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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

RETIRO EM CARMO DE MINAS/MG- 08.

Milagre de Nossa Senhora do Carmo: Mãe e irmã compreensiva...

Cido Antunes (Ex- Frade Carmelita), São José dos Campos, São Paulo.

 
Em Janeiro de 2008, mais um fato marca a minha vida, e pode crê como é forte pertencer a uma família.

Neste período, passei a sofrer de uma terrível dor de cabeça, ida e vindas do hospital e nada de descobrir o que havia de errado. A dor passou também a afetar meus olhos, uma dor insuportável. Até que um médico decidiu me internar para uma avalição mais profunda.

No dia seguinte os médicos desconfiavam que fosse dengue ou sarampo, pois começaram aparecer manchas pelo meu corpo e nesta época morávamos em Aparecida-  SP e por ser uma cidade turística existia sempre a possibilidade de doenças trazidas de outras regiões.

Terminados os exames não era nenhuma nem outra. Mas a dúvida persistia. Que doença seria? Então chamaram um infectologista para fazer sua análise. Ele me examinou, consultou livros e chegou a um veredicto: Um tipo de Rubéola bem agressiva.

Naquele instante, as preocupações mudaram de foco, há poucos dias tínhamos descoberto que minha esposa estava grávida e que o contato dela com essa doença não seria bom para o feto, podendo trazer graves consequências.

Após essa tempestade, só restava saber qual seria o resultados dos exames que minha esposa estaria realizando, para descobrir se seu organismo era imune a esse vírus.

Voltei para o quarto, sozinho, um isolamento, pois não se tinha ainda muitas certezas e pensando em tudo aquilo passei a olhar a vista da janela do meu quarto, entre um prédio e outro vi a torre de uma Igreja, e o mais surpreendente que no topo dessa torre havia uma imagem de Nossa Senhora do Carmo, lá de braços aberto com seu escapulário. Quando entrou uma enfermeira eu perguntei: Que igreja é aquela? É o colégio do Carmo, das irmãs salesianas. Então pensei: “Ó minha irmã, olhai por mim e minha esposa neste momento de angústia, não desamparai e nem nos desprezai”.

Na manhã seguinte, nunca que chagava o resultado dos exames e a angústia só aumentava. Às onze horas, chegou o resultado: Minha esposa era imune ao vírus. Graças a Deus!

Um grande alívio chegou, agora era só aguardar minha melhora e retornar para casa. Eu ficava todo dia olhando para minha irmã- Digo, Nossa Senhora do Carmo na torre da igreja, que de longe me olhava e acompanhava.

No último dia, quando fui ter alta, passei na capela do hospital para agradecer a Deus e a Nossa Senhora.

Peguei uma bíblia que estava ali e abri no livro de Salmos. Abri num salmo sem pretensão alguma e este salmo era o de numero 16 e dizia o seguinte no verso 16. “Sou ter servo, Senhor, filho de tua serva”. Sl 16,16.

Ali, mais uma vez pode testemunhar a presença de Maria, Irmã que caminha conosco e sempre pronta em nos socorrer. Vale apena ser carmelita!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

*MÍSTICA E MÍSTICOS. MÍSTICA: PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO (5ª Parte)

Dom Frei Vital João Wilderink, O. Carm.

 
Perceber a realidade tal como ela é chama-se experiência. Em qualquer experiência a pessoa se capta em relação com a realidade do mundo, da natureza, de si mesma, de Deus. Muitas vezes trata-se de contatos rotineiros, às vezes de uma descoberta de algo novo que atrai e convida, como acontece com pessoas que vão ver várias vezes o mesmo filme, o mesmo quadro, a mesma paisagem. A experiência é sempre acompanhada de sentimentos e emoções, de pensamentos e, mesmo, de ações. O que importa, porém, é a consciência da relação. Sem ela não se pode falar de experiência pessoal.  A experiência trata e carrega, veicula a realidade tal como dela o homem pode tomar consciência. Consciência que varia de acordo com o nosso jeito de ser, a nossa personalidade caracterizada por certos traços psicológicos cuja estruturação depende de diversos fatores, aspirações, critérios, etc. que ao longo dos anos interiorizamos. O que faz a pessoa situar-se frente às coisas que a rodeiam. É algo normal e até necessário para alguém poder tomar posição nos seus relacionamentos.[1]
Em tudo isso, porém, não deixa de haver uma certa ambiguidade porque a pessoa ao tomar posição, define a realidade que vem ao seu encontro. Em outras palavras: quem diz “eu” facilmente cria distância e isolamento. Transferimos o nosso eu para os outros, as coisas, o mundo, etc. O nosso eu classifica as coisas. Quanto mais trabalhamos com categorias do próprio eu, tanto menos somos capazes de um verdadeiro encontro. O nosso eu é o melhor vigia da sua própria prisão. Como acontece ao que se posiciona numa perspectiva neo-liberal: só é real o que promove o mercado. Aos poucos pode surgir uma alienação que impede o reconhecimento de outras dimensões importantes da vida humana. A mística oferece nesta época-do-eu valiosos contra-modelos, como Francisco de Assis que na sua pobreza se reconcilia com tudo e com todos, 
O que dizer da nossa relação com  Deus? Por vezes recebo folders de casas de retiro com o convite: venha fazer uma experiência de Deus! Penso que o êxito de um retiro depende da descoberta de que só Deus pode se mover para que o homem o encontre, pois se é Mistério, pertence a Ele estabelecer a modalidade de meu encontro com Ele. É doloroso descobrir que temos a tendência de reduzir Deus ao nosso tamanho. Mesmo querendo assumir a nossa condição de “peregrinos do Absoluto” carregamos na mochila os nossos “ídolos domésticos”, como fez Raquel quando partiu com Jacó, seu marido, para a Terra prometida a Abraão: “colocou-os na sela do camelo e sentou-se em cima”(Gn 31,34).  O próprio Jacó, apesar  da sua “teologia” mais ortodoxa que a da sua esposa, lutou com Deus a noite inteira até a aurora. Luta que deixou uma lembrança: Jacó ficou mancando. Mas não conseguiu que o “Adversário” lhe revelasse sua identidade (Gn 32,23-33). São imagens que ilustram o itinerário dos místicos. No século XIV, o autor inglês anônimo do tratado A nuvem do não-saber, utiliza uma linguagem que pode estranhar por uma aparente agressividade em relação às criaturas. Na realidade, o autor visa o eu que se apropria as criaturas e o próprio Deus, o que impede a verdadeira união com Ele. Só no despojamento do eu, descobre-se que não existe competição entre Deus e as criaturas.
 
Não permita que nada influa em sua mente ou em sua vontade, a não ser Deus. Tente destruir todo e qualquer conhecimento e experiência de qualquer coisa abaixo de Deus e reprimir, e arremesse tudo bem abaixo sob a nuvem do esquecimento. Entenda que neste exercício você deve esquecer não só todas as criaturas fora de você - e o que elas fazem e o que você faz - mas também deve esquecer você mesmo, até o que fez por causa de Deus. Porque é próprio do amante perfeito não apenas amar acima de si mesmo aquilo que ele ama, mas também em certo sentido detestar a si mesmo por causa daquilo que ele ama. É assim que deve fazer em relação a si mesmo. Todo objeto que influencie a sua compreensão e a sua vontade, você deve considerar como abominável e enfadonho... Esta massa disforme nada mais é do que você mesmo; isto deverá parecer-lhe como uma coisa única, só e solidificada com a substância do seu ser, como se não houvesse divisão entre eles. Portanto, você tem que destruir todo conhecimento e sentimento de todo tipo de criatura, porém muito especialmente de você mesmo. Pois é do seu próprio conhecimento e experiência que dependem o conhecimento e a experiência de todas as demais criaturas.[2]
O eu só admite o que lhe é conhecido. É um terreno cercado, propriedade particular onde o estranho, o desconhecido não entra. O Outro que é Deus também o deixa constrangido se não se assentar na cadeira que lhe reservamos. Quando a sua Presença se anuncia, tão diferente das visitas programadas pelo eu, este não sabe mais o que fazer. Perplexo, perdido, vai percebendo a sua situação de alienação no relacionamento com Deus. A casa do eu fica toda desarrumada. Já não se sente à vontade na sua casa “religiosa”, mas não encontra uma saída porque no vazio que se criou não há indicação do rumo a seguir. Mas a noite é necessária para encontrar a luz. João da Cruz descreve esta aventura mística no poema da Noite escura da subida do Monte Carmelo. No desenho que fez desse itinerário da subida, escreveu numa certa altura: Quanto mas tenerlo queria, com tanto menos me hallé. Há uma experiência da própria impotência diante do Mistério de Deus. E no outro flanco da montanha: Quanto menos lo queria, tengolo todo sin querer. A manifestação do Mistério pertence à iniciativa gratuita do Absoluto. Descobrir a Realidade última que está por baixo de todas as realidades visíveis, exige um desentulhamento da casa do eu.
 
Em uma noite escura
com ânsias, em amores inflamada,
ó ditosa ventura!
saí sem ser notada,
estando já minha casa sossegada.
 
Às escuras, segura,
pela secreta escada disfarçada,
ó ditosa ventura!
em trevas, às escondidas,
estando já minha casa sossegada.
 
Nessa noite ditosa,
em segredo, porque ninguém me via,
nem via eu qualquer coisa,
exceto a que no coração ardia.
 
Fiquei-me e esqueci-me,
o rosto inclinado sobre o Amado,
cessou tudo e rendi-me
em meio de açucenas olvidado.




[1] Cf Paul Mommaers, Wat is mystiek, pp. 26-34.
[2] A nuvem do não-saber, tradução portuguesa, São Paulo, Paulus, 1987, capítulo XLIII, pp. 111-112

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Retiro da Ordem Terceira do Carmo, Carmo de Minas- MG.

                                               Data: 14, 15 e 16 de fevereiro-2014.
Pregador: Frei Petrônio de Miranda, 0. Carm.
Tema: A Espiritualidade Carmelitana.
3º Texto para reflexão: A Noite Escura.
 
            São João da Cruz (1540-1591), filho de Elias, pela vida e pelos escritos mostrou conhecer noites escuras pontilhadas de estrelas ou de trevas sem luz. E ensina a caminhar.
            A Noite Escura "é o fim do narcisismo e da abstração, é disponibilidade para o encontro com o outro e com os outros. É a constante adaptação do homem a Deus. Não é um breve período de crises, mas uma situação permanente, porque nunca nós acabamos de nos adaptarmos à lógica divina, ao amor de Deus. Atitude crítica para consigo mesmo e perante a realidade; discernimento frente à história e dentro da história; uma consciência da relatividade das metas alcançadas, concedendo espaço para a novidade do Espírito. A noite é consequência do amor, é escola de amor. É o meio pelo qual se consegue uma nova consciência: tornamo-nos mais livres para Subir a Montanha sem que Nada se interponha (1S,13)".

Noite Escura
São João da Cruz, Carmelita.
 
Numa noite escura,
Ansiosa, ardente de amor,
Ó, feliz ventura!
Sai sem ser vista,
Estando minha alma sossegada.
 
Na escuridão e em segurança,
Pela secreta escada disfarçada,
Ó, feliz ventura!
Na escuridão e às ocultas,
Estando minha morada sossegada.
 
Na noite ditosa,
Em segredo ninguém me via,
Não vendo outra coisa,
Sem outro guia nem luz
Que aquele que em meu coração brilhava.
 
Esta me guiava
Mais segura que a do meio dia,
Lá onde me esperava
Quem eu bem sabia
Em lugar o qual ninguém aparecia.
 
Ó noite que me guiastes,
Ó noite mais amável que a aurora!
Ó noite que reuniste
O Amado com a amada
A amada no Amado transformada!
 
Sobre meu seio florido,
Que para Ele só se guardava,
Ficou adormecido,
E eu o acariciava,
E o leque de cedros refrescava.
 
A brisa suave da ameia,
Quando eu afagava seus cabelos,
Com sua mão serena,
E pescoço me tocava,
E meus sentidos todos avivava.
 
Imóvel, esquecida,
O rosto inclinado para o Amado;
Tudo parou, abandonei-me,
Deixando entre os lírios
Ao olvido minha apreensão.

Noite Escura de Elias
O Profeta Elias, feliz na tranquilidade de Carit ou no aconchego da casa pobre da mulher de Sarepta e seu filhinho, é despertado pela tristeza da morte de um menino: é escuridão. "Javé, meu Deus, matando o filho dela, o Senhor quer afligir até mesmo esta viúva que me deu hospedagem?" (1Rs 17,20).  "Responda-me, Senhor! Responda-me!" (1Rs 18,37). "Javé, agora já é demais! Pode tirar a minha vida, pois não sou melhor do que os meus pais!" (1Rs 19,4). Comeu e bebeu e tornou a prostrar-se (1Rs 19,6). Depois quarenta dias e quarenta noites a caminho, sem comer nem beber (1Rs 19,8). "Estou só e querem tirar-me a vida!" (1Rs 19,10.14). Javé não estava não, nem no furacão desmantelador de montes e rachador de rochedos. Javé não estava nos tremores de terra, não (1Rs 19,11). Javé não estava no furor do fogo e dos raios, também não. Estava sim numa brisa calma, que cobriu Elias com o manto e com força o trouxe fora das cavernas (Rs 19,12-13). Um carro de fogo e cavalos de fogo arrancaram Elias de junto de Eliseu, e num redemoinho de fogo lá se foi Elias para o céu. Noites e luzes. Procurado por três dias (2Rs 2,11.17)[1]
 
Noite Escura de Maria
Virgem feliz em casa de Joaquim e Ana, mas é preciso dizer sim à vontade de Javé: "Eis-me aqui! Eu sou a escrava do Senhor. Aconteça em mim tudo segundo a tua palavra" (°1,38).
É preciso deixar pai e mãe e Nazaré, com muita coisa preparada para o nascimento e seguir José até Belém. Na hospedaria não há lugar e o Menino não vai esperar mais: Ela mesma tem de envolvê-Lo em faixas e acomodá-Lo dentro da manjedoura (°2,5.6.7). O boi e burro tenham paciência, e as mansas ovelhinhas... É preciso que o velho Simeão venha com aquela profecia? Para rebaixamento e soerguimento? Alvo diante da contradição? Uma espada que transpassa a alma? O velho estava vendo a Virgem-Mãe de pé junto à Cruz? (2,34-35)...

Noite Escura de Jesus

Menino unido com a Mãe que faz parte e participa da Noite Escura da Mãe nos mistérios da sua infância. Cresce e, conduzido pelo Espírito, caminha pelo deserto de Elias. Tem fome e é tentado pelo chato do diabo, que se cansa e o deixa em paz.

            Em Jerusalém causa-Lhe lágrimas e tristeza, e sentida elegia e lamentação. Amor traído faz sofrer. Jesus chorou. Quis ser como a galinhazinha de Nazaré, que com carinho sempre juntava a ninhada debaixo das asas, mas Jerusalém não quis...

            No meio da Escuridão é preciso falar com os amigos sobre a beleza da Luz e das alegrias do Reino: "o meu Corpo é dado em sacrifício por vós", "o meu Sangue é derramado por vós": "no meu Reino haveis de comer e beber à minha mesa" (22,19-20.30). Esperança: consolo e esperança somente...

            Edith Stein (1891-1942), judia- alemã, carmelita, filha dedicada de São João da Cruz, comenta: "Em Cristo, graças à sua natureza divina e à sua livre determinação, nada havia que se opusesse ao amor. Viveu Ele cada momento da sua existência em abandono sem reserva ao amor de Deus. Fazendo-se homem, tomou Ele sobre Si todo o peso do pecado do homem, abraçando-o com o seu amor misericordioso e ocultando-o na sua alma: no "Aqui estou, com o qual iniciou a sua vida na terra; depois, na renovação expressa desta sua missão no Batismo, e no Fiat do Getsêmani. O fogo da expiação cintilou primeiro no seu íntimo; em seguida, nos sofrimentos todos que acompanharam a sua vida; irrompeu inextinguível no Jardim das Oliveiras e sobre a Cruz, já que então desaparecera a sensação de gozo, que Lhe era concedida pela indissolúvel união com o Pai, lançando-O nos braços da dor a ponto de infligir-Lhe a última provação: o abandono extremo por parte do Pai.

Para meditação individual.
Texto Bíblico. (1º Reis, 19, 1-9)
1º-A Ordem Terceira do Carmo é uma comunidade Orante, Profética e Fraterna ou é uma fuga das noites escuras da vida?
2º-Como a Espiritualidade Carmelitana vivenciada pelos mártires e santos carmelitas; Simão Stock, Tito Brandsma, Edith Stein, Isidoro Bakanja, João da Cruz, Santa Teresinha... Ajuda-me a superar as noites escuras diárias? 

A PALAVRA... Nº 539. Eremitério Carmelita-04

SEM MEDO DE SER FELIZ: Cantando com Frei Petrônio-02

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Retiro da Ordem Terceira do Carmo, Carmo de Minas- MG.

                                          Data: 14, 15 e 16 de fevereiro-2014.
Pregador: Frei Petrônio de Miranda, 0. Carm.
Tema: A Espiritualidade Carmelitana.
3º Texto para reflexão: Carmelo: Crescer na Fraternidade.
 
 
No âmbito do Carmelo salientemos a ênfase sempre mais crescente sobre o valor teológico da fraternidade. A fraternidade vem sendo entendida, cada vez mais, como o leito e o núcleo do carisma carmelita.
             Acontecimentos traumáticos do nosso século, como as duas guerras mundiais, os regimes totalitários e a descoberta nuclear puseram em crise o caráter mítico e utópico de muitos aspectos da modernidade.
             Viver a unanimidade significa ter "um só coração e uma só alma", isto é, numa convergência essencial de intenções e pontos de vista sobre um projeto comum e, ao mesmo tempo, uma boa dose de maturidade, veracidade e transparência no agir que venham criar o pressuposto para relações autênticas. Tal unanimidade é o pressuposto fundamental para que o amor circule entre os irmãos e se instaurem relações autênticas (JO 3,1.18).
Chamados a viver vida de fraternidade, precisamos lutar para que as nossas comunidades sejam prova concreta de que a fraternidade é possível. Fraternidade, que nasça da escuta e da meditação da Palavra e que leve a tornar mais humana a vida, a unir as pessoas, apesar de certas divergências, conseguindo ser assim uma presença do Evangelho. E é desta maneira que a nossa Ordem Terceira do Carmo se transforma em sinal de esperança, que fazem os pobres dizer a nosso respeito o que a viúva de Sarepta dizia ao Profeta Elias: “Agora sei que és um homem de Deus e que a Palavra de Deus está realmente sobre a tua boca” (1Rs 17,24).
Na Igreja fomos gerados como Família Carmelitana pelo Espírito Santo, mediante a experiência de um grupo de penitentes, peregrinos, eremitas, no contexto do grande movimento europeu, medieval, para recuperação da Terra do Senhor.
            A peregrinação a Jerusalém, que nos deu origem e nos plasmou no início, com o tempo tornou-se um estilo típico da nossa caminhada evangélica para a perfeição. O Espírito, ao longo dos séculos, suscitou da mesma raiz carismática modalidades diversas de vida carmelitana, seja da contemplação, seja do serviço apostólico consagrado, seja de presença cristã na realidade social e leiga.
            O Espírito de Vida nos tornou fecundos quanto aos valores fundamentais da fraternidade evangélica: escuta e anúncio da Palavra, oração assídua, comunhão de bens, reconciliação fraternal, serviço recíproco e aos pobres, luta espiritual e empenho de libertação dos oprimidos, discernimento, solidariedade com todos os homens, esperança operante.
            Fonte deste processo tem sido a escuta orante, pessoal, comunitária da Palavra do Senhor, enquanto a centralidade da Eucaristia quotidiana tem sido o fermento, síntese e modelo da unidade e dos projetos de santidade eclesial.
            A devoção à Mãe do Salvador, Maria, a Virgem Puríssima, Irmã, Padroeira e Esplendor do Carmelo, e a evocação inspiradora do Profeta Elias, vêm constituindo a linguagem comum entre nós, seja na espiritualidade, seja na atividade pastoral.
      Tudo isto nos vem da história e hoje torna-se história lá onde o carisma carmelita é vivido na abertura aos novos caminhos do Espírito".
 
Para meditação individual.
 
Texto Bíblico. (Atos dos Apóstolos. 4, 32-37).
1º- Somos da Ordem Terceira do Carmo ou um grupo de amigos?
2º- A nossa fraternidade carmelitana tem um olhar para o sofrimento do próximo ou para nós mesmos?

A Espiritualidade do Escapulário

Frei Alonso Malaquias, 0. Carm.

          No dia 19 de fevereiro de 2000, estava eu viajando para Jaboticabal (SP). Ia até o Noviciado ensaiar melodias para o Ofício Divino com os nossos candidatos. Deveria estar em boa velocidade, dentro do permitido, afinal a rodovia Washington Luiz é muito boa. Senti que o sono me tomava de assalto, mas persisti na minha teimosia, afinal faltavam apenas 40 minutos para chegar. Cochilei. Acordei com o carro virado no jardim que separa as duas pistas.

Só quem passou por isso é que sabe do que falo: o carro totalmente fora de controle, barulho de vidro quebrado, lata amassando, caminhões buzinando e você sendo jogado de um lado para o outro. É a total impotência. A sensação é de uma força de morte que iria destruir-me. Vi que era o meu fim!

Foi neste desespero que gritei por Nossa Senhora do Carmo. Prensei-me contra o banco e, segurando fortemente no volante, me encolhi o mais que pude. O carro continuou capotando até para  na outra pista de roda para cima. Com medo de alguma explosão, saí imediatamente pela janela. Estive consciente o tempo todo. Saí ileso. Cortei somente a palma da mão e a cabeça devido aos vidros. Ao ficar fora do carro e ver o veículo inteiramente destruído, é que tomei consciência do que realmente acontecera.

Recebi muita ajuda dos caminhoneiros e de outras pessoas. Experimentei quão generosas são as pessoas na estrada. Fui levado para o pronto-socorro. Só na ambulância lembrei-me que tirara o Escapulário alguns dias antes, pois estava velhinho e queria trocar por outro. Constatei o quanto Maria me amou e protegeu. Ela não dependeu de um objeto para socorrer-me.

Você me perguntará: Mas como? Não é preciso estar sempre com o Escapulário se quiser que nada de mal me aconteça? Eu respondo, meu irmão: bem mais importante que apenas usar o Escapulário como objeto de sorte, o que ele não é nem de longe, o Escapulário nos ajuda na exata medida em que interiorizamos os valores que ele contém: primeiro, a confiança filial no socorro de Maria; segundo, a consagração da própria vida a ela em vista da expansão do Reino do seu Filho; o que se realiza; em terceiro, pela imitação das suas virtudes que são exatamente as que encontramos nos evangelhos: confiança total na Palavra de Deus e não em si mesmo; conformidade de nossa vontade com a vontade do senhor; uma vida toda impregnada da sua presença e, por isso mesmo, por nos sentirmos intensamente amados por Deus (vida e oração), participando da vida da Igreja, amando o próximo, principalmente os mais pobres e esquecidos, como foi o amor de Jesus (vida de serviço).

O santo Escapulário nos ajuda da seguinte forma: com o passar dos dias, das várias situações que nos atingem na vida, cada vez que o vemos em nós lembramos de nossa aliança de amor com Maria e vamos, na medida que nossas fraquezas permitem, amadurecendo a fé. O Escapulário nos infunde coragem e otimismo. Maria está conosco! A fé não se reduz ao sentimentalismo nem ao intelectualismo, embora o sentimento e a razão também a constituam. Mas a fé tem mais que ver com a vontade: adesão sincera ao Pai cuja única vontade é nos salvar por seu Filho no Espírito Santo. Fé é construir a nossa vida sobre a Rocha que é Cristo.

Eu sei que mesmo padres me diriam: “O que aconteceu com você não se tratou da ação de ninguém. Foi pura sorte”. Mas eu, que me vi perdido na boca da morte, e tendo invocado com toda a confiança o socorro de Nossa Senhora, fui atendido e salvo, tenho consciência do que escrevo.

E você também poderia perguntar-me: “e como se explica os que morreram mesmo tendo invocado também o socorro de Maria? No que você é melhor do que eles?” Pergunta justa. Respondo dizendo que não sou melhor nem pior que ninguém. Somos todos filhos amados intensamente por Deus. Analiso o que aconteceu a partir da minha experiência pessoal, de alguém que passou (como todos os dias passam muitos) por uma experiência limite e voltou novamente à vida. Não pretendo ter a resposta final. Penso no ocorrido como uma resposta de Maria em vista de uma missão que tenho a cumprir, ou ainda não estivesse pronto para partir... De fato, não sei. Só tenho a agradecer e louvar.

Daqui surgem várias perguntas: “por que nesta terra o justo e o bom sofrem tanto e são os mais desprezados, enquanto os ímpios injustos gozam sempre de saúde e são cada vez mais ricos? Deus não vê estas injustiças? Se Deus é bom, por que há no mundo tantos horrores?” Estas perguntas são corajosas. Estas são as perguntas de Jó. O credo dos primeiros cristãos era este: “eles mataram Jesus suspendendo-o numa cruz, Deus, porém, o ressuscitou...” (Cf 1 Cor 6, 14). Em Cristo temos a resposta para vencer o sofrimento, seja ele pessoal seja social.

Pode ser que num outro ocidente (Deus nos livre a todos!), eu invoque novamente Nossa Senhora e não seja salvo, não aconteça nada. Mas, mesmo aqui, o santo Escapulário me lembra da fé que temos na comunhão dos santos. Maria nos ama mesmo na morte. Ela está conosco neste momento crucial da nossa existência que é o encontro definitivo com Deus. Estará aí também nos auxiliando para aceitarmos que a vontade de Deus nos purifique que saibamos pedir perdão e perdoar àqueles que nos fizeram mal, e assim, amando a Deus com o coração purificado pelo fogo do Espirito, entremos na posse definitiva da Trindade.

O santo Escapulário é uma bênção de Deus, um sinal externo de nossa mútua aliança com Maria: de seu lado, Maria nos protege e guia para Cristo, único Salvador. Do nosso lado, procuramos imitar os belíssimos exemplos de seguimentos de Jesus que ela nos deixou.

A PALAVRA... Nº 537. Canção Nova ou Fanatismo Religioso?

5º Domingo. Ano-A. Missa em Angra-03.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A PALAVRA. Nº 534. A fidelidade de São João Batista.

Retiro da Ordem Terceira do Carmo, Carmo de Minas- MG.

                                           Data: 14, 15 e 16 de fevereiro-2014.
Pregador: Frei Petrônio de Miranda, 0. Carm.
Tema: A Espiritualidade Carmelitana.
2º Texto para reflexão: A Dimensão contemplativa da vida Carmelitana.
 
           
Com efeito, desde as origens, a comunidade dos carmelitas adotou um estilo contemplativo, tanto nas estruturas como nos valores fundamentais. E tal estilo ressalta da Regra com evidên­cia. A Regra delineia uma comunidade de irmãos toda entregue à escuta orante da palavra ([1]) e assídua na celebração do louvor do seu Senhor ([2]); uma comunidade composta por pessoas que sabem deixar-se habitar e plasmar pelos valores do Espírito: castidade, pensamentos santos, justiça, amor, fé, espera da salvação ([3]), trabalho realizado na paz ([4]), silêncio que, como afirma o Profeta, é o culto da justiça e que dá sabedoria ao falar e ao agir ([5]), discernimento que é "o orientador das virtudes" ([6]).
            A tradição da Ordem sempre interpretou a Regra e o carisma fundante como expressão da dimensão contemplativa da vida, e para esta vocação contemplativa sempre se voltam os grandes mes­tres espirituais da Família Carmelitana. A contemplação começa quando nos entregamos a Deus, qualquer que seja o modo que Ele escolha para achegar-se de nós. É uma atitude de abertura a Deus, cuja presença encontramos em toda parte. A contemplação constitui, assim, a viagem interior do Carmelita proveniente da livre iniciativa de Deus, que o toca e o transforma, rumo à unidade de amor com Ele. Esta é uma experiência transformante por parte do amor de Deus, que é soberano. Este amor esvazia-nos dos nossos modos humanos de pensar, amar e agir, limitados e imper­feitos, transformando-os em divinos.
A contemplação possui ainda um valor evangélico e eclesial ([7]). O seu exercício não só é fonte da nossa vida es­piritual, mas também determina a qualidade da nossa vida fraterna e da nosso serviço no meio do Povo de Deus ([8]).
            De fato, os valores da contemplação, se vividos com fidelidade nas com­plexas vicissitudes da vida cotidiana, fazem da fraternidade carmelitana um testemunho da presença viva e misteriosa de Deus no meio do seu povo. A busca do rosto de Deus e o acolhimento dos dons do Espírito tornam a nossa fraternidade mais atenta aos sinais dos tempos, mais sensível às sementes da presença do Verbo na História, através até da visão e valorização dos fatos e dos eventos na vida da Igreja e da sociedade ([9]).     Assim, o Carmelo solidário como Jesus Cristo com os dramas e esperanças da humanidade ([10]), saberá assumir decisões adequadas para transformar a vida e fazê-la conforme com a vontade do Pai.
            Além disto, para o bem da Igreja, ajudará todos os que se sentirem chamados para a vida eremítica.

Para meditação individual.

Texto Bíblico. 1º Reis, 19, 9- 14.

2º- É possível contemplar e silenciar no barulho familiar, sonoro, audiovisual e midiático (Televisão, rádio, internet, escrita...) ou é necessário fugir a exemplo do Profeta Elias para encontrar Deus?    

1º- Segundo o mártir e beato Carmelita, vítima da Segunda Guerra Mundial, Frei Tito Brandsma, “Devemos olhar o mundo com Deus no fundo”. Diante da violência, guerra, fome, catástrofes e luta pela sobrevivência, consigo ver Deus agindo no meio dessa grande confusão ou está tudo perdido? 


    [1]  Cf Regra  c. 7.
    [2]  Cf Regra  c. 8.
    [3]  Cf Regra  c. 14.
    [4]  Cf Regra  c. 15
    [5]. Cf Regra  c.16
    [6]  Cf Regra  Epílogo
    [7]. Cf PC 7; can. 674.
    [8]. Congregação Geral de 1986, 406
    [9]. Cf. GS 41; 2º Conselho das Províncias 93
    [10]  Cf  GS 1.