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quarta-feira, 13 de maio de 2015

O Deus da esperança e o nosso futuro

Jürgen Moltmann, teólogo protestante alemão.

Nesta noite, às 20h45, junto ao Centro de Congressos João XXIII de Bergamo, o teólogo protestante alemão dará uma palestra sobre o tema.
“Pensar a esperança. Crer no futuro para viver no presente” foi o tema de uma conferência proferida por Jürgen Moltmann em Bergamo, na Itália, no dia 9 de maio.
Moltmann é um dos mais conhecidos teólogos da segunda metade do século vinte, discípulo de Ernst Bloch e famoso por sua obra “Teologia da esperança” (Queriniana, 1970). Aqui publicamos um extrato de sua lectio, publicado pelo jornal Avvenire, 09-05-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o artigo.
Os cristãos são capazes de futuro. Mas, de qual futuro? Como se pode, afinal, falar de futuro, se nem sequer teve início? Como se podem narrar os acontecimentos que se aproximam, mas que de fato ainda não aconteceram? Não se trata de infundados desejos ou de visões angustiadas e igualmente infundadas? Não é melhor dizer, com Albert Camus: “Pensar lucidamente e não esperar em nada?”
Não, na esperança cristã não falamos dos nossos desejos e das nossas angústias, e nem mesmo do futuro em si. Falamos de Jesus Cristo e de seu futuro. Nós recordamos a história de Jesus Cristo: sua vinda a este mundo, sua alegre novidade do Reino de Deus para os pobres, os enfermos e as crianças, o seu sofrimento e sua morte na cruz – e sua gloriosa ressurreição, com a plenitude da vida eterna que ele revelou.
A esperança cristã no futuro de Deus tem sua sã ancoragem no tornar presente sua história e sua ressurreição. E, no meio dia história está a sua cruz. A cruz, na comunidade de Cristo, é a pedra do escândalo para todos os espíritos utópicos e apocalípticos. Somente quem tem consistência ante o vulto do Cristo crucificado é esperança cristã.
Com o sinal da cruz são de fato expulsos também os espíritos enfermos e malignos dos por eles possuídos. Somente por trás da cruz sobre o Gólgota surge o sol da ressurreição. Somente além da cruz de Cristo desponta a aurora do novo mundo de Deus. A esperança cristã não é, de fato, otimismo que promete às pessoas de sucesso dias melhores. A fé em Cristo difunde esperança aonde de outro modo não há mais nada a esperar.
Com os braços da esperança cristã abraçamos o mundo inteiro e não damos nada nem ninguém por perdido. Assim como o Cristo ressurgido tem o seu futuro em Deus, ele não é somente o Redentor das nossas almas, mas também o Reconciliado do cosmos. De sua vinda esperamos, por isso, a grande transformação do mundo “do corpo corruptível à incorruptibilidade e do corpo mortal a imortalidade”, como anuncia o apóstolo Paulo segundo o exemplo do profeta Isaías. Cristo há de vir, mas nós fazemos a experiência de sua presença já aqui e agora na palavra do Evangelho e no Espírito que nos torna vivos; nós fazemos a experiência de sua presença já no batismo e na comunhão: nós fazemos a experiência de sua presença em companh9ia de quem crê e em companhia dos pobres e dos enfermos. Mais intensamente, fazemos a experiência do fato de que Jesus vive e então clamamos “Maranata, vem Senhor Jesus”, vem rapidamente (Ap 22, 20).
Resistência e antecipação são virtudes daqueles que esperam. No sofrimento, nas desilusões, nas dores e nas preocupações a esperança cristã mostra a sua força confortadora e resistente. Resistência e antecipação são virtudes daqueles que esperam. No sofrimento, nas desilusões, nas dores e nas preocupações a esperança cristã mostra a sua força confortadora e resistente. É confortador resistir nas dores e nas preocupações sabendo que este não é o fim, mas que precisamente ali ainda existe algo que vem. É encorajador não capitular diante do irrevocável, mas resistir sadios no protesto. Em força da esperança não nos rendemos, mas permanecemos inquietos e insatisfeitos num mundo injusto e violento. Nenhuma reconciliação com o mal! Nas situações de sofrimento a grande tentação é render-se. Eu mesmo corri este risco como prisioneiro de guerra da Segunda Guerra mundial. As promessas de Deus que despertam a nossa esperança nos colocam frequentemente em contradição com as experiências do nosso ambiente. O novo mundo de Deus tão esperado e o velho mundo do qual temos experiência, no qual vivemos e sofremos, se contradizem. Em tais situações, a sombra da cruz desce sobre nós.
Começamos a sofrer por um mundo injusto e violento, porque nos colocamos contra a injustiça e a violência. Se não esperássemos em nada, então nos adaptaríamos: o mundo é no fundo aquilo que é. O fato que não nos adaptamos é fruto da inextinguível fagulha da esperança que habita em nós. Pela força da esperança no novo mundo de Deus os hebreus e os cristãos oprimidos se contaram contra histórias sobre o decurso deste mundo. Trata-se das histórias de ressurreição do profeta Ezequiel, no capítulo 37: veja, aqui está a planície que estava repleta de ossos estorricados dos povos passados – mas, escuta, ali vem o espírito de Deus que os despertará e reconduzirá os mortos à vida. Por isso, não te rendas: a morte não tem a última palavra.
Existem as contra imagens apocalípticas, na revelação de João, da ‘grande prostituta da Babilônia’, que em breve cairá, e todos sabiam que com isto se entendia Roma e o império romano que perseguia hebreus e cristãos. A imagem da ‘Jerusalém celeste’ que descerá sobre a terra e terá duração eterna é uma contra imagem da Roma imperial que se fazia celebrar como ‘cidade eterna’. O próprio título de Senhor, na confissão ‘Senhor é Jesus Cristo’, é um contra título adverso aos poderosos imperadores romanos que se faziam exaltar como ‘senhores do mundo’.
O anúncio de Deus em nome de Cristo crucificado é, nestas condições, um discurso subversivo de Deus. Muitos dominadores perceberam que a Bíblia, para eles, é um livro perigoso porque chama à resistência, como o fizeram os cristãos na Coréia em 1919. “Senhor, nosso Deus, outros patrões, diversos de ti, nos tem dominado, mas nós a ti somente, o teu nome invocaremos” (Is 26,13): assim dizia o povo prisioneiro na Babilônia dirigindo-se ao Deus de Israel. Esta passagem foi muito apreciada pela Igreja professante durante a resistência contra a ditadura nazista na Alemanha.
Todavia, na vida da esperança não fazemos somente experiência de contradições e sofrimentos, mas também de sinais premonitórios de antecipações. Não podemos permitir-nos dizer que este modo é malvado e retirar-nos à vida privada, enquanto pudermos “vencer o mal com o bem”, como aconselhava Paulo na Epístola aos Romanos 12, 21. Por isso, devemos intervir na vida política e social do nosso povo e lutar pela verdade na política e pelo direito dos pobres; não com violência, mas com métodos não violentos, como ensina a teologia Minjung (na Coréia do Sul). Esta era a esperança do Movimento social Gospel na América, esta era a esperança da teologia da libertação na América Latina, esta era a esperança do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos e esta é a esperança do movimento ecológico na Europa: “Outro mundo é possível”.

Mas, antes de poder mudar algo em direção do bem, devemos estar dispostos a mudar-nos a nós mesmos. O Espírito da vida nos desperta do nosso egoísmo, da nossa indiferença com os outros. Sentimos a paixão pela vida e abrimos o nosso espírito e as nossas mãos à vontade de Deus. “Os pródigos do mundo futuro”, dos quais fala a Carta aos Hebreus 6,5, nos convida a agir. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

A PALAVRA... Nº 879. Fátima e a minha vocação.

terça-feira, 12 de maio de 2015

ORDEM TERCEIRA: Missão em Taubaté.

Influenciada pelo papa, Opus Dei muda cúpula em busca de carisma.

           
         
A Opus Dei se soma à onda renovadora que o papa Francisco promove na Igreja Católica. Pela primeira vez em quase um século de existência, a poderosa prelatura deixou aberta a porta para a possibilidade de que sua direção seja ocupada por alguém que não tenha trabalhado lado a lado com Josemaría Escrivá de Balaguer, o fundador santificado, ou que não tenha nascido na Espanha, onde estão as raízes de uma organização implantada em mais de 60 países. Assim se projeta a era pós-Escrivá nos tempos de Jorge Mario Bergoglio.
Em dezembro de 2014, o prelado Javier Echevarría, que aos 82 anos é a autoridade máxima da organização, nomeou vigário-auxiliar o franco-espanhol Fernando Ocáriz, e vigário-geral o argentino Mariano Fazio. A decisão insinua uma ordem sucessória da qual ficaria desalojado o influente arcebispo peruano Juan Luis Cipriani e coloca a prelatura diante de um cenário inédito. Na direção da Obra, fundada em 1928, nunca haviam convivido um prelado e um vigário-auxiliar.
"Será um momento histórico", descreve um porta-voz do escritório de informação da Opus. Na direção da organização se sucederam até agora três espanhóis: o fundador; o beato Álvaro del Portillo, que foi seu braço-direito durante 40 anos; e Echevarría, que por sua vez também foi colaborador de Balaguer por mais de 20. "Que chegue o momento em que o prelado não tenha conhecido nem trabalhado com o fundador é algo natural, e será uma nova demonstração da maturidade desta instituição da igreja."
Os analistas viveram a ascensão de Ocáriz ("um cargo é uma carga", matizam na Opus) como um ponto de inflexão na trajetória da instituição. E também como um gesto ao papa, que é jesuíta, prega com verbo fresco, nem sempre compartilhou as opiniões de Cipriani - excluído, por enquanto, do núcleo executivo - e trata com intimidade seu compatriota Fazio, o novo vigário-geral da Opus Dei.
        No segundo ano de seu pontificado, o papa Francisco mostrou que continua decidido a abrir várias frentes para reformar a igreja, imprimindo ao papado um novo estilo, mais próximo dos fiéis, e seguindo de perto tudo o que ocorre no mundo. Este álbum mostra a variedade de interesses e a frenética atuação de Jorge Mario Bergoglio ao longo de 2014. É de tirar o fôlego. 
"Efetivamente, o papa Francisco está promovendo uma forte renovação na igreja", disse José María Gil Tamayo, secretário-geral da Conferência Episcopal. "Não se trata de esperar que venham à igreja, mas sim de sair ao encontro das pessoas, e isso nos convida a renovar nossa forma de trabalho pastoral", continuou o porta-voz, que acrescentou sobre o caso específico da Opus: "A renovação que nos pedem afeta a todos na missão comum evangelizadora, na qual a especificidade de cada carisma de congregações, movimentos e associações deve ser posta a serviço dessa missão compartilhada sob a orientação de nossos bispos. Só estando unidos seremos verossímeis, como aponta o Evangelho".
            A prelatura tem cerca de 90 mil seguidores, distribuídos por mais de 60 países. Fortemente implantada na América Latina e na Europa, e com presença na África, dá agora seus primeiros passos no Casaquistão e no Vietnã e está pronta para iniciar seu trabalho em Cuba quando as circunstâncias políticas permitirem, segundo fontes consultadas. Em suas estruturas há mais mulheres que homens, segundo a organização. A idade média de seus integrantes aumentou na última década. Em sua maioria são laicos de classe abastada, com capacidade para influir nos gabinetes mais importantes; dedicados ao princípio de "santificar o trabalho"; e sempre cercados de críticos, alguns deles ex-membros da organização, que opinam que esta promove o conservadorismo, limita as leituras de seus integrantes e exerce o proselitismo.
Na Espanha, uma centena de colégios, a Universidade de Navarra e a escola de administração Iese têm relação com a Obra, que, segundo um porta-voz, lhes dá orientação espiritual. Essa radiografia resume a grande capacidade de influência e mobilização da Opus Dei, que durante a beatificação de Portillo, realizada em Madri em 2014, reuniu mais de 100 mil pessoas, entre elas dois ministros do governo e 40 mil jovens chegados de todos os recantos do planeta. Esses números refletem sua força para influir nas instituições e, em consequência, a importância das mudanças em sua cúpula.
"Com estas decisões sobre a quarta geração de dirigentes, se demonstra que não há medo de mudanças, que podem ser tutelados por alguém que não tenha estado em contato com o secretário-geral anterior", opinou José Manuel Vidal, formado em teologia e sociologia pela Universidade Pontifícia de Salamanca e diretor de Religião Digital. "Uma aproximação clara do papa, assim como fizeram os salesianos ao eleger reitor-maior um espanhol [Ángel Fernández Artime], que, entre outras coisas, conhece bem Francisco de sua estada em Buenos Aires", acrescentou sobre o cargo privilegiado que o argentino Fazio ocupa desde dezembro.
"O núcleo espanhol e mais velho quer ter o controle, mas chega um momento em que não pode. É a lei da vida", argumentou o sociólogo Alberto Moncada, autor de obras de tom crítico à instituição. "Fora da Espanha, a Opus é variada e plural, uma organização internacional."
Talvez não haja lugar fora da Espanha em que a Opus tenha mais força que na América Latina. Lá, Juan Luis Cipriani, o primeiro cardeal da organização, ficou afastado, por enquanto, da possibilidade de alcançar a prelatura. Quando Jorge Bergoglio, hoje o papa Francisco, presidiu a comissão de redação do documento final da 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (2007), Cipriani mostrou-se pouco chegado a sua tese, segundo fontes consultadas, e Fazio as compartilhou plenamente.
          Um porta-voz da Opus Dei negou que isso tenha a ver com o fato de Echevarría não ter contado com Cipriani para suas nomeações de dezembro, e salientou a relação "imelhorável" da instituição com o papa. Fontes consultadas afirmaram que Bergoglio veria com bons olhos que Cipriani estivesse em Roma. Monsenhor Lombardi, o porta-voz do Vaticano, declinou fazer comentários sobre o assunto. Assim, em silêncio, a Opus Dei continua projetando seu futuro. Fonte: http://brasil.elpais.com

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Carmelo: Crescer na Fraternidade: Dia de Espiritualidade em Vicente de Carvalho/RJ, com Frei Petrônio de Miranda.

ORDEM TERCEIRA DE VICENTE DE CARVALHO/RJ.
Dia de Espiritualidade Carmelitana. 09 de maio -2015.
Com Frei Petrônio de Miranda, O.Carm
(E-mail do Frei: missaodomgabriel@bol.com.br)
Carmelo: Crescer na Fraternidade.


No âmbito do Carmelo salientemos a ênfase sempre mais crescente sobre o valor teológico da fraternidade. A fraternidade vem sendo entendida, cada vez mais, como o leito e o núcleo do carisma carmelita.
             Chamados a viver vida de fraternidade, precisamos lutar para que a Ordem Terceira do Carmo seja prova concreta de que a fraternidade é possível. Fraternidade, que nasça da escuta e da meditação da Boa Nova e que leve a tornar mais humana à vida, a unir as pessoas, apesar de certas divergências, conseguindo ser assim uma presença do Evangelho. E é desta maneira que a nossa Ordem Terceira do Carmo se transforma em sinal de esperança, que fazem os pobres dizer a nosso respeito o que a viúva de Sarepta dizia ao Profeta Elias: “Agora sei que és um homem de Deus e que a Palavra de Deus está realmente sobre a tua boca” (1Rs 17,24).
Na Igreja fomos gerados como Família Carmelitana pelo Espírito Santo, mediante a experiência de um grupo de penitentes, peregrinos, eremitas, no contexto do grande movimento europeu, medieval, para recuperação da Terra do Senhor.
            O Espírito de Vida nos tornou fecundos quanto aos valores fundamentais da fraternidade evangélica: escuta e anúncio da Palavra, oração assídua, comunhão de bens, reconciliação fraternal, serviço recíproco e aos pobres, luta espiritual e empenho de libertação dos oprimidos, discernimento, solidariedade com todos os homens, esperança operante.
A atitude contemplativa para com o mundo em volta de nós, que nos faz descobrir Deus presente nas nossas experiências cotidianas, leva‑nos a encontrá‑Lo especialmente nos nossos irmãos. Desta maneira somos guiados a valorizar o mistério das pessoas que estão próximas de nós e com as quais compartilhamos a nossa vida.
A nossa Regra nos quer irmãos fundamentalmente e nos recorda como a qualidade dos relacionamentos e relações interpessoais, que caracterizam a vida da comunidade do Carmelo, deve desenvolver‑se segundo o exemplo inspirador da primitiva comunidade de Jerusalém. Ser irmãos significa para nós crescer na comunhão e na unidade, na superação das distinções e privilégios, na participação e na corresponsabilidade, na partilha dos bens, do projeto comum de vida e dos carismas pessoais; significa, também, atenção ao bem‑estar espiritual e psicológico das pessoas, percorrendo os caminhos do diálogo e da reconciliação. Estes valores da fraternidade se exprimem e encontram a sua força na Palavra, na Eucaristia e na Oração.
Na Palavra ouvida, rezada e vivida no silêncio, na solidão e em comunidade), especialmente na forma da "lectio divina", cada dia os Carmelitas são levados ao conhecimento e experiência do mistério de Jesus Cristo. Animados pelo Espírito e radicados em Cristo Jesus, nEle permanecendo dia e noite, eles inspiram na Palavra de Jesus todas as suas opções e o seu agir.
Os irmãos, inspirados pela Palavra e em comunhão com toda a Igreja, celebram juntos os louvores do Senhor e convidam outros a compartilhar da sua experiência de oração.
Para Frei Tito Brandsma, Carmelita, Jornalista e Mártir da Segunda Guerra Mundial (*1881 + 1942), era muito forte a vivência da fraternidade, quer no âmbito interno da Comunidade, quer no âmbito externo de suas relações apostólico-profissionais. Afirmava que, para ele, a vida comunitária era indispensável a fim de restaurar as forças para os diversos compromissos. Na comunidade revelava-se cheio de ânimo, acolhimento bondade, solidariedade. Era bastante leal e pronto a reconhecer os próprios limites e também os valores da tradição, tanto junto aos co-irmãos, como junto às demais categorias de sua convivência (judeus, protestantes, ateus, imigrantes).
Era um homem sem fronteiras e sem defesas, porém audaz, perseguindo sempre as vias da reconciliação com todos. Pelo fato de viver pacificado por Deus interiormente, não tinha medo de abrir a porta do próprio coração e da própria casa que se tornou um lugar comum de encontros fraternos. “O amor ganhará o coração dos pagãos”, afirmava, acrescentando que como assim se dizia dos primeiros cristãos, também se deveria dizer novamente dos cristãos de seu tempo. Seu amor fraterno o faz superar toda barreira de religião, de partido, de nação. Todos para ele eram considerados companheiros e irmãos.

Vida Comunitária e Oração.
Na primitiva comunidade cristã, a oração em comum era um distintivo específico. O livro dos Atos é um testemunho eloquente do espírito dessas comunidades. "Eram constantes em escutar o ensinamento dos apóstolos e na comunidade de vida, no partir do pão e nas orações”... (Atos, 2, 42-47).
É claro supor que ao costume judaico de escutar a palavra de Deus e de cantar salmos, acrescentavam a nova modalidade cristã de celebrar juntos a eucaristia. Com certeza os primeiros cristãos, doutrinados pelos apóstolos, tiveram em conta a insistência de Jesus no sentido de que vivessem unidos em um só coração e uma só alma. Recordariam também a forma de orar que o Mestre ensinara aos seus discípulos. O Pai Nosso é uma prece claramente comunitária. Não podiam referir-se a Deus no singular, mas tão só em grupo, no plural.
 Aparece evidente que os primeiros cristãos tiveram o costume de orar e de juntar-se para falar de Deus e para falar com Deus, na referência que Paulo faz aos Romanos, quando, escrevendo de Corinto, lhes anuncia o desejo de visitá-los: "Desejo ver-vos para comunicar-vos algum dom espiritual, para confirmar-vos, ou melhor, para consolar-me convosco e pela mútua comunicação de nossa fé comum" (Rom. 1, 11-12). Este renascer da oração comunitária surge paralelamente ao movimento de revalorização das comunidades em si mesmas e em todos os níveis. O Concílio Vaticano II é consciente disso e assim testemunha: A vida pessoal é incompleta sem a relação interpessoal: "O homem é, com efeito, um ser social e não pode viver nem realizar suas atividades sem relacionar-se com os demais" (G.S. 12). Isto mesmo deve afirmar-se a respeito da oração.
            Os bispos da América Latina, por sua vez, o asseveram explicitamente: "Além de buscar a oração íntima tende-se de modo especial para a oração comunitária, com comunicação da experiência de fé, com discernimento sobre a realidade, orando juntamente com o Povo (Puebla, 727).
Para meditação individual.
Texto Bíblico. (Atos dos Apóstolos. 4, 32-37).
1º- Somos da Ordem Terceira do Carmo ou um grupo de amigos?
2º- A nossa fraternidade carmelitana tem um olhar para o sofrimento do próximo ou para nós mesmos?

O catolicismo deprecia as mulheres

The New York Times
Frank Bruni

Como um vendedor de batatas Pringles soando alarme a respeito da obesidade, o papa Francisco assumiu o manto de feminista na semana passada.
Foi uma má combinação épica de mensageiro e mensagem, e digo isso como alguém que é grato por este papa, o admira enormemente e acredita que uma mudança de tom, mesmo sem uma mudança dos ensinamentos, tem significado e é digna de celebração.
Mas uma mudança de tom em desafio ao fato deve ser apontada (e criticada). Nem Francisco nem qualquer autoridade do baluarte do direito masculino conhecido como Vaticano pode afirmar de modo crível uma preocupação com a paridade dos sexos. A cozinha deles é suja demais para que possam criticar as manchas de ketchup na dos outros.
Na verdade, Francisco foi além da preocupação. Ele expressou ultraje, chamando de "puro escândalo" o fato de as mulheres não receberem remuneração igual por trabalho igual.
Ele deixou de fora a parte sobre as mulheres na Igreja Católica Romana nem mesmo terem uma chance de trabalho igual. Remuneração não é a questão principal quando você é impedido de exercer certas funções e é profundamente sub-representado em outras.
Remuneração não é a questão principal quando o simbolismo, rituais e o vocabulário de uma instituição exaltam os homens acima das mulheres e quando contestações a esse desequilíbrio são recebidas com a insistência de era assim e sempre será –-que o hábito está acima do esclarecimento e do bom senso.
Vamos ser claros. Apesar do serviço notável que a Igreja Católica realiza, ela é um dos patriarcados mais inabaláveis e dominantes do mundo, com princípios que não favorecem a igualdade.
Para as mulheres terem um tratamento justo na força de trabalho, elas precisam ao menos de algum grau de liberdade reprodutiva. Mas os bispos católicos nos Estados Unidos fazem enorme lobby contra a exigência da nova lei de saúde de que empregadores como escolas e hospitais religiosos incluam contracepção no plano de saúde de seus funcionários.
Não importa que apenas uma pequena minoria de católicos americanos siga a proibição formal da igreja ao controle da natalidade artificial. Alguns líderes católicos não apenas se agarram a essa restrição caduca; eles a promovem, apesar de seu efeito desproporcional sobre a autonomia das mulheres.
E como sua vilificação da Conferência da Liderança das Mulheres Religiosas, uma organização que representa 80% das freiras americanas, combina com igualdade das mulheres? Em 2012, o grupo foi condenado pelo Vaticano e colocado sob o controle de três bispos encarregados de limpá-lo de suas inclinações "feministas radicais", incluindo mais atenção aos pobres do que a costumes sexuais.
Para seu crédito, Francisco declarou uma trégua com as freiras no mês passado. Também para seu crédito, ele sinalizou solidariedade para com as mulheres que tentam limitar o tamanho de suas famílias e pediu aos líderes da igreja para não se envolverem demais em assuntos como aborto e casamento de mesmo sexo.

E a tendência no Vaticano e na Cidade do Vaticano aparentemente é de ter um maior número de funcionários do sexo feminino, apesar de em 2014, segundo a agência de notícias "The Associated Press", elas ocuparem menos de 20% das vagas de trabalho. Não precisava ser assim, mesmo considerando a exclusão das mulheres do sacerdócio.
Mas a recusa da igreja em seguir algumas das outras denominações cristãs e ordenar mulheres mina qualquer progresso na direção da igualdade que ela anuncia ou tenta. O sexismo está incorporado em sua estrutura, em seu fluxograma.
Homens, mas não mulheres, rezam a missa. Homens, mas nunca as mulheres, chegam a cardeais ou a papa. O clero masculino geralmente é tratado como "padre", que conota autoridade, enquanto as mulheres nas ordens religiosas costumam ser tratadas como "irmãs", que não.
E as coisas poderiam ser diferentes. Tradições mudam. História e mitologia cedem a novas interpretações.
Sim, a Bíblia diz que todos os 12 apóstolos de Jesus Cristo eram homens. Mas além dos 12 há Maria Madalena, a quem Jesus supostamente apareceu primeiro após a Ressurreição. O papel dela não é fundamental para o nascimento da igreja?
Não é mais importante que haja sacerdotes suficientes para ministrar a Eucaristia aos católicos do que todos os padres serem homens?
Será que a igreja pode se dar ao luxo de alienar uma geração inteira de mulheres jovens, perplexas diante de sua intransigência?
"Elas cresceram em um mundo onde todas as portas foram abertas para elas", disse Kathleen Sprows Cummings, diretora do Centro Cushwa para o Estudo do Catolicismo Americano, na Universidade de Notre Dame. "E há uma desconexão quando veem a igreja sem nenhuma liderança feminina –-no mínimo, não são elas que estão no altar."
Francisco não sancionou nenhuma discussão sobre colocá-las lá. Quando pressionado sobre isso por uma repórter italiana no ano passado, ele a lembrou que "as mulheres vieram da costela".
Era uma provocação? Ele riu e disse que sim. Mas a metáfora permanece e coloca as mulheres como ramificações, até mesmo como uma reflexão tardia.

Tradução: George El Khouri Andolfato. Fonte: http://noticias.uol.com.br

Frei Tito Brandsma, Perfil humano-Espiritual-Carmelitano

*Frei Emanuele Boaga, O. Carm. In Memoriam, e Irmã Augusta de Castro Cotta, Cdp

Perfil humano-Espiritual-Carmelitano

a) Características psicológicas
O ambiente familiar, aliado aos dons naturais - notável bagagem de qualidades humanas -  foi propício ao desabrocha­mento da rica personalidade de nosso Tito. Um seu biógrafo afirma: ‘Tito possui um físico gracioso e frágil, uma saúde não muito boa, mas um caráter vigoroso, feito de aço nobre e resistente’. Ele mesmo se define como um ‘otimista nato’. Era dotado de grande autocontrole, sempre se apresentando de bom humor, mesmo nos momentos de sofrimentos físicos (sofreu pelo menos quatro hemorragias intestinais). Mantém sempre a calma e a serenidade, revelando grande equilíbrio em todos os seus momentos. Sem sentimentalismos é cordial no trato, paciente para com todos, capaz de respeitar sempre as opiniões contrárias à sua, embora não abrisse mão de suas convicções profundas. É interessante o testemunho do policial que o interrogou; ‘Não se pode esperar que o Pe. Tito mude de opinião, por isso o consi­dero um homem perigoso’. E outro testemunha de vida afirmou: ‘Pe. Tito é um homem bom, mas quando necessário sabe ser enérgico’.
Tem uma elevada cultura que alia a um jeito humilde e simples de ser. Jamais usa sua sabedoria para vangloriar-se ou sobressair-se sobre os demais. Nas constantes viagens de trem, feitas em razão de seu serviço, escolhe sempre, de forma natu­ral, a terceira classe.
É dotado de enorme sentido de humor. Tudo nele é simples, sóbrio, sem nenhuma ostentação. Sua aparência é sem­pre a de uma pessoa comum, ainda que alguém tenha testemunhado sobre ele: ‘Era uma pessoa extraordinariamente fora do comum”. Isto é confirmado por outras afirmações, como:  ‘O contato com Frei Tito tinha um efeito calmante’. ‘Era um homem ‘sui generis’, com um grande coração’, atesta outra pessoa que com ele conviveu.
Esta rica personalidade humana é animada por uma fé inabalável, intensa, profunda, encarnada em seu dia-a-dia, herdada da família e aprofundada na formação. Tal experiência é alimentada pela oração e gera nele um filial abandono ao Senhor e à Sua Vontade. Gostava de repetir: ‘Devemos deixar que o Senhor faça sempre em nós o que lhe apraz’ e ‘Deus terá sempre a última palavra, já que em suas mãos podemos ter a certeza de que estamos seguros’.
Pode-se dizer que Frei Tito teve as seguintes e fortes características  que o tornam uma personalidade marcante:
- Vida social: pertencia às minorias sociais de seu país. Sua família encontra-se entre os 10% de católicos da sua região. Ao aprofundar seus conceitos filosóficos descobre o valor da pessoa humana e seus direitos. Sob esta luz vai encarar a relação com as diversas minorias de seu país:  não lutando contra qualquer delas, porém, tudo empreendendo para elevar todas à sua própria dignidade humano-espiritual.
- Vida eclesial: era católico com prática séria da vida eclesial: sensibilidade para com os problemas de seu tempo, participação ativa e criativa na vida da igreja. Sabia unir o amor e o serviço à Igreja ao amor e serviço ao ser humano. Sente-se, como Santa Teresa, ‘filho da Igreja’. Para servi-la, funda escolas, de­dica-se ao magistério, torna-se jornalista atuante, procurando por estes meios difundir a fé. Esta dedicação o levou ao martírio.
- Vocação carmelita: revelou grande empenho na ob­servância regular, vivendo com entusiasmo a espiri­tualidade e a mística carmelitanas, cuidando com verdadeiro carinho de tudo o que dizia respeito ao Carmelo, destacando-se no amor à Eucaristia e a Nossa Mãe. Dedicou-se a entusiasmar os co-irmãos para o estudo e a promoção da presença carmelitana na Igreja e na sociedade de seu tempo. Viveu intensamente os valores carmelitanos.

b) Vivência carmelitana
Frei Tito foi verdadeiro profeta em seu tempo. Revelou-se um notável ‘filho do Profeta Elias’, cultivando os valores inerentes ao profetismo carmelitano e vividos sob o olhar e doce presença de Maria. A busca da face de Deus, característica marcante da vida profética carmelitana, levou-o a uma intensa e contínua comunhão com os irmãos e ao serviço apostólico eficaz, culminando com o próprio martírio. Na prisão, já impotente para realizar seu trabalho e privado das estruturas da vida conventual e do apoio da comunidade, demonstrou a quali­dade de sua entrega ao Senhor: profunda, total e comprometida no verdadeiro seguimento do Senhor Jesus. Realizou sua vocação de Carmelita de forma admirável. Assumiu a vida religiosa tal como esta se apresentava no seu tempo. Nada fez para renovar suas estruturas internas, porém, passa todo o seu tempo servindo, através da Ordem, à Igreja e à comunidade humana de seu tempo. Deixou-se orientar pelos valores propostos na Regra do Carmo e vivenciados ao longo da caminhada do Carmelo.
Seu testemunho se transforma em verdadeira mensa­gem, nascida especialmente  da vivência do  ideal contemplativo e de sua experiência de vida como Carmelita, como Jornalista, como estudioso e como Mártir. Dentre os valores da vida carme­litana que tiveram primazia em sua vida: destacam-se: a busca do Deus verdadeiro, o amor à Eucaristia, a presença de Nossa Senhora em seus caminhos, a oração, a vivência da fraternidade e o apostolado.

1 - Dimensão contemplativa: busca, entrega, anúncio do Deus verdadeiro
Em todas as vivências de Tito pode-se verificar que a experiência de Deus foi constante e profunda, sobretudo desta­cada nos ambientes onde havia negação de Deus. Esta experiência foi a base vital de unificação de sua vida e suporte em todos os momentos, especialmente naqueles da prisão e do martírio. Encarnou a contemplação nos gestos quotidianos da vida antes e durante o cárcere.

Além da vida, diversos escritos de Tito nos revelam explicitamente esta sua experiência. Neles encontramos os ecos de seu coração contemplativo e uma visão bastante completa do conceito de Deus que nutriam sua contemplação. Tais conceitos foram por ele desenvolvidos, buscando criar e consolidar uma filosofia de base cristã que debatia com pessoas de destaque como Jacques Maritain, Etienne Gilson e Maurice Blondel. Sobretudo podemos destacar três textos que têm especial relevo, sobretudo pelas circunstâncias em que foram escritos. São eles:
- o discurso para a inauguração do ano acadêmico da Universidade Católica de Nijmegen, quando era rei­tor da mesma, em 1932:
- as anotações, em caderno particular de notas, diante do maravilhoso espetáculo da cascata de Niágara, em 1935;
- o discurso no Congresso Mariano de Tongerloo, em 1936.
Alguns pensamentos essenciais podem ser colhidos nestes documentos, como se verá adiante. Tito não apenas falava de Deus, como também desenvolvia em si um coração contemplativo, encarnando a contemplação no esforço contínuo de viver sinceramente conforme a ‘Palavra’ contemplada e acolhida em seu próprio ser, na realidade do irmão e na natureza. A contemplação da Palavra em Tito vem expressada através da alegria, da bondade, nos gestos quotidianos da vida, antes e durante o cárcere e nos campos de extermínio.
O estudo atento da vida de Tereza Neumann, de S. Lidvina de Schiedam e João Brugman e da mística carmelitana da paixão em Teresa de Jesus, João da Cruz e Maria Madalena de Pazzi, unidos à sua própria vivência, o levou a compreender como a descoberta de Deus na realidade, não isenta do sofri­mento como acham alguns. Escreveu: “Tantos sonham com uma mística cheia de doçura e de beatitude, sem pensar que Deus busca a nossa união na estrada do sofrimento, dos escárnios e da morte. A verdadeira mística leva ao Calvário para se repousar moribundo no abraço ao coração ensangüentado de Jesus na Cruz”.
Na prisão e nos campos de concentração, Tito continua desenvolvendo uma intensa vida contemplativa, revelando que Deus em seus desígnios é o único sentido de sua vida. Pratica tudo o que antes havia estudado e refletido. A sua experiência se torna união com os mistérios da morte e da ressurreição de Cristo. Torna-se para seus carcereiros um símbolo vivo de perdão e de redenção, como provam os inúmeros depoimentos sobre este seu tempo de vida. Atesta com suas atitudes que a morte é o definitivo doar-se pela causa dos irmãos. Aceita com Cristo o martírio, desejando reparar com o próprio sofrimento o pecado presente naquele meio de seu suplício.
É concreta sua união aos mistérios da morte reden­tora e da ressurreição do Senhor. Ele é testemunho do Deus vivo e do homem criado à sua imagem e semelhança, em lugares de abandono e de morte. Seu profetismo assume a forma da busca da conciliação como forma de anunciar o Deus vivo e verda­deiro e, portanto, de denunciar o mal, a violência, a injustiça. Torna-se também um símbolo de resgate e redenção: aceitando com Cristo o martírio, repara com o seu sofrimento o pecado dos seus carcereiros e torna-se para eles um irmão redentor.
De uma oração escrita como poema diante da imagem de Cristo, entre 11 e 12 de fevereiro de 1942 em Scheveningen, emergem duas profundas convicções contemplativas:
-a solidão compreendida como presença de Deus, como plenitude e recapitulação de tudo em Deus, em sua vontade amorosa e em sua doação de tudo;

- a aceitação alegre do sofrimento como meio de par­ticipação absoluta na morte sacrifical de Cristo na Cruz.
Realizou a dimensão carmelitana da contemplação, tes­temunhando que a presença de Deus deve não somente ser objeto de reflexão, mas precisa ser vivida, experimentando a sua Palavra, irradiando em todo o seu ser e seu agir tudo o que foi re­zado e interiorizado. Só assim acontece a transformação da vida. É ne­cessário viver contemplativamente (unir contemplação e realidade). Isto evita o dualismo, produz integração pessoal, leva a ver e a amar o mundo com os olhos e o coração de Deus.
A contemplação foi encarnada por Frei Tito nos gestos cotidianos de sua vida antes e durante a cadeia e nos campos de con­centração. Realiza a conformação à Palavra através da alegria, bondade com gestos concretos, confiança e esperança em Deus.

2 - Dimensão eucarística
A Eucaristia é o centro e o fundamento de sua vida cristã-carmelitana. Desde adolescente, percorria a pé grande distância, junto com seus irmãos, para participar da Missa. Permaneceu radicado nesta fé, em todos os anos de seu mi­nistério sacerdotal. É na Eucaristia que busca força e entusiasmo para suas múltiplas e exigentes atividades apostólicas, nas missões que lhe eram confiadas e na prisão.
Num profundo artigo sobre a vida carmelitana, tomando o Profeta Elias como modelo, lembra a necessidade que se tem de alimento, como ocorreu com o Profeta (1Rs 19,8), e indica onde encontrá-lo: na Eucaristia. Afirma que no Carmelo a vida mística e contemplativa é fruto da vivência eucarística. Relembra o que vivia intensamente: a Regra do Carmo prescreve que todos os membros da Comunidade Carmelitana participem quotidiana­mente do sacrifício eucarístico e que as Horas Canônicas sejam rezadas diante do Santíssimo Sacramento. Explica que nada impede que o altar seja bem ornamentado, pois não há nenhuma prescrição de pobreza limitando isto, como ocorre entre outras ordens.
Caminhando com Elias na força daquele pão divino, fiel à celebração da Eucaristia, Tito encontrava sempre na mesma a ajuda e o fortalecimento necessários a todas as suas lutas. Afirmou: “Depois da comunhão devemos contemplar sob as espécies eucarísticas e na profundidade de nossa alma o Deus que está passando.”

3 - Dimensão mariana
Um pequeno depoimento de Tito na prisão nos deixa entrever seu amor ardente a Maria: “Não possuo nenhum san­tinho de Nossa Senhora em meu Breviário, mas, naturalmente, na cela de um Carmelita deve haver uma figura sua. Então faço assim: no início do Breviário que estou usando, e que felizmente não me foi retirado, está uma bela imagem da Senhora do Carmo. Deixo o Breviário aberto sobre a mesa, no ângulo à esquerda do leito... Estando na mesinha basta levantar um pouco o olhar e tenho diante de mim tal imagem. Quando estou no leito, os meus olhos procuram a Senhora coroada de estrelas, Esperança de todos os Carmelitas”.
Se no momento de intensa dor encontra refúgio em Nossa Senhora é porque cultivou esta devoção, em forma teológica e madura, durante toda a sua vida. Nas vozes Carmelitanas que escreveu para o Dictionnaire de Spiritualité (II, 156-171), uma das qualidades que mais forte e freqüentemente sublinha da espiritualidade do Carmelo é a mariana, sob cuja luz explica as características místicas, afetivas e contemplativas da vida do Carmelita. Nutre sua devoção mariana com textos antigos e clássicos e com forte nota científica, o que nos indica as raízes de sua vivência mariana. Seu amor se traduzia no testemunho humilde, constante e caloroso.

Algumas de suas afirmações são essenciais à com­preensão do papel e do lugar de Maria na vida do Carmelo:
- a vocação carmelitana é ligada intimamente à imitação de Maria. Tito desenvolve em várias conferências o núcleo deste pensamento. Para ele, imitar é tomar Maria como exemplo, deixando que ela viva em nós. Ela é a mais alta perfeição possível a uma pessoa humana. Esta é a finalidade de nossa devoção mariana: “ser com Maria, theotocos”(aquela que gera Deus):.
- os Carmelitas devem prolongar na Igreja o que Deus operou admiravelmente em Maria: oferecer a Cristo uma nova oportunidade de se encarnar no mundo. Para Tito nada é mais importante para o Carmelita do que ser como Maria, ‘portadores de Deus’. Esta é uma boa síntese que faz da mística do Carmelo em sua ligação com Maria:
- a contemplação de Deus passa por Maria: é preciso olhar Maria para ver e admirar como age o mistério de Deus que a transformou na mais perfeita das criaturas e como Maria se deixou impregnar por Deus, abrindo-se inteiramente ao que Deus nela desejava realizar;
- dentre as reflexões sobre a ‘nuvenzinha de Elias’, afirma que na Ordem tal visão, foi sempre entendida como um protótipo do mistério da Encarnação e como antecipação da veneração da Mãe de Deus. Em razão desta fé, foi que os primeiros eremitas construíram, em meio às celas, o oratório de Nossa Senhora;
- a necessidade do empenho de todo Carmelita para promover o duplo espírito da Ordem com a cooperação e ajuda de Maria, sob cuja proteção se deve colocar cada ação, fazendo em sua honra tudo o que se deve fazer;
- em suas pregações sempre afirmava a união sublime en­tre a maternidade divina de Maria e nosso compro­misso cristão de levar Cristo ao mundo. Isto porque jamais via Maria dissociada do Mistério de Cristo;
- a contemplação e a meditação da vida apostólica do Redentor e da Co-Redentora, Maria, devem acender nos corações o zelo pela salvação das pessoas;
- uma das formas que encontrava para anunciar a beleza da vida mariana eram os retiros espirituais em perspectiva mariana. Apresentava-a como o modelo mais perfeito de união e de intimidade com o Senhor, como o ‘Espelho da justiça’... e assim o era porque trazia Jesus em si.
- ensinava a rezar o Magnificat com as mesmas disposições profundas de Maria, assimilando os valores nele contidos.
Do discurso em Tongerloo no ano de 1936 podemos colher a base de seu pensamento mariano, como segue:
- a vida mística nasce de uma mulher - Maria, a “Theotokos”, a mãe da qual Deus nasceu;
- a importância da imitação de Maria, devendo o cristão ser também “theotokos’ como Maria;
- portanto a mística da vida cristã deve consistir num “estar em gestação de Deus”,  como Maria, no con­texto do desenvolvimento do criado e da realidade.
Um belo gesto seu na prisão, revelando sua devoção mariana simples e profunda, foi a recitação do rosário, feito rus­ticamente de corda por um seu companheiro, irmão carmelita leigo, também prisioneiro. E muito significativo é o fato de oferecê-lo à enfermeira que lhe aplicaria a injeção letal, num gesto de gentileza e de compaixão por ela. Com amabilidade lhe diz que, se não pode rezar a primeira parte da Ave Maria, ao menos poderia rezar a segunda: “Rogai por nós pecadores”. Esta enfermeira mais tarde se converteu e foi a excepcional e única testemunha de sua morte.

4 - Dimensão fraterna
Era muito forte em Tito a vivência da fraternidade quer no âmbito interno da Comunidade, quer no âmbito externo de suas relações apostólico-profissionais. Afirmava que, para ele, a vida comunitária era indispensável a fim de restaurar as forças para os diversos compromissos. Na comunidade revelava-se cheio de ânimo, acolhimento bondade, solidariedade. Era bastante leal e pronto a reconhecer os próprios limites e também os valores da tradição, tanto junto aos co-irmãos, como junto às demais categorias de sua convivência (judeus, protestantes, ateus, imigrantes).
Era um homem sem fronteiras e sem defesas, porém audaz, perseguindo sempre as vias da reconciliação com todos. Pelo fato de viver pacificado por Deus interiormente, não tinha medo de abrir a porta do próprio coração e da própria casa que se tornou um lugar comum de encontros fraternos. “O amor ganhará o coração dos pagãos”, afirmava, acrescentando que como assim se dizia dos primeiros cristãos, também se deveria dizer novamente dos cristãos de seu tempo. Seu amor fraterno o faz superar toda barreira de religião, de partido, de nação. Todos para ele eram considerados companheiros e irmãos.

5 - Dimensão diaconal
Sua abertura eclesial e social levou-o a vários compro­missos: ao magistério que exercia apostolicamente desejando tes­temunhar e fortalecer a fé dos alunos; em conferências nos Movimentos Católicos pela paz, nos movimentos ecumênicos que então se chamavam de “Movimentos pela Reunificação” (Igreja Oriental e Protestantes); colaboração em iniciativas cultu­rais como na Enciclopédia Católica, na imprensa, especialmente nos jornais.
O jornalismo foi a sua segunda vocação, uma forma especial de apostolado para ele. Seus biógrafos destacam sobre esta sua atividade:
- as correspondências numerosas e os artigos para jornais holandeses nos anos em que estudou em Roma;
- a vasta e pluriforme colaboração  em periódicos e jornais diários;
- a fundação de um jornal diário (De Staad Oss) e de uma revista (Carmelrozen).
Os mesmos biógrafos sublinham que a sua paixão e inte­resse pelo jornalismo o levavam também a cuidar das necessida­des dos colegas jornalistas, ajudando-os com sua intervenção a encontrarem trabalho e oferecendo-lhes orientação quando preci­savam. Foi assistente eclesiástico da União dos Jornalistas Católicos (1935), oportunidade em que oferece fundamental con­tribuição para que fossem enfrentados os desafios técnicos, éticos e econômicos do jornalismo, próprios dos anos 1936-1937 (cf. seu Nieuwe Vormen in de Journalistiek, Utrecht, 24 maart 1937).
Para Tito o jornalismo era uma vocação e não um mero trabalho. Vocação que, a seu ver, realizada por um cristão e católico se tornava uma presença apostólica de elevado valor eclesial, no campo dos mass-media. Então como jornalista católico, procurava impregnar o técnico com o ético.  Destaca entre os diversos meios de comunicação (rádio, filmes, TV, etc, iniciados em seu tempo) a peculiaridade da imprensa, uma vez  que sendo o jornal impresso diariamente, sua natureza deve torná-lo portador de novidade. O jornal tinha a vantagem (na época do Tito) de uma mais vasta difusão, sendo de mais fácil leitura em qualquer momento e com plena liberdade, como considerava Tito. Para ele, o jornal, através das crônicas, tem a possibilidade de oferecer atualidades quoti­dianas, com informações, comentários e interpretações que de­vem, contudo, ser coerentes. O jornal católico tinha a função de ajudar o leitor a vivenciar os valores evangélicos, além de levar-lhe informações. Considera-o um meio formativo, útil para educar no amor e na verdade. Por isso o jornalista católico precisa ajudar a ver a realidade e ler o mo­mento histórico com olhar crítico.
Lendo suas contribuições (especialmente artigos para o De Gelderlander) pode-se verificar como o jornal se torna para ele um veículo de inteligente inculturação e de divulgação dos valores presentes nas raízes e no patrimônio do povo católico holandês e nos novos caminhos da evangelização, seu grande objetivo.
Nos duros momentos da ocupação nazista da Holanda, como assistente eclesiástico dos jornalistas católicos e em obediência à hierarquia, organiza a resistência católica no campo do jornalismo. Tinha consciência de que fazendo isto corria o risco de morrer. Entretanto, não se acovardou. Ardorosamente de­fendia os judeus da injustiça nazista e reivindicava a liberdade para a escola e o jornalismo católicos. De fato a objetividade, a coerência, a solidariedade e a fidelidade ao testemunho evangélico levaram o carmelita-jornalista ao martírio (prisão, humilhações, dores e morte).

*Curso de Formação Carmelitana em módulos. Módulo- VI. Testemunhas da Vivência Carmelitana. São João del Rei – MG. 2003.

Frei Tito Brandsma, um grito desta esperança.

*Frei Emanuele Boaga, O. Carm. In Memoriam, e Irmã Augusta de Castro Cotta, Cdp

Frei Tito foi escritor por vocação. Somando-se os livros, artigos em jornais e contribuição em enciclopédias, seus escritos chegam a 796 trabalhos. A sua primeira publicação foi aos 20 anos de idade. O tema: “Antologia de textos extraídos das obras de Santa Teresa de Jesus” (editada em 1901). O último escrito foi uma nota ou apontamento para a reflexão da Sexta-feira Santa de 1942 no campo de concentração de Amersfoord, sobre a Mística da Paixão. Como se vê, para Frei Tito, em qualquer lugar se pode anunciar o Deus vivo e verdadeiro!
Quase todos os seus escritos são em holandês; alguns fo­ram editados em inglês e francês (o texto das conferências nos EUA e um artigo sobre a espiritualidade carmelitana) e em alemão (entre os quais um livrinho sobre o profeta Elias). Para a indicação dos seus principais escritos espirituais ver no Dictionnaire de Spiritualité, XV, 1008-1009. Presentemente está disponível uma “Antologia” ou coleção de seus textos sobre a mística, editada em holandês (Titus Brandsma, Mistick Leven - Een Bloemlezing, elaborado por B. Borchet, Nijmegen, 1985, 224 pp.).

Diante de Jesus Crucificado[1]

Quando te vejo, ó Jesus
Compreendo que tu me amas;
como o mais querido dos amigos,
e sinto que te amo
como o meu bem supremo.

O teu amor, eu o sei,
exige sofrimento e coragem;
mas o sofrimento é o único caminho
para a tua glória.

Se novos sofrimentos se adjuntam ao
meu coração
eu os considero como um doce dom;
porque me fazem mais semelhante a Ti,
porque me unem a Ti!

Deixa-me sozinho neste frio;
não preciso mais de ninguém.
A solidão não me mete medo,
porque Tu estás perto de mim.

Fica Jesus, não me deixas!
A tua divina presença
torna fáceis e belas
todas as coisas!

De algumas obras estão sendo feitas traduções em várias línguas. Em Português temos atualmente apenas:
- A Beleza do Carmo, em “O Escapulário do Carmo” 9, (Fátima, 1964) e 10 (Fátima 1965). Trata-se de tradução do inglês do texto das conferências feitas nos EUA (Original: “Carmelite mysticism”, Chicago, 1936).
- Minha cela. Escritos de um mártir na prisão. Tradução: Frei Bento Caspers e Dom Vital Wilderink, São Paulo-Paranavaí 1990. 
- A Jesus com Maria. Retiro Espiritual em 10 dias, em “Stella Carmeli” 1 (São Paulo, 1955) 52-62; 2 (1956) 3-20; e também foi editado no livrinho seguinte (p. 21-66) e reeditado como apêndice no livro “Minha cela”
- O discurso sobre o conceito de Deus, em. 1932 (trad. Frei Gabriel Haamberg).
Este último escrito é fundamental para a compreensão do pensamento de Tito sobre Deus e seu empenho para levá-lo ao ambiente universitário.
*Curso de Formação Carmelitana em módulos. Módulo- VI. Testemunhas da Vivência Carmelitana. São João del Rei – MG. 2003




[1] Texto escrito no cárcere de Scheveningen, nos primeiros dias de sua prisão, na noite entre 12 e 13 de fevereiro de 1942.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

A Palavra do Frei Petrônio

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 870. Dia do Trabalhador

ORDEM TERCEIRA DO CARMO DE SALVADOR: Um Olhar.

Primeiro de Maio: Da Chicago de 1886 a Curitiba de 2015

Leonardo Sakamoto

Trabalhadores entraram em greve para reivindicar direitos que consideravam justos. E, em uma das manifestações, a polícia abriu fogo contra a multidão.

Curitiba, 2015? Poderia ser. Mas estou falando da Chicago de 1886.
A greve geral que começou no dia Primeiro de Maio daquele ano, exigindo a redução da jornada de trabalho para oito horas por dia, acabou em tragédia, com manifestantes e policiais mortos e sindicalistas condenados (injustamente) à morte. Nos anos seguintes, a data foi escolhida para ser um dia de luta por condições melhores de trabalho. Menos nos Estados Unidos, em que o Labor Day é na primeira segunda-feira de setembro.
Quem visita a cidade norte-americana, encontra uma frase gravada em um monumento: “Chegará o dia em que o nosso silêncio será mais poderoso do que as vozes que vocês estrangularam hoje''.
Só o trabalho gera riqueza. E o silêncio de trabalhadores, que se reconhecem como tais, percebem a injustiça que, muitas vezes, recai sobre eles e resolvem cruzar os braços, não apenas aumentou salários, mas já ajudou a derrubar regimes, a democratizar países, a mudar o rumo da história.
Nesta sexta, o poder da mobilização e a discussão sobre direitos que está na origem do Primeiro de Maio é ofuscada pelo sorteio de carros e casas e shows de cantores populares em cima de trio elétricos. E, não raro, por discursos vazios de pessoas que falam em nome dos trabalhadores em proveito próprio.
E 129 anos após os trabalhadores de Chicago irem às ruas exigirem jornada de oito horas, nós ainda não a conseguimos por aqui.
A última redução de jornada ocorreu há exatos 27 anos, na Constituição de 1988, quando caiu de 48 para 44 horas semanais. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) calculou que uma jornada de 40 horas com manutenção de salário aumentaria os custos de produção em apenas 1,99%. O aumento na qualidade de vida do trabalhador, por outro lado, seria muito maior: mais tempo com a família, mais tempo para o lazer e o descanso, mais tempo para formação pessoal.
Outros vão dizer: mas boa parte das empresas já opera com o chamado oito horas por dia, cinco dias por semana. Mas não todas. Principalmente em atividades rurais. Ou que jornada de trabalho não faz mais sentido em um momento em que a internet torna a jornada flexível. O problema é que “jornada flexível'' raramente significa trabalhar menos, mas estar mais tempo ligado ao trabalho ao longo do dia.
A proposta que pede a redução da jornada também aumenta de 50% para 75% o valor a ser acrescido na remuneração das horas extras. Ou seja, tem que trabalhar mais? Que se pague bem por isso.
Ao mesmo tempo, o poder público ainda trata trabalhadores que reivindicam por seus direitos como um caso de polícia, da mesma forma que a Chicago do século 19.
Seja em Curitiba ou em qualquer cidade grande brasileira, temos relatos de trabalhadores em greve que apanharam, levaram tiros e respiraram gás.
Manifestações que questionam a desigualdade e a injustiça social tendem a ser reprimidas pela força pública. São vistas como subversivas. As “ordeiras'', que não mexem com a estrutura econômica e social do país, não. Por que será?
O Brasil está correndo a passos largos para rasgar sua legislação trabalhista – sob um governo que se autodeclara “dos trabalhadores''. Se a ampliação da terceirização não significasse redução de direitos, não estariam tentando te convencer tão arduamente de que isso é melhor para você e para o país.
Sem contar que há um rosário de projetos tramitando no Congresso Nacional que depreciam a vida do trabalhador, como os que reduzem a idade mínima para começar a trabalhar ou os que pioram a definição de trabalho escravo para diminuir a sua punição.
Há mais de 100 anos, buscava-se direitos trabalhistas e previdenciários. Agora, luta-se para mante-los.
Neste Primeiro de Maio, não esqueça: todos os direitos que você tem hoje não foram dados por alguém de forma milagrosa, mas são fruto de lutas brasileiras ou internacionais de gerações. É função dos governantes fazem parecer que foram eles que, generosamente, lhes concederam. E função da história dos vencedores registrar isso como fato.
Temos diversas formas de silêncio. O poder não está no silêncio das bocas fechadas que aceitam as coisas como elas são porque acreditam que nada pode mudar e fica feliz se ganhou uma TV do sindicato no feriado. Mas dos braços parados que se negam a produzir riqueza sem que um diálogo aberto e franco com os empregadores seja estabelecido.
Trabalhadores são fortes. Pena que se esquecem disso.