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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O Diálogo solitário com Deus como oração da Igreja

Santa Edith Stein (Teresa Benedita da Cruz)
Traduzido por José Alberto Pedra
           
        A vida de oração de Jesus pode ser a chave para compreendermos a oração da Igreja. Vimos que Cristo participou nas cerimônias públicas e prescritas do seu povo, isto é, participou daquilo que usualmente denominamos de "liturgia."Ele estabeleceu a mais íntima relação entre esta liturgia e a oferta de sua própria pessoa e, também, pela primeira vez deu-lhe o pleno e verdadeiro significado, que é a ação de graça da criação para o seu Criador. Foi assim que ele fez a liturgia da Antiga Aliança realizar-se na Nova Aliança.
           Mas Jesus não participou somente das cerimônias públicas e prescritas. Talvez, com mais freqüência que estas, os evangelhos nos falam de sua oração solitária no silêncio da noite, no alto das montanhas, no deserto, distante dos homens. Quarenta dias e quarenta noites em oração precederam a vida pública de Jesus. Antes de escolher e enviar seus doze apóstolos, Ele retirou-se para rezar na solidão das montanhas. Com sua oração no monte das oliveiras se preparou para sua subida ao Calvário. O pedido que fez ao seu Pai, nesta hora que foi a mais difícil de sua vida, nos é contada em poucas palavras. Palavras que foram dadas a nós, como estrelas-guia, para nos orientar quando vivemos nosso calvário pessoal: "Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Contudo, não a minha vontade, mas a tua seja feita!" Como relâmpago, estas palavras iluminaram por um instante, para nós, a vida espiritual mais íntima de Jesus, o insondável mistério de sua existência como Deus homem e seu diálogo com o Pai. Este diálogo foi, certamente, contínuo e durante toda a sua vida.
          Cristo rezava interiormente não somente quando se afastava da multidão, mas também quando estava entre seu povo. E, uma vez, ele nos permitiu olhar longa e profundamente este diálogo secreto. Foi pouco antes da hora do Monte das Oliveiras; na despedida: ao final da última ceia com seus discípulos que foi, como já vimos, a hora do nascimento da Igreja. "Tendo amado os seus... amou-os até o fim." Ele sabia que esta era a última vez que estariam juntos, e procurou dar-lhes tudo o que era possível dar naquele momento.
           Ele teve que se conter para não dizer mais. Certamente sabia que eles não conseguiriam compreender mais nada, na verdade, eles sequer podiam entender o pouco que já haviam recebido até aquele momento. Era necessário que o Espírito da Verdade viesse abrir seus olhos para tudo o que estava acontecendo.
            Depois de ter dito e feito tudo o que podia dizer e fazer, ele ergueu seus olhos para céu e falou para ao Pai diante deles. Nós chamamos estas palavras de "Oração Sacerdotal" de Jesus. Esta conversação solitária com Deus também tem antecedente na Antiga Aliança. Uma vez por ano, no maior e mais santo dos dias, o dia da Reconciliação, o Sumo Sacerdote entrava no Santo do Santos para, diante da face do Senhor, orar "em favor de si mesmo, em favor da sua casa e em favor de toda assembleia de Israel" Aspergia o trono da graça com o sangue de um novilho e de um carneiro anteriormente imolado e, deste modo, absolvia a ele mesmo e sua casa "das impurezas dos filhos de Israel e das rebeldias deles, isto é, de todos os seus pecados. "Ninguém podia estar na tenda (i.e., no lugar santo que se estendia diante do Santo dos Santos) quando o Sumo Sacerdote ficava na presença de Deus, neste temível e sublime lugar, neste local onde ninguém, exceto ele, ingressava e somente naquela hora. Além disso, tinha que queimar incenso para que "a nuvem perfumada recobrisse o propiciatório ... para que ele não morresse."Aquele encontro solitário se realizava no segredo mais profundo.
          O Dia de Reconciliação é, no Antigo Testamento, a figura da sexta-feira santa. O carneiro imolado pelos pecados do povo representa o Cordeiro imaculado de Deus ( como o representa, também, aquele outro, que era enviado ao deserto, após ter sido escolhido pela sorte, para carregar os pecados do povo). E Sumo Sacerdote, da descendência de Aarão, simbolizava o Sumo e Eterno Sacerdote. Na última ceia Cristo previu sua morte como sacrifício e pronunciou a Oração Sacerdotal. Ele não tinha necessidade de oferecer sacrifício para si, pois Ele não tinha pecados. Ele não tinha que esperar a hora prescrita pela Lei e tampouco entrar no Santo dos Santos do templo. Ele está, sempre e em todos lugares, diante da face de Deus; sua alma é o Santo dos Santos, não somente como a morada de Deus, pois a Ele está unida de modo essencial e indissoluvelmente. Ele não tinha que se esconder de Deus por trás de uma nuvem protetora de incenso. Ele contempla, diretamente, a face do Eterno e não tem nada a temer. A visão do Pai não o mataria. E ele desvela o mistério do reino do Supremo Sacerdote. Todos que a ele pertencem podem entender como Ele falou ao Pai no Santo dos Santos do Seu coração; Todos que a Ele pertencem podem ter a mesma experiência, quando aprenderem falar ao Pai em seus próprio coração.
         A oração sacerdotal de Jesus desvela o segredo da vida interior: unidade íntima das pessoas divinas e habitação de Deus na alma. Foi, nestas secretas profundezas - no mistério do silêncio - , que a obra da Redenção foi preparada e se realizou. E é desse modo que continuará até que todos estejam reunidos, no final dos tempos. A Redenção foi decidida no silêncio eterno da vida divina. No segredo da silenciosa morada de Nazaré o poder do Espírito Santo cobriu, com sua sombra, a jovem virgem que orava na solidão e operou a Encarnação do Redentor. Reunida em torno da Virgem, orando silenciosamente, a igreja nascente esperou ardentemente a nova efusão do Espírito que lhe havia sido prometido para a vivificar, para lhe dar luz interior e tornar fecunda sua ação. Na noite de trevas que Deus pos em seus olhos, Saulo esperou, orando na solidão, a resposta de Deus para sua pergunta, "Senhor, o que queres que eu faça?". Foi também, na prece solitária que Pedro se preparou para sua missão junto aos gentios. Assim, através dos séculos, os acontecimentos visíveis da história - aqueles que renovam a face da terra - são preparados, sempre, no diálogo silencioso que as almas consagradas.
            Os limites deste ensaio me impedem de transcrever integralmente a oração sacerdotal de Jesus. Devo pedir ao leitor que a leia no Evangelho de São João, cap. 17 a Deus mantêm com o seu Senhor. A Virgem, que guardou em seu coração toda palavra que Deus lhe enviou, é o exemplo das pessoas que escutam e nas quais a oração sacerdotal de Jesus revive. E aquelas que, como ela, se entregam totalmente, esquecendo-se delas mesmas na imitação da vida e paixão de Cristo, são as escolhidas, preferencialmente, por Deus como instrumentos de suas grandes obras na igreja: uma Santa Brígida, uma Catarina de Sena, por exemplo.
             Quando St. Teresa, a enérgica reformadora de sua Ordem, na época da grande apostasia, quis ajudar a igreja, viu a renovação da autêntica vida interior como o meio para tal fim. Teresa estava muito transtornada pelas notícias do alastramento da apostasia:"... e, como se pudesse ou valesse alguma coisa, chorava com o Senhor, suplicando-lhe para remediar tanto mal. Parecia-me que mil vidas daria eu para salvação de uma só alma das muitas que ali se perdiam.. Sendo mulher e ruim, senti-me incapaz de trabalhar como desejava para a glória de Deus. Tendo o Senhor tantos inimigos e tão poucos amigos, toda a minha ânsia era, e ainda é, que ao menos estes fossem bons. Determinei-me então a fazer este pouquinho a meu alcance, que é seguir os conselhos evangélicos com toda a perfeição possível e procurar que estas poucas irmãs aqui enclausuradas fizessem o mesmo. Confiava na grande bondade de Deus.... E, ocupadas todas em oração pelos defensores da Igreja, pregadores e letrados que a sustentam, ajudaríamos, no que estivesse a nosso alcance, a este meu Senhor, tão atribulado por aqueles a quem fizera tanto bem. Até parece que esses traidores pretendem crucificá-lo de novo..... Ó minhas Irmãs em Cristo! Ajudai-me a suplicar isto ao Senhor, já que para este fim vos reuniu aqui. Esta é a vossa vocação." A Teresa parecia necessário fazer: "...como em tempo de guerra, quando o inimigo invade uma região. O soberano, em apuros, se recolhe a uma cidade, que fortifica muito bem. Dali sai para atacar os adversários. Os da cidadela são gente tão escolhida que podem mais, eles sozinhos, que muitos soldados, se estes são covardes. Desta maneira muitas vezes conseguem a vitória..... Mas para que vos digo isto? Para que entendais, minhas irmãs, o que havemos de pedir a Deus. É que neste pequeno castelo, já guarnecido de bons cristãos, nenhum se bandeie para os adversários. Que os comandantes deste castelo ou cidade, isto é, os pregadores e teólogos, se tornem ilustres no caminho do Senhor. Na maior parte eles pertencem às ordens religiosas, suplicai para que avancem na perfeição própria de sua vocação, .... Cf. Caminho de perfeição. Cap. 1
               Eles são obrigados a viver entre os homens, a tratar com eles, a estar em palácios, e ainda algumas vezes a conformar-se exteriormente com as exigências dos mundanos..... E julgais, minhas filhas, que é preciso pouca virtude para tratar assim com o mundo, e viver no mundo, e se envolver em negócios do mundo, ... e, não obstante, ser no íntimo estranhos ao mundo...; em uma palavra: não ser homens, mas, anjos? Com efeito, se assim não fossem, nem merecem o nome de comandantes, nem permita o Senhor que saiam de suas celas. Fariam mais mal do que bem. Não é tempo agora de se verem imperfeições nos que devem ensinar.... Não é com o mundo que eles têm que negociar? Estejam certos: o mundo nada lhes perdoa, nem deixa de perceber as menores imperfeições. De muitas obras boas, os mundanos não farão caso e talvez nem as tenham nesta conta.
            Mas faltas ou imperfeições, não há dúvida, nada escapa! Causa-me espanto: quem lhes ensina a perfeição? Não para praticá-la - parece-lhes que disto não têm obrigação e muitos fazem se guardam sofrivelmente os mandamentos - senão para tudo condenar e, por vezes, considerar comodismo o que é virtude. Não penseis, por conseguinte, que seja mister pouco favor de Deus para esses soldados ....precisam de grandíssimo auxílio.
             Peço-vos, por amor de Deus, rogai a Sua Majestade que nos atenda. Eu, embora indigna, peço-o a sua majestade, pois é para sua glória e bem de sua Igreja que estão dirigidos meus desejos.... Se vossas orações e desejos, disciplinas e jejuns não se empregarem no que deixei indicado, ficai certas de que não realizais nem cumpris o fim para o qual o Senhor vos reuniu aqui".
           O que levou esta religiosa, que consagrou à oração décadas de sua vida na cela de um mosteiro, ao desejo apaixonado de fazer algo para a igreja e à lucidez para discernir as necessidades e demandas do seu tempo? Precisamente o fato de que ela vivia em oração e deixou que o Senhor a conduzisse, mais e mais profundamente, em seu "castelo interior" até que encontrasse àquela morada escura onde ele poderia lhe dizer, "que já era tempo de tomar como seus os interesses divinos. Por sua vez, ele cuidaria dos interesses dela.". Foi por isso que ela não pode fazer outra coisa senão "arder de zelo pelo Senhor, o Deus dos exércitos" (zelo zelatus sum pro Domino Deo Exercituum) (palavras de nosso Pai Santo, Elias, que estão presentes como divisas, no brasão de nossa Ordem). O Caminho de perfeição - Essas duas citações são lidas, por nós, todos os anos no mês de setembro. Castelo interior ou Moradas - 7,2,1

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