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terça-feira, 12 de março de 2013

Essência da Teologia da Libertação foi defendida por Bento XVI. Entrevista com Clodovis Boff

Em maio de 1986, os irmãos Clodovis e Leonardo Boff publicaram uma carta aberta ao cardeal Joseph Ratzinger. O artigo analisava a instrução "Libertatis Conscientia", em que o futuro papa Bento XVI visava corrigir os supostos desvios da Teologia da Libertação na América Latina. Os religiosos brasileiros desaprovavam, com uma ponta de ironia e uma boa dose de audácia, a "linguagem com 30 anos de atraso" no texto.
Em 2007, o irmão mais novo de Leonardo Boff voltou à carga. Mas, dessa vez, o alvo foi a própria Teologia da Libertação - movimento do qual ele foi um dos principais teóricos e que defende a justiça social como compromisso cristão. Ele censurou a instrumentalização da fé pela política e enfureceu velhos colegas ao sugerir que teria sido melhor levar a sério a crítica de Ratzinger.
Em entrevista por telefone, frei Clodovis diz que Bento XVI defendeu o "projeto essencial" da Teologia da Libertação, mas o critica por superdimensionar a força do secularismo no mundo.
 
A entrevista é de Alexandre Gonçalves e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 11-03-2013.
 
Eis a entrevista.
 
Bento XVI foi o grande inimigo da Teologia da Libertação?
 
Isso é uma caricatura. Nos dois documentos que publicou, Ratzinger defendeu o projeto essencial da Teologia da Libertação: compromisso com os pobres como consequência da fé. Ao mesmo tempo, critica a influência marxista. Aliás, é uma das coisas que eu também critico. No documento de 1986, ele aponta a primazia da libertação espiritual, perene, sobre a libertação social, que é histórica. As correntes hegemônicas da Teologia da Libertação preferiram não entender essa distinção. Isso fez com que, muitas vezes, a teologia degenerasse em ideologia.
 
E os processos inquisitoriais contra alguns teólogos?
 
Ele exprimia a essência da igreja, que não pode entrar em negociações quando se trata do núcleo da fé. A igreja não é como a sociedade civil, onde as pessoas podem falar o que bem entendem. Nós estamos vinculados a uma fé. Se alguém professa algo diferente dessa fé, está se autoexcluindo da igreja. Na prática, a igreja não expulsa ninguém. Só declara que alguém se excluiu do corpo dos fiéis porque começou a professar uma fé diferente.
 
Não há margem para a caridade cristã?
 
O amor é lúcido, corrige quando julga necessário. Jon Sobrino diz: "A teologia nasce do pobre". Roma simplesmente responde: "Não, a fé nasce em Cristo e não pode nascer de outro jeito". Assino embaixo.
 
Quando o sr. se tornou crítico à Teologia da Libertação?
 
Desde o início, sempre fui claro sobre a importância de colocar Cristo como o fundamento de toda a teologia. No discurso hegemônico da Teologia da Libertação, no entanto, eu notava que essa fé em Cristo só aparecia em segundo plano. Mas eu reagia de forma condescendente: "Com o tempo, isso vai se acertar". Não se acertou.
 
"Não é a fé que confere um sentido sobrenatural ou divino à luta. É o inverso que ocorre: esse sentido objetivo e intrínseco confere à fé sua força." Ainda acredita nisso?
 
Eu abjuro essa frase boba. Foi minha fase rahneriana. Karl Rahner estava fascinado pelos avanços e valores do mundo moderno e, ao mesmo tempo, via que a modernidade se secularizava cada vez mais.
 
Rahner não podia aceitar a condenação de um mundo que amava e concebeu a teoria do "cristianismo anônimo": qualquer pessoa que lute pela justiça já é um cristão, mesmo sem acreditar explicitamente em Cristo. Os teólogos da libertação costumam cultivar a mesma admiração ingênua pela modernidade.
 
O "cristianismo anônimo" constituía uma ótima desculpa para, deixando de lado Cristo, a oração, os sacramentos e a missão, se dedicar à transformação das estruturas sociais. Com o tempo, vi que ele é insustentável por não ter bases suficientes no Evangelho, na grande tradição e no magistério da igreja.
 
Quando o sr. rompeu com o pensamento de Rahner?
 
Nos anos 70, o cardeal d. Eugênio Sales retirou minha licença para lecionar teologia na PUC do Rio. O teólogo que assessorava o cardeal, d. Karl Joseph Romer, veio conversar comigo: "Clodovis, acho que nisso você está equivocado. Não basta fazer o bem para ser cristão. A confissão da fé é essencial". Ele estava certo.
 
Assumi postura mais crítica e vi que, com o rahnerismo, a igreja se tornava absolutamente irrelevante. E não só ela: o próprio Cristo. Deus não precisaria se revelar em Jesus se quisesse simplesmente salvar o homem pela ética e pelo compromisso social.
 
Bento XVI sepultou os avanços do Concílio Vaticano II?
 
Quem afirma isso acredita que o Concílio Vaticano II criou uma nova igreja e rompeu com 2.000 anos de cristianismo. É um equívoco. O papa João XXIII foi bem claro ao afirmar que o objetivo era, preservando a substância da fé, reapresentá-la sob roupagens mais oportunas para o homem contemporâneo.
 
Bento XVI garantiu a fidelidade ao concílio. Ao mesmo tempo, combateu tentativas de secularizar a igreja, porque uma igreja secularizada é irrelevante para a história e para os homens. Torna-se mais um partido, uma ONG.
 
Mas e a reabilitação da missa em latim? E a tentativa de reabilitação dos tradicionalistas que rejeitaram o Vaticano II?
 
Não podemos esquecer que a condição imposta aos tradicionalistas era exatamente que aceitassem o Vaticano II. O catolicismo é, por natureza, inclusivo. Há espaço para quem gosta de latim, para quem não gosta, para todas as tendências políticas e sociais, desde que não se contraponham à fé da igreja.
 
Quem se opõe a essa abertura manifesta um espírito anticatólico. Vários grupos considerados progressistas caíram nesse sectarismo.
 
Esses grupos não foram exceção. Bento 16 sofreu dura oposição em todo o pontificado.
 
A maioria das críticas internas a ele partiu de setores da igreja que se deixaram colonizar pelo espírito da modernidade hegemônica e que não admitem mais a centralidade de Deus na vida. Erigem a opinião pessoal como critério último de verdade e gostariam de decidir os artigos da fé na base do plebiscito.
Tais críticas só expressam a penetração do secularismo moderno nos espaços institucionais da igreja.
 
Como descreveria a relação de Bento XVI com a modernidade?
 
É possível identificar um certo pessimismo na sua reflexão. Ele não está só. Há um rio de literatura sobre a crise da modernidade, que remete até mesmo a autores como Nietzsche e Freud. O que ele tem de diferente? Propõe uma saída: a abertura ao transcendente.
 
Ainda assim, há pessimismo?.
 
Há algo que ele precisaria corrigir: Bento XVI leva a sério demais o secularismo moderno. É uma tendência dos cristãos europeus. Eles esquecem que o secularismo é uma cultura de minorias. São poderosas, hegemônicas, mas ainda assim minorias.
 
A religião é a opção de 85% da humanidade. Os ateus não passam de 2,5%. Com os agnósticos, não chegam a 15%. Minoria culturalmente importante, sem dúvida: domina o microfone e a caneta, a mídia e a academia. Mas está perdendo o gás. Há um reavivamento do interesse pela espiritualidade entre os jovens.
 
Que outras críticas o sr. faria a Bento XVI?
 
Ele preferiria resolver problemas teológicos a se debruçar sobre questões administrativas na Cúria. E isso gerou diversos constrangimentos no seu pontificado. Ele também não tem o carisma de um João Paulo II. De certa forma, era o esperado em um intelectual como ele.
 
Não está na hora de a igreja ficar mais próxima da realidade dos fiéis?
 
Bento XVI não resolveu um problema que se arrasta desde o Concílio Vaticano II: a necessidade de se criarem canais para a cúpula escutar e dialogar com as bases.
 
Os padres nas paróquias muitas vezes ficam prensados entre a letra fria que vem da cúpula e o cotidiano sofrido dos fiéis, que pode envolver dramas como aborto ou divórcio. Note que não sugiro mudanças no ensinamento da igreja. Mas acho que seria mais fácil para as pessoas viverem a doutrina católica se houvesse processos que facilitassem esse diálogo.
 
Como vê o futuro da igreja?
 
A modernidade não tem mais nada a dizer ao homem pós-moderno. Quais as ideologias que movem o mundo? Marxismo? Socialismo? Liberalismo? Neoliberalismo? Todas perderam credibilidade. Quem tem algo a dizer? As religiões e, sobretudo no Ocidente, a Igreja Católica.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Teu nome é Mulher...

Homenagem ao dia Internacional da Mulher

Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita da Ordem do Carmo, estudante de jornalismo da Fapcom- Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação, São Paulo. www.twitter.com/freipetronio, www.facebook.com/freipetronio2, www.olharjornalistico.com.br

 

 Se tens esposo ou és mãe solteira?
 
Não importa. Teu nome é mulher
 
És médica ou aidética?
 
Não importa. Teu nome é mulher
 
Se a tua mesa é farta ou come do nosso lixo?
 
Não importa.
 
Zilda Arns e Joana D`arc
 
Também foram mulheres.
 
Se tens casa ou mora embaixo do viaduto?  
Não importa. Teu nome é mulher
És política ou presidiária?
Não importa. Teu nome é mulher
Se tens cansaço e sofre discriminação?
Não importa.
Maria Quitéria de Jesus e Anita Garibaldi
Também foram mulheres.
 
Se os teus olhos derramam lagrimas de solidão?
Não importa. Teu nome é mulher
És advogada ou secretária do lar?  
Não importa. Teu nome é mulher.
Se vendes o corpo para sobreviver?
Não importa.
Maria, Mãe de Jesus e Teresa de Calcutá
Também foram mulheres!
 
Se tens coragem ou medo?
Não importa. Teu nome é mulher
És negra e Latino- Americana?
Não importa. Teu nome é mulher
Se sois santa ou pecadora?
Não importa.
Simone de Beauvoir e Rosa de Luxemburgo
Também foram mulheres.
 
 
Se as tuas mãos estão calejadas?
Não importa. Teu nome é mulher
És católica, evangélica, espírita ou ateia?
Não importa. Teu nome é mulher
Se sois lésbica ou travesti?
Não importa.  Indira Gandhi e Olga Benário
Também foram mulheres.
 
Sim, tudo você pode, você faz é você é.
Teu nome é MULHER!.
Parabéns pelo Dia Internacional da Mulher.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Entrevista com Dom Odilo Pedro Scherer.

 “Renúncia foi aula de eclesiologia”. Dom Odilo.
 
Para arcebispo de São Paulo, Bento 16 será lembrado como um dos grandes papas teólogos.
Especial para O SÃO PAULO
 
Por e-mail, diretamente de Roma, o cardeal dom Odilo Pedro Scherer, arcebispo metropolitano de São Paulo, falou com exclusividade sobre suas percepções a respeito dos quase oito anos do pontificado de Bento 16. Dom Odilo, que participará pela primeira vez de um Conclave, também orientou os católicos sobre como viver este tempo tão importante para a vida da Igreja. Veja a íntegra:
 
O SÃO PAULO – O que significou o pontificado de Bento 16 para a Igreja e quais foram suas principais contribuições?
 
Dom Odilo Pedro Scherer – Bento 16 deixa um legado importante para a Igreja e será certamente recordado na história da Igreja como um dos grandes papas teólogos; tanto pelo que escreveu e falou quando já era Sumo Pontífice, quanto pelo que escreveu antes disso. Será recordado também pelo seu esforço em ajudar a Igreja a voltar-se para a essência de sua fé e de sua missão. Mostram isso suas encíclicas sobre a esperança e a caridade, as Exortações Apostólicas sobre a Eucaristia e a Palavra de Deus. Mas será recordado, também, por ter estimulado o clero a buscar a autenticidade na vivência de sua vocação e toda a Igreja, na revalorização de sua fé e no esforço renovado para transmiti-la aos outros. Enfim, a própria renúncia é um gesto que ajudará a Igreja a voltar-se mais para o essencial de sua vida e missão, a partir de um renovado encontro com sua própria razão de ser e existir; um professor de teologia, em Roma, observou: a renúncia foi sua última aula de eclesiologia...
 
O SÃO PAULO – E o que significou a atuação de Bento 16 para a humanidade?
 
Dom Odilo Scherer – Isso ainda será melhor avaliado com o passar do tempo. De toda forma, continuando a tradição de seus predecessores, Bento 16 manifestou-se sobre todos os assuntos e fatos relevantes deste momento da vida e da história humanas. Sua contribuição para a cultura, a filosofia, a busca da verdade e do bem são extraordinárias; como teólogo e humanista tem largos horizontes e teve sua palavra geralmente acolhida com respeito e consideração; estimulou o mundo a pensar e a ir além das superficialidades de uma cultura consumista e imediatista. Sua encíclica social – Caritas in veritate – é uma contribuição importante para o discernimento sério sobre as questões que atualmente afligem a humanidade. Estimulou muito, também, o diálogo entre as religiões e as culturas. Teve sempre a preocupação da justiça, da paz e da solidariedade entre os povos.
 
O SÃO PAULO – Como os católicos devem encarar as críticas e este clima de “denuncismo” que se instaurou na mídia após o anúncio de que o papa iria renunciar?
 
Dom Odilo Scherer – Com muita serenidade e discernimento. É um fato interessante que, de um momento a outro, todos começaram de novo a falar da Igreja, mesmo sem conhecer bem as questões abordadas. Muita matéria produzida foi sensacionalista ou simplesmente marcada pelo preconceito contra a Igreja, sem o interesse de conhecer ou comunicar a verdade. É sempre importante tentar saber de qual púlpito vem o sermão e perguntar se merecem crédito certas afirmações bombásticas, de efeito retórico (ex. “guerra civil no Vaticano”...), que não se sustentam em fatos, mas em suposições e conjecturas que visam jogar no descrédito a Igreja perante o mundo e perante seus próprios fieis. É preciso lembrar que cada um deverá prestar contas a Deus pelas afirmações mentirosas e injuriosas ditas contra o próximo ou também a Igreja. Recomendo que não se dê crédito fácil a certas caricaturas que se fazem da Igreja; quem conhece a Igreja e vive dentro dela sofre com o desprezo à Igreja. Infelizmente, as palavras do próprio Papa, proferidas no anúncio do dia 11 de fevereiro sobre sua renúncia, foram deixadas de lado, como sendo não-verdadeiras, para dar largas a todo tipo de suspeitas, especulações e conjecturas sobre os “reais motivos” da renúncia. Alguém nas condições e na autoridade do Papa deveria merecer mais crédito e respeito.
 
 O SÃO PAULO- O senhor poderia descrever algum episódio mais pessoal de seus contatos com Bento 16?
 
Dom Odilo Scherer – Lembro da vigília na Jornada Mundial da Juventude em Madrid, em julho de 2011. Veio um temporal muito forte durante a fala do papa; o vento balançava até a estrutura do palco, onde estavam o Papa, os bispos e muitas outras pessoas. Mais de um milhão de jovens estavam à frente do papa, apanhando toda aquela chuva. Os seguranças sugeriram várias vezes que ele se retirasse para um lugar mais seguro, mas Bento 16 quis permanecer ali, com os jovens... No final da celebração, parecia que não queria ir embora, preocupado com os jovens... Aproximou-se deles, de maneira muito paternal, e desejou que, apesar de tudo, eles repousassem ao menos um pouquinho... Na manhã seguinte, já debaixo de muito sol, a primeira coisa que fez foi perguntar aos jovens como tinham passado a noite. Achei isso de uma sensibilidade finíssima, que emocionou e cativou o coração dos jovens.
 
O SÃO PAULO - A partir dos momentos reservados que teve com Bento 16, que características o senhor destacaria dele?
 
Dom Odilo Scherer - Um homem sereno, simples, inteligente, atento ao interlocutor, interessado em ouvir, extremamente gentil e fino no trato com as pessoas. Nunca pude ver nele aquele homem “autoritário” ou “duro”, como algumas vezes foi descrito; isso não corresponde à verdade. Quando visitou o Brasil, em 2007, fiquei perto do Papa durante alguns dias, na sua estadia em São Paulo. Eu lia os títulos na imprensa e me perguntava: de qual papa estão falando? Não era do Papa Bento 16, que eu conheço...
 
O SÃO PAULO - Estamos aguardando a escolha do novo Pontífice. A Igreja está “acéfala” até que o próximo papa seja eleito?
 
Dom Odilo Scherer - Não, a Igreja nunca fica acéfala (“sem cabeça”, ou “sem chefe”) durante o período da vacância, porque o verdadeiro chefe da Igreja é Jesus Cristo glorificado, que nunca abandona o seu corpo, a Igreja. Além disso, durante a sede vacante, o Colégio dos Cardeais responde pela Igreja, segundo as competências que lhe são próprias.
 
 O SÃO PAULO - Quais as características que o novo papa deve ter?
 
Dom Odilo Scherer - O escolhido terá as qualidades que tiver, e não podemos idealizar demais. Nenhum papa é igual a outro. Ele deverá ser dócil às inspirações e à ação do Espírito Santo, inteiramente fiel a Cristo e à própria Igreja. Podemos, humanamente, desejar que seja uma pessoa muito capaz, cheia de virtudes, preparada do ponto de vista intelectual e teológico, homem de grande fé e vigor espiritual, capaz de liderança e de comunicação, segundo as condições do nosso tempo. Mas também neste caso, precisamos ter a consciência de que ninguém nasce papa, mas aprende a desempenhar essa árdua missão enquanto a exerce.
 
 O SÃO PAULO– Quais são os principais desafios que o próximo papa vai encontrar?
 
Dom Odilo Scherer - São os desafios de toda a Igreja, que se manifestam em toda parte: a nova evangelização, a transmissão da fé, a perseverança na fé e a operosidade dos filhos da Igreja para a irradiação da luz e da força viva do Evangelho no mundo... Há os desafios internos da renovação constante da Igreja, para que ela viva no compasso do tempo e da cultura, sem deixar de ser ela mesma; há os desafios externos, representados pela cultura do nosso tempo, muitas vezes fechada ao Evangelho, senão, contrária a ele. Há os desafios da presença pública da Igreja no mundo, no contexto da política, da economia, da educação, das relações sociais e internacionais. De fato, o Evangelho não é um bem privado da Igreja, mas uma “luz” para o mundo, que não deve ser ocultada, mas irradiada. Enfim, o desafios podem ser muitos, mas não devemos esperar que eles sejam enfrentados pelo papa sozinho, nem sempre em primeira pessoa. A missão e a responsabilidade pela Igreja são compartilhadas, com o Papa, por todos os bispos em comunhão com ele. E em cada Igreja local, com os bispos, também os sacerdotes e todos os fiéis assumem essa mesma responsabilidade. A Igreja não depende só do papa.
 
 O SÃO PAULO - Qual deve ser a atitude dos católicos neste tempo de espera para a eleição do novo papa?
 
Dom Odilo Scherer - Antes de tudo, uma serena fé e confiança na Igreja e na ação do Espírito de Cristo, que não abandona a Igreja. Talvez foi essa a mensagem mais insistente de Bento 16 nesses últimos dias de seu Pontificado: não estamos sozinhos; o Senhor não abandona a sua Igreja. Portanto, ninguém desanime, nem se deixe levar pelo pânico. Este é um tempo de espera e de serena esperança. A Igreja não conta apenas com as próprias forças e fragilidades. Ela pode continuar a contar com o seu supremo Pastor, que é o próprio Senhor Jesus.
Fonte: O SÃO PAULO, Jornal da Arquidiocese de São Paulo.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 260: Bento XVI, o PT e um osso.

A Igreja sem o Papa. E agora, rezar por quem?

A MENÇÃO DO NOME DO BISPO E DO PAPA NA ORAÇÃO EUCARÍSTICA
 
Cardeal Odilo Pedro Scherer. Arcebispo de São Paulo
 
A menção do nome do Bispo e do Papa na oração eucarística não tem a ver com distinção, mas para evidenciar que a Missa é celebrada em comunhão com os Pastores da Igreja. Por isso, só se menciona o nome daquele que, efetiva e canonicamente, desempenha o cargo de Ordinário tanto na diocese quanto na Sede Apostólica, desde a sua posse canônica até o fim do exercício de seu governo pastoral
Então, por quem se reza quando não se tem um Papa eleito?
Há notícias de celebrantes que, erroneamente, rezam nas preces eucarísticas "pelo Papa que será eleito", "pelo Colégio de Cardeais", pelo "Camerlengo". Apesar de o Missal reformado pelo Concílio Vaticano II não apresentar nenhuma indicação a este respeito, o “Missale
Romanun” (edição típica de 1962), é uma fonte que pode nos orientar: “'Una cum Papa nostro...'1, expressa o nome do Papa, 'mas estando a Sede vacante, estas palavras sejam omitidas'”. Portanto, omita-se tanto a menção do nome do nome Papa quanto o próprio texto da oração a ele referente, passando logo para o Ordinário do lugar, o Bispo.
A regra geral, por conseguinte, é que se omita tudo quanto se refere ao Papa na oração eucarística. A saber, as preces eucarísticas como devem ser rezadas após a renúncia de Bento XVI e o início do Pontificado do novo Papa:
 
Oração eucarística I ou "Cânon Romano"
Nós as oferecemos também [pelo vosso servo o papa N.] por nosso bispo N. e por todos os que guardam a fé que receberam dos apóstolos.
Oração eucarística II
Lembrai-vos, ó Pai, da vossa Igreja que se faz presente pelo mundo inteiro: que ela cresça na caridade [com o papa N.,] com o nosso bispo N. e todos os ministros do vosso povo.
Oração eucarística III
E agora, nós vos suplicamos, ó Pai, que este sacrifício da nossa reconciliação estenda a paz e a salvação ao mundo inteiro. Confirmai na fé e na caridade a vossa Igreja, enquanto caminha neste mundo: [o vosso servo o papa N,] o nosso bispo N. com os bispos do mundo inteiro, o clero e todo o povo que conquistastes.
 
Oração eucarística IV
E agora, ó Pai, lembrai-vos de todos pelos quais vos oferecemos este sacrifício: [o vosso servo o papa N.,] o nosso bispo N., os bispos do mundo inteiro, os presbíteros e todos os ministros, os fiéis que, em torno deste altar, vos oferecem este sacrifício, o povo que vos pertence e todos aqueles que vos procuram de coração sincero.
 
Oração eucarística V
Dai [ao Santo Padre, o Papa N., ser bem firme na fé e na caridade, e] a N., que é bispo desta Igreja, muita luz para guiar o seu rebanho.
 
Oração eucarística VI-A
Renovai, Senhor, à luz do evangelho, a vossa Igreja (que está em N.). Fortalecei o vínculo da unidade entre os fiéis leigos e os pastores do vosso povo, em comunhão com [o nosso papa N.e] o nosso bispo N. e os bispos do mundo inteiro, para que o vosso povo, neste mundo
dilacerado por discórdias, brilhe como sinal profético de unidade e de paz.
Oração eucarística VI-B
 
1 “Ubi dicit: una cum famulo tuo Papa nostro N., exprimit nomen Papae: Sede autem vacante verba praedicta omittuntur” (Missale Romanum, editio tipica 1962, Ritus servandus in celebratione Missae,
VIII, 2).
 
Fortalecei, Senhor, na unidade os convidados a participar da vossa mesa. Em comunhão com [o nosso papa N. e] o nosso bispo N. com todos os bispos, presbíteros, diáconos e com todo o vosso povo, possamos irradiar confiança e alegria e caminhar com fé e esperança pelas estradas da vida.
 
Oração eucarística VI-C
Pela participação neste mistério, ó Pai todo-poderoso, santificai-nos pelo Espírito e concedei que nos tornemos semelhantes à imagem de vosso Filho. Fortalecei-nos na unidade, em comunhão com [o nosso papa N. e] o nosso bispo N., com todos os bispos, presbíteros e diáconos e todo o vosso povo.
 
Oração eucarística VI-D
Senhor Deus, conduzi a vossa Igreja à perfeição na fé e no amor, em comunhão com [o nosso papa N.,] o nosso bispo N., com todos os bispos, presbíteros e diáconos e todo o povo que conquistastes.
 
Oração eucarística VII
Conservai-nos, em comunhão de fé e amor, unidos [ao papa N. e] ao nosso bispo N. Ajudai-nos a trabalhar juntos na construção do vosso reino, até o dia em que, diante de vós, formos santos com os vossos santos, ao lado da virgem Maria e dos apóstolos, com nossos irmãos e irmãs já falecidos que confiamos à vossa misericórdia. Quando fizermos parte da nova criação,
enfim libertada de toda maldade e fraqueza, poderemos cantar a ação de graças de Cristo que
vive para sempre.
 
Oração eucarística VIII
Ele nos conserve em comunhão com [o papa N. e] o nosso bispo N. com todos os bispos e o povo que conquistastes. Fazei de vossa Igreja sinal da unidade entre os seres humanos e instrumento da vossa paz!

Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer: Comunicado.


Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer: Comunicado.
Arcebispo de São Paulo. São Paulo, 25.02.2013
Aos irmãos bispos auxiliares de São Paulo
Aos sacerdotes e diáconos,
religiosas/os, consagradas/os e leigos/as
da Arquidiocese de São Paulo
Caríssimos/as,
 
Antes de partir para Roma, onde participarei da “despedida” do papa Bento XVI e do Conclave, desejo dirigir-lhes ainda uma breve palavra.
Antes de tudo, convido-os a vivermos com intensa fé este momento raro na vida da Igreja. Talvez nem todos vêem e compreendem a Igreja como nós a vemos ecompreendemos, a partir da fé e da estima que nutrimos por ela; por sermos parte
da mesma Igreja, conhecemos que ela é mais do que a soma de todos os membros e organizações visíveis que dela fazem parte.
A Igreja faz parte do “Mistério”, do desígnio salvador de Deus, que se serve da fragilidade humana para vir ao encontro dos homens, mostrar-lhes seu amor e para dar-lhes a plenitude da vida. Na base da Igreja, no seu interior e à frente está sempre a ação providente da Trindade Santa. Portanto, tenhamos coragem e fiquemos firmes na nossa fé, mesmo se as águas onde navega a barca de Pedro ficam agitadas. Lembremos sempre de que Jesus vai conosco na barca!
Convido a rezar intensamente pela Igreja nesses dias, para que ela seja sempre mais fiel a Cristo e à missão recebida; que todos nós, católicos, nos convertamos profundamente à verdadeira fé e à vida cristã autêntica, ouvindo os apelos da Palavra de Deus nesta Quaresma e no Ano da Fé. Rezemos e confiemos n’Aquele que disse: “tende coragem! Eu estarei sempre convosco!”.
Sugiro que, durante o período da “sede vacante”, até que seja eleito o novo Papa, em todas as igrejas da Arquidiocese sejam feitas celebrações e orações especiais pela Igreja, pedindo o aumento de nossa fé; pelo Conclave e pelo que será eleito Papa, para que tenha toda a assistência do Espírito Santo no desempenho de sua árdua missão à frente da Igreja inteira, como Sucessor de Pedro. Poderão ser feitas “horas santas”, adoração ao Santíssimo Sacramento, oração do Rosário e Santas Missas nessas mesmas intenções. Conclamemos o povo à oração neste momento importante da vida da Igreja.
Esclareço que, durante a minha ausência da Arquidiocese de São Paulo, Dom Tarcísio Scaramussa, bispo auxiliar para a Região Sé, responderá pela Arquidiocese na condição de Vigário Geral para toda a Arquidiocese. E o Cônego Antônio Aparecido Pereira é o porta voz da Arquidiocese.
Enfim, respondo a uma pergunta feita por vários sacerdotes: como se deve mencionar o nome do Papa na Oração Eucarística da Missa durante o período da sede vacante? A resposta simples é esta: não se menciona. E nem se substitui pelo “Papa que será eleito”, nem pelo “Cardeal Camerlengo”, nem pelo “Conclave”.
Simplesmente, omite-se a referência ao Papa durante o período da sede vacante. Explicações mais detalhadas sobre o mesmo assunto podem ser lidas a seguir, logo abaixo.
Que o apóstolo São Paulo interceda por nós todos e nos ajude a ser fortes na fé, alegres na esperança e operosos na caridade! Que o exemplo de fé de Nossa
Senhora nos ajude!
Aproveito a ocasião saudar a todos e para lhes desejar todo o bem. Deus abençoe a todos!

Last general audience of Pope Benedict XVI


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Muitos usam cargos na igreja só para obter benesses, diz presidente da CNBB.



FABIANO MAISONNAVE
ENVIADO ESPECIAL A APARECIDA (SP)

Na véspera de embarcar a Roma, o presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e arcebispo de Aparecida, dom Raymundo Damasceno Assis, disse que a renúncia do papa Bento 16 representa um "gesto profético" diante das divisões internas da Igreja Católica provocadas por "carreirismo".
"Cargo na igreja não é honra, não é poder no sentido como entendemos, de opressão às outras pessoas ou de ser favorecido pelo cargo. Nesse sentido, a sua renúncia é um gesto profético", disse à Folha dom Damasceno, 76, um dos cinco cardeais brasileiros que estarão no conclave, a ser realizado logo após a saída de Bento 16, nesta quinta-feira.
Anfitrião do papa durante visita ao Brasil, em 2007, dom Damasceno disse que o principal legado do pontífice alemão será o seu magistério e que, apesar de grande intelectual, deixa uma lição de humildade e simplicidade.
Antes, em missa celebrada às 8h, dom Damasceno havia exortado a uma basílica lotada a pedir a Deus que os cardeais "possam também estar abertos aos sinais dos tempos de hoje" durante o processo de escolha para o novo papa.
O cardeal também falou em entrevista coletiva, quando endossou a recente crítica do papa à "hipocrisia dentro da igreja": "Muitas vezes, você prega, anuncia e nem sempre vive o que está pregando".
Também ali, dom Damasceno admitiu que "há pessoas em que eu penso mais" para o papado, mas que só decidirá o seu voto durante os encontros em Roma: "Ninguém tem uma estrela na testa para ser identificado como o candidato ideal".
A seguir, trechos da entrevista concedida à Folha:
*
Folha - O que significa "sinais dos tempos" para o senhor?

Dom Raymundo Damasceno Assis - Significa mudanças profundas que todos nós experimentamos. Estamos falando hoje de uma mudança de época, e não de uma época de mudanças. Não são mudanças superficiais, mas que atingem a pessoa, os seus valores, o seu modo de viver, o seu estilo de vida, a sua maneira de julgar as coisas e de se relacionar com Deus, com o próximo, com a natureza.
O avanço das comunicações está afetando as pessoas no comportamento, nos valores, nas relações. Basta pensarmos hoje no celular, na internet, em todos esses meios modernos de comunicação, blog, YouTube etc.
Há a crise pela qual a família passa, o modelo de família hoje. São muitas as mudanças que estamos enfrentando, e a igreja tem de estar atenta a isso. São sinais dos tempos que nos falam também e que, portanto, o papa e nós, os bispos, temos de estar atentos para responder pastoralmente.
São muitos os desafios, não podemos desconhecer que a igreja também vive neste mundo, numa realidade histórica, não é só humana e divina. E a missão da igreja é responder a esses desafios com o anúncio do Evangelho. Sem perder a fidelidade do Evangelho, mas tem de atualizá-lo. Como fazer? Com que linguagem? De que maneira? Esses são os grandes desafios que nós temos pela frente.
Qual legado o papa Bento 16 deixará para a igreja?
Ele nos deixa um legado muito rico quanto ao magistério. Grande teólogo, grande pensador, mesmo antes de ser papa, como sacerdote, como professor em uma das principais universidades da Alemanha. Depois, como cardeal em Munique e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, ele publicou muitos textos, muitos livros.
Como papa, infelizmente não deixou as três encíclicas que esperávamos. Deixou uma sobre a caridade, sobre a esperança, mas faltou a encíclica sobre a fé. As homilias, as audiências gerais às quartas-feiras são riquíssimas.
Muitos comparavam o papa Bento 16 aos grandes padres do início da igreja, tamanha a riqueza teológica. Será apreciado ainda mais com o passar do tempo.
O papa Bento 16 é chamado de conservador, mas inovou ao renunciar pela primeira vez em mais de 600 anos. O ato abriu uma discussão sobre os rumos da igreja, como a fala recente de um cardeal escocês a favor do fim do celibato?
Primeiramente, você vê que esse termo conservador/progressista é relativo. Muitas vezes, chama-se um papa de conservador e ele faz inovações extraordinárias.
João 23 (1958-63) era considerado conservador. Ele começou a usar aquela toca que nenhum papa mais usava e estabeleceu o latim para a igreja, para Roma, num sínodo em que ele realizou. E, no entanto, foi ele quem convocou o Concílio Vaticano 2º, que maior repercussão teve na vida da igreja.
O papa Bento 16 realmente inovou nesse sentido. Ninguém esperava essa renúncia. Sabíamos que o papa estava fragilizado fisicamente, faltava força, vigor, como ele disse, do ponto de vista físico e também de espírito.
Isso todo mundo sentia e via pela televisão, mas não se esperava que viria a renunciar. Foi um gesto de humildade, porque reconheceu as suas limitações e não ficou apegado ao poder. Quantos ficam apegados ao poder mesmo estando doente, que não largam de jeito nenhum, que se acham insubstituíveis?
Foi também um gesto de coragem, porque ele tem consciência da repercussão que teria o seu ato. Estamos vendo pelos meios de comunicação o impacto que a renúncia teve em toda a igreja.
E é um sinal profético. Se nós estamos preocupados com poder, com carreirismo na igreja, como ele fez aceno em algumas homilias, que é um dos pecados da igreja, essa busca do poder que cria divisão na igreja, então ele diz: "Eu renuncio, o cargo não é fundamental pra mim, eu cumpri a minha missão até quando eu podia cumprir. O apego ao poder, as honras, a glória do cargo, entrego a quem conduzir melhor a igreja no momento de hoje".
Com a consciência tranquila de quem cumpriu seu dever diante de nós. É um exemplo pra todos. Aqui em Aparecida, o papa nos deu um exemplo de humildade, de simplicidade, até um pouco tímido.
O sr. mencionou o carreirismo. Esse é o grande motivo da divisão interna?
O papa Bento 16 fez uma alusão a isso. Muitas vezes a pessoa está usando o seu cargo não para servir. [Mas] muitas vezes, quem sabe, em busca de benesses, até para se promover mais ainda.
Ele não citou nomes, mas deu a entender que a comunhão é fundamental na igreja, que é fundamental entender na igreja que todo cargo é serviço, serviço à igreja, à comunidade, à sociedade.
Cargo na igreja não é honra, não é poder no sentido como entendemos, de opressão às outras pessoas, ou de ser favorecido pelo cargo. Nesse sentido, a sua renúncia é um gesto profético.
Em 2007, o sr. disse que havia chegado a hora de a América Latina evangelizar a Europa. Essa percepção deveria ser levada em conta na escolha do papa?
Eu digo sempre que o continente não é decisivo, mas a América Latina está contribuindo hoje para a evangelização da Europa, da África, da Ásia. É um fato, é verdade.
Quantos brasileiros hoje, padres, membros de novas comunidades e leigos consagrados estão na Europa no campo da evangelização, da comunicação?
Então a América Latina está contribuindo para a Europa, embora não tanto quanto nós gostaríamos. Mas isso não quer dizer que seja o critério decisivo para a escolha do papa.

Então quais são esses critérios?
Um perfil que atenda às necessidades de hoje da igreja. Isso se faz num processo de discernimento, num clima de oração e reflexão, de partilha de experiências durante o conclave, talvez até antes do conclave, nos contatos entre os cardeais.
É muito difícil antecipar isso, mas, de um modo geral, é uma pessoa de experiência pastoral, de diálogo, que promova o diálogo no mundo de hoje entre os povos, entre as religiões, cristãs e não cristãs, uma pessoa sensível aos problemas sociais. E preparado também do ponto de vista teológico, filosófico, intelectual. É um conjunto de elementos.
Como presidente da CNBB, o que o senhor quer falar ao novo papa?
Os nossos anseios são de uma igreja missionária, dinâmica, uma igreja capaz de renovar-se para cumprir sua missão, que quer justamente estar no estado permanente de missão. Essa missão não é só dos bispos, mas de todo cristão e de todo batizado. Uma igreja solidária com os pobres sobretudo, que esteja a serviço do mundo, e não o mundo a serviço da igreja.