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quinta-feira, 5 de junho de 2014

*Explicação das leituras de PENTECOSTES: O NASCIMENTO DA IGREJA.

Pe. Bortolini
I. INTRODUÇÃO GERAL
No Pentecostes, coroa do Ciclo da Páscoa, todos nascemos e renascemos continuamente. Nascemos para a vida no Espírito e renascemos para o projeto de Deus, procurando falar a linguagem do Espírito para o mundo de hoje. Bebendo o mesmo Espírito que foi a base da ação e da palavra de Jesus, a comunidade cristã provoca o julgamento de Deus (evangelho). Reunida pelo Espírito de Jesus, torna-se a epifania de Deus, proclamando suas maravilhas (I leitura), levando o projeto de Deus a todos os povos. Forma o corpo de Cristo e bebe do único Espírito. Por isso, na comunidade cristã, cada pessoa é um dom do Espírito para formar a comum-unidade (II leitura). Ninguém possui plenamente o Espírito e ninguém está privado dele. Na união de todos é que se forma o corpo de Cristo, o templo do Espírito Santo.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Jo 20,19-23):
A comunidade recebe o mesmo Espírito que animou Jesus
Nos evangelhos, João e Lucas têm perspectivas diferentes quanto a Pentecostes. Para João, ele se dá no próprio dia da ressurreição de Jesus, ao passo que Lucas faz coincidir a vinda do Espírito Santo com a festa judaica de Pentecostes, cinqüenta dias após a Páscoa. Embora as perspectivas sejam diferentes, a finalidade é a mesma, pois ambos mostram que o Espírito que sustentou a luta de Jesus para realizar o projeto de Deus é o mesmo Espírito que anima agora as lutas da comunidade cristã.
Fazendo coincidir Páscoa e efusão do Espírito no mesmo dia, o Evangelho de João quer sublinhar a continuidade entre Jesus e seus discípulos. O Espírito que agiu permanentemente em Jesus é comunicado aos seguidores no mesmo dia da ressurreição, sem pausas ou interrupções.

a. A criação da comunidade messiânica (vv. 19-21a)
O texto se inicia situando a cena no tempo. É a tarde do domingo da Páscoa. Para os judeus, já havia iniciado um novo dia. Para João, contudo, é ainda o dia da ressurreição, a nova era inaugurada pela vitória de Jesus sobre a morte. De fato, no Quarto Evangelho, tudo o que acontece depois da ressurreição de Jesus se insere num “dia pascal” que não tem fim. É a vitória definitiva da vida sobre a morte. A referência à tarde de domingo reflete a práxis cristã de se reunir para celebrar a memória da morte e ressurreição de Jesus. As portas fechadas mostram um aspecto negativo (o medo dos discípulos) e um aspecto positivo (o novo estado de Jesus ressuscitado, para quem não há barreiras).
Jesus se apresenta no meio da comunidade (ele é o centro e a razão de ser da comunidade) e saúda os discípulos com a saudação da plenitude dos bens messiânicos: “A paz (shalom) esteja com vocês!” É a mesma saudação de quando Jesus se despediu (cf. 14,27). Por sua morte e ressurreição, ele se tornou o vencedor do mundo e da morte. E por isso pode comunicar a paz, a plenitude dos bens. É, portanto, a saudação do vencedor que ainda traz em si os sinais da vitória nas mãos e no lado (v. 20). É a saudação do Cordeiro, do qual a comunidade vai alimentar-se. As cicatrizes de Jesus são uma característica dos textos joaninos (cf. Ap 5,6). O Ressuscitado não pode ser anunciado apenas em seu aspecto glorioso. As cicatrizes são memória permanente das torturas sofridas.
            Os discípulos estão de portas fechadas. São uma comunidade medrosa, pois ainda não possuem o Espírito de Jesus. O medo é um freio que lhes bloqueia a tarefa de testemunhar o Cristo ressuscitado. Jesus, presente nessa comunidade, transforma totalmente a situação, capacitando-os a ser os anunciadores da vitória de Jesus sobre os mecanismos de morte.
A reação da comunidade é a alegria (cf. 16,20) que ninguém, de agora em diante, poderá suprimir (cf. 16,22).

b. A comunidade continua a missão de Jesus (vv. 21b-23)
Fortificada pela presença de Jesus, a comunidade está pronta para a mesma missão que ele recebeu: “Como o Pai me enviou, assim também eu envio vocês” (v. 21b). Quem vai garantir a missão da comunidade será o Espírito Santo. Para João, a comunicação do Espírito acontece aqui, na tarde do dia da ressurreição: “Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: Recebam o Espírito Santo!” (v. 22). O sopro de Jesus é a nova criação e remete ao que Javé fez quando criou o ser humano (cf. Gn 2,7). É o sopro da vida nova. Aqui nasce a comunidade messiânica.
De agora em diante, batizados no Espírito Santo como Jesus (cf. 1,33), os cristãos têm o encargo de continuar o projeto de Deus. Esse projeto é sintetizado desta forma: “Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados; os pecados daqueles que vocês não perdoa-rem, não serão perdoados” (v. 23). O que é pecado para João? Consiste essencialmente em comprometer-se com a ordem injusta que levou Jesus à morte (e que hoje, de muitas formas, continua matando gente). Jesus veio para levar a vida à sua máxima expressão, e isso para todos. Mas seu projeto recebeu forte oposição dos que querem a vida só para si. Aí está a raiz do pecado, de acordo com o Evangelho de João. Os pecados são atos concretos decorrentes dessa opção fundamental contra a liberdade e a vida das pessoas.
Diante disso, qual é a tarefa da comunidade cristã? Jesus lhe dá o poder de perdoar ou não perdoar. Ela executa essa função mostrando onde está a vida e onde se aninha a morte; promovendo a vida e quebrando os mecanismos que procuram destruí-la; conscientizando as pessoas e desmascarando os interesses ocultos dos poderosos. Assim, os cristãos provocam o julgamento de Deus. Tarefa ímpar das comunidades cristãs, nem sempre fiéis a essa vocação. O que significa, por exemplo, não perdoar os pecados dos latifundiários, dos corruptos, dos políticos que utilizam o poder para defender seus interesses?
“Os discípulos continuam a ação de Jesus, pois ele lhes confere a mesma missão (20,21). Pelo Espírito que dele recebem, tornam-se suas testemunhas perante o mundo (15,26ss). Sua ação, como a de Jesus, é a manifestação, em atos concretos, do amor gratuito e generoso do Pai (9,4). Diante desse testemunho, acontecerá o mesmo que aconteceu com Jesus: haverá quem o aceite e quem endureça numa atitude hostil ao homem, rejeitando o amor e se voltando contra ele, chegando inclusive a perseguir e matar os discípulos em nome de Deus (15,18-21; 16,1-4). Não é missão da comunidade, como não era a de Jesus, julgar os homens (3,17; 12,47). Seu julgamento, como o de Jesus, não é senão o de constatar e confirmar o juízo que o homem faz de si próprio” diante do projeto de Deus (J. Mateos-J. Barreto, O Evangelho de São João, Paulus, São Paulo, 2ª edição, 1998).

2. I leitura (At 2,1-11):
O Espírito ensina a comunidade cristã a continuar o projeto de Deus

Páscoa e Pentecostes eram festas agrícolas muito antigas em Israel. Com o passar dos tempos, foram transformadas em festas religiosas: Páscoa revivia a saída do Egito; Pentecostes recordava o dia em que Moisés, no monte Sinai, recebeu a Lei, tida como o maior presente de Deus ao povo.
Quando Lucas escreveu os Atos dos Apóstolos (cerca de meio século após o Pentecostes), a evangelização já havia alcançado todas as nações até então conhecidas (os confins do mundo; cf. At 1,8). Isso quer dizer que, quando esse livro foi escrito, todos os povos que Lucas diz estar em Jerusalém no dia de Pentecostes já tinham recebido o anúncio de Jesus, já tinham sido evangelizados. Por que, então, Lucas recorda o evento de Pentecostes? Ele quer mostrar a universalidade do povo de Deus e da evangelização. Na ótica da fé, tudo isso é obra do Espírito de Jesus.
Ao descrever o episódio de Pentecostes, Lucas se serve de esquemas já presentes no Antigo Testamento. Ele situa a vinda do Espírito Santo cinqüenta dias após a Páscoa para fazê-la coincidir com o Pentecostes judaico, no qual o povo judeu celebrava o dom da Aliança no Sinai, a entrega da Lei (Decálogo), o surgimento de um arranjo social comprometido com a vida e a justiça. De fato, segundo Ex 19, cinqüenta dias depois que o povo saiu do Egito, Deus fez aliança com ele no monte Sinai, entregando-lhe, por meio de Moisés, a Lei. O fato foi acompanhado de trovões, relâmpagos e trombeta tocando. Ora, esse episódio é uma das bases sobre as quais Lucas constrói a narrativa do Pentecostes: cinqüenta dias após a Páscoa, estando os discípulos reunidos em Jerusalém, houve um barulho como o rebentar de forte ventania (At 2,1-2). Com isso, Lucas afirma que, em Jerusalém, se realiza a Nova Aliança; surge o Novo Povo de Deus; é dada a Nova Lei: o Espírito Santo.
Lucas se inspira em outro texto do Antigo Testamento: Números 11,10-30, em que Deus repartiu seu Espírito sobre Moisés e os setenta anciãos, para que pudessem organizar o povo. E Moisés exprimiu o desejo de que todo o povo recebesse o Espírito de Javé (Nm 11,29). Esse substrato serviu de molde para Lucas, a fim de mostrar que, finalmente, o Espírito de Deus foi derramado sobre todos no dia de Pentecostes. No início do evangelho, o Espírito tomara conta de Jesus (cf. Lc 4,18). No início dos Atos, o mesmo Espírito toma posse de todas as pessoas.
Finalmente, Lucas se serve de Gênesis 11,1-9, o episódio da torre de Babel, onde Deus confundiu a ambição das pessoas, que não se entendiam mais. Para Lucas, o Pentecostes é o oposto de Babel: aqui, “todos nós os escutamos anunciarem, em nossa própria língua, as maravilhas de Deus” (2,11).
Com o episódio de Pentecostes assim formulado, Lucas faz ver que a comunidade cristã é o novo povo de Deus, o povo da Nova Aliança, cuja Lei é o Espírito Santo. Não há fronteiras para esse povo, e o objetivo comum é viver o projeto de Deus. Esse povo é capaz de se entender e se unir porque fala a língua do Espírito de Jesus. De fato, o Espírito Santo é a memória sempre renovada e atualizada do que Jesus fez e disse (cf. Jo 14,26). Entregando seu Espírito, Deus realiza com a comunidade cristã a nova e definitiva Aliança, na consecução do projeto divino, confiado agora aos que sonham com a humanidade livre de todas as formas de opressão, violência e morte.
Não se deve confundir o fenômeno de Pentecostes com o falar línguas estranhas de 1Cor 12-14. Em At 2,1-11, todos os que estão aí à escuta – há gente de três continentes – ouvem na própria língua (entendem perfeitamente) o anúncio das maravilhas de Deus.

3. II leitura (1Cor 12,3b-7.12-13):
Ninguém possui plenamente o Espírito; ninguém é privado dele! A comunidade é o corpo de Cristo!
O texto de hoje se inicia apresentando o critério básico de distinção entre o que procede e o que não procede do Espírito Santo. Esse critério básico é o reconhecimento de Jesus como o único Senhor (v. 3b). Tudo o que não leva a isso não provém do Espírito. É provável que alguém, em Corinto, julgando-se movido pelo Espírito, tenha dito grave blasfêmia: “Maldito Jesus!” (cf. 12,3a). Para Paulo, a ação do Espírito leva sempre à confissão de que Jesus é o Senhor.
Os coríntios achavam que ter carisma fosse possuir dons extraordinários, como o falar em línguas estranhas e profetizar. Sua visão dos carismas era muito redutiva e personalística. Paulo começa abrindo brechas, afirmando que são distribuídos muitos dons (não alguns somente), mas o Espírito que os distribui é o mesmo: é o Espírito de Jesus (cf. 12,4). Toda ação tem sua origem no Pai; o que os cristãos fazem se baseia na ação de Jesus (cf. vv. 5-6). Note-se aí a formulação trinitária. Em Deus não há divisão, mas harmonia. Tudo colabora na execução do projeto de Deus. O mesmo se verifica na comunidade cristã: “A cada um é dado algum sinal da presença do Espírito Santo, para o bem comum” (v. 7). É uma quase definição de carisma. Mas salienta que o movimento do carisma é de dentro para fora, e não o contrário.
A seguir, Paulo emprega a imagem do corpo. Ele está pensando no corpo humano, que tem muitos membros, mas ao mesmo tempo pensa no corpo social, a comunidade cristã, que forma um todo com Cristo (v. 12; cf. 6,15: “Vocês não sabem que seus corpos são membros de Cristo?”). Então, pensa Paulo, se em Jesus, com o Pai e o Espírito, não há divisões apesar da diversidade, como pode havê-las na comunidade, que é o corpo de Cristo? De fato, o anúncio do evangelho em Corinto havia unido povos, categorias e classes sociais incompatíveis até então: judeus e gregos, escravos e livres (v. 13a; cf. Gl 3,28, que é uma das grandes sínteses do evangelho de Paulo).
O batismo havia elevado todos a um nível jamais atingido antes: todos receberam o mesmo Espírito, a fim de constituir um só corpo social, sem rupturas ou distinções: a comunidade cristã, corpo de Cristo. Assim, todos se alimentam e se inspiram na mesma fonte, que é o Espírito Santo (v. 13b). Têm sentido, portanto, as divisões escandalosas que as comunidades criam em torno de interesses pessoais, posições ou tarefas mais vistosas? Não é um atentado ao corpo de Cristo e ao Espírito de Jesus? Não é um atentado ao projeto de Deus?

III. PISTAS PARA REFLEXÃO
• Analisar a coordenação pastoral: com que espírito agimos na comunidade cristã? Que sentido têm os encargos, os postos, os serviços? É o Espírito de Jesus quem anima toda a pastoral?
• A diversidade dos membros da comunidade é fator de crescimento mútuo? Manifesta o novo povo de Deus nascido do Espírito? Nossas comunidades são Pentecostes ou Babel?
• O projeto de Deus continua na comunidade: somos abertos à nova criação do Espírito ou vivemos medrosos e de “portas fechadas”? Provocamos o “julgamento de Deus” numa sociedade que rejeita sistematicamente o projeto de Deus ou não nos distinguimos em nada da sociedade injusta e corrupta em que vivemos?
• Pentecostes é tempo de ecumenismo. Qual seria a grande proposta ecumênica que o Espírito nos faz? Não seria tempo de unir as pessoas do mundo inteiro, independentemente do credo que professam, em torno de um mesmo objetivo, a justiça e a vida para todos? Não seriam as palavras “justiça” e “vida” o novo sopro do Espírito?

*Da Revista Vida Pastoral – Pe. Bortolini

segunda-feira, 2 de junho de 2014

36º SODALÍCIO EM SAPOPEMBA/SP-02: Agradecimentos

QUEM TEM O ESPÍRITO DE JESUS...

Santo Agostinho, o amor, o sexo e o pecado... Um mal entendido?

Em sua intervenção no festival Philosophia, do qual La Vie é parceiro, o jesuíta Dominique Salin, professor de teologia e de literatura espiritual no Centro Sèvres, em Paris, varre os clichês segundo os quais Agostinho teria feito a Igreja pagar por sua renúncia à sexualidade. A reportagem é de Isabelle Francq e publicada no sítio da revista francesa La Vie, 09-05-2014. A tradução é de André Langer. Fonte: http://bit.ly/1krrLwV        
Embora esteja no centro das preocupações humanas, o amor não se mistura bem com a filosofia e, exceto Platão, poucos pensadores da Antiguidade fizeram dele um objeto de reflexão. Em Santo Agostinho, ao contrário, entre pecado e piedade, o amor é central. Para melhor demonstrar isso, essa grande figura da teologia que foi o primeiro a praticar a arte da autobiografia, detém-se sobre a sua experiência da paixão.
Antes da palestra que fará no festival Philosophia de Saint-Émilion, este ano dedicado ao amor, Dominique Salin, jesuíta e especialista em Agostinho, fala-nos sobre este grande pensador, ainda desconhecido, do Ocidente.

Um ex-mulherengo?
Um Don Juan arrependido, fulminado pela graça aos 33 anos, Agostinho (354-430) teria feito o cristianismo pagar sua própria renúncia à carne. Quando falamos de Santo Agostinho e do amor, devemos imediatamente abandonar esse clichê. No início do século V, seria ele, o bispo de Hipona (atual Annaba, na Argélia), o responsável pela doutrina cristã da sexualidade marcada pela proibição, pelo sentimento de culpa. Afinal, não é Agostinho o inventor do pecado original? Este pecado não vai estar em parte relacionado à sexualidade? Para muitos, a culpa de Adão e Eva foi ter comido da maçã, e de nos ter transmitido geneticamente, isto é, sexualmente, um desejo ilimitado por essa fruta metafórica, tão conhecida. A realidade é mais complexa e bela, filosófica e poeticamente.
“Eu me esbanjava e ardia nas minhas fornicações.” É a partir dessas observações que se esculpiu em Agostinho um costume e arrependido debochado. E não deixamos de notar que a sua primeira decisão, após sua conversão aos 33 anos, foi despedir sua concubina. A violência com que ele fustiga, em suas Confissões, o pecador que ele era, seria para alguns o sinal de uma forma doentia de obsessão sexual. As extravagâncias das quais Agostinho se acusa dizem respeito, porém, principalmente às férias forçadas que ele passa em Tagaste (Argélia), sua cidade natal, em torno dos 15 anos. Sendo seu pai um agricultor pobre, teve que esperar por uma bolsa para fazer seus estudos de retórica. Para passar o tempo, ele ia à missa aos domingos para aí arrastar as meninas (Confissões III, 3).
Essas loucuras não duraram muito. Aos 17 anos, estudante em Cartago, ele se casa com a mulher da sua vida, a mãe do seu filho, a quem será fiel durante 15 anos. Ele rompe com essa mulher que ele amava um ano antes da sua conversão, isto é, da sua decisão de se fazer batizar e tornar-se monge. Ruptura por razões de arrivismo. Na verdade, instalado na corte de Milão, orador titular do imperador – um adolescente sob a regência da sua mãe –, está prestes a ser nomeado governador de uma província do Império, ele atinge o topo da honras, mas não tem sorte. Ele termina com sua noiva para se prometer a uma rica herdeira. No entanto, ela tinha apenas 12 anos. A idade legal era 14 anos. Ele deve, portanto, esperar.
"(...) Incapaz de suportar o prazo imposto (dois anos antes de conseguir o que eu pedi), e menos afeito ao casamento que escravo da paixão, eu fui ao encontro de outra mulher; não era, certamente, para me casar, mas para alimentar a doença da minha alma e fazê-la perdurar, sob o olhar atento do Hábito, e isso até a chegada da esposa.” Cego da dependência do seu impulso sexual, a vergonha que aqui expressa é um ponto decisivo da concepção de amor de Agostinho. De fato, até esse dia de agosto 386 quando ouve uma voz vinda do além e decide fazer-se batizar e tornar-se monge, ele se julgou incapaz de viver na continência. Isso era para ele um sofrimento, uma frustração.
No início dos estudos, a leitura de Cícero e do estoicismo havia semeado nele o desejo de tornar-se um sábio, isto é, um santo. A valorização da continência não é uma invenção cristã. Ela não é dominante na sabedoria greco-romana pagã, mas também não está totalmente ausente; Plotino, o grande neoplatônico pagão, era celibatário. Isso não foi suficientemente enfatizado: o ideal de santidade que Agostinho se fixou aos 16 anos contemplava a continência. Mas, no momento em que ele está apaixonado, casa-se. A partir de então, sua vida conjugal é marcada por uma consciência deformada. Ele enfatiza que o fato de estar casado impediu-o de crescer em sua vida espiritual. Tudo muda quando ele aceita o que sente ser um convite de Cristo e de São Paulo para "tornar-se eunuco pelo Reino de Deus". Ele, finalmente, encontra a paz do coração, escreveu. Certamente, a continência é difícil. Mas ele nunca se arrependerá disso.

No princípio, o desejo
Para Agostinho, o amor ultrapassa o amor sexual. Amar é, em latim, appetere ("um apetite"); é motus ad aliquid, “um movimento em direção a algo”, ou alguém. O amor é desejo. Ele tem essa frase maravilhosa: “O amor estende o desejo e o desejo estende o amor”. O amor é tão natural ao homem quanto o desejo. É o desejo que faz o ser humano. O animal é conduzido por seus reflexos, instintos e necessidades. O homem também, mas ele é capaz de adiar a satisfação em vista de um prazer (delectatio) superior.
Ser de desejo, o homem é, portanto, marcado pela falta. Atrás de qual delectatio correr? O bem supremo, a "vida feliz", a "bem-aventurança", responde Agostinho. O estado psicológico que lhe corresponde é a alegria. Ele diz: o homem é feito para a alegria e Deus é a alegria do homem. Assim, buscando sua delectatio, é Deus que o homem procura, quer saiba ou não. “Tu nos fizeste para ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto (inquietum) até que descanse em ti (quiescat in te).”
O desejo, infinito, de absoluto é, no homem, a marca de fábrica de Deus. O desejo de Deus, o amor de Deus, é o motor do homem. Quando ele pensa em procurar a segurança, o prazer, a tranquilidade, a serenidade, a justiça, quando ele pensa amar o dinheiro, as mulheres, o sucesso, na verdade, está buscando a Deus, diz Agostinho. A glória ou a alegria nunca serão suficientes. O desejo, ou melhor, a necessidade, incessantemente renascerá. Mas na maioria das vezes, o nosso desejo erra de alvo. A tendência do indivíduo de se preferir a si mesmo aos outros e de ver nas outras criaturas o meio de satisfazer suas necessidades leva, na teologia de Agostinho, a um nome fatal: o pecado original. Ele deforma o amor em amor de si, em vez de ser, em primeiro lugar, amor de Deus.

Os dois amores
Assim se esboça a antropologia agostiniana. Há apenas um amor, porque o desejo é um. Mas esse amor pode assumir duas formas incompatíveis de acordo com o objeto ao qual ele se dirige. Agostinho escreveu: "Quem ama quer formar um com quem ama”. Em consequência: “O ser humano torna-se o que ele ama: aquele que ama a terra, torna-se terra; aquele que ama o Deus eterno irá compartilhar da eternidade com Deus”. Este é o tema das duas cidades – terrestre e celeste – que ele formula em A Cidade de Deus (Volume 2, XIV, 28).
A chave da história humana é a oposição entre o amor que dá a primazia a Deus e aquele que ama, em primeiro lugar, a si mesmo, ao passo que ele ama as criaturas pelas vantagens que disso pode obter. No primeiro caso, o amor é mediado pelo amor de Deus: eu amo as criaturas com um amor que as respeita, que me respeita e que me permite respeitar a Deus. Eu O respeito em suas criaturas, através delas. No segundo caso, eu não respeito as criaturas, nem Deus nelas. Eu as amo pelos interesses que posso obter, pelo uso que posso fazer delas. E eu instrumentalizo o próprio Deus em vista do meu benefício. A primeira forma de amor Agostinho chamou de amor ou caritas ou dilectio. A outra, que instrumentaliza a Criação e o próprio Deus, ele a chama de cupiditas ou concupiscentia ou libido.

O “Pecado original”
O ideal seria viver permanentemente do amor e da caritas: “Amemo-nos uns aos outros!” Mas o mundo é marcado pelo mal, pelo sofrimento, pela concupiscência – que Agostinho chamou, na linha de São Paulo, de pecado. Desde a sua concepção, o ser humano é afetado pela violência, pela injustiça e pelo sofrimento. Ele sofrerá as consequências sendo ele próprio conduzido à violência, à injustiça, à ganância e à falsidade. Porque seus antepassados estão marcados por isso, desde Adão, desde as origens. Pecado original, universal; pecado das origens, que não poupa ninguém. Será preciso ter a ingenuidade de Jean-Jacques Rousseau para imaginar que a criança nasce pura e inocente. Freud, por sua vez, sobre este ponto, dá razão a Agostinho e à Bíblia.
Agostinho não é o inventor do pecado original. Ele o encontrou em São Paulo. Ele formalizou a doutrina e a endureceu na sua luta contra o pelagianismo, no final da sua vida. Para o herege Pelágio, o homem em si mesmo é saudável. Ele encontra em si mesmo os recursos necessários para alcançar a virtude, a santidade e a união com Deus. Agostinho respondeu-lhe que o homem comete o mal que não gostaria de cometer e não consegue praticar o bem que gostaria. O pecado é um mistério que nos ultrapassa. Somente Cristo pode iluminar o homem e guiá-lo para a luz.
Essa visão pessimista da natureza humana se agrava na aurora dos tempos modernos, quando Lutero e os jansenistas releem Agostinho e endurecem e caricaturizam seu pensamento. "Como o coração do homem é oco e cheio de lixo!", exclamou Pascal (Pensées, Sellier181, Lafuma 148). Mas podemos ser cristãos sem ser jansenistas. É verdade que o pecado original foi muitas vezes apresentado nos catecismos como uma doença sexualmente transmissível desde Adão. Daí a dizer que o ato de procriação é sujo, é apenas um passo. Dizia-se que fazer amor no casamento, era um pecado permitido. Devemos reconhecer que a concepção de sexualidade de Agostinho inclinou-se para esse lado. O caráter, às vezes, incontrolado da pulsão sexual parecia-lhe uma desordem; uma forma de violência desordenada que não estava nos planos de Deus. Ele via nisso um sintoma e uma consequência do pecado original.

"Ama e faz o que quiser!"
Para Agostinho, pode-se amar um homem ou uma mulher, a música, seu trabalho, seus filhos, seus amigos e também amar a Deus. Pode-se amar a Deus como se ama a sua esposa? A resposta encontra-se nas Confissões X, livro 6. Ele descreveu com as mesmas palavras o amor humano e o amor divino. Elas tomam um sentido metafórico quando se trata de Deus. Elas são deficientes também quando se trata do amor. Para dizer o amor, a linguagem menos inadequada é a da poesia, da música: da imagem, da metáfora. A linguagem poética não pretende dizer o indizível, divino ou humano, mas apenas sugeri-lo. É dessa maneira que toca o nosso coração.
Há em mim mais do que eu mesmo. Há em mim alguém outro, há em mim um Outro. Arthur Rimbaud disse-o melhor que ninguém: “‘Eu’ é um outro”. Este outro nele, Agostinho chama de “homem interior”: é ele que toma Deus em seus braços, é ele que Deus toma em seus braços. Eles são um, como o homem e a mulher. É a maneira de dizer o que o Mestre Eckhart afirmará no século XIV: “Deus e eu somos um, somos semelhantes, somos iguais”. Nesse nível, o mistério de Deus e o mistério do homem são o mesmo. Falar de Deus e falar do homem é a mesma coisa.
"Fale-me sobre o amor...". Tudo bem, mas como saber se é realmente o amor que me faz agir? Que garantia eu tenho contra os erros e as ilusões? Para o Evangelho, o amor é julgado pelos frutos. Agostinho não nega isso, e sua homilia sobre a Primeira Epístola de João (7,7-8) mostra como ele é sensível à complexidade das situações. Mas, para ele, é o amor que pode e deve ser a regra da ação. Sempre o Amor.

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sexta-feira, 30 de maio de 2014

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 595. Visitação de Maria.

FREI PETRÔNIO EM NITERÓI/ RJ: Bênção da Família.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 594. Convite.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 594. Convite.

48º Dia Mundial das Comunicações Sociais: Mensagem do Papa Francisco.

Mensagem do Papa Francisco para o 48º Dia Mundial das Comunicações Sociais

“Comunicação ao serviço de uma autêntica cultura do encontro”

Queridos irmãos e irmãs,
Hoje vivemos num mundo que está a tornar-se cada vez menor, parecendo, por isso mesmo, que deveria ser mais fácil fazer-se próximo uns dos outros. Os progressos dos transportes e das tecnologias de comunicação deixam-nos mais próximo, interligando-nos sempre mais, e a globalização faz-nos mais interdependentes. Todavia, dentro da humanidade, permanecem divisões, e às vezes muito acentuadas. A nível global, vemos a distância escandalosa que existe entre o luxo dos mais ricos e a miséria dos mais pobres. Frequentemente, basta passar pelas estradas duma cidade para ver o contraste entre os que vivem nos passeios e as luzes brilhantes das lojas. Estamos já tão habituados a tudo isso que nem nos impressiona. O mundo sofre de múltiplas formas de exclusão, marginalização e pobreza, como também de conflitos para os quais convergem causas econômicas, políticas, ideológicas e até mesmo, infelizmente, religiosas.
Neste mundo, os mass-media podem ajudar a sentir-nos mais próximo uns dos outros; a fazer-nos perceber um renovado sentido de unidade da família humana, que impele à solidariedade e a um compromisso sério para uma vida mais digna. Uma boa comunicação ajuda-nos a estar mais perto e a conhecer-nos melhor entre nós, a ser mais unidos. Os muros que nos dividem só podem ser superados, se estivermos prontos a ouvir e a aprender uns dos outros. Precisamos de harmonizar as diferenças por meio de formas de diálogo, que nos permitam crescer na compreensão e no respeito. A cultura do encontro requer que estejamos dispostos não só a dar, mas também a receber de outros. Os mass-media podem ajudar-nos nisso, especialmente nos nossos dias em que as redes da comunicação humana atingiram progressos sem precedentes. Particularmente a internet pode oferecer maiores possibilidades de encontro e de solidariedade entre todos; e isto é uma coisa boa, é um dom de Deus.
No entanto, existem aspectos problemáticos: a velocidade da informação supera a nossa capacidade de reflexão e discernimento, e não permite uma expressão equilibrada e correcta de si mesmo. A variedade das opiniões expressas pode ser sentida como riqueza, mas é possível também fechar-se numa esfera de informações que correspondem apenas às nossas expectativas e às nossas ideias, ou mesmo a determinados interesses políticos e econômicos. O ambiente de comunicação pode ajudar-nos a crescer ou, pelo contrário, desorientar-nos. O desejo de conexão digital pode acabar por nos isolar do nosso próximo, de quem está mais perto de nós. Sem esquecer que a pessoa que, pelas mais diversas razões, não tem acesso aos meios de comunicação social corre o risco de ser excluído.
Estes limites são reais, mas não justificam uma rejeição dos mass-media; antes, recordam-nos que, em última análise, a comunicação é uma conquista mais humana que tecnológica. Portanto haverá alguma coisa, no ambiente digital, que nos ajuda a crescer em humanidade e na compreensão recíproca? Devemos, por exemplo, recuperar um certo sentido de pausa e calma. Isto requer tempo e capacidade de fazer silêncio para escutar. Temos necessidade também de ser pacientes, se quisermos compreender aqueles que são diferentes de nós: uma pessoa expressa-se plenamente a si mesma, não quando é simplesmente tolerada, mas quando sabe que é verdadeiramente acolhida. Se estamos verdadeiramente desejosos de escutar os outros, então aprenderemos a ver o mundo com olhos diferentes e a apreciar a experiência humana tal como se manifesta nas várias culturas e tradições. Entretanto saberemos apreciar melhor também os grandes valores inspirados pelo Cristianismo, como, por exemplo, a visão do ser humano como pessoa, o matrimonio e a família, a distinção entre esfera religiosa e esfera política, os princípios de solidariedade e subsidiariedade, entre outros.
Então, como pode a comunicação estar ao serviço de uma autêntica cultura do encontro? E – para nós, discípulos do Senhor – que significa, segundo o Evangelho, encontrar uma pessoa? Como é possível, apesar de todas as nossas limitações e pecados, ser verdadeiramente próximo aos outros? Estas perguntas resumem-se naquela que, um dia, um escriba – isto é, um comunicador – pôs a Jesus: «E quem é o meu próximo?» (Lc 10, 29). Esta pergunta ajuda-nos a compreender a comunicação em termos de proximidade. Poderíamos traduzi-la assim: Como se manifesta a «proximidade» no uso dos meios de comunicação e no novo ambiente criado pelas tecnologias digitais? Encontro resposta na parábola do bom samaritano, que é também uma parábola do comunicador. Na realidade, quem comunica faz-se próximo. E o bom samaritano não só se faz próximo, mas cuida do homem que encontra quase morto ao lado da estrada. Jesus inverte a perspectiva: não se trata de reconhecer o outro como um meu semelhante, mas da minha capacidade para me fazer semelhante ao outro. Por isso, comunicar significa tomar consciência de que somos humanos, filhos de Deus. Apraz-me definir este poder da comunicação como «proximidade».
Quando a comunicação tem como fim predominante induzir ao consumo ou à manipulação das pessoas, encontramo-nos perante uma agressão violenta como a que sofreu o homem espancado pelos assaltantes e abandonado na estrada, como lemos na parábola. Naquele homem, o levita e o sacerdote não veem um seu próximo, mas um estranho de quem era melhor manter a distância. Naquele tempo, eram condicionados pelas regras da pureza ritual. Hoje, corremos o risco de que alguns mass-media nos condicionem até ao ponto de fazer-nos ignorar o nosso próximo real.
Não basta circular pelas «estradas» digitais, isto é, simplesmente estar conectados: é necessário que a conexão seja acompanhada pelo encontro verdadeiro. Não podemos viver sozinhos, fechados em nós mesmos. Precisamos de amar e ser amados. Precisamos de ternura. Não são as estratégias comunicativas que garantem a beleza, a bondade e a verdade da comunicação. O próprio mundo dos mass-media não pode alhear-se da solicitude pela humanidade, chamado como é a exprimir ternura. A rede digital pode ser um lugar rico de humanidade: não uma rede de fios, mas de pessoas humanas. A neutralidade dos mass-media é só aparente: só pode constituir um ponto de referimento quem comunica colocando-se a si mesmo em jogo. O envolvimento pessoal é a própria raiz da fiabilidade dum comunicador. É por isso mesmo que o testemunho cristão pode, graças à rede, alcançar as periferias existenciais.
Tenho-o repetido já diversas vezes: entre uma Igreja acidentada que sai pela estrada e uma Igreja doente de auto-referencialidade, não hesito em preferir a primeira. E quando falo de estrada penso nas estradas do mundo onde as pessoas vivem: é lá que as podemos, efectiva e afectivamente, alcançar. Entre estas estradas estão também as digitais, congestionadas de humanidade, muitas vezes ferida: homens e mulheres que procuram uma salvação ou uma esperança. Também graças à rede, pode a mensagem cristã viajar «até aos confins do mundo» (Act 1, 8). Abrir as portas das igrejas significa também abri-las no ambiente digital, seja para que as pessoas entrem, independentemente da condição de vida em que se encontrem, seja para que o Evangelho possa cruzar o limiar do templo e sair ao encontro de todos. Somos chamados a testemunhar uma Igreja que seja casa de todos. Seremos nós capazes de comunicar o rosto duma Igreja assim? A comunicação concorre para dar forma à vocação missionária de toda a Igreja, e as redes sociais são, hoje, um dos lugares onde viver esta vocação de redescobrir a beleza da fé, a beleza do encontro com Cristo. Inclusive no contexto da comunicação, é precisa uma Igreja que consiga levar calor, inflamar o coração.
O testemunho cristão não se faz com o bombardeio de mensagens religiosas, mas com a vontade de se doar aos outros «através da disponibilidade para se deixar envolver, pacientemente e com respeito, nas suas questões e nas suas dúvidas, no caminho de busca da verdade e do sentido da existência humana (Bento XVI, Mensagem para o XLVII Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2013). Pensemos no episódio dos discípulos de Emaús. É preciso saber-se inserir no diálogo com os homens e mulheres de hoje, para compreender os seus anseios, dúvidas, esperanças, e oferecer-lhes o Evangelho, isto é, Jesus Cristo, Deus feito homem, que morreu e ressuscitou para nos libertar do pecado e da morte. O desafio requer profundidade, atenção à vida, sensibilidade espiritual. Dialogar significa estar convencido de que o outro tem algo de bom para dizer, dar espaço ao seu ponto de vista, às suas propostas. Dialogar não significa renunciar às próprias ideias e tradições, mas à pretensão de que sejam únicas e absolutas.
Possa servir-nos de guia o ícone do bom samaritano, que liga as feridas do homem espancado, deitando nelas azeite e vinho. A nossa comunicação seja azeite perfumado pela dor e vinho bom pela alegria. A nossa luminosidade não derive de truques ou efeitos especiais, mas de nos fazermos próximo, com amor, com ternura, de quem encontramos ferido pelo caminho. Não tenhais medo de vos fazerdes cidadãos do ambiente digital. É importante a atenção e a presença da Igreja no mundo da comunicação, para dialogar com o homem de hoje e levá-lo ao encontro com Cristo: uma Igreja companheira de estrada sabe pôr-se a caminho com todos. Neste contexto, a revolução nos meios de comunicação e de informação são um grande e apaixonante desafio que requer energias frescas e uma imaginação nova para transmitir aos outros a beleza de Deus.
Vaticano, 24 de Janeiro – Memória de São Francisco de Sales – do ano 2014.

FRANCISCUS

A Voz do Pastor - Ascensão do Senhor -- Domingo 01/06/2014

"A Teologia da Libertação está muito velha ou mesmo morta", atesta presidente do CELAM

Os membros da presidência do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) encerraram a sua tradicional visita anual à Santa Sé, cuja finalidade é encontrar-se com o papa e tratar de assuntos relacionados com a vida e missão da Igreja na América Latina. Nesta terça-feira, 27, eles ofereceram uma entrevista coletiva na sede da Pontifícia Comissão para a América Latina, abordando uma série de temas.
A reportagem é de Sergio Mora, publicada pela agência Zenit, 28-05-2014.
Perguntado sobre a teologia da libertação: o que pensam hoje, a este respeito, os sacerdotes e seminaristas, considerando que os expoentes da teologia da libertação são já idosos?
O presidente do CELAM, dom Carlos Aguiar Retes, respondeu: “De fato, as figuras relevantes da teologia da libertação são pessoas idosas, e a expressão do que ela já foi está muito velha, se não é que já está morta”.
“Hoje em dia não temos mais essa questão da teologia da libertação, que tinha sido colocada com uma base sociológica que não se encaixava na base teológica. Esse foi o motivo da quebra”.
No entanto, Retes reconheceu que “houve esforços dos teólogos da libertação que tentaram de alguma forma iluminar a teologia. Foi nos anos 1970, 1980, talvez no começo dos anos 1990”.
“Hoje, graças a Deus, temos uma reflexão teológica muito mais sapiencial, que não deixa de lado a necessária libertação do homem integral. Não é mais por meio luta de classes, com a confrontação entre ricos e pobres, porque, como sabemos, para a Igreja, esse não é o caminho para uma libertação social”.
Citando o bispo auxiliar de Valparaíso, dom Santiago Silva, também presente na conferência, Retes declarou: “A questão é mostrar o rosto misericordioso de Deus Pai, a ternura de Deus entre nós, que faça crescer a condição humana, a humanidade da pessoa; que faça crescer a família como o núcleo onde se educa e se faz a pessoa crescer; e ter muito cuidado para preparar as novas gerações, para que, no futuro, elas possam ter essa consciência, sendo líderes em todos os campos, social, econômico e político”.
O presidente do CELAM no período 2011-2015 precisou ainda que a tarefa “é de médio prazo e o papa Francisco a descreveu perfeitamente na exortação apostólica Evangelii Gaudium. É uma atitude crítica, de discernimento e de ação pastoral, da dimensão social da fé”.
A fé tem como consequência, se for autêntica, um desenvolvimento positivo da humanidade, concluiu o presidente do CELAM.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

ORDEM TERCEIRA DO CARMO: 36º Sodalício.

36º Sodalício da Ordem Terceira do Carmo: Carta do Prior Geral.

DIPLOMA DE CRIAÇÃO DO SODALÍCIO DA ORDEM TERCEIRA SECULAR DA BEATÍSSIMA VIRGEM MARIA DO MONTE CARMELO.
PRIOR GERAL DA ORDEM DOS IRMÃOS DA BEM AVENTURADA VIRGEM MARIA DO MONTE CARMELO.

PREZADO EM CRISTO.

Como a nossa Ordem Religiosa carmelitana entre outros privilégios com os quais a Sé Apostólica a enriqueceu tem a faculdade de criar os sodalícios da Ordem Terceira Secular da Beatíssima Virgem Maria do Monte Carmelo e conceder-lhes não só as graças espirituais, privilégios e indulgências, mas também o hábito e a regra da nossa Ordem Carmelitana de tal modo adaptados aos associados que cada um conforme seu estado secular de vida seja inspirado a buscar perfeição cristã segundo o espírito e o costume da nossa Ordem.
Do mesmo modo nós, que temos o cuidado geral de toda a nossa Ordem Carmelitana, desejando todos os benefícios salutares para as almas dos fiéis que sejam mais incentivados a devoção e a piedade pela rica participação nos mesmos bens espirituais, pela nossa autoridade criamos e instituímos o Sodalício da Ordem Terceira Secular da Beatíssima Virgem Maria do Monte Carmelo para fiéis de ambos os sexos na Igreja e local supra citados, com o consentimento do Ordinário local, o qual nos pediu por escrito a mesma associação com todos os direitos, obrigações, indulgências, privilégios e prerrogativas concedidas legitimamente e estabelecidas na Ordem Terceira e oportunamente para os membros existentes de ambos os sexos nossa regra carmelitana adaptada conforme o modo de vida secular junto com o elenco das indulgências a forma de usar o hábito e outras nossas normas oportunas, cuidadosamente também observadas livremente remetemos ao respectivo manual.
A ti pois, de cuja prudência, integridade de costumes, conhecimento da religião e zelo pelas almas, muito confiamos, nomeamos e constituímos comissário ou diretor com todas as faculdades, prerrogativas, direitos e obrigações inerentes ao mesmo ofício conforme a norma da regra e o direito comum.
Declaramos ser a nossa intenção que, se no futuro nosso sodalício no mesmo local e cidade adquirir ou fundar igreja, este sodalício dos terceiros então seja transferida para a nossa igreja.
Dado em Roma, na nossa sede Generalícia. Data 30 de outubro de 2013.

Padre Fernando Millán Romeral, Prior Geral.

domingo, 25 de maio de 2014

A VIDA CONTEMPLATIVA: Deus sempre presente

Frei John Welch, O. Carm
Whitefriars Hall , Washington

Uma das mensagens mais impressionantes de nossos santos carmelitas tem sido a compreensão de que Deus nos ama como somos. Pensando que buscavam a um Deus ausente e que a vida era a procura desse Deus, eles regressavam de seus esforços testemunhando que Deus os procurava ao longo de todo caminho.  Que a história de nossas vidas não seja a procura de Deus, mas sim o desejo e a procura de Deus por nós.       A fome do nosso coração, o desejo do que somos, é o fruto de Deus nos ter desejado e amado primeiro.  Com o tempo, nossa transformação pode ser tão grande que viveremos numa consonância de desejo: nosso desejo humano participando plenamente do desejo de Deus.
Certa vez Teresa de Ávila escutou estas palavras enquanto orava: “Procura-te em mim”. Ela perguntou a muitos de seus amigos e diretores em Ávila o significado dessas palavras; “Procura-te em mim”.  Entre os consultados estavam Francisco de Salcedo, um diretor espiritual leigo, seu irmão Lorenzo de Cepeda e João da Cruz. Estes cavalheiros se reuniram para discutir suas respostas, mas Teresa não estava presente.  Por isso decidiram enviar-lhe suas respostas.
Imitando a moderação acadêmica praticada em algumas escolas, Teresa alegremente decidiu encontrar falta em cada resposta e muito sutilmente se livrou de cada uma. Não temos suas respostas, mas sim, temos as rejeições de Teresa a essas respostas. Um dos que respondeu foi Francisco de Salcedo que com frequência citava a São Paulo e termina sua resposta dizendo que tem “escrito estupidez”. Teresa o repreende por considerar as palavras de São Paulo “estupidez”. Disse-lhe que tinha em mente denunciá-lo à Inquisição. 
João da Cruz respondeu que o significado de “Procura-te em mim” requer estar morto para o mundo para poder procurar Deus. Teresa respondeu com uma oração na qual pedia para ser libertada de pessoas tão espirituais como João da Cruz. Além do mais lhe disse, sua resposta era boa para os membros da Companhia de Jesus, mas não para aqueles a quem ela tinha em mente. A vida não é tão longa que nos permita morrer ao mundo antes de encontrar a Deus. Teresa lembrou os Evangelhos e observou que Maria Madalena não estava morta ao mundo antes de encontrar-se com Jesus; a mulher cananéia também não estava  morta ao mundo antes de pedir as migalhas da mesa. E a mulher samaritana também não morreu ao mundo antes de encontrar-se com Jesus no poço. Ela era quem era e Jesus a aceitou. Teresa termina sua resposta a João da Cruz agradecendo-lhe por responder ao que ela não havia perguntado.
A experiência de Teresa é que Deus se encontra conosco e nos aceita  tal como somos  e nos acolhe no lugar que estamos  em nossas vidas. Somos aceitos por Ele ao longo de todo o caminho.  O desafio para nós é aceitar a aceitação, e permitir a essa presença que nos transforme. A realidade desse abraço é à base de nossa oração. Orar,  portanto, é entrar nessa relação  com confiança  sentindo-a  como o fundamento  de nossas vidas. É muito fácil falar sobre isto, mas muito difícil vivê-lo no dia-a-dia.

Um teólogo resumiu a mensagem de Teresa desta maneira: a melhor cooperação que podemos oferecer a Deus que reorienta nossas vidas, é prestar uma fiel e duradoura  atenção a nossas profundidades  e ao  nosso centro.

FREI PETRÔNIO EM ANGRA: Canto de Comunhão.

Santa Teresinha do Menino Jesus- A Carmelita do amor.

Os pais de Santa Teresinha foram Luís e Zélia Martin, que se  casaram em 1858. Ambos haviam aspirado entrar para a vida religiosa. De caráter contemplativo, mais silencioso Não eram pessoas muito alegres. Luís tinha um temperamento dado à melancolia. Zélia afirmará que sua infância foi “triste como uma mortalha”. Após o casamento, permaneceram convivendo como se fossem monges. Um confessor convenceu Zélia a ter filhos e, assim preparar almas para o céu. Luís e Zélia vivem profundamente a espiritualidade católica de sua época, que lhes faz ver a vida terrestre e a história como um momento penoso a atravessar,  antes de alcançar o céu. Eles não acreditam na felicidade; e a prosperidade em que viviam, parece-lhes um mau sinal. Eis pois, como era o casal Martin: ele, um sonhador austero e melancólico. Ela, uma pessoa angustiada.
Quando Teresa nasceu, no dia 2 de janeiro de 1873, Maria, a primogênita das meninas Martin, tem doze anos.  Paulina, a segunda filha. A terceira, Lêonia.  Celina tem quatro anos mais do que Teresa.
Teresa, quando nasce, é uma criança frágil. Desde o nascimento, exige cuidados, pois é vítima de crises de enterites. Confia-se então Teresa a uma ama-de-leite, chamada Rosa Taillé e que todos chamam “Rosinha”; a ama, que tem quatro filhos, mora em Semallé, a 8 km de Alençon, onde vivia a família de Teresa. Eis, pois, Teresa fora da casa paterna, com apenas seis meses de vida, nas mãos de uma ama-de-leite; e sem demora, ela recupera as forças, engorda, dá mostras de uma saúde maravilhosa. Volta para casa em abril de 1874.
Em agosto de 1876, Teresa tem três anos e meio, o médico anuncia à Sra. Martin que ela tem um câncer incurável que a levaria à morte. Sabendo estar condenada, a Sra. Martin faz suas recomendações; a Isidoro, seu irmão, e sua esposa, ela confia as filhas. O Sr. Martin fecha-se no próprio sofrimento. No dia 26 de agosto, dão-lhe a extrema-unção, cerimônia que impressiona profundamente Teresa. Zélia falece no dia 27 de agosto, à meia-noite. A Sra. Martin quisera que, depois de sua morte, o marido e as filhas fossem morar em Lisieux, onde o irmão Isidoro é farmacêutico. Receia que o marido não seja capaz de cuidar das cinco filhas. Doze dias depois da morte da Sra. Martin, o pai cumpriu o desejo da falecida: descobrir em Lisieux uma casa com jardim.
A 15 de novembro de 1877, depois duma última visita ao cemitério de Alençon, Luís Martin e as filhas partem para Lisieux. Esta cidade está situada no coração da Normandia. A residência, uma casa encantadora dominada por um mirante, conhecida como “Os Buissonnets”. Teresa morará mais de dez anos nesse ambiente aprazível.
Para a caçula convergem as ternuras das irmãs mais velhas, que se fizeram suas “mãezinhas”; e, especialmente, as do pai, seu “rei querido”, que demonstra um “amor verdadeiramente maternal”.
No início de janeiro de 1878, Leônia e Celina são entregues às beneditinas da cidade. Paulina desdobra-se, então, para a pequena Teresa, em professora firme e afetuosa. A aluna se mostra muito aplicada em aprender a escrever sozinha antes dos 7 anos.
Em outubro de 1881, quando está com oito anos e meio, Teresa ingressa como semi-interna na abadia das beneditinas. Porém, a menina mimada e solitária dos Buissonnnets não consegue integrar-se ao grupo. Apesar dos bons resultados escolares, e, sobretudo, do afeto das religiosas, Teresa designará esses cinco anos de internato como “os mais tristes anos da sua vida”.
Nessa época, seu grande sonho era ir um dia, com Paulina, “para um deserto remoto”. De fato, Paulina, que está com 21 anos, dirige o olhar para o “deserto” do Carmelo. Sua partida é rapidamente decidida. Teresa fica sabendo, com surpresa, durante o verão de 1882. O golpe é brutal. Paulina explica-lhe o que é o Carmelo e Teresa pensa que o Carmelo é o “deserto” onde Deus quer que ela vá se esconder. Ela o diz a Paulina e, algum tempo depois, à própria priora do Carmelo.

A reação de Teresa não poderia ser pior. Adoece, procurando provocar atenções maternais da sua tia Guérin e da irmã, Maria, a quem chama incessantemente: “Mamãe, mamãe”, forçando-a a permanecer junto dela.
No dia 23 de março de 1883, o Sr. Martin leva Maria e Leônia a Paris para as cerimônias da Semana Santa. Já aflita, entregue a seu tio e sua tia, Teresa não consegue superar esta breve separação. Algumas horas mais tarde, a menina é tomada por tremores nervosos aos quais sucedem crises de medo e alucinações. Chama-se com urgência o Sr. Martin e suas filhas. Maria instala-se à cabeceira da menina, na casa dos Guérin, pois ela não pode ser transportada.
O desejo de abraçar Pauline, mais uma vez, por ocasião da tomada de hábito, provoca uma melhora, em 6 de abril. No dia seguinte, há recaída, nos Buissonnets. Manifestações desoladoras multiplicam-se. A “estranha doença” desnorteia o Dr. Notta, que, por um momento, fala de “dança de São Guido”, mas exclui formalmente a histeria.
Após cinco semanas de angústias, a fé da família Martin consegue finalmente a cura da doença diante da qual a ciência fora impotente. No domingo, 13 de maio de 1883, dia de Pentecostes, a menina sente-se repentinamente curada pelo “encantador sorriso da Santíssima Virgem”.
Em maio de 1885, durante o retiro preparatório à comunhão solene, um sermão frenético dum padre que pregava sobre o medo do inferno fez despertar nela o que denominou “a doença terrível dos escrúpulos”, doença esta que só findaria no Natal de 1886. 
No Natal de 1886, Teresa é ainda uma criança, que retorna da missa do galo toda apressada para procurar seus presentes. Mas Luís Martin está farto dessas atitudes infantis. Teresa dá-se conta de que, cedo ou tarde, precisará renunciar à infância, abrir mão de todas as criancices. Chama este Natal de “Noite de luz”, “Noite da minha conversão”, quando deixa de lado os “ defeitos da infância”. Insistirá muito na importância desta noite de Natal: “Desde esta noite abençoada, eu não fui vencida em nenhum combate, pelo contrário, caminhei de vitória em vitória”. O que ela recebe é um Dom de força e de coragem.
No dia de Pentecostes de 1887, seis meses depois de sua conversão, Teresa comunica ao pai que quer entrar para o  Carmelo. Mas tem apenas 14 anos! O pai abençoa sua vocação e a conduz ao bispo de Bayeux. O vigário da paróquia de Saint-Jacques, superior canônico do Carmelo, nem sequer aceitava falar de tamanha loucura. E é a este padre que Mons. Hugonin remete a questão de Teresa.
O Sr. Luís, que tanto gostava de peregrinações, resolveu levar Teresa a Roma e sobretudo permitiu à filha falar de sua vocação ao Papa para conseguir autorização para ingressar no Carmelo aos 14 anos. Na audiência do Papa, a 20 de novembro de 1887, Teresa fez o seu pedido. Leão XIII deixa nas mãos dos Superiores a decisão. Na realidade, quem tinha a chave de sua entrada para o Carmelo era Mons. Hugonin. Ele dissera que lhe daria a resposta por escrito. Começa para Teresa uma longa espera. A resposta chegou a 28 de dezembro: o bispo escreve à priora do Carmelo de Lisieux confiando-lhe a decisão. Madre Maria de Gonzaga comunica esta resposta a Teresa no dia 1º de janeiro, véspera dos seus quinze anos.
As portas do Carmelo abrir-se-iam para Teresa na Segunda-feira, 9 de abril de 1888. No dia 10 de janeiro de 1889  recebe o hábito de carmelita. Ela acabara de completar dezesseis anos.  Depois de um ano, a jovem religiosa poderá emitir os votos perpétuos. Em janeiro de 1890, alcançaria os exatos 17 anos exigidos pelas Constituições para o compromisso definitivo. Os superiores julgam mais prudente adiar: uma prolongação lhe é imposta.
A cerimônia de 10 de janeiro foi, para o Senhor Martin, “seu triunfo, sua última festa neste mundo”. O drama do pai começa no dia 12 de fevereiro: ele, doente, vê “coisas horríveis, carnificinas, batalhas”. Teresa é atingida bem no coração e não ignroa que em Lisieux muitos a consideram responsável pela doença do pai, abalado pela partida sucessiva de suas filhas para o convento. Os meses se sucedem. A esperança de uma melhora para o sr. Martin enfraquece.
Na manhã do dia 24 de setembro de 1890 Teresa recebe o véu negro. Não há mais comunicação possível com seu pai, internado desde fevereiro de 1889. Porém,  anos depois, uma surpresa: no dia 12 de maio de 1892, o tio Isidoro chega ao Carmelo trazendo o Sr. Luís Martin. Fora buscá-lo no manicômio de Caen. Em momento de lucidez, queria ver as filhas. Quanto a Teresinha, teve apenas forças para rezar: “Muito obrigada, ó Deus, pelo bom pai que nos destes. Pudemos ver nele uma imagem do amor que tens por todos os homens”. Celina continuava com Leônia a cuidar do pai na casa dos Guérins.
Quando Paulina, Irmã Inês, foi eleita priora, resolveu nomear a ex-priora Madre Maria de Gonzaga como Mestra das Noviças. Teresinha foi nomeada sua ajudante. Além de ser ajudante de mestra, foi encarregada de pinturas, da confecção de imagens e das festas conventuais. Nessa ocasião estreou compondo versos e poesias.
No verão de 1893, Leônia, após um retiro na visitação de Caen, voltou com o firme propósito de fazer uma nova tentativa para a vida religiosa.
No dia 14 de setembro de 1894 entra para o Carmelo de Lisieux mais uma Martin, Celina. Desde o tempo de Teresa de Ávila nunca um Carmelo acolhera quatro irmãs da mesma família. Teresinha não sabia como agradecer a Deus.
As dores de garganta de Teresinha já causavam sérias apreensões. Os remédios não surtiam nenhum efeito. Não obstante, ela não diminuía as suas atividades. Antes, seus trabalhos aumentaram com a entrada de mais quatro postulantes, entre elas, Celina.
Em fins de 1894, Teresinha começou a se questionar. Há seis anos entrara para o Carmelo e jamais abrira mão do desejo de se tornar santa. A leitura da vida dos grandes santos deixou-a meio confusa. Todos esses santos distinguiram-se por uma vida de grandes mortificações, praticaram em alto grau toda as virtudes e Deus dotou-os dos mais extraordinários dons e carismas. Perto deles, ela se julga um “obscuro grão de areia”. Mas não desanima. Não se sente apta a “subir a rude escada da perfeição”, mas há que se santificar por outro caminho. Lembrou-se então de que ouvira, num retiro, o Pe. Prou falar de um caminho pequeno e reto, completamente novo para se chegar ao amor total. Teresinha descobre esta “Pequena Via”, que se tornará a essência de sua espiritualidade. Já que não consegue, através de férreas disciplinas e sacrifícios, alcançar a santidade, Jesus mesmo será sua santidade. Ele irá conduzi-la nos braços até a Montanha do Amor. O seu pequeno caminho será o do abandono, da entrega confiante nas mãos do Pai.
Teresinha descobre a alegria de ser pequena. Se ela não ensinou nada de novo, ensinou um novo modo de fazer-se pequeno. Significa reconhecer que somos pequenos diante de Deus; significa acreditar que Deus se agrada de quem se faz pequeno na humildade.
Numa noite de inverno de 1895, as irmãs Martin conversavam na sala aquecida. A mais nova, Teresinha, com seu jeito desembaraçado, contava às irmãs lembranças do passado, nos Buissonnets. Maria volta-se para Paulina, a priora, e sugeriu-lhe para pedir a Teresinha para escrever suas lembranças da infância. A conversa terminou com uma ordem de Paulina para que escrevesse suas memórias. Teresinha obedeceu e em pouco tempo encheu o primeiro caderno. Celina foi sua primeira leitora. Estava começando a escrever a “História de uma Alma”.
Um dia, após a missa da Santíssima Trindade, Teresa quis oferecer-se como vítima de holocausto ao Amor Misericordioso. Pediu e obteve permissão da Priora. Quis que Celina também o fizesse. Foi diante da imagem de Nossa Senhora das Vitórias que fez sua consagração, ela e a irmã.
Um dia Teresa foi chamada pela Priora. Paulina disse-lhe logo do que se tratava. Um futuro sacerdote e missionário pedia orações ao Carmelo. Chamava-se Maurice Bellière, de 22 anos. Teresinha aceitou ser sua “irmã” espiritual, fazendo pequenos sacrifícios por ele. Mais tarde foi-lhe confiado outro sacerdote e missionário: Adolfo Roulland, que depois de ordenado seria enviado para as missões na China. Sem sair do Carmelo, ela foi irmã de caminhada dos sacerdotes e missionários. Acreditava que podia estar sempre “unida às obras de um missionário pelos laços da oração, do sofrimento e do amor”.
Era a Semana Santa de 1896. Na noite de Quinta-feira Santa, 3 de abril, Teresinha estava no coro fazendo adoração. Fica aí até meia-noite. Depois vai repousar. Mal se deita, sente uma golfada, como vômito, que lhe sobe até os lábios. Como a lâmpada já estava apagada, ela não quis verificar. Só no dia seguinte pôde constatar. O vômito era sangue. Não teve medo. Era um anúncio do Bem Amado de seu coração. No dia seguinte, conta o ocorrido à Priora, completando: “Estou passando bem, e suplico-lhe que não me conceda nada de especial”. A Priora, sem se dar conta do estado real de Teresinha, concorda. Durante o dia Teresinha se entrega aos trabalhos na forma de sempre.
Na noite seguinte, o mal se repete. Teresinha é socorrida e atendida pelo Dr. Néele. O diagnóstico do médico e os remédios não surtiram o mínimo efeito de alício para Teresinha. Ela só podia sonhar de em breve estar junto do Bem Amado!
O sexto aniversário de sua profissão religiosa Teresa preferiu passá-lo na solidão. Nesse dia um raio de luz iluminou-a, e ela pôde escrever: “Ó meu Bem Amado, no sexto aniversário de nossa união, perdoa se te digo disparates. Peço que concedas a minha alma o que ela espera”.
Teresa fez questão de não se dispensar de nada. Ninguém a ouvia tossir durante a noite. Costurava, pintava, escrevia versos e cartas enquanto havia luz em seu quarto. Quando estava só é que tudo mudava. As energias lhe fugiam. Passava as noites com febre e frio; tossia sangue. É simplesmente incompreensível que durante todo o tempo do inverno ninguém tivesse notado a gravidade de sua doença. Ela queria morrer em atividade. Enquanto isso a doença progredia. Permaneceu fiel em não pedir nenhuma isenção.
Só depois que o estado de Teresinha se complicou é que Madre Gonzaga resolveu desvelar-se mais do que uma mãe. Desde abril Paulina não saía de perto da irmã enferma, para anotar tudo o que ela podia dizer. O período de  maio a 30 de setembro de 1897, dia de sua morte, foi uma longa agonia. Desenganada pelos médicos, Teresa esperava morrer. Mas, apenas viu adiar-se sempre mais a sua agonia.
No dia 3 de junho, por sugestão de Madre Gonzaga, começa a escrever suas memórias.  Suas relações com a Priora haviam melhorado muito. A partir deste dia as irmãs de Teresinha crivam-na de mil perguntas como se quisessem arrancar-lhe todos os segredos e mistérios de seu coração. As três irmãs estavam absolutamente convencidas que Teresa era uma santa. Por isso queriam recolher cada uma de suas palavras para transmiti-las depois à posteridade.
Em julho vê pela última vez seus familiares. Neste mesmo mês já não consegue retomar a pena para escrever. Pede a unção dos enfermos. Com fervor diz: “Eu creio! Eu amo para crer mais firmemente!” Até agosto as hemoptises repetem-se. No dia 8 de julho tem de ser levada para a enfermaria onde inicia uma longa agonia de doze semanas.  Leva consigo a imagem de Nossa Senhora das Vitórias. Em tudo depende dos outros. Os sofrimentos físicos vêm todos juntos: febre, suores, falta de ar, insônia.
As religiosas, em particular suas três irmãs, velam-na noite e dia. Compreende-se que ela repetisse: “oh! como se deve rezar pelos agonizantes!” Os dois meses derradeiros passam-se inteiramente nas trevas. No dia 29 de setembro, questiona: “Como é que vou fazer para morrer? Eu nunca vou saber morrer”.
Dia 30, na manhã de sua morte, diz: “Eu não me arrependo de me ter abandonado ao Amor”. Às horas finais, as mãos ficam geladas, o rosto se congestiona. De quando em quando, Teresa solta breves gemidos de sofrimento. Às sete da noite, ela fita o Cristo crucificado e diz: “Eu vos amo”, inclina a cabeça e expira.
O corpo ficou exposto no coro, atrás das grades, de sexta a domingo, para a visitação dos parentes e amigos. Todos queriam vê-la e tocá-la com terços e medalhas, como se já quisessem pedir-lhe graças e favores.
No dia 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis, foi sepultada no cemitério de Lisieux a Irmã Teresa do Menino Jesus da Santa Face, falecida aos 24 anos. Quem dirige o cortejo fúnebre é sua irmã Leônia; de coração despedaçado. Havia muito pouca gente no pequeno cemitério. Depois do enterro o Carmelo voltou à rotina.
Quando Teresinha já estava na enfermaria, ouviu uma Irmã dizer: “Eu não sei porque falar tanto de Irmã Teresinha; ela não faz nada de nota; ninguém a vê praticar a virtude, nem sequer se pode dizer que ela seja uma boa religiosa”.
Paulina assumira o compromisso de publicar os escritos da irmã. Por isso pôs logo mãos à obra. Em pouco tempo transformou-os num volume de 474 páginas. Assim, um ano depois, em 1898, aparece a “História de uma Alma”, com uma tiragem de dois mil exemplares. Em 1899 foi preciso fazer uma nova edição. Em 1900 tinham sido vendidos seis mil exemplares. Nos anos seguintes saem as traduções para o inglês, alemão, italiano, espanhol, português, japonês e russo.
Chegam ao Carmelo de Lisieux milhares de cartas e pedidos de lembranças e relíquias. As romarias e visitas ao túmulo foram-se somando. Chegaram notícias de graças alcançadas, de conversões, etc. As próprias irmãs não sonhavam tamanho sucesso. O certo é que de uma fagulha fez-se um incêndio.
Em 1906 o Pe. Prévost encarrega-se de dar os primeiros passos na causa da beatificação e canonização de Teresinha. O processo foi mais rápido do que se podia esperar. O Papa Pio X, antecipando-se, chamou Teresinha “a maior santa dos tempos modernos”.
Em 1921 o papa Bento XV promulgou o decreto de heroicidade de suas virtudes. Depois, seu sucessor, Pio XI, fez dela a “estrela de seu pontificado”. No dia de sua beatificação, 23 de abril de 1923, sua vida foi considerada uma “Palavra de Deus” para o nosso século. Finalmente, no dia 17 de maio de 1925, o papa Pio XI, contrariando as leis canônicas, diante de cinqüenta mil pessoas dentro da Basílica de São Pedro e diante de mais de quinhentas mil pessoas reunidas na Praça de São Pedro, em Roma, canoniza Teresinha. A cerimônia contou com a presença de 33 cardeais e 250 bispos do mundo inteiro. Dois anos depois o mesmo Pio XI proclama Santa Teresinha “padroeira principal das missões”, pondo-a em pé de igualdade com o grande missionário São Francisco Xavier.
Quando visitou a França, o papa João Paulo II quis visitar também Lisieux. Na ocasião, ele falou diante de uma multidão de mais de cem mil pessoas: De Teresinha pode-se dizer com convicção que o Espírito de Deus permitiu ao seu coração revelar diretamente aos homens do nosso tempo o mistério fundamental, a realidade fundamental do Evangelho: o fato de termos recebido realmente ‘um espírito de filhos adotivos que nos faz exclamar: Abba! Pai!’’.
O papa Pio XII, em 1944, declarou-a padroeira da França em pé de igualdade com Santa Joana d’Arc.

No dia das Missões de 1997, ano do centenário de sua morte, Teresinha foi proclamada Doutora da Igreja pelo papa João Paulo II, na Basílica de São Pedro em Roma. 

FREI PETRÔNIO EM ANGRA: Homilia do Frei

FREI PETRÔNIO EM ANGRA: Coroação.

sábado, 24 de maio de 2014

6º Domingo da Páscoa: O Espírito da verdade

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o evangelho de Jesus Cristo segundo João 14, 15-21, que corresponde ao Sexto Domingo da Páscoa, ciclo A do ano litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto.
Jesus está se despedindo de seus discípulos. Ele os vê tristes e abatidos. Logo ele já não estará com eles. Quem poderá preencher o vazio?  Até agora foi Jesus quem cuidou deles, quem os defendeu dos escribas e fariseus, quem apoiou sua fé débil e vacilante, lhes descobriu a verdade de Deus e os iniciou no seu projeto humanizador.
Jesus lhes fala apaixonadamente do Espírito. Ele não quer que fiquem órfãos. Ele mesmo pedirá ao Pai que não os abandone, que lhes dê “outro defensor” que esteja sempre com eles. Jesus o chama de “Espírito da verdade”. Que há nessas palavras de Jesus?
Este “Espírito da verdade” não pode ser confundido com uma doutrina. Esta verdade não deve ser procurada nos livros dos teólogos nem nos documentos de hierarquia. É uma realidade muito mais profunda. Jesus disse que “vive no meio de nós e está em nós”. É alento, força, luz, amor… que nos chega do mistério último de Deus. Devemos acolhê-lo com coração simples e confiante.
Este “Espírito da verdade” não nos transforma em proprietários da verdade. Não vem para que imponhamos aos outros a nossa fé, nem para que controlemos sua ortodoxia. Ele vem para que não fiquemos órfãos de Jesus e nos convida a nos abrir à sua verdade, escutando, acolhendo e vivendo seu Evangelho.
Este “Espírito da verdade” não nos faz tampouco “guardiões” da verdade, mas testemunhas. Nossa tarefa não é disputar, combater nem derrotar adversários, senão viver a verdade do Evangelho e “amar Jesus guardando seus mandamentos”.
Este “Espírito da verdade” está no interior de cada um de nós, defendendo-nos de tudo aquilo que pode nos separar de Jesus. Convida-nos a nos abrir com simplicidade ao mistério de um Deus, Amigo da vida. Quem procura este Deus com honradez e verdade não está longe dele. Em certa ocasião Jesus disse: “todo aquele que é da verdade escuta minha voz”. É assim!
Este “Espírito da verdade” nos convida a viver na verdade de Jesus no meio de uma sociedade onde com frequência a mentira é chamada estratégia; a exploração, negócio; a irresponsabilidade, tolerância; a injustiça, ordem estabelecida; a arbitrariedade, liberdade; a falta de respeito, sinceridade…
Que sentido pode ter na Igreja de Jesus se deixamos que o “Espírito da verdade” fique esquecido nas nossas comunidades? Quem pode salvar a comunidade do próprio engano, dos desvios e da mediocridade generalizada? Quem anunciará a Boa Notícia de Jesus numa sociedade tão necessitada de alento e esperança?

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 589. 6º Domingo da Páscoa.

ORDEM TERCEIRA: Reunião em Angra.

A PALAVRA... Nº 588. O Papa na Terra Santa.

domingo, 18 de maio de 2014

Os jovens sofrem com a depressão, diz OMS

Os jovens sofrem com a depressão, diz OMS


Um relatório divulgado ontem pela Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou que a depressão é a principal doença e causa de incapacidade entre crianças e adolescentes entre 10 e 19 anos. O documento “Saúde para os adolescentes do mundo” tem dados de 109 países. A informação é publicada pelo jornal Zero Hora, 15-05-2014.
Segundo a entidade, os problemas nessa faixa etária estão relacionados a cigarro, consumo de drogas e bebidas alcoólicasaids, transtornos mentais, alimentação, sexualidade e violência.
– O mundo não presta atenção na saúde dos adolescentes. Esperamos que este documento sirva para desencadear uma ação acelerada sobre seus problemas – declarou a médica Flavia Bustreo, subdiretora geral para a saúde das mulheres e das crianças na OMS.
A entidade destaca que há estudos demonstrando que todas as pessoas que sofrem de problemas mentais apresentam os primeiros sintomas a partir dos 14 anos. Segundo a OMS, se os adolescentes fossem tratados a tempo, “mortes e sofrimentos durante toda uma vida poderiam ser evitados”. O suicídio é apontado como a terceira causa de morte entre os jovens.
Trânsito é a principal causa entre as mortes
Os acidentes de trânsito são a principal causa de morte entre os jovens. Na maioria dos casos, os homens são as vítimas, com taxa de mortalidade três vezes superior à das mulheres. Como formas de evitar esse problema, a OMSrecomenda que países adotem medidas para aumentar o acesso a um transporte público de qualidade e seguro e reforcem as leis de trânsito ao estipular limites de álcool no sangue e de velocidade.
Entre as meninas com idades entre 15 e 19 anos, o parto foi o segundo fator de morte.
O documento alerta também que pelo menos um em cada quatro adolescentes não realizam exercícios físicos suficientes – pelo menos uma hora por dia. Em alguns países, um em cada três jovens é obeso.