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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Papa aos jovens: ouçam a voz de Deus, construam um mundo melhor

Cidade do Vaticano (RV) - O Papa Francisco enviou uma carta aos jovens, nesta sexta-feira (13/01), de apresentação do documento preparatório do Sínodo dos Bispos de 2018.
O Pontífice inicia a carta manifestando sua alegria de anunciar aos jovens que, em outubro de 2018, se realizará a 15ª Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos sobre o tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”. 
O documento preparatório foi apresentado, esta manhã, na Sala de Imprensa da Santa Sé. Um dos objetivos do texto é encontrar as melhores maneiras para acompanhar os jovens a reconhecer e acolher o chamado à vida plena e anunciar o Evangelho de maneira eficaz.
A carta dá início a uma fase de estudo da parte do Povo de Deus. É endereçada às Conferências Episcopais, aos Conselhos dos Hierarcas das Igrejas Orientais Católicas, aos departamentos da Cúria Romana e à União dos Superiores Gerais. Espera-se também a participação dos jovens através de um site.
O Secretário-Geral do Sínodo dos Bispos, Cardeal Lorenzo Baldisseri, abriu a coletiva com os jornalistas apresentando a estrutura do documento que tem como objetivo recolher informações sobre a atual condição sociocultural dos jovens de 16 a 29 anos, nos vários contextos em que vivem, a fim de entendê-la, em vista dos passos preparatórios sucessivos para a assembleia dos bispos. 
O texto é dividido em três partes: ver a realidade, a importância do discernimento, e ação pastoral da comunidade eclesial. A Igreja deseja acompanhar os jovens na descoberta e realização de sua vocação.
“Deve ser esclarecido que o termo vocação deve ser entendido no sentido amplo e diz respeito a grande variedade de possibilidade de realização concreta da própria vida na alegria do amor e na plenitude decorrente do dom de si a Deus e aos outros. Trata-se de encontrar a forma concreta em que esta realização plena possa se realizar através de uma série de escolhas, que articulam estado de vida, matrimônio, ministério ordenado, vida consagrada, etc. profissão modalidade de compromisso social e político, estilo de vida, gestão do tempo e dinheiro, etc”, disse o Cardeal Baldisseri na coletiva.
Completa o documento preparatório um questionário que prevê a coleta de dados estatísticos sobre cada igreja local, a resposta a várias perguntas para entender melhor casa situação e a partilha de boas práticas pastorais em andamento para que possam ser de ajuda a toda a Igreja. 
Os jovens serão plenamente envolvidos nesta fase preparatória através de um site a fim de recolher suas expectativas e vida. 
“O próximo Sínodo não quer somente se interrogar sobre como acompanhar os jovens no discernimento de sua escolha de vida à luz do Evangelho, mas quer também colocar-se à escuta de seus desejos, projetos e sonhos que os jovens têm para sua vida, como também das dificuldades que encontram para realizar o seu projeto a serviço da sociedade à qual pedem para ser protagonistas ativos”, disse o Subsecretário do Sínodo dos Bispos, Mons. Fabio Fabene.
Para envolver os jovens serão criadas várias iniciativas, vigílias de oração, encontros internacionais e concertos. As respostas ao questionário do documento preparatório e as dos jovens serão a base para a redação do Documento de trabalho o Instrumentum laboris, que será o ponto de referência para o debate dos Padres sinodais.
A seguir, a carta do Papa aos jovens.
“Quis que vocês estivessem no centro das atenções, porque os tenho em meu coração. Exatamente hoje foi apresentado o Documento preparatório, que confio também a vocês como «bússola» ao longo deste caminho”. 

Sair
“Vêm-me à mente as palavras que Deus dirigiu a Abraão: «Sai de sua terra, do meio de seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei». Hoje, estas palavras são dirigidas também a vocês: são palavras de um Pai que os convida a «sair» a fim de serem lançados em direção a um futuro desconhecido, mas portador de realizações seguras, encontro ao qual Ele mesmo os  acompanha. Convido-os a ouvir a voz de Deus que ressoa em seus corações através do sopro do Espírito Santo”, ressalta o Papa no texto. 
“Quando Deus disse a Abraão «Sai», o que queria lhe dizer? Certamente, não para fugir de sua família, nem do mundo. O seu foi um convite forte, uma provocação, a fim de que deixasse tudo e partisse para uma nova terra. Qual é para nós hoje esta nova terra, a não ser uma sociedade mais justa e fraterna que vocês almejam profundamente e desejam construir até às periferias do mundo?” 
“Mas hoje, infelizmente, o «Sai» adquire também um significado diferente. O da prevaricação, da injustiça e da guerra. Muitos de vocês, jovens, estão submetidos à chantagem da violência e são forçados a fugir de sua terra natal. O seu clamor sobe até Deus, como o de Israel, escravo da opressão do Faraó”, destaca o Pontífice. 

Discernir
“Recordo-lhes também as palavras que certo dia Jesus proferiu aos discípulos, que lhe perguntavam: «Rabi, onde moras?». Ele respondeu: «Vinde e vede!». Jesus dirige o seu olhar também a vocês, convidando-os a caminhar com Ele.” 
“Queridos jovens, vocês encontraram este olhar? Ouviram esta voz? Sentiram este impulso a pôr-se a caminho? Estou convencido de que, não obstante a confusão e a perturbação deem a impressão de reinar no mundo, este apelo continua ressoando em seu espírito para o abrir à alegria completa. Isto será possível na medida em que, também através do acompanhamento de guias especializados, vocês souberem empreender um itinerário de discernimento para descobrir o projeto de Deus em sua vida. Mesmo quando o seu caminho estiver marcado pela precariedade e pela queda, Deus rico de misericórdia estende a sua mão para os erguer”, sublinha ainda o Papa.
Agir
Na abertura da última Jornada Mundial da Juventude, em Cracóvia, perguntei-lhes várias vezes: «Podemos mudar as coisas?». E vocês gritaram juntos um «Sim!» retumbante. Aquele grito nasce do seu coração jovem, que não suporta a injustiça e não pode submeter-se à cultura do descarte, nem ceder à globalização da indiferença. Escutem aquele clamor que vem do seu íntimo! Mesmo quando sentirem, como o profeta Jeremias, a inexperiência de sua jovem idade, Deus os encoraja a ir para onde Ele os envia: «Não tenha medo [...] pois eu estou com você para protegê-lo».
Constrói-se um mundo melhor também graças a vocês, ao seu desejo de mudança e generosidade. Não tenham medo de ouvir o Espírito que lhes sugere escolhas audaciosas, não hesitem quando a consciência lhes pedir para arriscar a fim de seguir o Mestre. Também a Igreja deseja colocar-se à escuta de sua voz, de sua sensibilidade, de sua fé; até de suas dúvidas e suas críticas. Façam ouvir o seu grito. Deixem ele ressoar nas comunidades e o façam chegar aos pastores. São Bento recomendava aos abades que, antes de cada decisão importante, consultassem também os jovens porque «muitas vezes é exatamente ao mais jovem que o Senhor revela a melhor solução».
“Assim, através do caminho deste Sínodo, eu e os meus irmãos Bispos queremos, ainda mais, «colaborar para a sua alegria». Confio-lhes a Maria de Nazaré, uma jovem como vocês, à qual Deus dirigiu o seu olhar amoroso, a fim de que os tome pela mão e os  guie para a alegria de um «Eis-me!» pleno e generoso”, conclui o Papa. 

NÃO SER CARANGUEJO: Frei Petrônio.

INVESTIR NA VIDA: Frei Petrônio.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

NÃO TER AMIGOS: Frei Petrônio.

Quando uma mãe perde um filho, aproxime-se com lágrimas, não com palavras, diz o Papa.

Nas profundezas do desespero, quando palavras e gestos já não ajudam, chorem com os que sofrem, porque as lágrimas são as sementes da esperança, disse o Papa Francisco.

Quando alguém está sofrendo, "é necessário compartilhar de seu desespero. A fim de enxugar as lágrimas do rosto de quem sofre, devemos nos unir ao seu choro. Esta é a única maneira de as nossas palavras poderem realmente oferecer um pouco de esperança", disse ele, no dia 4 de janeiro, durante sua última audiência pública semanal.
"E se não for possível oferecer estas palavras, de lágrimas, de tristeza, é melhor o silêncio, o carinho, um gesto, sem palavras", disse ele. A reportagem é de Carol Glatz, publicada por Catholic News Service, 04-01-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.
Em sua primeira audiência pública do ano, o Papa continuou sua série de catequeses sobre a esperança cristã, refletindo a respeito da tristeza inconsolável de Raquel e do luto por seus filhos, que "já não existem", como disse o profeta Jeremias.
O fato de Raquel se recusar a ser consolada "expressa a profundidade de sua dor e a amargura do seu choro", disse o Papa aos que estavam reunidos na Sala Paulo VI do Vaticano.
"Diante da tragédia da perda de seus filhos, uma mãe não suporta palavras ou gestos de consolo, que são sempre insuficientes, sempre incapazes de aliviar a dor de uma ferida que não pode e não quer ser curada", disse ele. A dor, disse o Papa, é proporcional ao amor em seu coração.
Raquel e seu choro, segundo ele, representam cada mãe e cada pessoa ao longo da história que chora uma "perda irreparável".
A recusa de Raquel também "nos ensina o quanto é necessário ter sensibilidade" e a delicadeza com a qual se deve abordar uma pessoa com dor, disse o Papa.
Jeremias mostra como Deus respondeu a Raquel de uma forma amorosa e gentil, com palavras "genuínas, não falsas".
O Papa declarou que Deus responde com uma promessa de que suas lágrimas não são em vão e que seus filhos devem retornar do exílio e então haverá nova vida e esperança.
"Lágrimas geraram esperança. Não é fácil de entender, mas é verdade", disse ele.
"Muitas vezes, em nossa vida, as lágrimas multiplicam a esperança, são sementes de esperança", afirmou Francisco, enfatizando que as lágrimas de Maria ao pé da cruz geraram nova vida e esperança para aqueles que, por meio de sua fé, tornaram-se seus filhos no corpo de Cristo: a Igreja.
Este "Cordeiro de Deus" inocente morreu por toda a humanidade, o que é sempre importante lembrar, especialmente ao se confrontar com a questão de por que os filhos sofrem neste mundo, disse ele.
O Papa declarou que quando as pessoas perguntam-lhe o porquê de tanto sofrimento, ele não tem resposta. "Eu só digo: 'Olhe para a cruz. Deus nos deu a seu filho, que aqui sofreu, e talvez lá você encontre uma resposta."
Nenhuma palavra ou resposta cabível vêm à mente, disse ele, só se pode olhar para o amor que Deus demonstrou ao oferecer seu filho, que ofereceu a sua vida. Isto pode levar a algum caminho de consolo.
A palavra de Deus é a palavra definitiva de consolação "porque nasce das lágrimas".

Papa Francisco: Jesus tem autoridade porque estava próximo das pessoas.

Jesus tinha autoridade porque servia as pessoas, estava próximo das pessoas e era coerente, ao contrário dos doutores da lei que se sentiam príncipes. Estas três características da autoridade de Jesus foram destacadas pelo Papa na reflexão matutina da terça-feira (10/01), na Casa Santa Marta.
O Pontífice sublinhou que os doutores da lei ensinavam com autoridade “clericalística”, afastados das pessoas, não viviam aquilo que pregavam.
A autoridade de Jesus e aquela dos fariseus são os dois eixos em torno dos quais orbita a homilia do Papa. Um é uma autoridade real, o outro formal. No Evangelho do dia se fala do estupor das pessoas porque Jesus ensinava “como alguém que tem autoridade” e não como os escribas: eram as autoridades do povo, destaca Francisco, mas aquilo que ensinavam não entrava no coração, enquanto em Jesus havia uma autoridade real: não era “um sedutor”, ensinava a Lei “até o último detalhe”, ensinava a Verdade com autoridade.
O Papa desce aos pormenores e reflecte sobre as três características que diferenciam a autoridade de Jesus daquela dos doutores da Lei. Enquanto Jesus “ensinava com humildade”, e diz aos seus discípulos que “o maior seja como aquele que serve: faça-se menor”, os fariseus se sentiam príncipes:
“Jesus servia as pessoas, explicava as coisas para que as pessoas entendessem bem: estava ao serviço das pessoas. Havia um comportamento de servidor, e isto Lhe dava autoridade. Ao invés, os doutores da lei que as pessoas ... sim, escutavam, respeitavam mas não reconheciam que tivessem autoridade sobre eles, estes tinham uma psicologia de príncipes: ‘Somos os mestres, os príncipes, e nós ensinamos vocês. Não serviço: nós mandamos, vocês obedecem”. E Jesus nunca se fez passar por um príncipe: era sempre servidor de todos e isto é o que Lhe dava autoridade”.
É o estar próximo das pessoas, na verdade, que confere autoridade. A proximidade é a segunda característica que diferencia a autoridade de Jesus daquela dos fariseus. “Jesus não era alérgico às pessoas: tocava os leprosos, os doentes, não lhe dava repugnância”, explica Francisco, enquanto os fariseus desprezavam “as pobres pessoas, ignorantes”, eles gostavam de passear pelas praças, bem vestidos:
“Eram distantes das pessoas, não eram próximos; Jesus era muito próximo das pessoas, e isso dava autoridade. Os distantes, aqueles doutores, tinham uma psicologia clericalística: ensinavam com uma autoridade clericalística, isto é, o clericalismo. Eu gosto tanto quando leio a proximidade às pessoas que tinha o Beato Paulo VI; no número 48 da “Evangelii Nuntiandi” se vê o coração do pastor próximo: ali está a autoridade daquele Papa, a proximidade”.
Mas há um terceiro ponto que diferencia a autoridade dos escribas daquela de Jesus, e é a coerência, Jesus “vivia o que pregava”: “havia como uma unidade, uma harmonia entre aquilo que pensava, sentia e fazia”.” Enquanto quem se sente príncipe tem “uma atitude clericalística”, isto é hipócrita, diz uma coisa e faz outra:
“Ao invés, essas pessoas não eram coerentes e sua personalidade era dividida a ponto que Jesus aconselhava seus discípulos: “Fazei o que eles dizem, mas não o que fazem”: diziam uma coisa e faziam outra. Incoerência. Eram incoerentes. E o adjectivo que Jesus usa muitas vezes é hipócrita. E dá para entender que quem se sente príncipe, que tem uma atitude clericalística, que é uma hipócrita, não tem autoridade! Dirá verdades, mas sem autoridade. Jesus, ao invés, que é humilde, que está ao serviço, que está próximo, que não despreza as pessoas e que é coerente, tem autoridade. E esta é a autoridade que o povo de Deus sente”.
Concluindo, para explicar plenamente isto, o Papa recorda a parábola do Bom Samaritano. Diante do homem abandonado meio morto na estrada pelos brigantes, passa o sacerdote e vai embora porque tem sangue e pensa que se o tivesse tocado se tornaria impuro; passa o levita, diz o Papa, e “creio pensasse” que se tivesse se envolvido, depois deveria testemunhar no tribunal” e tinha tantas coisas para fazer. E também ele vai embora. No final, vem o samaritano, um pecador que, ao invés, sente piedade. Mas tem outro personagem, o hospedeiro, nota o Papa, que fica impressionado não com o ataque dos brigantes, porque era uma coisa que acontecia naquela estrada, não pelo comportamento do sacerdote e do levita, porque os conhecia, mas pelo comportamento do samaritano. O estupor do hospedeiro diante do samaritano: “Mas ele é louco”, “não é hebreu, é um pecador”, podia pensar. Francisco então liga este episódio com o estupor das pessoas do Evangelho de hoje diante da autoridade de Jesus: “uma autoridade humilde, de serviço”, “uma autoridade próxima das pessoas” e “coerente”. Fonte: http://pt.radiovaticana.va

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

“O clericalismo instrumentaliza a lei e tiraniza o povo”.

O mal do clericalismo, presente nos tempos de Jesus e ainda hoje na Igreja, é uma “prepotência e tirania” para com o povo fiel de Deus por parte dos sumos sacerdotes que, esquecendo-se de Abraão e de Moisés, instrumentalizaram a lei criando uma lei “intelectualista, sofisticada e casuística”. Disse-o o Papa Francisco na homilia que fez no dia 13 de dezembro, durante a missa matutina na Capela da Residência Santa Marta. Francisco destacou também que “o pobre Judas traidor e arrependido não foi acolhido pelos pastores”. A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi e publicada por Vatican Insider, 13-12-2016. A tradução é de André Langer.
O povo humilde e pobre que tem fé no Senhor é a vítima dos “intelectuais da religião”, “os seduzidos pelo clericalismo”, que no Reino dos céus serão precedidos pelos pecadores arrependidos, disse o Pontífice argentino, segundo indicou a Rádio Vaticano.
Refletindo sobre o Evangelho do dia, no qual Jesus recordou qual era o papel destes últimos: “Eles tinham a autoridade jurídica, moral e religiosa”, “decidiam tudo”. Anás e Caifás, por exemplo, “julgaram Jesus”, eram os sacerdotes e os chefes que “decidiram matar Lázaro”, e Judas foi vê-los para “negociar” e assim “vendeu Jesus”. Um estado de “prepotência e tiraria para com o povo” ao qual chegaram, disse o Papa, instrumentalizando a lei: “Mas uma lei que eles refizeram inúmeras vezes: tantas vezes até chegar a 500 mandamentos. Tudo estava regulado, tudo! Uma lei cientificamente construída, porque essa gente era sábia, conhecia bem. Faziam todos estes matizes, não? Mas era uma lei sem memória: tinham se esquecido do primeiro mandamento, que Deus deu ao nosso pai Abraão: ‘Caminha na minha presença e seja irrepreensível’. Eles não caminhavam: sempre permaneceram nas próprias convicções. E não eram irrepreensíveis!” Eles, continuou o Papa, “tinham se esquecido dos Dez Mandamentos de Moisés”: “Com a lei feita por eles”, “intelectualista, sofisticada e casuística”, “anularam a lei feita pelo Senhor”; falta-lhes a memória “que conecta o hoje com a Revelação”.
Sua vítima, assim como foi Jesus, é o “povo humilde e pobre que confia no Senhor”, “aqueles que são descartados”, destacou o Papa, que conhece o arrependimento, embora não cumpra a lei, mas sofre estas injustiças. Sentem-se “condenados e abusados”, destacou Francisco, por quem é “vaidoso, orgulhoso, soberbo”.
E um “descarte dessas pessoas”, observou o Papa, também foi Judas: “Judas foi um traidor, pecou muito gravemente, eh? Pecou forte. Mas depois o Evangelho diz: “Arrependido, foi até eles para devolver as moedas”. E eles, o que fizeram? Mas você era o nosso sócio. Fica tranquilo… Nós temos o poder de perdoar tudo!’ Não! ‘Se vira. É um problema seu’. E o deixaram sozinho: descartado! O pobre Judas traidor e arrependido não foi acolhido pelos pastores. Porque eles haviam esquecido o que é ser um pastor. Eram os intelectuais da religião, aqueles que tinham o poder, que levavam adiante as catequeses do povo com uma moral feita pela sua inteligência e não a partir da revelação de Deus”.
“Um povo humilde, descartado e machucado por essas pessoas”. Também hoje, observou Francisco, na Igreja essas coisas acontecem. “Existe este espírito de clericalismo”, disse o Papa: “Os clérigos se sentem superiores, afastam-se das pessoas”, “não têm tempo para escutar os pobres, os sofredores, os encarcerados, os doentes”. “O mal do clericalismo é uma coisa muito triste! É uma nova edição desta gente. E a vítima é a mesma: o povo pobre e humilde, que tem esperança no Senhor. O Pai sempre procurou se aproximar de nós: enviou o seu Filho. Estamos esperando, uma espera alegre e exultante. Mas o Filho não entrou no jogo desta gente: o Filho foi com os doentes, os pobres, os descartados, os publicanos, os pecadores (e é escandaloso isso…), as prostitutas. Também hoje Jesus diz a todos nós e também a quem está seduzido pelo clericalismo: ‘Os pecadores e as prostitutas precederão vocês no Reino dos Céus’”.

Na missa dessa manhã na capela da Residência Santa Marta participaram os nove cardeais que auxiliam o Papa na reforma da cúria e no governo da Igreja universal, o chamado C9. Eles estão reunidos na 17ª reunião, que começou na segunda-feira e termina hoje, quarta-feira, com o Pontífice. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

Dom Fernando Arêas Rifan
Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney 

“Transcorridos muitos séculos desde que Deus criou o mundo e fez o homem  à sua imagem; - séculos depois de haver cessado o dilúvio, quando o Altíssimo fez resplandecer o arco-íris, sinal de aliança e de paz; - vinte e um séculos depois do nascimento de Abraão, nosso pai; - treze séculos depois da saída de Israel do Egito, sob a guia de Moisés; - cerca de mil anos depois da unção de Davi, como rei de Israel; - na septuagésima quinta semana da profecia de Daniel; - na nonagésima quarta Olimpíada de Atenas; - no ano 752 da fundação de Roma; - no ano 538 do edito de Ciro, autorizando a volta do exílio e a reconstrução de Jerusalém; - no quadragésimo segundo ano do império de César Otaviano Augusto, enquanto reinava a paz sobre a terra, na sexta idade do mundo: JESUS CRISTO DEUS ETERNO E FILHO DO ETERNO PAI, querendo santificar o mundo com a sua vinda, foi concebido por obra do Espírito Santo e se fez homem; transcorridos nove meses, nasceu da Virgem Maria, em Belém de Judá. Eis o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo a natureza humana. Venham, adoremos o Salvador! Ele é Emanuel, Deus Conosco”. Este é o solene anúncio oficial do Natal, feito pela Igreja na primeira Missa da noite de Natal!
O Natal é a primeira festa litúrgica, o recomeçar do ano religioso, como a nos ensinar que tudo recomeçou ali. O nascimento de Jesus foi o princípio da revelação do grande mistério da Redenção que começava a se realizar e já tinha começado na concepção virginal de Jesus, o novo Adão. Deus queria que o seu projeto para a humanidade fosse reformulado num novo Adão, já que o primeiro Adão havia falhado por não querer se submeter ao seu Senhor, desejando ser o senhor de si mesmo e juiz do bem e do mal. Assim, Deus enviou ao mundo o seu próprio Filho, o Verbo eterno, por quem e com quem havia criado todas as coisas. Esse Verbo se fez carne, incarnou-se no puríssimo seio da Virgem, por obra do Espírito Santo, e começou a ser um de nós, nosso irmão, Jesus. Veio ensinar ao homem como ser servo de Deus. Por isso, sendo Deus, fez-se em tudo semelhante a nós, para que tivéssemos um modelo bem próximo de nós e ao nosso alcance. Jesus é Deus entre nós, o “Emanuel – Deus conosco”, a face da misericórdia do Pai. 
São Francisco de Assis inventou o presépio, a representação iconográfica do nascimento de Jesus, para que refletíssemos nas grandes lições desse maior acontecimento da história da humanidade, seu marco divisor, fonte de inspiração para pintores e místicos.
Que tal se fizéssemos um Natal contínuo, pensando mais no divino Salvador, na sua doutrina, no seu amor, nas virtudes que nos ensinou, unindo-nos mais a ele pela oração e encontro pessoal com ele, imitando o seu exemplo, praticando as obras de misericórdia, convivendo melhor com nossa família...
Desse modo a mensagem do Natal vai continuar durante todo o Ano Novo, que assim será abençoado e feliz. FELIZ NATAL E ABENÇOADO ANO NOVO!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Papa Francisco enfrenta ‘guerra civil’ na igreja católica

A decisão do Papa Francisco de retomar a opção preferencial pelos pobres e dar uma guinada na conduta da Igreja Católica transformou os cardeais ultraconservadores da instituição em combatentes aguerridos do argentino.

Herdeiro dos papados de João Paulo II (1978-2005) e Bento XVI (2005-2013), o jesuíta Francisco enfrenta a fúria da Cúria conservadora, contrária às suas reformas.
A reportagem é de Mauro Lopes e Sérgio Kraselis, publicada por Calle2, 17-12-2016.
Nos corredores do Vaticano, altos funcionários chamam Francisco à boca pequena de “esse argentinozinho”. Se, num primeiro momento, o novo Papa enfrentou uma oposição silenciosa, hoje ela está escancarada. A batalha explodiu em setembro de 2016 com a carta divulgada por quatro cardeais, definida como verdadeira “guerra civil” pelo jornalista italiano Marco Politi, do jornal Il Fatto e um dos mais respeitados vaticanistas.
Francisco quer reformas e as reformas tendem a mexer nas estruturas. É óbvio que quem é favorecido pela estrutura não quer mudança', analisa Cesar Kuzma, um dos mais expressivos teólogos católicos brasileiros da nova geração.
Para guerrear contra Francisco, os conservadores escolheram as questões de fundo moral, aproveitando-se da onda reacionária que varre o planeta. A escalada começou em 2014, tomou impulso no segundo semestre de 2015 e agora está em seu momento-auge.
Dois momentos deste combate foram um livro lançado por cinco cardeais afirmando que o segundo casamento equivaleria a adultério, para a doutrina cristã, e um abaixo-assinado endereçado ao Papa com quase 800 mil assinaturas de católicos, entre eles 100 bispos, em defesa da família.
Para termos uma ideia do que Francisco enfrenta é preciso retroceder na história. Ao ser apresentado ao mundo, o novo Papa surgiu no balcão do Vaticano vestido de branco, sem ouro algum. Num gesto inédito, curvou-se diante da multidão que ocupava a Praça São Pedro e pediu que as pessoas rezassem por ele. Com isso, rompeu uma tradição secular que se construiu em torno da figura do Papa desde a Idade Média, abalada com João XXIII no Concílio Vaticano II, há 50 anos, e que foi reconstruída por seus dois antecessores. Um Papa humilde, sem ornamentos e vestes pomposas.
Com a chegada de Francisco, voltaram à tona ideais concebidos no Concílio Vaticano II, cujo ápice foi a Teologia da Libertação na América Latina, combatida ferozmente pelos conservadores da Cúria.
O confronto atual chega a ponto de cardeais e teólogos conservadores armarem oposição cerrada a todas as ideias de atualização dos conceitos da Igreja em relação à família propostas por Francisco, chamando-as de “heréticas”. Numa entrevista, o cardeal norte-americano Raymond L. Burke, que tem buscado se apresentar como líder da oposição, afirmou que seu grupo poderá decretar “um ato formal de correção de um erro grave” contra o Papa, se ele não ceder às exigências. Francisco respondeu dizendo que as críticas “não são honestas” e foram feitas “com espírito mau para fomentar a divisão”.
A pressão dos conservadores não tem paralisado Francisco. No encerramento do Jubileu da Misericórdia (um Ano Santo proclamado por ele entre outubro de 2015 e novembro último), o Papa operou uma significativa mudança na posição da Igreja quanto ao aborto, extinguindo a pena de excomunhão às mulheres que o realizam e permitindo que os padres concedam o perdão a este pecado.
O foco dos conservadores nas questões de fundo “moral” permanece, apesar da enorme fragilidade do discurso da Cúria e de dezenas de bispos e cardeais que nos últimos anos acobertaram os milhares de casos de abusos sexuais cometidos por religiosos contra crianças e jovens ao redor do planeta.
Um dos líderes do bloco conservador, o cardeal George Pell, prefeito da Secretaria de Economia do Vaticano, é alvo de um processo no qual é pesadamente acusado de encobrir casos de pedofilia na Austrália durante os anos 1970 e 1980 e, mais recentemente, de ele próprio estar envolvido em casos de abusos.
Há outros dois temas em disputa neste momento: a liturgia, especialmente o rito da missa, e a relação da Igreja com o planeta, a sociedade, os seres humanos e muito particularmente com os pobres.
Os conservadores defendem a restauração do rito tridentino da missa – onde havia um único celebrante que rezava de costas para as pessoas, em latim, pois a missa era “do padre”. Pode parecer incrível, mas os conservadores querem mesmo que este “modelo” de ritual seja restaurado. O Papa tem reduzido o espaço do arquiconservador cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino.
A questão da relação da Igreja com o mundo, a humanidade e especialmente os pobres é o terceiro polo da disputa. Os pobres são o centro da Igreja, tem anunciado Franciscodesde os primeiros dias de seu Papado. Ele promoveu três edições do Encontro Mundial dos Movimentos Populares (no Vaticano, em 2014 e em 2016, e na Bolívia, em 2015) e tem criticado de maneira cada vez intensa o capitalismo.
No encerramento da terceira edição de encontro, em 5 de novembro, ele disse que o mundo está dividido entre “um projeto-ponte dos povos contra o projeto-muro do dinheiro” e defendeu “a destinação universal dos bens”, além de denunciar a “internacional do dinheiro”.
Em 27 de novembro, Francisco avançou no tema dos pobres para dentro da Igreja ao questionar 800 gestores financeiros participantes do Simpósio sobre Economia da Congregação, em Roma: “A hipocrisia dos consagrados que vivem como ricos fere a consciência dos fiéis e prejudica a Igreja”. Francisco alertou que a gestão destas organizações (e de toda a Igreja) deve “escutar o sussurro de Deus e o grito dos pobres, dos pobres de sempre e dos novos pobres”. Os conservadores têm urticária quando escutam ou leem essas palavras do Papa e acusam-no (por enquanto nos bastidores) de “ressuscitar a Teologia da Libertação”.
O equilíbrio de forças no interior da Igreja, fortemente impactado pela onda conservadora dos últimos 35 anos, parece manter Francisco em relativo isolamento na cúpula católica. Num discurso sem precedentes diante da Cúria romana em um tradicional encontro de Natal, em 22 de dezembro de 2014, ele investiu frontalmente contra o espírito da hierarquia diante de cardeais e bispos entre constrangidos e indignados. Nele, apontou o que chamou de “as 15 enfermidades” da Cúria, entre elas a de “perder a capacidade de chorar com os que choram e se alegrar com os que se alegram. É a enfermidade dos que perdem os ‘sentimentos de Jesus’, porque o seu coração, com o passar do tempo, endurece-se e torna-se incapaz de amar incondicionalmente o Pai e o próximo”.
De lá para cá, alguma água passou por debaixo da ponte e, segundo seus aliados e alguns vaticanistas, Francisco está, aos poucos, modificando o perfil da Igreja. É o que diz dom Cláudio Hummes, o cardeal brasileiro que se tornou conhecido mundialmente pelo fato de, estando ao lado do Papa no exato momento de sua eleição, cumprimentá-lo sussurrando em seu ouvido uma frase que inspirou Bergoglio a escolher o nome de Francisco: “Não se esqueça dos pobres”.
Hummes assegura que a imensa maioria dos cardeais está ao lado do Papa: “Sem querer relativizar este fato, são quatro cardeais. E na Igreja somos mais de 200. Sem querer relativizar demasiadamente, são quatro de um grupo enorme que está dando todo o seu apoio ao Papa”.
Francisco tem atacado com contundência o clericalismo (a doutrina que estrutura e organiza em boa medida o pensamento conservador na Igreja) e seguidamente compara os clérigos católicos (padres, bispos e cardeais) e leigos poderosos nas estruturas eclesiais aos chefes religiosos que perseguiram Jesus até sua morte.
O combate ao clericalismo está na origem do atual papado: foi o centro do discurso do então cardeal Bergoglio no colégio de cardeais reunidos para a sucessão de Bento XVI, em 7 de março de 2013, seis dias antes de ser escolhido, e é considerado decisivo para sua eleição. A contundência de Francisco é resultante de um mandato que recebeu de seus eleitores, o que tornam arriscadas quaisquer previsões sobre o equilíbrio de poder na Igreja.
Os movimentos no tabuleiro da Igreja estão sendo pensados de olho no próximo Papa, pois Francisco, aos 80 anos, não terá tempo para concluir suas reformas. Ele sabe disso e está redesenhando o colégio eleitoral do próximo Papa com frieza e tirocínio típicos dos jesuítas. Para o teólogo brasileiro César Kuzma, Francisco “não joga no escuro e nem mesmo faz apostas para ver onde vai dar, ao contrário, ele sabe o que quer e sabe o que deve buscar. Ele também sabe que não terá um Pontificado longo e que não terá como resolver e mudar tudo.”
Por isso, ao nomear 13 cardeais com direito a voto (menos de 80 anos de idade) em 19 de novembro, ele é responsável por 1/3 do total de indicações do colégio de cardeais com direito a voto neste momento (44 de um total de 121). Em três rodadas de nomeações desde 2013, o Papa já conseguiu um feito memorável na história da Igreja: acabou com a maioria europeia. São agora 54 cardeais do Velho Continente contra 67 do resto do mundo. Espera-se mais uma ou duas rodadas de nomeações à frente. Com isso, o cálculo e a esperança dos conservadores para o próximo Papa pode estar em risco, o que explica a radicalização da luta no interior da Igreja nas últimas semanas, com este caráter de “guerra civil”.

A batalha no Brasil

A nomeação em massa de bispos conservadores por João Paulo II e Bento XVImodificou profundamente o perfil da Igreja no país. Se, mesmo nos anos 1970-80, quando a Igreja era protagonista das causas populares no país, a hierarquia apresentava-se dividida, na virada do século os conservadores passaram à ofensiva.
Hoje, dois dos expoentes do conservadorismo são os arcebispos de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer, exatamente o candidato que procurou contrapor-se a Bergoglio, e o do Rio de Janeiro, dom Orani Tempesta.
Ambos lideraram a visita de uma comitiva de bispos a Michel Temer em 10 de novembro a pretexto de uma audiência sobre a Rede Vida (emissora de TV católica) mas que se tornou um ato de apoio à PEC do teto dos gastos e de bênção ao governo, exatamente no dia da primeira votação da proposta que congelou os gastos sociais no país.
O Rio tornou-se uma espécie de quartel-general do segmento mais radicalizado da direita eclesial, que se expressou com virulência durante o segundo turno da eleição municipal na capital do Estado. Padres e membros da Cúria chegaram a ameaçar de “excomunhão” os católicos que faziam campanha por Marcelo Freixo, do PSOL.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que se manteve calada desde 2013, evitando confrontos com os conservadores, começou a se mover na direção de Francisco nos últimos meses: divulgou notas duras contra a PEC que corta os gastos sociais e a reforma do ensino médio. Seu presidente, dom Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília, foi nomeado cardeal pelo Papa em 19 de novembro.
Segundo o bispo belga dom André De Witte, vice-presidente da Comissão Pastoral da Terra, a hierarquia no Brasil está “silenciosa, mas não afastada” em relação ao Papa, que apoia as pastorais sociais e movimentos de base. O bispo belga, no Brasil há 40 anos, afirma que há de fato um novo modelo na administração da Igreja, uma mudança de paradigma que apenas a Teologia da Libertação tinha ousado antes de Francisco, porque implica que os líderes eclesiásticos (dos padres aos bispos, cardeais e até o Papa) abram mão de seus poderes e assumam uma relação direta com os católicos e católicas. Os cristãos católicos no Brasil e no mundo finalmente são convidados pela Igreja, no Papado de Francisco, a ingressarem na idade adulta.

FREI MARCELO AQUINO: Ordenação.

FREI REINALDO PARAÍSO: Ordenação.

A PALAVRA... Nº 1047. A Ilusão da Vida Conventual e Seminarística.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

PENSAR NÃO OFENDE: Mensagem de Natal.

14 DE DEZEMBRO: São João da Cruz.

3º DOMINGO DO ADVENTO: Sinais de Esperança e Alegria.

Padres em perigo, entre vulnerabilidade e fraternidade.

Para todos os cristãos, e particularmente para os padres, a fé é um eixo dessa existência que deve permitir manter unidas as múltiplas facetas do próprio destino, entre o "fazer", que muitas vezes os submerge nas missões institucionais, e o "estar com", que dá à própria aventura espiritual toda a sua cor e a sua densidade.
A análise é da terapeuta francesa Marie-Françoise Bonicet, professora-pesquisadora de psicologia social clínica e autora de Entre mémoire et avenir. Essai sul la transmission (Palio, 2010) e Dépendance, quand tu nous tiens (com D. Martz e M. Billé, Erès, 2014). O artigo foi publicado no jornal francês La Croix, 12-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Um recente e dramático suicídio de um padre convida à reflexão. Felizmente, trata-se de um fato muito raro, e é legítimo que desperte uma emoção forte, mas que corre o risco de nos fazer esquecer outras formas de autoculpabilização dos padres, que precisam de igual vigilância e solicitude.
Naquele drama, são dois os aspectos que me abalaram particularmente: o colapso psíquico daquele homem, a poucos dias do Natal, festa da Esperança, duplamente violento, para si e para aqueles que estavam ao seu lado. O outro é um grito de ajuda de um padre de Bourges, no oceano de solidão do Facebook, que já seria o lugar distante do encontro com o nosso próximo.
A minha experiência profissional de professora-pesquisadora e de terapeuta me levou a dar cursos de formação de vários anos para seminaristas, a acompanhar padres em períodos de fragilidade e de assumir compromissos em estruturas eclesiais. Como pesquisadora e médica, analisei o problema da exaustão profissional, particularmente nas profissões "vocacionais", em que, à carga efetiva de trabalho, soma-se o sentimento de culpa de não poder corresponder à missão prescrita ou que se imaginava poder desenvolver.
Não é em primeiro lugar a sobrecarga profissional que põe em perigo, mesmo que a exaustão nos torne vulneráveis. Ao invés, é muito mais a diferença entre uma imagem de si desvalorizada e um ideal do eu opressor, ou entre a representação do ideal e a da realidade. Atribuir aquele ato desesperado apenas à sobrecarga de trabalho seria redutivo.
Como profissional no acompanhamento de pessoas, encontrei-me fazendo perguntas sobre a violência da passagem ao ato suicida, independentemente do resultado das tentativas. A decisão de se matar continua sendo um enigma e um mistério trágico. A maioria das pessoas afetadas pelo desemprego, por um luto, por uma separação, por fortes pressões na vida de trabalho, por dispersões em relação a compromissos assumidos, pela depressão, não ultrapassam aquela linha vermelha.
Felizmente. Esse drama ocorrido dentro da Santa Mãe Igreja e outro, aparentemente evitado, em Bourges nos convidam a uma responsabilidade criativa em vez de um sentimento de culpa estéril. Para aqueles que tomam decisões e para as equipes, deve ser uma oportunidade para rever o contexto da missão de uns e de outros, e para reencontrar o essencial. Algumas pistas: tentar descobrir as fragilidades desde o período de formação, ou para orientar para um apoio psicológico, ou para uma reorientação da vida, ou mesmo para pensar em um ministério pessoal que corresponda às atitudes, aos talentos e aos limites dos indivíduos, e não só às necessidades das estruturas.
Um apoio durante o curso da vida. Muitos padres estão ligados a grupos de reflexão, mas, em geral, de tipo mais espiritual que visam a compartilhar as dificuldades humanas. Um apoio também é necessário através da formação continuada, para enfrentar as situações novas e adquirir instrumentos para facilitar as tarefas de organização ou de gestão dos grupos.
Um apoio externo específico, se possível fora das pessoas de referência envolvidas demais no funcionamento da diocese, a pedido do padre, por sugestão amigável ou... decidido pelo seu bispo.
Sair da solidão ou do isolamento.
A sensação de solidão não deve ser confundida com o isolamento. E, acima de tudo, existencial, inerente à condição humana e muito subjetivo. Uma ativação da atenção "ordinária", entre solidariedade e fraternidade, na reciprocidade entre padres vizinhos ou amigos, continua sendo um precioso apoio para todos, seja para romper o isolamento, seja para dominar aquele sentimento de solidão com a ajuda de proximidades "normais", no cotidiano, na partilha com pares ou amigos, das dificuldades e das fragilidade diante das situações encontradas.
Não parece oportuno "profissionalizar" sistematicamente o apoio nas provações da vida, porque a maioria dos problemas da existência são tratados pela existência. Para todos os cristãos, e particularmente para os padres, a fé é um eixo dessa existência que deve permitir manter unidas as múltiplas facetas do próprio destino, entre o "fazer", que muitas vezes os submerge nas missões institucionais, e o "estar com", que dá à própria aventura espiritual toda a sua cor e a sua densidade.
Sempre haverá seres que permanecerão surdos à certeza de que há para eles uma alegria possível "por trás do muro da noite", como afirmava Jean Sulivan por experiência. Isso não nos exime, como responsáveis ou como pessoas da base, de ter uma atenção fraterna, para que aquele que é objeto disso possa exercer o ministério incomparável do presbiterado apesar das rachaduras da vida, na plenitude da própria humanidade. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

Padre irlandês adverte sobre depressão entre clérigos sobrecarregados de trabalho.

A carga de trabalho crescente dos padres irlandeses está ameaçando transformar este grupo envelhecido, desmoralizado e em declínio em “máquinas de distribuição de sacramentos”, que consideram o trabalho pastoral cada vez menos satisfatório, advertiu um dos fundadores de uma associação irlandesa de padres. A reportagem é de Sarah Mac Donald, publicada por National Catholic Reporter, 01-12-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
Em seu discurso à assembleia geral anual da associação em Athlone, no dia 16 de novembro, o Pe. Brendan Hoban destacou como a prática do suicídio está em ascensão entre os sacerdotes irlandeses – grupo que, segundo ele, está também cada vez mais propenso à depressão.
Com a grande maioria dos sacerdotes irlandeses com 70 anos de idade ou mais, os padres diocesanos idosos vivem vidas cada vez mais isoladas e solitárias e são constantemente lembrados de que “nós já não importamos, que hoje somos, na melhor das hipóteses, um pouco mais do que uma presença cerimonial nas margens da vida”, disse ele.
O pároco de 68 anos disse que, embora “nos sintamos tendo dado o nosso melhor para levar a boa nova”, uma “avalanche de críticas na imprensa” fez com que eles fossem “ritualmente apresentados como pessoas más, controladoras, opressoras, limitadoras, obsessivas”.
Mais de 150 dos 1.000 padres membros que a Associação dos Padres (Association of Catholic Priests – ACP) representa ouviram Hoban explicar como a “implosão da nossa Igreja”, na esteira dos escândalos de abuso, os fizeram perceber que são, nas palavras do padre autor Donald Cozzens, “os últimos padres na Irlanda”.
Estatísticas assustadoras foram citadas pelo palestrante, tais como a situação de duas “dioceses muito prestigiadas na Irlanda, a de Dublin e a de Killala”, em que em cada uma delas temos apenas um padre diocesano com menos de 40 anos de idade. Em 20 anos, ambas as dioceses terão um, ou talvez uns poucos, padres com menos de 60 anos para dar conta de 199 paróquias em Dublin e 22 paróquias rurais na região de Killala.
Reconhecendo que o sacerdócio diocesano na Irlanda é “uma tribo perdida”, Hoban disse que eles precisam encontrar uma voz e coragem para enunciar esta verdade.
“Na qualidade de os últimos sacerdotes na Irlanda, temos o direito à consideração, ao reconhecimento, ao apoio, incentivo e, sobretudo, respeito”, continou Hoban. “Os padres que têm servido à Igreja por tanto tempo merecem nada menos do que isso, e é chegada a hora de começar um diálogo sobre o assunto”.
Ao recordar os anos depois de sua ordenação em 1973, Hoban falou que as igrejas lotavam, havia muitos padres, paroquianos apoiadores, e a Igreja era uma “presença confidente, respeitada e influente na sociedade irlandesa”.
Hoje, entre essa coorte de clérigos envelhecidos existe uma “sensação crescente quase de desespero quando percebemos o quão pouco de cuidado, estima e afeto pode haver em nossas vidas”, observou.
Ele também destacou como muitos padres estão lutando, no nível pastoral, com questões que vão além de sua formação e competência, como ministrar a pais de casais homoafetivos, responder a um convite para um casamento gay e o que significa um acompanhamento pastoral nessas situações.
Autor de livros como “Where Do We Go From Here? The Crisis in Irish Catholicism”, Hoban alertou que o nível de desconfiança entre os padres e bispos na Irlanda é tal que um acúmulo de ressentimento e raiva está cada vez mais evidente em algumas dioceses onde uns bispos estão usando o cargo para “forçar sua autoridade pessoal sobre os sacerdotes”.
A Associação dos Padres está em seu sexto ano de existência e já propôs várias vezes se reunir com os bispos irlandeses. Em maio passado, realizou-se o primeiro encontro oficial entre os representantes dos bispos e a direção da associação. Embora recentemente Dom Ray Browne, do condado de Kerry, escreveu à associação sobre as questões levantadas durante a reunião, de acordo com o padre censurado Tony Flannery, a carta era “claramente uma crítica encoberta à Associação”, na medida em que os bispos indicaram que continuariam a dialogar com os presidentes dos conselhos sacerdotais, mas não com a associação.
Flannery também criticou a carta de Browne por reduzir “o acompanhamento dos sacerdotes” a uma questão de “salvaguarda”.
“Será que eles não conseguem ver que a situação dos padres irlandeses é dramática e urgente?”, perguntou. Essa sua opinião é corroborada por Hoban, que alega que o fardo dos padres no país fica complicado com os bispos que desejam manipular o clero idoso postergando a aposentadora deles para além dos 75 anos.
A desconfiança entre os padres que atuam na base e as lideranças da Igreja irlandesa fica “exacerbada”, segundo Hoban, pela escolha das normas almejadas pelo núncio apostólico atual, Dom Charles Brown, que vêm resultado em escolhas “infelizes” e, às vezes, “bizarras” de bispos.
A política dos bispos, de automaticamente relatar às autoridades policiais qualquer acusação anônima de abuso infantil contra padres, foi redondamente condenada pelo líder da Associação dos Padres, que disse que a prática seria “impensável” e contaria com grande resistência se aplicada a professores, advogados, policiais ou qualquer outro grupo profissional.
“A reputação e a paz de espírito dos padres, me parece agora, podem ficar prejudicadas para sempre por alguém com uma queixa, um documento e um carimbo”, advertiu Hoban.
Em entrevista a uma rede de televisão nacional da Irlanda logo depois da reunião com representantes da associação, Brown, o núncio apostólico para a Irlanda, falou sobre a extensão do distanciamento da fé entre o povo irlandês.
Ele admitiu a Gay Byrne, apresentador do programa The Meaning of Life, que a “queda no número de vocações – especialmente para o sacerdócio – é um desafio enorme”.
No entanto, segundo ele o número de padres trabalhando hoje no país é “quase suficiente para as nossas necessidades”, embora muitos destes sacerdotes, reconheceu o entrevistado, estão na casa dos 70 anos.
“Portanto, em dez anos estaremos olhando para uma situação completamente diferente aqui”, disse ele acrescentando que “[a escassez sacerdotal] é um problema prático grande”.
Mas ele igualmente sublinhou que, em termos globais, desde o ano 2000 o número de padres no mundo está aumentando. “A cada ano temos mais e mais. Na Irlanda ou na França, não. Mas no geral, sim. Portanto, penso que precisamos reconhecer que um elemento nessa questão vai ser padres não irlandeses vindo para trabalhar no país”.
Sobre o tema do celibato obrigatório, Brown, natural de Nova York, defendeu o entendimento católico de um sacerdócio celibatário.
Entretanto, um outro membro da associação, o padre redentorista Gerry O’Connor, contou ao National Catholic Reporter que acredita que uma estratégia como aquela proposta por Brown, de importar padres, vai provavelmente ser “contraproducente e levará a um afastamento maior dos membros da Igreja”.
Ao descrever a missão como parte integrante da vida eclesial, ele disse que a associação vê problemas com a nomeação de sacerdotes estrangeiros sem nenhuma preparação ou orientação quanto à sociedade, à Igreja e à cultura irlandesas.
“Padres vindos do exterior são uma solução parcial, mas sem uma formação, uma preparação, um aprendizado e uma reflexão adequados, essa ideia trará mais problemas do que soluções”, disse o O’Connor. Isso seria o mesmo que “pôr curativos nas feridas da Igreja em vez de curá-las”, e seria um “outro ato de uma Igreja que não ouve os seus membros e apoiadores”.
“O fato de os bispos e o núncio não quererem se envolver de um modo estruturado com a Associação dos Padres irlandeses é um símbolo de uma Igreja à deriva, de uma Igreja engessada, de uma Igreja em negação; é o símbolo de uma Igreja com 26 reinos, uma Igreja irlandesa em um caminho paralelo ao que o Papa Francisco tem falado a respeito. É um exemplo de uma Igreja apegada a uma visão eclesial que está em desacordo com o que o Papa Francisco está tentando construir”, prosseguiu.
Segundo ele, a associação propõe um sínodo nacional para a Igreja da Irlanda. O’Connor também explicou que, durante a assembleia geral do grupo, os membros se comprometeram em desenvolver um ministério leigo; acolher de volta ao ministério padres casados; abrir o sacerdócio a homens casados; e ter na Igreja um diaconato feminino.
“Todas essas ideias são soluções práticas e realizáveis diante da crise atual e da sobrecarga de trabalho”, disse.
Ainda de acordo com O’Connor, enquanto a sensação de isolamento não é tão aguda entre os padres das ordens religiosas assim como é entre os padres diocesanos, os “religiosos estão tão confusos e desmoralizados quanto estão os padres diocesanos sobre como ser um padre no mundo moderno, e sentem o desprezo e o ridículo de uma perspectiva secular que permeia a Irlanda nos dias de hoje”.

“A depressão faz parte da vida vivida nas comunidades religiosas”, completou o padre. “A ausência de uma próxima geração de religiosos na maioria das congregações significa que a esperança e a energia estão em falta, e existe uma lacuna na teologia e na eclesiologia entre muitos dos recrutas mais novos e as gerações mais velhas, com a geração mais avançada percebendo que a Igreja irá se mover para o passado ao invés de abraçar, com coragem, um futuro incerto”. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br