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domingo, 25 de maio de 2014

A VIDA CONTEMPLATIVA: Deus sempre presente

Frei John Welch, O. Carm
Whitefriars Hall , Washington

Uma das mensagens mais impressionantes de nossos santos carmelitas tem sido a compreensão de que Deus nos ama como somos. Pensando que buscavam a um Deus ausente e que a vida era a procura desse Deus, eles regressavam de seus esforços testemunhando que Deus os procurava ao longo de todo caminho.  Que a história de nossas vidas não seja a procura de Deus, mas sim o desejo e a procura de Deus por nós.       A fome do nosso coração, o desejo do que somos, é o fruto de Deus nos ter desejado e amado primeiro.  Com o tempo, nossa transformação pode ser tão grande que viveremos numa consonância de desejo: nosso desejo humano participando plenamente do desejo de Deus.
Certa vez Teresa de Ávila escutou estas palavras enquanto orava: “Procura-te em mim”. Ela perguntou a muitos de seus amigos e diretores em Ávila o significado dessas palavras; “Procura-te em mim”.  Entre os consultados estavam Francisco de Salcedo, um diretor espiritual leigo, seu irmão Lorenzo de Cepeda e João da Cruz. Estes cavalheiros se reuniram para discutir suas respostas, mas Teresa não estava presente.  Por isso decidiram enviar-lhe suas respostas.
Imitando a moderação acadêmica praticada em algumas escolas, Teresa alegremente decidiu encontrar falta em cada resposta e muito sutilmente se livrou de cada uma. Não temos suas respostas, mas sim, temos as rejeições de Teresa a essas respostas. Um dos que respondeu foi Francisco de Salcedo que com frequência citava a São Paulo e termina sua resposta dizendo que tem “escrito estupidez”. Teresa o repreende por considerar as palavras de São Paulo “estupidez”. Disse-lhe que tinha em mente denunciá-lo à Inquisição. 
João da Cruz respondeu que o significado de “Procura-te em mim” requer estar morto para o mundo para poder procurar Deus. Teresa respondeu com uma oração na qual pedia para ser libertada de pessoas tão espirituais como João da Cruz. Além do mais lhe disse, sua resposta era boa para os membros da Companhia de Jesus, mas não para aqueles a quem ela tinha em mente. A vida não é tão longa que nos permita morrer ao mundo antes de encontrar a Deus. Teresa lembrou os Evangelhos e observou que Maria Madalena não estava morta ao mundo antes de encontrar-se com Jesus; a mulher cananéia também não estava  morta ao mundo antes de pedir as migalhas da mesa. E a mulher samaritana também não morreu ao mundo antes de encontrar-se com Jesus no poço. Ela era quem era e Jesus a aceitou. Teresa termina sua resposta a João da Cruz agradecendo-lhe por responder ao que ela não havia perguntado.
A experiência de Teresa é que Deus se encontra conosco e nos aceita  tal como somos  e nos acolhe no lugar que estamos  em nossas vidas. Somos aceitos por Ele ao longo de todo o caminho.  O desafio para nós é aceitar a aceitação, e permitir a essa presença que nos transforme. A realidade desse abraço é à base de nossa oração. Orar,  portanto, é entrar nessa relação  com confiança  sentindo-a  como o fundamento  de nossas vidas. É muito fácil falar sobre isto, mas muito difícil vivê-lo no dia-a-dia.

Um teólogo resumiu a mensagem de Teresa desta maneira: a melhor cooperação que podemos oferecer a Deus que reorienta nossas vidas, é prestar uma fiel e duradoura  atenção a nossas profundidades  e ao  nosso centro.

FREI PETRÔNIO EM ANGRA: Canto de Comunhão.

Santa Teresinha do Menino Jesus- A Carmelita do amor.

Os pais de Santa Teresinha foram Luís e Zélia Martin, que se  casaram em 1858. Ambos haviam aspirado entrar para a vida religiosa. De caráter contemplativo, mais silencioso Não eram pessoas muito alegres. Luís tinha um temperamento dado à melancolia. Zélia afirmará que sua infância foi “triste como uma mortalha”. Após o casamento, permaneceram convivendo como se fossem monges. Um confessor convenceu Zélia a ter filhos e, assim preparar almas para o céu. Luís e Zélia vivem profundamente a espiritualidade católica de sua época, que lhes faz ver a vida terrestre e a história como um momento penoso a atravessar,  antes de alcançar o céu. Eles não acreditam na felicidade; e a prosperidade em que viviam, parece-lhes um mau sinal. Eis pois, como era o casal Martin: ele, um sonhador austero e melancólico. Ela, uma pessoa angustiada.
Quando Teresa nasceu, no dia 2 de janeiro de 1873, Maria, a primogênita das meninas Martin, tem doze anos.  Paulina, a segunda filha. A terceira, Lêonia.  Celina tem quatro anos mais do que Teresa.
Teresa, quando nasce, é uma criança frágil. Desde o nascimento, exige cuidados, pois é vítima de crises de enterites. Confia-se então Teresa a uma ama-de-leite, chamada Rosa Taillé e que todos chamam “Rosinha”; a ama, que tem quatro filhos, mora em Semallé, a 8 km de Alençon, onde vivia a família de Teresa. Eis, pois, Teresa fora da casa paterna, com apenas seis meses de vida, nas mãos de uma ama-de-leite; e sem demora, ela recupera as forças, engorda, dá mostras de uma saúde maravilhosa. Volta para casa em abril de 1874.
Em agosto de 1876, Teresa tem três anos e meio, o médico anuncia à Sra. Martin que ela tem um câncer incurável que a levaria à morte. Sabendo estar condenada, a Sra. Martin faz suas recomendações; a Isidoro, seu irmão, e sua esposa, ela confia as filhas. O Sr. Martin fecha-se no próprio sofrimento. No dia 26 de agosto, dão-lhe a extrema-unção, cerimônia que impressiona profundamente Teresa. Zélia falece no dia 27 de agosto, à meia-noite. A Sra. Martin quisera que, depois de sua morte, o marido e as filhas fossem morar em Lisieux, onde o irmão Isidoro é farmacêutico. Receia que o marido não seja capaz de cuidar das cinco filhas. Doze dias depois da morte da Sra. Martin, o pai cumpriu o desejo da falecida: descobrir em Lisieux uma casa com jardim.
A 15 de novembro de 1877, depois duma última visita ao cemitério de Alençon, Luís Martin e as filhas partem para Lisieux. Esta cidade está situada no coração da Normandia. A residência, uma casa encantadora dominada por um mirante, conhecida como “Os Buissonnets”. Teresa morará mais de dez anos nesse ambiente aprazível.
Para a caçula convergem as ternuras das irmãs mais velhas, que se fizeram suas “mãezinhas”; e, especialmente, as do pai, seu “rei querido”, que demonstra um “amor verdadeiramente maternal”.
No início de janeiro de 1878, Leônia e Celina são entregues às beneditinas da cidade. Paulina desdobra-se, então, para a pequena Teresa, em professora firme e afetuosa. A aluna se mostra muito aplicada em aprender a escrever sozinha antes dos 7 anos.
Em outubro de 1881, quando está com oito anos e meio, Teresa ingressa como semi-interna na abadia das beneditinas. Porém, a menina mimada e solitária dos Buissonnnets não consegue integrar-se ao grupo. Apesar dos bons resultados escolares, e, sobretudo, do afeto das religiosas, Teresa designará esses cinco anos de internato como “os mais tristes anos da sua vida”.
Nessa época, seu grande sonho era ir um dia, com Paulina, “para um deserto remoto”. De fato, Paulina, que está com 21 anos, dirige o olhar para o “deserto” do Carmelo. Sua partida é rapidamente decidida. Teresa fica sabendo, com surpresa, durante o verão de 1882. O golpe é brutal. Paulina explica-lhe o que é o Carmelo e Teresa pensa que o Carmelo é o “deserto” onde Deus quer que ela vá se esconder. Ela o diz a Paulina e, algum tempo depois, à própria priora do Carmelo.

A reação de Teresa não poderia ser pior. Adoece, procurando provocar atenções maternais da sua tia Guérin e da irmã, Maria, a quem chama incessantemente: “Mamãe, mamãe”, forçando-a a permanecer junto dela.
No dia 23 de março de 1883, o Sr. Martin leva Maria e Leônia a Paris para as cerimônias da Semana Santa. Já aflita, entregue a seu tio e sua tia, Teresa não consegue superar esta breve separação. Algumas horas mais tarde, a menina é tomada por tremores nervosos aos quais sucedem crises de medo e alucinações. Chama-se com urgência o Sr. Martin e suas filhas. Maria instala-se à cabeceira da menina, na casa dos Guérin, pois ela não pode ser transportada.
O desejo de abraçar Pauline, mais uma vez, por ocasião da tomada de hábito, provoca uma melhora, em 6 de abril. No dia seguinte, há recaída, nos Buissonnets. Manifestações desoladoras multiplicam-se. A “estranha doença” desnorteia o Dr. Notta, que, por um momento, fala de “dança de São Guido”, mas exclui formalmente a histeria.
Após cinco semanas de angústias, a fé da família Martin consegue finalmente a cura da doença diante da qual a ciência fora impotente. No domingo, 13 de maio de 1883, dia de Pentecostes, a menina sente-se repentinamente curada pelo “encantador sorriso da Santíssima Virgem”.
Em maio de 1885, durante o retiro preparatório à comunhão solene, um sermão frenético dum padre que pregava sobre o medo do inferno fez despertar nela o que denominou “a doença terrível dos escrúpulos”, doença esta que só findaria no Natal de 1886. 
No Natal de 1886, Teresa é ainda uma criança, que retorna da missa do galo toda apressada para procurar seus presentes. Mas Luís Martin está farto dessas atitudes infantis. Teresa dá-se conta de que, cedo ou tarde, precisará renunciar à infância, abrir mão de todas as criancices. Chama este Natal de “Noite de luz”, “Noite da minha conversão”, quando deixa de lado os “ defeitos da infância”. Insistirá muito na importância desta noite de Natal: “Desde esta noite abençoada, eu não fui vencida em nenhum combate, pelo contrário, caminhei de vitória em vitória”. O que ela recebe é um Dom de força e de coragem.
No dia de Pentecostes de 1887, seis meses depois de sua conversão, Teresa comunica ao pai que quer entrar para o  Carmelo. Mas tem apenas 14 anos! O pai abençoa sua vocação e a conduz ao bispo de Bayeux. O vigário da paróquia de Saint-Jacques, superior canônico do Carmelo, nem sequer aceitava falar de tamanha loucura. E é a este padre que Mons. Hugonin remete a questão de Teresa.
O Sr. Luís, que tanto gostava de peregrinações, resolveu levar Teresa a Roma e sobretudo permitiu à filha falar de sua vocação ao Papa para conseguir autorização para ingressar no Carmelo aos 14 anos. Na audiência do Papa, a 20 de novembro de 1887, Teresa fez o seu pedido. Leão XIII deixa nas mãos dos Superiores a decisão. Na realidade, quem tinha a chave de sua entrada para o Carmelo era Mons. Hugonin. Ele dissera que lhe daria a resposta por escrito. Começa para Teresa uma longa espera. A resposta chegou a 28 de dezembro: o bispo escreve à priora do Carmelo de Lisieux confiando-lhe a decisão. Madre Maria de Gonzaga comunica esta resposta a Teresa no dia 1º de janeiro, véspera dos seus quinze anos.
As portas do Carmelo abrir-se-iam para Teresa na Segunda-feira, 9 de abril de 1888. No dia 10 de janeiro de 1889  recebe o hábito de carmelita. Ela acabara de completar dezesseis anos.  Depois de um ano, a jovem religiosa poderá emitir os votos perpétuos. Em janeiro de 1890, alcançaria os exatos 17 anos exigidos pelas Constituições para o compromisso definitivo. Os superiores julgam mais prudente adiar: uma prolongação lhe é imposta.
A cerimônia de 10 de janeiro foi, para o Senhor Martin, “seu triunfo, sua última festa neste mundo”. O drama do pai começa no dia 12 de fevereiro: ele, doente, vê “coisas horríveis, carnificinas, batalhas”. Teresa é atingida bem no coração e não ignroa que em Lisieux muitos a consideram responsável pela doença do pai, abalado pela partida sucessiva de suas filhas para o convento. Os meses se sucedem. A esperança de uma melhora para o sr. Martin enfraquece.
Na manhã do dia 24 de setembro de 1890 Teresa recebe o véu negro. Não há mais comunicação possível com seu pai, internado desde fevereiro de 1889. Porém,  anos depois, uma surpresa: no dia 12 de maio de 1892, o tio Isidoro chega ao Carmelo trazendo o Sr. Luís Martin. Fora buscá-lo no manicômio de Caen. Em momento de lucidez, queria ver as filhas. Quanto a Teresinha, teve apenas forças para rezar: “Muito obrigada, ó Deus, pelo bom pai que nos destes. Pudemos ver nele uma imagem do amor que tens por todos os homens”. Celina continuava com Leônia a cuidar do pai na casa dos Guérins.
Quando Paulina, Irmã Inês, foi eleita priora, resolveu nomear a ex-priora Madre Maria de Gonzaga como Mestra das Noviças. Teresinha foi nomeada sua ajudante. Além de ser ajudante de mestra, foi encarregada de pinturas, da confecção de imagens e das festas conventuais. Nessa ocasião estreou compondo versos e poesias.
No verão de 1893, Leônia, após um retiro na visitação de Caen, voltou com o firme propósito de fazer uma nova tentativa para a vida religiosa.
No dia 14 de setembro de 1894 entra para o Carmelo de Lisieux mais uma Martin, Celina. Desde o tempo de Teresa de Ávila nunca um Carmelo acolhera quatro irmãs da mesma família. Teresinha não sabia como agradecer a Deus.
As dores de garganta de Teresinha já causavam sérias apreensões. Os remédios não surtiam nenhum efeito. Não obstante, ela não diminuía as suas atividades. Antes, seus trabalhos aumentaram com a entrada de mais quatro postulantes, entre elas, Celina.
Em fins de 1894, Teresinha começou a se questionar. Há seis anos entrara para o Carmelo e jamais abrira mão do desejo de se tornar santa. A leitura da vida dos grandes santos deixou-a meio confusa. Todos esses santos distinguiram-se por uma vida de grandes mortificações, praticaram em alto grau toda as virtudes e Deus dotou-os dos mais extraordinários dons e carismas. Perto deles, ela se julga um “obscuro grão de areia”. Mas não desanima. Não se sente apta a “subir a rude escada da perfeição”, mas há que se santificar por outro caminho. Lembrou-se então de que ouvira, num retiro, o Pe. Prou falar de um caminho pequeno e reto, completamente novo para se chegar ao amor total. Teresinha descobre esta “Pequena Via”, que se tornará a essência de sua espiritualidade. Já que não consegue, através de férreas disciplinas e sacrifícios, alcançar a santidade, Jesus mesmo será sua santidade. Ele irá conduzi-la nos braços até a Montanha do Amor. O seu pequeno caminho será o do abandono, da entrega confiante nas mãos do Pai.
Teresinha descobre a alegria de ser pequena. Se ela não ensinou nada de novo, ensinou um novo modo de fazer-se pequeno. Significa reconhecer que somos pequenos diante de Deus; significa acreditar que Deus se agrada de quem se faz pequeno na humildade.
Numa noite de inverno de 1895, as irmãs Martin conversavam na sala aquecida. A mais nova, Teresinha, com seu jeito desembaraçado, contava às irmãs lembranças do passado, nos Buissonnets. Maria volta-se para Paulina, a priora, e sugeriu-lhe para pedir a Teresinha para escrever suas lembranças da infância. A conversa terminou com uma ordem de Paulina para que escrevesse suas memórias. Teresinha obedeceu e em pouco tempo encheu o primeiro caderno. Celina foi sua primeira leitora. Estava começando a escrever a “História de uma Alma”.
Um dia, após a missa da Santíssima Trindade, Teresa quis oferecer-se como vítima de holocausto ao Amor Misericordioso. Pediu e obteve permissão da Priora. Quis que Celina também o fizesse. Foi diante da imagem de Nossa Senhora das Vitórias que fez sua consagração, ela e a irmã.
Um dia Teresa foi chamada pela Priora. Paulina disse-lhe logo do que se tratava. Um futuro sacerdote e missionário pedia orações ao Carmelo. Chamava-se Maurice Bellière, de 22 anos. Teresinha aceitou ser sua “irmã” espiritual, fazendo pequenos sacrifícios por ele. Mais tarde foi-lhe confiado outro sacerdote e missionário: Adolfo Roulland, que depois de ordenado seria enviado para as missões na China. Sem sair do Carmelo, ela foi irmã de caminhada dos sacerdotes e missionários. Acreditava que podia estar sempre “unida às obras de um missionário pelos laços da oração, do sofrimento e do amor”.
Era a Semana Santa de 1896. Na noite de Quinta-feira Santa, 3 de abril, Teresinha estava no coro fazendo adoração. Fica aí até meia-noite. Depois vai repousar. Mal se deita, sente uma golfada, como vômito, que lhe sobe até os lábios. Como a lâmpada já estava apagada, ela não quis verificar. Só no dia seguinte pôde constatar. O vômito era sangue. Não teve medo. Era um anúncio do Bem Amado de seu coração. No dia seguinte, conta o ocorrido à Priora, completando: “Estou passando bem, e suplico-lhe que não me conceda nada de especial”. A Priora, sem se dar conta do estado real de Teresinha, concorda. Durante o dia Teresinha se entrega aos trabalhos na forma de sempre.
Na noite seguinte, o mal se repete. Teresinha é socorrida e atendida pelo Dr. Néele. O diagnóstico do médico e os remédios não surtiram o mínimo efeito de alício para Teresinha. Ela só podia sonhar de em breve estar junto do Bem Amado!
O sexto aniversário de sua profissão religiosa Teresa preferiu passá-lo na solidão. Nesse dia um raio de luz iluminou-a, e ela pôde escrever: “Ó meu Bem Amado, no sexto aniversário de nossa união, perdoa se te digo disparates. Peço que concedas a minha alma o que ela espera”.
Teresa fez questão de não se dispensar de nada. Ninguém a ouvia tossir durante a noite. Costurava, pintava, escrevia versos e cartas enquanto havia luz em seu quarto. Quando estava só é que tudo mudava. As energias lhe fugiam. Passava as noites com febre e frio; tossia sangue. É simplesmente incompreensível que durante todo o tempo do inverno ninguém tivesse notado a gravidade de sua doença. Ela queria morrer em atividade. Enquanto isso a doença progredia. Permaneceu fiel em não pedir nenhuma isenção.
Só depois que o estado de Teresinha se complicou é que Madre Gonzaga resolveu desvelar-se mais do que uma mãe. Desde abril Paulina não saía de perto da irmã enferma, para anotar tudo o que ela podia dizer. O período de  maio a 30 de setembro de 1897, dia de sua morte, foi uma longa agonia. Desenganada pelos médicos, Teresa esperava morrer. Mas, apenas viu adiar-se sempre mais a sua agonia.
No dia 3 de junho, por sugestão de Madre Gonzaga, começa a escrever suas memórias.  Suas relações com a Priora haviam melhorado muito. A partir deste dia as irmãs de Teresinha crivam-na de mil perguntas como se quisessem arrancar-lhe todos os segredos e mistérios de seu coração. As três irmãs estavam absolutamente convencidas que Teresa era uma santa. Por isso queriam recolher cada uma de suas palavras para transmiti-las depois à posteridade.
Em julho vê pela última vez seus familiares. Neste mesmo mês já não consegue retomar a pena para escrever. Pede a unção dos enfermos. Com fervor diz: “Eu creio! Eu amo para crer mais firmemente!” Até agosto as hemoptises repetem-se. No dia 8 de julho tem de ser levada para a enfermaria onde inicia uma longa agonia de doze semanas.  Leva consigo a imagem de Nossa Senhora das Vitórias. Em tudo depende dos outros. Os sofrimentos físicos vêm todos juntos: febre, suores, falta de ar, insônia.
As religiosas, em particular suas três irmãs, velam-na noite e dia. Compreende-se que ela repetisse: “oh! como se deve rezar pelos agonizantes!” Os dois meses derradeiros passam-se inteiramente nas trevas. No dia 29 de setembro, questiona: “Como é que vou fazer para morrer? Eu nunca vou saber morrer”.
Dia 30, na manhã de sua morte, diz: “Eu não me arrependo de me ter abandonado ao Amor”. Às horas finais, as mãos ficam geladas, o rosto se congestiona. De quando em quando, Teresa solta breves gemidos de sofrimento. Às sete da noite, ela fita o Cristo crucificado e diz: “Eu vos amo”, inclina a cabeça e expira.
O corpo ficou exposto no coro, atrás das grades, de sexta a domingo, para a visitação dos parentes e amigos. Todos queriam vê-la e tocá-la com terços e medalhas, como se já quisessem pedir-lhe graças e favores.
No dia 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis, foi sepultada no cemitério de Lisieux a Irmã Teresa do Menino Jesus da Santa Face, falecida aos 24 anos. Quem dirige o cortejo fúnebre é sua irmã Leônia; de coração despedaçado. Havia muito pouca gente no pequeno cemitério. Depois do enterro o Carmelo voltou à rotina.
Quando Teresinha já estava na enfermaria, ouviu uma Irmã dizer: “Eu não sei porque falar tanto de Irmã Teresinha; ela não faz nada de nota; ninguém a vê praticar a virtude, nem sequer se pode dizer que ela seja uma boa religiosa”.
Paulina assumira o compromisso de publicar os escritos da irmã. Por isso pôs logo mãos à obra. Em pouco tempo transformou-os num volume de 474 páginas. Assim, um ano depois, em 1898, aparece a “História de uma Alma”, com uma tiragem de dois mil exemplares. Em 1899 foi preciso fazer uma nova edição. Em 1900 tinham sido vendidos seis mil exemplares. Nos anos seguintes saem as traduções para o inglês, alemão, italiano, espanhol, português, japonês e russo.
Chegam ao Carmelo de Lisieux milhares de cartas e pedidos de lembranças e relíquias. As romarias e visitas ao túmulo foram-se somando. Chegaram notícias de graças alcançadas, de conversões, etc. As próprias irmãs não sonhavam tamanho sucesso. O certo é que de uma fagulha fez-se um incêndio.
Em 1906 o Pe. Prévost encarrega-se de dar os primeiros passos na causa da beatificação e canonização de Teresinha. O processo foi mais rápido do que se podia esperar. O Papa Pio X, antecipando-se, chamou Teresinha “a maior santa dos tempos modernos”.
Em 1921 o papa Bento XV promulgou o decreto de heroicidade de suas virtudes. Depois, seu sucessor, Pio XI, fez dela a “estrela de seu pontificado”. No dia de sua beatificação, 23 de abril de 1923, sua vida foi considerada uma “Palavra de Deus” para o nosso século. Finalmente, no dia 17 de maio de 1925, o papa Pio XI, contrariando as leis canônicas, diante de cinqüenta mil pessoas dentro da Basílica de São Pedro e diante de mais de quinhentas mil pessoas reunidas na Praça de São Pedro, em Roma, canoniza Teresinha. A cerimônia contou com a presença de 33 cardeais e 250 bispos do mundo inteiro. Dois anos depois o mesmo Pio XI proclama Santa Teresinha “padroeira principal das missões”, pondo-a em pé de igualdade com o grande missionário São Francisco Xavier.
Quando visitou a França, o papa João Paulo II quis visitar também Lisieux. Na ocasião, ele falou diante de uma multidão de mais de cem mil pessoas: De Teresinha pode-se dizer com convicção que o Espírito de Deus permitiu ao seu coração revelar diretamente aos homens do nosso tempo o mistério fundamental, a realidade fundamental do Evangelho: o fato de termos recebido realmente ‘um espírito de filhos adotivos que nos faz exclamar: Abba! Pai!’’.
O papa Pio XII, em 1944, declarou-a padroeira da França em pé de igualdade com Santa Joana d’Arc.

No dia das Missões de 1997, ano do centenário de sua morte, Teresinha foi proclamada Doutora da Igreja pelo papa João Paulo II, na Basílica de São Pedro em Roma. 

FREI PETRÔNIO EM ANGRA: Homilia do Frei

FREI PETRÔNIO EM ANGRA: Coroação.

sábado, 24 de maio de 2014

6º Domingo da Páscoa: O Espírito da verdade

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o evangelho de Jesus Cristo segundo João 14, 15-21, que corresponde ao Sexto Domingo da Páscoa, ciclo A do ano litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto.
Jesus está se despedindo de seus discípulos. Ele os vê tristes e abatidos. Logo ele já não estará com eles. Quem poderá preencher o vazio?  Até agora foi Jesus quem cuidou deles, quem os defendeu dos escribas e fariseus, quem apoiou sua fé débil e vacilante, lhes descobriu a verdade de Deus e os iniciou no seu projeto humanizador.
Jesus lhes fala apaixonadamente do Espírito. Ele não quer que fiquem órfãos. Ele mesmo pedirá ao Pai que não os abandone, que lhes dê “outro defensor” que esteja sempre com eles. Jesus o chama de “Espírito da verdade”. Que há nessas palavras de Jesus?
Este “Espírito da verdade” não pode ser confundido com uma doutrina. Esta verdade não deve ser procurada nos livros dos teólogos nem nos documentos de hierarquia. É uma realidade muito mais profunda. Jesus disse que “vive no meio de nós e está em nós”. É alento, força, luz, amor… que nos chega do mistério último de Deus. Devemos acolhê-lo com coração simples e confiante.
Este “Espírito da verdade” não nos transforma em proprietários da verdade. Não vem para que imponhamos aos outros a nossa fé, nem para que controlemos sua ortodoxia. Ele vem para que não fiquemos órfãos de Jesus e nos convida a nos abrir à sua verdade, escutando, acolhendo e vivendo seu Evangelho.
Este “Espírito da verdade” não nos faz tampouco “guardiões” da verdade, mas testemunhas. Nossa tarefa não é disputar, combater nem derrotar adversários, senão viver a verdade do Evangelho e “amar Jesus guardando seus mandamentos”.
Este “Espírito da verdade” está no interior de cada um de nós, defendendo-nos de tudo aquilo que pode nos separar de Jesus. Convida-nos a nos abrir com simplicidade ao mistério de um Deus, Amigo da vida. Quem procura este Deus com honradez e verdade não está longe dele. Em certa ocasião Jesus disse: “todo aquele que é da verdade escuta minha voz”. É assim!
Este “Espírito da verdade” nos convida a viver na verdade de Jesus no meio de uma sociedade onde com frequência a mentira é chamada estratégia; a exploração, negócio; a irresponsabilidade, tolerância; a injustiça, ordem estabelecida; a arbitrariedade, liberdade; a falta de respeito, sinceridade…
Que sentido pode ter na Igreja de Jesus se deixamos que o “Espírito da verdade” fique esquecido nas nossas comunidades? Quem pode salvar a comunidade do próprio engano, dos desvios e da mediocridade generalizada? Quem anunciará a Boa Notícia de Jesus numa sociedade tão necessitada de alento e esperança?

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 589. 6º Domingo da Páscoa.

ORDEM TERCEIRA: Reunião em Angra.

A PALAVRA... Nº 588. O Papa na Terra Santa.

domingo, 18 de maio de 2014

Os jovens sofrem com a depressão, diz OMS

Os jovens sofrem com a depressão, diz OMS


Um relatório divulgado ontem pela Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou que a depressão é a principal doença e causa de incapacidade entre crianças e adolescentes entre 10 e 19 anos. O documento “Saúde para os adolescentes do mundo” tem dados de 109 países. A informação é publicada pelo jornal Zero Hora, 15-05-2014.
Segundo a entidade, os problemas nessa faixa etária estão relacionados a cigarro, consumo de drogas e bebidas alcoólicasaids, transtornos mentais, alimentação, sexualidade e violência.
– O mundo não presta atenção na saúde dos adolescentes. Esperamos que este documento sirva para desencadear uma ação acelerada sobre seus problemas – declarou a médica Flavia Bustreo, subdiretora geral para a saúde das mulheres e das crianças na OMS.
A entidade destaca que há estudos demonstrando que todas as pessoas que sofrem de problemas mentais apresentam os primeiros sintomas a partir dos 14 anos. Segundo a OMS, se os adolescentes fossem tratados a tempo, “mortes e sofrimentos durante toda uma vida poderiam ser evitados”. O suicídio é apontado como a terceira causa de morte entre os jovens.
Trânsito é a principal causa entre as mortes
Os acidentes de trânsito são a principal causa de morte entre os jovens. Na maioria dos casos, os homens são as vítimas, com taxa de mortalidade três vezes superior à das mulheres. Como formas de evitar esse problema, a OMSrecomenda que países adotem medidas para aumentar o acesso a um transporte público de qualidade e seguro e reforcem as leis de trânsito ao estipular limites de álcool no sangue e de velocidade.
Entre as meninas com idades entre 15 e 19 anos, o parto foi o segundo fator de morte.
O documento alerta também que pelo menos um em cada quatro adolescentes não realizam exercícios físicos suficientes – pelo menos uma hora por dia. Em alguns países, um em cada três jovens é obeso.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

FREI ANTÔNIO BENTO: Missa de Ordenação-08

ORDEM TERCEIRA DE JOÃO MONLEVADE-MG.

Encontro sobre a Espiritualidade Carmelitana.
Dia 17 de maio-2014.
Com Frei Petrônio de Miranda, 0.Carm e Paulo Dhaer
4º Tema: O DNA DO CARMELO
Por Frei Francisco Sales, O.Carm, da Província Carmelitana Pernambucana.

1. Peregrinação.
Os primeiros Carmelitas são peregrinos, homens inconformados com um modelo de viver a fé que, movidos pelo desejo de seguir a Jesus de forma mais radical, buscam na Terra Santa, o Santo da Terra. Constroem o novo, aventuram-se para garantir a autenticidade de sua fé. O Carmelita é por natureza um inquieto, peregrino, inconformado com a mesmice da fé e da história, aventureiro do Absoluto.
2. Grupo, Fraternidade.
No Carmelo na há um líder carismático, um fundador no estrito senso da Palavra. Há um grupo que, movido por um desejo comum de fidelidade ao Evangelho, encontra-se e constroe um modo de vida. Para o Carmelita, a razão da vida tem sua fonte numa comunidade e está necessariamente direcionada para a construção da fraternidade.
3. Corações famintos.
Nós não conhecemos os nomes dos primeiros Carmelitas, mas podemos conhecer seus corações marcados por uma fome. Foram marcados por uma profunda experiência de conversão, saíram do bulício das cidades para viverem na solidão, iniciando uma vida juntos com o intuito de responderem à fome profunda de seus corações.
4. Monte Carmelo.
O caminho Carmelita passa necessariamente pelo monte, com todos os significados que a espiritualidade bíblica a ele atribui. É o lugar da parada dos peregrinos, da subida, da jornada para a comunhão com o Senhor, etc. O Monte confere ao grupo um nome, uma identidade, uma terra. Eles irão levá-lo a todos os recantos por onde se espalham, fazendo de suas habitações outros Pequenos Carmelos, lugares evocativos da aventura inicial.
5. Fonte de Elias.
O ponto de parada dos primeiros Carmelitas é a fonte do Profeta, marco memorial dos grandes feitos de Elias. Ao redor da fonte saciam aquela sede mais intensa e, à imitação de Elias, deixam-se consumir de ardente zelo pelo Senhor Deus dos Exércitos, anunciando a Boa Nova de Deus aos pobres dos povoados ao redor do Monte Carmelo.
6. Celas.
Espaço de solidão e de cultivo da intimidade e do encontro com Deus, chão, no qual se nutre a vida através da lectio divina, lugar de luta contra toda forma de escravidão da pessoa e da conquista da liberdade interior.
7. Oratório.
Centro de convergência da vida, lugar da celebração do louvor comum que transforma a vida em sacramento da presença de Deus. Espaço para a celebração da Eucaristia, do encontro com o Cristo vivo e presente no Pão partilhado que se transforma em ponto gravitacional de toda a existência.
8. A Senhora do Lugar.
O oratório é consagrado à Virgem Maria, e à Senhora do Lugar eles próprios se consagram. No coração da visão carmelita está Maria, como força de inspiração a quem eles chamam irmã e na qual contemplam, como em figura, realizado todo seu desejo de fidelidade ao projeto de Jesus.
9. Um ritmo que orienta a vida.
Viviam em um local aprazível e solitário; distantes o suficiente uns dos outros; dedicavam o seu tempo à oração e reflexão; liam as Escrituras e procuravam marcar com suas linhas os seus corações; jejuavam; trabalhavam e marcavam suas vidas ao compasso do silêncio; reuniam-se diariamente para a eucaristia e semanalmente para revisar a vida à luz do propósito comum; viviam uma vida de pobreza; seu líder era eleito e morava à porta da habitação comum; acolhiam e serviam àqueles que batiam a sua porta; desciam do Monte para irradiar a Boa Nova entre o povo do lugar. A vida no Monte Carmelo centrava suas vidas dispersas e apaziguava suas mentes confusas, libertando os seus corações das urgências e compulsões do tempo. Viveram quase 100 anos neste ritmo de vida.
10. A Norma de Vida.
A vida vivida foi codificada numa Regra que se transforma no referencial permanente, na Fonte que contém as indicações concretas para a fidelidade, sempre aberta para aqueles que fizerem mais. Mais do que normativa, a Regra é um elemento carismático, indicativo e dinâmico.
11. Viagem de volta.
Diante das dificuldades e perseguições, os carmelitas fizeram a viagem de volta, transfigurados. Deixaram o Carmelo, mas o Carmelo nunca mais os deixou, forjaram uma nova visão do Carmelo, como referencial espiritual de suas vidas. O Carmelita é aquele que, uma vez bebendo da fonte, é capaz de refazer o caminho de volta e recontar a própria história a partir da experiência vivida.
12. Mendicância.
A dinâmica das Ordens Mendicantes é assimilada pelo Carmelo desde a sua origem e sobretudo a partir do seu retorno na Europa. Momento vivido com os conflitos próprios de toda mudança. A Regra é adaptada à nova realidade e mais uma nota é acrescida à sinfonia inicial do Carmelo, incorporando outros elementos, como a itinerância, a simplicidade de vida, o serviço ao povo de Deus nas realidades desafiadoras das cidades, a  abertura ao inesperado, etc.
Estes referenciais simbólicos estão impressos no coração de cada carmelita, fazem parte do nosso DNA espiritual, renascem em cada nova geração e nos ajudam a entender e a viver melhor o dom especial do Carmelo para a Igreja. Eles nos provocam continuamente em nossos desejos e impulsos de fidelidade, em nossos projetos e escolhas. Eles nos ajudam, diante dos desafios com os quais nos confrontamos, a recriar o significado de nossa vida e de nossa presença na Igreja e no mundo, mantendo a fidelidade à nossa identidade, atualizando-os numa tensão fecunda entre passado e presente em vista do futuro.

PARA REFLETIR:

1º Onde está um carmelita(a) aí está o carmelo. Em família, no trabalho, na comunidade... somos sinais vivos da espiritualidade carmelitana?

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Igreja se rebela contra a igualdade de gêneros na Polônia

El País
Lucía Abellán

Em Varsóvia (Polônia)

Enquanto toma uma limonada em um terraço em Varsóvia, Anna Grodzka atrai os olhares dos transeuntes que passam a seu lado. Com aparência física inconfundível, ela é a única transexual membro do Parlamento da Polônia e uma das poucas na esfera pública na Europa. Duas senhoras se aproximam de maneira espontânea para cumprimentá-la, mas nem sempre é assim.
"Recebo muitas palavras de afeto, mas há alguns que me insultam... Às vezes tenho medo de ser agredida", confessa a parlamentar.
Para muitos, Grodzka encarna a essência de um conceito que está revolucionando o país, a chamada ideologia de gênero, à qual seus defensores atribuem virtudes como a igualdade entre os sexos e a aceitação da diversidade, enquanto seus detratores a acusam de subverter o modelo tradicional de família, muito arraigado na Polônia.
Atualmente, o centro de Varsóvia destila seu fervor por João Paulo 2º. Os principais monumentos da cidade são precedidos por um cartaz vermelho que lembra a trajetória do papa polonês recém-canonizado. O catolicismo é profundamente enraizado nesta sociedade, que ainda carrega as feridas do comunismo e que agradece à igreja por ter-se oposto ao regime.
Gradualmente, porém, uma nova Polônia está se abrindo para se equiparar aos padrões europeus em assuntos como a composição familiar, a luta contra a violência de gênero, os direitos dos homossexuais e as cotas para mulheres na política. "A ideologia de gênero é uma das maiores ameaças do século 21, pois vai contra os preceitos cristãos. Quero ter direito a dizer não e a educar meus filhos com minhas próprias crenças", enfatiza Tomasz Terlikowski, um dos ativistas mais beligerantes contra as questões de gênero, diante de um mural colorido de Jesus Cristo.
O problema está no entendimento equivocado desse conceito, que fica bem mais claro em inglês ("gender ideology", sem tradução clara em polonês) e também inclui uma palavra maldita neste país: "ideologia", algo muito associado ao regime soviético. A Polônia está avançando, em um ritmo variável, no que concerne a medidas que favoreçam a igualdade de sexos e o respeito pelas minorias. Mas há alguns meses a Igreja Católica censurou algumas delas, rotulando-as como ideologia de gênero, um conceito que radicaliza o debate. A situação chegou a tal ponto que em pleno Parlamento foi criado um movimento denominado Abaixo a Ideologia de Gênero.
"Os mal-entendidos teriam sido logo desfeitos se tivéssemos podido explicar melhor, o que não foi possível devido à intervenção da hierarquia eclesiástica. Eles têm pleno direito de ter suas posições e eu, todo o direito de discordar", desafia a secretária de Estado para a Igualdade, Agnieszka Kozlowska-Rajewicz, empenhada em derrubar os mitos associados às políticas que ela promove.
Kozlowska é a face mais liberal de um governo de centro-direita, o da Plataforma Cívica de Donald Tusk, que inclui outros membros mais apegados ao discurso tradicional.
Em seu posto, essa dirigente tem promovido medidas que beneficiam alguns setores da população, como uma cota mínima de representação de 35% para mulheres nas chapas eleitorais, uma licença-paternidade independente, uma lei de conciliação trabalhista e familiar e uma norma que penaliza as manifestações de ódio contra homossexuais.
Embora a titular da pasta da Igualdade assegure contar com o respaldo majoritário da sociedade, seu trabalho também enfrenta a rejeição dos poloneses à palavra "igualdade", associada ao regime comunista.
A oposição ao domínio soviético --agora mais intensificada entre os cidadãos devido ao conflito na Ucrânia-- molda a retórica de muitos discursos.
"O que se entendia como luta de classes agora foi suplantado por uma luta de gêneros. E é a mulher que exerce a violência, a que se comporta como um homem. Há grupos feministas que têm verdadeiro desdém pelos homens", enfatiza Krystyna Pawlowicz, deputada do partido Lei e Justiça (o dos gêmeos Kaczynski, de convicções muito conservadoras), nos corredores do Parlamento.
Com o tratado europeu na mão, Pawlowicz afirma que o governo polonês transgride as regras ao transpor para a legislação nacional normas europeias contrárias à Constituição, "que diz que a Polônia tem raízes no legado cristão e dá proteção à família".
Os líderes europeus adulam o primeiro-ministro polonês porque lhe atribuem dois grandes méritos: haver isolado a Polônia desse nacionalismo extremista --que durante anos levou Varsóvia a bloquear projetos comunitários-- e tê-la convertido no único país poupado pela recessão que se atingiu a UE.
Desde a queda do Muro de Berlim, em 1989, a Polônia é o país do antigo bloco soviético que mais claramente se aproximou dos cânones comunitários, especialmente após seu ingresso na EU, em 2004. Apesar disso, as crenças religiosas freiam alguns avanços.
A investida mais recente da igreja para tentar manter sua influência nas escolas beira a ilegalidade. Os párocos estão emitindo certificados de idoneidade para escolas que garantem ser amigas da família --ou seja, que não transmitem conteúdos relativos à igualdade de gêneros.
"Muitas vezes esses documentos também são expedidos em centros públicos. Nas aldeias, nenhum diretor de escola se negará a aceitar isso porque o catequista e o padre do lugar são figuras equiparadas ao secretário do partido no regime anterior", explica em um despacho sóbrio Magdalena Sroda, professora de Ética na Universidade de Varsóvia e uma das líderes do movimento feminista Congresso de Mulheres.
Esta acadêmica ironiza a repentina popularidade do debate sobre gênero na Polônia: "Tivemos que esperar 15 anos para que ele entrasse na esfera pública, e isso acabou sendo feito pela igreja".
Sroda, como outros especialistas, vincula o auge desse conceito com as denúncias, há um ano, de casos de pedofilia no seio da Igreja Católica e à tentativa da hierarquia de desviar as atenções para outra parte.
Independentemente das opiniões, os dados indicam que a situação da mulher na Polônia é menos favorável que a média na Europa.
"Somente 23% dos casais dividem as tarefas domésticas. O modelo mais adotado é o da chamada mãe polonesa, que tem jornada dupla no trabalho e em casa. Falta apoio institucional ao cuidado de crianças e idosos, a lei do aborto é muito restritiva, os anticoncepcionais não são financiados pelo sistema público... E apenas 10% dos pais desfrutam a licença-paternidade. Ainda há muito a fazer, mas pelo menos já se fala nisso", comenta Aleksandra Nizynska, pesquisadora do Instytut Spraw Publicznych, um centro de estudos políticos e sociais polonês, e defensora ferrenha da igualdade de gêneros.
A Polônia tem alguns desafios pela frente, a exemplo da aprovação de uma lei contra a violência machista que desperta controvérsia, da padronização dos conteúdos de igualdade nas escolas e da norma que permite aos transexuais mudarem legalmente de gênero.
Porém, apesar de todas as dificuldades, Anna Grodzka mal podia imaginar, quando ainda era um pequeno empresário há alguns anos, que acabaria sendo membro do Parlamento com sua nova identidade feminina.
"Minha missão é fazer as pessoas entenderem que a diversidade é melhor, pois fortalece a sociedade e o indivíduo", conclui.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

sábado, 10 de maio de 2014

FREI PETRÔNIO EM UNAÍ-MG. (5ª Parte)

4º DOMINGO DA PÁSCOA: Dia das Mães

Reflexão de Frei Jorge Van Kampen. (In Memoriam)

Se tivesse havido uma mãe na parábola do filho pródigo, a história poderia ter sido contada bem diferente. Um exemplo é Santa Mônica. O pai do filho pródigo ficou em casa, para que na volta do filho poderia ter alguém para abrir-lhe a porta. A mãe santa Mônica, saiu ao encalço do seu filho pródigo. Enganada por ele, a deixou no porto, quando ele embarcou para a Itália. A mãe não desanimou. Ela tomou outro navio, e enfrentando o perigo do mar e sem conhecer a língua que falavam, desembargou também na Itália. Reencontrou finalmente o seu filho em Milão. Este filho chama-se Agostinho, mais tarde será o Santo Agostinho. A mãe concebe o seu filho para a vida temporal e pelo coração ao faz nascer para a vida eterna. Cristo usa um exemplo semelhante de um pastor, que dá a vida pelas ovelhas.
Liturgia da Palavra de Deus. (At. 2, 14 e 36-41; 1º PE. 2, 20-25; Jô 10, 1-10).
Pedro aponta Jesus como modelo de vida para imitá-lo. João apresenta Jesus como um Bom Pastor. Jesus é indicado como a porta, o ideal para todos, que dão a vida pelas ovelhas.

Reflexão.
Quando lemos o Evangelho de hoje sobre o bom pastor, João fala para nós. Fala sobre a nossa maneira de viver, sobre o nosso comportamento de vida. Pode ser, que sejamos sobre carregados e ocupados demais; isto não quer dizer, que somos um bom pastor. Jesus como um bom pastor dá a vida pelas ovelhas. A nossa sociedade nos empurra dentro duma estrutura, que não dá muita atenção pela pessoa humana. João nos convida a dar toda atenção pela pessoa humana, também no trabalho e ocupação. Precisamos ter um coração ardente pelo nosso semelhante. Sejamos todos nós um só rebanho, e um só pastor. Parece uma utopia: parece um sonho. Mas é possível até agora não chegamos a tanto. Não devemos fechar-nos dentro de nós. Devemos ser como ovelhas, que seguem o seu pastor. Assim abrimos o caminho para a unidade e o verdadeiro amor.

Resposta à Palavra de Deus.

Senhor, dá-me maior disponibilidade à Tua voz, donde quer que chega a nós. Dá-me receptividade diante de Teus dons, qualquer que seja o instrumento, que Tu me escolhes. E apesar das minhas limitações, me aceita como operário na Tu mesa. Amém.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

3º Domingo da Páscoa: No Caminho de Emaús - Ele está no meio de nós! (Lucas 24,14-31) Frei Carlos Mesters e Mercedes Lopes

1. De que estavam falando pelo caminho?
Duas pessoas andando pela estrada. Desanimadas. Tristes! Estavam indo na direção contrária. Fugindo. Buscando. Imagem de ontem e de hoje. Imagem de todos nós. No ano de 85, muitos discípulos e discípulas andavam pelo caminho, tristes, desanimados, sem saber se estavam no caminho certo. Parece que a cruz ficou maior e mais pesada. O desemprego, a violência, a droga, a falta de atenção séria à saúde e à educação, a falta de dinheiro, as dívidas... o desespero. Sentimo-nos impotentes frente à corrupção que desvia fundos dos cofres públicos, ou frente à má administração que deixa o povo no desamparo. O sistema neoliberal vai gerando cada dia mais exclusões de indivíduos, grupos e países. Parece que vivemos em um caos, em uma situação sem saída. Temos a impressão de estarmos caminhando ladeira abaixo, para o pior.

2. Tinham os olhos vendados
A experiência da morte de Jesus tinha sido tão dolorosa que eles perderam o sentido de viver em comunidade, abandonaram o grupo de discípulos e discípulas. Sentiram-se impotentes diante do poder que matou Jesus e procuraram salvar pelo menos a própria pele. Sua frustração era tão grande, que nem reconheceram Jesus, quando este se aproximou e passou a caminhar com eles (24,15). Tinham um esquema rígido de interpretação sobre o Messias, e não puderam ver a salvação de Deus entrando em suas vidas. Algumas discípulas tentaram ajudar os companheiros a perceber que Jesus estava vivo (24,22-23). Mas eles se recusaram a acreditar (24,24). Esta notícia era por demais surpreendente. Era o mesmo que dizer que Jesus era o vencedor do caos e da morte. Só podia ser fantasia, sonho, delírio de mulheres (24,11). Impossível acreditar! Quando a dor e a indignação pegam forte, há pessoas que ficam depressivas, desesperadas. Outras se tornam coléricas e amargas. Algumas invocam o fim do mundo com catástrofes que vão tirar os maus da face da terra. Outras buscam evadir-se numa oração sem compromisso social e político. Mas nenhuma dessas posturas ajuda a abrir os olhos e analisar a situação com fé lúcida e responsável, capaz de inventar saídas para esta situação aparentemente sem saída.

3. A Bíblia esquentou o coração, mas não abriu os olhos
Caminhando com eles, sem eles se darem conta, Jesus fazia perguntas. Escutava as respostas com interesse. Dessa maneira, obrigava-os a irem fundo no motivo da sua tristeza e fuga. Procurava fazê-los expressar a frustração que sentiam. Depois, ia iluminando a situação com palavras da Escritura. Procurava situar os discípulos na história do povo, para que pudessem entender o momento que estavam vivendo. Foi uma experiência apaixonante. Mais tarde, eles iriam fazer uma reflexão e perceber que o coração deles ardia, quando Jesus lhes explicava as Escrituras pelo caminho (24,32). Mas a explicação que Jesus dava a partir das Escrituras não conseguiu abrir os olhos dos discípulos.

4. Eles o reconheceram na partilha do pão
Caminhando com Jesus, os discípulos sentiram o coração arder. Cresceu dentro deles uma atitude de acolhida: "Fica conosco! Cai a tarde e o dia já declina!" (24,29). Foi só então que a partilha aconteceu. Partilha de vida, de oração e de pão. Partilha que abriu os olhos e provocou a mais importante descoberta da fé: ele está vivo, no meio de nós! (24,30-31). Esta descoberta lhes deu forças para voltar a Jerusalém, mesmo de noite. Tinham pressa de partilhar com os outros a descoberta que os fez renascer e ter coragem para enfrentar o poder da morte. Sim, Jesus era de fato o vencedor do caos e da morte! Não era fantasia das mulheres. Era uma realidade escondida, misteriosa, que só pode ser descoberta por quem aprende a partilhar, a se entregar, a sair do círculo vicioso dos interesses egoístas, para lutar junto com os outros pela vida de todos. Quando seus olhos se abriram, livres das trevas e travas por poder dominante, puderam descobrir a morte de Jesus como expressão máxima de um amor sem limites. Amor que tem sua origem no Pai cheio de ternura, gerador incansável da vida. Amor que tomou carne em Jesus de Nazaré para visitar e redimir a humanidade. Amor que se mantém fiel até ao extremo de dar a própria vida, para que todos tenham vida (Jo 10,10). Amor que foi confirmado pelo Pai, quando ressuscitou Jesus da morte.

5. Renascer para uma nova esperança
Esta experiência fez os discípulos renascerem para uma nova esperança. Ao redor de Jesus vivo, eles se uniram de novo e assumiram o projeto de vida para todos. A esperança é como um motor que leva a acreditar nos outros e a inventar práticas de fé. Com a esperança renovada, aquilo que parecia uma total impossibilidade passou a ter um novo significado para eles. Perderam o medo, superaram a experiência de incapacidade e de impotência. Deixaram de lado o negativismo derrotista e voltaram, em plena noite, como se fosse de dia. Voltaram para recomeçar, para reconstruir a comunidade, expressão, sinal e sacramento da presença de Jesus Ressuscitado.

6. Refazer hoje a experiência do caminho de Emaús
Desafiados pela atual conjuntura, somos chamados a viver hoje a experiência de Emaús e descobrir, na partilha solidária, a presença de Deus no meio de nós. Como comunidade de fé, somos chamados a reconstruir, no diálogo, na abertura e na acolhida, o projeto de Jesus, pelo qual ele entregou sua própria vida. A solidariedade leva à descoberta da força libertadora de Deus na história. Com olhar lúcido e criativo procuraremos expressar esta fé numa solidariedade bem concreta e articulada, seja a nível de grupo, de bairro ou de cidade. Dizer articulada quer dizer que esta ação solidária deve ser comunitária. Só assim será de fato sinal do Reino e poderá intervir em favor da vida, da vida indefesa dos pobres, os preferidos de Jesus.

RETIRO EM UNAÍ-MG: Convite.

A PALAVRA... Nº 577. O meu santo não faz milagres, apenas trabalha.

domingo, 27 de abril de 2014

2º Domingo da Páscoa: Homilia do Frei Petrônio.

Íntegra da homilia do Papa Francisco na canonização de São João Paulo II e São João XXIII

VATICANO, 27 Abr. 14 / 09:24 am (ACI/EWTN Noticias).- Em uma cerimônia sem precedentes na história da Igreja, o Papa Francisco declarou santos a São João Paulo II e São João XXIII durante uma missa concelebrada por mais de mil pastores entre cardeaisbispos e sacerdotes, incluindo o Pontífice Emérito Bento XVI.

Esta é a íntegra da homilia que pronunciou o Papa Francisco:
No centro deste domingo, que encerra a Oitava de Páscoa e que João Paulo II quis dedicar à Divina Misericórdia, encontramos as chagas gloriosas de Jesus ressuscitado.
Já as mostrara quando apareceu pela primeira vez aos Apóstolos, ao anoitecer do dia depois do sábado, o dia da Ressurreição. Mas, naquela noite, Tomé não estava; e quando os outros lhe disseram que tinham visto o Senhor, respondeu que, se não visse e tocasse aquelas feridas, não acreditaria. Oito dias depois, Jesus apareceu de novo no meio dos discípulos, no Cenáculo, encontrando-se presente também Tomé; dirigindo-Se a ele, convidou-o a tocar as suas chagas. E então aquele homem sincero, aquele homem habituado a verificar tudo pessoalmente, ajoelhou-se diante de Jesus e disse: «Meu Senhor e meu Deus!» (Jo 20, 28).
Se as chagas de Jesus podem ser de escândalo para a fé, são também a verificação da fé. Por isso, no corpo de Cristo ressuscitado, as chagas não desaparecem, continuam, porque aquelas chagas são o sinal permanente do amor de Deus por nós, sendo indispensáveis para crer em Deus: não para crer que Deus existe, mas sim que Deus é amor, misericórdia, fidelidade. Citando Isaías, São Pedro escreve aos cristãos: ‘pelas suas chagas, fostes curados’ (1 Ped 2, 24; cf. Is 53, 5).
São João XXIII e São João Paulo II tiveram a coragem de contemplar as feridas de Jesus, tocar as suas mãos chagadas e o seu lado transpassado. Não tiveram vergonha da carne de Cristo, não se escandalizaram d’Ele, da sua cruz; não tiveram vergonha da carne do irmão (cf. Is 58, 7), porque em cada pessoa atribulada viam Jesus. Foram dois homens corajosos, cheios da parresia do Espírito Santo, e deram testemunho da bondade de Deus, da sua misericórdia, à Igreja e ao mundo.
Foram sacerdotes, bispos e papas do século XX. Conheceram as suas tragédias, mas não foram vencidos por elas. Mais forte, neles, era Deus; mais forte era a fé em Jesus Cristo, Redentor do homem e Senhor da história; mais forte, neles, era a misericórdia de Deus que se manifesta nestas cinco chagas; mais forte era a proximidade materna de Maria.
Nestes dois homens contemplativos das chagas de Cristo e testemunhas da sua misericórdia, habitava «uma esperança viva», juntamente com «uma alegria indescritível e irradiante» (1 Ped 1, 3.8). A esperança e a alegria que Cristo ressuscitado dá aos seus discípulos, e de que nada e ninguém os pode privar. A esperança e a alegria pascais, passadas pelo crisol do despojamento, do aniquilamento, da proximidade aos pecadores levada até ao extremo, até à náusea pela amargura daquele cálice. Estas são a esperança e a alegria que os dois santos Papas receberam como dom do Senhor ressuscitado, tendo-as, por sua vez, doado em abundância ao Povo de Deus, recebendo sua eterna gratidão.
Esta esperança e esta alegria respiravam-se na primeira comunidade dos crentes, em Jerusalém, de que nos falam os Atos dos Apóstolos (cf. 2, 42-47). É uma comunidade onde se vive o essencial do Evangelho, isto é, o amor, a misericórdia, com simplicidade e fraternidade.

E esta é a imagem de Igreja que o Concílio Vaticano II teve diante de si. João XXIII e João Paulo II colaboraram com o Espírito Santo para restabelecer e atualizar a Igreja segundo a sua fisionomia originária, a fisionomia que lhe deram os santos ao longo dos séculos. Não esqueçamos que são precisamente os santos que levam avante e fazem crescer a Igreja. Na convocação do Concílio, João XXIII demonstrou uma delicada docilidade ao Espírito Santo, deixou-se conduzir e foi para a Igreja um pastor, um guia-guiado. Este foi o seu grande serviço à Igreja; foi o Papa da docilidade ao Espírito.
Neste serviço ao Povo de Deus, João Paulo II foi o Papa da família. Ele mesmo disse uma vez que assim gostaria de ser lembrado: como o Papa da família. Apraz-me sublinhá-lo no momento em que estamos a viver um caminho sinodal sobre a família e com as famílias, um caminho que ele seguramente acompanha e sustenta do Céu.
Que estes dois novos santos Pastores do Povo de Deus intercedam pela Igreja para que, durante estes dois anos de caminho sinodal, seja dócil ao Espírito Santo no serviço pastoral à família. Que ambos nos ensinem a não nos escandalizarmos das chagas de Cristo, a penetrarmos no mistério da misericórdia divina que sempre espera, sempre perdoa, porque sempre ama”.

Canonization of John XXIII and John Paul II

sexta-feira, 25 de abril de 2014

PASSA QUATRO-2014/MG: Celebração da Esperança-02

2º Domingo da Páscoa: “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20,28)

O Jesus ressuscitado ainda traz as marcas e as chagas da sua paixão. A ressurreição de Jesus não o fez retroagir ao passado, como se sua morte nunca tivesse acontecido. Pelo contrário, venceu a morte e ainda traz as marcas da crucificação. O Jesus ressuscitado não virou anjo; ele continua sendo homem. A ressurreição de Jesus muda o nosso olhar sobre o homem.
A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 2º Domingo da Páscoa – Ciclo A do Ano Litúrgico (27 de abril de 2014). A tradução é de André Langer.

Referência bíblica:
Evangelho: Jo 20,19-31

Eis o texto.
Cada ano, no segundo domingo da Páscoa, nós temos esse belíssimo relato que só se encontra em João, passagem que marcava, originalmente, o fim do seu evangelho. Esta dupla aparição do Ressuscitado aos discípulos, primeiro na ausência de Tomé, e depois na sua presença, nos diz algo sobre a Igreja primitiva, mas também sobre a nossa Igreja hoje. Como em todos os relatos evangélicos, encontramos o testemunho de fé dos primeiros cristãos, e podemos identificar, ao mesmo tempo, mensagens para os cristãos do século XXI.
1.A Ressurreição... uma questão. Ao ler os relatos da Páscoa dos quatro evangelistas, podemos ter a impressão de que a Ressurreição é uma realidade tangível que não deixa margem para dúvidas, de tal modo sua manifestação parece clara: pensemos no tremor de terra evocado por Mateus e o anjo luminoso que vem do céu, enquanto que os soldados que guardam o túmulo tremeram de medo e ficaram como mortos (Mt 28,1-4). De modo especial, não devemos esquecer que esses relatos, escritos muito tempo depois da Páscoa, querem simplesmente expressar a fé na Ressurreição que vai gradativamente se desenvolvendo nas comunidades cristãs e que esses relatos carregam as marcas do autor que os compôs. Portanto, Mateus que era judeu, procura mostrar que o Cristo ressuscitado realiza plenamente os profetas da Antiga Aliança e que ele é o novo Moisés, o libertador do seu povo, da Igreja, o que explica os sinais resplandecentes das teofanias que encontramos nos textos do Antigo Testamento. Por outro lado, nos outros evangelhos, os sinais da Ressurreição são antes necessários e colocam mais perguntas para as quais não têm respostas: um túmulo vazio, em Lucas; o silêncio das mulheres em Marcos; um lençol dobrado no canto, emJoão; uma palavra no caminho, uma partilha do pão, etc. Assim, em todos os evangelhos, as testemunhas devem passar da angústia e da dúvida ao momento em que eles reconhecem que é o Cristo que está aí, que está vivo, que é verdadeiramente ressuscitado. Todos esses testemunhos da primeira hora descobrem aos poucos o caminho da fé. É o que emerge do evangelho de João de hoje.
2. A Ressurreição... uma presença na ausência. Jesus morreu. Ele não pode estar aí fisicamente como antes; ele só pode está aí como depois, isto é, através dos seus discípulos. De fato, os discípulos se sentem sozinhos, nos dizJoão. Eles estão num lugar fechado, com todas as portas trancadas, por causa do medo que sentem (Jo 20,19a). Mesmo assim, o Cristo está no meio deles (Jo 20,19b). Ele é, em primeiro lugar, Palavra: “A paz esteja com vocês!” (Jo 20,19c). Depois destas palavras, ele mostra a sua humanidade ferida (Jo 20,20c). Não esqueçamos que estamos no final do século I, no momento das piores perseguições aos cristãos: na comunidade de João, muitos cristãos martirizados se reúnem, no primeiro dia da semana, no domingo, para recordar o Ausente, isto é, através da Palavra partilhada e do testemunho da sua vida, eles descobrem a presença do Ressuscitado na ausência do Crucificado. Imediatamente, é a alegria experimentada por toda a comunidade reunida (Jo 20,20b).
3. A Ressurreição... uma vida nova. No encontro dominical, os primeiros cristãos tomam consciência de que a missão do Cristo lhes pertence: “Jesus disse novamente: a paz esteja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês” (Jo 20,21). É a nova criação; assim como no tempo da primeira criação, quando Deus sopra nas narinas de Adão para lhe dar a vida, Cristo faz o mesmo com os seus discípulos reunidos: “Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: ‘Recebam o Espírito Santo’” (Jo 20,22).
4. A Ressurreição... uma libertação. Recriados, investidos pelo Espírito de Cristo, os discípulos tornam-se libertadores, capazes de reconciliar e de libertar as pessoas: “Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados” (Jo 20,23). É uma responsabilidade que lhes é confiada, já que os discípulos têm o poder de libertar as pessoas ou de se recusar a fazê-lo, e esta responsabilidade não é reservada apenas aos apóstolos; de agora em diante, todos os discípulos podem e devem fazê-lo, o que significa que ainda hoje somos todos responsáveis pela reconciliação e pela liberdade. Cabe a nós reconciliar as pessoas e de torná-las livres.
5. A comunidade... uma necessidade. A fé cristã não pode ser vivida de maneira isolada; ela tem necessidade dos outros, da comunidade. É o significado da segunda parte do relato de João, onde Tomé, nosso gêmeo, não se encontra com os outros. Esses lhe contaram que o Cristo está vivo e que se faz presente no seu encontro do domingo, mas Tomé na pode crê-lo, porque ele não se encontrou com ele, pois estava ausente dessa reunião. É, pois, no âmago da celebração dominical seguinte que Tomé, desta vez presente, poderá fazer a experiência do Ressuscitado. E temos então a profissão de fé de Tomé em toda a sua solenidade: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28). Mas!!!
6. A fé... um testemunho. Mas!!! O evangelista João parece dizer que a fé deverá nascer primeiramente e antes de tudo da experiência dos outros que testemunham seu encontro com o Ressuscitado. O que significa que o nosso testemunho deve ser muito confiável e convincente para que os outros adiram à fé e para que tenham o gosto, também eles, de vir à reunião dominical para encontrar e reconhecer o Ressuscitado. É através das chagas dos participantes da reunião que reconhecemos o Crucificado ressuscitado. É uma missão e uma responsabilidade que é confiada hoje a todos os cristãos.
Concluindo, podemos dizer que a experiência de Tomé, que é também a nossa, tem um valor importante para a Igreja de hoje. A este respeito, gostaria de compartilhar os comentários do exegeta francês Jean Debruynne: “Deste ponto de vista, Tomé nos presta um grande serviço: as perguntas que ele faz em voz alta, são as mesmas que nós fazemos em voz baixa. Tomé nos tranquiliza, uma vez que ele, um incrédulo, chega à experiência da fé. Isso deveria nos livrar de muitas das nossas dúvidas. Não precisamos refazer a busca, Tomé já a fez! Mas este pedido de Tomé de querer colocar os dedos nas chagas das mãos e dos pés de Jesus e suas mãos na chaga do seu lado, não é apenas expressão do ceticismo; é também uma afirmação muito importante para a nossa fé: o Jesus ressuscitado ainda traz as marcas e as chagas da sua paixão. A ressurreição de Jesus não o fez retroagir ao passado, como se sua morte nunca tivesse acontecido. Pelo contrário, venceu a morte e ainda traz as marcas da crucificação. O Jesus ressuscitado não virou anjo; ele continua sendo homem. A ressurreição de Jesus muda o nosso olhar sobre o homem. As chagas de Jesus dizem que o ressuscitado carrega em si todas as chagas de todos os humilhados do mundo. Elas dizem também que nenhuma chaga, por mais injusta e humilhante que seja, pode nos impedir de nos tornarmos pessoas de cabeça erguida no coração do mundo. De agora em diante, nenhuma das nossas chagas pode nos impedir de ser livres: Jesus ressuscitado é, em primeiro lugar, aquele que carrega as chagas da nossa condição humana. De maneira clara, não esperemos nos livrar dos nossos males para vivermos de cabeça erguida. Jesus ressuscitou e é hoje que, mesmo com as nossas chagas, podemos nascer para a liberdade.”