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A Palavra do Frei Petrônio

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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Santa Teresinha: uma “Teóloga” da esperança.

*Dom Frei Vital Wilderink, O. Carm. In Memoriam

             O ser humano tem uma tendência natural à sua melhor realização.  Neste sentido ele se define pelo desejo, pela esperança. A experiência nos mostra que essa busca de felicidade descamba frequentemente para um egoísmo. Numa sociedade de consumo comandada pelo sistema econômico neoliberal, o individualismo encontra um terreno particularmente propício, cuidadosamente regado pela mídia. Não faltaram outras pessoas ou correntes que procuraram abranger sociedades inteiras num vasto movimento de esperança inspirado por determinadas ideologias, como o comunismo ou vários modelos de nacionalismo. Mas também nestes casos os quadros da felicidade prometida acabaram despencando.
       A França, na época em que Teresa viveu, era caracterizada por um ateísmo e virulento anticlericalismo., especialmente entre as elites intelectuais. Como podia seu ingresso num convento de clausura ser um gesto de esperança? Não era antes uma fuga, uma evasão egoísta mascarada por pensamentos piedosos sobre a salvação dos pecadores?  Afinal, em que consistia a esperança de Teresa de Lisieux? Que a justiça de Deus acertasse as contas com os que não acreditavam nele?  Sim, a justiça de Deus estava na mira da Carmelita porque contempla e adora as suas perfeições  divinas através de sua infinita misericórdia: “a própria justiça (talvez mais do que qualquer outra) se me afigura revestida de amor”. Não é na situação deplorável do mundo que ela fixa seu olhar: “meus desejos, minhas esperanças, vão às raias do infinito”.  A esperança da Teresa é realmente teologal. vai ao seu verdadeiro ponto de apoio. Ela não parte de uma espécie de pressuposição de que um número de criaturas humanas sofrerá a condenação eterna, como determinadas interpretações teológicas do mistério da predestinação apregoavam. Este fatalismo não aparece no vocabulário de Teresa, permeado pela certeza da gratuidade da infinita misericórdia divina. Para a sua ousadia temerária não há como  não apostar nesta última.
            Aqui aparece, talvez, um traço característico da visão feminina do mistério de Deus à qual, durante séculos, foi vedado o acesso ao pensamento teológico elaborado pelos homens. Não é isto que ela deixa entrever quando constata que Deus é pouco amado na terra ...mesmo pelos padres e religiosos?   Teresa desejou ser identificada ao Amor. O amor não seria amor se não fosse uma sede de expansão, de doação.  Por isto a esperança alarga seus horizontes à medida que nos animam os sentimentos de Cristo (cf. Fl 2,5): “Cristo que morreu por nós quando éramos ainda pecadores”(Rm 5,8). Já na sua adolescência Teresa, apelando à misericórdia de Deus revelada na Paixão e Cruz de Jesus, se empenhara na conversão de Pranzini, cujo processo de condenação pela justiça francesa havia acompanhado através da imprensa. Foi “meu primeiro filho”,  como ela comentaria  mais tarde. Sempre serviço da misericórdia divina, ela adotará outros pecadores. E quando, na Festa da Santíssima Trindade, em 1896, se oferece a Deus como vítima do seu amor misericordioso, ela faz um ato de esperança cega. Ela a justifica  dirigindo-se a Deus: “Ó luminoso farol  do amor, sei como achegar-me até a ti, descobri o segredo de apossar-me de tua chama”.   Familiarizada com as cartas de Paulo apóstolo, Teresa escreve: “Não deixava de esperar contra toda esperança”.  Certamente, ao citar estas palavras, não previa o alcance delas quando sua esperança, durante a prolongada provação da fé, vai estender-se a todos os pecadores. Nesta longa noite Teresa mergulha na experiência da escuridão daqueles que não acreditam no Céu.  Privada  da alegria que lhe era proporcionada pela esperança da proximidade do Céu, ela compartilhava a condição dos pecadores, unia-se a eles. Mesmo assim recebe esta provação como um dom pelo qual Cristo a associa à obra da redenção e à esperança da sua fecundidade: “Senhor, vossa filha  compreendeu vossa luz divina. Pede-vos perdão em lugar de seus irmãos. Pelo tempo que quiserdes, aceita comer o pão da dor, e da mesa coberta de amargura, onde comem os pobres pecadores, não quer levantar-se antes do dia que determinardes”. 
Teresa se compara aqui a uma criança na estação ferroviária, esperando seus pais que devem acomodá-la dentro de trem. Mas eles não chegam, e o trem parte! E ela acrescenta: “mas haverá outros trens, não perderei todos...”.  Teresa não perdeu a esperança. Contudo, esta esperança ficou como que desativada. Ela doou a sua força para outros, para os inúmeros outros. Ela se lançou no insondável mistério do Amor de Deus para amar com esse Amor o mundo.

*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm- Eremita Carmelita- foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo.

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