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quinta-feira, 15 de junho de 2017

MORADORES DE RUA DE SALVADOR: Entre vícios e dramas familiares, G1 mostra história de pessoas em situação de rua: 'Todos têm valor'

Cerca de 17 mil pessoas vivem nas ruas de Salvador, de acordo com pesquisa divulgada este ano pelo projeto Axé.
Por Danutta Rodrigues, G1 BA

Fábio, Scarlet, Luís Ricardo e Andréa. Quatro histórias que se cruzam no Largo dos Mares, na Cidade Baixa, em Salvador. Como um universo paralelo, o espaço abriga e acolhe diariamente dezenas de pessoas em situação de rua. O olhar desviado e o passo apressado de quem circula na região escancara a invisibilização desses sujeitos que sofrem com a violação de direitos, a discriminação social e racial.
Os quatro fazem parte de cerca de 17 mil pessoas que vivem em situação de rua em Salvador, de acordo com a pesquisa "Cartografias dos Desejos e Direitos: Mapeamento e Contagem da População em Situação de Rua na Cidade de Salvador, Bahia, Brasil".
O estudo foi realizado pelo projeto Axé, em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA), Movimento Nacional População de Rua e União dos Baleiros, com financiamento da Unesco, por meio do prêmio Criança Esperança 30 anos. Em um seminário realizado no mês de abril deste ano, a pesquisa foi apresentada.

'Cheguei a me prostituir'
"Eu sou Scarlet. Não sou daqui da Bahia, sou de Sergipe, e vivo hoje, atualmente, em situação de rua na cidade de Salvador. Tenho 25 anos de idade. Eu vivo aqui na cidade, passo por vários conflitos, preconceitos por causa da minha opção sexual. Mas também, assim, tenho um pouco de felicidade, né, porque eu conheço pessoas novas e tudo mais". A jovem, que é formada em Terapia Ocupacional, assumiu a orientação sexual aos 14 anos, quando começou a ter conflitos familiares. Com 17, passou a ser usuária de substâncias psicoativas como crack, cocaína e heroína.
"Eu cheguei até a me prostituir, a fazer programa para sustentar meu vício porque quando eu começava a usar drogas, eu tinha uma compulsão muito grande e eu queria usar, usar, usar e não parava", revela.
Ela conta que morava com os pais em Sergipe. Depois da separação deles e o uso abusivo de drogas, os conflitos dentro de casa aumentaram e motivaram a ida para as ruas. "Hoje é uma das coisas mais difíceis que eu estou tentando lidar é com a minha própria família, por causa dos conflitos que foram gerados devido ao resultado do meu uso de drogas. Eu perdi o controle e foi na época que eu fui viver em situação de rua e eu acabei migrando para dentro de Salvador", conta.
Há 1 ano e 10 meses e 23 dias sem fazer uso de substâncias psicoativas, Scarlet dorme em uma calçada na região da Cidade Baixa, junto com outros colegas, e durante o dia atua como pesquisadora do projeto 'Cartografias dos Desejos e Direitos', que faz o mapeamento das pessoas em situação de rua. "É um trabalho em que eu vou ser remunerada por isso. Eu passo o dia fazendo essa pesquisa, lá com a equipe. À noite estou aqui, pelo menos atualmente, não sei daqui pra frente", conta.
Ainda sem contato com a família, Scarlet tem o sonho de, um dia, trabalhar na área em que se formou. "Às vezes eu fico até triste. Eu estudei tanto, passei quatro anos numa faculdade e hoje eu não exerço a minha profissão por causa de barreiras que me impedem. Eu pretendo exercer minha profissão, ter minha casa, minha família, melhorar o contato com a minha família e ser feliz", planeja.



'Todos têm valor'
Aos 32 anos, Luís Ricardo carrega um sorriso expressivo e um olhar cansado de quem vive na rua desde os 12 anos de idade. A saída de casa ocorreu após problemas com o padrasto. Além de deixar a família, os estudos também ficaram para trás. "Oportunidade de estudo eu tive muita. Tive a oportunidade de estudo para ser hoje em dia outra pessoa, mas a mentalidade que eu tinha naquele tempo não era disso, era só de ficar na rua. Cheguei até a 3ª série", lamenta.
Para Luís, a maior dificuldade das pessoas em situação de rua é a discriminação. "Quando não é um que agride, é a polícia que chega, bate. Chega outras pessoas também e humilha [sic] a gente, porque acha que a gente é morador de rua e não tem valor. Mas todo morador de rua, eu creio, que todos eles têm um valor. Nem todos que moram na rua é ladrão, nem todos que moram na rua é vagabundo. Tem os que moram na rua porque não têm casa, não têm família. Outros porque se revoltou [sic] com a família, quer ir embora. Todo dia é uma luta, todo dia a gente mata um leão para sobreviver”, define.
Ele conta que ainda faz uso de álcool e cocaína, além de já ter sido usuário de crack, cola, maconha, entre outras substâncias psicoativas. Luís atua como 'garoto propaganda' e passa o dia andando pela cidade entregando panfletos, colando propagandas em postes. Ao ser perguntado sobre a vontade de voltar a estudar, a resposta foi imediata: "Oxe! Muita!".
Apesar de manter contato constante com a família, ele diz que não tem contato com o filho de 4 anos há mais de um ano. "A mãe do garoto não quer que eu veja. Mas às vezes passo por onde ele mora e só em ver ele já é uma alegria", disse. Com todos os revezes de viver em situação de rua, Luís Ricardo não perde o sorriso no rosto. "Não é porque a vida é difícil que a gente pode ficar triste, cabisbaixo. A gente tem sempre que ficar pra cima, sempre tem que ser uma pessoa coração aberto, alegre, sempre assim".

'Se era ruim em casa, pior é na rua'
 “Aqui é assim, ó, você tem que andar sozinho, não se envolver com ninguém. Qualquer passo em falso é motivo de faca, é motivo de morte, é motivo de tocar fogo. Eu nunca fui presa, nunca levei uma tapa, nenhum traficante nunca me chamou atenção”. O relato é de Andréa Barbosa, de 32 anos. Há 17, ela vive nas ruas de Salvador. A saída de casa foi motivada pelo uso do crack, aos 15 anos. Desde então, Andréa circulava no "Pela Porco", na Sete Portas, e há oito meses vive na região do Largo dos Mares.
“Eu levanto 11h, tomo café, porque eu não gosto de tomar banho. Depois eu vou orar. Aí almoço, rezo de novo, e umas 17h, 19h, fico por aqui [pelo Largo dos Mares]. Depois pego o sopão, um mingau, e vou ficando por aqui”. O local onde dorme é em frente a um supermercado do bairro. O banho, a cada dois dias, é em um chuveiro que tem em uma praia próxima. Com ajuda de um projeto do governo do estado, ela tem reduzido o consumo de substâncias psicoativas e se arrepende de um dia ter abandonado a família.
"Sonho em voltar para casa, mas minha família já não acredita mais em mim, tem a visão de que usuário de crack não é confiável, e ainda mais quando é ‘maloqueiro'. Se era ruim em casa, pior é na rua", conta. Andréa tem um filho de 18 anos e já nem lembra a última vez que o encontrou. Soropositiva, ela toma o coquetel de remédios há 12 anos. Sobre o futuro, o desejo de voltar de onde acredita que nunca deveria ter saído. "Paz, prosperidade, saúde... e sair da rua”, diz.

'Fui na porta do inferno e voltei'
Com andar debilitado por problemas físicos decorrentes de uma queda, Fábio mantém o olhar desconfiado e atento. Nascido e criado em Camaçari, região metropolitana de Salvador, foi para as ruas de Salvador após a separação dos pais e do uso de substâncias psicoativas, aos 14 anos.
"Eu fui na porta do inferno e voltei, né. Aí o cara pega mais a visão e fica mais de quebrada. Muitas coisas que o cara fazia antes, o cara vê bicho, o cara tem medo, o bagulho é louco. Para o que eu estava, a onda agora é só diminuir a droga, é só eu controlar, tirar o crack que eu fico de boa, fico de quebrada. O crack quebra a imunidade legal. O crack e a cachaça", revela.
À época da entrevista, Fábio dormia em uma casa alugada no bairro da Massaranduba, que fica na Cidade Baixa. Mas, devido ao custo alto, ele voltou a dormir em uma calçada próxima ao Largo dos Mares, onde fica durante o dia e também à noite. O 'corre', que é trabalho do dia a dia, se divide em guardar e lavar carros e motos na região. Ele também recebe um benefício do governo federal por causa da deficiência que adquiriu após a queda.
Fábio tem um filho, que não foi registrado por ele e com quem perdeu contato. Ainda assim, ele conta com a atenção da mãe e com a visita esporádica do irmão. A relação não incita o desejo de voltar para casa. "Eu vou voltar pra a família para quê? Todo mundo com seus 'bagulhos', seus ‘corres’, seus empregos, suas paradas, e ainda tem aquela situação já da ‘ovelha negra’ da família. Aí minha família que eu vejo assim, às vezes dá um apoio quando eu tô precisando de alguma parada, porque mãe é mãe", disse.
Para ele, a rua é uma escola. "Estudar pra quê? A pista aí ensinando...A sociedade hoje sempre tem aquela onda, aquele preconceito, aquela viagem. Não é pessoa, não é ser humano, e ninguém pode confiar. A sociedade vê assim, eu vejo que a sociedade vê assim. Eu não tenho um futuro muito próspero não. Como eu disse a você, é o fim de carreira. Quase fim de carreira. Só Jesus para mudar o quadro, mas a teimosia do homem é a derrota dele”, conclui.

Acompanhamento
Scarlet, Fábio, André e Luís Ricardo são acompanhados pela equipe do Corra pro Abraço, ação da Secrataria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS). "A gente não faz um trabalho de conscientização. Eu acredito que ninguém conscientiza ninguém. A gente vem para cá para promover uma série de trabalhos e atividades, e através dessas atividades, as pessoas fazem uma compreensão no que se refere a cidadania, política, e muitas vezes a gente aprende muito com eles", relata Daniele Rebouças, que é assistente social, advogada e supervisora de campo do Corra pro Abraço.
De acordo com Daniele, o programa trabalha na perspectiva da redução de danos. "A gente não acredita na lógica da abstinência porque a gente sabe que isso não resolve. A gente tenta trabalhar com relação ao uso, tentando compreender como é que ele se vê nesse uso, se ele entende que esse uso está trazendo para ele consequências prejudiciais, então a gente respeita muito isso", conta Daniele. Segundo ela, se há o desejo de diminuir o uso de substâncias psicoativas, ou de tentar usar de uma outra forma, há uma orientação no sentido da redução de danos.

"A gente também sabe que não existe um modelo pronto para todo mundo, cada um é um indivíduo, cada um é diferente, a gente respeita o desejo e através disso a gente dialoga com ele, para saber qual é o melhor para ela, qual é o melhor caminho a ser seguido, para cada sujeito", destaca a assistente social. Para ela, a potência do trabalho do Corra pro Abraço está no vínculo. "A gente consegue através de uma escuta qualificada, sensível, respeitando esse sujeito, respeitando seus desejos, é que a gente consegue produzir o vínculo e através do vínculo a gente consegue fazer o nosso trabalho, que seria, no caso, encaminhar para os serviços, articular a efetivação de alguma demanda, e é através do vínculo mesmo. Eu acho que a potência do nosso trabalho está aí. Eu acho que o diferencial da gente é esse", conclui. Fonte: http://g1.globo.com

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