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terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Padre Cícero: o santo dos nordestinos pobres. Entrevista especial com Antônio Mendes da Costa Braga

Antônio Braga é autor do livro Padre Cícero. Sociologia de um padre, antropologia de um santo (Bauru: Edusc, 2008). A obra é fruto da pesquisa que ele realizou para a elaboração de sua tese de doutorado em Antropologia Social, defendida em 2007 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Na entrevista que segue, concedida por e-mail para a IHU On-Line, ele fala sobre o Padre Cícero que “descobriu” em seu trabalho. Para ele, “uma boa questão é procurarmos entender por que alguém como Padre Cícero foi capaz de atrair tantas pessoas pertencentes aos segmentos mais pobres e marginalizados da sociedade em torno de si, ou de que forma ele se converteu num santo para essas pessoas”.
Antônio Braga atribui parte da força de liderança de Padre Cícero à atuação de seus devotos, ou romeiros, como são chamados. E explica: “Eram os próprios romeiros que legitimavam a autoridade religiosa e moral do Padre Cícero. Eram eles os sustentáculos da autoridade política, social e econômica do sacerdote. Se estabeleceu entre Padre Cícero e seus romeiros um vínculo, uma relação de dom e contra-dom que nem a morte do Padrinho Cícero foi capaz de romper”.
Antônio Mendes da Costa Braga possui graduação em Ciências Sociais e mestrado em Sociologia, pela Universidade de São Paulo (USP), e doutorado em Antropologia Social, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em sua tese de doutorado, que virou o livro Padre Cícero: sociologia de um Padre, antropologia de um santo, qual é o padre Cícero que você descreve?
Antônio Braga - Podemos considerar que o livro aborda o Padre Cícero Romão Batista sob duas perspectivas, relacionadas com o título que dei à obra. Na primeira, que corresponde ao primeiro momento do livro, eu procuro compreender quem foi o padre Cícero Romão Batista no contexto cultural, histórico, social e religioso em que se tornou um padre e, depois, uma grande liderança, principalmente religiosa. Procuro fazer ali o que pode ser denominado de análise de trajetória. Procurei demonstrar que Padre Cícero foi, em grande medida, um típico sacerdote formado no século XIX. Diria até que ele foi um caso bem-sucedido de sacerdócio no contexto eclesiástico católico daquele século, e mais ainda no Ceará da segunda metade do século XIX. Era um Ceará que vinha sofrendo uma profunda reforma eclesiástica, a chamada romanização do catolicismo brasileiro. E Padre Cícero foi, no meu entender, e em certa medida, um sacerdote romanizado, um padre que tinha muitas das qualidades que os lÍderes do processo de romanização – membros do episcopado – esperavam de um sacerdote que estava posicionado nas linhas de frente desse empreendimento eclesiástico.

Um sacerdote romanizado em litígio com o poder eclesiástico
É paradoxal que esse Padre Cícero, que aponto como um caso bem-sucedido de sacerdote romanizado, tenha morrido com suas ordens sacerdotais suspensas e em litígio com o poder eclesiástico local. De sacerdote virtuoso ele passou a ser um problema para esse poder, especificamente no Nordeste brasileiro. Então fica a pergunta: como isso é possível?
Defendo, como Ralph Della Cava e alguns outros autores, que a vida de Padre Cícero mudou a partir de um milagre ocorrido em Juazeiro do Norte, no Ceará, em 1889. Foi o chamado Milagre da Hóstia, protagonizado por uma jovem beata, negra e pobre, chamada Maria de Araujo. Padre Cícero fora o coprotagonista desse milagre, que teve profundas consequências para sua vida, a da beata e do próprio Juazeiro. E é a partir deste evento – porque eu o vejo como paradigmático para sua vida - que procuro apresentar, ou melhor, compreender Padre Cícero, analisando o processo que o tornou um dos maiores santos de devoção popular no Brasil. Daí por que falo numa antropologia de um santo. E o caso de Padre Cícero traz muitos privilégios enquanto objeto de estudo. O principal é que ele se tornou um santo para seus devotos não necessariamente através ou a partir dos altares. O processo através do qual ele vai se convertendo em santo para muitos de seus devotos ocorreu principalmente durante sua vida, logo após o milagre. Temos aí a oportunidade de compreender como vai se dando o processo através do qual um indivíduo vai se tornando uma importante liderança, notadamente religiosa, a ponto de, já em vida, ganhar status de santo para muitos. No entanto, é também importante frisar que para os devotos do Padre Cícero – denominados romeiros – ele é, antes de tudo, o “Padrinho Cícero”. Eles não costumam falar em Santo Cícero.

IHU On-Line - Como entender tamanha devoção popular no Brasil por Padre Cícero?
Antônio Braga – Posso apontar alguns aspectos que dão ao caso do Padre Cícero tamanha força e – em certa medida – especificidade. Um deles é o fato de que os seus devotos são como que coprotagonistas de sua história de santidade. São sujeitos e agentes. Sem seus romeiros, Padre Cícero não teria se tornado santo. E sem eles a devoção não teria se mantido nem se desenvolvido após sua morte, em 1934. E essa é uma devoção que passa de mãe para filho, de pai para filho, de avó e avô para netos. E nessa história tem sempre um avô, bisavó, e assim por diante, que conheceu o Padre Cícero em vida, que era romeiro do Padrinho Cícero enquanto ele ainda era vivo. Então, os devotos estão falando e vivenciando uma devoção que também tem relação com suas próprias histórias, com a história de todo um vasto grupo de indivíduos que se encontram em torno da força identitária de serem afilhados do Padrinho Cícero. Agora, como todo o santo que se preze, ele é santo porque – para seus devotos – também faz milagres e intervém junto a Deus. Em suma, como todo santo de devoção popular, ele é uma força atuante, presente na vida daquele que crê e que – em sua perspectiva – se faz presente quando chamado a ajudar.

IHU On-Line - Quais são os principais debates provocados pela figura dele dentro da Igreja Católica e no meio acadêmico brasileiro?
Antônio Braga - No meio acadêmico, Padre Cícero e o fenômeno religioso do Juazeiro já foram objeto de um número respeitável de estudos, muitos de grande qualidade. Agora, dentro da Igreja Católica, em um catolicismo mais oficial e eclesiástico, ele suscita muitas polêmicas. Se bem que é possível perceber que estamos diante de um claro processo de superação de muitas delas. E afirmo isto porque percebo que cada vez mais a devoção ao Padre Cícero é aceita por agentes de um catolicismo mais oficial, por um número cada vez maior de padres e bispos. Talvez de um santo popular outsider, cuja devoção se dava de forma um tanto quanto marginal em relação a um catolicismo mais oficial, o santo Padre Cícero esteja pouco a pouco se aproximando dos cânones através do qual a Igreja Católica reconhece oficialmente seus santos. Pensar num processo de canonização do Padre Cícero tornou-se algo possível.

A questão da obediência
De certa forma, todos os debates em torno do Padre Cícero, dentro da Igreja, tem alguma relação com o problema da obediência. Todos os debates internos e que dizem respeito ao Padre Cícero – Ele era ou não um sacerdote virtuoso? Era ou não um homem santo? Era ou não demasiadamente um homem da política? – tendem e tenderão a serem relativizados quando esta questão da obediência for mais bem compreendida e equacionada. Agora, se tudo isto está acontecendo, é mérito, em uma grande medida, dos devotos do Padre Cícero, de seus romeiros. Foram eles e ainda são, mesmo com todas as objeções e desconfianças em relação a esta sua fé, que mantiveram e mantêm a devoção ao Padre Cícero como um dos maiores e mais relevante casos de devoção popular no Brasil.

IHU On-Line - Quais as características dos romeiros de Padrinho Cícero?
Antônio Braga - Se fôssemos definir a maioria dos romeiros do Padre Cícero em três palavras seria: nordestinos, pobres, perseverantes. Padre Cícero é, dentre outras coisas, um santo dos nordestinos pobres. É impressionante como são muitos, até milhares, o número de nordestinos pertencentes às camadas sociais mais pobres do Nordeste que se identificam com o Padrinho Cícero. Uma boa questão é procurarmos entender por que alguém como Padre Cícero foi capaz de atrair tantas pessoas pertencentes aos segmentos mais pobres e marginalizados da sociedade em torno de si, ou de que forma ele se converteu num santo para essas pessoas.

IHU On-Line - Que elementos fizeram de Pe. Cícero um fenômeno social, político e religioso?
Antônio Braga - Boa parte desses elementos estão dispersos nas várias décadas através das quais Padre Cícero, ainda em vida, foi construindo um determinado tipo de relacionamento com os romeiros. Um relacionamento sustentado numa perspectiva religiosa, mas que abrangia também relações do tipo social, econômica e política. Padre Cícero, por exemplo, exercia uma autoridade religiosa sobre os romeiros. Mas também era um provedor nos casos de necessidades materiais e políticas. Em contrapartida, eram os próprios romeiros que legitimavam a autoridade religiosa e moral do Padre Cícero. Eram eles os sustentáculos da autoridade política, social e econômica do sacerdote. Se estabeleceu entre Padre Cícero e seus romeiros um vínculo, uma relação de dom e contra-dom que nem a morte doPadrinho Cícero foi capaz de romper.

Como o povo aproximou padre Cícero da Igreja

“Valei-me padre Cícero!” Na boca do sertanejo nordestino, a expressão é mais comum do que a prece a qualquer santo oficial da Igreja Católica. Mesmo perseguida e relegada a uma categoria inferior de devoção por muitos anos, a fé no “padim Ciço” segue inabalável no cotidiano dessa gente. Assim, o ‘santo’ que a Igreja não reconhece ser santo vai se tornando cada vez mais ‘santo’. A reportagem e a entrevista é de Emilio Sant’Anna e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 29-06-2008.

Chamado em 2002 para participar de uma comissão de pesquisadores com o objetivo de resgatar a imagem do padre, o antropólogo Antônio Mendes da Costa Braga passou três anos em contato com o cotidiano dos romeiros que todos os anos migram para Juazeiro do Norte, no sertão cearense, para entender o que move a fé daquele povo.
Para eles, a idéia do que é ser santo não é a mesma da Igreja. Isso somado à própria trajetória do padre Cícero Romão Batista e sua santificação extra-oficial pelos devotos geraram anos de marginalização da fé desses romeiros. A pesquisa de Braga virou sua tese de doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), agora transformada no livro Padre Cícero Sociologia de um Padre, Antropologia de um Santo (Edusc, 364 págs, R$ 41).
Nessa entrevista, Braga mostra como as posições tão diferentes entre a fé popular e o reconhecimento da Igreja tendem a se igualar e como o dia em que padre Cícero será considerado oficialmente santo pode estar próximo.

Eis a entrevista.
Hoje, o litígio entre a devoção ao padre Cícero e a Igreja é menor do que já foi?
Claramente, por parte do poder eclesiástico, há um processo de absolvição dessa devoção, a começar pela releitura da figura do padre e da relação da Igreja com essa fé. Mudou substancialmente. É um processo de aproximação.
Essa aproximação pode acabar na canonização do padre Cícero?
Não sei se existe esse objetivo claro. Mas, com o passar do tempo, isso se torna uma possibilidade cada vez mais real. Como antropólogo, percebo que por se tratar de uma das maiores devoções católicas no Brasil, mesmo não sendo um santo oficial, há cada vez mais uma presença da Igreja dentro das romarias, o que não acontecia anos atrás, quando a romaria existia de forma marginal. Antigamente, os bispos do Crato não participavam de nada que era ligado à devoção ao padre.
Há outro exemplo de participação da Igreja numa celebração que não é por ela oficializada?
O caso mais famoso é o do padre Pio, na Itália. A Igreja via com certa desconfiança a devoção ao padre Pio e hoje ele foi canonizado. Então, existem precedentes na história da devoção popular que aos poucos foi se mostrando importante e criando credibilidade.
A Igreja pode desprezar uma devoção como essa?
Se você pensar hoje no contexto brasileiro, não pode se dar ao luxo de desprezar o fiel e essa devoção. Especialmente num momento de reconfiguração do campo religioso brasileiro com o aumento do número de pessoas que não são praticantes de religião e sobretudo o aumento dos evangélicos.
Até que ponto o poder dessa manifestação de fé é capaz de mudar a posição da Igreja?
No livro, eu trabalho a questão do que é ser santo. Do ponto de vista da Igreja oficial há uma valorização de uma certa hagiografia - conjunto de valores, como a história do indivíduo, que justificam sua santidade -, já na devoção popular o ser santo passa pela relação do devoto com o santo. No caso do padre Cícero, essa relação existe há mais de 70 anos e cresce cada vez mais.
A visão do romeiro é completamente diferente da Igreja?
O romeiro não tem dúvidas de que o padre Cícero é santo. Você entende isso no momento em que entende a relação dele com o santo. O santo é aquele que está presente no seu cotidiano, aquele com quem ele pode se relacionar de forma direta. É uma relação pessoal. A força da santidade do padre Cícero está no fato de que ele se faz presente no dia-a-dia do fiel. É diferente da discussão no plano eclesiástico, onde toda a discussão é uma questão de pretérito, de entender o contexto em que ele viveu e como se comportou.
A devoção em padre Cícero deve continuar crescendo?

Acho que tende a se tornar cada vez mais pública. Ainda hoje, existe um certo constrangimento em admitir a devoção, principalmente pela classe média. A tendência é a redução desse estigma. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

A reabilitação do Padre Cícero Romão Batista (1844-1934), o "Padim Ciço"

O bispo da diocese brasileira de Crato, Dom Fernando Panico, divulgou nesse domingo, 13 de dezembro, durante a missa na catedral, que o padre Cícero Romão Batista foi reabilitado pela Santa Sédas sanções impostas pela Igreja Católica de 1892 a 1916.
A nota é de Francesco Gagliano, publicada no blog Il Sismografo, 14-12-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Durante a homilia na catedral de Cariri, Dom Fernando Panico declarou: "Hoje, por ocasião da solene abertura da Porta Santa da Misericórdia, nesta catedral de Nossa Senhora da Penha, quero anunciar com alegria à cara diocese de Crato e aos peregrinos de Juazeiro do Norte, um gesto concreto de misericórdia, de atenção e de afeto do Papa Francisco para nós: a Igreja Católica se reconcilia historicamente com o padre Cícero Romão Batista".
Em uma mensagem assinada pelo cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, enviada aDom Panico, se reconhece que a memória do padreCícero Romão Batista lembra uma obra pastoral que pode ser considerada como um instrumento de evangelização popular.
"É sempre possível, com a distância do tempo e o evoluir das diversas circunstâncias, reavaliar e apreciar as várias dimensões que marcaram a ação do Padre Cícero como sacerdote e, deixando à margem os pontos mais controversos, por em evidência aspectos positivos de sua vida e figura, tal como é atualmente percebida pelos fiéis."
A carta afirma que "é inegável que o padre Cícero Romão Batista, no arco de sua existência, viveu uma fé simples, em sintonia com o seu povo e, por isso mesmo, desde o início, foi compreendido e amado por esse mesmo povo".
O Papa Francisco, como reconheceu o bispo de Crato, apresenta o Padre Cícero como "um exemplo de um sacerdote em uma Igreja 'em saída', aberta aos problemas e aos desafios dos tempos modernos, para uma nova evangelização".
Essa declaração é a meta final de um processo que começou há mais de 15 anos por Joseph Ratzinger, na época prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. A carta na íntegra será publicada no próximo dia 20 de dezembro, como declarou o porta-voz da diocese de Crato.

Padre Cícero Romão Batista
Por Arnaldo Nesti, revista Religioni e Società
Permitam-me chamar a atenção para a figura do padre Cícero Romão Batista (1844-1934), do qual me ocupei casualmente, mas com interesse próprio, nessas semanas, participando de uma das romarias em sua honra, que foi realizada nos primeiros dias de fevereiro, para a Candelária, em Juazeiro do Cariri.
Em poucas palavras, o Padre Cícero nasceu em Crato, no nordeste brasileiro, em 1844, e foi ordenado padre em 1870, depois de ter completado os estudos no seminário de Fortaleza. Ainda hoje é lembrado, no claustro do seminário local, o ano da sua ordenação.
Ele chegou em 1871 em Juazeiro, um vilarejo de Crato, na época, que também é sede episcopal, além de municipal. Em 1889, ao distribuir a Comunhão, uma partícula sangrou na boca de Maria de Araújo. O fato se repetiu. A notícia se espalhou. Começou-se a gritar o milagre.
A reação da Cúria episcopal acabou suspendendo o jovem Padre Cícero a divinis. Em torno do Padre Cícero, criou-se um movimento popular de devota admiração. Em 1898, o Padre Cícero foi convidado a se apresentar ao Santo Ofícioem Roma. Apesar da suspensão temporária da pena, tendo voltado para Juazeiro, a sua pena foi reconfirmada.
O Padre Cícero, enquanto isso, também desempenhou um papel político, pelo desenvolvimento da comunidade deJuazeiro e pela sua autonomia administrativa e econômica, a tal ponto que, em 1913, foi eleito como o primeiro prefeito da nova comunidade que foi se formando, separando-se de Crato.
Nesse meio tempo, ele desempenharia um papel importante em todo o Ceará, enfrentando as dramáticas situações de conflito que, então, se apresentaram por causa das difíceis relações entre Crato e a nova Juazeiro. No coração do Nordeste, a região de Cariri é comparável à do Faroeste, expressão de profundos arcaísmos. Ausência do Estado, banditismo generalizado.
O Padre Cícero tornou-se objeto contínuo de peregrinação. A ele se dirigiam para pedir conselhos, orações, ajuda, cura. O Padre Cícero é pajé e cacique. Para alguns, o Padre Cícero não é nem um santo nem um herói. É um simples, humilde e devoto sacerdote igual a muitos outros do sertão do século XIX, que, por uma série de circunstâncias, transformou-se em uma das figuras mais controversas da história do Brasil.
Defensor involuntário de um milagre, foi denunciado pela Igreja como impostor, e por temerários líderes políticos como perigoso agitador, aclamado pelas massas famintas como santo capaz de libertar os pobres e os enfermos dos seus males.
Por um complexo jogo de fatores, um obscuro sacerdote se vê desempenhando tarefas das mais importantes na vida política do Ceará. Conservador por formação e convicção, sempre agiu como intermediário, visando a garantir o respeito da ordem vigente.
O Padre Cícero acumulou um pequeno patrimônio que deixaria de presente aos salesianos, enquanto, ainda obediente à Igreja, continuava esperando para ser readmitido no exercício do ministério sacerdotal. Para o povo, o Padre Cícero é vítima da injustiça e viveu como símbolo da virtude e da santidade.
Aos 90 anos, quando morreu, a notícia do seu falecimento parece incrível. Mas, ao seu redor, apesar da persistente hostilidade das instituições eclesiásticas, desenvolveu-se um grande movimento popular, a tal ponto que se tende a considerá-lo como um novo Francisco de Assis do Cariri.
A mais de 70 anos da sua morte, constantemente, mas especialmente por ocasião de algumas datas do ano, emJuazeiro, centenas de milhares de peregrinos chegavam em devota peregrinação, por devoção ao Padre Cícero e para manter uma promessa. Vinham, em particular, além do mês de fevereiro, no dia 24 de março, para lembrar a data de nascimento, e no dia 20 de julho, dia da morte.
Muitos chegavam com os pés descalços. Eu também pude me dar conta pessoalmente da maciça participação de multidões devotas. A imagem do Padre Cícero é sinal de proteção. Qual a posição da Igreja hoje? Por ocasião da recente peregrinação, durante a missa vespertina na praça dos peregrinos em frente ao santuário de Nossa Senhora das Dores, na presença do [então] cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Claudio Hummes, foi anunciada a formação de uma comissão para a reabilitação histórica e eclesiástica do Padre Cícero, expressando um sentimento de otimismo, a fim de poder reescrever uma nova história religiosa de Juazeiro e do Padre Cícero.

Os santos do povo: padre Ibiapina, Antonio Conselheiro e Padre Cícero

“Comumente a Igreja situava- se (e em alguns casos ainda se situa) ao lado dos poderosos. Entretanto, sempre houve personagens que se distinguiam: homem e mulheres de Deus que, em geral, não eram muito bem-vindos pelos poderes político-religiosos e que, em alguns casos, acabaram em finais não muito felizes.” escreve o missionário Luis Miguel Modino, em artigo publicado no sítio Religión Digital, 02-01-2014 . A tradução é do Cepat.


Eis o artigo.
O nordeste brasileiro sempre foi uma região de profundos contrastes, onde diferenças sociais foram acirradas ao longo de gerações. Devido às circunstâncias sociopolíticas, construiu-se uma sociedade profundamente desigual, marcada por muito sofrimento às camadas mais pobres.
Comumente a Igreja situava- se (e em alguns casos ainda se situa) ao lado dos poderosos. Entretanto, sempre houve personagens que se distinguiam: homem e mulheres de Deus que, em geral, não eram muito bem-vindos pelos poderes político-religiosos e que, em alguns casos, acabaram em finais não muito felizes. O que também não mudou muito.
Entre eles destacamos Padre Ibiapina, Antonio Conselheiro Padre Cícero (foto),considerados os maiores evangelizadores do sertão, uma grande região semidesértica com mais de um milhão de quilômetros quadrados, com baixos e irregulares índices de pluviosidade que provocam periódicas e prolongadas secas, como a que vem ocorrendo nos últimos quatro anos e que tem, como consequência, os grandes bolsões de pobreza, muito acentuada na época em que eles viveram.
O primeiro, o Padre José Maria Antonio Ibiapina (1806-1883), foi o inspirador de Conselheiro e de Padre Cícero. Trabalhou como magistrado na Câmara dos Deputados, mas aos 47 anos, decepcionado com o sistema social, iniciou uma obra missionária, percorrendo em missões evangelizadoras a região Nordeste do Brasil, construindo inumeráveis obras sociais e defendendo os direitos dos trabalhadores rurais que, em  muitos casos, estavam em condições de escravidão. Tudo isto deixou marcas significativas tanto para a organização eclesiástica superior, como para própria vida nas pequenas comunidades do interior. Com Ibiapina começou-se a vislumbrar a opção pelos pobres pela Igreja católica que, a partir do Vaticano II, concretizou-se na América Latina com a Teologia da Libertação.
O segundo, Antonio Vicente Mendes Maciel, conhecido como Antônio Conselheiro (1830-1897), foi um dos principais líderes sociais brasileiros que, durante décadas, atraiu numerosos seguidores entre a população mais pobre da região nordeste, que lhe deu o nome pelo qual se tornou conhecido. Em sua vida combinava o cristianismo com visões messiânicas, fazendo com que decidisse liderar uma revolta junto ao povo de Canudos, onde havia chegado em 1893, atraindo assim milhares de moradores locais como agricultores pobres, índios e escravos recém-libertos, aos quais prometia uma comunidade igualitária sob o amparo de Deus, seguindo o exemplo dos primeiros cristão, escravos e proletários. Em Canudos, através de uma vida baseada no trabalho comunitário, conseguiu-se que ninguém passasse fome. Foi construída uma comunidade sem classes, com uma economia autossustentável, baseada na solidariedade. A religião converteu-se em um instrumento da libertação social, para a criação de um mundo mais justo.
E por tudo isto provocou a ira da República, apoiada pelas autoridades religiosas, que ordenou ao exército que destruísse a comunidade e que ele fosse retratado como um louco, demente, fanático-religioso e um contrarrevolucionário monárquico perigoso, o que seria usado para justificar a matança de 15.000 pessoas. Este fato histórico inspirou o romance de Mario Vargas Llosa, “A Guerra do Fim do Mundo”. Na época da ditadura brasileira, na segunda metade do século XX, foi construída uma barragem para se tentar, sem sucesso, acabar para sempre com a memória de Canudos.
O terceiro personagem é o Padre Cícero Romão Batista (1844-1934), personagem carismático, de grande poder e influência sobre a vida social, política e religiosa do Nordeste brasileiro. Foi ordenado sacerdote em 1870 e exerceu o ministério na cidade de Juazeiro do Norte, sediará o 13º Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, entre os próximos dias 7 a 11 de janeiro.
O padre Cícero desenvolveu um intenso trabalho pastoral com pregações, conselhos e visitas feitas de casa em casa, como nunca se havia visto na região, ganhando a estima de todos e se tornando um grande líder comunitário. A isto se somou uma grande austeridade no seu modo de vida. Em consequência a tudo isso, pouco a pouco chegaram pessoas que queriam conhecê-lo, especialmente aqueles castigados pelas secas periódicas que, após perderem tudo, eram acolhido por ele com carinho.
Para auxiliá-lo em seu trabalho recrutou mulheres solteiras e viúvas, que organizariam uma irmandade de leigas, conhecidas como as beatas. Estas irmandades, que também foram constituídas por Ibiapina e Conselheiro, eram independentes da hierarquia eclesiástica. Eram baseadas na Regra de São Bento, oração e trabalho, e combatiam as inquietudes sofridas pelos mais pobres, provendo uma sociedade regida pelas regras da fé, esperança e caridade e pelos mandamentos da Lei de Deus, sendo a prática da caridade o seu principal objetivo.
Em 1889 ocorreu o suposto milagre que, ao longo do tempo, se tornou a causa de muito de seus problemas. Ao dar à comunhão a beata Maria de Araujo, a hóstia se transformou em sangue em sua boca, o que se repetiu durante anos em diferentes ocasiões. Rapidamente a notícia se espalhou e a diocese criou uma comissão para examinar o assunto, que determinou que o fato não tinha explicação natural.
Não contente com isto, o bispo nomeou uma nova comissão que concluiu que não houve milagre, dizendo que tudo tratava de mentira. O Padre Cícero foi suspenso das ordens sacerdotais e a beata foi condenada a viver enclausurada até morrer, em 1914. Em 1898, o padre Cícero foi ao Vaticano para se reunir com o Papa Leão XII e com membros daInquisição, onde foi absolvido. Todavia, ao voltar à cidade de Juazeiro, o bispo não apenas não respeitou a decisão de Roma, como excomungou Padre Cícero.
Na realidade, as atitudes de Padre Cícero incomodavam o interior da Igreja, afinal com elas questionava-se a vida dos outros clérigos. Era necessário apenas um motivo, para que pudesse tirá-lo do meio. Após tudo isto, Padre Cícero foi o primeiro prefeito da cidade de Juazeiro, em 1911, que até então dependia da cidade de Crato, e chegou a ser vice-governador do estado do Ceará.
Com o passar do tempo sua fama de santo milagroso cresceu. Morreu em 1934 e foi enterrado na Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que se converteu em um dos lugares de peregrinação mais importantes do Brasil.
A devoção popular por Padre Cícero é uma das marcas da religiosidade popular brasileira, especialmente na região Nordeste. Até pouco tempo, Juazeiro era visto como lugar dos contra-valores cristãos, afinal o clero não intervinha nas romarias e tudo era coordenado pelos leigos, chegando a criar sua própria liturgia.
Apesar de tudo as romarias não diminuíram e, a cada ano, o número de peregrinos que visitam o túmulo de Padre Cícero, pobres em sua maioria, supera os dois milhões de pessoas. Hoje a Igreja católica tenta reabilitar a figura dePadre Cícero, dando a tudo uma nova forma. Fonte:
As imagens de padre Cícero ocupam as praças de muitas cidades nordestinas e têm um lugar de destaque em muitas casas. As pessoas fazem procissões, orações e pedidos a seu “Padim, Padre Cícero”, com uma fé incomum. E pode-se se perguntar: como é possível que um excomungado tenha se convertido no “santo” do povo?

Padre Cícero é RECONCILIADO com a Igreja Católica

A Solenidade de abertura da Porta Santa realizada hoje, 13 de dezembro, na Catedral Nossa Senhora da Penha, em Crato- CE, teve para os fiéis da Diocese de Crato e romeiros do Padre Cícero Romão Batista um significado ainda maior. Neste dia o Bispo Dom Fernando Panico comunicou ao povo, durante sua homilia, que o Papa Francisco havia enviado uma carta, assinada pelo Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado de Sua Santidade, na qual autoriza a reconciliação do “Padim Ciço”, como é carinhosamente chamado pelos devotos, com a Igreja Católica.
As palavras aguardadas há décadas pelos fiéis foram recebidas com júbilo. Fogos de artificio, palmas e expressões de alegria era o que se notava no rosto dos que participavam da celebração. Um quadro com a imagem do padre foi introduzida não no altar, pois ele ainda não foi canonizado, mas dentro da Igreja, próximo ao altar. “Ele vai entrar como romeiro. Seu lugar não será ainda o Altar, mas ficará no meio do Povo, invocando e cantando conosco a misericórdia do Pai”, disse Dom Fernando.
Além de destacar a fé simples e a devoção a Nossa Senhora que o Padre Cícero teve em sua existência, o Papa ainda caracterizou o seu modo de evangelização, vivido no final do século XIX e início do XX, como atual. “Atitude de saída, ao encontro das periferias existenciais, a atitude do Padre Cícero em acolher a todos, especialmente aos pobres e sofredores, aconselhando-os e abençoando-os, constitui sem dúvida, um sinal importante e atual”, afirmou.
Padre Cícero morreu em 1934 suspenso de ordem. A partir da data de seu falecimento o número de fiéis que realizam romarias a cidade que ele fundou, Juazeiro do Norte, só cresce. Diante desta realidade ao chegar na Diocese de Crato, em 2001, Dom Fernando Panico colocou esta reconciliação como prioridade de seu episcopado.
O Bispo formou uma comissão e deu entrada, em 2006, na Congregação para Doutrina da Fé, no Vaticano, ao processo de REABILITAÇÃO, porém o Papa Francisco foi além. A partir dos estudos realizados pela Equipe de Direito Canônico do Vaticano, foi decidido que a Igreja deveria conceder a RECONCILIAÇÃO do padre com a Igreja, permitindo assim que os fiéis realizem sua devoção com a aprovação da Santa Sé.
Dom Fernando, diante da realização de um dos seus maiores sonhos, afirmou que toda a Diocese de Crato foi justificada pela ação do Papa Francisco, e que não houve equivoco em assumirem a opção pastoral em favor das romarias e o acolhimento aos romeiros. “Como Bispo Diocesano dessa Igreja particular, fico feliz por poder receber essa grande graça, em nome do Padre Cícero e de seus romeiros e romeiras, em nome de todos aqueles bispos – Dom Quintino, Dom Delgado – que alguma vez pediram que a Igreja e Padre Cícero se reconciliassem, em nome de todas as pessoas que queriam ver o Seu Padrinho ser, de novo, acolhido pela Igreja Católica da mesma forma que sempre foi acolhido por seus afilhados!”, disse.
Na Igreja onde foi batizado e realizou a primeira missa, neste ano 2015, ao Padre Cícero foi concedida uma reconciliação histórica mostrando que a misericórdia de Deus está acima das ações humanas.

Reabilitação e Reconciliação
Reabilitação é recuperação de ordens que estavam suspensas. Reconciliação é apagar qualquer oposição a ação do Padre Cícero.
A Diocese de Crato deu entrada ao processo de reabilitação pelo fato do Padre Cícero ter morrido suspenso de ordem, porém como o padre já havia falecido e as punições cessadas, não tinha o que o Papa reabilitar.

Padres da Basílica Nossa Senhora das Dores, Santuário São Francisco das Chagas e Paróquia Sagrado Coração de Jesus colocando o quadro com a foto do Padre Cícero próximo ao altar. (Foto: Patrícia Silva)
Padres da Basílica Nossa Senhora das Dores, Santuário São Francisco das Chagas e Paróquia Sagrado Coração de Jesus colocando o quadro com a foto do Padre Cícero próximo ao altar. (Foto: Patrícia Silva)
De 2006 a 2014 uma equipe de direito canônico do Vaticano estudou como resolver esta questão. Eles chegaram a conclusão de que a Igreja teria que ter uma Reconciliação. “Como a ação do Padre Cícero se tornou crescente mesmo após a sua morte, eles disseram era oportuno a reconciliação da Igreja com o Padre”, disse o chanceler Armando Lopes Rafael.
Em outubro de 2015 o Papa Francisco enviou uma carta reconciliando a Igreja Católica com a herança espiritual do Padre Cícero, porque entendeu que o Padre deu continuidade a obra de divulgação do evangelho que Jesus queria. “Ele se dedicou aos humildes e estes permaneceram fiéis a Igreja Católica, por isso a reconciliação”, disse Armando.
A Reconciliação é mais ampla que a Reabilitação pois, conforme explica o chanceler, é uma aceitação e reconhecimento dos frutos feitos através das romarias e devoção ao padre Cícero, propiciando uma maior aproximação dos romeiros com toda a Igreja Católica.

Resumo da carta-mensagem do Papa Francisco

Sobre a Reconciliação histórica da Igreja Católica com a memória do Padre Cícero Romão Batista
Em longa correspondência enviada ao Bispo Diocesano de Crato, Dom Fernando Panico, o Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, afirmou que: “A presente mensagem foi redigida por expressa vontade de Sua Santidade o Papa Francisco, na esperança de que Vossa Excelência Reverendíssima não deixará de apresentar à sua Diocese e aos romeiros do Padre Cícero a autentica interpretação da mesma, procurando por todos os meios apoiar e promover a unidade de todos na mais autentica comunhão eclesial e na dinâmica de uma evangelização que dê sempre e de maneira explicita o lugar central a Cristo, principio e meta da História”.
A mensagem lembra, inicialmente, as festas pelo centenário de criação da Diocese de Crato acrescentando “que (essas comemorações) põem em realce a figura do Padre Cícero Romão Batista e a nova Evangelização, procurando concretamente ressaltar os bons frutos que hoje podem ser vivenciados pelos inúmeros romeiros que, sem cessar, peregrinam a Juazeiro atraídos pela figura daquele sacerdote. Procedendo desta forma, pode-se perceber que a memória do Padre Cícero Romão Batista mantém, no conjunto de boa parte do catolicismo deste país, e, dessa forma, valoriza-la desde um ponto de vista eminentemente pastoral e religioso, como um possível instrumento de evangelização popular”.
Lembrando que Deus sempre se serve de pobres instrumentos para realizar suas maravilhas e que todos nós somos “vasos de argila” (2Co 4,7) em Suas mãos, o texto afirma, sem dúvida alguma, que Padre Cícero, pelo seu intenso amor pelos mais pobres e por sua inquebrantável confiança em Deus, foi esse instrumento escolhido por Ele. O Padre respondeu a este chamado, movido por um desejo sincero de estender o Reino de Deus.

Na correspondência constam vários tópicos, dos quais alguns são reproduzidos, a seguir, textualmente: “Mas é sempre possível, com a distância do tempo e o evoluir das diversas circunstâncias, reavaliar e apreciar as várias dimensões que marcaram a ação do Padre Cícero como sacerdote e, deixando à margem os pontos mais controversos, por em evidência aspectos positivos de sua vida e figura, tal como é atualmente percebida pelos fiéis”.
†  “É inegável que o Padre Cícero Romão Batista, no arco de sua existência, viveu uma fé simples, em sintonia com o seu povo e, por isso mesmo, desde o início, foi compreendido e amado por este mesmo povo”.
†   “Deixou marcas profundas no povo nordestino a intensa devoção do Padre Cícero à Virgem Maria” no seu título de “Mãe das Dores e das Candeias” (…) Como não reconhecer, Dom Fernando, na devoção simples e arraigada destes romeiros, o sentido consciente de pertença à Igreja Católica, que tem na Mãe de Jesus Cristo um dos seus elementos mais característicos?
†   “A grande romaria do dia de Finados, iniciada pelo Padre Cícero, transmite a dimensão escatológica da existência humana. Pois, como afirma o documento de Aparecida, Nossos povos (…) têm sede de vida e felicidade em Cristo. (…)
†   “Não deixa de chamar a atenção o fato de que estes romeiros, desde então, sentindo-se acolhidos e tendo experimentado, através da pessoa do sacerdote, a própria misericórdia de Deus, com ele estabeleceram – e continuam estabelecendo no presente – uma relação de intimidade, chamando-o na carinhosa linguagem popular nordestina de “padim”, ou seja, considerando-o como um verdadeiro padrinho de batismo, investido da missão de acompanhá-los e de ajuda-los na vivência da sua fé”.
†   “No momento em que a Igreja inteira é convidada pelo Papa Francisco a uma atitude de saída, ao encontro das periferias existenciais, a atitude do Padre Cícero em acolher a todos, especialmente aos pobres e sofredores, aconselhando-os e abençoando-os, constitui sem dúvida, um sinal importante e atual”.
†   “O afeto popular que cerca a figura do Padre Cícero pode constituir um alicerce forte para a solidificação da fé católica no ânimo do povo nordestino (…). Portanto, é necessário, neste contexto, dirigir nossa atenção ao Senhor e agradecê-lo por todo o bem que ele suscitou por meio do Padre Cícero”.
†   “Assim fazendo, abrem-se inúmeras perspectivas para a evangelização, na linha desta recomendação do Documento de Aparecida; “Deve-se dar catequese apropriada que acompanhe a fé já presente na religiosidade popular”. (Documento de Aparecida, 300).
†   “Ao mesmo tempo que me desempenho da honra de transmitir uma fraterna saudação do Santo Padre a todo o povo fiel do sertão do Ceará, com os seus Pastores, bendizendo a Deus pelos luminosos frutos de santidade que a semente do Evangelho faz brotar nestas terras abençoadas, valho-me do ensejo para lhe testemunhar minha fraterna estima e me confirmar de Vossa Excelência Reverendíssima devotíssimo no Senhor.

25 ANOS DE PADRE: Imagens de Ação de Graças.

domingo, 13 de dezembro de 2015

25 ANOS DE PADRE: Palavras do Frei Valter.

25 ANOS DE PADRE: Homilia do Frei Petrônio.

VÍDEO SELF-16: Evangelho do Dia. (13 de dezembro-2015).

RIO DE JANEIRO: Ano da Misericórdia.

O escândalo da misericórdia

*Enzo Bianchi,

A misericórdia, o coração para os miseráveis, é um dos principais atributos de Deus e à humanidade em toda a Bíblia: está no espaço do amor e indica bondade, benevolência, indulgência, amizade, disposição favorável, piedade, graça. O amor, a misericórdia de Deus é eterna, fiel, preciosa, maravilhosa, o melhor da vida, alargada: assim cantam os Salmos. O evento em si da revelação de Deus é um evento de misericórdia: Deus visita Israel, misericordia motus, movido pela misericórdia.
Assim, a revelação definitiva do nome de Deus a Moisés no livro do Êxodo termina com a declaração: “O Senhor, o Senhor Deus misericordioso e compassivo, lento para a ira, e cheio de amor e fidelidade” (Ex 34: 5-6). A partir desta revelação, em toda a Bíblia, dos profetas até os Salmos, tomou o seu nome, “misericordioso e compassivo”: a misericórdia de Deus é para todos, para os necessitados e sofredores, pelos pecadores; a misericórdia é eterna, atual, escatológica.
Jesus, veio para revelar Deus plenamente e definitivamente, o faz com atitudes e palavras esta imagem do Deus misericordioso e compassivo: é o Evangelho, a boa notícia da misericórdia. Mesmo para Jesus justiça e misericórdia tensionam, mas é certo que ele rejeita o julgamento na história. Como a misericórdia caracteriza o seu ministério, assim na sua prática todo o julgamento está suspenso, e cada sentença não realizada.
Devemos confessar que até hoje o que para Jesus mais escandaliza não são as suas palavras de julgamento e mesmo o seu “fazer o bem.” Pelo contrário, o que escandaliza é a misericórdia, interpretada por Jesus de uma forma que é o oposto do que pensado pelos homens religiosos, por nós! Às vezes parece que a misericórdia seja invocada por Deus, desejada e fácil de pôr em prática, e por outro lado – devemos confessá-la humildemente – em toda história da Igreja a misericórdia escandalizou, o que foi pouco exercitada. Quase sempre apareceu mais atestado o ministério da condenação e não a da misericórdia e da reconciliação. Bastaria ler a história com atenção, para ver como aquela segurança ao longo dos séculos usou a parábola do joio (cfr. Mt 13,24-30), pervertendo-a. Nela Jesus nos pede para não arrancar as ervas daninhas, embora se ameaça o bom trigo, e esperar que a colheita e o julgamento no final dos tempos. Mas, ao contrário, muitos cristãos atribuíram o inimigo, o outro como joio, permitindo a sua erradicação, até sua condenação à fogueira …
Esta mensagem escandalosa da misericórdia não é compreendida por aqueles que se sentem em paz com Deus (e para quem Jesus não veio: cf. Mc 02:17.!), Embora seja compreendida e esperada por aqueles que se sentem no pecado, com necessidade do perdão de Deus. Foi assim durante o ministério de Jesus, foi assim na história da Igreja, é assim até hoje quando somos interrogados pelo Papa Francisco na nossa própria capacidade de misericórdia: misericórdia da Igreja, misericórdia de cada um por quem errou ou que precisa do nosso amor.
Nós frequentemente estamos dispostos a fazer misericórdia se houver punição daqueles que tiverem praticado o mal, se o pecador foi suficientemente humilhado, e somente se pedir misericórdia como um mendigo. Em todo o caso, determinamos os limites precisos da misericórdia, porque pensamos que certos erros, certas decisões tomadas mau e não mais reparáveis devam ser punidas para sempre pela disciplina eclesiástica: para alguns erros a partir da qual não podemos voltar atrás não há misericórdia, por conseguinte, a misericórdia não é infinita, mas é em condições específicas…
Aqui está a nossa traição do Evangelho, eis como a misericórdia nos escandaliza. Em outras palavras, a sequência crime punição está consagrada na nossa postura de fiéis, de homens religiosos, mas devemos nos perguntar se o “crime e castigo” é cristão! Por que nós nunca entenderemos que a santidade de Deus não resplandece quando não há pecado no homem, mas quando Deus tem misericórdia e perdão? Por que não podemos entender que a onipotência, a soberania de Deus se mostra especialmente perdoando? À luz desta santidade de Deus, desta sua onipotência, se pode viver como um instrumento de boas obras e “Não desesperar jamais da misericórdia de Deus” (Regra de Bento 4,74).
Quantas palavras, parábolas e encontros de Jesus têm escandalizado e ainda escandalizam até os supostos justos! Eles, de acordo com o julgamento que se dão livre de grandes pecados e perdas, eles se sentem diferentes dos outros e acreditam que podem reivindicar direitos diante de Deus! Que Deus acolha os pecadores arrependidos é coisa boa, louvável, porque ele “é amor” (1 Jo 4,8.16), mas que os pecadores e as prostitutas precedam no Reino de Deus os sacerdotes e os especialistas da Lei (cf. Mt 21: 32), esto é inédito, e é perigoso dizer isto: contudo Jesus disse abertamente sobre estes últimos…
Que “o filho pródigo” seja perdoado pelo pai amoroso seria aceitável, talvez depois de um tempo de punição e a promessa de não repetir o erro; mas celebrar em sua honra uma festa sem por-lhe condições e admiti-lo em casa, sem objeção, isso é demais (cf. Lc 15,20-24): é um perigoso excesso de misericórdia, pois todos se sentirão autorizados a repetir a fuga do filho pródigo, contando com o pai que perdoa sempre… E depois desta forma se subverte o conceito de justiça: onde acaba a justiça, se há um perdão assim gratuito sem condições?
Sim, a misericórdia de Jesus, a que Ele praticou e pregou, é exagerada e nos escandaliza! Estamos mais disponíveis para os atos de culto, na liturgia que a misericórdia (cf. Os 6,6; Mt 9:13; 12,7). Com razão escreveu Albert Camus em ‘A queda’: “Ao longo da história humana houve um momento em que se falava do perdão e da misericórdia, mas não durou muito tempo, cerca de dois ou três anos, e a história terminou mal.”
Enzo Bianchi, Fundador da Comunidade Monástica de Bose – Itália
Por ocasião do XXIII Congresso ecumênico internacional de espiritualidade ortodoxa, dedicado a «Misericórdia e perdão».

Tradução e adaptação: Edilma Oliveira. Fonte: http://santuario.cancaonova.com