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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

E se Judas não traiu Jesus?

Escritor Amos Oz sustenta que Judas foi o maior defensor do profeta de Nazaré
É certo que o apóstolo Judas Iscariotes traiu Jesus e o entregou para as autoridades de Jerusalém por 30 moedas de prata? Isso é o que a Igreja Católica defende até hoje, apoiando-se nos textos evangélicos.
E se ao invés de traidor ele fosse, pelo contrário, o discípulo mais fiel e ilustrado do Colégio Apostólico que, agindo como um espião entre os outros discípulos analfabetos, acabasse transformando-se no seu maior defensor e devoto?
Amos Oz, em sua obra Judas, que acaba de ser publicada no Brasil pela Companhia das Letras, sustenta, também apoiado nos textos evangélicos, que Judas não só não traiu o Mestre como tentou fazer com que ele se transformasse no grande vencedor tanto entre os esfarrapados das aldeias da Galileia como em Jerusalém, entre intelectuais e poderosos.
A original interpretação de Judas pelo escritor judeu, favorável ao diálogo entre Israel e Palestina, pode intrigar não só os cristãos, mas também os judeus, de quem Jesus de Nazaré era um filho de Abraão, um judeu dos pés à cabeça.
Agora, Amos Oz volta a ressuscitar para seus leitores não só Jesus, que os judeus se negam a considerar como um profeta, mas seu “traidor” Judas, uma das figuras das quais, depois do Mestre, mais se escreveu e especulou nesses dois mil anos da era cristã.

A tese do escritor israelense cria perplexidade primeiro entre os cristãos.
Segundo ela, Judas, talvez o único apóstolo não analfabeto, nem oriundo da rural Galileia, mas da rica Judeia, foi enviado pelas altas esferas religiosas do Templo para introduzir-se como espião no círculo daquele curioso pregador de um novo reino que fazia prodígios. Queriam saber se era mais do que um mero charlatão.
Judas, fascinado pela figura do profeta, acabou transformando-se em seu melhor devoto. Intelectual e ambicioso como era, preparou um grande plano de vitória para Jesus.
O Mestre deveria, segundo seus cálculos, aumentar seu círculo de seguidores e deveria chegar ao coração do poder, que estava em Jerusalém. Lá, deveria se revelar como deus.
Em vez de dar visão para cegos e expulsar demônios ou curar paralíticos, o profeta deveria fazer, em Jerusalém, o grande milagre que o revelaria como o Messias, o libertador de Israel, um deus na terra: vencer a morte.
Dessa forma, organizou as coisas para que fosse condenado e crucificado. E nesse momento se livraria milagrosamente da morte aos olhos dos poderosos e dos humildes nas vésperas da Páscoa.
Segundo o escritor e romancista, não foi fácil para Judas convencer Jesus a ir até Jerusalém, onde era visto com hostilidade pelos sacerdotes e autoridades romanas. Temia que pudessem atentar contra sua vida. Jesus não era um herói que desejava ser mártir. “Se for possível, afasta de mim esse cálice”, disse para seus discípulos na Última Ceia. Não queria ser sacrificado.
Para as autoridades da época Jesus era, entretanto, mais um dos falsos profetas que apareciam todo dia com seus vaticínios. Não viam motivo para condená-lo à morte. Isso encontra eco nas palavras de Pilatos, quando disse para a multidão alvoroçada que pedia a morte do profeta: “não vejo nenhuma culpa nele”. E fez corpo mole antes de ceder à injusta sentença.
Parece um paradoxo que seja Judas o único dos discípulos que fala de Jesus como se fosse um deus. Nem ele jamais considerou-se como tal. Chamava-se de “Filho do homem”, que em aramaico significa simplesmente “homem”. O único Deus era seu Pai do céu, para quem se queixou quando se viu abandonado na cruz.
A história de Judas traidor que entrega Jesus por algumas moedas teria sido criada por alguns dos evangelistas posteriores.
Amos Oz volta a ressuscitar para seus leitores não só Jesus, que os judeus se negam a considerar como um profeta, mas seu “traidor” Judas
Segundo Amos Oz, Judas não precisava entregar Jesus porque ele nunca se escondeu, sempre falava em público e era conhecido por todos. Além disso, 30 moedas de prata não eram nada para ele, possuidor de bens e terras. Era o preço da venda de um escravo.
Por que então Judas se enforca depois de ter visto Cristo expirar na cruz? Não por arrependimento, por tê-lo traído, mas porque ao vê-lo morrer como mais um crucificado, queixando-se para Deus por tê-lo abandonado, sem ter sido capaz de descer milagrosamente da cruz, se deu conta de que sua estratégia de vitória havia falhado. Sentia-se mais um derrotado do que um traidor.
“E Judas, cujos olhos horrorizados viam o sentido e o objetivo de sua vida se esfacelar, Judas que compreendeu que com suas próprias mãos tinha causado a morte do homem que amava e admirava, foi embora de lá e se enforcou”, escreveu Oz, e acrescenta: “Assim morreu o primeiro cristão. O último cristão. O único cristão”.
O escritor, que conhece muito bem os textos bíblicos, tira duas conclusões importantes dessa interpretação original: Jesus não queria fundar uma igreja, mas purificar o judaísmo de sua visão estreita e dos compromissos entre o Templo e o poder temporal: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
Assim, se os judeus da época tivessem “aceitado Jesus”, se o tivessem escutado ao invés de persegui-lo, talvez não existisse a posterior perseguição dos judeus que culminou no Holocausto, já que por não ter sido criada, em seu nome, a nova igreja cristã, Jesus não teria sido apontado durante séculos como culpado pelo fato dos cristãos odiarem os “pérfidos judeus”, que mataram Jesus, como era rezado na Semana Santa até que aquele texto foi eliminado pelo papa João XXIII.
E a igreja atual, ou não existiria ou teria sido totalmente diferente. Assim, Amos Oz, com sua audaciosa interpretação que acompanha passo a passo seu romance que coloca ao mesmo tempo o tema existencial da traição humana e seu conflito, aplicada ao drama entre Israel e Palestina, está alertando tanto o mundo judeu como o cristão.
Um livro destinado não só a ser saboreado como uma joia literária as quais o grande escritor israelense nos acostumou, mas também a despertar, tanto curiosidade como polêmica, nas duas maiores religiões monoteístas.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

“Amamentem seus filhos na igreja”. Papa Francisco.

Capela Sistina, sede do Conclave, sob os afrescos de Michelangelo. Às 09:30 da manhã de domingo o Papa Francisco lança um olhar improvisadamente e se fala às mulheres: “Vocês mães – falou – deem aos vossos filhos o leite – mesmo agora. Se choram de fome, amamente-os, tranquilas”. Algumas, de forma tímida, tiram para fora as mamadeiras. A reportagem é de Marco Ansaldo, publicada pelo jornal La Repubblica, 12-01-2015. A tradução é de Ivan Pedro Lazzarotto.
Consciente ou não de abrir um novo – o enésimo de sua parte – assunto para debate, Jorge Bergoglio celebrou a missa em um local solene como a magnificência “Michelangeloniana” da Capela Sistina, dando pela primeira vez as costas aos fiéis, como era feito nos rituais antigos. Não havia sido colocado, de fato, um altar móvel que permitiria fazer a missa olhando para o povo, como normalmente era feito depois do Concílio Vaticano II.
Mas frente aos choramingos de 33 recém-nascidos (20 meninas e 13 meninos), filhos de dependentes do vaticano a serem batizados, o Pontífice argentino encorajou as mães de não ignorar o choro dos seus filhos.
Com uma simples frase pronunciada frente a uma exigência humana, o aleitamento materno dos bebês, o Papa rompeu outro tabu, fazendo assim justiça para os limites impostos recentemente em alguns locais públicos. Locais não sagrados: como HOTÉIS, museus, aeronaves. O caso que mais alarmou aconteceu a pouco mais de um mês, em Londres, quando uma mãe na sala de chá do HOTEL 5 estrelas Claridgés iniciou a amamentar sua filha de 12 semanas e um funcionário a ordenou que se cobrisse com uma grande toalha de mesa. O gesto causou indignação, fazendo com que outras mulheres organizassem um aleitamento coletivo na frente do hotel. Mas em 2007 o protesto foi mais incisivo na Espanha, por uma mãe que foi posta pra fora do Museu do Prado em Madrid.
Não é a primeira vez que o Papa Francisco afronta essa questão. Já havia feito logo após o episódio londrino, durante sua visita à paróquia romana de São José, em Aurélio. “As crianças choram, fazem barulho – disse às famílias no último ano – vão de um lado para outro... e me irrita quando uma criança chora e as outras pessoas querem que sejam levadas pra fora. Não! É a melhor oração! O choro de uma criança é a voz de Deus!. Nunca, jamais os coloquem pra fora da igreja!”. No domingo, Bergoglio, em um local mais augusto, aumentou a dose: “Demos graças ao Senhor pelo dom do leite – continuou durante a homilia – e rezemos por essas mães – infelizmente tantas – que não tem condições de dar de comer aos seus filhos. Rezemos e procuremos ajudar estas mães”.
Durante o Angelus pediu para que os fiéis rezem pela sua nova viagem. No final da tarde de hoje o Papa partirá para sua sétima visita apostólica, volta à Ásia depois da última feita no último mês de agosto à Coréia do Sul. Amanhã pela manhã chegará ao Sri Lanka, e então será a vez das Filipinas. Sete dias de uma viagem complexa, em terras atingidas por catástrofes e violência. A guerra civil ensanguentou o Sri Lanka entre 1983 e 2009, e o país teve a apenas dois dias novas eleições presidenciais com uma mudança no vértice do Estado. O povo filipino pagou um preço altíssimo com terremotos, tufões e conflitos armados como aquele ocorrido na Ilha de Mindanao.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 772: Eu vou incomodar você.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

'Cuidar de quem é pobre não é comunismo, é Evangelho.'' Entrevista com o Papa Francisco

Antecipamos aqui um trecho de Papa Francesco. Questa economia uccide [Papa Francisco. Esta economia mata], o livro sobre o magistério social da Bergoglio escrito por Andrea Tornielli, coordenador do sítio Vatican Insider, e Giacomo Galeazzi, vaticanista do jornal La Stampa.
O livro reúne e analisa os discursos, os documentos e as intervenções de Francisco sobre pobreza, imigração, justiça social, proteção da criação. E confronta especialistas em economia, finanças e doutrina social da Igreja – entre eles o professor Stefano Zamagni e o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi –, relatando também as reações que certos posicionamentos do papa despertaram. O livro conclui com uma entrevista que Francisco concedeu aos autores no início de outubro de 2014. O trecho foi publicado no jornal La Stampa, 11-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

"Marxista", "comunista" e "pauperista": as palavras de Francisco sobre a pobreza e sobre a justiça social, os seus frequentes apelos à atenção em relação aos necessitados, lhe atraíram críticas e até mesmo acusações, às vezes expressadas com dureza e sarcasmo. Como o Papa Bergoglio vive tudo isso? Por que o tema da pobreza esteve tão presente no seu magistério?

Santidade, o capitalismo, como o estamos vivendo nas últimas décadas, é, na sua opinião, um sistema de algum modo irreversível?

Eu não saberia como responder a essa pergunta. Reconheço que a globalização ajudou muitas pessoas a se levantarem da pobreza, mas condenou tantas outras a morrer de fome. É verdade que, em termos absolutos, cresceu a riqueza mundial, mas também aumentaram as desigualdades e surgiram novas pobrezas. O que eu noto é que esse sistema se mantém com aquela cultura do descarte da qual já falei várias vezes. Há uma política, uma sociologia e também uma atitude do descarte. Quando no centro do sistema não está mais o homem, mas o dinheiro, quando o dinheiro se torna um ídolo, os homens e as mulheres são reduzidos a simples instrumentos de um sistema social e econômico caracterizado, melhor, dominado por profundos desequilíbrios. E assim se "descarta" aquilo que não serve para essa lógica: é aquela atitude que descarta as crianças e os idosos, e que agora também afeta os jovens.
Impressionou-me saber que, nos países desenvolvidos, há tantos milhões de pessoas com menos de 25 anos que não têm trabalho. Eu os chamei de jovens "nem-nem", porque não estudam nem trabalham: não estudam porque não têm possibilidade para fazê-lo, não trabalham porque falta o trabalho. Mas eu também gostaria de lembrar daquela cultura do descarte que leva a rejeitar as crianças também com o aborto. Chamam-me a atenção as taxas de natalidade tão baixas aqui na Itália: assim, perde-se o vínculo com o futuro. Assim como a cultura do descarte leva à eutanásia escondida dos idosos, que são abandonados, em vez de serem considerados como a nossa memória. O vínculo com o nosso passado é um recurso de sabedoria para o presente. Às vezes eu me pergunto: qual será o próximo descarte? Devemos parar no tempo. Paremos, por favor! E então, para tentar responder à pergunta, eu diria: não consideremos esse estado das coisas como irreversível, não nos resignemos. Busquemos construir uma sociedade e uma economia em que o homem e o seu bem, e não o dinheiro, estejam no centro.

Uma mudança, uma maior atenção à justiça social pode ocorrer graças a mais ética na economia ou é justo supor também mudanças estruturais no sistema?

Acima de tudo, é bom lembrar que há a necessidade de ética na economia e há necessidade de ética também na política. Várias vezes, vários chefes de Estado e líderes políticos que eu pude encontrar depois da minha eleição a bispo de Roma me falaram sobre isso. Eles disseram: vocês, líderes religiosos, devem nos ajudar, dar-nos indicações éticas. Sim, o pastor pode fazer os seus apelos, mas estou convencido de que é preciso, como recordava Bento XVI na encíclica Caritas in veritate, de homens e mulheres com os braços levantados para Deus para rezar a Ele, conscientes de que o amor e a partilha dos quais deriva o autêntico desenvolvimento não são um produto das nossas mãos, mas um dom a se pedir.
E, ao mesmo tempo, estou convencido de que é preciso que esses homens e essas mulheres se comprometam, em todos os níveis, na sociedade, na política, nas instituições e na economia, pondo no centro o bem comum. Não podemos mais esperar para resolver as causas estruturais da pobreza, para curar as nossas sociedades de uma doença que só pode levar a novas crises. Os mercados e a especulação financeira não podem gozar de uma autonomia absoluta. Sem uma solução aos problemas dos pobres não resolveremos os problemas do mundo. São necessários programas, mecanismos e processos orientados a uma melhor distribuição dos recursos, à criação de trabalho, à promoção integral de quem está excluído.

Por que as palavras fortes e proféticas de Pio XI na encíclica Quadragesimo anno contra o imperialismo internacional do dinheiro hoje soam para muitos – também católicos – como exageradas e radicais?

Pio XI parece exagerado para aqueles que se sentem afetados pelas suas palavras, feridos na carne pelas suas proféticas denúncias. Mas o papa não era exagerado, tinha dito a verdade depois da crise econômico-financeira de 1929 e, como bom alpinista, via as coisas como estavam, sabia olhar longe. Temo que os exagerados, ao contrário, são aqueles que ainda hoje se sentem chamados em causa pelas críticas de Pio XI...
Ainda continuam válidas as páginas da Populorum progressio nas quais se diz que a propriedade privada não é um direito absoluto, mas está subordinada ao bem comum, e aquelas do Catecismo de São Pio X que elenca entre os pecados que clamam por vingança diante de Deus a opressão dos pobres e a defraudação da justa retribuição aos operários?
Não são apenas afirmações ainda válidas, mas, quanto mais o tempo passa, mais eu acho que são comprovadas pela experiência.

Chamaram a atenção muitas das suas palavras sobre os pobres como "carne de Cristo". Perturba-lhe a acusação de "pauperismo"?

Antes que Francisco de Assis chegasse, havia os "pauperistas". Na Idade Média, houve muitas correntes pauperistas. O pauperismo é uma caricatura do Evangelho e da própria pobreza. Em vez disso, São Francisco nos ajudou a descobrir o laço profundo entre a pobreza e o caminho evangélico. Jesus afirma que não se pode servir a dois senhores, Deus e a riqueza. É pauperismo? Jesus nos diz qual é o "protocolo" com base no qual seremos julgados: é aquele que lemos no capítulo 25 do Evangelho de Mateus: tive fome, tive sede, estive preso, estava doente, estava nu, e vocês me ajudaram, vestiram, visitaram, cuidaram de mim. Cada vez que fazemos isso a um nosso irmão, o fazemos a Jesus.
Cuidar do nosso próximo: de quem é pobre, de quem sofre no corpo, no espírito, de quem está em necessidade. Essa é a pedra de toque. É pauperismo? Não, é Evangelho. A pobreza afasta da idolatria, do sentir-se autossuficiente. Zaqueu, depois de ter cruzado o olhar misericordioso de Jesus, doou a metade dos seus bens aos pobres. A mensagem do Evangelho é uma mensagem dirigida a todos. O Evangelho não condena os ricos, mas a idolatria da riqueza, aquela idolatria que torna insensível ao grito do pobre. Jesus disse que, antes de oferecer a nossa oferta ao altar, devemos nos reconciliar com o nosso irmão para estar em paz com ele. Acredito que podemos, por analogia, estender esse pedido também ao nosso estar em paz com esses irmãos pobres.

O senhor ressaltou a continuidade com a tradição da Igreja nessa atenção aos pobres. Pode dar alguns exemplos a esse respeito?

Um mês antes de abrir o Concílio Ecumênico Vaticano II, o Papa João XXIII disse: "A Igreja se apresenta como é e quer ser, como a Igreja de todos, e particularmente a Igreja dos pobres". Nos anos posteriores, a opção preferencial pelos pobres entrou nos documentos do magistério. Alguns poderiam pensar em uma novidade, enquanto, em vez disso, se trata de uma atenção que tem a sua origem no Evangelho e está documentada já nos primeiros séculos do cristianismo.
Se eu repetisse alguns trechos das homilias dos primeiros Padres da Igreja, do segundo ou terceiro século, sobre como se deve tratar os pobres, haveria alguns que acusariam que a minha homilia é marxista. "Não é dos teus bens que tu doas ao pobre; tu só lhe devolves o que lhe pertence. Porque é àquilo que é dado em comum para o uso de todos que tu te apegas. A terra é dada a todos, e não somente aos ricos". São palavras de Santo Ambrósio, que serviram para que o Papa Paulo VI afirmasse, na Populorum progressio, que a propriedade privada não constitui para alguns um direito incondicional e absoluto, e que ninguém está autorizado a reservar para o seu uso exclusivo aquilo que supera a sua necessidade, quando aos outros falta o necessário. São João Crisóstomo afirmava: "Não compartilhar os próprios bens com os pobres significa roubá-los e privá-los da vida. Os bens que possuímos não são nossos, mas deles". (...)
Como se pode ver, essa atenção aos pobres está no Evangelho e está na tradição da Igreja, não é uma invenção do comunismo e não devemos ideologizá-la, como algumas vezes aconteceu no curso da história. Quando a Igreja convida a vencer aquela que eu chamei de "globalização da indiferença", ela está longe de qualquer interesse político e de qualquer ideologia: movida unicamente pelas palavras de Jesus, ela quer dar a sua contribuição para a construção de um mundo onde se proteja um ao outro e se cuide um do outro.

800 ANOS DE SANTO ALBERTO: Dom Fouad Twal, Patriarca de Jerusalém.

800 ANOS DE SANTO ALBERTO: Irmã Anastasia Monaca.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 771: E se eu estivesse vivo?

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 769: O Batismo do Senhor.

Reconhecido o martírio de Romero

Romero é mártir. Foi morto in odium fidei. João Paulo II já repetia isso com voz flébil em novembro de 2003, falando com alguns bispos salvadorenhos que foram a Roma em visita ad limina. Também atestaram nessa quinta-feira, com voto unânime, os membros do Congresso dos Teólogos da Congregação para as Causas dos Santos, reconhecendo o martírio formal e material do arcebispo, morto no altar enquanto celebrava a missa no dia 24 de março de 1980.
A reportagem é de Gianni Valente, publicada no sítioVatican Insider, 09-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
A revelação é de Stefania Falasca no jornal Avvenire, acrescentando que "agora, segundo a práxis canônica, só resta o juízo do Congresso dos Bispos e dos Cardeais e, enfim, a aprovação do papa para a conclusão do processo que o levará em breve à beatificação".
Percorrendo todos os passos do processo, a autora do artigo ressalta que o pronunciamento sobre o martírio de Romero"certamente marca o ápice de uma causa conturbada", em que acusações e as tentativas de frear ou de encobrir o caminho do bispo mártir rumo à beatificação muitas vezes haviam se revestido de argumentações teológicas e doutrinais.
Por isso, o pronunciamento dos teólogos que colaboram com o dicastério vaticano para os Santos e parece dirimente e crucial, bem mais do que o próximo – e evidente – nihil obstat dos bispos e dos cardeais membros da própria Congregação.
O reconhecimento do martírio de Romero confirma de maneira definitiva que o arcebispo salvadorenho foi morto in odium fidei. O que impulsionou os executores não foi a simples ânsia de matar um inimigo político, mas o ódio desencadeado pelo amor pela justiça e pela predileção dos pobres que Romero manifestava como reverberação direta da sua fé em Cristo e da sua fidelidade ao magistério da Igreja.
No delírio sangrento que martirizava El Salvador naqueles anos atrozes, Romero foi o bom pastor disposto a oferecer a vida para seguir a predileção pelos pobres própria do Evangelho. A fé – reconheceram os teólogos do dicastério vaticano – era a fonte da sua obra, das palavras que ele pronunciava e dos gestos que ele fazia no contexto conturbado em que ele era chamado a agir e a viver como arcebispo.
O pronunciamento dos teólogos da Congregação limpam décadas de operações voltadas a propagandear uma interpretação apenas política da eliminação de Romero. O reconhecimento do seu martírio in odium fidei confirma que, no El Salvador dos esquadrões da morte e da guerra civil, a Igreja sofria uma perseguição feroz por parte de pessoas que, ao menos sociologicamente, eram cristãs.
O desencadeamento do ódio que o matou era cultivado e compartilhado também por setores da oligarquia, acostumados a ir à missa ou a fazer ofertas e doações para as instituições eclesiásticas. Incluindo as associações das chamadas "mulheres católicas" que publicavam nos jornais acusações e maldades fabricadas artisticamente contra ele.
nihil obstat dos teólogos também dissipa a cortina de fumaça de insinuações montadas artisticamente para creditar a fábula do Romero pró-guerrilheiro, agitador político, influenciado e subjugado pelo marxismo. O processo para a causa de beatificação – cujo postulador é o arcebispo Vincenzo Paglia – verificou com autoridade e definitivamente aquilo que sempre repetiam todos os amigos do bispo mártir: Romero – como escreveu o professor Roberto Morozzo della Rocca– era um "sacerdote e bispo romano, obediente à Igreja e ao Evangelho através da Tradição", chamado a desempenhar o seu ministério de pastor "naquele Ocidente extremo e abalado que era a América Latina daqueles anos", onde as forças militares e os esquadrões da morte reprimiam ferozmente um povo inteiro em nome da oligarquia. Onde os sacerdotes e os catequistas eram mortos e, no campo, tornava-se perigoso possuir um Evangelho. Onde bastava pedir justiça para ser tachado de comunista subversivo. Onde a Igreja era perseguida porque se isentava do papel de braço espiritual do poder oligárquico.
No entanto, por anos, depois do ano 2000, a causa de Romero permaneceu parada, com a motivação de que todas as homilias e os escritos do bispo salvadorenho deviam ser submetidos a exame pela Congregação para a Doutrina da Fé, para verificar a sua ortodoxia. Naqueles anos, que assumiu um papel preponderante na gestão do dossiê Romero – e que pressionou para que a causa não seguisse em frente – foi particularmente o cardeal colombiano Alfonso López Trujillo, naquele tempo influente consultor do ex-Santo Ofício, falecido em 2008.
Naquele momento, chegaram à Congregação para as Causas dos Santos disposições orientadas no sentido do adiamento. Segundo alguns setores, levar Romero à honra dos altares equivalia a beatificar a Teologia da Libertaçãoou até mesmo os movimentos populares de inspiração marxista e as guerrilhas revolucionárias dos anos 1970. Por isso, de acordo com alguns, as motivações do martírio in odium fidei não podiam ser aplicadas ao seu caso, enquanto haviam servido para levar à honra dos altares, em 2010, Jerzy Popieluszko, o sacerdote de 37 anos assassinado em 1984 por um comando dos serviços de segurança da Polônia comunista.
Agora, parece ter chegado o momento também de Oscar Arnulfo Romero. Só resta esperar. E não será preciso esperar muito, se levarmos em conta que, para a beatificação dos mártires, não é necessária a confirmação canônica de um milagre realizado pela sua intercessão.



A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 768. O Outro Lado das Metrópoles.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Todos os Inimigos do Papa

L’Avvenire sai a campo em defesa do Papa. Um Francisco que, a despeito das viradas, começa a ser circundado pelas críticas e mordido pelos lobos. Com um editorial de seu diretor, Marco Tarquinio, com título “A barca de Pedro, os “contra-remadores”, e a confiança em Francisco”, o cotidiano dos bispos desencadeia o último ataque. “Belas as cartas sobre a rispidez saída pré-natalícia contra o nosso Papa – escreve Tarquinio. Um sinal que merece resposta, embora aqui polêmicas tão deselegantes e conduzidas de modo capcioso e deformante não encontrem eco. Em cena permaneceram as verdadeiras palavras e os verdadeiros gestos de Francisco. O Papa da Igreja “pobre para os pobres” e “hospital de campo” no nosso mundo frequentemente feroz com os feridos e os mais débeis”. Mas, quem são os “contra-remadores”? Explica-o um dos leitores de Avvenire: quem “faz publicidade a favor daqueles que remam contra”.
A reportagem é de Marco Ansaldo, publicado pelo jornal La Repubblica, 03-01-2015. A tradução é de Benno Dischinger.
O ataque tinha chegado aos 24 de dezembro, no Corriere della Sera, da parte do escritor Vittorio Messori. “Um gesto combinado – escreve Tarquinio – para fazer rumor com a pretensão de “marcar” o Natal”. Messori de fato se tinha lançado numa requisitória contra Jorge Bergoglio, falando de uma “confissão que voluntariamente teria deixado de fazer, se não me tivesse sido requerida”, definindo Francisco um Papa “imprevisível, a ponto de demover também algum cardeal que tinha estado entre os seus eleitores”. No artigo, acrescentava: “Imprevisibilidade que continua perturbando a tranquilidade do católico mediano”.
Belas, mas poucas as cartas dos leitores publicadas em Avvenire. Muitas, no entanto, as reações que chegam agora da base, de toda a Itália. Do movimento “nós somos Igreja” ao Centro de Estudos “Edith Stein” de Lanciano, de “Uma Igreja de mais vozes” de Ronco di Cossato Biella à Comunidade Le Piagge Firenze (As plagas Florença), e depois a Coordenação das Teólogas Italianas, a Comunidade Michea de Nápoles, o grupo Impegno Missione de Casavatore (Nápoles) com o missionário comboniano Alex Zanotelli, as Comunidades cristãs de base-Itália, de S. Paulo-Roma, de Oregina-Genova, de Norte Milão, a revista “Padres Operários”, o Centro Balducci - Zugliano (Udine). Todos em defesa de uma coleta de assinaturas reunidas sob o endereço firmiamo.it/fermiamo gliattacchia papa Francesco. Entre os primeiros que assinam o apelo, dom Luigi Ciotti, representante do Gruppo Abele e de Libera. Diz Vittorio Bellavite, coordenador de “Noi siamo Chiesa” [Nós somos Igreja]: “Esta tomada de posição vai bem além da polêmica com Messori. Diz respeito à situação geral na Igreja e às difusas, quase sempre silenciosas, hostilidades em relação ao PapaFrancisco”. Explica dom Paolo Farinella, pároco da Igreja de San Torpete, nos cantões de Genova, e autor da iniciativa: “O ataque é mirado e frontal, “requerido”, uma verdadeira declaração de guerra, ameaçadora na substância de uma advertência de cunho mafioso: o Papa é perigoso. É tempo que volte a fazer o Sumo Pontífice e deixe governar a Cúria. O autor não cita os nomes dos “mandantes”, mas se coloca em segurança dizendo que sua intervenção lhe “foi requerida”. Dom Farinella argumenta, e identifica no “ataque frontal de cinco cardeais (Müller, Burke, Brandmüller, Caffara e De Paolis)” o que reforçou “o front dos adversários que veem no Papa Francisco “um perigo” que é preciso bloquear a todo custo”.
O ponto é que o nó da Igreja reformista de Bergoglio chegou ao limite. Ou se dissolve ou se corta. Após a clamorosa renúncia ao pontificado de Bento XVI, o súbito aparecimento de um Pontífice argentino, com o nome desafiador deFrancisco, confundiu os fiéis e a hierarquia. As suas palavras, as tantas iniciativas, até os símbolos adotados (calçados de andador, bolsa de trabalho preta, cruz de prata simples) conquistaram os fiéis. Mas, as reações na Cúria, sobretudo após as bastonadas de Bergoglio sobre as 15 doenças que a infestam, são as mais diversas. Da Sala Clementina alguns cardeais saíram outro dia de cabeça baixa, com as orelhas que tiniam.
E agora a lista dos inimigos do Papa “vindo do fim do mundo” começa a fazer-se plena. Primeiro começou a tagarelice sobre o “Papa estranho”. Depois, ante o claro ímpeto reformista, o diálogo entretido com os não crentes e ateus, no Sínodo de outubro com as aberturas aos divorciados recasados e aos homossexuais, as dúvidas dos conservadores sobre Bergoglio acabaram por nutrir um dossiê encorpado. Uma prática que se robustece nos últimos dias.
Aos 13 de dezembro, no complexo de S. Spirito in Sassia, a dois minutos da Praça São Pedro, houve uma convenção com o título “A crise da família e o caso dos Franciscanos da Imaculada”. Uma reunião na qual a divisão do Instituto dos frades de batina azul, agora comissariados por Francisco, apareceu compactando o front conservador. Os relatórios falavam de “processo desestabilizador entrou na Igreja, e o Sínodo dos Bispos o mostrou de modo evidente” (Claudio Circelli), o de “divórcio, aborto, eutanásia, etapas desta inexorável marcha anti-humana, nos encontramos ante um plano de matriz totalitária” (Elizabetta Frezza). Enfim, “diálogo acolhida amor paz são palavras líquidas mutuadas pela modernidade, que não significam absolutamente nada” (Piero Mainardi).
Todas estocadas contra o Papa. Comenta o professor Mario Castellano, católico e atento observador das vivências do Instituto comissariado: “O tradicionalismo, nas suas várias expressões, tanto aquelas ainda colocadas na Igreja, como aquelas lefebvrianas, que põem em discussão o Magistério a partir do Concílio, seja enfim aquelas a favor da sede-vacante, pela qual é negada a Autoridade papal, escolheu como terreno o conflito dos Frades Franciscanos da Imaculada com o objetivo de minar a unidade do Catolicismo”.
É de 12 de dezembro o artigo de Antonio Socci em “Libero”, no qual se fala de Bergoglio como “ídolo da mídia, dos membros do Parlamento europeu”, mas, sobretudo, “da esquerda no Ocidente”. E não é por acaso que a primeira página de Le Nouvel Observateur de 11 de dezembro fosse dedicada ao Pontífice, sob o título: “Quem quer a pele deFrancisco?” Profetiza em seu livro recém saído na França (“Jusqu’où ira François?“) o vaticanista de Le Figaro, Jean-MarieGuénois: “Terá êxito Francisco?“
De certo ponto de vista, este Papa agitador já teve êxito. Se tudo parasse amanhã, o chute dado ao formigueiro deixará uma marca duradoura. De agora em diante, nada será como antes. Amém.

Os quinze mandamentos

"Esta mensagem de Francisco à Cúria faz um bem enorme a todos quantos. Seria preciso afixá-la por toda parte, nos nossos escritórios, nos nossos salões ou salas de visitas, nos nossos laboratórios. Nas nossas vidas. Nas nossas cabeças"...

1º- Sentir-se “imortal”, “imune”, ou até mesmo “indispensável”.
2º- O “martalismo” (que vem de Marta), a excessiva operosidade daqueles que imergem no trabalho.
3º- O “empedramento” mental e espiritual daqueles que se escondem por trás das cartas e das práticas.
4º- “A excessiva planificação e o funcionalismo”, como se se pudesse “domesticar o Espírito Santo”!
5º- “A má coordenação”.
6º- “A doença de um Alzheimer espiritual” que torna alguns “totalmente dependentes do seu presente.
7º- “A rivalidade e a vanglória”.
8º- “A esquizofrenia existencial”, fruto da “hipocrisia” daqueles que “põem de lado tudo o que ensinam severamente aos outros” até conduzir “uma vida oculta e com frequência dissoluta”.
9°- “As tagarelices, as murmurações e os mexericos”.
10º- “A doença de divinizar os chefes” por motivo de “carreirismo e oportunismo”. 
11°- “A indiferença com os outros”.

12º- “A doença da face funérea “das pessoas cabrestantes e arrogantes, as quais consideram que ser sérias (...) signifique tratar os outros com rigidez, dureza e arrogância (...) enquanto nos faz bem uma boa dose de sadio humorismo!”
13º- “A doença do acumular” enquanto, como cada um sabe, “o sudário não tem bolsos”.
14º- “A doença dos círculos fechados” que pode levar ao “fogo amigo dos colegas de armas”.
15°- “O perfil mundano e os exibicionismos”, que transformam “o serviço em poder”.

Papa Francisco escolhe novos cardeais que vêm da periferia


Se qualquer outro papa tivesse produzido uma lista de cardeais similar a dos recém-designados pelo Papa Franciscono domingo, a reação teria sido de choque e descrença. Em vez disso, só houve uma surpresa momentânea.
A reportagem é de Robert Mickens, editor-chefe da revista Global Pulse. Desde 1986, vive em Roma, onde estudou teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, antes de trabalhar na Rádio Vaticano por 11 anos e, em seguida, como correspondente do jornal The Tablet de Londres. O texto foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 5-01-2015. A tradução é de Claudia Sbardelotto.
Cardeais, pela primeira vez, em remansos eclesiásticos como Tonga, Myanmar, Panamá e Cabo Verde? Apenas um empregado da Cúria Romana na lista? Nenhum norte-americano nomeado por Francisco? E duas das tradicionais "sedes cardinalícias" da Itália, Turim e Veneza, esnobadas por Ancona e Agrigento, lugares que não eram liderados por um prelado de chapéu vermelho há mais de 100 anos?
Bem-vindo à era Francisco. O papa jesuíta de 78 anos anunciou os nomes dos 15 novos cardeais eleitores e outros cinco não eleitores com idade superior a 80 anos que se tornarão cardeais no dia 14 de fevereiro, no Vaticano.
Suas escolhas expressam uma preferência por aqueles que estão nas periferias e pelos homens que os pastoreiam, aqueles que estão à margem da Igreja e da sociedade.
Entre os eleitores, cinco vêm da Europa, três da Ásia e da América Latina e dois da Oceania e África. Quatro são de ordens religiosas. Nove deles são ou foram eleitos presidentes das respectivas Conferências Episcopais nacionais. Apenas seis foram nomeados para seus cargos atuais pelo Papa Bento XVI, enquanto outros seis foram colocados lá por João Paulo II e os três restantes por Francisco.
Prelados no comando de uma série de grandes arquidioceses e de alguns escritórios do Vaticano, todos geralmente liderados por cardeais, não receberam os chapéus vermelhos. Em vez disso, Francisco irá colocá-los sobre a cabeça dos bispos aos quais os oficiais romanos não costumam se submeter. Agora, eles vão.
Aqui estão eles e por que foram escolhidos.
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Cinco europeus

Dominique Mamberti, 63 anos, prefeito da Signatura Apostólica
Natural da Córsega francesa e diplomata papal de carreira, Mamberti foi nomeado bispo por João Paulo II. Mas o Papa Francisco nomeou-o para o seu posto atual, tradicionalmente dirigido por um cardeal, em novembro, após ter atuado como "ministro das Relações Exteriores" do Vaticano durante o pontificado de Bento XVI. Pela primeira vez na história recente, Mamberti é única autoridade curial a se tornar cardeal no consistório.
Manuel Macário do Nascimento Clemente, 66 anos, patriarca de Lisboa, Portugal
João Paulo II nomeou esse teólogo e ex-reitor de seminário como bispo auxiliar de Lisboa em 1999, mas o Papa Francisco nomeou-o Patriarca em maio de 2013. Ele é um dos poucos dos novos eleitores em uma diocese tradicionalmente dirigida por um cardeal. Seguindo o protocolo tradicional, a indução de Clemente para o Colégio Cardinalício era esperada. Como atual presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, ele participou do Sínodo extraordinário dos Bispos sobre a família em outubro.


Edoardo Menichelli, 75 anos, arcebispo de Ancona-Osimo, Itália
Desde o século XVI, inúmeros cardeais lideraram essa antiga diocese na costa adriática da Itália, mas nenhum nos últimos cem anos. De 1968 a 1994, o recém-anunciado cardeal trabalhou no Vaticano, onde se tornou um protegido e ex-secretário pessoal do lendário cardeal Achille Silvestrini, um dos melhores diplomatas da Igreja da era pós-Vaticano II (proveniente da "escola Casaroli"). João Paulo II nomeou Menichelli bispo em 1994 e o colocou em seu cargo atual em 2004, estacionando-o naquela que era, naquele tempo, uma sé decididamente não cardinalícia. Ele participou do Sínodo extraordinário como uma das 26 pessoas nomeadas pelo Papa Francisco.

Francesco Montenegro, de 68 anos, arcebispo de Agrigento, Itália
Primeiro cardeal-arcebispo desta antiga diocese da Sicília desde 1786, Montenegro é ex-presidente da Caritas Italiana e atualmente atua como chefe da comissão dos bispos italianos para os migrantes. Bento XVI nomeou-o arcebispo deAgrigento, em 2008. Dentro de sua diocese localiza-se a ilha de Lampedusa, ponto de chegada para muitos refugiados ("boat people") do norte da África e local onde o Papa Francisco fez sua primeira visita pastoral fora de Roma.

Ricardo Blázquez Pérez, 72 anos, arcebispo de Vallodolid, Espanha
Um contrapeso teológico moderado e perene aos prelados mais doutrinariamente conservadores e socialmente combativos da Espanha, o novo cardeal está cumprindo seu segundo mandato não consecutivo como presidente da conferência episcopal nacional. Nomeado bispo por João Paulo II e escolhido para o seu cargo atual, em 2010, porBento XVI, ele é outra escolha surpreendente a receber o chapéu vermelho. Blázquez é apenas o terceiro arcebispo deVallodolid (fundada no século XVI) a se tornar cardeal e o primeiro desde 1919.
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Três asiáticos

Pierre Nguyên Van Nhon, 76 anos, arcebispo de Hanói, no Vietnã
Esta é a sexta vez que a Igreja do Vietnã vê um de seus tornar-se cardeal desde o primeiro chapéu vermelho do país em 1976. Mas é a primeira vez em uma década que um cardeal vai dirigir a arquidiocese de Hanói. Curiosamente, Van Nhon já ultrapassou em um ano a idade normal de aposentadoria e reterá o direito a voto no conclave por apenas mais quatro anos. Nomeado bispo em 1991 por João Paulo II, ele foi promovido a Hanói em 2010 por Bento XVI. Ele atuou como presidente da Conferência Episcopal Vietnamita de 2007 a 2013.

Charles Maung Bo, 66 anos, arcebispo de Yangon, Myanmar
Ex-presidente da conferência episcopal nacional birmaneza, esse salesiano é o primeiro cardeal na história dessa nação do Sudeste Asiático, uma ex-colônia britânica marcada por conflitos étnicos e onde se encontra uma das maiores diferenças de renda entre ricos e pobres do mundo. João Paulo II elevou o designado cardeal para o episcopado em 1990 e promoveu-o a seu cargo atual na maior cidade de Myanmar, em 2003. Dos 51 milhões de cidadãos do país, apenas um pouco mais de 1% são católicos, fazendo desse lugar uma das "periferias" menos habitadas da Igreja.




Francis Xavier Kriengsak Kovithavanij, 65 anos, arcebispo de Bangkok
O ex-reitor de seminário e ex-pároco, formado em Roma, é apenas o segundo cardeal da história da pequena Igreja naTailândia, onde nem mesmo metade de 1% da população de 64 milhões é católica. Bento XVI elevou-o bispo em 2007 e, em seguida, nomeou-o chefe de sua nativa arquidiocese de Bangkok dois anos depois. Seu antecessor, o cardeal aposentado Michael Kitbunchu, completará em breve 86 anos de idade, dando à Tailândia dois cardeais vivos.
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Três latino-americanos

Alberto Suárez Inda, 75 anos, arcebispo de Morelia, do México
O México, que tem a segunda maior população católica do mundo, surpreendentemente teve apenas 10 cardeais que datam de 1958. Esta é a primeira vez um cardeal irá liderar a arquidiocese de Morelia, que nem sequer classifica-se entre as 15 mais populosas das quase 90 dioceses desse país da América do Norte. Mas ela está localizado no estado central de Michoacán, onde os cartéis, milícias de cidadãos, a polícia federal do México e o exército, cada vez mais travam guerras relacionadas às drogas. A escolha do Papa Francisco desse clérigo, formado em Roma, que completará 76 anos em algumas semanas, é claramente destinada a reconhecer e apoiar os esforços da Igreja na cura do conflito. Suarez chefia a arquidiocese desde que João Paulo II o nomeou em 1995.

Daniel Fernando Sturla Berhouet, 55 anos, arcebispo de Montevidéu, Uruguai
Até agora, este país sul-americano, situado entre a Argentina e o Brasil, teve apenas um dos seus no Colégio dos Cardeais, um franciscano capuchinho que deteve o título de cardeal de 1958 a 1979. Agora, ele terá um salesiano com uma vasta experiência de governo em sua própria comunidade e como presidente da Conferência dos Religiosos doUruguai. Bento XVI nomeou-o bispo auxiliar de sua arquidiocese nativa de Montevidéu em 2011, e o Papa Franciscofez dele arcebispo, em fevereiro de 2014.

José Luis Lacunza Maestrojuan, 70, bispo de David, no Panamá
Lacunza, o primeiro cardeal neste pequeno país da América Central de 3,6 milhões de habitantes, é realmente natural de Pamplona, na Espanha. Ele foi para o Panamá quando era um jovem sacerdote na década de 1970 para ser reitor de uma universidade dirigida por sua comunidade religiosa, a Ordem dos Agostinianos Recoletos. João Paulo II o fez bispo auxiliar da arquidiocese da Cidade do Panamá, em 1985, bispo de Chitré em 1994, e então, cinco anos depois, bispo de David. Ele é um dos três novos cardeais que não são arcebispos; sua diocese é a segunda maior do Panamá, localizada no oeste do país. Lacunza serviu dois mandatos não consecutivos como presidente da Conferência Episcopal do Panamá.
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Dois africanos

Berhaneyesus Demerew Souraphiel, 66 anos, arcebispo de Addis Abeba, Etiópia
Nomeado para o cargo atual em 1999 por João Paulo II, ele segue seu antecessor mais recente como sendo o segundo bispo a ser nomeado cardeal na Etiópia. Os católicos representam menos de 1% da população total, onde a maioria é cristã ortodoxa e mais de 30% são muçulmanos. O cardeal designado é vicentino (membro da Congregação da Missão)e fez pós-graduação em sociologia na Universidade Gregoriana, em Roma. João Paulo II nomeou-o a uma série de posições episcopais começando em 1992, antes de nomeá-lo ordinário de Addis Ababa sete anos depois. Ele é o presidente da Conferência Episcopal da Etiópia e da Eritreia desde 1999 e também é chefe de duas outras conferências episcopais regionais. Ele participou do último Sínodo sobre a família no outono.

Arlindo Gomes Furtado, 65 anos, bispo de Santiago de Cabo Verde, Cabo Verde
Esta é a primeira vez que a ex-colônia portuguesa de Cabo Verde vai ter um cardeal. O destinatário do chapéu vermelho é um filho da terra que possui uma licenciatura em Escritura pelo Instituto Pontifício Bíblico de Roma (Biblicum). Ele foi professor, pároco e vigário-geral da diocese até 2003, quando João Paulo II o nomeou bispo da recém criada diocese de Mindelo. Bento XVI nomeou-o para seu posto atual em 2009. Cabo Verde tem apenas meio milhão de habitantes, mas mais do que 90% deles são católicos.
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Dois da Oceania
Arcebispo John Atcherley Dew, 66 anos, arcebispo de Wellington, Nova Zelândia
Uma série de três cardeais-arcebispos dirigiram Wellington praticamente ininterruptamente de 1969 a 2005. Depois de um hiato de 10 anos, o mesmo número de anos que foi arcebispo, Dew será o quarto cardeal. Um pastor prático, de pés no chão, formado na mentalidade do Concílio Vaticano II, Dew tem vasta experiência paroquial e uma educação recebida na Nova Zelândia e Inglaterra. João Paulo II o fez bispo auxiliar de Wellington em 1995 e, em seguida, arcebispo coadjutor nove anos depois. Ele tomou as rédeas da arquidiocese em 2005, quando o cardeal Thomas Stafford Williams, agora com 84 anos, aposentou-se. Ele é o presidente da conferência episcopal do seu país e será visto como uma voz moderada a progressiva no Colégio dos Cardeais. Ele participou do Sínodo sobre a família.

Soane Patita Paini Mafi, 53 anos, bispo de Tonga
O primeiro cardeal da história do pequeno reino de Tonga será o mais jovem membro da elite dos homens de chapéu vermelho, cujo principal objetivo é selecionar o próximo papa. Isso é um voto desproporcionalmente enorme para um lugar que possui um pouco mais de 15.000 católicos, tamanho de uma grande paróquia nos Estados Unidos (que não receberam quaisquer novos cardeais nos dois últimos consistórios). Mafi, de Tonga, na verdade, passou dois anos emBaltimore, quando ele estudou psicologia antes de retornar para casa para atribuições paroquiais e no seminário. Bento XVI nomeou-o bispo coadjutor da diocese no final de 2007, e ele tornou-se o ordinário, vários meses depois.
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Com mais de 80 anos
O Papa Francisco também anunciou que vai dar o chapéu vermelho para seguintes cinco homens, que têm 80 anos ou mais:

José de Jesús Pimiento Rodriguez, 95 anos, arcebispo emérito de Manizales, Colômbia
Pio XII nomeou-o para o episcopado em 1955, e ele participou de todas as quatro sessões do Concílio Vaticano II. Por duas vezes foi presidente da Conferência Episcopal da Colômbia, em seus anos de aposentadoria, tornou-se um padre missionário paroquial, em 1996, após 21 anos à frente da Arquidiocese de Manizales.
Arcebispo Luigi De Magistris, 88 anos, Penitenciário-Mor emérito
De Magistris é oficial do Vaticano que remonta ao final dos anos de 1950, quando ele trabalhava para o Cardeal Alfredo Ottaviani no antigo Santo Ofício (atualmente a Congregação para a Doutrina da Fé). Ele passou a maior parte de sua vida na Penitenciaria Apostólica, a partir de 1979, como regente e, finalmente, como chefe do escritório, de 2001 a 2003. João Paulo II nunca deu-lhe o chapéu vermelho que sempre costumava ir com esse escritório. Seu sucessor também não lhe deu. Evidentemente, era porque De Magistris opunha-se à canonização do fundador do Opus Dei, José Maria Escrivá. De Magistris é bem conhecido em Roma por apoiar a missa em latim e outras causas tradicionalistas.

Arcebispo Karl-Josef Rauber, ex-núncio apostólico
Rauber é uma das chamadas "viúvas de Benelli", diplomatas do Vaticano cujas carreiras eclesiásticas foram moldadas por sua fidelidade ao cardeal Giovanni Benelli, o ex-vice-secretário de Estado do Papa Paulo VI. Rauber foi uma das poucas e próximas "viúvas" (outros sendo os cardeais Justin Rigali, Agostino Cacciavillan e Giovanni Battista Re) que nunca tinham recebido um chapéu vermelho - até agora. O cardeal designado recentemente foi núncio papal por muitos anos e em uma entrevista de 2010, depois de sua última mensagem na Bélgica, criticou Bento XVI pela escolha de André Léonard para substituir o cardeal Godfried Danneels como arcebispo de Maline-Bruxelas. Rauber disse que Léonard não estava na terna (lista de três candidatos) que ele havia enviado a Roma. O Papa Francisco, que é próximo de Danneels, de 81 anos, não fez Léonard um cardeal, e espera-se que ele aceite a renúncia do arcebispo belga quando ele completar 75 anos em maio.

Luis Héctor Villaba, 80 anos, arcebispo emérito de Tucumán, Argentina
O cardeal designado serviu como bispo auxiliar de sua terra natal, Buenos Aires, imediatamente antes do padre jesuítaJorge Mario Bergolio ser nomeado para a mesma posição. Ele serviu como vice-presidente da Conferência Episcopal da Argentina quando o jesuíta e futuro papa era o presidente.
Júlio Duarte Langa, 87 anos, bispo emérito de Xai-Xai, Moçambique
Paulo VI nomeou o cardeal designado como chefe da diocese de Xai-Xai, em 1976, onde permaneceu até sua aposentadoria cerca de 28 anos mais tarde. Atuou como padre de paróquia por muitos anos, e ele supervisionou a tradução dos documentos do Vaticano II para o vernáculo.

DIÁRIO DO FREI PETRÔNIO- 05: Um olhar sobre a vida.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 767. A Beleza da Vida.

domingo, 4 de janeiro de 2015

EPIFANIA DO SENHOR: Homilia do Frei Petrônio.

AirAsia: Em Igreja que tinha 41 fiéis no voo, muitos rezam por milagre

Fiéis rezaram por companheiros de congregação vítimas de acidente aéreo
A igreja evangélica Mawar Sharon, na Indonésia, fez, como de costume, um grande show para sua cerimônia dominical.
Seis cantores dançavam pelo palco, entoando hinos religiosos. Câmeras posicionadas ao redor da igreja registravam todos os momentos.
Atrás do coral, um telão mostrava close-ups dos cantores. Mas, apesar do ar festivo, trata-se de uma congregação de luto.
Neste domingo, 41 de seus integrantes não estavam presentes - eles estavam a bordo do voo QZ8501 da AirAsia, cujos destroços ainda estão sendo resgatados no Mar de Java.
A maioria eram famílias com crianças pequenas, que viajavam a Cingapura para festejar o Ano-Novo.
Aparentemente, combinaram de comprar juntos as passagens aéreas na companhia, para baratear os custos.

Uma semana após a tragédia, a igreja pediu preces para eles.
"Eu conhecia um dos casais (no acidente), eles tinham dois filhos pequenos", diz Caleb Natanielliem, pastor da igreja. "Estive com eles antes do Natal. Agora não posso mais cumprimentá-los."

Comunidade cristã
A Indonésia é um país predominantemente muçulmano. Mas a comunidade cristã na cidade de Surabaya foi duramente atingida pelo acidente aéreo.
O fato de uma única congregação religiosa ter sofrido uma perda tão grande - um quarto dos passageiros a bordo do QZ8501 era de lá - é incompreensível para muitos ali.
"Fiquei muito chocado quando soube da notícia", diz Paulus Angka Wijaya, frequentador da igreja. "Espero que todos os corpos sejam encontrados em breve, para que as famílias possam lhes dar um funeral. Sempre apoiaremos essas famílias, para que elas se mantenham fortes e saibam que não estão sozinhas."

Pastor Natanielliem diz que muitos ainda esperam por um 'milagre'
A centenas de quilômetros de distância dali, as operações de busca prosseguem no Mar de Java. Mas os esforços continuam a ser prejudicados pelo mau tempo. Devagar, corpos vão sendo resgatados - mais quatro foram encontrados, totalizando 34 até agora.
Bambang Soelistyo, chefe da agência indonésia de resgate, disse que mergulhadores tentaram alcançar um objeto que parece ser parte da fuselagem, mas foram forçados a voltar à superfície por conta das fortes correntes marítimas no local.
Leia mais: Por que voos não são rastreados em tempo real?
De volta à igreja, alguns parentes rezam por um milagre.
"Sinto que muitos deles ainda estão esperando por notícias de sobreviventes. Muitos rejeitam a ideia de perder seus entes queridos", diz o pastor Natanielliem.
A comunidade busca força em sua fé, mas, em uma igreja que enxerga sua congregação como uma família, a perda é enrome.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 763. Quem fica parado é poste...