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terça-feira, 16 de setembro de 2014

A Cartilha Eleições 2014

+ Aldo di Cillo Pagotto, sss, Arcebispo Metropolitano da Paraíba

Você concorda com esses critérios de seleção e acompanhamento dos candidatos?
Conheça a trajetória e as propostas do candidato e do partido. Se eleito, cobre resultados! Observe se o candidato trabalha com políticas estruturais ou se improvisa políticas de compensação. Escolha quem defende a dignidade da Vida e da Família, quem prioriza a área da Saúde, da Educação, do ensino profissionalizante, capacitando jovens para o mercado de trabalho qualificado. Escolha quem promove o bem da coletividade gerando oportunidades de inclusão social, investindo na infraestrutura para o desenvolvimento do Estado e do povo. Escolha quem não faz da política balcão de negócios, deixando-se corromper.

Apresentação

Por que a Igreja trata sobre a política?
- A Igreja recebeu de Jesus a missão de Evangelizar, como Jesus ensinou aos seus discípulos, servindo ao povo em nome de Deus nosso Pai (Cf. Mateus. 28,16 ss).
- A Igreja reconhece e respeita a autonomia do Estado laico. A Igreja não aspira ao poder político, não entra em disputa pelo poder, não “fecha propostas” com políticos, com partidos ou com governos, nos níveis Federal, Estadual e Municipal.
- A Igreja não deve se intrometer em política partidária, indicar candidatos, partidos, definir o perfil da administração da coisa pública. Isso é papel de cabos eleitorais.

O que a Igreja faz?
- A Igreja orienta os fiéis a respeito dos princípios éticos e dos valores morais, incentiva-os para que contribuam na organização da ordem social, de modo que sejam bons cristãos e honestos cidadãos, testemunhem os valores do Evangelho de Jesus, enfim, esforcem-se para torná-los presentes na organização da sociedade. Pelo voto consciente, responsável, democrático, o povo pode decidir o seu presente e o seu futuro.

De que forma a Igreja pode contribuir no ano de Eleições?
- Em ano de Eleições a Igreja contribui com a conscientização dos fiéis, orientados a discernir as propostas de políticas públicas apresentadas por candidatos e partidos, conforme as necessidades e os anseios da população.
- Através do voto, o cidadão exerce o seu dever, elegendo candidatos honestos e competentes. Dessa forma os fiéis participam da construção da cidade e da cidadania.
- Que o eleitor escolha candidatos que representem os direitos dos cidadãos. Antes de votar, que forme sua opinião e faça sua opção. Evite oportunistas e interesseiros que compram votos, enganando e corrompendo pessoas não esclarecidas.

Canais de participação popular
- Se forem bem orientados pelos valores humanos (e cristãos), os cidadãos e cidadãs acompanham e também cobram o encaminhamento dos projetos de políticas públicas prometidos pelos candidatos e pelos partidos durante as campanhas. Dessa forma, as lideranças participam do planejamento de políticas públicas que defendam os direitos dos cidadãos e promovam o bem comum.
- Para isso existem muitos canais abertos para a participação das lideranças, representantes das instituições, das associações de bairros, das comissões. Vários encaminhamentos são debatidos nos conselhos de cidadania, nos fóruns de discussão de prioridades, nas audiências públicas, sobretudo no orçamento democrático.
- Há várias campanhas e atividades educativas desenvolvidas por órgãos públicos e instituições que contam com a adesão da população. Citemos apenas algumas: paz no trânsito, respeito à sinalização e ao pedestre, lei seca, prevenção de doenças (do câncer de mama e da próstata), Lei Maria da Penha (superando a violência contra a mulher), combate ao abuso e à exploração sexual infanto-juvenil, reciclagem do lixo, promoção da vida saudável, prevenção de acidentes no trabalho, desarmamento, combate às drogas.

Contribuição específica
- Ciente da missão evangelizadora da Igreja, a Arquidiocese da Paraíba propõe-se a colaborar na formação da consciência dos cidadãos sobre a importância do seu voto, devendo ser dado de forma democrática, consciente, livre, responsável.
- A ética na política visa à prática da cidadania que se concretiza no amor ao próximo, voltado para a defesa e a promoção do desenvolvimento da coletividade.
- Em sua missão evangelizadora, a Igreja sugere como prioridade o desenvolvimento humano e social, de forma gradativa e sustentável. Isso só é possível ser realizado em etapas sucessivas.
- Nossa sugestão é a busca de investimentos prioritários qualificando as áreas indissociáveis, da Saúde e da Educação. A garantia de inclusão social depende do processo de ensino, de aprendizado e de habilidades à população, especialmente nas classes menos favorecidas.
- Nossa crítica aos programas sociais do atual Governo, a exemplo da “bolsa família” (e tantas outras bolsas), orienta-se para o ensino profissionalizante, criando condições das pessoas e famílias caminharem com as próprias pernas, não dependentes de uma esmola, sem contraproposta.
- Para inovar na construção das estruturas sociais, voltadas ao bem pessoal, familiar e ao bem de toda a coletividade, é indispensável que o eleitor interesse-se pelo conhecimento das potencialidades produtivas, locais e regionais.
- É preciso: planejar as prioridades, traçar as metas das ações, organizar as etapas que devem ser percorridas, garantir as verbas para os investimentos, avaliar resultados, corrigir erros, redefinir as metas, fiscalizar e cobrar os resultados.
- Não basta depositar um voto na urna, sem que o eleitor esteja por dentro do projeto de Estado e o roteiro das prioridades.

Antes, durante a campanha e depois de eleitos
- Desconfie de candidatos que desqualificam os adversários, mas não apresentam propostas nem explicam de onde se tiram verbas para projetos que não têm continuidade.
- Escolha quem coloca técnicos preparados para administrar a coisa pública. Perceba quem coloca seus protegidos, aparelhando a seu favor os órgãos públicos.

Sugestão aos candidatos antes e depois de eleitos
- Ter conhecimento de causa sobre as condições da gestão pública, de modo tal que os investimentos sejam canalizados prioritariamente no capital humano, técnico e financeiro.
- Responsabilizar funções técnicas aos técnicos, não a cabo eleitoral, aparelhando a administração com pessoas despreparadas. Cobrar resultados, através de um cronograma de ação, com começo, meio e fim, a curto, a médio e a longo prazos.
- É preciso acompanhar de perto a gestão, o planejamento de metas e cobrar resultados. Sem cobrança de resultados “tudo fica como antes no quartel de Abrantes”. Nada muda sem choque de gestão em base técnica e humanitária.
- Todo político deve prestar contas da sua administração, demonstrar o resultado das atividades empreendidas e realizadas, explicar com transparência a origem e o destino dos recursos financeiros, investidos no patrimônio público.
- Note que a exclusão social é consequência do modelo econômico equivocado. Esse modelo penaliza a população produtiva com impostos elevadíssimos. Arrecada trilhões sem retorno para garantir a qualidade de vida da população. O modelo econômico adotado no País não permite que os Estados desenvolvam-se, pois não lhes repassa o Fundo de Participação de forma justa. Esse modelo não investe em infraestrutura nem na qualificação da Saúde e da Educação.
- Necessitamos de políticas públicas que tenham solução de continuidade, gerando oportunidades de inclusão social, fortalecendo a estrutura familiar.

O texto a seguir é um diálogo entre pais e filho (que falta em muitos lares hoje em dia). Um menino faz perguntas, cujas respostas ajudam a elucidar dúvidas e chamam atenção para quem deve ser dado o seu voto. Perceba as críticas e os questionamentos.

Joãozinho está na fase dos porquês. Ele sempre tem uma pergunta sobre os mais variados assuntos. Por que o céu é azul? Por que o sol nunca se encontra com a lua? Como nascem os bebês?... Maria e José, pais do menino esperto, sempre lhe respondem de maneira objetiva. Certo dia, Joãozinho escutou uma conversa dos pais sobre Eleições. Curioso, começou a indagar aos pais:

- O que são Eleições?
- É um momento importante para escolher nossos governantes através do voto – responde a mãe.

- E eu também posso votar?
- Não! – informa o pai sorridente. Só vota quem tem mais de 18 anos de idade.
- O voto é obrigatório para quem tem mais de 18 anos. Quem já fez 16 também pode votar se quiser. Isso quer dizer que vai demorar para você votar.

- E a gente vota em quem?
- Este ano vamos escolher o presidente da República, o governador do Estado, um senador, deputados federais e estaduais. Daqui a dois anos tem Eleições para prefeito e vereadores – explica o pai.

- E o que faz cada um deles?
- Deixa que eu digo – avisa Maria. O presidente da República é o chefe do Poder Executivo do País. Ele nomeia os ministros para ajudá-lo a governar a Nação. É o presidente quem escolhe os planos prioritários para garantir o desenvolvimento econômico e social do País. Ele faz isso prevendo orçamentos e investimentos, criando leis e as enviando para votação no Congresso Nacional. Ele fica no cargo por quatro anos, podendo ser reeleito por mais quatro anos. O governador administra o Estado. Também fica no cargo por quatro anos podendo ser reeleito por mais quatro. Ele nomeia os secretários e outras pessoas para cargos públicos para ajudá-lo na administração do Estado. Apresenta projetos à Assembleia Legislativa para melhorar várias áreas, como Saúde, Educação e Segurança.
- Deve fazer isso de olho no que ganha e no que recebe. É como as despesas daqui de casa. A gente não pode gastar mais do que eu ganho por mês. Se não, de onde tirar a diferença? Se eu ganho cem reais não posso gastar duzentos. Entendeu filho? – agora, José pergunta.

- Acho que entendi. Mas aqui em casa quem controla as contas é a mamãe! E pai, quem controla o que gastam o presidente e o governador?
- Há tribunais específicos para isso, filho. Tem o Tribunal de Contas da União para o presidente e o Tribunal de Contas do Estado para fiscalizar os gastos do governo local.

- Assim eles não fazem o que querem?
- Isso mesmo! Trabalham com seriedade, para aproveitar melhor os recursos que surgem dos nossos impostos, por exemplo. Com essa fiscalização, o nosso dinheiro é usado da melhor forma. Evita que ele seja desviado para o bolso de alguém.

- E o que faz um senador?
- Cada Estado é representado por três senadores. Eles ficam no Congresso Nacional, em Brasília, a Capital do País. Eles criam e votam leis sobre todos os direitos dos Estados. Aprovam a escolha de cargos que compõem o Governo da República: magistrados, diplomatas, presidentes das instituições públicas, procuradores gerais da República... Opinam diretamente sobre as propostas do presidente e dos ministros. Julgam e processam os atos do presidente, do seu vice e dos ministros. O senador possui mandato de oito anos. Nesse ano escolhemos um. Daqui a quatro anos vamos escolher mais dois senadores.

- E os deputados federais?
- Eles representam a população no Congresso Nacional, lá em Brasília também, com mandato de quatro anos, podendo se candidatar em seguida novamente. São responsáveis por elaborar e votar as leis de interesse de toda a população e por fiscalizar o Governo Federal e as instituições públicas. Apresentam emendas às leis, pedem prestação de contas ao Governo, apresentam proposituras, instalam as Comissões Parlamentares de Inquérito, as CPIs, para esclarecer atos do Governo.

- E os deputados estaduais?
- Eles ficam na Assembleia Legislativa, na Capital do Estado, criando e votando leis que beneficiam à população, que organizam a vida do povo local. Aprovam as políticas públicas e o orçamento apresentado pelo governador. Fiscalizam as iniciativas do Poder Executivo estadual. Criam as CPIs quando necessárias para analisar a transparência de questões de interesse público e do bom funcionamento das instituições do Estado. Têm mandato de quatro anos e também podem se reeleger. Compõem o Poder Legislativo, junto com os deputados federais.

- Pai, o que significa Poder Executivo?
- O Poder Executivo é formado por aqueles que colocam “a mão na massa”, no caso o presidente, governador e o prefeito. São eles os responsáveis pelo planejamento de obras e suas execuções, de acordo com as leis e o orçamento público.


- E o que é Poder Legislativo?
- É formado por quem criam as leis. Ou seja, eles legislam.
Depois de receber todas essas explicações, Joãozinho ainda não estava satisfeito. Pelo contrário, ficou ainda mais curioso, tinha ainda mais perguntas:

- Pai, mãe, como é que vocês fazem para escolher o melhor candidato?
- A gente tenta conhecer o que pode da história de cada um deles – responde o pai. História de vida e de trabalho. Saber, por exemplo, de onde ele vem? Onde já atuou? Que proposta já apresentou e que já realizou em prol das comunidades, da população, especialmente dos mais carentes? O que ainda pretende fazer? Tem competência para assumir um mandato? Ele representa projetos e interesses de quem, do partido político, de algum grupo? Quem são seus padrinhos políticos? Quem o patrocina? Quem disputa reeleição? Quais critérios justificam sua nova candidatura? Ele realizou o que prometeu na campanha anterior? Temos que votar naqueles que comprovadamente respeitam os valores éticos na defesa da vida e da família. Temos que defender os candidatos que promovam a vida saudável para todos os seres humanos, principalmente da gestante, da criança e da pessoa idosa. Temos que votar naqueles candidatos que se comprometem com atividades de promoção humana trabalhando pelo bem comum, que ajudam o desenvolvimento das pessoas precisadas de oportunidades de trabalho, enfim, que se ocupam com o desenvolvimento do povo, com o crescimento da cidade, do Estado e do País. Que saiba trabalhar em equipe, partilhando sua liderança com a coragem de um empreendedor.
- Tem candidato, filho, que não pensa no bem do povo. Faz muitas promessas, mas só pensa nele mesmo, em seguir carreira e ficar rico com o nosso dinheiro. Para evitar isso, nós, eleitores, devemos ser livres, conscientes e responsáveis na hora do voto. Não se vota por simpatia ou porque achou o candidato bonitinho, por influência de marketing publicitário. Não podemos levar ao poder quem não é honesto e quem é corrupto – completa Maria.

- Mãe, o que é corrupto? – pergunta, curioso, Joãozinho.
- Corrupto, de maneira geral, é aquele que ganha vantagem em cima de alguém ou de alguma coisa. Político corrupto é aquele que ganha vantagem para criar uma lei, para apresentar uma emenda a uma lei, para executar uma obra.

- E quem sai perdendo é o povo?! – indaga Joãozinho, espantado.
- Sim, com certeza! O corrupto corrompe e cria outros corruptos. A corrupção faz aumentar a miséria material e moral. Reproduz a ignorância, o atraso e a violência.

- Pai, lembra do tio lá do interior que recebeu uma dentadura em troca de voto? Isso é um tipo de corrupção?
- Perfeito, filho! Você está entendendo tudo direitinho. E não é assim que deve agir o eleitor consciente. Ele deve ser honesto consigo e com os outros. Ele nunca deve trocar ou vender o seu voto por “favores”. Não deve se corromper. Ele não deve pensar apenas no seu bem-estar particular, mas no bem da coletividade, tendo em vista o desenvolvimento da população, principalmente dos mais humildes. Não deve ser oportunista, buscando vantagens pessoais. O que o seu tio fez foi pensar apenas no bem dele, por um momento, e agindo assim ele prejudicou muita gente, porque colocou no poder um político que não está nem aí para o bem do povo. Quem vende ou quem compra voto dá provas de falta de caráter. Seu tio, filho, não tem esclarecimento. É acostumado a receber alguma coisinha em troca de voto. A venda e a compra de voto são pecados contra os Mandamentos da Lei de Deus. O sétimo diz “não furtar” e o décimo “não cobiçar os bens alheios”.
- É... Há gente que engana e há gente que gosta de ser enganada... Se há quem corrompe, é porque também há quem se deixa corromper! Tenho que aceitar que quem compra ou vende votos é desonesto, como o meu irmão. Há o mau costume da venda de voto em troca de qualquer coisinha, como o pagamento de uma conta de luz, de água, de uma dentadura, como ele fez, ou de vantagens maiores. Imagine o que essa gente que compra um voto vai fazer com o dinheiro público? – agora, pergunta a mãe.
- Tem candidato que, quando ganha, administra e se apossa da coisa pública como se fosse particular. Bota gente da sua laia, sem capacitação nenhuma, nos órgãos e cargos de Governo, no lugar de técnicos competentes. São oportunistas – explica José.
- Voto dado a corrupto é voto dado para a morte, porque o dinheiro desviado impede o destino de recursos para a saúde pública, como a construção de hospitais; saneamento básico; para a educação, deixando de lado a construção de escolas e universidades; a moradia; a segurança; para a construção de estradas, e daí por diante. Isso é crime, que tem que ser combatido! E tem mais: quem gasta muito em campanha eleitoral é porque ou já roubou ou vai roubar. Quando eleito toma de volta o que torrou. Voto não tem preço, tem consequências!

- Mas todos são corruptos?
- Não! Tá certo que o povo anda decepcionado com a Política e com os políticos incompetentes na administração do patrimônio público. Há muitos suspeitos de envolvimento em corrupção, superfaturamento de obras, desvios de recursos e o mau uso de verbas. Daí surge o descrédito e o desinteresse do povo pela Política. Mas há, sim, políticos sérios. Por isso é importante pesquisar e escolher bem em quem votar – enfatiza a mãe.
- A sociedade deve se envolver no combate à corrupção. Nada de silêncio a esse respeito. Essa história de dizer “não adianta fazer nada” só faz aumentar o número de corruptos, que se sentem impunes. Se não há denúncia, eles vão continuar a roubar o nosso dinheiro. É preciso juntar provas, levantar indícios, denunciar fatos concretos ou suspeitos, levando-os ao conhecimento dos responsáveis junto aos órgãos competentes, como o Ministério Público. Quem trabalha com transparência não permite qualquer safadeza com o bem público!

- E como a gente fica conhecendo as propostas dos candidatos?
- Através das campanhas eleitorais, por exemplo. As propostas são apresentadas na televisão, no rádio, na distribuição de panfletos, acompanhando os debates... O eleitor deve ficar atento!
- E se a gente não quiser votar em ninguém, pode?
- Como lhe disse, Joãozinho, o voto é obrigatório. Mas o eleitor pode, se quiser, fazer um voto de protesto, ou seja, votar branco ou nulo. Porém, se agir assim, está enfraquecendo a democracia. Ele deve é votar certo!

Joãozinho e os pais foram dormir. E, no dia seguinte, o menino acordou com um grande apetite de saber tudo sobre Política.
À mesa, a mãe do garoto conversava com o pai avisando que havia recebido, no dia anterior, um comunicado da direção da escola do filho de que a unidade pública não ia mais funcionar no ano seguinte. Uma preocupação a mais para o casal, que não tinha condições financeiras de manter o filho numa escola particular.

- Mas por que a escola vai fechar? Eu não vou mais estudar com os meus amigos? – preocupa-se Joãozinho.
- Pelo visto não, filho. Vai começar tudo de novo: procurar uma escola pública para você perto de casa. Se não, vamos ter mais trabalho para lhe levar à escola – preocupa-se Maria.
- Em vez de abrir mais escolas, eles fecham as que já têm?! Absurdo! E disseram o motivo? – pergunta José.
- Disseram apenas que era um ajuste.
- Ajuste! É nessas horas, filho, que a gente tem que cobrar do Governo as ações para melhorar a Educação.

- Por isso é importante saber das propostas de cada candidato antes de votar nele. Assim a gente pode cobrar depois, não é, pai?
- Sim. Um bom político é aquele que valoriza os dois polos do ensino e aprendizado: o professor e o aluno - criança e adolescente. É preciso investir em recursos indispensáveis na capacitação dos professores. Professores mais preparados e melhor remunerados geram alunos mais interessados e com melhor rendimento em sala de aula. Uma boa proposta é que a escola chegue ao tempo integral, manhã e tarde, com espaços de estudo, esporte e lazer. E que nós, pais, possamos estar envolvidos na formação dos filhos. É preciso ainda preparar melhor a infraestrutura dos prédios das escolas e contar com material didático adequado. A merenda escolar devia ser oferecida a partir dos produtos da agricultura familiar das cidades vizinhas. Criança e adolescente fora da rua diminui a disseminação das drogas.
- Seria bom que nessas escolas de tempo integral os alunos tivessem acesso a várias atividades esportivas e também às matérias de práticas de iniciação a serviços caseiros e profissionalizantes. Jovens capacitados têm mais chances de entrar no mercado de trabalho – completa a mãe.

- Profissionalizante? O que é isso?
- São aulas que façam você aprender uma profissão, assim como o papai, que é marceneiro.
- Ah, entendi. Mas eu quero ser médico quando crescer.

- Por quê? – pergunta Maria, surpresa.
- Lembra do dia quando a senhora ficou doente e o papai ficou aperreado porque não conseguia interná-la? Desde esse dia que eu decidi ser médico para ajudar a tratar das pessoas.
- Para ser médico, filho, é preciso estudar muito. Mas não basta ser médico para melhorar a Saúde. Os políticos precisam pensar melhor nessa área. Muitos recursos destinados à saúde pública nos municípios por esse Brasil a fora são desviados pelos próprios gestores.
- E que a Medicina e as leis favoreçam à vida. É preciso garantir assistência à mulher gestante, à criança, evitando a mortalidade infantil, desnutrição, obesidade e favorecendo vacinações, e aos idosos, envolvendo familiares nos cuidados com a saúde e aposentadoria, evitando que sejam explorados e maltratados dentro da própria casa, e ainda oferecer assistência às pessoas com algum tipo de deficiência. E que não faltem profissionais nos Postos de Saúde da Família – brada o pai.

- Tá vendo, quando eu for médico vou trabalhar no PSF aqui do bairro.

- Mas cuidar da saúde vai mais além. Os políticos devem investir no sistema público, acabando com as filas intermináveis de gente à espera de atendimentos, consultas, tratamentos. Faltam remédios e acompanhamento médico-hospitalar para a maioria da população empobrecida, seja nos casos simples ou de maior complexidade. Muitos hospitais estão sucateados, sem equipamentos, leitos e sem profissionais suficientes.
- Também é importante cuidar do saneamento básico, tratamento de água e esgoto. Isso evita muitas doenças. Isso é saúde preventiva! – explica a mãe.
O pai de Joãozinho saiu para o trabalho. À noite, chegou em casa assustado. O ônibus que ele havia pego do trabalho para o lar tinha sido assaltado por dois jovens. Não usavam capuzes. Portavam facas. Pareciam menores de idade. Levaram o dinheiro do cobrador. Felizmente ninguém ficou ferido. Uma idosa passou mal e desmaiou. Mas foi socorrida por outros passageiros e logo ficou bem. Maria providenciou um chá de camomila para acalmar o marido. Joãozinho, vendo a preocupação do pai, tentou puxar conversa, baseada nas perguntas e respostas sobre a Política:

- Pai, tirar os ladrões da rua também é dever dos políticos?
- Claro que sim, filho! Hoje, a gente sai de casa e não sabe se volta vivo. Ficar na calçada de casa está tão perigoso que é por isso que nem eu nem sua mãe deixamos você brincar lá fora.
- Eu bem que queria brincar de bola com os meus amiguinhos agora à noite...
- Enquanto a violência estiver nesta escalada, você fica é dentro de casa – alerta a mãe.
- Assim como na Educação e na Saúde, os Governos também devem investir mais em Segurança. Para isso, eu acho, é preciso capacitar para o trabalho e remunerar melhor os policiais. Deveria haver uma parceria eficaz entre as Polícias Civil, Militar, Rodoviária, Bombeiros e Guarda Civil Municipal, oferecendo melhor infraestrutura para prevenir e enfrentar a criminalidade. Acredito que o combate às drogas seja fundamental para diminuir os assaltos. Muitos jovens, hoje desocupados, fora da escola, sem perspectivas de trabalho, acabam entrando na bandidagem e roubam para manter o vício. Temos que tirar as crianças e os adolescentes das mãos dos bandidos. As drogas estão destruindo as famílias. O narcotráfico precisa ser combatido.
- E a violência não fica só na cidade grande não, viu? Hoje à tarde eu recebi um telefonema do meu irmão lá do interior – informa a mãe.

- Aquele que recebeu a dentadura em troca de voto? – pergunta, rindo, Joãozinho.
- Ele mesmo, filho.

- E o que ele queria? Quase nunca liga.
- Disse que estava preocupado com a violência lá na zona rural. Que muitos agricultores lá da região já foram assaltados, perdendo o pouco que conseguiram construir com tanto esforço na lida no campo.
- Acredito que a situação esteja difícil mesmo. Se já não bastasse a seca, ainda mais a violência para afastar o homem da zona rural.
- A transposição das águas do Rio São Francisco bem que vai ajudar no combate à seca. Mas se os gestores dos municípios receptores das águas não planejarem bem a distribuição dessas águas, aí o projeto desanda. Elas devem ser usadas para as potencialidades produtivas das regiões. As obras da transposição ficaram paralisadas por muito tempo e por isso quase tudo se estragou. Tanto dinheiro rebolado no mato! A seca, que dura desde 2012, penaliza os 9 Estados nordestinos. Ainda precisamos aprender a conviver com o semiárido, contando com infraestrutura para projetos produtivos. O Governo Federal arrecada bilhões do contribuinte e empresários, mas a agroindústria não recebe incentivos. Os gastos do Governo com sua máquina administrativa absorvem as verbas que deveriam se repassadas aos Estados federados, com o Fundo de Participação, absolutamente insuficiente para gerar desenvolvimento local e regional.

- E o que os políticos podem fazer para mudar essa situação, pai?
- Podem fazer muito, Joãozinho! Acho que é preciso uma reestruturação geral no campo. Se o homem não consegue ficar na zona rural, ele vem para a cidade e acaba morando em péssimas condições, principalmente nas favelas. Muitos municípios não têm mais infraestrutura para suportar tanta gente. Os planos sobre a reforma agrária e agrícola estão defasados, por isso há tantos conflitos para o uso da terra e da água. Geram invasões ilegais baseadas em ideologias ultrapassadas. As invasões de propriedades produtivas não geraram produtividade porque não houve planejamento, assistência técnica e crédito agrícola. Acredito que os políticos devem defender o desenvolvimento sustentável, planejando a agricultura familiar em regime de cooperativas agrícolas, dando condições para a capacitação, assistência técnica e crédito aos que realmente têm vocação para se fixar na terra e torná-la produtiva. Devem criar mecanismos para a convivência da agricultura familiar com o agronegócio e a preservação ambiental. Sem planejamentos e incentivos, aumenta assustadoramente o êxodo rural.

- Êxodo rural?
- Êxodo rural, filho, é o nome que se dá à saída do homem do campo para a cidade. E tem mais: sem trabalho no campo, como é que a comida vai chegar às nossas mesas? – indaga Maria.
- Sofre o trabalhador no campo. Sofre o trabalhador na cidade. Lá na fábrica a produção está fraca. Já falam até em demissão.

- Ave-Maria, homem! Você pode ir pra rua?
- Nunca se sabe, né? Não dá mais para dormir tranquilo. O problema é que o Governo cobra impostos altíssimos. Por isso, os empresários não conseguem investir na produção. E quando as vendas diminuem, sobra pra gente, empregado, que vai parar na rua. É preciso fazer, como se diz, uma reforma tributária urgente, reduzindo e unindo alguns impostos! Simplificar. Essa é a palavra!
- O povo paga impostos “salgados”, pior que não tem acesso a bons serviços públicos de primeira necessidade.
- O Governo também não corta os seus gastos e aí acaba sobrando pouco dinheiro para investir nos setores produtivos, que são essenciais para o crescimento econômico local e regional. Como garantir inclusão social sem investir no comércio, indústria, agricultura familiar, agronegócio, por exemplo? Boa parte do atraso e da exclusão social deve-se à ausência de investimentos prioritários na Educação, Saúde, ocupação profissional qualificada com tecnologia e infraestrutura modernas. São imprescindíveis obras estruturantes. Sem energia, água, estradas, o progresso não chega! São várias as áreas que merecem atenção dos governantes: tem ainda a questão da moradia, com a construção de casas populares para as famílias de baixa renda, evitando invasões e conglomerados caóticos, onde reinam a violência e o tráfico de drogas. Não podemos esquecer de valorizar a Cultura, incentivando e financiando os artistas e os grupos locais. É preciso preservar ainda o patrimônio histórico, as raízes sócio-culturais, as potencialidades artesanais.

- Bom seria se o Governo investisse em microcréditos para pequenas empresas, na cidade e no campo, oferecendo incentivos fiscais, capacitando pessoal para serviços qualificados, formando sistemas de cooperativas. Hoje, concorre no mercado somente quem se qualifica profissionalmente.

- E... Agora a conversa ficou chata! Imposto, reforma tributária... Muita coisa difícil de entender – esbravejou Joãozinho.

- Conversa pra gente grande, filho. Mas que interessa a todos, principalmente a você. Porque é o seu futuro que está em jogo. O nosso voto não tem preço, mas tem consequências! Se a gente erra na escolha, acaba colocando políticos incompetentes no comando das nossas vidas. E aí eles não vão valorizar as famílias, não vão gerar oportunidades de trabalho e ocupação e renda, distribuindo-a de forma justa, e não vão construir obras estruturantes para o desenvolvimento do nosso País e Estado. É preciso criar riquezas e dar oportunidades a quem mais precisa, ou seja, os menos favorecidos – explica José. Tá ficando tarde. É hora de dormir.
- Como dormir direito com tantos problemas? É escola sendo fechada, é falta de médicos, é insegurança geral nas cidades, é falta de incentivo para o homem do campo, é medo de demissão no trabalho... – diz Maria, preocupada.

- Mas essa história pode mudar. É só vocês, no dia das Eleições, votarem certo! – finaliza Joãozinho.

Mês da Bíblia: Um olhar sobre o Evangelho de São Mateus.

sábado, 13 de setembro de 2014

Levanta Elias: Música de Frei Petrônio.

Exaltação da Santa Cruz

Levantar os olhos para a cruz é fazer um ato de fé no Cristo levantado, mas já refeito e glorioso, no momento exato em que deu a maior prova de amor, a de sermos também nós levantados e refeitos. Fazer o sinal da cruz é manifestar em nós mesmos que em nosso batismo fomos mergulhados na morte de Jesus para que com ele ressuscitemos.
A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras da Festa da Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro de 2014). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Eis o texto.
Referências Bíblicas:
1ª leitura: Números 21,4-9
2ª leitura: Filipenses 2,6-11
Evangelho: João 3,13-17

Levantado da terra
É curioso ler a expressão «Cruz gloriosa» sem despertar qualquer surpresa. E esta, no entanto, é uma fórmula quase escandalosa. É como se disséssemos «alegre cadafalso» ou «feliz guilhotina». A cruz é hedionda, é suja, é repugnante. Mas a Cruz do Cristo é gloriosa, por causa do amor que O levou a querer participar do nosso maior sofrimento, a tomar o lugar de todos os que punimos, perseguimos e eliminamos da comunidade dos homens. Muitos de nós clamamos por vingança, mas as nossas vinganças acabam, finalmente, voltando-se todas contra Deus; são a crucifixão do amor. Amor, isto é, Deus que, no entanto, ressurge sempre onde menos se espera. O fato de Jesus aceitar a cruz que erguemos para ele é o ato de amor insuperável, mais forte do que a morte; a morte que foi acolhida por ele. Por isso, para ele a cruz não será o sepultamento em baixo da terra, mas a exaltação no mais alto da terra. João vê na serpente de bronze da primeira leitura uma prefiguração do Cristo crucificado. As duas figuras se ligam: os Hebreus estavam interiormente destruídos pela dúvida que os obcecava: dúvida mortal que foi representada pelas serpentes venenosas. O remédio será a figura destas serpentes que são também representações. O mal interior, escondido, será «levantado da terra» e se tornará visível na forma de uma serpente de bronze. Os que aceitarem olhar para ela, tomando consciência do que ela representa, serão curados. O Cristo crucificado afixa diante de nós seja a nossa maldade assassina seja o seu contrário, o amor que a supera.

A nossa morte é assumida na morte do Cristo
Deste modo, olhando o Cristo crucificado, podemos tomar consciência do nosso pecado e do amor que levou Jesus a fazer-se ostensivamente a sua vítima. Desposou assim todas as nossas fraquezas e Paulo não hesitou em escrever que ele fez-se pecado por nós (2 Coríntios 5,21). Aqui O temos, pois, feito um só conosco, totalmente «encarnado», inclusive no que há de pior. Como fez suas todas as nossas mortes e tudo o que as anuncia, que as prepara e as provoca, tudo o que temos de sofrer, mesmo por nossa culpa, torna-se a sua morte e encontra-se afixado na cruz gloriosa. Não vamos tentar nos eximir: somos solidários com tudo o que destrói, suprime, atropela, humilha as outras pessoas. Vamos repetir, quando somos tentados pela ilusão de nossa inocência, lembremos que não sabemos o que teríamos sido nem o que teríamos feito se, em vez de nascer num ambiente protegido, tivéssemos 20 anos na Alemanha de Hitler ou se tivéssemos passado a nossa juventude nalguma dessas comunidades de periferia, dominadas por milícias ou pelo tráfico de drogas, um deserto de amor. Jesus dá a sua vida e a sua morte pelos carrascos e pelas vítimas. Então, o inverso torna-se verdade: uma vez que o Cristo esposou a nossa morte, as nossas mortes todas esposam a sua. Tudo o que a vida nos dá para suportar torna-se cruz gloriosa; não um desperdício. A nossa morte torna-se a sua morte, prometida à ressurreição. O amor não pode morrer.

A vitória da vida
Alguns vão achar que, aqui, estamos falando muito de morte, de sofrimento e de pecado. Será que esta é uma religião mórbida? Não seria melhor, sendo o Evangelho a «boa nova», falar de vida, de alegria, de ação de graças? Pois, na realidade, é exatamente o que fazemos: procuramos explicar que a vida, a alegria nascida da esperança, o reconhecimento não conhece nem tempos mortos nem lugares vazios.
O mais baixo que possamos descer, no pior dos infernos, aí vamos encontrar o Cristo a nossa espera: «nem a morte nem a vida (…), nem o presente nem o futuro, nem a altura nem a profundidade, nem outra criatura qualquer será capaz de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus…», escreve Paulo em Romanos 8,38. Se somos levados a falar sobre o mal e o pecado, não é por masoquismo, mas para não fecharmos os olhos e o coração diante de todos os sofrimentos e aberrações que afligem os cinco continentes. Ainda uma vez, somos solidários com tudo isso.
A cruz é gloriosa porque por ela é que Deus, utilizando o mal que fazemos e o que sofremos, abre o caminho ao nascimento de uma vida nova. Que a morte seja condenada a produzir a vida, uma vida inalterável e destinada à alegria, esta é a maravilha que nos reergue quando fraquejamos. «Ópio do povo»? Certamente que não, pois esta espécie de sono irá permanecer impossível enquanto mantivermos os olhos fixados naquele a quem trespassamos.


A Voz do Pastor - Exaltação da Santa Cruz - Domingo 14/09/2014

A PALAVRA... Nº 689. O Carmo em Belo Horizonte.

A PALAVRA... Nº 685. O Livro de mil e uma utilidades.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 688. Jesus e os corruptos.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

ORDENAÇÃO DIACONAL DO FREI MÁRCIO: Convite.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 687. A Inveja na Bíblia.

Encruzilhada eleitoral

Dom Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo de Belo Horizonte (MG)


Na medida em que se entra na reta final para as eleições 2014, a propaganda avança e as pesquisas impactam. O cidadão se vê numa encruzilhada eleitoral. Um enorme desafio à cidadania. Não basta apenas escolher um nome. O alcance da responsabilidade e das consequências do voto não permitem atitude simplória, sob pena do alto custo de decisões inadequadas sobre o executivo e a representatividade. Uma gama enorme de fatores interfere na consolidação dessa esperada postura cidadã, obviamente na contramão da inadmissível proposta do voto nulo ou do não comparecimento às urnas. Eleições garantem o exercício nobre da cidadania. Por isso mesmo, supõem e exigem preparação individual muito mais elaborada. Um espinhoso processo de discernimento pela articulação e confronto desta gama de fatores que perpassam o emocional, as razões ideológicas - necessariamente presentes no embate eleitoral - e os interesses econômicos, atingindo um horizonte político de maior elaboração e clarividência. Fácil não é.
Escolher apenas por simpatia, sob impulso, é um tremendo risco. É indispensável analisar programas e propostas das coligações partidárias e ponderar elementos, especialmente aqueles de inegociável sensibilidade social, num momento em que o pobre e o excluído precisam ter prioridade de tratamento e destinações. Também não se pode dispensar o compromisso dos que têm competência para gerar e garantir dinâmicas de crescimento econômico e a consequente inclusão social. Trata-se de um exercício político que inclui atividade de conhecimento e disposição para debates e confrontos, nas rodas familiares, de amizade e profissionais, em exigente processo de discernimento. Agora é hora de buscar indispensável avanço na sociedade.
Os vícios da política brasileira e suas mediocridades não justificam a falta de envolvimento e empenho por parte dos cidadãos. Aliás, a construção do novo, em política e em cenários de igualdade social, é processo complexo que supõe um passo a passo até que se possa alcançar a meta, responsabilidade de todos, de uma sociedade mais civilizada e amadurecida no exercício e no tratamento de sua cidadania. Basta pensar a amplitude de reformas que precisam ocorrer para que um cenário novo se desenhe, superando o modo obsoleto de se fazer política no Brasil.
Sabe-se que sem reformas política, tributária, fiscal e outras não se avançará para além de discursos repetitivos, estéreis, e de promessas que caem no descrédito. Neste “passo a passo” para que as reformas aconteçam, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e outras 400 entidades continuam, nesta Semana da Pátria, a investir no Projeto de Lei de Iniciativa Popular pela Reforma Política. Ao oferecer critérios adequados para avaliar a qualidade dos candidatos ao Executivo e, sobretudo, ao Legislativo, esta proposta impactará a realidade política do Brasil. Não custa nada contribuir com sua assinatura e buscar outras, entre amigos e familiares. Só assim, será possível se chegar ao número exigido de adesões para que o projeto da Reforma Política passe a tramitar no Congresso Nacional. Um desafio à hombridade dos eleitos e à coragem de olharem para além dos interesses cartoriais e particulares.
Este Projeto de Lei, nos seus quatro importantes itens, terá força para modificar o atual quadro político do Brasil. Por meio dele, será possível afastar o poder econômico das eleições, com a proibição do financiamento de campanhas eleitorais por empresas; cobrar coerência de candidatos e partidos com a eleição em dois turnos - o primeiro para a escolha de um programa e o segundo para a escolha das pessoas que ocuparão os cargos políticos. Não se pode simplesmente, como acontece na realidade brasileira, depositar tudo nas mãos de algumas pessoas para que governem e legislem a partir de interesses próprios, de trocas e de pagamento de favores. A Reforma Política cobrará, ainda, a urgência inteligente de aumentar a participação das mulheres. Embora constituam 58% do eleitorado, apenas 8% delas desempenham funções políticas. É enorme a perda da contribuição feminina neste setor, em vista de sua qualificação comprovada em outras áreas.
É precioso ainda, como quarto ponto da proposta de Reforma Política, ampliar a participação do povo nas principais decisões, por meio da regulamentação de Plebiscito, Referendo Popular e Projeto de Lei de Iniciativa Popular, mesclando a democracia representativa com a democracia participativa. O não atendimento a esta urgência resultará em continuar a manter o povo - verdadeiro dono do poder - submisso a essa representatividade que não o representa. Refém de dirigentes que não atendem suas necessidades básicas e de direito, gerando quadros na contramão da justiça social.
Neste mesmo ato de coleta de assinaturas pela Reforma Política, como celebração digna da Semana da Pátria, se faz o recolhimento de votos por uma Assembleia Nacional Constituinte para mudar o sistema político no Brasil. O caráter popular deste plebiscito é um exercício importante de cidadania e com impacto nas instâncias governamentais para que convoquem um plebiscito oficial. O discernimento neste momento eleitoral e o gesto cidadão de participar desta coleta de assinaturas ajudarão a desenhar um novo cenário para que não seja tão nebulosa, como está agora, desafiando a todos, com riscos muito sérios, a atual encruzilhada eleitoral.

Em quem votar

Dom Fernando Arêas Rifan,
Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney (RJ)

Aproximam-se as eleições. Devemos encará-las com seriedade para votar certo e bem, pois do nosso voto também depende o futuro do nosso país e a definição da vida política de nossa pátria. Por isso, nós, Bispos do Estado do Rio de Janeiro, fizemos uma pequena cartilha de recomendações para essas eleições, que tem sido distribuída nas igrejas.
A Igreja não tem partidos nem candidatos. Não impõe nomes a serem sufragados nem obriga a votar em determinados candidatos. Somos contra o clientelismo e o chamado “voto de cabresto”. Assim como a Fé, o voto deve ser racional. A Igreja deixa à livre e responsável decisão dos eleitores católicos a escolha em quem votar. Ajuda-nos, porém, nessa reflexão. Diz, sobretudo, em quem não votar. Há candidatos e partidos que não podem receber o nosso apoio.
Procure conhecer os candidatos: conduta, ideias e partidos. Observe se seus candidatos estão comprometidos com a justiça, segurança, combate à violência, dignidade da pessoa, respeito pela vida humana desde a concepção até a morte natural. Não vote em candidatos ou partidos, que sejam favoráveis ao aborto e à eutanásia. Vote apenas em candidatos que promovam e defendam a família, segundo sua identidade natural conforme o plano de Deus.
Jamais se deve votar em candidatos comprovadamente corruptos. “É muito difícil que um corrupto consiga voltar atrás”, falou o Papa Francisco aos Parlamentares italianos. Dê o seu voto apenas a candidatos com “ficha limpa”, pois o homem público deve ter honestidade. Diga não à corrupção. Mas não só dos políticos e candidatos como à tentação de corrupção, que cada um de nós sente: não favoreça a corrupção eleitoral, à compra de votos, votando por interesse material e não com consciência. Voto não é troca de favores.
Ademais, observe se o candidato trabalha para o bem comum ou para o seu próprio interesse. Veja se ele representa apenas o seu grupo ou partido ou se pretende promover políticas que beneficiam a todos: o bom governante e legislador governa e faz leis para todos.
Vote em candidatos comprometidos seriamente com a superação da pobreza, com a educação, saúde, moradia, saneamento básico, respeito à vida e ao meio ambiente. “Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos que levem verdadeiramente a sério a sociedade, o povo, a vida dos pobres” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, 205).
Vote em candidatos que respeitem a liberdade religiosa e de consciência, não sejam fanáticos nem fundamentalistas religiosos, e que garantam o ensino religioso confessional e plural nas escolas públicas.
Pelo seu passado e pelo seu discurso se pode conhecer o candidato. E acompanhe os políticos depois das eleições, para cobrar deles o cumprimento das promessas de campanha e apoiar suas ações políticas e administrativas.
Essa participação na política é o importante e correto exercício da cidadania. Lembre-se que voto não tem preço, não se compra nem se vende. E tem várias e sérias consequências.

ORDEM TERCEIRA DE DIAMANTINA/MG: Retiro-02

terça-feira, 9 de setembro de 2014

RETIRO COM FREI PETRÔNIO: Testemunho de Vida.

A PALAVRA... Nº 684. Os Carmelitas e Feira Grande.

CAPELA DO CARMO DE DIAMANTINA: Um Olhar

A PALAVRA... Nº 685. O Fanatismo Político em Alagoas.

A PALAVRA... Nº 685. O Livro de mil e uma utilidades.

A NOITE ESCURA DE SÃO JOÃO DA CRUZ: Palestra de Frei Petrônio de Miranda, O. Carm.


ORDEM TERCEIRA DE DIAMANTINA/MG.
Encontro sobre a Espiritualidade Carmelitana.
Dia 07 de setembro -2014.
Com Frei Petrônio de Miranda, O.Carm
(E-mail do Frei: missaodomgabriel@bol.com.br)
Tema: A Noite Escura de São João da Cruz.

            São João da Cruz (1540-1591), filho de Elias, pela vida e pelos escritos mostrou conhecer noites escuras pontilhadas de estrelas ou de trevas sem luz. E ensina a caminhar.
            A Noite Escura "é o fim do narcisismo e da abstração, é disponibilidade para o encontro com o outro e com os outros. É a constante adaptação do homem a Deus. Não é um breve período de crises, mas uma situação permanente, porque nunca nós acabamos de nos adaptarmos à lógica divina, ao amor de Deus. Atitude crítica para consigo mesmo e perante a realidade; discernimento frente à história e dentro da história; uma consciência da relatividade das metas alcançadas, concedendo espaço para a novidade do Espírito. A noite é consequência do amor, é escola de amor. É o meio pelo qual se consegue uma nova consciência: tornamo-nos mais livres para Subir a Montanha sem que Nada se interponha (1S,13)".
Elemento essencial da Noite em São João da Cruz é a ação de protagonista do Espírito Santo: esta ação ilumina motivações profundas, estruturas interiores escondidas. É uma verdadeira desintegração criadora, uma autêntica descida aos infernos, que das bases arranca as pilastras.
Não causa surpresa, portanto, que São João da Cruz fale de morte viva, de situação horrível. E, de mais a mais, é uma fase necessária e obrigatória; assim ele fala no início da Subida: "geralmente deve a alma passar primeiro pelo meio de dois principais aspectos de trevas... ou noite" (1S 1,1). Não é paralisia, abandono, abatimento, inércia. A alma passa pelo meio da noite, e a noite, pelo meio da alma. Se assim é, então no centro de tudo não está primariamente à atividade da pessoa, mas o processo de reação teologal frente ao agir de Deus; para alcançar "um mais íntimo saber".
            Tende-se hoje a aplicar o processo da Noite a situações de sofrimento e desespero das pessoas em particular, mas também de grupos e da própria sociedade. Segundo o Papa João Paulo II, hoje santo, o "O Doutor Místico exige hoje a atenção de muitos crentes e não crentes para a descrição que ele mesmo faz da noite escura como experiência tipicamente humana e cristã. A nossa época viveu momentos dramáticos, nos quais o silêncio ou ausência de Deus, a experiência de calamidades e sofrimentos, como guerras ou o próprio holocausto de tantos seres inocentes, fizeram compreender melhor esta expressão, dando-lhe, além disto, um caráter  de experiência coletiva aplicada à própria realidade da vida e não somente a uma fase do caminho do espírito. A doutrina do Santo é invocada hoje diante deste mistério insondável da dor humana (...). A esta experiência, deu João da Cruz o nome simbólico e evocador de noite escura, com uma referência explícita à luz e obscuridade do mistério da fé".
            Com naturalidade se fala de noite escura quando se recorda a tragédia dos campos nazistas, onde havia desaparecido todo senso de dignidade e compaixão humana, enquanto milhões de pessoas se encontravam como num túnel escuro, num caos de sofrimentos e trevas. História horrenda sepultada nas entranhas da memória coletiva e que até hoje inquieta a todos nós. Usou-se a metáfora Noite Escura, ao se falar da oposição dos intelectuais americanos à guerra do Vietnã; podemos falar da noite escura para expressar à realidade dos moradores de rua das grandes metrópoles, dos jovens drogados e dos milhares de seres humanos a margem da sociedade do consumo e da produtividade excessiva.


A Noite Escura de Elias
O Profeta Elias, feliz na tranquilidade de Carit ou no aconchego da casa pobre da mulher de Sarepta e seu filhinho, é despertado pela tristeza da morte de um menino: é escuridão. "Javé, meu Deus, matando o filho dela, o Senhor quer afligir até mesmo esta viúva que me deu hospedagem?" (1Rs 17,20).  "Responda-me, Senhor! Responda-me!" (1Rs 18,37). "Javé, agora já é demais! Pode tirar a minha vida, pois não sou melhor do que os meus pais!" (1Rs 19,4). Comeu e bebeu e tornou a prostrar-se (1Rs 19,6). Depois quarenta dias e quarenta noites a caminho, sem comer nem beber (1Rs 19,8). "Estou só e querem tirar-me a vida!" (1Rs 19,10.14). Javé não estava não, nem no furacão desmantelador de montes e rachador de rochedos. Javé não estava nos tremores de terra, não (1Rs 19,11). Javé não estava no furor do fogo e dos raios, também não. Estava sim numa brisa calma, que cobriu Elias com o manto e com força o trouxe fora das cavernas (Rs 19,12-13). Um carro de fogo e cavalos de fogo arrancaram Elias de junto de Eliseu, e num redemoinho de fogo lá se foi Elias para o céu. Noites e luzes. Procurado por três dias (2Rs 2,11.17)[1]
Noite Escura de Maria
Virgem feliz em casa de Joaquim e Ana, mas é preciso dizer sim à vontade de Javé: "Eis-me aqui! Eu sou a escrava do Senhor. Aconteça em mim tudo segundo a tua palavra" (°1,38).
É preciso deixar pai e mãe e Nazaré, com muita coisa preparada para o nascimento e seguir José até Belém. Na hospedaria não há lugar e o Menino não vai esperar mais: Ela mesma tem de envolvê-Lo em faixas e acomodá-Lo dentro da manjedoura (°2,5.6.7). O boi e burro tenham paciência, e as mansas ovelhinhas... É preciso que o velho Simeão venha com aquela profecia? Para rebaixamento e soerguimento? Alvo diante da contradição? Uma espada que transpassa a alma? O velho estava vendo a Virgem-Mãe de pé junto à Cruz? (2,34-35)...
Noite Escura de Jesus
Menino unido com a Mãe que faz parte e participa da Noite Escura da Mãe nos mistérios da sua infância. Cresce e, conduzido pelo Espírito, caminha pelo deserto de Elias. Tem fome e é tentado pelo chato do diabo, que se cansa e o deixa em paz.
            Em Jerusalém causa-Lhe lágrimas e tristeza, e sentida elegia e lamentação. Amor traído faz sofrer. Jesus chorou. Quis ser como a galinhazinha de Nazaré, que com carinho sempre juntava a ninhada debaixo das asas, mas Jerusalém não quis...
            No meio da Escuridão é preciso falar com os amigos sobre a beleza da Luz e das alegrias do Reino: "o meu Corpo é dado em sacrifício por vós", "o meu Sangue é derramado por vós": "no meu Reino haveis de comer e beber à minha mesa" (22,19-20.30). Esperança: consolo e esperança somente...
PARA MEDITAÇÃO. Texto Bíblico. (1º Reis, 19, 1-9)
1º- Como a Espiritualidade Carmelitana, vivenciada pelos mártires e santos carmelitas; Simão Stock, Tito Brandsma, Edith Stein, Isidoro Bakanja, João da Cruz, Santa Teresinha... Ajuda-me a superar as noites escuras diárias?




sábado, 6 de setembro de 2014

ORDEM TERCEIRA DE SERRO-MG: Retiro-01.

Eleições 2014 - Vídeo 1 - Mais uma vez, eleições

23º Domingo do Tempo Comum. A graça de poder perdoar (Mt 18,15-35)

Frei Carlos Mesters, Lopes e Orofino.

Nesta reflexão para o evangelho do próximo domingo, Jesus nos fala da necessidade de perdoar o irmão, a irmã. Não é fácil perdoar, pois certas mágoas continuam machucando o coração. Há pessoas que dizem: “Eu perdoo, mas não esqueço!” Rancor, tensões, brigas, opiniões diferentes, ofensas, provocações dificultam o perdão e a reconciliação.

1-  Situando
1. Leremos a segunda parte do Sermão da Comunidade e meditar sobre ela. Veremos os assuntos da correção fraterna (18,15-18), da oração em comum (18,19-20), do perdão (18,21-22) e a parábola do perdão sem limites (18,23-35).
2. A organização das palavras de Jesus em cinco grandes Sermões mostra que, já no fim do primeiro século, as comunidades tinham formas bem concretas de catequese. O Sermão da Comunidade, por exemplo, traz instruções atualizadas de como proceder caso algum conflito surgisse entre os seus membros. Eram como cinco grandes setas no caminho que apontavam o rumo da caminhada e ofereciam critérios concretos para solucionar conflitos.

2-  Comentando
1.    Mateus 18,15-18: A correção fraterna e o poder de perdoar
Jesus traz normas simples e concretas de como proceder no caso de algum conflito na comunidade. Se um irmão ou uma irmã pecar, isto é, se tiver um comportamento não de acordo com a vida da comunidade, não se deve logo denunciá-los. Primeiro, procure conversar a sós. Procure saber os motivos do outro. Se não der resultado, leve mais duas ou três pessoas da comunidade, para ver se conseguem algum resultado. Só em caso extremo, deve levar o problema para a comunidade toda. E se a pessoa não quiser escutar a comunidade, que ela seja para você como um publicano ou pagão, isto é, como alguém que já não faz parte da comunidade. Não é você que a está excluindo, mas é a pessoa que se exclui a si mesma.

2. Mateus 18,19: A oração em comum
Essa exclusão não significa que a pessoa seja abandonada à sua própria sorte. Ela pode estar separada da comunidade, mas não estará separada de Deus. Caso a conversa na comunidade não der resultado, e a pessoa não quiser integrar-se na vida da comunidade, resta o último recurso de rezar juntos ao Pai para conseguir a reconciliação. E Jesus garante que o Pai vai atender.

3.  Mateus 18,20: A presença de Jesus na comunidade
O motivo da certeza de ser ouvido é a promessa de Jesus: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, estarei no meio deles!” Jesus diz que ele é o centro, o eixo, da comunidade e, como tal, junto com a comunidade estará rezando ao Pai, para que conceda o dom do retorno ao irmão ou à irmã que se excluiu.

4.  Mateus 18,21-22: Perdoar setenta vezes sete!
Diante das palavras de Jesus sobre a reconciliação, Pedro pergunta: “Quantas vezes devo perdoar? Sete vezes?” Sete é um número que indica uma perfeição e, no caso da proposta de Pedro, sete é sinônimo de sempre. Mas Jesus vai mais longe. Ele elimina todo e qualquer possível limite para o perdão: “Não te digo até sete, mas até setenta vezes sete!” Pois não há proporção entre o amor de Deus para conosco e o nosso amor para com o irmão. Jesus conta uma parábola para esclarecer a sua resposta a Pedro.

5.    Mateus 18,23-35: A parábola do perdão sem limite
Dívida de dez mil talentos é 164 toneladas de ouro. Dívida de cem denários é de 30 gramas de ouro. Não existe meio de comparação entre os dois. Mesmo que o devedor junto com mulher e filhos fosse trabalhar a vida inteira, jamais seria capaz de juntar 164 toneladas de ouro. Diante do amor de Deus que perdoa gratuitamente nossa dívida de 164 toneladas de ouro, é nada mais que justo que nós perdoemos ao irmão a dividazinha de 30 gramas de ouro. E atenção! O único limite para a gratuidade da misericórdia de Deus é a nossa incapacidade de perdoar o irmão. (Mt 18,34; 6,15).

3. Alargando
A comunidade como espaço alternativo de solidariedade e fraternidade
A sociedade do Império Romano era dura e sem coração, sem espaço para os pequenos. Estes buscavam um abrigo para o coração e não o encontravam. As sinagogas também eram exigentes e não ofereciam um lugar para eles. Nas comunidades, o rigor de alguns na observância da Lei levava para a convivência os mesmos critérios injustos da sociedade e da sinagoga. Assim, nas comunidades começaram a aparecer as mesmas divisões que existiam na sociedade e na sinagoga entre rico e pobre, dominação e submissão, falar e calar, carisma e poder, homem e mulher, raça e religião. Em vez de a comunidade ser um espaço de acolhimento, tornava-se um lugar de condenação. Juntando palavras de Jesus neste Sermão da Comunidade, Mateus quer iluminar a caminhada dos seguidores e das seguidoras de Jesus, para que as comunidades sejam um espaço alternativo de solidariedade e de fraternidade.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 683. Evangelho Dominical.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O CARMO EM SERRO E DIAMANTINA-MG: Convite.

ELIAS PROFETA NOS LIVROS DOS REIS. (1ª Parte)

Frei Alexander Vella, O.Carm.

1-  Ambiente histórico-religioso

Elias, como aliás todos os outros profetas, era ao mesmo tempo homem-de-seu-tempo, sofrendo os influxos próprios de seu ambiente, e homem-fora-do-tempo, com horizontes muito vastos que não se deixa fechar em esquemas fixos, nem mesmo no plano religioso. Fiel a tradição religiosa genuína de seu povo, o profeta não revive no­stalgicamente o seu passado. Vive intensamente o presente, mais intensamente do que a maior parte dos seus contemporâneos, porém sem alienação, com a capacidade de julgar o presente à luz de Deus. Sonha também ele com um futuro melhor, mas não se ilude, porque está consciente de que o futuro é uma construção que fazemos com nossas escolhas e nossas ações do presente. Devido a este enraizamento do profeta no seu pre­sente, é absolutamente necessário um conhecimento do seu ambiente histórico-religioso para bem compreender sua pessoa, sua mensagem e sua ação na história da salvação.
A história de Elias se desenvolve no Reino do Norte - Israel - no séc. IX A.C. Era tempo de prosperidade, assinalado por grande abertura para as nações vizinhas, como no tempo de Salomão. Era também um tempo de forte crise religiosa ou de sincretismo religioso, como se convencionou chamá-lo; consistia na assimilação dos elementos estranhos à própria religião, tomados de outra religião, com a consequente confusão, tanto no plano teológico como no plano prático-moral.
O sincretismo não era um problema novo para Israel. Realmente, desde a entrada dos Israelitas na terra de Canaã a religião cananéia passou a mesclar o javismo com idéias e práticas que lhe eram estranhas, e mesmo totalmente contrárias. Isto se tornou mais forte quando Davi estende o seu Reino por toda a terra prometida, incorporando nele in­teiras populações de cananeus que nem sempre se convertiam ao Deus de Israel ou, pior ainda, trocavam apenas o nome da divindade que adoravam sem verdadeira mudança de sua religião.
A religião dos cananeus era uma religião da natureza. Baal, o seu deus, era imagi­nado como um imenso touro que fecunda a mãe terra com a chuva, tornando-a fértil. Torna-se evidente porque Jeroboão, primeiro rei do norte, permite o culto ao bezerro de ouro em Betel e Dan, e são seus adoradores considerados idolatras pela tradição bíblica (1 Reis 12,28-30).
Provavelmente estes bezerros, no início, serviam apenas como o pedestal para o trono do Senhor, tal como os querubins o eram para a Arca da Aliança no templo de Jerusalém. Mas, não se pode excluir também que, com os seus bois, Jeroboão pretendia também ganhar a simpatia dos cananeus que estavam concentrados no seu reino.
Pode-se dizer então que as duas religiões, a javista e a de Baal existiam uma ao lado da outra. Os israelistas não abandonaram o Deus de seus pais, o Deus do Êxodo, mas junto a ele adoravam Baal, o deus da terra em que se encontravam. Acreditavam ter real necessidade de Baal por este ser o deus que tornava fecunda a sua terra, coisa que o Deus dos seus pais - Deus do deserto, não podia fazer. Isto é puro sincretismo religioso. Mas, havia também outro tipo de sincretismo, talvez mais perverso: adorar o Senhor como se fosse Baal, isto é, reduzindo-o a dimensões humanas; um deus que existe para satisfazer as necessidades do homem.
Esta situação se intensificou sob os reis Omri e Acab. Omri fez de Samaria, uma cidade cananéia onde havia um templo dedicado a Baal, a sua capital. Para consolidar a sua política de alianças com os reis vizinhos, Omri escolhe para esposa de seu filho Acab a filha Jesabel de Et-Baal, rei de Tiro e sacerdote de Baal. Este casamento, como era costume na época, comportava certa aliança entre os dois povos também no plano religioso. Tal compromisso levou Acab a construir uma capela no palácio real para o deus de Jesabel. Acab não abandonou o seu Deus: dá nomes javistas a seus filhos (Acazia, Ioram e Atalia) e se cerca dos Profetas do Senhor (1 Reis 22,5-12). Entretanto junto ao Senhor venera Baal e permite a Jesabel exercer seu papel de verdadeira mis­sionária de Baal.
            A identidade precisa do Baal, venerado por Jesabel, está amplamente discutida pelos biblistas porque o nome Baal é muito genérico. Alguns estudiosos de grande pre­stigio (Kittel, Eissfeldt, de Vaux) o identificam com Melgart, o deus de Tiro, que era provavelmente venerado também em alguns outros lugares. Entretanto, não existe nenhuma informação precisa sobre Melcart no tempo de Elias e por isso não podemos saber se é mesmo ele o deus de Jesabel. Galling sugeriu Baal-Carmel, um deus local vene­rado no Monte Carmelo. Entretanto, parece improvável que Jesabel propagasse o culto do deus do Carmelo, em vez do seu Baal de Tiro. As notícias que se tem do Baal-Carmel remontam apenas a época romana. Eissfeldt identificou o Baal de Jesabel com Baalshamen, um deus cujo culto floresceu desde o fim do 2º milênio antes de Cristo, du­rando bem uns dois mil anos. Outros, como Bronner, o identificam com o grande deus da tempestade do segundo milênio antes de Cristo, conhecido através dos textos encontra­dos em Ugarit na Síria. O problema é que existe uma grande distancia de tempo entre estes textos e aqueles bíblicos que se referem a Elias. Contudo, são tantos os paralelos entre estes textos que não é possível excluir uma certa relação entre o Baal de Ugarit e o Baal de Jesabel.
Ainda que fosse este Baal, a propagação de seu culto era assaz fácil em Israel de­vido ao grande número de cananeus presente no Reino e ao sincretismo já existente entre os israelitas. Sob a influência de Jesabel, Baal torna-se o deus que se venerava na corte e na cidade, enquanto nos lugares menores continuava-se com o sincretismo. O Senhor estava se tornando apenas mais um deus no panteão cananeu e nada mais. O javismo, que por sua natureza é uma religião exclusivista, estava para ser assimilado e absorvido pelo baalismo.

É nesta perspectiva que se deve ler a vida de Elias. Realmente a sua história não é simplesmente aquela de um profeta contra um rei déspota, mas é a luta entre o javismo e o baalismo porque na concepção do profeta as duas religiões se excluem.