Total de visualizações de página

Seguidores

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

TEXTO: Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2017.

A Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2017 tem como título “A Palavra é um dom. O outro é um dom”.
Nela, o Santo Padre fala de várias parábolas da Escritura e assinala que “a Quaresma é o tempo favorável para nos renovarmos, encontrando Cristo vivo na sua Palavra, nos Sacramentos e no próximo. O Senhor – que, nos quarenta dias passados no deserto, venceu as ciladas do Tentador – indica-nos o caminho a seguir”.

Confira o texto completo da mensagem:

Amados irmãos e irmãs!
A Quaresma é um novo começo, uma estrada que leva a um destino seguro: a Páscoa de Ressurreição, a vitória de Cristo sobre a morte. E este tempo não cessa de nos dirigir um forte convite à conversão: o cristão é chamado a voltar para Deus «de todo o coração» (Jl 2, 12), não se contentando com uma vida medíocre, mas crescendo na amizade do Senhor. Jesus é o amigo fiel que nunca nos abandona, pois, mesmo quando pecamos, espera pacientemente pelo nosso regresso a Ele e, com esta espera, manifesta a sua vontade de perdão (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).
A Quaresma é o momento favorável para intensificarmos a vida espiritual através dos meios santos que a Igreja nos propõe: o jejum, a oração e a esmola. Na base de tudo isto, porém, está a Palavra de Deus, que somos convidados a ouvir e meditar com maior assiduidade neste tempo. Aqui queria deter-me, em particular, na parábola do homem rico e do pobre Lázaro (cf. Lc 16, 19-31). Deixemo-nos inspirar por esta página tão significativa, que nos dá a chave para compreender como temos de agir para alcançarmos a verdadeira felicidade e a vida eterna, incitando-nos a uma sincera conversão.

1. O outro é um dom
A parábola inicia com a apresentação dos dois personagens principais, mas quem aparece descrito de forma mais detalhada é o pobre: encontra-se numa condição desesperada e sem forças para se solevar, jaz à porta do rico na esperança de comer as migalhas que caem da mesa dele, tem o corpo coberto de chagas, que os cães vêm lamber (cf. vv. 20-21). Enfim, o quadro é sombrio, com o homem degradado e humilhado.
A cena revela-se ainda mais dramática, quando se considera que o pobre se chama Lázaro, um nome muito promissor pois significa, literalmente, «Deus ajuda». Não se trata duma pessoa anónima; antes, tem traços muito concretos e aparece como um indivíduo a quem podemos atribuir uma história pessoal. Enquanto Lázaro é como que invisível para o rico, a nossos olhos aparece como um ser conhecido e quase de família, torna-se um rosto; e, como tal, é um dom, uma riqueza inestimável, um ser querido, amado, recordado por Deus, apesar da sua condição concreta ser a duma escória humana (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).
Lázaro ensina-nos que o outro é um dom. A justa relação com as pessoas consiste em reconhecer, com gratidão, o seu valor. O próprio pobre à porta do rico não é um empecilho fastidioso, mas um apelo a converter-se e mudar de vida. O primeiro convite que nos faz esta parábola é o de abrir a porta do nosso coração ao outro, porque cada pessoa é um dom, seja ela o nosso vizinho ou o pobre desconhecido. A Quaresma é um tempo propício para abrir a porta a cada necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo. Cada um de nós encontra-o no próprio caminho. Cada vida que se cruza connosco é um dom e merece aceitação, respeito, amor. A Palavra de Deus ajuda-nos a abrir os olhos para acolher a vida e amá-la, sobretudo quando é frágil. Mas, para se poder fazer isto, é necessário tomar a sério também aquilo que o Evangelho nos revela a propósito do homem rico.

2. O pecado cega-nos
A parábola põe em evidência, sem piedade, as contradições em que vive o rico (cf. v. 19). Este personagem, ao contrário do pobre Lázaro, não tem um nome, é qualificado apenas como «rico». A sua opulência manifesta-se nas roupas, de um luxo exagerado, que usa. De facto, a púrpura era muito apreciada, mais do que a prata e o ouro, e por isso se reservava para os deuses (cf. Jr 10, 9) e os reis (cf. Jz 8, 26). O linho fino era um linho especial que ajudava a conferir à posição da pessoa um caráter quase sagrado. Assim, a riqueza deste homem é excessiva, inclusive porque exibida habitualmente: «Fazia todos os dias esplêndidos banquetes» (v. 19). Entrevê-se nele, dramaticamente, a corrupção do pecado, que se realiza em três momentos sucessivos: o amor ao dinheiro, a vaidade e a soberba (cf. Homilia na Santa Missa, 20 de setembro de 2013).
O apóstolo Paulo diz que «a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro» (1 Tm 6, 10). Esta é o motivo principal da corrupção e uma fonte de invejas, contendas e suspeitas. O dinheiro pode chegar a dominar-nos até ao ponto de se tornar um ídolo tirânico (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 55). Em vez de instrumento ao nosso dispor para fazer o bem e exercer a solidariedade com os outros, o dinheiro pode-nos subjugar, a nós e ao mundo inteiro, numa lógica egoísta que não deixa espaço ao amor e dificulta a paz.
Depois, a parábola mostra-nos que a ganância do rico fá-lo vaidoso. A sua personalidade vive de aparências, fazendo ver aos outros aquilo que se pode permitir. Mas a aparência serve de máscara para o seu vazio interior. A sua vida está prisioneira da exterioridade, da dimensão mais superficial e efémera da existência (cf. ibid., 62).
O degrau mais baixo desta deterioração moral é a soberba. O homem veste-se como se fosse um rei, simula a posição dum deus, esquecendo-se que é um simples mortal. Para o homem corrompido pelo amor das riquezas, nada mais existe além do próprio eu e, por isso, as pessoas que o rodeiam não caiem sob a alçada do seu olhar. Assim o fruto do apego ao dinheiro é uma espécie de cegueira: o rico não vê o pobre esfomeado, chagado e prostrado na sua humilhação.
Olhando para esta figura, compreende-se por que motivo o Evangelho é tão claro ao condenar o amor ao dinheiro: «Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Mt 6, 24).

3. A Palavra é um dom
O Evangelho do homem rico e do pobre Lázaro ajuda a prepararmo-nos bem para a Páscoa que se aproxima. A liturgia de Quarta-Feira de Cinzas convida-nos a viver uma experiência semelhante à que faz de forma tão dramática o rico. Quando impõe as cinzas sobre a cabeça, o sacerdote repete estas palavras: «Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás de voltar». De facto, tanto o rico como o pobre morrem, e a parte principal da parábola desenrola-se no Além. Dum momento para o outro, os dois personagens descobrem que nós «nada trouxemos ao mundo e nada podemos levar dele» (1 Tm 6, 7).
Também o nosso olhar se abre para o Além, onde o rico tece um longo diálogo com Abraão, a quem trata por «pai» (Lc 16, 24.27), dando mostras de fazer parte do povo de Deus. Este detalhe torna ainda mais contraditória a sua vida, porque até agora nada se disse da sua relação com Deus. Com efeito, na sua vida, não havia lugar para Deus, sendo ele mesmo o seu único deus.
Só no meio dos tormentos do Além é que o rico reconhece Lázaro e queria que o pobre aliviasse os seus sofrimentos com um pouco de água. Os gestos solicitados a Lázaro são semelhantes aos que o rico poderia ter feito, mas nunca fez. Abraão, porém, explica-lhe: «Recebeste os teus bens na vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado» (v. 25). No Além, restabelece-se uma certa equidade, e os males da vida são contrabalançados pelo bem.
Mas a parábola continua, apresentando uma mensagem para todos os cristãos. De facto o rico, que ainda tem irmãos vivos, pede a Abraão que mande Lázaro avisá-los; mas Abraão respondeu: «Têm Moisés e os Profetas; que os oiçam» (v. 29). E, à sucessiva objeção do rico, acrescenta: «Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos» (v. 31).
Deste modo se patenteia o verdadeiro problema do rico: a raiz dos seus males é não dar ouvidos à Palavra de Deus; isto levou-o a deixar de amar a Deus e, consequentemente, a desprezar o próximo. A Palavra de Deus é uma força viva, capaz de suscitar a conversão no coração dos homens e orientar de novo a pessoa para Deus. Fechar o coração ao dom de Deus que fala, tem como consequência fechar o coração ao dom do irmão.
Amados irmãos e irmãs, a Quaresma é o tempo favorável para nos renovarmos, encontrando Cristo vivo na sua Palavra, nos Sacramentos e no próximo. O Senhor – que, nos quarenta dias passados no deserto, venceu as ciladas do Tentador – indica-nos o caminho a seguir. Que o Espírito Santo nos guie na realização dum verdadeiro caminho de conversão, para redescobrirmos o dom da Palavra de Deus, sermos purificados do pecado que nos cega e servirmos Cristo presente nos irmãos necessitados. Encorajo todos os fiéis a expressar esta renovação espiritual, inclusive participando nas Campanhas de Quaresma que muitos organismos eclesiais, em várias partes do mundo, promovem para fazer crescer a cultura do encontro na única família humana. Rezemos uns pelos outros para que, participando na vitória de Cristo, saibamos abrir as nossas portas ao frágil e ao pobre. Então poderemos viver e testemunhar em plenitude a alegria da Páscoa.
Vaticano, 18 de outubro – Festa do Evangelista São Lucas – de 2016.
FRANCISCO

PERNAMBUCO: O Cruzeiro de Poção-03. - Vídeo Dailymotion

PERNAMBUCO: O Cruzeiro de Poção-03. - Vídeo Dailymotion: Imagens do DVD; Cruzeiro de Poção-PE. Trabalho realizado pelo Centro Bíblico Visual da Paróquia Nossa Senhora das Dores de Poção, cidade do Estado de Pernambuco. NOTA: O Cruzeiro de Poção é a maior obra religiosa do Nordeste, com inúmeras imagens de Santos da Igreja Católica e também imagens que contam passagens do novo e do antigo testamento das Sagradas Escrituras. Foi construído por um padre alemão chamado Frei Henrique, a construção iniciou por volta de 1962 e foi toda com recursos trazidos da Alemanha. Frei Henrique faleceu em 1988, mas deixou um grande legado para Poção, para Pernambuco e por que não para o Brasil. Fonte: http://cruzeirodepocao2011.blogspot.com.br Convento do Carmo da Lapa, Rio de Janeiro. 17 de janeiro-2017. DIVULGAÇÃO: www.olharjornalistico.com.br

AO VIVO COM FREI PETRÔNIO: Histórias de caridade.

AO VIVO COM FREI PETRÔNIO: Histórias de caridade.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Marisa Letícia: Seu nome é utopia.

AO VIVO COM FREI PETRÔNIO: Histórias de caridade.

Marisa Letícia: Seu nome é utopia. (*1950- +2017)

Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita e Jornalista.
Convento do Carmo da Lapa, Rio de Janeiro. 4 de feveriro-2017.


A sua história não é apenas de glória e poder
Mas também de morte do seu amado caminhoneiro.
Ela não cruzou os braços e sempre lutou para sobreviver
Fazendo da viuvez uma defesa da vida do seu primeiro filho.
O abraço fraterno nos pobres não era campanha política
Mas uma recordação da sua família de 11 irmãos.


Ela enxugava as lágrimas das crianças não para ficar bonita na foto
Mas para recordar as lágrimas do cansaço aos 9 anos no trabalho diário.
Ela defendia a dignidade das trabalhadoras não para ganhar votos
Mas para recordar que também ela foi operária nos seus 19 anos.
Ela era firme em suas convicções e ideais políticos
Sem jamais perder a ternura da utopia do novo dia.  


Não a conheci pessoalmente
Mas ela conheceu a nós, brasileiros e brasileiras.
Não tive o privilégio em dar um aperto de mão
Mas ela acariciou as mãos calejadas do povo.
Não lutei contra a ditadura Militar e suas mazelas
Mas pelo Brasil ela gritou contra as noites escuras do medo.


Não conheci o poder e seus encantos
Mas ela fez do poder uma nova vida para os pobres.
Não subi na rampa do Planalto
Mas ela ajudou os pobres a subir nas rampas da vida.
Não tenho um presidente na família
Mas ela fez da presidência um novo olhar para os excluídos.


Não fui denunciado ou injuriado
Mas ela viveu de perto as Bem-Aventuranças de Jesus.
Não fui discriminado ou renegado
Mas ela ouviu horrores contra um nordestino e operário.
Não conheci Herodes ou Pôncio Pilatos
Mas ela viu muitos traidores lavar as mãos.


Ela não foi perfeita, santa ou milagrosa
Mas fez das relações humanitárias um grande milagre.
Ela não foi uma luz ou exemplo de perfeição
Mas fez das limitações humanas um caminho de luz.
Ela não foi filha de políticos famosos ou famílias tradicionais
Mas de pequenos agricultores que sonharam com os pés no chão.

Marisa... Seu nome é Brasil, seu nome é utopia.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

A NOIVA CADÁVER: Frei Petrônio.

A NOIVA CADÁVER: Frei Petrônio.

Marisa Letícia, 1950-2017, filha do Brasil

Ex-primeira dama costurou a primeira bandeira do PT, começou a trabalhar aos nove anos e organizou resistência das mulheres durante as grandes greves do ABC.

 “A primeira bandeira do PT fui eu que fiz. Tinha um tecido vermelho, italiano, um recorte, guardado há muito tempo. Costurei a estrela branca e ficou lindo. Minha casa era o centro. Foi assim que começou o PT.” 
Marisa Letícia tinha 29 anos quando costurou uma estrela branca sobre um pano vermelho e concebeu aquela que viria a ser a primeira bandeira do Partido dos Trabalhadores, antes mesmo de sua fundação oficial, em fevereiro de 1980. Pouco depois, em abril, seu marido seria preso pela primeira vez e ficaria detido por 31 dias no DEOPS de São Paulo por exercer o direito à greve e à luta por direitos trabalhistas — quando a regra era o silêncio, a opressão, o arbítrio.
Marisa seguiu costurando e não parou mais: o sonho, a resistência, a família, o futuro. E carimbou sua estrela não apenas no tecido vermelho, mas também na história do Brasil.
Filha de pequenos agricultores de origem italiana estabelecidos num sítio modesto na zona rural de São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo, Marisa foi a décima filha entre as 11 crianças de Regina Rocco Casa e Antônio João Casa. Nasceu numa casa simples, na periferia de São Bernardo, e cresceu vendo o pai e os irmãos carregarem uma charrete com verduras e legumes para vender no mercado. Ainda criança, mudou-se com a família para o centro da cidade. Filha do Brasil, Marisa começou a trabalhar aos 9 anos, como babá. Dos 13 aos 19 foi operária numa fábrica de chocolates. Largou para casar.
Marisa se casou pela primeira vez aos 19 anos, em 1970, com o motorista de caminhão Marcos Cláudio dos Santos. Entre um frete e outro, carregando areia para construção civil, Marcos fazia bico dirigindo o táxi de seu pai nas ruas de São Bernardo. Seis meses após o casamento, foi assassinado num assalto. Marisa estava grávida de quatro meses. Seu primeiro filho recebeu o nome de Marcos Claudio, em homenagem ao pai que jamais conheceu.  
Aos 23 anos, a jovem viúva Marisa trabalhava como inspetora em um colégio estadual quando conheceu o também jovem viúvo Luiz Inácio da Silva, o Lula, então diretor do departamento jurídico do Sindicato dos Metalúrgicos e responsável pelo setor de previdência social. Lula, com 27, tinha perdido a mulher e o filho durante o trabalho de parto dois anos antes. Marisa procurou por ele no sindicato para solicitar um atestado de que precisava para receber a pensão a que tinha direito. Era o final de 1973.
Lula já tinha ouvido falar sobre aquela moça. Sem carro, e sem ônibus que servisse a cidade após as 22 horas, Lula recorria ao táxi de Seu Cândido quando precisava voltar para casa mais tarde. Papo vai, papo vem, Lula soube que o filho de Seu Cândido havia morrido num assalto, naquele mesmo táxi. O taxista falava coisas sobre o neto e sobre a nora, que era viúva como ele, que era muito bonita, coisa e tal. Quando Marisa apareceu em sua sala à procura de um atestado, Lula não imaginava que era a filha de Seu Cândido. Mas bastou que ela respondesse às perguntas do formulário para Lula juntar os pontos. Viúva, marido morto num assalto num táxi, filho com 2 anos... "Você é a nora do Seu Cândido?", ele perguntou. Cinco meses depois, Lula e Marisa estavam casados.
"Eu assumi o Marcos como se fosse meu filho quando casei com a Marisa", disse Lula em entrevista reproduzida no livro "O Filho do Brasil", de Denise Paraná. "Ele tinha três anos, a mesma idade que teria meu primeiro filho, se ele estivesse vivo". Quando nasceu o primeiro filho biológico de Lula e Marisa, Fábio Luís, em 1975, o casal convidou Seu Cândido e a mulher, Dona Marília, para serem padrinhos do menino.
Com Lula, Marisa, que o marido costumava chamar de "Galega", teve mais dois filhos: Sandro Luís, em 1978, e Luís Cláudio, em 1985. A família se completa com a enteada Lurian, de 1974, fruto do namoro de Lula com Mirian Cordeiro, anterior ao casamento com Marisa.
Dona de casa desde o nascimento de Fábio, Marisa foi sempre muito presente na militância do PT e desempenhou papel central na trajetória política do marido. Um ano depois do casamento, Lula assumiu a presidência do sindicato, mergulhando de cabeça na vida política. Durante as grandes greves dos metalúrgicos entre 1978 e 1980, e também nos primeiros anos do PT, transformou sua casa em local de reuniões intensas e frequentes, por vezes diárias, onde foram gestadas algumas das mais importantes estratégias de luta e também os sonhos de um país mais justo e democrático.
Quando Lula foi preso, em abril de 1980, e ficou 31 dias no Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo, o DEOPS, Marisa se engajou na organização do fundo de greve e liderou uma marcha de mulheres que tomou as ruas de São Bernardo em 8 de maio, caminhando na linha de frente de mãos dadas com os filhos. Visitava o marido todos os dias na prisão, e, quando o filho Marcos, aos 10 anos, cismou de não querer mais ir à escola para não ouvir seus colegas o acusarem de ser "filho de bandido", foi obrigada a administrar, sem perder a dureza nem a ternura, os primeiros sintomas da perseguição política que ela e os filhos seriam obrigados a administrar, até hoje.
"Hoje parece loucura. Fizemos uma passeata das mulheres em 1980, quando os dirigentes sindicais estavam presos. Encheu de polícia. Os homens queriam dar apoio, mas dissemos não. Fizemos só com as mulheres, eu de mãos dadas com meus filhos à frente."
Após três campanhas eleitorais frustradas, Lula foi eleito presidente da República em 2002. Marisa virou primeira dama em 1º de janeiro de 2003. Ao longo de oito anos, reformou o Palácio da Alvorada, introduziu as famosas festas juninas da Granja do Torto no calendário oficial de Brasília, e teve atuação discreta, mantendo sob sua responsabilidade a logística da casa, a administração financeira da família, o guarda roupa do marido, o zelo pela privacidade e pela intimidade dos filhos. Esteio e alicerce são duas palavras constantemente utilizadas pela imprensa para se referir a ela.
Lula ainda era presidente da República quando exames revelaram a presença de um aneurisma no cérebro da então primeira dama. Aneurisma é uma deformação que ocorre numa veia ou artéria, causando a dilatação do canal e o afinamento da parede para formar uma espécie de bolha. Na ocasião, foi feita a opção por monitorar o aneurisma, ao mesmo tempo em que se reforçou a necessidade de controlar a pressão sanguínea de Marisa, que foi diagnosticada como hipertensa.  No dia 24 de janeiro, Marisa teve uma crise hipertensiva que provocou o rompimento desse aneurisma, um acidente vascular cerebral. Foi atendida na emergência do Hospital Assunção, em São Bernardo do Campo, e transferida para o Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, onde foi submetida a um procedimento cirúrgico para estancar uma hemorragia.

Marisa Letícia Lula da Silva faleceu aos 66 anos no início da noite do dia 3 de fevereiro de 2017. Marisa virou estrela, uma estrela igual àquela que alinhavou sobre tecido vermelho para criar a primeira bandeira do Partido dos Trabalhadores. Uma estrela que, como a outra, jamais deixará de brilhar. Fonte: http://www.lula.com.br

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Quem é o padre, hoje, segundo Francisco. Discurso do Papa aos bispos italianos cita D. Helder Câmara.

"Em uma visão evangélica, evitem se sobrecarregar em uma pastoral de conservação, que obstaculiza a abertura à perene novidade do Espírito. Mantenham somente o que pode servir para a experiência de fé e de caridade do povo de Deus", afirmou o Papa Francisco ao falar na abertura da Assembleia Geral da Conferência Episcopal Italiana - CEI, no dia de ontem, referindo à gestão econômica dos bens da Igreja.
Citando D. Helder Câmara, o Papa, referindo-se aos padres, já que o tema da assembleia é "A renovação do clero", disse:
"O povo fiel de Deus continua sendo o ventre do qual ele (o padre) é tirado, a família em que está envolvido, a casa à qual é enviado. Essa pertença comum, que brota do Batismo, é a respiração que liberta de uma autorreferencialidade que isola e aprisiona: "Quando teu navio começar a criar raízes na estagnação do cais – recordava Dom Hélder Câmara – faze-te ao largo." Parta! E, acima de tudo, não porque você tem uma missão a cumprir, mas porque, estruturalmente, você é um missionário: no encontro com Jesus, você experimentou a plenitude de vida e, por isso, deseja com todo você mesmo que outros se reconheçam n'Ele e possam conservar a Sua amizade, alimentar-se da Sua palavra e celebrá-Lo na comunidade".
O discurso foi publicado no sítio da Santa Sé, 16-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis a íntegra do discurso.
Boa tarde a todos (…) [O papa saúda em particular os 36 novos bispos italianos, nomeados no último ano.]
Caros irmãos,
O que me deixa particularmente contente ao abrir com vocês esta Assembleia é o tema que vocês colocaram como fio condutor dos trabalhos – "A renovação do clero" –, na vontade de apoiar a formação ao longo das diversas fases da vida.
O Pentecostes recém-celebrado coloca essa meta de vocês na justa luz. O Espírito Santo, de fato, continua sendo o protagonista da história da Igreja: é o Espírito que habita em plenitude na pessoa de Jesus e nos introduz no mistério do Deus vivo; é o Espírito que animou a resposta generosa da Virgem Mãe e dos Santos; é o Espírito que age nos fiéis e nos homens de paz, e suscita a generosa disponibilidade e a alegria evangelizadora de tantos sacerdotes.
Sem o Espírito Santo – sabemos – não existe nenhuma chance de vida boa, nem de reforma. Rezemos e comprometamo-nos a conservar a Sua força, para que "o mundo do nosso tempo possa receber a Boa Nova [...] de ministros do Evangelho cuja vida irradie fervor" (Paulo VI, exortação apostólica Evangelii nuntiandi, n. 80).
Nesta tarde, não quero lhes oferecer uma reflexão sistemática sobre a figura do sacerdote. Tentemos, em vez disso, inverter a perspectiva e nos colocar em escuta, em contemplação. Aproximemo-nos, quase na ponta dos pés, de algum dos tantos párocos que se consomem nas nossas comunidades; deixemos que o rosto de um deles passe na frente dos olhos do nosso coração e perguntemos com simplicidade: o que torna a sua vida saborosa? Por quem e por que coisa ele empenha o seu serviço? Qual é a razão última da sua doação?
Espero que essas perguntas possam repousar dentro de vocês no silêncio, na oração tranquila, no diálogo franco e fraterno: as respostas que florescerem os ajudarão a identificar também as propostas formativas para se investir com coragem.
1. O que, portanto, dá sabor à vida "nosso" presbítero? O contexto cultural é muito diferente daquele em que ele deu os seus primeiros passos no ministério. Também na Itália, muitas tradições, hábitos e visões de vida foram afetadas por uma profunda mudança de época.
Nós, que muitas vezes nos encontramos deplorando este tempo com tom amargo e acusatório, devemos perceber também a dureza dele: no nosso ministério, quantas pessoas encontramos que estão ansiosas pela falta de referência para se olhar! Quantas relações feridas! Em um mundo em que cada um se pensa como a medida de tudo, não há mais lugar para o irmão.
Nesse pano de fundo, a vida do nosso presbítero se torna eloquente, por ser diferente, alternativa. Como Moisés, ele é alguém que se aproximou do fogo e deixou que as chamas queimassem as suas ambições de carreira e poder. Ele fez uma fogueira também da tentação de se interpretar como um "devoto", que se refugia em um intimismo religioso que, de espiritual, tem bem pouco.
Está descalço, o nosso padre, em relação com uma terra que ele se obstina a crer e a considerar como santa. Ele não se escandaliza com as fragilidades que abalam a alma humana: consciente de ser, ele mesmo, um paralítico curado, está longe da frieza do rigorista, assim como da superficialidade daqueles que querem se mostrar condescendentes de modo barato. Em vez disso, ele aceita se encarregar do outro, sentindo-se partícipe e responsável pelo seu destino.
Com o óleo de esperança e da consolação, ele se faz próximo de cada um, atento para compartilhar o abandono e o sofrimento. Tendo aceitado não dispor de si mesmo, não tem uma agenda para defender, mas entrega o seu tempo cada manhã ao Senhor para se deixar encontrar pelas pessoas e ir ao seu encontro. Assim, o nosso sacerdote não é um burocrata ou um anônimo funcionário da instituição; não é consagrado a um papel empregatício, nem é movido pelos critérios da eficiência.
Ele sabe que o Amor é tudo. Não busca assegurações terrenas ou títulos honoríficos, que levam a confiar no homem; no ministério, não demanda nada para si que vá além da necessidade real, nem está preocupado em amarrar em si mesmo as pessoas que lhe são confiadas. O seu estilo de vida simples e essencial, sempre disponível, o apresenta credível aos olhos das pessoas e o aproxima dos humildes, em uma caridade pastoral que faz livres e solidários.
Servo da vida, caminha com o coração e o passo dos pobres; é enriquecido pela sua convivência. É um homem de paz e de reconciliação, um sinal e um instrumento da ternura de Deus, atento a difundir o bem com a mesma paixão com que outros cuidam dos seus interesses.
O segredo do nosso presbítero – vocês sabem bem disto! – está naquela sarça ardente que marca a fogo a sua existência, conquista-a e conforma-a à de Jesus Cristo, verdade definitiva da sua vida. É a relação com Ele que o protege, tornando-o estranho à mundanidade espiritual que corrompe, assim como a todo compromisso e mesquinhez. É a amizade com o seu Senhor que o leva a abraçar a realidade cotidiana com a confiança de quem crê que a impossibilidade do homem não permanece assim para Deus.
2. Assim, torna-se mais imediato enfrentar também as outras perguntas a partir das quais começamos. Por quem o nosso presbítero empenha o seu serviço? A pergunta, talvez, deve ser especificada. De fato, antes mesmo de nos interrogarmos sobre os destinatários do seu serviço, devemos reconhecer que o presbítero é tal na medida em que se sente partícipe da Igreja, de uma comunidade concreta com a qual compartilha o caminho.
O povo fiel de Deus continua sendo o ventre do qual ele é tirado, a família em que está envolvido, a casa à qual é enviado. Essa pertença comum, que brota do Batismo, é a respiração que liberta de uma autorreferencialidade que isola e aprisiona: "Quando teu navio começar a criar raízes na estagnação do cais – recordava Dom Helder Câmara – faze-te ao largo." Parta! E, acima de tudo, não porque você tem uma missão a cumprir, mas porque, estruturalmente, você é um missionário: no encontro com Jesus, você experimentou a plenitude de vida e, por isso, deseja com todo você mesmo que outros se reconheçam n'Ele e possam conservar a Sua amizade, alimentar-se da Sua palavra e celebrá-Lo na comunidade.
Aquele que vive pelo Evangelho entra, assim, em uma partilha virtuosa: o pastor é convertido e confirmado pela fé simples do povo santo de Deus, com o qual atua e em cujo coração vive. Essa pertença é o sal da vida do presbítero; ela faz com que o seu traço distintivo seja a comunhão vivida com os leigos em relações que sabem valorizar a participação de cada um.
Neste tempo pobre de amizade social, a nossa primeira tarefa é a de construir comunidade; a atitude à relação, portanto, é um critério decisivo de discernimento vocacional.
Do mesmo modo, para um sacerdote, é vital reencontrar-se no cenáculo do presbitério. Essa experiência – quando não é vivida de maneira ocasional nem por força de uma colaboração instrumental – liberta dos narcisismos e dos ciúmes clericais; faz crescer a estima, o apoio e a benevolência recíproca; favorece uma comunhão não só sacramental ou jurídica, mas fraterna e concreta.
No caminhar juntos como presbíteros, diversos por idade e sensibilidade, expande-se um perfume de profecia que surpreende e fascina. A comunhão é realmente um dos nomes da Misericórdia.
Na reflexão de vocês sobre a renovação do clero, também se enquadra o capítulo que diz respeito à gestão das estruturas e dos bens econômicos: em uma visão evangélica, evitem se sobrecarregar em uma pastoral de conservação, que obstaculiza a abertura à perene novidade do Espírito. Mantenham somente o que pode servir para a experiência de fé e de caridade do povo de Deus.
3. Por fim, perguntamo-nos qual é a razão última da doação do nosso presbítero. Quanta tristeza sofrem aqueles que, na vida, estão sempre um pouco pela metade, com o pé levantado! Calculam, sopesam, não arriscam nada por medo de se perder... São os mais infelizes! O nosso presbítero, em vez disso, com os seus limites, é alguém que se joga até o fim: nas condições concretas em que a vida e o ministério o puseram, ele se oferece com generosidade, com humildade e alegria. Mesmo quando ninguém parece notar. Mesmo quando intui que, humanamente, talvez ninguém vai lhe agradecer o suficiente da sua doação sem medida.
Mas – ele sabe – não poderia fazer de outra forma: ele ama a terra, que reconhece visitada todas as manhãs pela presença de Deus. É um homem da Páscoa, do olhar voltado ao Reino, rumo ao qual ele sente que a história humana caminha, apesar dos atrasos, das obscuridades e das contradições.
O Reino – a visão que Jesus tem do homem – é a sua alegria, o horizonte que lhe permite relativizar o resto, temperar preocupações e ansiedades, permanecer livre das ilusões e do pessimismo; conservar a paz no coração e difundi-la com os seus gestos, as suas palavras, as suas atitudes.
* * *
Eis delineada, caros irmãos, a tríplice pertença que nos constitui: pertença ao Senhor, à Igreja, ao Reino. Esse tesouro em vasos de barro deve ser conservado e promovido! Sintam até o fim essa responsabilidade, encarreguem-se com paciência e disponibilidade de tempo, de mãos e de coração.

Rezo com vocês à Virgem Santa, para que a Sua intercessão os conserve acolhedores e fiéis. Junto com os seus presbíteros, que vocês possam levar a termo a corrida, o serviço que lhes foi confiado e com o qual vocês participam do mistério da Mãe Igreja. Obrigado. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

“Muitos se tornam padres para ter um nível de vida melhor, dignidade ou categoria”, constata teólogo.

"Será que ainda não chegou a hora de modificar a atual legislação canônica, para recuperar as surpreendentes intuições organizativas que a Igreja viveu nas suas origens?", pergunta José María Castillo, teólogo espanhol, em artigo publicado por Religión Digital, 29-01-2017. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.
Do jeito que as coisas aconteceram, no momento em que vivemos, o futuro da Igreja dá o que pensar. Porque dá a impressão de que a Igreja, assim como está organizada e como funciona, tem cada dia menos presença na sociedade, menos influxo na vida das pessoas e, portanto, um futuro bastante problemático e muito incerto.
Cada dia há menos sacerdotes, cada semana ficamos sabendo de conventos que fecharam para se transformarem em hotéis, residências ou monumentos meio arruinados. A progressiva diminuição nas práticas sacramentais é alarmante. Mais da metade das paróquias católicas de todo o mundo não tem pároco ou o tem apenas nominalmente, mas não de fato.
Há poucos dias, o Papa Francisco dizia em uma entrevista: “O clericalismo é o pior mal que a Igreja pode ter, quando o pastor se torna um funcionário”. E é verdade que há padres que entraram no seminário ou foram a um convento, porque não queriam passar a vida como uns “Zé Ninguém” que não têm nenhuma importância na vida. Isto acontece mais do que imaginamos.
Mas, embora se trate de pessoas generosas e decentes, como não vão acabar sendo meros “funcionários” indivíduos que, para cumprir com suas obrigações, têm que ir de um lado para o outro, sempre com pressa, sem poder atender de maneira tranquila a ninguém? E conste que me limito a recordar apenas esta causa de que na Igreja haja tantos “clérigos funcionários”.
Não quero entrar na raiz profunda do problema, que não é outra senão a quantidade de indivíduos que se fazem padres porque, no fundo, o que querem é ter um nível de vida, uma dignidade ou uma categoria que não correspondem nem com o projeto de vida que nos é apresentado pelo Evangelho, nem com o que deles espera e necessita a Igreja.

Além disso – e isto é o mais importante –, é a Igreja uma mera empresa de “serviços religiosos”? Como pode a Igreja ser isso se pretende manter viva a memória de Jesus de Nazaré, que foi assassinado pelos homens do sacerdócio e do Templo, os mais estritos representantes dos “serviços religiosos”?
Já sei que estas perguntas nos trazem um problema que a teologia cristã não resolveu. Mas, há coisas que a Igreja tinha muito claro, em tempos já muito distantes, e que hoje seria muito bom recuperar. Refiro-me concretamente a dois assuntos capitais: a “vocação” ao ministério pastoral e a “perpetuidade” deste ministério.
A vocação. Entende-se por “vocação” um “chamamento”, um chamado. Por isso dizemos que vai ao seminário ou entra no noviciado quem se sente “chamado” para isso. Mas, chamado por quem? Há séculos se vem dizendo que o bispo “ordena sacerdote” a quem é “chamado por Deus”. Mas é claro que ocorreria a qualquer um perguntar: e por que será que agora ocorre a Deus chamar menos pessoas precisamente nos países mais necessitados de bons párocos, teólogos, etc.? Não. Hoje, não há quem acredite no fato de que a vocação é um chamado de Deus. Então...?
O melhor historiador da teologia da Igreja, Yves Congar, publicou em 1966 um memorável estudo (Rev. Sc. Phil. y Théol. 50, 169-197) documentado até o último detalhe, no qual ficou demonstrado que a Igreja, desde as suas origens até o século XIII, não ordenava (sacerdote ou bispo) quem queria ser ordenado e alcançar a dignidade que isso levava consigo, mas a quem não queria.
A vocação não era vista como um chamamento de Deus, mas da comunidade cristã, que escolhia e nomeava a quem a assembleia considerava o mais capacitado para o cargo. É o que se vinha fazendo nas primeiras “igrejas” já desde a missão de Paulo e Barnabé, que designavam “votando com a mão levantada” ("cheirotonésantes") (At 14, 23) os ministros de cada comunidade.
Será que ainda não chegou a hora de modificar a atual legislação canônica, para recuperar as surpreendentes intuições organizativas que a Igreja viveu nas suas origens?
A perpetuidade. Desde a Idade Média tardia vem se repetindo na teologia que o sacramento da ordem “imprime caráter”, um “sinal espiritual e indelével”, que marca o sujeito para sempre (Trento, ses. VII, cânon 9. DH 1609). O concílio quis, neste caso, definir uma “doutrina ou dogma de fé”. Porque o tema do “caráter” foi introduzido na teologia pelos escolásticos do século XII. E, em definitiva, a única coisa que se via como certa é que há três sacramentos – batismo, confirmação e ordem –, que só podem ser administrados uma vez na vida, ou seja, são irrepetíveis, como indica o citado cânon de Trento.
O importante aqui é saber que durante o primeiro milênio a Igreja ensinou e praticou de maneira insistente o que repetiram e exigiram os concílios e sínodos de toda a Europa. A saber: os clérigos, inclusive os bispos, que cometiam determinadas faltas ou escândalos (detalhados pelos concílios), eram expulsos do clero, eram privados do ministério, perdiam os poderes conferidos pela ordenação sacerdotal e, em consequência, ficavam reduzidos à condição de leigos.

Este critério se repetiu tantas vezes, durante mais de 10 séculos, que a Igreja se comportava, naqueles tempos, como qualquer outra instituição que se propõe ser exemplar. Os responsáveis, que não são exemplares, não são transferidos para outras cidades ou trancados em um convento. Eram postos com os pés na rua. E que se busquem a vida, como qualquer outro funcionário, que não cumpre com suas obrigações.
Se a Igreja quer realmente acabar com os clérigos funcionários e com os clérigos escandalosos não pode depender dos juízes e tribunais civis. A própria Igreja deve tirar a chamada “dignidade sacerdotal” aos “inescrupulosos”, aos “espertinhos”, aos “aproveitadores”, que se servem da fé em Deus, da memória de Jesus e de seu Evangelho, para desfrutar de um respeito ou de uma dignidade que, na realidade, não tem nem merecem. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Padre Paulo: papados conservadores “destruíram Igreja inserida na vida dos pobres” no Brasil e AL

Padre Paulo Sérgio Bezerra não cede um milímetro sequer no seguimento dos ensinamentos da Igreja à luz do Evangelho e da renovação do Concílio Vaticano II, como um dos protagonistas da Teologia da Libertação na periferia de São Paulo. Padre desde 1980, há 34 anos está na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, na Diocese de São Miguel Paulista, em Itaquera, bairro pobre da zona leste da cidade.
O sacerdote, de 63 anos, foi formado pela escola do cardeal dom Paulo Evaristo Arns, falecido em dezembro de 2016 e dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo da região Leste II da cidade de São Paulo e hoje emérito da diocese de Blumenau (SC), aos 84 anos. Isso anos antes que João Paulo II dividisse a Arquidiocese em 1989, numa articulação para esvaziar a liderança de dom Paulo e nomear bispos conservadores para as novas dioceses, que trataram de demolir toda a construção da “Igreja rumo à periferia” na antevisão de dom Paulo, agora retomada pelo Papa Francisco, que tem convocado os católicos para novamente partirem “às periferias existenciais” de uma “Igreja em saída”. A entrevista é de Mauro Lopes, publicada no blog Caminho pra Casa, 21-01-2017.
A matriz e as capelas das sete comunidades da paróquia estão sempre cheias, quase duas mil pessoas frequentam as celebrações e participam da vida da Igreja local. Acorrem às missas presididas por padre Paulo gente de toda a cidade, em busca de uma liturgia que fuja ao rigorismo dos tradicionalistas ou ao estilo neopentecostal dos carismáticos. “Aqui não tem ‘milagres’ nem se fala em línguas”, diz ele, desolado com o ambiente da Igreja em boa parte da cidade: “A questão para os padres hoje, em larga escala, é indumentária. Tem padre que usa barrete, solidéu preto, é um fetiche indumentário que sequer é propriamente uma teologia tradicionalista, conservadora, apesar de serem conservadores, reacionários”. Ele não desanima, está empolgado com a primavera da Igreja promovida por Francisco: “Quando em 2013 aquele homem curvou-se para a multidão no dia do anúncio de seu nome, na praça São Pedro, nem precisei ir ao Google pra saber quem era; entendi que havia chegado um novo tempo”.
Um tempo novo que se abre depois da terra arrasada. Para ele, a ofensiva conservadora de 35 anos dos papados de João Paulo II e Bento XVI quase liquidou com a Igreja na América Latina e no Brasil, com a perseguição aos leigos, leigas, padres, freiras, teólogos, teólogas e até bispos vinculados à Igreja dos pobres, à Teologia da Libertação e, sobretudo, às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs): “Eles destruíram com a Igreja organizada em comunidades, pequenos círculos, inserida na vida das famílias pobres ao redor do país e da região”.
Entre outubro e novembro de 2016, padre Paulo sofreu uma campanha agressiva promovida por blogs católicos ultraconservadores. Motivo: ter recebido em celebrações na Igreja, durante a novena de Nossa Senhora do Carmo, pessoas como o deputado Chico Alencar (PSOL), Guilherme Boulos, líder nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), a filósofa Marilena Chauí e, sobretudo, a drag queen Albert Roggenbuck (Dindry Buck). No caso da de Buck, os rigoristas deixaram de informar que a jovem é catequista em outra paróquia da região. Os integristas moveram intensa campanha de ódio contra o padre nas redes sociais, incentivaram um abaixo assinado pela remoção dele e mantiveram uma reunião constrangedora e inquisitorial com o bispo, dom Manuel Parrado Carral. Não deu em nada. “No abaixo assinado deles tinha até gente do Acre, no norte do país, mas aqui na paróquia pouquíssimas pessoas deram bola para isso”, afirmou padre Paulo. Em reportagem da TVCarta sobre as ações da paróquia, padre Paulo questionou: “Porque o Alckmin, por exemplo, chega e fala na basílica nacional (de Aparecida) e ninguém questiona?”.
Ele concedeu entrevista ao blog Caminho pra Casa em duas rodadas de conversas, entre 12 e 16 de janeiro – todas as observações entre colchetes são intervenções do autor deste blog.
Eis a entrevista.

As celebrações na paróquia Nossa Senhora do Carmo estão sempre cheias e a mobilização da comunidade é sempre muito forte. O que acontece aqui?
Bem, talvez seja melhor dizer o que não acontece aqui. Aqui não tem ‘milagres’ nem se fala em línguas (risos). Há mais de 30 anos o que fazemos aqui é manter a linha do Vaticano II. Seis anos depois de minha ordenação decidi fazer pós-graduação em Liturgia e sempre procurei inspirar-me na renovação do Concílio que pretendeu uma caminhada litúrgica dinâmica, com o povo. Ao longo dos anos houve um enrijecimento litúrgico notável, que negou em boa medida o espírito do Vaticano II, ao lado do surgimento da onda de padres cantores e celebrações com acento neopentecostal, mas buscamos nos manter fiéis e eu tentei manter-me amparado no ensinamento de dom Paulo (Evaristo Arns) e dom Angélico (Sândalo Bernardino). Para eles, como filhos diretos do Vaticano II, a Liturgia deveria refletir e ser concretização de uma vida pastoral de compromisso com os pobres. Não se sacralizavam as normas litúrgicas, mas elas eram adaptadas à vida da Igreja como Povo de Deus. Com os anos a liturgia virou uma “vaca sagrada”; ninguém toca. E não tem mais vida, não pulsa.

É mesmo impressionante o que aconteceu. Onde estão os profetas da Igreja?
Há muitos profetas ainda, mas o fato é que em largas fatias do clero há três palavras que são imperativas: dinheiro, dinheiro, dinheiro. A questão para os padres hoje, em larga escala, é indumentária. Tem padre que usa barrete, solidéu preto, é um fetiche indumentário que sequer é propriamente uma teologia tradicionalista, conservadora, apesar de serem conservadores, reacionários.

Vocês viveram uma experiência muito forte em São Paulo e especialmente nas periferias e aqui na Zona Leste sob a liderança de dom Paulo Evaristo Arns, dom Angélico Sândalo Bernardino e todo o processo efervescente da Teologia da Libertação, mesmo debaixo da ditadura no Brasil. Como foi viver este tempo?
Com a Teologia da Libertação houve o início de um processo de unir o culto (liturgia) à vida cotidiana; antes disso, até os anos 70, a religiosidade popular era vivida apenas na base de devoções de origem medieval, medieval, portuguesa, europeia: reza do terço, coroações de Nossa Senhora – o que, por incrível que pareça, voltou com força nos últimos anos com terço dos homens, cerco de Jericó, bênçãos do Santíssimo, que derruba as pessoas em transe… é o devocionário novo-velho.
Mas o intervalo da Teologia da Libertação foi um tempo muito intenso, começando pelos círculos bíblicos: o povo se apropriou da Bíblia, que era proibida às pessoas comuns! Experimentamos o aprendizado com as equipes do Marins [o padre José Marins foi e é um dos maiores animadores das CEBs no Brasil e no mundo – leia aqui uma entrevista excepcional dele ao padre Luis Miguel Modino, publicada em 08 de janeiro no site Religion Digital e, a seguir, em português, no IHU, que você pode ler aqui].
Ao mesmo tempo, tivemos um período de formação pastoral muito relevante do clero a partir das linhas mestras do Vaticano II, à luz das Conferências Episcopais Latino Americanas de Medellín e Puebla. Um tempo de grande coesão entre a Igreja institucional e o povo. Éramos todos agentes pastorais, povo de Deus, sem essa coisa terrível e medíocre de clero e clientela, que voltou com a restauração conservadora.

Como foi o processo de restauração na região?
Isso aqui era uma maravilha, a Igreja viva dos primeiros tempos, com dom Paulo e dom Angélico exercendo uma liderança verdadeiramente profética, formando os padres, as freiras, os leigos e as leigas. A presença das freiras, as irmãs inseridas, tinha uma relevância enorme – as mulheres foram líderes no processo de ir às periferias no início dos anos 1980. Mas a maré conservadora do Vaticano chegou. Em 1989 houve a divisão da Arquidiocese para enfraquecer dom Paulo e o bispo que foi nomeado pelo Papa João Paulo II, como primeiro bispo diocesano da nova Diocese de São Miguel Paulista, clericalizou tudo e engessou a liturgia e terminou com a pastoral de conjunto. Com o tempo, foram liquidadas todas as pastorais: Pastoral da Juventude, Pastoral Operária, e total desinteresse pelos movimentos sociais…; foram desarticulados e esvaziados os conselhos paroquiais da então região episcopal, que eram uma experiência fantástica de colegialidade na Igreja entendida como Povo de Deus, como o Papa Francisco retoma agora. A estrutura eclesial na região, que se assentava sobre as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) tornou-se paroquial, clerical. O desrespeito com o povo e a autodoação das pessoas ao projeto do Reino pode ser exemplificado com a fofoca, por sinal um tema recorrente do Papa [veja aqui] que, entre outros, teve também as freiras como alvo: elas eram chamadas pelos restauradores de “irmãs enxeridas”, em vez de inseridas, de maneira insistente, desrespeitosa.
A esse processo local correspondeu um movimento retrógrado em âmbito nacional, não foi?
Sim, foi terrível. Foi um processo violento de cima pra baixo, o que aconteceu aqui foi reflexo do que aconteceu no mundo todo, especialmente na América Latina e no Brasil. João Paulo II pode ser um santo, mas ele enxergava o mundo como se fosse uma grande Polônia sob o horror comunista. Há nuances no pensamento dele, algumas concessões à doutrina social da Igreja, mas ele via comunismo em todos os lugares e governou a Igreja em aliança com Margareth Tatcher e sobretudo Ronald Reagan. Houve uma clara articulação entre o Vaticano e Washington na Europa do leste e em nossa região. Pagamos o altíssimo preço do projeto de Wojtyła de aliança contra o comunismo com os EUA. Começou um processo de nomeação de bispos pelo critério de adesão à disciplina da Cúria romana e não à profecia. O centro desta articulação aqui no Brasil foi a Arquidiocese do Rio, que começou a cooptar bispos do Brasil inteiro para seminários organizados pela Congregação da Doutrina da Fé [sucessora do Santo Ofício] para enquadrar todo mundo – até onde sei o então cardeal Raztinger, então prefeito da Congregação, e que nesta qualidade perseguiu muita gente, esteve no Rio mais de uma vez para esses cursos. Foi uma avalanche: cursos, nomeações, censuras, punições, perseguições…
Começou uma conversa de que a Igreja no Brasil era comunista, que não se rezava, não se ajoelhava nos bancos das catedrais e matrizes e voltamos a ser a Igreja das devoções, como antes do Vaticano II. O discurso era – como ainda escutamos hoje - de volta à tradição da Igreja, mas a verdadeira tradição da Igreja está no primeiro milênio, e não no segundo, como rezam os restauradores. A verdadeira tradição havia sido resgatada no Vaticano II, com a redescoberta dos Padres da Igreja por Ives Congar, Lubac e tantos outros, que foram igualmente perseguidos por décadas antes do concílio.
Recomeçou o tempo triste a que me referi antes, das devoções, do terço, das adorações e da clericalização. Os ministros e agentes de pastoral foram afastados ou se afastaram; resistir foi muito duro. Começou o processo de liquidação, esvaziamento ou domesticação dos conselhos diocesanos e paroquiais em todo o Brasil.
Um processo doloroso…
Sim. Eles destruíram com a Igreja organizada em comunidades, pequenos círculos, inserida na vida das famílias pobres ao redor do país e da região. Os seminários foram se transformando em verdadeiros “centros de formação profissional”, e o sonho dos jovens passou a ser o de fazerem carreira para bispos, e não de tornarem-se profetas, com exceção dos centros de algumas poucas dioceses e de algumas ordens e congregações.
As Bem Aventuranças deixaram de ser a Lei Magna da Igreja – este lugar passou a ser ocupado pelo Código de Direito Canônico. Alguém me disse que um bispo, hoje emérito, afirmou num retiro de seminaristas, aos jovens, que a Igreja é a hierarquia, que a Igreja é Pedro, sobre quem repousa a tradição: o papa, cardeais, padres e diáconos. “O povo é lama”, disse ele. Isso entra em confronto direto com o pensamento original do cristianismo e o Vaticano II, que definiu a Igreja como Povo de Deus.

E agora, com Francisco?
É até difícil de dizer. O Papa está séculos à frente dessa mentalidade. As pessoas ainda têm muito medo, tudo é dito pelos cantos, a conspiração contra ele é brutal, e agora está se tornando pública. É um ressurgimento ainda frágil, que demanda novos caminhos e novos protagonistas; nós, da Teologia da Libertação, estamos todos de cabelos brancos, muitos morreram. Precisamos confiar no sopro do Espírito e dar tempo para que este processo de abertura de portas e janelas dê frutos.
Muitos morreram, às vezes no ostracismo ou abandonados ou sob a indiferença da hierarquia, como dom Oscar Romero. Mas é uma enorme alegria poder ver Leonardo Boff, Gustavo Gutierrez Jon Sobrino e tanto outros sendo redimidos em vida, depois de tudo o que sofreram injustamente.

Estamos começando a sair de uma situação difícil, muito difícil. Como superar esses anos de fechamento e esclerose? Como enfrentar a Teologia da Prosperidade que se tornou como uma praga dentro da Igreja, seduzindo fiéis, padres, bispos, tanto teologicamente como pessoalmente?
Sim, a prosperidade financeira tornou-se “projeto de vida”. É uma virada enorme a ser feita. Comblin perguntava: quem na Igreja realizará a missão continental? Dom Angélico disse-me mais de uma vez, depois de tantos livros publicados sobre o Papa Francisco: “é preciso parar com essa coisa de escreve livros e passar à pratica pastoral que ele aponta para a Igreja.

Isto ficou claro desde o começo, não?
Sim. Quando em 2013 aquele homem curvou-se para a multidão no dia do anúncio de seu nome, na Praça São Pedro, nem precisei ir ao Google pra saber quem era; entendi que havia chegado um novo tempo.
Está tudo na Evangelii Gaudium! [a Exortação Apostólica de Francisco, A Alegria do Evangelho, sobre o anúncio do Evangelho – a íntegra aqui]
Ela foi lançada em novembro de 2013 e será que os cardeais rebelados não leram? Tenho certeza que sim, mas esperaram o momento para atacar, que é o que vemos hoje.
A Igreja do Vaticano II, a Igreja das primeiras comunidades, está tudo lá na Evangelii Gaudium. Com ela, Francisco liquidou todo o edifício hierárquico de fundo monárquico que foi construído nesses anos todos. Olha! [Pega um exemplar da carta apostólica e indica] O Papa fala nos novos caminhos logo no tópico 1, anuncia um novo desenho de Igreja, a partir dos processos e de uma amarração de elaboração coletiva… Leia aqui no número 16: “(…) não se deve esperar do magistério papal uma palavra definitiva ou completa sobre todas as questões que dizem respeito à Igreja e ao mundo”.[1]

Tudo o que a Igreja experimentou no Sínodo da Família e com a Amoris Laetitia estava indicado desde a Evangelii Gaudium. É a Igreja das autonomias, dos processos, não mais das decisões monárquicas; por isso os que estavam no poder estão reagindo desse jeito brutal. Eles querem manter o poder!
O cenário é muito tenso. Há muita gente na estrutura da Igreja rezando por uma morte rápida de Francisco. Mas precisamos ter coragem de mudar. Os planos pastorais, que hoje são verticais e inspirados nos planos das empresas, precisam ser refeitos todos, com a participação e decisão do povo. Houve um tempo, o da Teologia da Libertação, em que a liderança da vida da Igreja estava com o episcopado profético; depois foi esse desastre; o futuro está nas mãos dos leigos.
Há muito trabalho pela frente.
Com Francisco, a Igreja, que se tornou nos últimos 35 anos totalmente irrelevante, domesticada volta a cumprir sua missão: ser luz do mundo, incomodar, ser profética. Precisamos ser esta luz não apenas em Roma, mas em todos os cantos.

O que está acontecendo na paróquia em que o senhor atua?
Bem, tentamos manter uma pequena chama acesa esses anos todos. Há sinais aqui e ali, parece que a Igreja começa, lentamente, a acordar da anestesia, em meio aos conflitos internos brutais.
Buscamos ter um governo da Igreja partilhado com todos, dentro de nossas fragilidades.
Um aspecto importante de nossa dinâmica, além do cotidiano de viver e compartilhar com as pessoas é a celebração anual de Nossa Senhora do Carmo, nossa padroeira. Desde 2006 tornamos a novena preparatória da festa como espaço privilegiado de reflexão; em cada ano foi um tema: democracia, meio ambiente, mulheres, saúde… É um período de distribuição de documentos, cartas e da encíclica Laudato Sii sobre o planeta. Convidamos pessoas que refletem sobre essas questões para partilhar com nossa comunidade, aqui estiveram nesses anos todos gente como Vladimir Safatle, Marilena Chauí, Guilherme Boulos, o padre Luiz Lima, Chico Alencar, Marcelo Barros, Boff…
A partir de 2015 mudamos a novena para um ciclo em sete domingos, um septenário, que permite uma reflexão mais aprofundada e é mais adaptado à esse ritmo frenético da vida das pessoas.
O senhor é alvo de uma perseguição constante de grupos católicos ultraconservadores, que foram até pedir sua remoção ao bispo.
Sim. Essa história foi quando trouxemos a drag queen Dindry Buck [Alberto Roggenbuck] para dar testemunho, como católica e drag, sobre as provocações que a vida lhe traz e como vive a sua fé. Ela sequer estava caracterizada assim durante a celebração. Por sinal, o que os conservadores não dizem é que ela é catequista numa paróquia vizinha. Fizeram um escarcéu porque ela falou na missa, levantou o cálice durante a consagração e ajudou na distribuição da eucaristia. Quando veio a Marilena Chauí fizeram um escândalo porque ela teria comungado da “hóstia do padre”. Mas isso só revela ignorância litúrgica, pois a hóstia é da assembleia.
No abaixo assinado deles tinha até gente do Acre, no norte do país, mas aqui na paróquia pouquíssimas pessoas deram bola pra isso.
Eu fico tranquilo, porque sei que não sou o alvo. O alvo verdadeiro é a eclesiologia do Papa Francisco.

Quais as perspectivas em curto prazo?
A comunidade aqui da região fundou em 2010 o IPDM (Igreja Povo de Deus em Movimento), que pretende ser um núcleo de articulação, reflexão e oração em torno da proposta do Papa para a Igreja, numa perspectiva ecumênica. Com isso, começamos a “expandir” as fronteiras da paróquia para dialogarmos com pessoas e movimentos em outros cantos, estabelecer novas pontes. É uma prioridade para mim e muita coisa já está sendo feita.
Além disso, fomos “provocados” pelo Boulos [Guilherme Boulos, líder nacional do MTST]. Em dezembro ele nos convidou para assumirmos a evangelização nas ocupações de sem teto a partir de uma perspectiva também ecumênica. Estamos nos organizando para isso. É um desafio. E pensar que nos anos 80 em todas as ocupações aqui na zona leste (e não só aqui) estavam presentes padres e seminaristas aos montes, era a Igreja “em saída”, “nas periferias existências”, desafio para o qual o Papa Francisco nos re-convoca. É um começar de novo, mas entendendo que vivemos uma época totalmente nova; há ocupações de milhares de pessoas sem moradia em toda a cidade e a Igreja ou inexiste ou tem uma presença tímida, e mesmo essa presença tímida sofre em muitos casos a perseguição dos católicos reacionários. [em 17 de janeiro, dia seguinte à segunda rodada da entrevista, Guilherme Boulos foi preso numa desocupação violenta realizada pela PM no leste de São Paulo e o padre Paulo, ao lado dos padres Júlio Lancelotti, vigário da Pastoral do Povo da Rua, e Tarcísio Mesquita, da Paróquia Nossa Senhora do Bom Parto, também na Zona Leste, acorreram para a delegacia, em solidariedade – e foram todos os três sacerdotes alvos de postagens agressivas e ofensivas dos movimentos católicos integristas nas redes sociais]
Nota:
[1] “Com prazer, aceitei o convite dos Padres sinodais para redigir esta Exortação. Para o efeito, recolho a riqueza dos trabalhos do Sínodo; consultei também várias pessoas e pretendo, além disso, exprimir as preocupações que me movem neste momento concreto da obra evangelizadora da Igreja. Os temas relacionados com a evangelização no mundo atual, que se poderiam desenvolver aqui, são inumeráveis. Mas renunciei a tratar detalhadamente esta multiplicidade de questões que devem ser objeto de estudo e aprofundamento cuidadoso. Penso, aliás, que não se deve esperar do magistério papal uma palavra definitiva ou completa sobre todas as questões que dizem respeito à Igreja e ao mundo. Não convém que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar ‘descentralização’” (16).