuncia o apóstolo Paulo segundo o exemplo do profeta Isaías. Cristo há de vir, mas nós fazemos a experiência de sua presença já aqui e agora na palavra do Evangelho e no Espírito que nos torna vivos; nós fazemos a experiência de sua presença já no batismo e na comunhão: nós fazemos a experiência de sua presença em companh9ia de quem crê e em companhia dos pobres e dos enfermos. Mais intensamente, fazemos a experiência do fato de que Jesus vive e então clamamos “Maranata, vem Senhor Jesus”, vem rapidamente (Ap 22, 20).
Resistência e antecipação são virtudes daqueles que esperam. No sofrimento, nas desilusões, nas dores e nas preocupações a esperança cristã mostra a sua força confortadora e resistente. Resistência e antecipação são virtudes daqueles que esperam. No sofrimento, nas desilusões, nas dores e nas preocupações a esperança cristã mostra a sua força confortadora e resistente. É confortador resistir nas dores e nas preocupações sabendo que este não é o fim, mas que precisamente ali ainda existe algo que vem. É encorajador não capitular diante do irrevocável, mas resistir sadios no protesto. Em força da esperança não nos rendemos, mas permanecemos inquietos e insatisfeitos num mundo injusto e violento. Nenhuma reconciliação com o mal! Nas situações de sofrimento a grande tentação é render-se. Eu mesmo corri este risco como prisioneiro de guerra da Segunda Guerra mundial. As promessas de Deus que despertam a nossa esperança nos colocam frequentemente em contradição com as experiências do nosso ambiente. O novo mundo de Deus tão esperado e o velho mundo do qual temos experiência, no qual vivemos e sofremos, se contradizem. Em tais situações, a sombra da cruz desce sobre nós.
Começamos a sofrer por um mundo injusto e violento, porque nos colocamos contra a injustiça e a violência. Se não esperássemos em nada, então nos adaptaríamos: o mundo é no fundo aquilo que é. O fato que não nos adaptamos é fruto da inextinguível fagulha da esperança que habita em nós. Pela força da esperança no novo mundo de Deus os hebreus e os cristãos oprimidos se contaram contra histórias sobre o decurso deste mundo. Trata-se das histórias de ressurreição do profeta Ezequiel, no capítulo 37: veja, aqui está a planície que estava repleta de ossos estorricados dos povos passados – mas, escuta, ali vem o espírito de Deus que os despertará e reconduzirá os mortos à vida. Por isso, não te rendas: a morte não tem a última palavra.
Existem as contra imagens apocalípticas, na revelação de João, da ‘grande prostituta da Babilônia’, que em breve cairá, e todos sabiam que com isto se entendia Roma e o império romano que perseguia hebreus e cristãos. A imagem da ‘Jerusalém celeste’ que descerá sobre a terra e terá duração eterna é uma contra imagem da Roma imperial que se fazia celebrar como ‘cidade eterna’. O próprio título de Senhor, na confissão ‘Senhor é Jesus Cristo’, é um contra título adverso aos poderosos imperadores romanos que se faziam exaltar como ‘senhores do mundo’.
O anúncio de Deus em nome de Cristo crucificado é, nestas condições, um discurso subversivo de Deus. Muitos dominadores perceberam que a Bíblia, para eles, é um livro perigoso porque chama à resistência, como o fizeram os cristãos na Coréia em 1919. “Senhor, nosso Deus, outros patrões, diversos de ti, nos tem dominado, mas nós a ti somente, o teu nome invocaremos” (Is 26,13): assim dizia o povo prisioneiro na Babilônia dirigindo-se ao Deus de Israel. Esta passagem foi muito apreciada pela Igreja professante durante a resistência contra a ditadura nazista na Alemanha.
Todavia, na vida da esperança não fazemos somente experiência de contradições e sofrimentos, mas também de sinais premonitórios de antecipações. Não podemos permitir-nos dizer que este modo é malvado e retirar-nos à vida privada, enquanto pudermos “vencer o mal com o bem”, como aconselhava Paulo na Epístola aos Romanos 12, 21. Por isso, devemos intervir na vida política e social do nosso povo e lutar pela verdade na política e pelo direito dos pobres; não com violência, mas com métodos não violentos, como ensina a teologia Minjung (na Coréia do Sul). Esta era a esperança do Movimento social Gospel na América, esta era a esperança da teologia da libertação na América Latina, esta era a esperança do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos e esta é a esperança do movimento ecológico na Europa: “Outro mundo é possível”.

Mas, antes de poder mudar algo em direção do bem, devemos estar dispostos a mudar-nos a nós mesmos. O Espírito da vida nos desperta do nosso egoísmo, da nossa indiferença com os outros. Sentimos a paixão pela vida e abrimos o nosso espírito e as nossas mãos à vontade de Deus. “Os pródigos do mundo futuro”, dos quais fala a Carta aos Hebreus 6,5, nos convida a agir. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

A PALAVRA... Nº 879. Fátima e a minha vocação.

terça-feira, 12 de maio de 2015

ORDEM TERCEIRA: Missão em Taubaté.

Influenciada pelo papa, Opus Dei muda cúpula em busca de carisma.

           
         
A Opus Dei se soma à onda renovadora que o papa Francisco promove na Igreja Católica. Pela primeira vez em quase um século de existência, a poderosa prelatura deixou aberta a porta para a possibilidade de que sua direção seja ocupada por alguém que não tenha trabalhado lado a lado com Josemaría Escrivá de Balaguer, o fundador santificado, ou que não tenha nascido na Espanha, onde estão as raízes de uma organização implantada em mais de 60 países. Assim se projeta a era pós-Escrivá nos tempos de Jorge Mario Bergoglio.
Em dezembro de 2014, o prelado Javier Echevarría, que aos 82 anos é a autoridade máxima da organização, nomeou vigário-auxiliar o franco-espanhol Fernando Ocáriz, e vigário-geral o argentino Mariano Fazio. A decisão insinua uma ordem sucessória da qual ficaria desalojado o influente arcebispo peruano Juan Luis Cipriani e coloca a prelatura diante de um cenário inédito. Na direção da Obra, fundada em 1928, nunca haviam convivido um prelado e um vigário-auxiliar.
"Será um momento histórico", descreve um porta-voz do escritório de informação da Opus. Na direção da organização se sucederam até agora três espanhóis: o fundador; o beato Álvaro del Portillo, que foi seu braço-direito durante 40 anos; e Echevarría, que por sua vez também foi colaborador de Balaguer por mais de 20. "Que chegue o momento em que o prelado não tenha conhecido nem trabalhado com o fundador é algo natural, e será uma nova demonstração da maturidade desta instituição da igreja."
Os analistas viveram a ascensão de Ocáriz ("um cargo é uma carga", matizam na Opus) como um ponto de inflexão na trajetória da instituição. E também como um gesto ao papa, que é jesuíta, prega com verbo fresco, nem sempre compartilhou as opiniões de Cipriani - excluído, por enquanto, do núcleo executivo - e trata com intimidade seu compatriota Fazio, o novo vigário-geral da Opus Dei.
        No segundo ano de seu pontificado, o papa Francisco mostrou que continua decidido a abrir várias frentes para reformar a igreja, imprimindo ao papado um novo estilo, mais próximo dos fiéis, e seguindo de perto tudo o que ocorre no mundo. Este álbum mostra a variedade de interesses e a frenética atuação de Jorge Mario Bergoglio ao longo de 2014. É de tirar o fôlego. 
"Efetivamente, o papa Francisco está promovendo uma forte renovação na igreja", disse José María Gil Tamayo, secretário-geral da Conferência Episcopal. "Não se trata de esperar que venham à igreja, mas sim de sair ao encontro das pessoas, e isso nos convida a renovar nossa forma de trabalho pastoral", continuou o porta-voz, que acrescentou sobre o caso específico da Opus: "A renovação que nos pedem afeta a todos na missão comum evangelizadora, na qual a especificidade de cada carisma de congregações, movimentos e associações deve ser posta a serviço dessa missão compartilhada sob a orientação de nossos bispos. Só estando unidos seremos verossímeis, como aponta o Evangelho".
            A prelatura tem cerca de 90 mil seguidores, distribuídos por mais de 60 países. Fortemente implantada na América Latina e na Europa, e com presença na África, dá agora seus primeiros passos no Casaquistão e no Vietnã e está pronta para iniciar seu trabalho em Cuba quando as circunstâncias políticas permitirem, segundo fontes consultadas. Em suas estruturas há mais mulheres que homens, segundo a organização. A idade média de seus integrantes aumentou na última década. Em sua maioria são laicos de classe abastada, com capacidade para influir nos gabinetes mais importantes; dedicados ao princípio de "santificar o trabalho"; e sempre cercados de críticos, alguns deles ex-membros da organização, que opinam que esta promove o conservadorismo, limita as leituras de seus integrantes e exerce o proselitismo.
Na Espanha, uma centena de colégios, a Universidade de Navarra e a escola de administração Iese têm relação com a Obra, que, segundo um porta-voz, lhes dá orientação espiritual. Essa radiografia resume a grande capacidade de influência e mobilização da Opus Dei, que durante a beatificação de Portillo, realizada em Madri em 2014, reuniu mais de 100 mil pessoas, entre elas dois ministros do governo e 40 mil jovens chegados de todos os recantos do planeta. Esses números refletem sua força para influir nas instituições e, em consequência, a importância das mudanças em sua cúpula.
"Com estas decisões sobre a quarta geração de dirigentes, se demonstra que não há medo de mudanças, que podem ser tutelados por alguém que não tenha estado em contato com o secretário-geral anterior", opinou José Manuel Vidal, formado em teologia e sociologia pela Universidade Pontifícia de Salamanca e diretor de Religião Digital. "Uma aproximação clara do papa, assim como fizeram os salesianos ao eleger reitor-maior um espanhol [Ángel Fernández Artime], que, entre outras coisas, conhece bem Francisco de sua estada em Buenos Aires", acrescentou sobre o cargo privilegiado que o argentino Fazio ocupa desde dezembro.
"O núcleo espanhol e mais velho quer ter o controle, mas chega um momento em que não pode. É a lei da vida", argumentou o sociólogo Alberto Moncada, autor de obras de tom crítico à instituição. "Fora da Espanha, a Opus é variada e plural, uma organização internacional."
Talvez não haja lugar fora da Espanha em que a Opus tenha mais força que na América Latina. Lá, Juan Luis Cipriani, o primeiro cardeal da organização, ficou afastado, por enquanto, da possibilidade de alcançar a prelatura. Quando Jorge Bergoglio, hoje o papa Francisco, presidiu a comissão de redação do documento final da 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (2007), Cipriani mostrou-se pouco chegado a sua tese, segundo fontes consultadas, e Fazio as compartilhou plenamente.
          Um porta-voz da Opus Dei negou que isso tenha a ver com o fato de Echevarría não ter contado com Cipriani para suas nomeações de dezembro, e salientou a relação "imelhorável" da instituição com o papa. Fontes consultadas afirmaram que Bergoglio veria com bons olhos que Cipriani estivesse em Roma. Monsenhor Lombardi, o porta-voz do Vaticano, declinou fazer comentários sobre o assunto. Assim, em silêncio, a Opus Dei continua projetando seu futuro. Fonte: http://brasil.elpais.com

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Carmelo: Crescer na Fraternidade: Dia de Espiritualidade em Vicente de Carvalho/RJ, com Frei Petrônio de Miranda.

ORDEM TERCEIRA DE VICENTE DE CARVALHO/RJ.
Dia de Espiritualidade Carmelitana. 09 de maio -2015.
Com Frei Petrônio de Miranda, O.Carm
(E-mail do Frei: missaodomgabriel@bol.com.br)
Carmelo: Crescer na Fraternidade.


No âmbito do Carmelo salientemos a ênfase sempre mais crescente sobre o valor teológico da fraternidade. A fraternidade vem sendo entendida, cada vez mais, como o leito e o núcleo do carisma carmelita.
             Chamados a viver vida de fraternidade, precisamos lutar para que a Ordem Terceira do Carmo seja prova concreta de que a fraternidade é possível. Fraternidade, que nasça da escuta e da meditação da Boa Nova e que leve a tornar mais humana à vida, a unir as pessoas, apesar de certas divergências, conseguindo ser assim uma presença do Evangelho. E é desta maneira que a nossa Ordem Terceira do Carmo se transforma em sinal de esperança, que fazem os pobres dizer a nosso respeito o que a viúva de Sarepta dizia ao Profeta Elias: “Agora sei que és um homem de Deus e que a Palavra de Deus está realmente sobre a tua boca” (1Rs 17,24).
Na Igreja fomos gerados como Família Carmelitana pelo Espírito Santo, mediante a experiência de um grupo de penitentes, peregrinos, eremitas, no contexto do grande movimento europeu, medieval, para recuperação da Terra do Senhor.
            O Espírito de Vida nos tornou fecundos quanto aos valores fundamentais da fraternidade evangélica: escuta e anúncio da Palavra, oração assídua, comunhão de bens, reconciliação fraternal, serviço recíproco e aos pobres, luta espiritual e empenho de libertação dos oprimidos, discernimento, solidariedade com todos os homens, esperança operante.
A atitude contemplativa para com o mundo em volta de nós, que nos faz descobrir Deus presente nas nossas experiências cotidianas, leva‑nos a encontrá‑Lo especialmente nos nossos irmãos. Desta maneira somos guiados a valorizar o mistério das pessoas que estão próximas de nós e com as quais compartilhamos a nossa vida.
A nossa Regra nos quer irmãos fundamentalmente e nos recorda como a qualidade dos relacionamentos e relações interpessoais, que caracterizam a vida da comunidade do Carmelo, deve desenvolver‑se segundo o exemplo inspirador da primitiva comunidade de Jerusalém. Ser irmãos significa para nós crescer na comunhão e na unidade, na superação das distinções e privilégios, na participação e na corresponsabilidade, na partilha dos bens, do projeto comum de vida e dos carismas pessoais; significa, também, atenção ao bem‑estar espiritual e psicológico das pessoas, percorrendo os caminhos do diálogo e da reconciliação. Estes valores da fraternidade se exprimem e encontram a sua força na Palavra, na Eucaristia e na Oração.
Na Palavra ouvida, rezada e vivida no silêncio, na solidão e em comunidade), especialmente na forma da "lectio divina", cada dia os Carmelitas são levados ao conhecimento e experiência do mistério de Jesus Cristo. Animados pelo Espírito e radicados em Cristo Jesus, nEle permanecendo dia e noite, eles inspiram na Palavra de Jesus todas as suas opções e o seu agir.
Os irmãos, inspirados pela Palavra e em comunhão com toda a Igreja, celebram juntos os louvores do Senhor e convidam outros a compartilhar da sua experiência de oração.
Para Frei Tito Brandsma, Carmelita, Jornalista e Mártir da Segunda Guerra Mundial (*1881 + 1942), era muito forte a vivência da fraternidade, quer no âmbito interno da Comunidade, quer no âmbito externo de suas relações apostólico-profissionais. Afirmava que, para ele, a vida comunitária era indispensável a fim de restaurar as forças para os diversos compromissos. Na comunidade revelava-se cheio de ânimo, acolhimento bondade, solidariedade. Era bastante leal e pronto a reconhecer os próprios limites e também os valores da tradição, tanto junto aos co-irmãos, como junto às demais categorias de sua convivência (judeus, protestantes, ateus, imigrantes).
Era um homem sem fronteiras e sem defesas, porém audaz, perseguindo sempre as vias da reconciliação com todos. Pelo fato de viver pacificado por Deus interiormente, não tinha medo de abrir a porta do próprio coração e da própria casa que se tornou um lugar comum de encontros fraternos. “O amor ganhará o coração dos pagãos”, afirmava, acrescentando que como assim se dizia dos primeiros cristãos, também se deveria dizer novamente dos cristãos de seu tempo. Seu amor fraterno o faz superar toda barreira de religião, de partido, de nação. Todos para ele eram considerados companheiros e irmãos.

Vida Comunitária e Oração.
Na primitiva comunidade cristã, a oração em comum era um distintivo específico. O livro dos Atos é um testemunho eloquente do espírito dessas comunidades. "Eram constantes em escutar o ensinamento dos apóstolos e na comunidade de vida, no partir do pão e nas orações”... (Atos, 2, 42-47).
É claro supor que ao costume judaico de escutar a palavra de Deus e de cantar salmos, acrescentavam a nova modalidade cristã de celebrar juntos a eucaristia. Com certeza os primeiros cristãos, doutrinados pelos apóstolos, tiveram em conta a insistência de Jesus no sentido de que vivessem unidos em um só coração e uma só alma. Recordariam também a forma de orar que o Mestre ensinara aos seus discípulos. O Pai Nosso é uma prece claramente comunitária. Não podiam referir-se a Deus no singular, mas tão só em grupo, no plural.
 Aparece evidente que os primeiros cristãos tiveram o costume de orar e de juntar-se para falar de Deus e para falar com Deus, na referência que Paulo faz aos Romanos, quando, escrevendo de Corinto, lhes anuncia o desejo de visitá-los: "Desejo ver-vos para comunicar-vos algum dom espiritual, para confirmar-vos, ou melhor, para consolar-me convosco e pela mútua comunicação de nossa fé comum" (Rom. 1, 11-12). Este renascer da oração comunitária surge paralelamente ao movimento de revalorização das comunidades em si mesmas e em todos os níveis. O Concílio Vaticano II é consciente disso e assim testemunha: A vida pessoal é incompleta sem a relação interpessoal: "O homem é, com efeito, um ser social e não pode viver nem realizar suas atividades sem relacionar-se com os demais" (G.S. 12). Isto mesmo deve afirmar-se a respeito da oração.
            Os bispos da América Latina, por sua vez, o asseveram explicitamente: "Além de buscar a oração íntima tende-se de modo especial para a oração comunitária, com comunicação da experiência de fé, com discernimento sobre a realidade, orando juntamente com o Povo (Puebla, 727).
Para meditação individual.
Texto Bíblico. (Atos dos Apóstolos. 4, 32-37).
1º- Somos da Ordem Terceira do Carmo ou um grupo de amigos?
2º- A nossa fraternidade carmelitana tem um olhar para o sofrimento do próximo ou para nós mesmos?

O catolicismo deprecia as mulheres

The New York Times
Frank Bruni

Como um vendedor de batatas Pringles soando alarme a respeito da obesidade, o papa Francisco assumiu o manto de feminista na semana passada.
Foi uma má combinação épica de mensageiro e mensagem, e digo isso como alguém que é grato por este papa, o admira enormemente e acredita que uma mudança de tom, mesmo sem uma mudança dos ensinamentos, tem significado e é digna de celebração.
Mas uma mudança de tom em desafio ao fato deve ser apontada (e criticada). Nem Francisco nem qualquer autoridade do baluarte do direito masculino conhecido como Vaticano pode afirmar de modo crível uma preocupação com a paridade dos sexos. A cozinha deles é suja demais para que possam criticar as manchas de ketchup na dos outros.
Na verdade, Francisco foi além da preocupação. Ele expressou ultraje, chamando de "puro escândalo" o fato de as mulheres não receberem remuneração igual por trabalho igual.
Ele deixou de fora a parte sobre as mulheres na Igreja Católica Romana nem mesmo terem uma chance de trabalho igual. Remuneração não é a questão principal quando você é impedido de exercer certas funções e é profundamente sub-representado em outras.
Remuneração não é a questão principal quando o simbolismo, rituais e o vocabulário de uma instituição exaltam os homens acima das mulheres e quando contestações a esse desequilíbrio são recebidas com a insistência de era assim e sempre será –-que o hábito está acima do esclarecimento e do bom senso.
Vamos ser claros. Apesar do serviço notável que a Igreja Católica realiza, ela é um dos patriarcados mais inabaláveis e dominantes do mundo, com princípios que não favorecem a igualdade.
Para as mulheres terem um tratamento justo na força de trabalho, elas precisam ao menos de algum grau de liberdade reprodutiva. Mas os bispos católicos nos Estados Unidos fazem enorme lobby contra a exigência da nova lei de saúde de que empregadores como escolas e hospitais religiosos incluam contracepção no plano de saúde de seus funcionários.
Não importa que apenas uma pequena minoria de católicos americanos siga a proibição formal da igreja ao controle da natalidade artificial. Alguns líderes católicos não apenas se agarram a essa restrição caduca; eles a promovem, apesar de seu efeito desproporcional sobre a autonomia das mulheres.
E como sua vilificação da Conferência da Liderança das Mulheres Religiosas, uma organização que representa 80% das freiras americanas, combina com igualdade das mulheres? Em 2012, o grupo foi condenado pelo Vaticano e colocado sob o controle de três bispos encarregados de limpá-lo de suas inclinações "feministas radicais", incluindo mais atenção aos pobres do que a costumes sexuais.
Para seu crédito, Francisco declarou uma trégua com as freiras no mês passado. Também para seu crédito, ele sinalizou solidariedade para com as mulheres que tentam limitar o tamanho de suas famílias e pediu aos líderes da igreja para não se envolverem demais em assuntos como aborto e casamento de mesmo sexo.

E a tendência no Vaticano e na Cidade do Vaticano aparentemente é de ter um maior número de funcionários do sexo feminino, apesar de em 2014, segundo a agência de notícias "The Associated Press", elas ocuparem menos de 20% das vagas de trabalho. Não precisava ser assim, mesmo considerando a exclusão das mulheres do sacerdócio.
Mas a recusa da igreja em seguir algumas das outras denominações cristãs e ordenar mulheres mina qualquer progresso na direção da igualdade que ela anuncia ou tenta. O sexismo está incorporado em sua estrutura, em seu fluxograma.
Homens, mas não mulheres, rezam a missa. Homens, mas nunca as mulheres, chegam a cardeais ou a papa. O clero masculino geralmente é tratado como "padre", que conota autoridade, enquanto as mulheres nas ordens religiosas costumam ser tratadas como "irmãs", que não.
E as coisas poderiam ser diferentes. Tradições mudam. História e mitologia cedem a novas interpretações.
Sim, a Bíblia diz que todos os 12 apóstolos de Jesus Cristo eram homens. Mas além dos 12 há Maria Madalena, a quem Jesus supostamente apareceu primeiro após a Ressurreição. O papel dela não é fundamental para o nascimento da igreja?
Não é mais importante que haja sacerdotes suficientes para ministrar a Eucaristia aos católicos do que todos os padres serem homens?
Será que a igreja pode se dar ao luxo de alienar uma geração inteira de mulheres jovens, perplexas diante de sua intransigência?
"Elas cresceram em um mundo onde todas as portas foram abertas para elas", disse Kathleen Sprows Cummings, diretora do Centro Cushwa para o Estudo do Catolicismo Americano, na Universidade de Notre Dame. "E há uma desconexão quando veem a igreja sem nenhuma liderança feminina –-no mínimo, não são elas que estão no altar."
Francisco não sancionou nenhuma discussão sobre colocá-las lá. Quando pressionado sobre isso por uma repórter italiana no ano passado, ele a lembrou que "as mulheres vieram da costela".
Era uma provocação? Ele riu e disse que sim. Mas a metáfora permanece e coloca as mulheres como ramificações, até mesmo como uma reflexão tardia.

Tradução: George El Khouri Andolfato. Fonte: http://noticias.uol.com.br