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A Palavra do Frei Petrônio

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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

REGRA DO CARMO: O CORAÇÃO PURO E A CONSCIÊNCIA SERENA CONTEXTOS ANTROPOLÓGICO-BÍBLICO, TEOLÓGICO E DA TRADIÇÃO CARMELITANA.

Frei João Marcos Santos Oliveira, O. Carm

Estudo sobre a Regra dos Irmãos da Bem Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, elaborado para apresentação à comunidade do Juniorato Carmelitano da Província Carmelitana Fluminense.

Área de concentração: Espiritualidade Carmelitana
Orientador: Frei Jerry de Sousa Fonseca, O. Carm

“Muitas vezes e de muitas maneiras os Santos Padres estabeleceram como cada um, qualquer que seja o estado de vida a que pertença ou qualquer que seja o modo de vida religiosa que tenha escolhido, deve viver em obséquio de Jesus Cristo e servi-Lo fielmente
Com coração puro e consciência serena.” (Segundo Capítulo do Prólogo da Regra do Carmo)

RESUMO

Reconhecendo a riqueza dos detalhes da Regra dos Irmãos da Bem Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, este trabalho busca evidenciar o tema do “coração puro e consciência serena”, caminho místico de conversão e união esponsal com o Criador, abordando as características conceituais dos termos em destaque junto à leitura antropológica, contextualização teológica, intertextualidade bíblica e traços da história e tesouro da espiritualidade carmelitana. O intento é aprofundar o conhecimento sobre este aspecto da espiritualidade carmelitana e abrir horizontes para uma vivência mais autêntica do carisma, à luz da tradição da Ordem e das necessidades atuais da Igreja de Cristo.
Ordem do Carmo – Regra Carmelitana – Coração – Consciência – Espiritualidade

1. MOTIVAÇÕES PARA O ESTUDO ..................................................................................... 6
2. CONCEITUANDO O CORAÇÃO ....................................................................................... 6

2.1.     Introdução .................................................................................................................... 6
2.2.     Origem da palavra........................................................................................................ 7
2.3.     A presença do ‘coração’ nas Escrituras ....................................................................... 7
2.4.     O coração como fonte e expressão dos sentimentos .................................................... 7
2.5.     O coração como faculdade e expressão do intelecto ................................................... 8
2.6.     A dimensão antropológica do ‘coração’ ...................................................................... 8
2.7.     Breve diferença de tradução no Novo Testamento .................................................... 10
2.8.     A conversão do coração ............................................................................................. 10

3. CONCEITUANDO A CONSCIÊNCIA .............................................................................. 11

3.1.     Introdução .................................................................................................................. 11
3.2.     Origem da palavra...................................................................................................... 12
3.3.     A presença da ‘consciência’ nas Escrituras ............................................................... 12
3.4.     A dimensão antropológica da ‘consciência’ .............................................................. 13
3.5.     A presença da ‘consciência’ no Novo Testamento .................................................... 14
3.6.     Proposições teológicas sobre a consciência em Cristo .............................................. 15
3.7.     Sobre a formação da consciência de um sujeito ........................................................ 17
4. O CORAÇÃO PURO E A RETA CONSCIÊNCIA NA TRADIÇÃO CARMELITANA . 19

4.1.     A inspiração de Santo Alberto ................................................................................... 19
4.2.     A tradição nos documentos da Ordem ....................................................................... 21
4.3.     O coração como conversão e a consciência como cultivo da justiça......................... 22
4.4.     O coração puro e a consciência serena na pessoa da Virgem Maria ......................... 23
4.5.     O coração puro e a consciência serena em São João da Cruz.................................... 24
4.6.     O coração puro e a consciência serena na pessoa do Beato Tito Brandsma .............. 25

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................................. 26
6. REFLEXÕES PESSOAIS DE CONFRADES NO CARMELO ......................................... 28
6.1.     Frei Eduardo Ferreira, O. Carmo ............................................................................... 28
6.2.     Frei Evaldo Xavier Gomes, O. Carmo ....................................................................... 29
6.3.     Frei Felisberto Caldeira de Oliveira, O. Carmo ......................................................... 30
6.4.     Frei Paulo Gollarte, O. Carmo ................................................................................... 30
6.5.     Frei Paulo Ricardo Ferreira, O. Carmo ...................................................................... 30

7. APÊNDICES ....................................................................................................................... 31
7.1.     Citações específicas para o Prólogo da Regra ........................................................... 31
7.2.     Citações com o verbete ‘coração’ no Livro dos Salmos ............................................ 32

8. BIBLIOGRAFIA ................................................................................................................. 37

1. MOTIVAÇÕES PARA O ESTUDO
Ao refletirmos como Igreja o tema da Misericórdia, proposto pelo Papa Francisco em razão do Ano Jubilar Extraordinário e, associando-o à Regra Carmelitana, percebemos que o ser humano sempre pode abrir-se à experiência da aceitação da fragilidade própria e livremente se deixa transformar pela misericórdia do Senhor Jesus, que entregou sua vida para amar, perdoar e salvar.
Deste modo, entendendo que a vivência da misericórdia é uma interação entre a liberdade de Deus para perdoar e amar, e a liberdade do ser humano para exercitar a humildade e abrir-se à conversão, é que o presente estudo visa compreender, ainda que sob uma dinâmica introdutória, o que Santo Alberto propôs aos primeiros carmelitas. Ao lado do convite ao
‘obséquio de Jesus Cristo’, o coração puro e a consciência serena, vieram a tornar-se a meta, o ideal e o estilo de vida para cada um daqueles que trazem consigo o Escapulário do Carmo.
Em razão de acolher a ação salvadora do Senhor Jesus, o carmelita é aquele que dia após dia se decide por fazer a vontade do Pai, amando-O na pessoa dos irmãos. Essa atitude de conversão toca intimamente a estes dois aspectos da Regra, quer dizer, o coração e consciência, que, num exercício de purificação, vão livremente se desprendendo das antigas formas de agir e pensar, para que, com a ajuda de Cristo, venham os religiosos carmelitas a tornarem-se como Ele, dispensadores da misericórdia.


2. CONCEITUANDO O CORAÇÃO

2.1. Introdução
A palavra coração, em seu princípio, é vista como que fazendo referência àquele órgão que bombeia o sangue pelo corpo do ser humano. Mas também é comumente utilizada para definir algo de muito particular da nossa história pessoal, de nossas sensações, afetos, experiências etc. De um modo ou de outro, podemos desde já perceber e ter em mente que, ao falar de coração, estamos realmente entrando num campo de muitas significações e ideias a seu respeito. Para prosseguirmos na exploração e conceituação do verbete “coração”, nos serviremos fundamentalmente das obras “Dicionário Bíblico-Teológico” de Johannes Bauer1
e “Dicionário de Teologia” de Heinrich Fries2.



1 BAUER, Johannes. Dicionário Bíblico-Teológico. p. 69-71.
2 FRIES, Heinrich. Dicionário de Teologia. p. 309-322.

2.2. Origem da palavra
Assim como no Português, o Hebraico também utiliza o termo leb / lebab para fazer referência ao coração enquanto órgão físico do corpo humano, e logo em seguida para fazer as atribuições do sentido figurado. Já no grego, o termo utilizado é o kardia, que assim como compreendemos em nosso idioma, diz respeito ora ao sentido físico, ora ao sentido metafórico do coração.

2.3. A presença do ‘coração’ nas Escrituras
Ao ser introduzido nas Sagradas Escrituras, o verbete leb ganhou uma grande riqueza de significados e por conseguinte, grande riqueza espiritual no campo teológico. No Antigo Testamento, é possível notar que leb se refere sobretudo ao interior do homem, aquele ambiente da vida do ser humano onde somente o Senhor Criador conhece. A exemplo, tomemos a passagem de 1Sm 16, 7: “O que o homem vê não é o que importa: o homem vê a face, mas o Senhor olha o coração”. Aqui, fica claro que a palavra coração se refere exatamente à característica da intimidade última do ser humano.
Quando analisamos a passagem no livro do Profeta Samuel (Jz 16, 15-17), em que Sansão expõe “todo” seu coração a Dalila, ele não faz conhecer o seu amor (como uma espécie de enamoramento) por ela por ser utilizada a palavra coração, o versículo não diz respeito a exatamente esse tipo de conhecimento, mas sugere que Sansão lhe tenha exposto o que há de mais íntimo em si, o seu segredo mais profundo. Do mesmo modo, quando o profeta Samuel se dirige a Saul dizendo “tudo o que tens no coração te mostrarei” (1Sm 9, 19), coração ganha o aspecto de intimidade última, onde se encontram os propósitos de Deus, os segredos da vida.

2.4. O coração como fonte e expressão dos sentimentos
Além de fazer referência à intimidade do homem, para Johannes Bauer3, o coração também é visto como o lugar por onde brotam os seus sentimentos, a fonte de suas sensações internas. É dele que nasce a capacidade de sentir coragem, de ter alegria de experimentar dores, angústias e aflições. Também a soberba, a simpatia, a irritação, as preocupações e a compaixão. Bem como a sensatez e o juízo, as inclinações da paixão, igualmente, encontram em leb a sua
fonte de origem.





3 BAUER, Johannes. Dicionário Bíblico-Teológico. p. 69.



2.5. O coração como faculdade e expressão do intelecto
As forças psíquicas, a inteligência e as faculdades espirituais da pessoa, também tem sua origem no coração. Em algumas passagens (Pr 6, 32; 10, 21; Ecl 10, 3), o homem é visto como imprudente e tolo, cujo ‘coração’ anda em falha. Quer dizer, a inteligência do homem falhou por causa das más inclinações do seu íntimo. Quando o profeta Oseias deseja mostrar aos homens que "o vinho faz o homem perder o coração" (Os 4, 1), ele quer, na verdade, falar que a embriaguez e os excessos fazem com que o homem perca a sensatez e a lucidez do juízo.
No entendimento hebraico, é no coração que moram os pensamentos do ser humano, e quando algo ‘sobe’ a ele, assim como ‘sobe’ à cabeça, significa que alguma ideia se lhe veio à faculdade da inteligência. Aí, o ser humano realiza seus planos e trama seus projetos. Aí acontece o impulso interno que o leva a agir. Para descrever este fenômeno, muitas vezes as Escrituras falam de alguém que agiu de todo o coração, ou com toda a alma4.

2.6. A dimensão antropológica do ‘coração’
Ao pensarmos no sentido figurado do coração, abstraindo-o dentro de um contexto, certamente iremos entendê-lo como um apontamento à totalidade da vida interior do ser humano, o sentido do seu “segredo vital”. Se nenhum ser humano é capaz de sobreviver sem o coração, por conseguinte não poderá viver sem a presença da sua dinâmica subjetiva, aquilo que abrange suas aspirações, vontades e caráter do agir ético-religioso, dentro da sua liberdade. Neste sentido, o indivíduo religioso é aquele que, reconhecendo sua liberdade e suas faculdades interiores, busca compreender e vivenciar a doutrina de Deus orientando-se n’Ele e a Ele.
Por outro lado, já que é dotado de liberdade, pode ainda tornar-se rebelde, agindo conforme a obstinação de um coração incircunciso, como é o caso da passagem de Provérbios (Pv 7), onde o escritor sagrado exorta e convida à vivência dos preceitos de Deus e ao mesmo tempo apresenta a figura da mulher ornada como prostituta. Diferentemente do homem piedoso, cujo coração é bem-intencionado (Sl 24, 4; 41, 12), o coração iníquo possui caminhos tortuosos (Pr 11, 20; Jó 26, 13).
Karl Rahner se apoia na afirmação de que sendo o coração o centro do homem em geral, é daí que nasce todo o comportamento da pessoa. “Coração é o homem antes da distinção
entre corpo e alma, ato e sentimentos, externo e interno”5. E é por esta razão que o Senhor Jesus


4 Aqui a alma ganha o mesmo contexto que o coração, isto é, seus sentidos se confundem de modo a apontarem para a força interior mais potente do homem que age.
5 FRIES, Heinrich. Dicionário de Teologia. p. 310.



falava aos seus discípulos, com a intenção de atingir seus corações, porque assim tinha certeza da eficácia da sua Palavra. Segundo o Dicionário de Heinrich Fries, o coração é um conceito que define o homem, designando a distinção entre corpo e alma, dos quais ele é composto.
“Mas não composto por estes dois princípios metafísicos do único ser humano de modo tal que cada um destes elementos tenha um sentido por si mesmo antecedentemente a esta unidade substancial, possua uma existência própria e só num segundo momento se constitua em unidade”.6
O corpo de ser humano não é um tipo fisiológico animal, mas é a expressão corpórea do seu espírito.   Neste aspecto, podemos observar que a complexidade da linguagem dará sempre uma gama de longo alcance para definir conceitos e por isso, nem sempre se servirá de exatidão. A palavra ‘pessoa’ por exemplo é uma tentativa de sintetizar o que foi visto agora há pouco, na abordagem do corpo como expressão corporeidade-alma. Assim, devemos chamar este tipo de conceito como “simbólico real”, que aponta para uma “unidade primária de um símbolo real e daquilo que com ele é simbolizado”7. O mesmo acontece com o termo coração8. Ele “designa o centro originário da pessoa
corpóreo-espiritual que se decompõe na pluralidade do ser corpóreo-espiritual do homem, mas mantém unida essa mesma pluralidade na unidade originária da pessoa”9. Portanto, o verbete surge do esforço e da tentativa de sintetizar tudo o que acontece na dimensão da interioridade do ser humano, desde os elementos do subjetivo-imanente, (como as faculdades intelectuais, os sentimentos, suas aspirações e projetos) até a sua abertura ao transcendente, quer dizer, sua abertura ao que vai além de si mesmo em direção a um outro, a um absoluto, que neste caso é
entendido como a Santíssima Trindade.




6 FRIES, Heinrich. Dicionário de Teologia. p. 314-315.
7 Ibid. p. 316.
8 “Dizemos “centro originário” porque o homem, enquanto pessoa espiritual e livre, tem também uma experiência,
em si atemática e irrefletida, desta unidade originária da sua natureza e a chama justamente “coração”. Disto se segue que este conceito é antecedente a uma separação corpo e alma; é mais originário. E por isso, a palavra “coração” não pode ser colocada perante o dilema de designar ou qualquer coisa de espiritual, como o amor, ou o músculo cardíaco. A experiência que o homem tem do seu “centro” interior é uma experiência transcendental, isto é, ingênita (de modo necessário e constitutivo) e cada conhecimento objetivo de um determinado objeto da experiência externa, e é ainda mais originária que um conhecimento (puramente sensitivo) do bater o músculo cardíaco; e ainda mais originária que um conhecimento anatômico do coração fisiológico. Por isso, o homem tem uma experiência do centro da sua pessoa corpórea-espiritual, a que chama “coração”, ainda antes que possa surgir a questão de uma distinção entre um sentimento interno e uma realidade anatômica. [...] Esteja claro que esta condição transcendental exige sempre como liberdade que afirma ou rejeita, porque, segundo a Escritura, existe o coração bom e mau, por isso “coração” não deve ser identificado como a bondade moral fundamental de uma pessoa. ” Cf. FRIES, Heinrich. Dicionário de Teologia. p. 317-318.
9 Ibid. p. 317.



2.7. Breve diferença de tradução no Novo Testamento
Tomando ainda as definições do dicionário teológico de Fries, usualmente, o termo “coração” adquire a mesma profundidade e riqueza que no Antigo. Mas na versão da Septuaginta, o termo leb acabou sendo traduzido por nous, o que faz grande diferença no modo de compreender seu sentido. Leb corresponde ao kardia, do grego, que aponta para o sentido físico e que pode ser interpretado como profundidade íntima do homem; mas ao entrar em contraste com o nous (que apresenta o aspecto do saber, do conhecimento), o termo leb é entendido como as aspirações, as vontades e os sentimentos.
Este termo – nous – é muito utilizado para designar sentimentos de alegria, de medo, de sofrimento, de amor, desejo, concupiscência, decisões, inteligência e pensamentos. É aí que reside a inspiração divina e a instigação do maligno (Jo 13, 2), sendo visto ainda como a consciência e personalidade do homem. Quando Deus perscruta, prova, experimenta e conhece o homem, sua ação divina é descrita como uma experiência que se passa no coração do homem, isto é, na parte mais interior e secreta de sua vida.
Nas  primeiras  comunidades  cristãs,  por  exemplo,  durante  a liturgia da sagração episcopal, Deus era invocado como o “conhecedor dos corações”10. Esse conhecimento não era visto sob o prisma da moralidade, como se Deus fosse um juiz. Na verdade, o sentido é mais profundo e aponta para a intercessão em favor do candidato, afim de que Deus revele nele a sua potencialidade enquanto epíscopo eleito pelo próprio Deus.

2.8. A conversão do coração
O ser humano sempre contará com uma guerra ente o espírito da verdade e da injustiça, e nestas batalhas ele não está sozinho, porque o Senhor também tem um “coração”, que faz abrir o coração do seu servo. Quando as Sagradas Escrituras tocam no assunto do coração de Deus, trata-se dos seus planos e de sua vontade. Deus também escreve sua Lei (Rm 2, 15; 2Cor
3, 2; Hb 8,10) no coração dos homens, abrindo-os (Lc 24, 45; At 16, 14) e iluminando-os (2Cor

4, 6. Para que aí brilhe a luz do rosto de Cristo.
A pessoa que deseja viver conforme as prescrições da Lei de Deus, deve ter seu coração circuncidado, ou seja, deverá adentrar e passar pelo caminho da conversão; recordando as características do simbolismo conferido ao coração que foram citados acima, passa a ser mais
clara a intenção do escritor sagrado no Deuteronômio (Dt 6, 4-6) ao enfatizar a necessidade de



10 BAUER, Johannes. Dicionário Bíblico-Teológico. p. 71.



buscar “converter-se de todo o coração”, para “procurar e amar a Deus de todo o coração” e
“servi-Lo de todo o coração”.
Tomas Merton apresenta o coração impuro como aquele que está inclinado não à paixão carnal somente, num sentido afetivo-sexual. Também “é um coração repleto de temores, ansiedades, conflitos, ódios, invejas, necessidades e apegos apaixonados. Todas essas e mil outras “impurezas” obscurecem a luz interior da alma”11.
Por outro lado, Merton aponta o coração puro, como aquela alma que totalmente unida a Deus, vive com Ele um laço tão íntimo quanto o do matrimônio, através do vínculo da fé, que neste caso refere-se à “inteira fidelidade, o dom total e o abandono de si mesmo”12 ao Senhor. O que requer um caminho de “renúncia às nossas próprias luzes, à nossa autoprudência e sabedoria e a todo o nosso “eu”, de maneira a viver em e pelo Seu Espírito”13.
É nele que o Espírito Santo é derramado, fazendo assim a sua morada e lugar de atuação. Nesse coração aberto, iluminado e contingente da presença de Cristo e de seu Espírito que se confirmam a pureza e a irrepreensão, fazendo nascer as virtudes cristãs de humildade, sinceridade e obediência, a exemplo do Senhor Jesus e, sobretudo, no empenho do amor a Deus e ao próximo.

3. CONCEITUANDO A CONSCIÊNCIA

3.1. Introdução
Assim como o ‘coração’, a palavra ‘consciência’ assume uma imensa variedade de símbolos e significações, e na dinâmica da linguagem, se traduz muitas vezes em expressões do tipo: opinião pessoal, o interior de uma pessoa, o conhecimento, a reflexão, um juízo de valor, a consciência de um dever, uma ordem, um sentimento subjetivo, a conscientização, a sensibilidade moral; a responsabilidade, uma diretiva moral, o centro da pessoa, a escala dos valores, a visão de si mesmo, um sentimento admoestador; a boa ou a má consciência, o sentimento de culpa, o sentido religioso, o profundo do ser, o eu psíquico-moral ou ainda o núcleo da personalidade, etc. Ao tratarmos da consciência, utilizaremos os mesmos dicionários que nos serviram no contexto do coração, a saber: “Dicionário Bíblico-Teológico” de Johannes
Bauer14 e “Dicionário de Teologia” de Heinrich Fries15.


11 MERTON, Thomas. A Vida Silenciosa. p. 29.
12 Ibid. p. 20
13 Idem..
14 BAUER, Johannes. Dicionário Bíblico-Teológico. p. 67-68.
15 FRIES, Heinrich. Dicionário de Teologia. p. 290-300.


3.2. Origem da palavra
Ao tratarmos do ínfimo significado deste termo, devemos dirigir-nos primeiramente à sua origem etimológica. Segundo as definições de Bauer, em seu Dicionário Teológico16, esta palavra já se faz presente na linguagem humana desde o mundo antigo, ainda que não presente como uma definição concreta como a que possuímos hoje. Designava a princípio a responsabilidade do homem diante do bem e do mal. A palavra grega syneidesis, que equivale a “consciência moral” é de origem jônica e surgiu através de Demócrito.
No mundo grego, esta expressão era tida entre os estoicos através do termo synkatathesis, que se refere à harmonia entre o espírito e as percepções. Influenciados por estes pensadores, alguns filósofos helenistas, principalmente os latinos, puseram-se a estudar a capacidade humana de julgar a livre decisão entre o bem e o mal.
Frequentemente, os gregos mediam o que é moral pelo sentimento de bem-estar, e colocavam-no naquilo que é estético, na sensibilidade artística pela proporção e pela forma. Por essa razão, consideravam com descontentamento uma ação má. Já na expressão latina, conscientia e outros termos são utilizados por Cícero e por Sêneca para designar a percepção, o saber, o conhecimento, a informação, a experiência interior, sentimentos, estar a par dos fatos íntimos, conscientização, consciência, testemunho, etc.17

3.3. A presença da ‘consciência’ nas Escrituras
No campo das Escrituras, “consciência” é uma palavra que aparece poucas vezes no Antigo Testamento, (em Eclo 10, 20 e em Sb 17, 10). Na realidade, não existia um termo técnico para esse tipo de conceito naquele ambiente. Geralmente ele era descrito através do que já foi visto acima, com o termo leb. Isto se dá por conta do fato de que os israelitas ainda não haviam abstraído a capacidade humana de reflexão do tipo psicológico-individual e conceituado essa capacidade em uma única palavra. Entretanto, a figura da Aliança já é, em si, expressão da internalização da moralidade do Senhor Deus.
Não é utilizada, contudo, nos Evangelhos como expressão literal, ou melhor, da forma como passou a ser vista a partir dos escritos de Paulo, mas ainda com aquela aparência de
‘coração’, como em Marcos (Mc 14, 72), onde é descrito o arrependimento de Pedro e em
Mateus (Mt 27, 3. 5), que apresenta o desespero de Judas. No decorrer do Novo Testamento, quer dizer, mais frequentemente nos escritos de Paulo, na Carta aos Hebreus e nas cartas de


16 BAUER, Johannes. Dicionário Bíblico-Teológico. p. 67.
17 O mesmo conceito esconde-se ainda nos termos mens, pietas, gravitas, virtus, honos, pudor, probitas, timor, conitio, doctrina, etc.
Pedro, constata-se a sua presença em cerca de trinta momentos distintos, e na maioria das vezes acompanhada de um adjetivo como “consciência boa” ou “consciência maculada”.

3.4. A dimensão antropológica da ‘consciência’
Repetidas vezes e em diversas circunstâncias o homem se vê em meio às dificuldades, e certamente depara-se com a necessidade de fazer escolhas, estabelecer direções, tomar caminhos, podendo superar-se e dar prova de si, ou então renunciar-se e pensar de novo. Este primeiro modo de analisar a experiência subjetiva do homem que faz uso da própria consciência, muitas vezes foi apontado como um fenômeno que se passava no nível do
‘coração’, como pode ser visto em fontes egípcias antigas, onde, o conceito da consciência ainda não existia. Para Agostinho, como aponta Heinrich Fries18, a consciência é a sede da disposição e da intenção, e também é relação dogmática com Cristo, da relação de fé. Aí acontece também a apreciação estimativa do valor moral, reflexão e consciência funcional do que antecede uma ação e de sua consequência. Em nossa linguagem atual, podemos classificar a palavra consciência em três tipos distintos.
O primeiro é o que foi obtido com o decorrer da história do mundo. Por possuir uma vasta diversidade expressiva e simbólica, é praticamente impossível olhar para séculos que já se passaram e tratar do ‘fenômeno da consciência’ através de um conceito unívoco. No entanto, pode-se entende-lo como um arco que se estende e passa por diversos pontos. Começa pelo ato da percepção, do conhecimento sobre o próprio interior, da ‘consciência’ do dever, da responsabilidade e do sentimento moral, até chegar ao fundamento do eu espiritual-pessoal.
O segundo, parte da esfera do sentimento ou conscientização de valor. Frequentemente entendemos por consciência a sensibilidade subjetiva ou a abstração dos valores morais. Em terceiro lugar, a consciência no sentido próprio da opção moral pessoal, onde o homem sente a necessidade de corresponder a uma obrigação moral, ou se sente mal por agir contra ela. Todo ser humano está preso a este tipo que, inclusive, se divide em outras duas partes. Basicamente, a primeira é a que antecede às ações morais e a segunda é a que acontece como consequência dos atos consumados.
A consciência antecedente é aquela que, antes da execução de uma ação, apresenta de modo imperativo a responsabilidade moral, quer dizer, é vista como uma ordem interior de ir
em direção a algo ou dele afastar-se, reivindicando fidelidade aos verdadeiros valores – como



18 FRIES, Heinrich. Dicionário de Teologia. p. 294.
aqueles que nos são ensinados por nossos pais e que vão conosco ao longo da vida guiando nossas ações –, apresentando-nos e alertando-nos sobre a responsabilidade que temos acerca de nossas ações, e supondo a transgressão do dever, faz sentir como vergonhosa a eventual falta, exortando insistentemente a escolher o valor pessoal.
Já a consciência consequente é aquela que se apresenta após a consumação de um fato, de uma escolha. Nota-se que aqui, existem duas possibilidades. Para a “consciência boa”, cabe o louvor, a aprovação, a felicidade em ter realizado a boa escolha, mantendo seus valores e preservando a justa decisão. No entanto, a “consciência má” se vê neste mesmo solo mas de maneira completamente oposta, como que de cabeça baixo, ou seja, sofre com a sua rejeição dos valores, arrependendo-se, reprovando-se e acusando pela a violação da lei interior.
Geralmente este nível é mais emotivo, externamente apresentando-se através de analogias que expressam o arrependimento. Através do recurso da linguagem, muitas vezes estas analogias se expressam como um sentimento de vergonha, a sensação de remorso, de autotortura, de espinho na carne, de tormento, de se ser um indivíduo ruim e mais frequentemente como sensação de “consciência pesada”.
Inclusive, este nível é sensivelmente mais forte que o da “boa consciência”, pois se sofre mais com o mal praticado do que se se alegra com o bem exercido. Vale lembrar a extensa exposição da consciência de Santa Teresa d’Ávila, em seu Livro da Vida, em que a intensidade sensitiva da dor lhe era mais forte pelos males e transgressões cometidos, do que pela sensação de bem-estar por ter praticado o bem e crescido na virtude.

3.5. A presença da ‘consciência’ no Novo Testamento
Já foi observado que nos Evangelhos, o termo ‘consciência’ ainda se confunde com a ideia trazida pelas figuras do ‘coração’. Agora, conquanto, passaremos para a presença da consciência no restante da Sagrada Escritura. Tendo encontrado a palavra synkatathesis19  na linguagem helenista da época, Paulo se serviu deste termo para formar um conceito moral e religioso bem elaborado, atenuando a ênfase na autonomia dos julgamentos e na obrigatoriedade moral. Seu exercício consiste, basicamente, em dirigir a ação concreta a fim de sancioná-la.
Neste contexto, pensar na matéria da consciência é compreendê-la como a capacidade
de julgar e agir, muitas vezes expressas no Novo Testamento acompanhada da associação à
19 BAUER, Johannes. Dicionário Bíblico-Teológico. p. 67.
dinâmica do coração, daquilo que ocorre no interior da alma de todo ser humano, do chamado ao agir conforme a vontade de Cristo.
Esse julgamento sempre ocorre antes das ações do ser humano, e possibilita a ele mesmo dirigir sua vida, analisando-a com atenção, sabendo o que está fazendo, tendo a capacidade de julgá-la, justificando-a ou condenando-a. Diante do bem do mal, faz-se necessária a prática do discernimento, e a syneidesis, portanto, apresenta louvores ou censuras (1Cor 10, 28s; Tt 3, 11), como uma juíza imparcial e soberanamente verídica, que se manifesta através de seu testemunho (2Cor 1,12).
Enquanto consciência atingida pelo Espírito de Deus e a Ele dirigida, ela passa a ter suprema autoridade, porque goza do testemunho de Cristo (1Cor 8, 12), dado em união pelo mesmo Espírito (Rm 9, 1), sob a luz de Deus (2Cor 1, 12; 4, 2; At 23, 1; 24, 16). A capacidade da consciência de julgar entre o bem e mal, iluminada pelo testemunho do Senhor Jesus, vai tanto dos valores da moralidade do sujeito quanto à sua concretização, passando por primeiro pela retidão das intenções.
Paulo contribuiu largamente ao inovar na história da moral, concebendo a ideia de uma consciência que vai além do simples ato de julgar entre dois elementos. Em seu pensamento, ela precede e ordena, como que numa voz que obriga o que se deve fazer. Quando está canalizada para Deus, Ele mesmo se torna essa voz, e torna-se ela o guião para as ações que o homem tomará em sua liberdade.
Entretanto, fazer uso da expressão “a voz da consciência é a voz de Deus” pode ser um tanto equívoca se levada ao pé da letra ou mal contextualizada. Os valores humanos sempre estão sujeitos a variações, devido que o que dá sentido a eles é a cultura, os costumes, a idade dos indivíduos e as condições raciais dos povos; e estes, são muito distintos de um ambiente para outro. Vale aqui a atitude prévia de verificar a orientação da consciência, ou seja, se de fato está voltada para Deus.
Essa orientação subjetiva, presente no interior ‘coração’ do homem torna-se, por um lado, opositiva ao sentido de uma lei externa, pois se a consciência está orientada em Deus, logo está direcionada pelo amor ao bem e à verdade. O homem associado a Cristo, vai perseguindo a própria consciência e efetivando-a, na medida em que vai sendo reconhecida como vontade concreta do Senhor (1Pd 2, 19), e não mais pelo medo imposto pelas consequências das ações.

3.6. Proposições teológicas sobre a consciência em Cristo
Com a vinda de Cristo à Terra, o ser humano passou a gozar da verdadeira liberdade, dada pela fé na Páscoa do Senhor. Isto quer dizer que, devidamente orientada pela liberdade, a consciência terá a capacidade de harmonizar a liberdade pessoal com o serviço ao próximo. “Saberá ainda como subordinar ao amor fraterno o que em si é indiferente, quer dizer, não é bom nem mal”.20
O Senhor Jesus não se limitou a produzir uma fórmula para o agir ético ou para a edificação de uma consciência sadia, nem para estabelecer barreiras racionais para os seus sentimentos e atitudes. Mas isso não quer dizer que o Senhor não se preocupou com a forma e a intenção do ‘senso de agir’ do ser humano. Ele está antes preocupado com seu próximo, com aquilo que possa ser de proveito e edificação para o outro a quem estamos orientados.
Por isso, São Paulo deixa as decisões do cotidiano da vida por conta da consciência, fazendo dela o fator central da moral do amor. Melhor dizendo, virtude é o que está de acordo com uma “boa consciência”, pois ela é a sede e fonte da verdadeira moralidade. Pela consciência, a vontade de Deus torna-se norma subjetiva para o homem. E então, a forma como podemos atentar à ‘qualidade’ da consciência, é verificando a medida em que se obedece ou não às prescrições de sua orientação “teônoma”.
Ao invés de criar uma formulação, um parâmetro moral baseado na conduta da retidão, os escritos de São Paulo promovem antes um incentivo à internalização do que traz a Nova Aliança, firmada em Cristo. Quer que as prescrições gravadas na pedra, do Antigo Testamento, sejam substituídas pela lei da autonomia, que deverá ser escrita no coração. Nosso Senhor Jesus Cristo apresenta uma nova concepção da consciência, o que imprime na história da fé uma das marcas da transição da Antiga para a Nova Aliança; em outras palavras, essa transição ocorre com a passagem da Lei escrita para a consciência pessoal individual, que se associa à comunidade cristã. Esta deve estar acompanhada de liberdade, pureza e sinceridade.
É de grande importância notar o que o batismo conferiu à figura da consciência. Por ele a consciência foi purificada e consagrada a Deus. Deste modo, portanto, ela se tornará intimamente ligada ao culto litúrgico da Missa (mais especificamente no rito do Ato Penitencial), bem como ao sacramento da Reconciliação e da Confirmação. Também às virtudes teologais, fé, caridade e esperança, que por sua vez influenciam na formação da consciência e a mantém firme no propósito da retidão.
Ao lado da orientação para Deus, o diligente direcionamento para o amor fraterno é o que confere veracidade às intenções e atos da consciência. O que não passa por estes dois vieses,


20   BAUER, Johannes. Dicionário Bíblico-Teológico. p. 68.

está configurado como hipocrisia. Os Evangelhos estão cheios destes exemplos, quando Jesus critica aqueles que conservam a Lei no coração mas são incapazes de trazê-la para a realidade, através da expressão do amor ao semelhante.
Por conseguinte, a consciência deve sempre ser avaliada pelo sujeito, seu portador. Esse exercício é o chamado “exame de consciência” que consiste em mensurar seus feitos sob a perspectiva do amor fraterno, mandamento principal da Lei de Deus para todos os seus filhos igualmente (Dt 6, 4-6). O evangelista João, é claro e objetivo em afirmar que ninguém é irrepreensível (1Jo 1, 8), contudo, a consciência ganha a virtude da serenidade se puder testemunhar de si mesma que buscou amar e de fato amou ao próximo e a Deus deveras verdadeiramente.


3.7. Sobre a formação da consciência de um sujeito
A consciência que, contando com a graça do Espírito Santo, busca iluminar seus projetos e ideais pela fé, buscando estar sempre orientada à vontade de Deus e ao seu serviço, mantendo firme sua convicção a respeito de suas decisões, não poderá se tornar dividida ou ser vista por imatura. Ao contrário, goza de pureza (2Tm 1, 3), irrepreensão (At 24, 16) e perfeição (Hb 9, 9), quer dizer, se realmente se deixa perseverar na vontade de Deus e procura em todas as coisas ter uma boa conduta.
Contudo, a “consciência ruim”, ou “consciência maculada”, ou popularmente chamada de “consciência pesada” é aquela que é incapaz de tomar decisões eticamente acertadas ou de torná-las efetivas na realidade. A Carta a Tito (Tt 1, 16) diz o seguinte a respeito desse tipo de consciência: “Proclamam que conhecem a Deus, mas na prática o renegam, detestáveis que são, rebeldes e incapazes de qualquer boa obra”. Ela é categoricamente marcada pelo que usualmente damos o nome de comodismo, quer dizer, que está acostumada à própria malícia ou pela hipocrisia não convertida.
Outro detalhe é que está como que machucada, ferida, marcada pelos traços da culpa e da condenação subjetiva do pecado. Felizmente, esta mácula pode ser purificada e aniquilada em virtude do sangue de Cristo e, inclusive, somente por Ele, do modo como afirma a Carta aos Hebreus (Hb 10, 2. 22):
“Realmente, se os fiéis, uma vez purificados, não tivessem mais pecado algum na consciência, não teriam cessado de oferecê-los?; acheguemo-nos a ele com coração sincero, com plena firmeza da fé, o mais íntimo da alma isento de toda mácula de pecado e o corpo lavado com a água purificadora (do batismo) ”.



Uma consciência fraca ou doente – asthene21s, cujo sentido moral-religioso designa o conceito moderno de consciência imatura –, poderá muitas vezes enganar-se na determinação de uma obrigação, como foi o caso do consumo de carnes sacrificadas aos ídolos (1Cor 8). Uma consciência imatura é aquela que ainda não está completamente instruída, em nosso caso, na figura de Jesus Cristo, e nem mesmo consciente da tamanha importância da sua Pessoa.
Também não é firme o bastante para se manter íntegra diante de tudo e se desviar das tentações, nem circunspecta o suficiente para atuar bem em situações complexas. A consciência que caminha em solo de equívoco, assume por certo aquilo que poderia ser errado, e obriga ao indivíduo a efetivá-lo com a certeza de estar no exercício do bem.
Uma consciência não bem formada e que vive sob os escrúpulos, que é outra forma de caracterizar uma “consciência doentia”, acaba por acreditar que o certo é errado e assim julga cometer pecado quando passa por cima de seus juízos. Entretanto, observamos que o bom uso da consciência provém de uma plena e amadurecida convicção pessoal, e o que é feito em desacordo com esta convicção, acaba na consumação de um verdadeiro pecado.
Na realidade, encontramos a imagem da “boa consciência” na própria Escritura, exclusivamente no Novo Testamento. Para começar, suas intenções devem estar iluminadas pela fé, como observamos em 1Tm 1, 19-18: “Eis aqui uma recomendação que te dou, meu filho Timóteo, de acordo com aquelas profecias que foram feitas a teu respeito: amparado nelas, sustenta o bom combate, com fidelidade e boa consciência, que alguns desprezaram e naufragaram na fé”. E em 3, 9: “que guardem o mistério da fé numa consciência pura”.
Estar a consciência orientada na fé, quer dizer que ela esteja na trilha da retidão, que esteja direcionada para Deus e para seu serviço. Assim descreve a Carta aos Romanos 12, 1-2: “Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito”.
Por último, deve contar com a capacidade da fortaleza, mantendo firmes suas decisões. Também isso é apresentado aos primeiros cristãos através dos Atos dos Apóstolos 23, 1: “Paulo, fitando os olhos nos membros do conselho, disse: Irmãos, eu tenho procedido diante de Deus com toda a boa consciência até o dia de hoje”. E ainda na Primeira Carta de Pedro, 3, 16: “Tende uma consciência reta a fim de que, mesmo naquilo em que dizem mal de vós, sejam confundidos
os que desacreditam o vosso santo procedimento em Cristo”.



21 BAUER, Johannes. Dicionário Bíblico-Teológico. p. 68.



4.  O CORAÇÃO PURO E A RETA CONSCIÊNCIA NA TRADIÇÃO CARMELITANA

4.1. A inspiração de Santo Alberto
Frei Carlos Mesters, O. Carm afirma que a pureza de coração é o ponto de chegada de uma longa caminhada, constituída da “constância espiritual e da paz interior que permite fazer o discernimento dos espíritos, percebendo o que é de Deus e o que não é” (Rm 12, 1-2). Sobre a consciência, aponta para a virtude da humildade que é exercitada pelo carmelita que encontrou em Deus a raiz do seu ser. 22
Já se sabe que Alberto pertencia aos Cônegos Regulares da Santa Cruz, cuja Regra era inspirada nos textos agostinianos. Alberto era um grande conhecedor das Escrituras e da espiritualidade Agostiniana, o que de alguma maneira o influenciou na formulação de nossa Regra. Incrivelmente a Regra do Carmo se distingue de todas as outras regras monásticas de seu período. Nenhuma semelhança é notada em outras normas, o que nos leva a ressaltar seu caráter de originalidade. Por outro lado, a RC é fruto de seu tempo. A linguagem feudal da época influenciou a forma como a espiritualidade foi transmitida.
“As exatas fontes bíblicas utilizadas por Alberto, porém não são fáceis de serem determinadas, pois frequentemente ele usa citações não literalmente iguais às encontradas na Vulgata, ou mesmo na Vetus Latina. O que fica claro é que na sua utilização da Bíblia ele mostra a sua interpretação e escolha dos valores essenciais que devem orientar a vida daquele grupo.”23
A partir dos pontos práticos tratados pela Regra, como a necessidade de se colocar todos os bens (materiais e imateriais) em comum, estar juntos para rezar e celebrar a Eucaristia, fazer a reunião fraterna, já podemos inferir o modo pelo qual se conseguirá dar passos para chegar  à meta final.  Esta meta pode ser dividida em três  partes,  com  base na primeira comunidade, no Monte Carmelo.
Elementarmente, faz-se necessária a formação de um mundo interior na vida do eremita, do frade. Em segundo lugar, esse mundo interior deve passar pela purificação de toda inautenticidade. Por último, o interior que já adentrou pelo caminho da contemplação, da


22 MESTERS, Carlos. Ao Redor da Fonte. p. 45.
23 ROZIN, Claudemir. A Fraternidade Carmelitana na Igreja de Comunhão. p. 127.

purificação, não pode ser entendido como um mundo fechado, mas, ao contrário, como aquele que aspira e se abre ao outro, ao Deus Vivo.
“Para voltar a ser “real”, deve o homem purificar o coração da treva da irrealidade e da ilusão. Essa treva, porém, submerge-lhe o coração enquanto ele vive apoiado na vontade própria egoísta. A luz só pode brilhar em nossos corações quando nos decidimos a renunciar à nossa determinação de nos rebelar contra a vontade infinita de Deus, a aceitar a realidade tal como Ele a quis e a colocarmos nossa vontade a serviço da perfeita  liberdade dele. Quando amamos como Ele ama somos puros. Quando queremos o que Ele quer somos livres. Então, nosso olhos se abre e vemos a realidade como Ele a vê e podemos nos alegrar com a alegria dele porque todas as coisas são “muito boas” (Gn 1, 31)”.24
Iluminado pelo  testemunho  descrito  nos  Atos  dos  Apóstolos  sobre os  primeiros cristãos, podemos dizer que Alberto desejou que também os carmelitas tivessem “um só coração e uma só alma” (At 4, 32a). Para os nossos primeiros irmãos, o coração puro assegurava a caridade entre si, inspirando-os a viver a união fraterna e evidenciando-a por meio de seu testemunho.
O coração, isto é, a dinâmica mais profunda do homem, ao ser tocado pela suavidade do Espírito Santo, torna-se revestido por sua divina energia, dando ao indivíduo um novo coração e uma nova consciência. Impulsionado pelo mesmo Espírito, o coração que agora é novo, percebe-se na obrigação de testemunhar a vivência evangélica, e como isto se dá em alcance comunitário, todos vivem então a unidade cristã na prática da koinonía25.
Para a teologia da época, à qual fez parte o nosso legislador, a pobreza era entendida através do termo grego citado logo acima, que consiste na caridade vivida evangelicamente pela renúncia e comunhão dos bens. Esta figura da pobreza foi obtida, sobretudo, por meio dos escritos de Lucas, o evangelista.
Na solidão da cela, o carmelita se enriquece com a Palavra de Deus, velando em oração, mantendo acesa a chama da esperança na herança celeste. Todos os dias ele assume para si a vitória do Senhor Jesus, combatendo com as armas espirituais. Aqui, a tensão do carisma – “contemplação-ação” – é evocado. Mas notamos que sua origem está na própria
Regra. Felizmente, no Carmelo não existe uma prioridade entre dividir o tempo da ação e o



24 MERTON, Thomas. A Vida Silenciosa. p. 28-29.
25 Palavra de origem grega que se refere à “comunhão”; muitas vezes é utilizada como sinônimo de fraternidade.
tempo da contemplação. Como eremitas, os frades viviam o compromisso do combate espiritual na fidelidade cristã. Já como irmãos, reuniam-se sob o símbolo da comunidade cristã no seio da Igreja, onde eram só coração.


4.2. A tradição nos documentos da Ordem
Coração é uma das palavras que mais se repete na Institutione Primorum Monacorum. O capítulo segundo do documento afirma que a perfeição da Vida Religiosa consiste “em oferecer a Deus um coração santo e limpo de toda mancha atual de pecado”, empregando as próprias forças, confiando em sua graça, “para contemplar seu poder e sua glória”. Com grande diligência, frisa constantemente o sentido da palavra coração, apontando a sua sede de Deus e ao mesmo tempo a sua fragilidade, quando posto em combate contra as paixões e apegos do
mundo.
No capítulo sétimo, exorta ao eremita a atentar-se à sua vida contemplativa, pois o coração puro se esconde na Torrente do Carit, lugar do deleite e encontro com Deus, na sua calmaria e segurança. “Na caridade perfeita” – sinônimo ao termo Carit – “conseguirás o fim que havias abraçado que nasce de um coração puro, de uma consciência boa e de fé não fingida (1Tm 1, 5).”.
Já na carta Ignea Sagita, de Nicolau Gallus, em meio à tensão vivida pela Ordem durante a crise entre permanência no Monte ou na partida para as cidades da Europa, o capítulo sexto busca recordar os frades sobre a graça que receberam do Senhor em serem atraídos para o Carmelo: “Não nos fez nosso Deus e Salvador o favor de introduzir-nos na solidão, para lá numa intimidade toda especial falar ao nosso coração? ”.
Logo mais, no capítulo oitavo, afirma que a pureza do coração sofrerá com as agitações da cidade: “Não convém que nossa castidade, colocada na cela sofra alguma suspeita de corrupção, se lá, a pureza de coração sempre ocupada em santas cogitações, se empenha a conservar a alma livre de imundícies”.
E no décimo continua: “Se, portanto desejais subir no monte do Senhor ou ficar no seu santo lugar, porque então procurais a inocência de obras nocivas e pureza de coração num lugar imundo? ”. Nicolau Gallus chega a apelar para Aristóteles, afirmando que dois opostos não podem habitar ao mesmo tempo no mesmo sujeito, apontando para dubiedade do coração dos frades “rebeldes”. Felizmente essa “impureza” concebida por ele, se expandiu pela Europa e permitiu que o Carmelo reflorescesse anos mais tarde, dando à Igreja bons frutos, que inclusive, ajudaram a alimentar os cristãos de outras gerações e ainda os de nosso tempo.



Da consciência, o capítulo terceiro da carta aponta as feridas causadas a ela pelo convívio com os pagãos: “E aprendestes bem as obras dos pagãos, na quais a consciência nunca terá descanso e por isso Jeremias com dó do trabalho inútil da vossa Ordem, se lamenta dizendo. “Ela mora entre os pagãos e não encontra descanso” (Lam 1,3). No quinto, diz que a consciência, “ainda que entorpecida e errônea, sabe e sente” que foi arrancada do seio da contemplação. E em seguida diz que ela não recebeu “nem o espírito de conselho e fortaleza, nem o de ciência e piedade, nem de temor de Deus, mas o espírito da tontura daqueles, que segundo o profeta “concebeu a dor e deu à luz a iniquidade (Sl 7, 15).
Em outras passagens, ele recorda com insistência ao retorno à consciência verdadeira, através do seu exame. Diz que ela foi gravemente ferida pelas conversações e corrompida pela presença dos pagãos da cidade. Afirma que a união divina em que viviam os frades era falsa e que o remorso já não surtia mais efeito na consciência. Para Gálico, essa consciência estava definitivamente fadada a perecer o fogo do inferno.
Já na Ratio Institutiones Vitae Carmelitanae26, podemos observar que a proposta da Regra, ao enfatizar a necessidade de se oferecer a Deus um coração puro e uma consciência serena, sugere, na realidade, uma abertura a um processo de transformação que percorre por toda a vida, fundando esta experiência na tradição carmelitana que se inicia com a figura do Profeta Elias, levando a alma a vocação de esconder-se e alimentar-se na torrente do Carit e progressivamente encontrar seu cume Pessoa de Jesus Cristo, topo do monte ao qual desejamos e nos esforçamos por subir.

4.3. O coração como conversão e a consciência como cultivo da justiça
Afirma Carlos Mesters27, que Jesus só podia ter uma visão pura, porque a cultivava por meio da oração, trazendo presente a vontade de Deus continuamente em sua vida (Jo 4, 34;
5, 19). Por esta razão, incentivava seus discípulos a fazerem o mesmo, evitando entrar pelo (26 ) “O processo de transformação em Cristo exige da nossa parte o esforço contínuo por “oferecer a Deus um coração santo e purificado de toda a mancha atual do pecado. Alcançamos este fim quando somos perfeitos e estamos em Carit, isto é, ocultos no amor (in charitate), de que fala o Sábio: “o amor cobre todas as culpas” (Prov
10, 12b). De fato, este processo não se pode realizar, se se basear na simples força de vontade, separada da experiência do amor transformante de Deus, que foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo e que nos dá a força para responder ao convite radical de Cristo: “quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por minha causa há-de encontrá-la”. Por outro lado, requer o nosso esforço e o exercício das virtudes. Apoiados pela graça, comprometemo-nos a uma progressiva transformação: mediante o encontro com Cristo e o processo de união com Ele, o homem velho dá lugar ao novo e revestimo-nos de Cristo, produzindo o fruto do Espírito.” Ratio Institutiones Vitae Carmelitanae. p. 35-36 .
27 MESTERS, Carlos. Ao Redor da Fonte. p. 45.
mesmo caminho por qual andaram os fariseus, ou melhor, tomando “cuidado com o fermento
dos fariseus” (Mc 8, 15-16).
Agindo assim, a Palavra de Jesus tocava o mais íntimo do coração dos que lhe seguiam, dando-lhes capacidade para transformar a consciência. De modo central, deixou a imagem de sua presença nos pequenos e pobres, que só poderia ser vista pelos puros de coração, de modo que “tudo o que fosse feito a um dos irmãos mais pequeninos, era ao próprio Senhor que o era feito” (Mt 25, 40).
Na consciência também deve ser cultivada a justiça. Como carmelitas, trazemos em nosso Hábito o legado deixado pelo Profeta Elias, nosso pai. Para exercer a justiça, o Profeta Elias silenciou-se através da brisa leve. Do mesmo modo a nós, seus discípulos, que experimentando a contemplação no silêncio profético, alimentamos a consciência da justiça.
Assim também nossa Mãe cultivava o silêncio diante do mistério de seu Filho, o Filho de Deus, meditando todas coisas em seu coração (Lc 2, 19.51). É neste silêncio que examinamos a retidão de nossa consciência, sua serenidade e livre orientação para Deus, até chegar ao ponto de que, mesmo estando em meio às tarefas e conversações, sejamos capazes de estar atentos à fidelidade de Cristo Jesus.

4.4. O coração puro e a consciência serena na pessoa da Virgem Maria
Desde o princípio, os Carmelitas buscam viver a intimidade materna e fraterna com a Virgem Maria. A Virgindade de Nossa Senhora, tornou-se para a Ordem o conceito máximo de pureza, que, muito mais do que integridade física, se expressa e se vive através da união pessoal da alma com Deus. A devoção à sua Pureza é uma continuação ao culto da Anunciação. Nenhum outro ser humano seria capaz de alcançar este grau de pureza, como podemos observar na obra intitulada “A Senhora do Lugar” de Frei Emanuele Boaga, O. Carmo.
Ao longo do tempo, esta devoção foi sendo assumida em duas formas: a Imaculada Conceição, expressa por meio do Hábito (a capa branca representa a pureza da Virgem, assumida por aquele que dela está revestido), e do Título da Ordem. A segunda, tem relação com o mistério revelado a Elias, na “nuvenzinha”, símbolo ligado à Maternidade Divina. Os carmelitas, a exemplo da Virgem Maria, devem buscar imitar esta união com Deus, assumindo a virgindade voluntária, cultivando a pureza do coração, sem mancha de pecado, a partir da oração e da escuta fiel da Palavra do Senhor.
Santa Maria Madalena de Pazzi via nesta pureza a “fonte de todo ser”, porque na pureza da Virgem resplandece sua beleza que atrai Deus a seu ser. Para ela, a Virgem Maria é o exemplo da pureza mística que encontra seu ápice na união contemplativa com Deus. Esta contemplação se manifesta na realidade através da disponibilidade do homem, que aos poucos vai tornando-se “theotókoi” – termo utilizado pelo Beato Tito Brandsma para designar a fecundidade do carmelita que ‘gera Deus’ –, cuja vontade vai se conformando à do Senhor.
“Este panorama ascético-contemplativo se alarga para além de um mero fato fisiológico. Trata-se de uma aventura mística que tende a desenvolver-se, alimentada com a esperança e a encarnação no mistério da Igreja. A função eclesial profética da virgindade consiste em viver em situação de disponibilidade e fecundidade como Maria, a Virgem puríssima. Nos séculos XVII e XVIII, foi muito cuidado o culto da Imaculada nas igrejas carmelitanas e na Ordem Terceira, em toda a Ordem”. 28
Deste modo, a verdadeira devoção à Virgem Maria, liberta-nos dos frequentes desvios que podemos cometer em nossa vida enquanto religiosos. Não se trata de um pietismo infundado na realidade, que deturpa a imagem da Pureza de Nossa Senhora e nos leva à alienação da vocação carmelitana.
É, antes, uma adesão radical e autêntica ao serviço de Jesus Cristo, pois, inspirado na figura da Virgem Puríssima como Mãe, Irmã e Mestra, o carmelita é levado a subir o Carmelo, deixando-se transformar seu coração e sua consciência pela contemplação da Palavra e no exercício de atitudes concretas do amor ao próximo, sendo na Igreja aquilo ao qual em Maria encontramos o modelo fiel do nosso chamado enquanto Ordem do Carmo29.

4.5. O coração puro e a consciência serena em São João da Cruz
São João da Cruz, ao experimentar a conversão de seu coração e transformação de sua consciência através da noite escura, pode descrever com grande riqueza de detalhes o que se efetuou em seu interior. Sob seu exemplo, encontramos o incentivo para deixarmos as janelas dos sentidos fechadas para o mundo e abrir os olhos da alma para ir ao encontro de Deus. Este percurso, a subida do Monte Carmelo, feita por ele e almejada pelos que se revestem do santo Escapulário, São João da Cruz dividiu em dois momentos.
O primeiro é característico da escuridão dos sentidos, que consiste em tirar o gosto das paixões e más inclinações do coração, dando compreensão à consciência sobra a realidade e estado da própria alma quando vive fora da vida em Deus. Em seguida, passa-se para uma fase
mais profunda de purificação, que é chamada noite do espírito. Este nível é muito mais incisivo na alma que o Senhor sustenta para aproximá-la de si. Aqui, tudo o que o homem experimenta é

28 BOAGA, Emanuele. A Senhora do Lugar. p. 68.
29 Constituições da Ordem dos Irmãos da Bem Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo. p. 41.
paradoxal, porque ao mesmo tempo que se encontra em desolação profunda, pode perceber em si um gozo que reconhece emanar do próprio Deus.
Deste modo, pouco a pouco o coração vai deixando para trás suas impurezas e vai ganhando o formato do coração de Deus, isto é, assumindo seus planos e projetos. Já no campo da consciência, torna-se capaz de se despojar de sua própria moralidade, seus pré-conceitos e escrúpulos. Tudo o que antes causava dor pelo arrependimento dos pecados, torna-se matéria prima para a alma incendiar-se do amor de Deus. Quer dizer, ganha-se a liberdade conferida por Cristo, pois Ele mesmo se torna a luz que guia suas ações, começando a ter em si os mesmos sentimentos do Senhor, como exorta o Apóstolo Paulo.

4.6. O coração puro e a consciência serena na pessoa do Beato Tito Brandsma
Adentrando ao processo contemplativo, que é o caminho interior para cela mais íntima do nosso ser, o carmelita deve, em Deus, deixar-se purificar o coração e assumindo uma atitude de abertura para a sua presença na vida, vendo o mundo com os seus olhos, buscando seu rosto no amor e no serviço aos irmãos e irmãs, o que traduz perfeitamente a imagem da consciência serena que, quando incendida pelo divino Amor, lança suas chamas até o céu. Ele mesmo o afirma: “No interior mais profundo e na parte essencial do nosso eu está Deus, o Ser do nosso ser, a Vida da nossa vida, o fundamento da nossa existência e de tudo o que fazemos e somos capazes de fazer. Deus é ali a chama em nossa alma. Ele acende em nós um fogo cujas labaredas se estendem até o céu”30.
Para Tito Brandsma, o carisma carmelitano se resume em “cumprir nossas obrigações, que consiste em evitar o pecado e exercer a virtude [...] gozar e experimentar em nosso espírito a presença divina e a doçura da glória celeste não apenas após a morte, mas já aqui na terra”31. Mas isto só se obtém passando pelo deserto, carregando a cruz de Nosso Senhor, dando-nos ao despojamento e esvaziamento, atingindo os ápices da mística, quer dizer, a transformação do coração em “puritas cordis” por meio do “vacare Deo”. Tito Brandsma reconhece que, embora nossa união com Deus não seja tão excelsa como a da Virgem Maria, ainda assim, em sua figura, podemos chamar-nos de “theotókoi”, isto é, geradores de Deus.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A inspiração de Santo Alberto, em exortar-nos a viver no “puritas cordes et bona conscientia”32, trouxe a chave da especificidade em relação às demais formas de Vida Religiosa e, com isso, o desafio da contemplação, fonte e objetivo do nosso carisma. No caminho proposto pela Regra, a “pureza do coração” e a “retidão da consciência” não nos sugerem uma busca exclusivamente pessoal e subjetiva, que viria a se expressar a excelência da moralidade da vida do religioso carmelita; pois a nós, seres humanos frágeis, é impossível alcançar estes dois pontos sozinhos, ainda que em direção ao serviço de Deus. Essa retidão e pureza é muito bem expressa como uma maneira de andar na humildade, como bem o afirma nossa irmã Santa Teresa de Jesus (V, 10, n4): “Uma coisa é certa, quanto mais vemos que estamos ricos, sabendo que somos pobres, tanto maior o nosso aproveitamento e ainda mais verdadeira a humildade. Acreditemos que Aquele que nos dá os bens nos concederá a graça para que, começando o demônio a tentar-nos nesse aspecto, nós o entendamos e nos fortaleçamos para resistir-lhe; isto é, se andarmos com retidão diante de Deus, voltados para contentar apenas a Ele, e não aos homens”. 33
Inclusive, optamos por dar maior ênfase ao aspecto da serenidade da consciência porque, a Ordem do Carmo, como uma representação da Igreja que escala a montanha da contemplação, anseia levar ao mundo o convite à santidade, mostrando que seus doutores, santos e beatos, não foram elevados aos altares por mérito exclusivo da retidão de suas ações, mas, de sua profunda entrega à vontade de Deus, que é maior que qualquer mancha de pecado em suas histórias de vida e itinerário de conversão.
Assim como nós, hoje, cada um de nossos irmãos mais velhos teve de enfrentar as complicações e implicações da realidade de suas vidas e do contexto de suas épocas, exercitando-se na humildade para abrirem-se à transformação em Deus. Deste modo, compreendemos que a figura da serenidade, aqui, expressa melhor o caráter da confiança, da esperança, da atitude de entrega e comunhão com Deus.
Gozar dos dons da serenidade na consciência e da pureza no coração, reflete o reconhecimento próprio do religioso que, consciente de suas falhas e limitações, se decide por




32 Na fórmula original da Regra, isto é, sua versão em Latim.
33 TERESA de Jesus, Obras Completas. p. 71.

orientar sua vida sob os alicerces do Evangelho de Jesus Cristo, e ainda a sua esperança em achegar-se cada vez próximo de sua amizade por meio da contemplação.
Isto  se dá porque o  Senhor  é sensível  à fragilidade humana e  conhece bem  as inclinações do coração do homem, a ele inclinando-se sempre que necessário para o resgatar – o que deixou bem expresso o Ano Jubilar da Misericórdia. É por isso que insistentemente Ele nos convida à sua amizade, para que também O busquemos e adentremos num contínuo caminho de conversão, afim de que n’Ele, alcancemos um coração indiviso, isto é, somente a Ele dedicado.
Por outro lado, ao perceber em si as disposições para trilhar o caminho da transformação, o religioso deve empregar-se numa diligência que vá de encontro à graça de Deus, a fim de que aos poucos, se veja purificado seu coração e reordenada a sua consciência. Esta diligência, na verdade, aponta para a maneira como o carmelita deve orientar suas capacidades racionais, pondo-se a caminho para ir ao encontro de Deus. Neste sentido a Ordem do Carmo deve ser na Igreja e no mundo, uma seta que aponta o caminho para o cultivo de uma vida autêntica e ordenada em todos os aspectos para a Pessoa de Jesus Cristo. E assim, Santo Alberto, apesar de conferir-nos originalidade, não propôs algo que diga respeito somente aos Carmelitas enquanto vivência radical do batismo.
Na realidade, pureza de coração e a retidão da consciência devem ser exercícios próprios de cada religioso e religiosa, seja qual for o caminho de consagração por ele assumido. Mesmo assim, para o Carmelo, esta expressão configura-se na singularidade do carisma, pois a plenitude da contemplação será o resultado para estes dois esforços primários, aplicados na vida de cada carmelita.




6.  REFLEXÕES PESSOAIS DE CONFRADES NO CARMELO



6.1. Frei Eduardo Ferreira, O. Carmo

“Caro João, e demais confrades,

Paz e alegria. Antes de tudo, quero parabeniza-los pela iniciativa. É uma sábia forma de conhecer e atualizar a nossa norma de vida e assim, assumi-la por toda vida como consagrados Carmelitas.
O parágrafo segundo do prologo da regra, diz que: devemos viver em obséquio de Jesus Cristo e servi-lo fielmente com o coração puro e consciência serena, ou seja, devemos sempre exercitar a pureza em nosso coração (pois a boca fala do que o coração está cheio) E ele deve estar  cheio  de  que?  É  claro  do  próprio  Deus.  Meu  coração  e  minha  carne  rejubilam e exultam de alegria no Deus vivo! (Sl 83,3b).
E não das coisas de um mundo que vive nas trevas. E como é difícil! No corre-corre do dia, acabamos sem “consciência” recebendo tantas coisas que quando tomamos a consciência, fizemos coisas desastrosas! O Senhor respirou um agradável odor, e disse em seu coração: “Doravante, não mais amaldiçoarei a terra por causa do homem porque os pensamentos do seu coração são maus desde a sua juventude, e não ferirei mais todos os seres vivos, como o fiz”. (Gn 8,21)
O coração é o interior do homem, distinto do que se vê e sobre tudo da “carne”. É a sede das faculdades e da personalidade, de onde nascem pensamentos e sentimentos, palavras, decisões, ação. Deus o conhece profundamente, quaisquer que sejam as aparências (1Sm 16,7: Sl 17,3; 44,22; Jr 11,20) O coração é o centro da consciência religiosa e da vida moral (Sl
51,12.19; Jr 4,4+; 31,31+; Ez 36,26). É em seu coração que o homem procura a Deus (Dt 4,29;), que ouve (1Rs 3,9), que serve (1Sm 12,20.24), o louva (Sl 111,1), o ama (Dt 6,5).
O coração simples, reto, puro, é aquele que não está dividido por nenhuma reserva ou segunda intenção e por nenhuma falsa aparência em relação a Deus ou aos homens (Ef 1,18) 34. “Verdade é que a minha consciência de nada me acusa, mas nem por isto estou justificado; meu juiz é o Senhor” 1Cor 4,4. A consciência é boa e pura se inspirada pela fé e
pelo amor (1Tm 1,5.19; 1Pd 3,16.21) e purificada pelo sangue de Cristo (Hb 9,14;10,22).


34 Rodapé da Bíblia Jerusalém.

Porquanto todos nós teremos de comparecer manifestamente perante o tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba a retribuição do que tiver feito durante sua vida no corpo, seja para o bem, seja para o mal. Compenetrados, pois, do temor do Senhor, procuramos convencer os homens. Quanto a Deus, somos-lhe plenamente manifestos; espero  que sejamos também plenamente conhecidos por vós em vossas consciências. (2Cor 5,10-11).
Coração puro e consciência serena caminham juntos, e se tenho um coração puro, terei como consequência uma consciência serena (tranquila). Digo isso é porque quando tenho uma consciência serena é porque tudo o que fiz quer seja a mim ou ao meu próximo, fora realizado dentro do maior mandamento que é o AMOR. Não burlei nenhuma lei, quer seja natural ou social. Por isso a expressão, recostar a cabeça no travesseiro e dormir com a consciência limpa ou tranquila.
"No entardecer de nossa vida, seremos julgados no amor", diz São João da Cruz. E isso fica muito claro na palavra que Nosso Senhor segundo o Evangelho de Mt 25, 31-46, quando põe à Sua direita os que amaram concretamente os seus irmãos, e à Sua esquerda os que se negaram a servir-lhes. A preocupação com o próximo está, de fato, no centro da mensagem cristã, não como mera filantropia, mas como caridade, por meio da qual somos capazes de enxergar na carne de quem sofre a própria carne chagada do Redentor.
Assim, todos os homens são como que sacramentais, instrumentos concretos para amar o Cristo: "Todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!". Em suma, isso é ter a consciência serena. Repito, nos dias de hoje ter o coração puro e a consciência serena, não é tão fácil. Mas procuro a cada momento exercita-las dentro da missão da qual foi designado, pedindo também o dom da sabedoria.
A oração é um caminho bom e prudente, pois, para que tenhamos um coração cheio de Deus é necessário enchê-lo D´Ele, e a oração é o caminho. Por meio do silêncio, da meditação da palavra faremos um bom caminho. Espero que esse momento de estudo, que vocês estão vivendo, seja também um bom caminho para que tenhais um coração puro e uma
consciência serena.
Com Maria em oração

Frei Eduardo, O. Carmo”


6.2. Frei Evaldo Xavier Gomes, O. Carmo
“O desafio é viver a Regra no quotidiano, ser fraterno com o coração puro a consciência serena. Caso contrário são somente palavras, sem conteúdo e sem vida. Letra viva! A fraternidade se constrói com gestos”.

6.3. Frei Felisberto Caldeira de Oliveira, O. Carmo
“Um coração puro e uma consciência reta. Podemos estar tranquilos com nosso comportamento embora ele seja fruto de uma consciência acomodada com seus defeitos. Volto à tradução consciência reta, justa, equilibrada e de acordo com a vontade de Deus e de seu Reino de Amor.  Sempre me preocupei em não me acomodar com meus erros nem tampouco com os defeitos dos outros. Não é por que os outros fazem que devo fazer. Devemos aprender a fazer o discernimento. Nada melhor na vida do que você estar bem com você, não dá para mudar o mundo, mas posso mudar a mim mesmo, aos poucos.  As Irmãs Carmelitas da Divina Providência têm como mote esta passagem da regra. Consciência tranquila, combati o bom combate, procurar ser puro dentro dos nossos limites conscientes e inconscientes. O Salmo 131, meu  salmo  refrão.      “Senhor  o  meu  coração  está  tranquilo  e  minha  almas  dorme sossegada dentro de mim”. A ISTO EU CHAMO PAZ”.

6.4. Frei Paulo Gollarte, O. Carmo
“A finalidade da nossa vida de carmelitas é viver no serviço de Cristo, o que equivale na disposição do seu seguimento. Apresentam-se então duas condições: 1) “coração puro”, que na linguagem bíblica é o olhar limpo das bem-aventuranças: que nos permite enxergar o próximo sem preconceitos, de acordo com a oração tradicional ao Espírito Santo “apreciar retamente todas as coisas”, procurar enxergar com a objetividade de Deus; 2) prefiro a tradução de “consciência serena” ao invés de reta consciência, insistindo no elemento paz, que se encontra em Deus, ele que a fonte da paz”.




6.5. Frei Paulo Ricardo Ferreira, O. Carmo

‘“...Corde puro et bona conscientia...” Coração puro e reta consciência está ligado categoricamente ao seguimento radical de Cristo na Regra. Por isso o Carmelita que queira plenamente, sem meios termos, realizar a vocação a qual foi chamado, deve estar totalmente livre a viver esta vocação. Sua consciência e seu coração não pode enganar ou ser enganado. Quem adere a Cristo aceita a sua pessoa e o seu caminho “apressadamente” como Maria, partindo sem perder o foco.

7. APÊNDICES

7.1. Citações específicas para o Prólogo da Regra
Salmos 24, 4 – “Senhor, mostrai-me os vossos caminhos, e ensinai-me as vossas veredas”; Atos 9, 31 – “A Igreja gozava então de paz por toda a Judéia, Galileia e Samaria. Estabelecia- se ela caminhando no temor do Senhor, e a assistência do Espírito Santo a fazia crescer em número”;
Romanos 1, 1 – “Paulo, servo de Jesus Cristo, escolhido para ser apóstolo, reservado para anunciar o Evangelho de Deus”;
1 Coríntios 4, 14 – “Não vos escrevo estas coisas para vos envergonhar, mas admoesto-vos como meus filhos muitos amados”;
1 Coríntios 4, 17 – “Para isso é que vos enviei Timóteo, meu filho muito amado e fiel no Senhor. Ele vos recordará as minhas normas de conduta, tais como as ensinou por toda parte, em todas as igrejas”;
2 Coríntios 1, 1 – “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo, à igreja de Deus que está em Corinto, e a todos os irmãos santos que estão em toda a Acaia”;
2 Coríntios 10, 5 – “Nós aniquilamos todo raciocínio e todo orgulho que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento e o reduzimos à obediência a Cristo”; Efésios 5, 1 – “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados”;
Timóteo 1,5 – “Esta recomendação só visa a estabelecer a caridade, nascida de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera”;
Timóteo 1, 19 – “com fidelidade e boa consciência, que alguns desprezaram e naufragaram na fé”; Filêmon 1, 1 – “Paulo, prisioneiro de Jesus Cristo, e seu irmão Timóteo, a Filêmon, nosso muito
amado colaborador”; Hebreus 1, 1 – “Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas”;
1 Pedro 1, 22 – “Em obediência à verdade, tendes purificado as vossas almas para praticardes um amor fraterno  sincero. Amai-vos, pois,  uns aos outros,  ardentemente e do  fundo do coração”;
1 Pedro 3, 16 – “Tende uma consciência reta a fim de que, mesmo naquilo em que dizem mal de vós, sejam confundidos os que desacreditam o vosso santo procedimento em Cristo”.
7.2. Citações com o verbete ‘coração’35 no Livro dos Salmos36
Sl 04 - 8 Deste mais alegria ao meu coração do que àqueles que têm muito trigo e vinho.
Sl 05 - 10 Pois não existe na boca deles sinceridade, seu coração é perverso, sua garganta é um sepulcro aberto, usam a língua para adular.
Sl 07 - 10 Põe fim à maldade dos ímpios, e confirma o justo, tu que sondas mente e coração, ó Deus justo.
Sl 07 - 11 A minha defesa está em Deus, ele salva os que têm o coração reto.
Sl 09(9A) - 2 Quero te dar graças, Senhor, de todo o coração, proclamar todas as tuas maravilhas, Sl 10(9B) - 17 Ouviste o desejo dos humildes, Senhor, fortaleces seu coração e o escutas,
Sl 11(10) - 2 Pois os inimigos retesam o arco, já põem sua flecha na corda, para ferir às ocultas os que têm bom coração.
Sl 12(11) - 3 Falam mentiras uns com os outros, usam uma linguagem enganadora, de coração hipócrita. Sl 13(12) - 3 Até quando na minha alma experimentarei aflições, tristeza no coração a toda hora? Até quando de mim triunfará o inimigo?
Sl 13(12) - 6 Mas eu confiei na tua misericórdia. Alegre-se meu coração na tua salvação e cante ao Senhor, pelo bem que me fez.
Sl 15(14) - 2 Aquele que vive sem culpa, age com justiça e fala a verdade no seu coração;
Sl 16(15) - 7 Bendigo o Senhor que me aconselhou; mesmo de noite meu coração me instrui.
Sl 16(15) - 9 Disso se alegra meu coração, exulta a minha alma; também meu corpo repousa seguro,
Sl 17(16) - 3 Prova meu coração, sonda-o de noite, prova-me no fogo: em mim não encontrarás malícia. Sl 17(16) - 10 Eles fecharam seu coração insensível, suas bocas falam com arrogância.
Sl 19(18) - 9 As ordens do Senhor são justas, alegram o coração; os mandamentos do Senhor são retos, iluminam os olhos.
Sl 19(18) - 15 Digna-te aceitar as palavras de minha boca, cheguem à tua presença os pensamentos do meu coração. Senhor, meu rochedo e meu libertador.
Sl 19(18) - 5 Que ele te conceda o que teu coração deseja, dê sucesso a todo projeto teu. Sl 21(20) - 3 Realizaste o desejo do seu coração, não rejeitaste o pedido que fez.
Sl 22(21) - 15 Como água sou derramado, deslocam-se todos os meus ossos. Meu coração se tornou como de cera derrete-se no meio do meu peito.
Sl 22(21) - 27 Os pobres comerão e ficarão fartos, louvarão o Senhor os que o procuram: “Viva para sempre o coração deles! ”.


35 Devemos lembrar que a palavra coração, frequente é apresenta nos Salmos sob o contexto da profundidade, da interioridade do ser humano, como foi conceituada no início do trabalho. Entretanto, pode vir muitas vezes sob a intenção de referir-se ao tema da consciência, enquanto dimensão da moralidade do indivíduo, do seu intelecto ou capacidade de julgamento e tomada de decisões.
36 BIBLIA Sagrada, CNBB 9ª Edição, São Paulo: Canção Nova, 2009.
Sl 24(23) - 4 Quem tem mãos inocentes e coração puro, quem não corre atrás de vaidades, quem não jura para enganar seu próximo.
Sl 25(24) - 17 Alivia as angústias do meu coração, livra-me das aflições.
Sl 26(25) - 2 Examina-me, Senhor, e põe-me à prova, purifica no fogo meu coração e minha mente.
Sl 26(25) - 3 Se contra mim acampa um exército, meu coração não teme; se contra mim ferve o combate, mesmo então tenho confiança.
Sl 26(25) - 8 Meu coração se lembra de ti: “Buscai minha face”. Tua face, Senhor, eu busco.
Sl 27(26) - 14 Espera no Senhor, sê forte, firme-se teu coração e espera no Senhor. Deus é a força do seu povo.
Sl 28(27) - 3 Não me arrastes com os ímpios e com os que fazem o mal. Falam de paz com seu próximo, mas têm o coração cheio de maldade.
Sl 28(27) - 7 O Senhor é minha força e meu escudo; pus nele a minha confiança; socorreu-me, por isso exulta meu coração, com meu canto lhe dou graças.
Sl 30(29) - 13 para que meu coração cante sem cessar. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. Sl 31(30) - 25 Tende coragem e um coração firme, vós todos que esperais no Senhor.
Sl 32(31) - 11 Alegrai-vos no Senhor e exultai, ó justos, jubilai, vós todos, retos de coração.
Sl 33(32) - 11 Mas o plano do Senhor é estável para sempre, os pensamentos do seu coração por todas as gerações.
Sl 33(32) - 15 Foi ele que lhes formou o coração, ele compreende tudo o que fazem. Sl 33(32) - 21 Nele se alegra o nosso coração e confiamos no seu santo nome.
Sl 34(33) - 19 O Senhor está perto de quem tem o coração ferido, salva os ânimos abatidos. Sl 36(35) - 2 No coração do ímpio fala o pecado, temor a Deus não existe para ele.
Sl 36(35) - 11 Concede sempre a tua graça a quem te conhece, e a tua justiça aos retos de coração. Sl 37(36) - 4 Põe no Senhor tuas delícias e ele te dará o que teu coração pede.
Sl 37(36) - 14 Os maus puxam a espada e retesam o arco, para atingir o humilde e o pobre, para matar os retos de coração.
Sl 37(36) - 15 Sua espada vai penetrar no seu próprio coração, seu arco será quebrado. Sl 37(36) - 31 A lei do seu Deus está no seu coração, seus pés não vacilam.
Sl 38(37) - 11 Meu coração palpita, a força me abandona, apaga-se a luz dos meus olhos.
Sl 39(38) - 4 Ardia meu coração dentro de mim: enquanto suspirava, acendia-se um fogo. Então falei com minha língua:
Sl 40(39) - 9 que eu cumpra tua vontade. Meu Deus, é isto que desejo, tua lei está no fundo do meu coração.
Sl 41(40) - 7 Quem vem visitar-me diz mentira, seu coração acumula maldade e saindo fora fala mal.
Sl 42(41) - 5 Disto me lembro e meu coração se aflige: quando eu passava junto à tenda admirável, rumo à casa de Deus, entre cantos de alegria e de louvor de uma multidão em festa.
Sl 44(43) - 19 Nosso coração não voltou para trás, nem nossos passos se desviaram do teu caminho.
Sl 44(43) - 22 não teria Deus descoberto o fato, já que Ele conhece os segredos do coração?
Sl 45(44) - 2 Do meu coração nasce um lindo poema, vou cantar meus versos para o rei. Minha língua é como a pena de um escritor veloz.
Sl 45(43) - 6 tuas flechas agudas vão acertar o coração dos teus inimigos; a teus pés vão cair os povos. Sl 49(48) - 4 Minha boca fala a sabedoria, meu coração medita a inteligência;
Sl 51(50) - 8 Mas tu queres a sinceridade do coração e no íntimo me ensinas a sabedoria.
Sl 51(50) - 12 Cria em mim, ó Deus, um coração puro, renova em mim um espírito resoluto.
Sl 51(50) - 19 Sacrifício para Deus é um espírito contrito; não desprezas, ó Deus, um coração contrito e humilhado.
Sl 54(53) - 8 De todo coração vou te oferecer um sacrifício, o sacrifício de louvor a teu nome, Senhor, porque és bom;
Sl 55(54) - 5 Meu coração treme no meu peito e terrores mortais se abateram sobre mim.
Sl 55(54) - 8 Meu coração está pronto, ó Deus, meu coração está pronto. Quero cantar, a ti quero louvar: Sl 55(54) - 22 Mais macia que a manteiga é sua boca, mas no coração têm a guerra; mais fluidas que o óleo são suas palavras, mas são espadas afiadas.
Sl 57(56) - 8 Meu coração está pronto, ó Deus, meu coração está pronto. Quero cantar, a ti quero louvar: Sl 58(57) - 3 Não! Do fundo do coração cometeis crimes; no país vossas mãos distribuem a injustiça.
Sl 61(60) - 3 Dos confins da terra eu te invoco, enquanto meu coração desfalece.
Sl 62(61) - 5 Tramam só de precipitá-lo do alto, acham gosto na mentira. Com a boca bendizem, mas no coração maldizem.
Sl 62(61) - 9 Confia sempre nele, ó povo, diante dele derrama teu coração, nosso refúgio é Deus.
Sl 62(61) - 11 Não confieis na violência, não vos iludais com a rapina; às riquezas, mesmo se abundantes, não apegueis o coração.
Sl 64(63) - 7 Meditam a iniquidade, escondem o que tramaram; impenetrável é o homem, seu coração é um abismo.
Sl 64(63) - 11 O justo se alegrará no Senhor e nele colocará sua esperança, e disso vão gloriar-se os retos de coração.
Sl 66(65) - 18 Se no meu coração se achasse culpa, o Senhor não me teria ouvido;
Sl 69(68) - 21 A ignomínia oprime meu coração e eu vacilo, esperei em vão quem tivesse pena de mim, procurei quem me consolasse, mas não encontrei.
Sl 69(68) - 33 “Vede, humildes e alegrai-vos! Vós que buscais a Deus, vosso coração reviva! Sl 73(72) - 1 Sim, Deus é bom para Israel, o Senhor é bom para os puros de coração.
Sl 73(72) - 7 seu olhar desponta de sua gordura, transbordam as ambições de seu coração.
Sl 73(72) - 13 Então foi em vão que conservei puro meu coração e que na inocência lavei minhas mãos? Sl 73(72) - 21 Quando meu coração se amargurava e nos meus rins sentia dor aguda,
Sl 74(73) - 26 Minha carne e meu coração desfalecem; rochedo do meu coração e minha porção é Deus para sempre!
Sl 77(76) - 7 De noite medito no meu coração, reflito, e meu espírito se interroga.
Sl 77(76) - 10 Acaso Deus vai se esquecer de agir com clemência, ou na sua ira fechou o coração?
Sl 78(77) - 8 para não serem, como seus pais, uma geração indócil e rebelde, cujo coração foi inconstante e cujo espírito foi infiel a Deus.
Sl 78(77) - 18 Tentaram a Deus no seu coração, pedindo comida segundo seu capricho. Sl 78(77) - 37 seu coração não era sincero com ele e não eram fiéis à sua aliança.
Sl 78(77) - 72 Ele os apascentou com um coração honesto, e os conduziu com mão sábia.
Sl 81(80) - 13 Por isso abandonei-o à dureza do seu coração, deixando que seguisse sua própria cabeça. Sl 84(83) - 3 Minha alma desfalece e suspira pelos átrios do Senhor. Meu coração e minha carne exultam no Deus vivo.
Sl 84(83) - 6 Feliz quem encontra em ti sua força e decide no seu coração a santa viagem.
Sl 85(84) - 9 Ouvirei o que diz o Senhor Deus: ele anuncia paz para seu povo, para seus fiéis, para quem volta a ele de todo o coração
Sl 86(85) - 11 Mostra-me, Senhor, o teu caminho, para eu caminhar na tua verdade; faze que meu coração tema só o teu nome.
Sl 86(85) - 12 Eu te darei graças, Senhor, meu Deus, de todo o coração e darei glória a teu nome sempre, Sl 89(88) - 51 Lembra-te, Senhor, do opróbrio do teu servo, trago no coração todos os ultrajes dos povos, Sl 90(81) - 12 Ensina-nos a contar nossos dias e assim teremos um coração sábio.
Sl 94(93) - 15 mas o juízo voltará a ser conforme a justiça, vão segui-los todos os retos de coração.
Sl 95(94) - 10 Por quarenta anos aquela geração me aborreceu, e eu disse: São um povo de coração transviado, não conhecem meus caminhos;
Sl 97(96) - 10 O Senhor ama os que detestam o mal; protege a vida dos seus fiéis, livrando-os das mãos dos ímpios.
Sl 101(100) - 2 Vou seguir o caminho da inocência: quando virás a mim? Caminharei com coração íntegro, na minha família e na minha casa.
Sl 101(100) - 4 Longe de mim o coração perverso, não quero conhecer o que é mau.
Sl 101(100) - 5 Quem calunia em segredo seu próximo vou reduzi-lo ao silêncio; quem tem olhar altivo e coração arrogante não suportarei.
Sl 102(101) - 5 Pisado como a erva, meu coração está secando; pois até me esqueço de comer meu pão. Sl 103(102) - 15 o vinho que alegra o coração do homem, o óleo que realça o brilho do rosto e o pão que sustenta o seu vigor.
Sl 105(104) - 3 Gloriai-vos do seu santo nome, alegre-se o coração dos que buscam o Senhor.
Sl 105(104) - 25 Mudou o coração deles, de modo que passaram a odiar seu povo, e agiram com astúcia contra seus servos.
Sl 107(106) - 12 Ele humilhou o coração deles pelo sofrimento; ficaram abatidos e ninguém os socorria. Sl 108(107) - 2 Meu coração está pronto, ó Deus! Meu coração está pronto. Quero cantar, a ti quero louvar. Desperta, minha glória,



Sl 109(108) - 16 Porque não se lembrou de exercer a misericórdia, mas perseguiu o pobre e o indigente e o homem de coração ferido para matá-los.
Sl 111(110) - 1 Aleluia! De todo coração darei graças ao Senhor, na reunião dos justos e na assembleia. Sl 112(111) - 7 Não tem medo de notícias más, seu coração é firme, confia no Senhor;
Sl 112(111) - 8 seu coração está seguro, nada teme, até ele vencer seus inimigos.
Sl 119(118) - 2 Felizes os que guardam seus testemunhos e o procuram de todo o coração. Sl 119(118) - 7 Vou te louvar com um coração sincero quando aprender tuas justas normas Sl 119(118) - 10 De todo coração te procuro: não me deixes desviar dos teus preceitos.
Sl 119(118) - 11 Conservo no coração tuas promessas para não te ofender com o pecado.
Sl 119(118) - 32 Correrei pelo caminho dos vossos mandamentos, quando dilatareis meu coração. Sl 119(118) - 34 Dá-me inteligência, para que observe tua lei e a guarde de todo coração.
Sl 119(118) - 36 Inclina meu coração para teus testemunhos e não para a avareza.
Sl 119(118) - 58 De todo coração te supliquei: piedade de mim segundo tua promessa.
Sl 119(118) - 69 Caluniaram-me os insolentes, de todo coração guardarei teus preceitos.
Sl 119(118) - 70 O coração deles é insensível como a gordura, na tua lei encontro minhas delícias. Sl 119(118) - 80 Que meu coração seja íntegro nos teus estatutos, para eu não ficar envergonhado.
Sl 119(118) - 111 Minha herança para sempre são teus testemunhos, são esses a alegria do meu coração. Sl 119(118) - 112 Inclinei meu coração a cumprir teus estatutos, desde agora e para sempre.
Sl 119(118) - 145 Eu te invoco de todo coração, Senhor, responde-me; guardarei teus estatutos.
Sl 119(118) - 161 Poderosos me perseguem sem motivo, mas meu coração só teme as tuas palavras. Sl 125(124) - 4 Dá, Senhor, felicidade aos bons e aos retos de coração.
Sl 131(130) - 1 Senhor, meu coração não se orgulha e meu olhar não é soberbo; não ando atrás de coisas grandes, superiores às minhas forças.
Sl 138(137) - 1 Eu te dou graças, Senhor, de todo coração: pois ouviste as palavras da minha boca. A ti contarei diante dos anjos,
Sl 139(138) - 23 Examina-me, ó Deus, e conhece meu coração, prova-me e conhece meus sentimentos; Sl 140(139) - 3 dos que tramam maldades no seu coração e todo dia provocam guerras.
Sl 141(140) - 4 Não deixes que meu coração se incline ao mal e pratique a maldade com os pecadores; que eu não prove de seus manjares.
Sl 143(142) - 4 Em mim desfalece o meu espírito, meu coração se consome.
Sl 145(144) - 18 O Senhor está perto de todos os que o invocam, dos que o invocam de coração sincero.
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