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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

EDITH STEIN E A NOVA EVANGELIZAÇÃO

*Por Francisco Javier Sancho Fermín OCD

No momento atual, os meses que passaram e os que estão vindo agora estão marcados por diversas celebrações centenárias: a 14 de dezembro de 1991 celebrava-se o IV Centenário da morte de São João da Cruz. Em alguns países era o dia do encerramento, em outros o início. Não demorará muito e no dia 12 de outubro começa o V Centenário da Evangelização da América.
            Entre estas datas teve lugar outro centenário. Na sombra dos outros passou quase sem ninguém advertir: o I Centenário do nascimento de Edith Stein. A abertura foi no dia 12 de outubro de 1991 e o encerramento coincidirá com o início do Centenário das Américas.
            Todas estas celebrações ficariam vazias se se limitassem a um simples festejar e recordar tempos passados. O objetivo é outro: fazer-nos refletir. Hoje, na América de modo especial, se insiste sobre o tema da Nova Evangelização. Ajuda para esta reflexão dão-nos os Santos, enquanto encarnação do ideal evangélico. Fixamos a nossa atenção na Bem-Aventurada do nosso século, Edith Stein. Através da exposição da sua vida e do contexto histórico que ela viveu chegaremos a colher do seu pensamento alguns aspectos, que poderão oferecer-nos luz, ao refletirmos sobre a Nova Evangelização.

1. Vida

            Nasceu Edith Stein no seio de uma família judaica, no dia 12 de outubro de 1891, na cidade prussiana de Breslau. É a mais nova de 11 irmãos, dos quais 4 morreram em idade prematura.
             Não tinha ainda completado 2 anos quando o pai morreu de insolação. A mãe, "mulher forte da Bíblia", como é chamada por Edith, encarrega-se da família, translada-se para a cidade e leva para a frente o negócio de madeiras iniciado pelo marido.
            Aí Edith vai receber a primeira formação escolar na  Viktoria-Schule. Aos 14 anos abandona os estudos, movida por um certo enjôo intelectual e talvez de fé. Por esta ocasião deixou toda prática religiosa, certamente influenciada pelas idéias racionalistas pós-kantianas, que caracterizavam a linha de pensamento da escola. Passaram-se quase dois anos até se decidir a recomeçar os estudos para bacharelado em 1908.
            Em 1911 entra para a Universidade. Escolhe História, Filologia Alemã, Filosofia e Psicologia. Esta última é a que mais atrai a sua atenção, mas por ser ainda uma ciência sem fundamentos sólidos, ela resolve dedicar-se à filosofia.
            Durante estes anos começa a tomar parte em diversas associações estudantis orientadas para a reforma do sistema educativo e a promoção dos direitos da mulher, etc.
            Em 1913, atraída pela fenomenologia de Husserl, dirige-se à Universidade de Göttingen. Aí conheceu Scheler, que infiltra na vida de Edith a abertura para a Igreja Católica. Estoura a 1ª Guerra Mundial e Edith se oferece como voluntária da Cruz Vermelha para atender os doentes num hospital de "contagiosos". Terminados estes serviços humanitários, volta para o seu trabalho intelectual. Conclui a sua tese doutoral sobre o tema da Empatia (Einfühlung), que apresenta na Universidade de Friburgo no dia 3 de agosto de 1916, alcançando a nota máxima. Nesta Universidade permanece até 1918, como assistente de Husserl.
            Por ser mulher, fracassa no seu projeto de subir a uma cátedra. Dá algumas aulas particulares e faz substituições na Escola "Viktoria", onde tinha sido aluna adiantada. Parece que nestes anos a crise espiritual de busca toma conta dela. O momento definitivo da sua conversão chega no verão de 1921, quando, por acaso, estando na casa de campo dos seus amigos Conrad-Martius, cai nas suas mãos o "Livro da Vida" de Santa Teresa. AÍ descobre a Verdade. É batizada no dia 1° de janeiro de 1922 em Berzabém.
            A conversão muda a orientação da sua vida. Primeiro como professora de bacharelado e magistério no Colégio das Dominicanas de Espira; neste tempo dedica-se ao estudo e tradução de Santo Tomás. A sua vida é de intensa oração e de serviço aos mais pobres.
            A partir de 1928 desdobra-se a sua atividade no terreno do "feminismo". Chegam convites de numerosas cidades dos países de língua alemã, para fazer conferências sobre o tema. Em 1930 foi convidada pela "Societé Thomiste" de Paris.
            A sua última atividade, antes do triunfo nazista, foi-lhe oferecida no Instituto de Pedagogia de Munster como ocupante da nova cátedra de antropologia (1932-1933).
            Com a proibição aos judeus de exercerem cargos públicos abrem-se as portas para ela realizar a sua vocação. Nada agora podia detê-la de entrar para o Carmelo. Os seus próprios confessores já não puseram obstáculo. E é assim que, na véspera da Festa de Santa Teresa, no dia 14 de outubro, se dá o seu ingresso no Carmelo. No dia 16 de abril recebe o hábito com o nome de Teresa Benta da Cruz. Nome que denuncia a sua vida espiritual. Teresa, porque em Teresa encontrou a mãe na fé e na vocação. Benta, porque na espiritualidade de São Bento encontrou o verdadeiro sentir com a Liturgia da Igreja. Da Cruz, porque lhe foi possível a entrada no Carmelo debaixo deste sinal, que daí em diante será o sinal da configuração e consumação da sua vida em Cristo.
            No Carmelo prossegue na atividade intelectual, levando ao fim a sua grande obra filosófica: "Ser finito e Ser eterno".
            Contudo, pela situação extrema de ódio contra os judeus, é levada a transferir-se para o Carmelo de Echt na Holanda, onde escreveu o sua última obra, "A Ciência da Cruz", em homenagem ao IV Centenário do nascimento de São João da Cruz; não conseguiu,porém, terminá-la, já que no dia 2 de agosto de 1942 foi arrancada pela Gestapo da paz do Carmelo e levada ao campo de Auschwitz/Birkenau, onde, junto com Rosa, sua irmã, foi martirizada na câmara de gás no dia 9 do mesmo mês. O exemplo e heroicidade da sua vida foram apresentados à Igreja Universal no dia 1º de maio de 1987 na cidade de Colônia, onde João Paulo II a proclamou Bem-Aventurada e Mártir.

2. Contexto Histórico

            Uma análise, ainda que superficial, do ambiente onde Edith viveu pode ajudar-nos a compreender a sua vida e a sua doutrina. A sua vida decorreu ao longo da primeira metade do nosso século, numa Europa que sofreu duas guerras mundiais. A situação ideológica geral ainda estava marcada pelas correntes racionalistas do século XIX, que distanciou o homem da sensibilidade religiosa. É neste tempo que novas ideologias de caráter sócio-político, como o socialismo marxista, começam a minar a política, criando em muitos países situações de revolução.
            As pessoas de fé, e os católicos ainda mais, viviam a sua religiosidade numa situação de gueto provocada pela mentalidade racionalista e - em países como a Alemanha - por leis favoráveis só ao protestantismo. Isto criou uma espécie de complexo no católico alemão.
            A 1ª Guerra Mundial (1914-1918) será ocasião de grandes mudanças. As primeiras conseqüências trágicas fazem-se sentir na grande perda de vidas humanas e no caos econômico proveniente dos gastos bélicos.
            A Alemanha, a grande protagonista da guerra, ao alcançar a paz, perde todas as suas colônias e parte dos seus territórios próximos das fronteiras. A paz trouxe-lhe instabilidade em todos os campos. Grupos socialistas aproveitam-se da ocasião para provocar a revolução em vários estados alemães e chegar assim à constituição da república. O Imperador Guilherme II apresentou renúncia à coroa e exilou-se.
            Não houve estabilidade garantida até 11 de agosto de 1919, ano em que nasceu a Constituição de Weimar. Já se nota aí uma certa participação dos católicos na política, no partido do Centro.
            A guerra e o pós-guerra fizeram surgir também alguma crise de consciência. A razão não bastava para solucionar os problemas da humanidade e acontece o fenômeno do retorno à religiosidade.
            Todos estes fenômenos são para o mundo católico a porta de penetração na sociedade alemã. Dá-se um autêntico renascimento da vida espiritual. Cresce o empenho pelas questões sociais: a Ação Católica adquire força, aparecem grêmios e diversas associações de trabalhadores. Aumenta a atividade literária. E pouco a pouco se consegue um lugar qualificado dentro daquela sociedade. Procura-se unir doutrina e vida.
            Como fruto deste florescimento desenvolvem-se movimentos diversos, que irão dar a fisionomia espiritual à Alemanha. O mais forte, é sem dúvida, o movimento litúrgico, que pretende aproximar a liturgia do povo e o povo da liturgia. Outros movimentos são o bíblico-patrístico, que recupera os valores sempre atuais da tradição, o movimento social ou laical, que trata de conscientizar o leigo do seu trabalho social e eclesial. Há um outro aspecto: a teologia e a piedade se tornam mais cristocêntricas. Cristo como homem e como Deus. Um cristocentrismo que se manifesta na concepção eclesial: Igreja como Corpo de Cristo.
            Esta situação vai ser freada em grande parte com a subida ao poder do nacional-socialismo (1933), ideologia que se fundamenta num desejo radical de fazer crescer e proteger os valores supremos da raça germânica (ariana). Na frente está Hitler, que se constitui "führer" do Terceiro Reich com a pretensão de reconquistar as glórias do antigo Império Alemão.
            Esta ambição leva-o a fechar a boca de todos opositores;       entre eles a Igreja Católica.
            Os primeiros passos de Hitler, porém, são dirigidos à purificação da raça e isto manifestou-se por primeiro na proibição aos judeus de assumirem cargos públicos e, em seguida, revelou-se num ódio de perseguição e assassínio. Esta mesma sorte sofreram os católicos, que se opuseram abertamente a tais medidas.
            Esta ambição levou ao desencadeamento da 2ª Guerra Mundial (1939-1945), quando Hitler pretendeu recuperar os territórios perdidos. Desta guerra e do ódio contra os judeus Edith Stein foi vítima.

3. Contribuições para uma Nova Evangelização

            Puebla, fazendo-se eco do que dizia Paulo VI, entende por evangelização "levar a Boa Nova a todos os ambientes da humanidade e, pela sua influência, transformar por dentro, renovar esta mesma humanidade" (Puebla 402). Como Edith Stein foi capaz de fazê-lo? Se dizemos que "o Santo é o símbolo do ideal evangélico visualizado e posto ao alcance de todos a um certo momento e perante certos desafios históricos" e, mais ainda, que "o Santo é o comentário vivo do Evangelho escrito"[1], o nosso objetivo está plenamente justificado.
            O contexto em que viveu Edith Stein não é o nosso, mas certas situações assemelham-se às nossas. Por outro lado, os valores evangélicos apresentam-se como valores universais, válidos para todos os tempos.
            Edith Stein não enfrenta diretamente o problema da Evangelização, e sim certos aspectos, que cuidaremos de pôr em evidência.
            O conceito que ela tem de Evangelização consiste em "colaborar com Cristo na Redenção da humanidade". Colaborar como "instrumentos" dóceis à vontade do Pai, deixando-se guiar pelo Espírito Santo. É este o trabalho de todo cristão, não de uns poucos. Cada um a partir da sua condição "carismática". Quem não coopera está pondo em risco a sua filiação divina. "Ser filhos" é participar da obra do Pai.
            Como colaborar com Cristo? O evangelizador autêntico não é aquele que "faz muitas coisas" ou "coisas grandes". Cada um há de fazê-lo de acordo com a função para a qual foi chamado. Como norma para todos, colaborar com Cristo consiste sobretudo em estar "unido a Ele" através de uma intensa vida teologal:
            "Na Nova Aliança o homem participa da obra da redenção numa forte relação pessoal com Cristo: por meio da fé que o une a Ele, Caminho de Salvação, à verdade por Ele revelada, aos meios de santificação que Ele oferece; por meio da esperança que faz o homem esperar com firme confiança a vida prometida por Cristo; por meio do amor, pelo qual procura todas as maneiras possíveis de unir-se a Cristo. Esforça-se por conhecê-Lo melhor, meditando sobre a sua vida e refletindo nas suas palavras; conquista a união mais íntima com Ele na Eucaristia e participa da continuidade mística da sua vida, vivendo o Ano Litúrgico, a Liturgia da Igreja".
            Temos aqui, em maravilhosa síntese, as características da autêntica Evangelização, da autêntica Vida Cristã:
            × em união com Cristo, porque Ele é o revelador do Pai. Segui-Lo é o caminho seguro, porque Cristo é o conteúdo da Evangelização.
            × Seguir a Cristo através da vida teologal:
            - na fé, como adesão à sua Pessoa, à sua vontade, à sua verdade;
            - na esperança: com a confiança nas suas promessas, trabalhando para realizar já na terra o Reino dele;
            - no amor: como atitude que nos aproxima da autêntica união com Ele no exercício do amor ao próximo, no qual "servimos a Ele";
            × Seguir a Cristo é chegar a um maior conhecimento da sua Pessoa, da sua vontade, através da oração, da meditação e do estudo[2];
            × Seguir a Cristo é fazer parte da sua Igreja. Participar com ela dos meios que aproximam de Cristo. Nos Sacramentos, na Liturgia como momento de celebração da Fé e fonte de graça para pôr em ação a vida de Cristo em nós e no irmão.
            × Seguir a Cristo é colaborar na sua obra, uma obra que redime todos os setores da vida.
            A razão para esta amplidão encontra-a Edith numa tríplice causa: Cristo ao se encarnar assume a natureza humana; o homem não é uma composição, mas uma unidade de espírito, alma e corpo[3]; e finalmente, o mundo é para o homem que tem fé um "Mundo de Deus" (Gotteswelt) e como tal deve ser recuperado para Deus.
            Na tarefa da Evangelização é fundamental para Edith a educação, como princípio para o indivíduo de iniciação na fé, e a Liturgia, como momento catequético, vivencial, celebrativo e configurativo com Cristo.
            A figura de Maria é um modelo excepcional para ser imitado. Esta mulher simples, que na sua humildade se transforma na Mãe do crente, é chave e exemplo para a Evangelização no seu sentido total de Redenção do mundo:
            "Quem pode afirmar que a política nada tem a ver com a religião e que as almas têm de afastar-se da vida pública? Se a Virgem de Nazaré, na paz e no silêncio da sua alma absorvida em Deus, seu Salvador, se interessa, na estrofe central do Magnificat, pelo que acontece neste mundo, é possível que o homem religioso - e não menos a mulher - permaneçam indiferentes?"
            Já encontramos neste texto uma alusão ao tema mais original, pelo qual Edith Stein mais lutou: "e não menos a mulher". Na sua época a mulher ocupava um lugar secundário na sociedade: não tinha direito ao voto nem acesso a cargos públicos. Não era também aceita em muitos estudos universitários. Desde estudante Edith trabalhou por esta liberação da mulher. Com a conversão esta atividade ficou mais robusta. É conhecida no mundo germânico e convidada a dar conferências sobre o tema. Examina o "ethos" da mulher sob os diversos pontos de vista: teológico, antropológico, psicológico, para estabelecer as características peculiares da condição feminina, diferente do homem, mas nem por isso inferior. Conclui que a vocação primária da mulher é a maternidade, a educação dos filhos, é ser o coração da família. Mas isto não fecha para ela o campo para outras atividades. As suas características peculiares fazem dela companheira indispensável no trabalho primário do homem de dominar a terra. A mulher tem que ser mulher, seja qual for a sua profissão. A maternidade não é somente física, mas tem a sua dimensão espiritual, dimensão que tem sempre de transparecer.
            Animada por esta mesma convicção, ela reivindica para a mulher uma maior presença dentro da Igreja, tanto no Apostolado como nos ministérios eclesiásticos não sacerdotais. Encara o problema do sacerdócio da mulher e afirma a inexistência de razões dogmáticas. Reconhece o impedimento por parte do próprio Cristo, que não escolheu para Apóstolo nenhuma mulher. Deixa a porta aberta para o diaconato.
            Maria é modelo para todo Cristão, mas de modo especial para a mulher. Em Maria Imaculada encontramos em estado puro as características peculiares da vocação natural e sobrenatural da mulher. E justamente porque Maria é a concebida sem mancha original.
            Não podemos deixar no esquecimento o aspecto central da espiritualidade de Edith: a Cruz. Com a Cruz ela coroou a sua vida com o martírio. Na Cruz ela descobre o caminho - o único - da Evangelização pessoal e do próximo:
            "Desta forma encontram-se indissoluvelmente unidos a própria perfeição, a união com Deus e o trabalho para que o próximo alcance a união com Deus e a própria perfeição. E o caminho para tudo isto: a Cruz. E a pregação da Cruz seria vã se não fosse expressão de uma vida unida a Cristo Crucificado".
            Seguir a Cristo, cooperar com Ele na Redenção do mundo, é caminhar após Ele, carregar a própria Cruz e subir para o Calvário. A Cruz foi o instrumento da nossa salvação e é para o evangelizador a arma com que pode vencer o mundo. O mais profundo sentido da Cruz não é de dor, mas de configuração com Cristo: é portanto um sinal de libertação. Uma Cruz como aquela que a situação histórica proporcionava a Edith Stein. Uma situação de opressão pode ser, inclusive no seu aspecto mais duro, um motivo de Redenção, se vivida em união com a Cruz de Cristo. É eloqüente e pode ajudar-nos em nossa reflexão a visão de Edith. Deixemos que ela mesma lance a luz sobre nós:
            "A visão do mundo em que vivemos, a necessidade, a miséria e o abismo da maldade são causa suficiente para mitigar o gozo do triunfo da luz. A humanidade ainda luta no meio da lama e o rebanho dos que da lama se libertaram no mais alto cume dos montes ainda é muito pequeno. A batalha entre Cristo e o Anticristo não terminou ainda. No interior desta luta têm o seu posto os seguidores de Jesus e a sua arma principal é a Cruz. Como podemos entender isto? O peso da Cruz que Cristo carregou sobre si é a corrupção da natureza humana com todas as suas conseqüências de pecado e sofrimento, com que a humanidade decaída foi embalada no seu berço. O sentido último da Cruz é libertar o mundo desta carga. A volta da humanidade libertada para o coração do Pai Celeste e a aceitação da herança legítima é um dom livre da graça e do amor misericordioso de Deus (...). Finalmente os amantes da Cruz, que Ele fez surgir e haverá de suscitar sempre de novo na história sempre em mutação de uma Igreja controvertida, serão os companheiros dele até o fim dos tempos. Para isto nós também fomos chamados"

            Concluindo. Para Edith a Evangelização consiste em cooperar
com a obra redentora de Jesus. Cooperação em íntima união com Ele,
com os seus mistérios de Encarnação e Cruz, buscando a Salvação do
mundo em todas as dimensões. Redenção libertadora, porque se
realiza a partir da vocação particular de cada um dentro do Corpo
de Cristo e porque a sua finalidade última é conduzir a pessoa à
plena realização humano-espiritual, que só em Cristo se encontra.
     *(Traduzido da Revista "Vida Espiritual" - Santa Fé de Bogotá (DC) - nº 107, pgs. 53-61)



    [1].  Segundo Galilea
    [2].  "Quem vive na certeza desta crença não pode já, em consciência, descansar no seu próprio saber. Deverá, por conseguinte esforçar-se por conhecer o que é justo e verdadeiro aos olhos de Deus. Esta é a razão porque a atitude religiosa é a única verdadeiramente ética. Claro está que existem um desejo e uns impulsos naturais de buscar o bem e a justiça, e acontece mesmo que alguém tenha a felicidade de encontrá-los, mas é somente quando se busca a vontade de Deus que aquele desejo e aqueles impulsos se encontram consigo mesmos e encontram a satisfação". Cfr. A Ciência da Cruz Edições Loyola  São Paulo, Brasil  1988  pg.138
    [3].  Sobre este aspecto da unidade essencial do homem Edith insiste muitíssimo em todos os seus estudos de caráter filosófico.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 132. Edith Stein, Mártir.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

DOIS PADRES, DUAS VIDAS...

Foto: Padre José Theisen, da cidade de Craíbas no Estado de Alogoas, celebrou 60 Anos de Ordenação Sacerdotal no dia 27 de julho-2012. Neste mesmo dia, Frei Petrônio de Miranda, Frade Carmelita da Ordem do Carmo, natural de Lagoa da Canoa, também do Estado de Alagoas e residente em São Paulo- capital, celebrou 10 Anos de Ordenação.

Todo cuidado é valioso: Saiba das diferenças entre o dízimo e a teologia da prosperidade

*POR CÔN. EDSON ORIOLO

A todo instante ouve-se falar em globalização, mercados financeiros, internet, mercados de créditos, efeito estufa, manipulações genéticas, organismos geneticamente modificados, mídia, marketing, merchandising. São tantas as inchações econômico-financeiras, metafísicas, morais e religiosas! Fazemos história e evangelizamos em uma sociedade totalmente relativista, individualista e consumista.
O Papa Bento XVI afirmou: “ter fé clara, segundo o credo da Igreja, é ser frequentemente etiquetado como fundamentalista, enquanto que o relativismo, isto é, o fato de se deixar levar ‘aqui e ali por qualquer vento de doutrina’ aparece como o único comportamento à altura dos tempos atuais. Está se construindo uma ditadura do relativismo” (Trecho da homilia do Cardeal Joseph Ratzinger – Decano do Colégio Cardinalício – na Celebração Eucarística “Pro Eligendo Romano Pontífice”-L’osservatore Romano, 23/04/2005, p.2).       
Explicando
Desde as primeiras edições da “Revista Paróquias & Casas Religiosas”, venho escrevendo sobre a Pastoral do Dízimo, usando da filosofia do marketing como instrumental. Tenho, porém, a grande preocupação de não cair em ideias relativistas ou consumistas sobre o dízimo porque, querendo ou não, contradizem a doutrina católica no tocante às verdades bíblicas, teológicas ou mesmo pastorais.
Com essas motivações, quero falar sobre a grande diferença que existe entre o marketing como instrumental para a Pastoral do Dízimo e a Teologia da Prosperidade que tem a mídia como instrumento de divulgação. Preservo, assim, a fidelidade ao ensinamento do Magistério ordinário e extraordinário em relação ao dízimo.
O ensinamento da Igreja
A Igreja Católica sempre necessitou de ajuda para se manter e para manter os seus ministros. Por isso, segue algumas orientações acerca do que o “Direito Canônico” prescreve e o que o “Catecismo da Igreja Católica” exorta:
1. O “Código de Direito Canônico” pondera: “Os fiéis têm obrigação de socorrer às necessidades da Igreja, a fim de que ela possa dispor do que é necessário para o culto divino, para as obras de apostolado e de caridade e para o honesto sustento dos ministros” (cân. 222 § 1).
2.O “Catecismo da Igreja Católica” ensina que “o quinto mandamento (Ajudar a Igreja em suas necessidades) recorda aos fiéis que devem ir ao encontro das necessidades materiais da Igreja, cada um conforme as próprias possibilidades” (n. 2043).
O dízimo é uma das maneiras para suprir essas necessidades da Igreja. É um gesto consciente de gratuidade e de amor.
O que é a “Teologia da Prosperidade”?
Na década de 40, nos EUA, nasceu a “Teologia da Prosperidade”, solidificada depois, na década de 70, chegando ao Brasil nos anos 80. É conhecida também como “Confissão Positiva”, “Palavra da Fé” ou “Movimento da Fé”. Trata-se de uma prática religiosa que precisa ser muito bem compreendida pelos agentes da Pastoral do Dízimo.  Rege-se por uma hermenêutica bíblica que prega um Deus fiel e que tudo o que se pedir a Ele será concedido. Porém, Deus precisa ser ajudado financeiramente, necessita de ofertas para poder banir a pobreza, a doença e levar a pessoa a desfrutar de uma excelente situação na área financeira e na saúde, gozando de amplo bem-estar.
Os adeptos da “Teologia da Prosperidade” pensam que se pode reivindicar o que se quiser de Deus, mediante contribuição. Basta lembrar alguns chavões:
1. “Quem não é capaz de dar é porque não crê”;
2. “Quanto mais você é capaz de doar mais você recebe”;
3. “Quem oferta deve esperar riquezas espirituais e materiais”;
4. “Quem doa ao que necessita, além de emprestar a Deus, também semeia, para colher no dia de sua necessidade”.
Contribuindo financeiramente, fazendo confissão da Palavra em voz alta e “no nome de Jesus” para recebimento das bênçãos almejadas, por meio da confissão positiva, a pessoa compreende que tem direito a tudo de bom e de melhor que a vida pode oferecer: saúde perfeita, riqueza material, etc.
Construindo o dízimo consciente
Nunca é demais ter presente essa diferença quando se usa o marketing como instrumental na Pastoral do Dízimo. A Igreja Católica e muitas Igrejas Cristãs quando usam os recursos de marketing na prática do dízimo não o fazem incentivando um “toma lá e dá cá”, mas procuram conscientizar os fiéis do verdadeiro sentido do dízimo:  “uma retribuição que fazemos a Deus de parte do que gratuitamente dele recebemos, um pouco de nós mesmos; e o fazemos por meio da Igreja, para que ela possa cumprir a missão da qual Jesus a incumbiu”.
Não se trata de uma exigência imposta a Deus para que esteja a nosso serviço. Pelo contrário, é um gesto de doação da parte da pessoa, reconhecendo o seu amor, misericórdia e bondade para conosco.
*Côn. Edson Oriolo é Mestre em Filosofia Social, Especialista em Marketing e Pároco da Catedral Metropolitana de Pouso Alegre/MG.
Fonte: http://revistaparoquias1.hospedagemdesites.ws/?p=2931

terça-feira, 3 de julho de 2012

FESTA DE NOSSA SENHORA DO CARMO 2012 - RECIFE (DE 5 A 16 DE JULHO)

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO-109. Acidente mata 10 na Bahia.

Igreja Católica teme crescente escândalo do banco do Vaticano

Andreas Wassermann e Peter Wensierski
Remo Casilli/Reuters - 22.abr.2010

Ettore Gotti Tedeschi, ex-diretor do Banco do Vaticano
Um novo escândalo ameaça envolver a Igreja Católica, e desta vez o foco é o dinheiro. Altas autoridades do Vaticano estão discutindo sobre o futuro do banco do Vaticano. Apesar de alguns defenderem total transparência, transações duvidosas do passado e do presente podem prejudicar a imagem da Igreja.
O escândalo do Vaticano a respeito de contas bancárias escusas e milhões em transferências suspeitas começou pouco antes do amanhecer do dia 5 de junho na Via Giuseppe Verdi, uma rua pitoresca na parte antiga da Piacenza, cidade do Nordeste da Itália. Um senhor de idade, vestindo em um terno bem cortado acabava de sair de casa com uma pasta de couro na mão direita. Ele se dirigia ao seu carro.
Aquele seria um dia importante para Ettore Gotti Tedeschi, recentemente despedido do cargo de diretor do banco do Vaticano -mesmo que tenha saído diferente do que esperava. Tedeschi planejava ir ao Vaticano naquela manhã, mas nunca chegou ao seu destino. O banqueiro de 67 anos perdeu o trem de alta velocidade, e por isso não conseguiu, como tinha planejado, pegar um táxi na estação central da capital italiana para cobrir o curto trecho atravessando o rio Tiber até o Vaticano. Ali, ele esperava tirar os documentos da pasta e entregá-los a uma pessoa de confiança do papa.
Em vez disso, Gotti Tedeschi encontrou quatro homens esperando por ele na rua -não um esquadrão de matadores como temeu a princípio, e sim investigadores dos Carabinieri, a força de polícia militar nacional da Itália. Antes mesmo de chegar ao carro, os investigadores apresentaram um mandado de busca e escoltaram-no de volta para casa. Por sete horas, vasculharam todo seu escritório pouco mobiliado, simples como um claustro. Ao mesmo tempo, outros agentes vasculhavam o escritório de Gotti Tedeschi em Milão. Entre os objetos confiscados, havia dois computadores, dois arquivos cheios de fichários, uma agenda e a pasta de couro.
Os investigadores ficaram satisfeitos. Apesar de terem avançado pouco em sua investigação de corrupção envolvendo um cliente de uma empresa que Gotti Tedeschi dirigiu, uma subsidiária da gigante bancária espanhola Santander, eles tropeçaram em outra coisa que se provou espetacular.
Os documentos confiscados de Gotti Tedeschi, ex-confidente do papa, forneceram aos policiais italianos uma visão do funcionamento do banco do Vaticano. O dossiê secreto inclui referências a contas numeradas anônimas e transações questionáveis, assim como comunicações escritas e eletrônicas mostrando como os funcionários do banco da Igreja burlavam as regulações europeias para combater a lavagem de dinheiro.
Um possível motivo
O drama que vem se desdobrando no Vaticano agora está chegando seu clímax. Primeiro, foi "il corvo", cujas revelações sobre a vida na corte do papa Bento 16, que está isolado e exausto, causaram meses de desconforto. Depois, veio a prisão de Paolo Gabriele, o mordomo do papa, a quem o Vaticano apontou como a fonte da correspondência papal vazada para o público. E agora o escândalo em torno de Tedeschi está fornecendo um possível motivo para a novela católica: dinheiro.
Aparentemente, o papa tinha pedido ao executivo que tornasse o banco do Vaticano mais transparente. Gotti Tedeschi, contudo, talvez tenha encarado sua tarefa com excesso de zelo, e assim irritou forças poderosas dentro da Cúria Romana, o aparato jurídico e administrativo do Vaticano. Várias altas autoridades dentro da Cúria viam o banco, oficialmente conhecido como Instituto para as Obras da Religião (IOR) como algo similar a uma empresa para transações monetárias clandestinas, que não é apenas usada pela Igreja, mas também pela máfia, por políticos e empresas corruptas. Em um dos memorandos confiscados de Gotti Tedeschi, ele escreveu: "Vi coisas no Vaticano que me assustam".
É uma indicação clara que transforma o "Vatileaks" em um escândalo financeiro que pode danificar seriamente a reputação da Santa Sé. Uma correspondência interna datada do dia 22 de maio de um membro do conselho supervisor do banco para o Secretariado de Estado do Vaticano observa que o banco do Vaticano está presentemente "em uma posição extremamente frágil e precária" e que a situação atingiu "um ponto de perigo iminente".
O próximo ato no drama está marcado para a próxima quarta-feira (4). Especialistas em lavagem de dinheiro do Conselho da Europa apresentarão um relatório preliminar sobre o Vaticano em Estrasburgo. Atualmente, parece que vão levantar sérias dúvidas sobre se o IOR está tomando precauções suficientes contra a lavagem de dinheiro.
Suas preocupações são corroboradas pelo trabalho das autoridades italianas. Em sessões de interrogatório de várias horas, Gotti Tedeschi contou aos promotores públicos em quem confiava no Vaticano e em quem não confiava. O banqueiro teria apontado o secretário de Estado, Tarcisio Bertone, como o líder de seus "inimigos", acusando-o de fazer todo o possível para manter as contas da cúria escondidas das autoridades italianas. O Vaticano vem tentando tornar o banco próprio para ser incluído na "lista branca" da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, de instituições financeiras que não são suspeitas de estarem envolvidas em lavagem de dinheiro ou financiamento do terrorismo. Mas Gotti Tedeschi teria reclamado, dizendo: "Se continuarmos na linha de Bertone, nunca sairemos da lista negra".
Líderes do Vaticano alarmados
Fabio Palazzo, advogado de Gotti Tedeschi em Milão, recusou-se a discutir detalhes dos interrogatórios ou o conteúdo dos documentos apreendidos de seu cliente. Ainda assim, ressaltou que os documentos contêm "fatos úteis" que indicariam que não havia base legal para a demissão de Gotti Tedeschi como diretor do banco.
A liderança do Vaticano está alarmada. Os arcebispos e cardeais estão longe de animados com o fato das autoridades italianas agora estarem se inteirando de seus assuntos sigilosos. O porta-voz papal, Federico Lombardi, ameaçou abertamente o aparato policial da Itália e exortou-o a respeitar gentilmente "os direitos soberanos da Santa Sé". Em outras palavras, ele acredita que todos os documentos que incluem detalhes confidenciais sobre o banco do Vaticano apreendidos durante a busca da casa de Gotti Tedeschi não deveriam estar nas mãos de investigadores italianos.
Os temores do papa e da cúria são bem fundados. No passado, toda vez que os promotores italianos se envolveram e documentos confidenciais foram divulgados, as operações secretas do banco do Vaticano sempre acabaram por danificar o prestígio da Igreja. Por mais de 40 anos, o IOR, fundado em 1942, tem estado envolvido em escândalos, incluindo propinas para partidos políticos, lavagem de dinheiro da máfia e contas anônimas.
Muitos que se envolveram nos casos de transações ilegais do banco do Vaticano foram forçados a pagar com suas vidas, enquanto outros passaram anos atrás das grades. Apesar de todas suas promessas sagradas e solenes, o Vaticano conseguiu manter o banco do papa um porto seguro para a lavagem de dinheiro. E, diferentemente de uma ilha no Caribe, ele fica bem no meio da Europa, no coração de Roma.
Seu modelo de negócios depende da sua capacidade de manter as coisas o mais distantes possível das autoridades financeiras. Os ganhos de capital não são taxados, os extratos financeiros não são revelados e o anonimato é garantido. O status exótico do banco, que pertence a uma monarquia religiosa em um Estado soberano do tamanho de um parque de cidade, protegeu-o de investigações e do monitoramento externo desagradável.
A sede do banco fica em uma torre defensiva medieval chamada de Niccolò V, aninhada ao lado do Palácio Apostólico, residência oficial do papa, e abriga uma vasta quantia de dinheiro e papéis comerciais. Aqui, cerca de 100 funcionários cuidam de 33.000 contas com depósitos totais de $6 bilhões de euros (em torno de R$15 bilhões). O beneficiário direto é o papa e sua Igreja. Em 2010, o banco lucrou $55 milhões de euros. Tal receita ajuda a compensar um declínio nas doações dos membros de sua congregação internacional.
O passado escuso do banco do Vaticano
Enquanto o papa Bento 16 e seus predecessores pregavam a humildade e a ética financeira da janela que dá para a praça São Pedro, seus confidentes, que trabalham diretamente abaixo das janelas papais, continuavam efetuando transações financeiras questionáveis.
O Vaticano nunca divulgou as práticas empresariais que seu banco usa há décadas. "Há um temor que, com a transparência necessária hoje, pode-se encontrar algo no passado que não se queira", diz Marco Politi, especialista em Vaticano em Roma.
Essas coisas podem incluir um sistema complexo de contas fantasmas e empresas laranjas, como o banco tinha quando o arcebispo Paul Casimir Marcinkus foi seu diretor, nos anos 80. Na época, o banco fez negócios envolvendo moeda estrangeira e armas com o banqueiro milanês Robert Calvi e o financista da máfia Michele Siddona -e ajudou a lavar o dinheiro ilegal que a máfia ganhou com o tráfico de drogas assim como propinas pagas para políticos italianos conservadores cristãos.
No final, Calvi foi encontrado pendurado na ponte de Blackfriars em Londres, e sua secretária privada caiu para a morte da janela do Banco Ambrosiano. Quatro anos depois, em 1986, Sidona morreu na prisão, depois de beber um café expresso temperado com cianeto.
Sob o monsenhor Angelo Caloia, sucessor de Marcinkus como diretor do banco, o Vaticano expandiu consistentemente suas atividades de lavagem de dinheiro. Enquanto esteve no comando, houve contas secretas como as de Giulio Andreotti, o controverso ex-primeiro-ministro italiano. Quase semanalmente, Caloia trazia malas para o Vaticano cheias de doações de empresas italianas na forma de dinheiro e títulos. Ali, a origem do dinheiro era obscurecida, usando contas como a de número 001-3-14772-C, da não existente "Fundação Cardeal Spellman". Da mesma forma, organizações de assistência humanitária foram fundadas com nomes mascarando sua verdadeira identidade de seus verdadeiros beneficiados.
Apenas três anos atrás, quando as evidências dessas transações vieram à luz, que o papa Bento 16 demitiu Caloia. O que provocou a mudança foram os mais de 4.000 documentos que o especialista financeiro Renato Dardozzi reuniu e escondeu antes de sua morte em 2003. Em seu testamento, Dardozzi escreveu: "Esses documentos devem ser publicados para que todos saibam o que aconteceu aqui".
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Eliminação das pistas
Assim, tornou-se a missão de Gotti Tedeschi limpar as coisas. Como leigo casado que não pertencia à corte de cardeais da cúria, ele era bem qualificado para a tarefa.
Católico, porém, ainda estava preso a um sentido de lealdade ao papa, e considerou o novo trabalho desafiador. Devido aos negócios questionáveis do passado, o IOR tinha fama no mundo financeiro de ser tão transparente quanto os paraísos fiscais no Caribe. Gotti Tedeschi queria mudar isso e tornar o Vaticano apto para ser incluído na "lista branca"da Ocde, de organizações mundiais não suspeitas de lavagem de dinheiro. Membros do comitê do Conselho da Europa responsável por combater a lavagem de dinheiro deveriam ajudar nesses esforços e, para isso, teriam permissão de entrar no santuário interno do banco do Vaticano.
Aparentemente, contudo, os banqueiros veteranos da Igreja e membros da cúria não tinham a menor intenção de se abster dos negócios lucrativos com fundos problemáticos. O plano, acreditam os investigadores financeiros italianos, era dali por diante eliminar discretamente todas as pistas das operações financeiras clandestinas.
Um banco no país natal de Bento, a Alemanha, teve um papel no esforço. Em 2009, no mesmo ano em que Gotti Tedeschi assumiu como presidente do IOR, foi aberta uma conta na filial de Milão do banco americano JPMorgan Chase. Dali em diante, milhões começaram a fluir quase diariamente da filial do JPMorgan em Milão para a de Frankfurt, onde o IOR também tinha outra conta no JPMorgan.
As autoridades do Vaticano optaram por uma conta especial em Milão tipo 1365, que era zerada automaticamente no final de cada dia. O banco do Vaticano confirmou a existência dessa conta no final da semana passada, apesar de dizer que era usada primariamente para lidar com transações de títulos.
No ano passado, esse arranjo financeiro teria sido usado para processar mais de 1 bilhão de euros do banco do Vaticano. Investigadores italianos suspeitam que também o processo era usado para lavar fundos de fontes duvidosas.
As transferências via JPMorgan provavelmente teriam permanecido invisíveis se o IOR não tivesse envolvido outro banco italiano, dois anos antes, em dois casos. Transações curiosas chamaram a atenção dos fiscais financeiros italianos, feita pelo banco do Vaticano via Credito Artigiano. Em 2010, 23 milhões de euros foram transferidos de várias contas naquele banco, mas sem listar os nomes do correntistas ou os propósitos das transferências. Assim, 20 milhões de euros teriam chegado à conta do JPMorgan do Vaticano em Frankfurt, enquanto outros 3 milhões de euros foram destinados para outro banco em Roma.
Tempestade financeira
Antes das transações serem completadas, os promotores federais em Roma congelaram os fundos. Então, iniciaram investigações contra Gotti Tedeschi e Paolo Cipriani, diretor geral do IOR, sob suspeita de violarem regulações contra a lavagem de dinheiro. Alarmados com as investigações italianas, os funcionários do JPMorgan começaram a perguntar ao Vaticano de onde vinha o dinheiro que passava regularmente pela conta em Milão. Contudo, não tiveram respostas satisfatórias. Como resultado, o banco então deu ao IOR uma classificação interna de cliente de alto risco e começou a monitorar suas transações em busca de pistas que demonstrassem casos de lavagem de dinheiro.
As investigações dos promotores em Roma e a desconfiança dos banqueiros em Frankfurt forçaram o Vaticano a agir -mais por pânico do que por remorso, aparentemente. No final de 2010, Bento emitiu um decreto obrigando o banco do Vaticano a cumprir as normas de combate à lavagem de dinheiro da UE. Ele também estabeleceu uma agência supervisora para o Vaticano, a Autoridade de Informação Financeira, e nomeou como diretor o cardeal Attilio Nicora, que serviu como gerente dos bens papais por muitos anos.
Com essas medidas de emergência, o Vaticano conseguiu que as autoridades italianas liberassem os 23 milhões congelados do IOR. Mas a calma que esperavam criar em meio à tempestade financeira não se materializou.
De fato, novos fatos agravantes podem vir à tona em breve. Por um lado, o Vaticano teve que permitir que especialistas em lavagem de dinheiro do Conselho da Europa em Estrasburgo avaliassem seu banco. A votação desta semana por esses especialistas vai influenciar a decisão se o Vaticano um dia poderá configurar na "lista branca" da UE. Os especialistas do Comitê de Especialistas em Avaliação de Medidas de Combate à Lavagem de Dinheiro do Conselho (Moneyval) já montaram acampamento no Vaticano por vários dias em 2011. Ali, questionaram cardeais, bispos e executivos do IOR sobre 16 pontos. Eles só darão uma carta de saúde do banco do papa se todos esses pontos forem respondidos de forma positiva.
Além disso, promotores federais em Roma estão avançando em suas investigações. Em outubro, eles pediram ajuda aos colegas alemães para obterem documentos relativos à conta do IOR na filial do JPMorgan de Frankfurt. A medida fracassou em novembro, contudo, quando um juiz em Frankfurt recusou-se a emitir uma ordem de apreensão devido à "falta de evidências".
"Continua um paraíso fiscal"
Os banqueiros do papa enfrentaram outro contragolpe no início do ano, quando o JPMorgan fechou sua conta de transferência em Milão. Para explicar a decisão, o banco americano escreveu para Roma em meados de fevereiro que regulações de combate à lavagem de dinheiro estritas não permitiam mais "depósitos ou retiradas via contas 1365".
Enquanto isso, a situação na sede do IOR estava cada vez menos cristã. Enquanto Gotti Tedeschi perdeu apoio de cima, o cardeal secretário de Estado, Bertone, esforçou-se para que o decreto de Bento fosse flexibilizado. Na nova versão, o monitoramento do banco do vaticano só é possível com o consentimento do próprio Bertone. O cardeal Nicora, homem originalmente nomeado para se tornar o fiscal financeiro novo do Vaticano, não ficou contente. Em uma carta a Bertone escrita pouco após a mudança, Nicora reclamou que, como ela, "estamos dando um passo atrás e permanecendo um paraíso fiscal".
Um memorando confidencial vazado para o jornal romano "IL Fatto Quotidiano" deixa claro quão dramáticas e divididas as coisas se tornaram no alto escalão do Vaticano. Apesar do documento não ter data e não ter indicações de quem o escreveu, o jornal alega que o memorando vem do "topo", talvez entre pessoas próximas a Georg Gänswein, secretário privado do papa e extremamente próximo. No documento, o autor anônimo descreve as atuais práticas empresariais do banco do Vaticano como "inconsistentes com as exigências de transparência". Depois diz que há um "risco concreto de redução da classificação e de significativa perda de prestígio da Santa Sé".
O novo conselho responsável por supervisionar o banco do Vaticano começou suas operações em maio. Em cartas apaixonadas ao cardeal secretário de Estado Bertone, dois de seus membros -o ex-banqueiro Ronaldo Schmitz, alemão, e seu colega americano Carl Anderson- expressaram sua falta de fé em Gotti Tedeschi. Em sua carta, Anderson fez menção específica ao fechamento da conta do JPMorgan. Diante dos "tempos difíceis", escreveu Anderson, Gotti Tedeschi fracassou em "defender vigorosamente a instituição". Schmitz, por outro lado, lamentou a "falta de lealdade" de Gotti Tedeschi.
Dois dias depois, Gotti Tedeschi foi forçado a abandonar sua missão inconfortável.
De forma a estabelecer ao menos um pouco de transparência, o porta-voz papal, Lombardi, fez algo inusitado na história do IOR: convidou jornalistas para uma reunião dentro da fortaleza que abriga o banco, para rebater a alegação que havia contas numeradas anônimas.
No salão ornado do banco, rapidamente ficou claro como os banqueiros de Deus estão levando as coisas a sério. Perguntas? Sim, preferivelmente por escrito. Câmeras? Não. Gravadores? Proibidos. Uma olhada no cofre? Claro que não. Ainda assim, as coisas não foram totalmente sérias: o diretor do banco, Cipriani, mostrou de brincadeira uma camiseta com as palavras: "Especialista em Combate à Lavagem de Dinheiro".
Tradutor: Deborah Weinberg. Fonte: www.uol.com.br