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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Frei Cláudio van Balen, mestre e amigo.

Frei Gilvander Luís Moreira, O.Carm.

 "Frei Cláudio tem uma história de compromisso com a luta pelos direitos humanos durante a ditadura militar-civil-empresarial, pois, junto com outros frades, colocou a Igreja do Carmo como uma trincheira que oxigenava a luta contra a ditadura. Por isso teve que responder Inquérito militar. Com essa história, frei Cláudio sempre compreendeu minha luta ao lado dos movimentos sociais populares, pois sabe que hoje uma ditadura econômica paira sobre a maioria do povo", escreve em artigo Gilvander Luís Moreira, frei e padre da Ordem dos carmelitas, assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT, assessor do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – CEBI, assessor do Serviço de Animação Bíblica - SAB e da Via Campesina em Minas Gerais.

Eis o artigo.

Pelo frei Cláudio van Balen nutro uma eterna gratidão e o considero um dos meus mestres. Tive a alegria e a responsabilidade de morar na mesma comunidade junto com frei Cláudio e ao lado dele trabalhar na pastoral daIgreja do Carmo, de Belo Horizonte, MG, durante dez anos, de junho de 2000 a junho de 2010.

Durante o meu mestrado em exegese Bíblica em Roma, Itália, fui muito apoiado, através de cartas e etc, por muita gente do CEBI , da CPT , das CEBs e do MST de Minas Gerais, pois antes de ir para Roma eu tinha trabalhado na assessoria do CEBI, CPT, CEBs e MST de Minas. Por isso eu sentia-me com a missão de continuar a missão em Minas. Perguntei ao frei Cláudio se eu poderia fazer parte da Comunidade do Carmo, após voltar de Roma. Ele, prontamente, disse que sim. Fui vigário na Igreja do Carmo por 7,5 anos, auxiliando frei Cláudio na condução de uma evangelização emancipatória na comunidade do Carmo, ao mesmo tempo em que assessorava as CEBs, CPT, CEBIe o MST em Minas Gerais. Isso implicava que eu tinha que viajar muito e ficar boa parte do meu tempo fora da Igreja do Carmo. Frei Cláudio sempre se mostrou compreensivo diante de minhas “ausências”. Aliás, sempre me apoiou e sempre me incentivou a continuar apoiando a luta dos pobres que buscam seus direitos de forma organizada. Inclusive me disse algumas vezes: “Se eu tivesse a sua idade – 30 anos mais jovem -, eu estaria como você colocando fogo no mundo”.

Frei Cláudio tem uma história de compromisso com a luta pelos direitos humanos durante a ditadura militar-civil-empresarial, pois, junto com outros frades, colocou a Igreja do Carmo como uma trincheira que oxigenava a luta contra a ditadura. Por isso teve que responder Inquérito militar. Com essa história, frei Cláudio sempre compreendeu minha luta ao lado dos movimentos sociais populares, pois sabe que hoje uma ditadura econômica paira sobre a maioria do povo.

Com frei Cláudio, os momentos de almoço, de reuniões, de palestras, de correção de textos e conversas informais eram sempre momentos de formação teológica na linha libertadora. Eu sempre pedia ao frei Cláudio e ao saudosoEliseu Lopes – grande biblista do CEBI – para corrigirem os meus textos. Com alegria eu acatava quase todas as sugestões de melhorias nos meus textos. E frei Cláudio humildemente sempre pedia que eu corrigisse os seus textos e aceitava quando eu sugeria mudar algumas palavrinhas, em uma troca mútua de conhecimentos e experiências.

Durante 10 anos eu celebrei a missa na Comunidade da Vila Acaba Mundo, comunidade da Igreja do Carmo, aos domingos, às 09:00h da manhã. Eu voltava e fazia questão de chegar a tempo de assistir a homilia do frei Cláudio na missa das 11:00h. Quanto aprendizado! Frei Cláudio, assim como o profeta Oséias, nos estimula sempre a fazermos autocrítica e não nos acomodar no jeito de pensar e agir tradicionalmente Frei Cláudio é um exímio crítico do poder religioso. Hoje, na sociedade capitalista – individualista, consumista e mercantilizadora de tudo – para as igrejas e pessoas religiosas criticarem os podres da política e da economia é menos difícil, mas criticar o poder religioso e os funcionários do templo é muito complicado, é mexer em um vespeiro. Mas frei Cláudio, destemidamente, ajuda-nos a desmascarar as opressões veladas, sutis e, muitas vezes, disfarçadas de propostas religiosas que aparentemente se dizem humanizadoras, mas são na prática moralistas, doutrinadoras, proselitistas e domesticadoras, infantilizando pessoas. Por isso vejo muitas semelhanças entre frei Cláudio e Oséias, o profeta das relações de amor e da anti-idolatria religiosa. Em ambos vejo uma profecia que vai do miúdo da vida para o macro, do cotidiano para as questões globais, mas revelando a interdependência e o entrelaçamento das várias dimensões da vida humana e social. O profeta Oséias e frei Cláudio denunciam o poder opressor localizado nas grandes instituições, mas também desvenda a microfísica do poder: todas as relações interpessoais (sociais, etc) são permeadas de relações de poder. O poder não está localizado somente nas grandes instituições, mas está presente nas micro-relações. Estão permeadas de poder as relações homem-mulher, adulto-criança, professora-estudante, governante-governados, branco-negro, sadio-doente...

Com frei Cláudio aprendi muitas perspectivas teológicas que inspiram minha atuação ao lado dos pobres na luta pelos seus sagrados direitos. Aprendi, por exemplo, que nenhum dualismo é cristão e evangélico. O divino está no humano. A luz e a força divina permeiam e perpassam todos e tudo. O profano é o que existe de mais sagrado. Muitas orações transferem para Deus responsabilidades que são nossas. Que a eucaristia não é prêmio para os puros, mas é alimento espiritual para todos e que ninguém tem o direito de excluir ninguém da eucaristia. A primeira eucaristia foi um jantar e certamente Jesus de Nazaré não excluiu nenhum dos que estavam na caminhada. Jesus veio para todos a partir dos pecadores e dos doentes. Logo, todos devem se sentir convidados de honra para participar da mesa da eucaristia. É terrorismo religioso excluir alguém da eucaristia por questões morais, por ser divorciado/a, desquitado/a, homossexual etc.

Mas, após 7,5 anos sendo auxiliar do frei Cláudio, a pedido dele por se sentir cansado, com menos força física e também para que ele tivesse mais liberdade para “fazer o que mais gosta”: escrever de forma teológica para contribuir no processo de humanização das pessoas, eu aceitei assumir a coordenação da Igreja do Carmo, tornei-me pároco, o que fiz durante 2,5 anos. Diminuí muito minhas viagens e me dediquei à coordenação do trabalho pastoral da Igreja do Carmo. Aprendi muito, sofri muito e, sem querer, fui ocasião de sofrimento para muitas pessoas e motivo de alegria para outras. Experimentei o desafio que é aliar lutas por solidariedade, por promoção humana, com lutas por justiça. Alguns amigos/as de frei Cláudio não compreenderam a nossa opção de tentar unir as perspectivas do profeta Oséias, o que frei Cláudio faz com muita destreza e sabedoria, com a perspectiva do profeta Amós: luta por justiça social, o que eu tento fazer caminhando ao lado dos pobres que lutam de forma organizada por terra, moradia digna, direitos sociais etc. Assim, saí da Igreja do Carmo, mas sendo sempre grato ao frei Cláudio e o reconhecendo como um dos meus mestres, bem como, diga-se de passagem, também sou grato a muitas pessoas da Comunidade da Igreja do Carmo.

Frei Cláudio, que beleza você celebrando 80 anos de vida e de muitas lutas! Obrigado por tudo o que você me ensinou e tem ensinado a tanta gente.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Edith Stein: Experiência de Deus.

Frei Cláudio van Balen, O. Carm. Convento do Carmo, Belo Horizonte-MG.
       Terrível foi o sofrimento, antes, durante e depois dessa “caça às bruxas”. De depoimentos de sobreviventes,constou a experiência do estranho consolo lembrado nas palavras de Jeremias: “Assim como visitei esse povo com tão imensa calamidade, também sobre ele estenderei todo o bem que lhe reservo”. (Jer.32,42) Animados por uma fé milenar, muitos puderam viver o que sente alguém que, confiante no futuro, lavra seu testamento, sereno e de olhos abertos. Privados de tudo e até do último restinho a que se apegavam, puderam sentir-se liberados de toda preocupação para enfrentar a noite da vida. Se, na dura realidade, não havia voz que se pronunciasse, sempre havia, em dimensão de fé, um abraço amigo que por eles esperava. Até no limiar da morte, existia a possibilidade de enxergar  um rosto a emitir um sorriso. A lava, jogada pela montanha em erupção, contém e burila cristais de variado e riquíssimo valor.
Na vida de sofrimento extremo, há pontos de esmagadora depressão, mas esses abrem também espaço para momentos de elevado enlevo, em que sempre há quem, agarrado ao divino, permita que a realidade solte  um milagre. Em meio ao caos, banhado por lágrimas de perda e dor, surgiam anjos de guarda que criavam, misteriosamente, condições de vida perpassada por tênues fios de esperança. Se despedidas faziam o coração sangrar, havia encontros que fragilmente anunciavam o sentido do todo, malgrado tantos fragmentos a espelhar o absurdo de particularidades. Mas, em tais circunstâncias, Deus não existe de graça; ele é gerado pela correnteza da tradição, da qual se bebe; ele não é acolhido na solidão de indivíduos amargurados, mas na pertença a todo um povo que nele aposta, assim como o pulmão se abre ao ar. Deus pode aflorar melhor no coração daqueles que viram seu rosto na face sofrida de irmãos.
Os que se relacionavam com Deus, o que sintetiza o que há de mais nobre em si mesmos, conquistavam certa liberdade na mais cruel subjugação e superavam a morte na maior tragicidade; na descontinuidade, teciam o futuro pelo fio do passado que os envolvia com a força da compaixão, a ponto de conseguirem dançar sem pernas. Havia também os que, sem prática religiosa, eram confrontados com Deus que, mergulhado no silêncio, parecia não lhes estender a mão, manchada  por inútil onipotência. Antes tivessem de carregar sozinhos a cruz, pois a suposta presença de um poder insensível machucava mais que tudo. Esses encontravam defesa em uma artificial indiferença, como arma cruel que os defendia, até mesmo frente à morte de parentes próximos. Porém, uma pergunta, com sentimento de culpa, passou a persegui-los: por que sobreviveram e outros não? Também aqui haveria uma injustiça em ação?
O que, em relação a Deus e aos outros, irritou um bom número entre os sobreviventes foi a falta de ação, a omissão, a indiferença. Essa parece a crueldade máxima revestida de normalidade. “Não tenho nada a ver”; “ah, deixe para lá”; “eu não sabia de nada, nem desconfiava”, “só fiz o que me ordenavam”. Essa ausência de cidadania se mostrou berço da mais cruel ignomínia que desfigura, séculos a fio, nossa pobre humanidade. É preciso não se acomodar,  elevar a voz, reagir contra tudo o que ameaça a vida e desumaniza a convivência. Só esta solidariedade encoraja os humilhados para não deixar de lutar por seus direitos, sua dignidade. A percepção da ausência de Deus, na vida dos sobreviventes, tornou sua experiência mais amarga. Em sua tristeza, ficou mais difícil localizar sinais de solidariedade. E a pergunta se faz qual porta fechada: “Por que eu e outros não?” Esta pergunta os acompanhou em forma de tortura. É como se segurassem Deus pelo manto, a fim de que ele lhes respondesse. Seu silêncio os fez inconformados até o fim. Será que também, através dessa atitude, se aproximou mais um pouco o tempo messiânico da paz?

 

 

Edith Stein: Viver a verdade.

Frei Cláudio van Balen, O. Carm. Convento do Carmo, Belo Horizonte-MG.

          Foram doze anos de espera, amadurecimento e luta para agora, em 1933, retirar-se atrás dos muros de um mosteiro. O cunhado, casado com a irmã Erna, lhe oferece hospitalidade, mas ela decide pelo caminho do Carmelo em Colônia. Entre os familiares, o susto passa a ser incompreensão. Sua irmã sintetizou: “O terrível na vida é isto: o que torna um feliz é para o outro a maior catástrofe”. Sua despedida da mãe foi comovente. Essa não entendeu, absolutamente, a decisão de sua filha mais nova. E na extrema solidão, Edith deixou para sempre Breslau, no dia 12 outubro de 1933, dia de seu aniversário. Ela tinha 42 anos. No dia 14, ela chega ao Carmelo em Colônia, adotando o nome de Theresia Benedicta a Cruce. Fazia escuro a seu redor, mas ela se reconhecia acolhida na luz de Deus.

Dentro do contexto da Alemanha, naquela época, o ingresso de Edith no Carmelo facilmente poderia parecer-lhe uma negação ou fuga, sendo na realidade uma resposta pessoal, sofridamente amadurecida, ao apelo de Deus e à urgência da situação. Realmente, a questão é a escolha do meio adequado, com o qual entra na luta. Paulatinamente, ela chegou à conclusão de que a estranha dimensão do mal nazista só poderia ser combatido pela força da Cruz, isto é, por um amor incomum que, de um lado, elimina toda violência e, por outro lado, enfrenta o mal em sua raiz, graças a uma solidariedade incondicional. Ela escreve: “Nosso socorro não resulta simplesmente das humanas aquisições, mas do amor sofrido de Cristo; e é meu desejo partilhar do mesmo. Quero entregar-me ao coração de Jesus como gesto de solidariedade pela paz do mundo. Que o reino do Mal, da exclusão, possa implodir, caso possível, sem guerra mundial, e que uma nova, realmente nova ordem possa ser estabelecida”.

Para Edith, o ingresso no Carmelo nada tem a ver com fuga; pelo contrário, ela se dirige ao front para combater o inimigo com os meios que julga os mais eficientes: a oração, a entrega de sua pessoa, uma ilimitada reconciliação como de “Yom Kippur”. Como Teresa Benedita da Cruz, ela é uma simples carmelita entre as outras, cujo brilhante passado intelectual é ignorado pelas companheiras. Mas seu novo nome resume sua história: Teresa evoca a beleza da amizade e a força da inspiração renovadora; Benedita evoca a busca intelectual com sua paixão pela verdade, e a Cruz abre o espaço misterioso para o caminho da solidariedade e das experiências espirituais mais profundas, que culminam em Auschwitz, onde se desvenda o mistério da “Ciência da Cruz”.  

Por ocasião de seu ingresso no Carmelo, Edmund Husserl sintetizou para sua discípula e amiga muito estimada o paradoxo de sua opção: “Afinal, há no coração de todo judeu um impulso para o absoluto e um amor pelo martírio”.  Neste novo estilo de vida, sua sensibilidade e atividade intelectual, antes tão evidenciadas, ficam ofuscadas pelo amor a Cristo na Vida Religiosa e são transformadas pela luz do conhecimento, que resulta da sofrida experiência com a Verdade. Já adaptada ao novo estilo de vida, ela recebe a incumbência de, em 1935, redigir o texto filosófico “Endliches und Ewiges Sein”, que depois é barrado para publicação por tratar-se de um escrito não ariano. Os muros do mosteiro, aliás, preservam as irmãs da complexidade da realidade, mas Edith, mediante troca de cartas com familiares e amigos, acompanha o que lá fora está acontecendo de ameaçador. E ela se mostra sempre de prontidão para lutar pela verdade e pela justiça.