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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

*TRÍDUO A SANTA TERESA DE LISIEUX: 2º Dia.


*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm, In Memoriam.

Segundo dia. Tema: A fundamental experiência da esperança

Acolhida
   1. Criar um bom ambiente, dando as boas-vindas e colocando as pessoas à vontade.
   2. Canto inicial. Sugestão: “A Ti, meu Deus, elevo meu coração”. Durante o canto são introduzidas a Bíblia e, em seguida, uma imagem de Santa Teresinha, e colocadas sobre uma mesinha no meio de grupo.
   3. O presidente ou coordenador da celebração apresenta brevemente o assunto que vai ser refletido, meditado e rezado neste segundo dia da novena.
   4. Os participantes invocam a luz do Espírito Santo.

A esperança que nos faz caminhar
            O ser humano, no seu viver e conviver, é movido por desejos e projetos.  É um dinamismo que sempre está presente, não só de modo consciente, mas também no plano inconsciente e pré-consciente. Já atua no ser humano ainda no seio materno.   Graças a ele abrem-se as possibilidades da realização humana. Mas nem sempre os desejos encontram as portas abertas. Diversos fatores levam também a portas fechadas. As possibilidades de êxito não excluem de antemão os fracassos. A esperança conta sempre com o desafio. Do contrário seria como um relógio que indica inexoravelmente todas as horas até que se apresenta um desgaste do mecanismo ou da pilha. O relógio não convive com esses defeitos. A esperança visa o “dar certo” na vida, mas sabe dar sentido a eventuais fracassos. Até podemos dizer que se alimenta dos fracassos, integrando-os na caminhada para o bom êxito. É que o dinamismo da esperança humana carrega em si uma certeza prática, justificada  pela inteligência e pela experiência da vida. Sem isto, facilmente se revela como ilusão. A experiência nos ensina que muitas promessas neste mundo transformaram a vida de uma pessoa, de uma família, ou mesmo da sociedade em pesadelo, desfazendo sonhos de felicidade. 
            A esperança cristã é a firme confiança de obter a felicidade prometida por Deus. Ela é uma das três virtudes teologais: o próprio Deus é a sua origem seu motivo e seu objeto. Fundada na fé, a esperança se apoia na certeza da promessa e da ajuda da graça divina. A virtude da esperança responde ao desejo de felicidade que Deus colocou no coração humano criado por Ele. Por isso, não rejeita as esperanças que inspiram a  caminhada do homem neste mundo. A esperança assume as nossas atividades, purificando-as para que sejam orientadas para a felicidade que só Deus pode dar. Como Deus é maior do que o nosso coração, a esperança é a confiança de obter também tudo o que nos conduz à felicidade divina: a graça e a perseverança até o fim.

A Bíblia nos fala da esperança

1. Introdução à leitura de alguns textos bíblicos
            A fé, a esperança e a caridade estão intimamente interligadas. Quando Deus, revelando-se em Jesus Cristo, nos convida a crer nele,  ele se apresenta como quem merece confiança, suscitando em nós uma esperança. Esta esperança não se baseia nos nossos méritos, mas no amor com que Deus nos ama. O nosso amor a Deus faz crescer a fé e a esperança. E quanto maior for a nossa fé e a nossa esperança no poder e na misericórdia de Deus, tanto mais recebe-se dele.
2. Canto: “Eu confia em Nosso Senhor, com fé esperança e amor”
3. Leitura do texto da Bíblia: Mt 5, 1-11.
4. Momento de silêncio.

5. Perguntas para a reflexão:
•O que chamou mais a sua atenção nas Bem-aventuranças proclamadas por Jesus? Por que?
•“Só Deus satisfaz”. Está de acordo com estas palavras de Sto Tomás de Aquino?  Como conciliar essa afirmação com os nossos engajamentos, compromissos e atividades terrestres?

Teresa: uma “Teóloga” da esperança
            O ser humano tem uma tendência natural à sua melhor realização.  Neste sentido ele se define pelo desejo, pela esperança. A experiência nos mostra que essa busca de felicidade descamba freqüentemente para um egoísmo. Numa sociedade de consumo comandada pelo sistema econômico neo-liberal, o individualismo encontra um terreno particularmente propício, cuidadosamente  regado pela mídia. Não faltaram outras pessoas ou correntes que procuraram abranger sociedades inteiras num vasto movimento de esperança inspirado por determinadas ideologias, como o comunismo ou vários modelos de nacionalismo. Mas também nestes casos os quadros da felicidade prometida acabaram despencando.
            A França, na época em que Teresa viveu, era caracterizada por um ateísmo e virulento anticlericalismo., especialmente entre as elites intelectuais. Como podia seu ingresso num convento de clausura ser um gesto de esperança? Não era antes uma fuga, uma evasão egoísta mascarada por pensamentos piedosos sobre a salvação dos pecadores?  Afinal, em que consistia a esperança de Teresa de Lisieux? Que a justiça de Deus acertasse as contas com os que não acreditavam nele?  Sim, a justiça de Deus estava na mira da Carmelita porque contempla e adora as suas perfeições  divinas através de sua infinita misericórdia: “a própria justiça (talvez mais do que qualquer outra) se me afigura revestida de amor”.   Não é na situação deplorável do mundo que ela fixa seu olhar: “meus desejos, minhas esperanças, vão às raias do infinito”.  A esperança da Teresa é realmente teologal. vai ao seu verdadeiro ponto de apoio. Ela não parte de uma espécie de pressuposição de que um número de criaturas humanas sofrerá a condenação eterna, como determinadas interpretações teológicas do mistério da predestinação apregoavam. Este fatalismo não aparece no vocabulário de Teresa, permeado pela certeza da gratuidade da infinita misericórdia divina. Para a sua ousadia temerária não há como não apostar nesta última.
            Aqui aparece, talvez, um traço característico da visão feminina do mistério de Deus à qual, durante séculos, foi vedado o acesso ao pensamento teológico elaborado pelos homens. Não é isto que ela deixa entrever quando constata que Deus é pouco amado na terra ...mesmo pelos padres e religiosos?   Teresa desejou ser identificada ao Amor. O amor não seria amor se não fosse uma sede de expansão, de doação.  Por isto a esperança alarga seus horizontes à medida que nos animam os sentimentos de Cristo (cf. Fl 2,5): “Cristo que morreu por nós quando éramos ainda pecadores”(Rm 5,8). Já na sua adolescência Teresa, apelando à misericórdia de Deus revelada na Paixão e Cruz de Jesus, se empenhara na conversão de Pranzini, cujo processo de condenação pela justiça francesa havia acompanhado através da imprensa. Foi “meu primeiro filho”,  como ela comentaria  mais tarde. Sempre serviço da misericórdia divina, ela adotará outros pecadores. E quando, na Festa da Santíssima Trindade, em 1896, se oferece a Deus como vítima do seu amor misericordioso, ela faz um ato de esperança cega. Ela a justifica  dirigindo-se a Deus: “Ó luminoso farol  do amor, sei como achegar-me até a ti, descobri o segredo de apossar-me de tua chama”.   Familiarizada com as cartas de Paulo apóstolo, Teresa escreve: “Não deixava de esperar contra toda esperança”.  Certamente, ao citar estas palavras, não previa o alcance delas quando sua esperança, durante a prolongada provação da fé, vai estender-se a todos os pecadores. Nesta longa noite Teresa mergulha na experiência da escuridão daqueles que não acreditam no Céu.  Privada  da alegria que lhe era proporcionada pela esperança da proximidade do Céu, ela compartilhava a condição dos pecadores, unia-se a eles. Mesmo assim recebe esta provação como um dom pelo qual Cristo a associa à obra da redenção e à esperança da sua fecundidade: “Senhor, vossa filha  compreendeu vossa luz divina. Pede-vos perdão em lugar de seus irmãos. Pelo tempo que quiserdes, aceita comer o pão da dor, e da mesa coberta de amargura, onde comem os pobres pecadores, não quer levantar-se antes do dia que determinardes”. 
Teresa se compara aqui a uma criança na estação ferroviária, esperando seus pais que devem acomodá-la dentro de trem. Mas eles não chegam, e o trem parte! E ela acrescenta: “mas haverá outros trens, não perderei todos...”.  Teresa não perdeu a esperança. Contudo, esta esperança ficou como que desativada. Ela doou a sua força para outros, para os inúmeros outros. Ela se lançou no insondável mistério do Amor de Deus para amar com esse Amor o mundo.

Cantar a nossa esperança
1. Canto: “Segura na mão de Deus”.
  
2. A esperança é a força que nos faz caminhar. Pois, como diz S. Paulo, “é na esperança que fomos salvos. Ora, aquilo que se tem diante dos olhos não é objeto de esperança: como pode alguém esperar o que está vendo? “(Rm 8, 24). Mas  a esperança não é simplesmente desejar uma coisa a receber mais tarde, enquanto ficamos aguardando de braços cruzados.. A esperança já vai mudando a pessoa nas suas atitudes por dentro e por fora. Teresa o diz da seguinte maneira: “Sejais vós mesmo, meu Deus, minha santidade”. A esperança faz desejar Deus como fim para o qual caminhamos, mas também como motivo em que nos apoiamos para chegar a esse destino. A esperança dá a Deus a primazia no processo da transformação nossa, como pessoas individuais e como comunidade. Primazia de Deus que faz pensar no papel da pobreza evangélica na nossa vida. Teresa de Lisieux viveu as Bem-aventuranças.
3. Em forma de prece agradeçamos a esperança que Santa Teresinha viveu, envolvendo a nós todos, e pedir, por intercessão dela, que Deus seja sempre mais o nosso único ponto de referência da nossa esperança.
4. Rezar um salmo. Sugestão: Salmo 27: “Deus é minha luz e salvação”.
5. Rezar o Pai Nosso.
6. Oração:
Ó Deus, que preparais o vosso Reino para os pequenos e humildes, dai-nos seguir confiantes o caminho de santa Teresinha, para que, por sua intercessão, nos seja revelado a vossa glória. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm- Eremita Carmelita- foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo

*TRÍDUO A SANTA TERESA DE LISIEUX: Introdução- 1º Dia.

Dom Frei Vital Wilderink, O Carm, In Memoriam.

O que nos motiva neste Tríduo?
            A nossa memória guarda, ainda bem viva, a peregrinação das relíquias de Santa Teresinha por vários continentes e países, por ocasião de Io Centenário da morte da jovem carmelita. Também no Brasil, em 1998, a visita atingiu quase todas as dioceses. Ao que parece, os santos estão voltando para a espiritualidade hodierna. Talvez seja porque os cristãos de hoje preferem modelos concretos, personalizados. Pensar e refletir  a partir de conceitos não basta. Há um desejo de ver, de uma presença. Algo semelhante já acontecia com os primeiros discípulos de Jesus: “Mestre, onde moras?”. “Vinde e vede...”
            A verdadeira história póstuma de Teresinha é contada pelas multidões que se sentem atraídas por essa presença dela Mas é uma história que nunca será escrita. Permanecerá um segredo entre a Santa e a multidão das pessoas que vão vê-la. No entanto, a própria Teresinha, já no fim da sua vida, pressentiu a sua atuação que, depois da sua morte, se faria sentir no mundo inteiro: “Se o bom Deus atender meus desejos, meu céu se passará na terra, até o fim do mundo. Sim, quero passar meu céu a fazer o bem na terra”.
            Aqui nos confrontamos com o mistério de Santa Teresinha, que, apesar de tantos excelentes estudos e publicações, nos escapa. Escapa porque tem a ver com o mistério do próprio Deus que “amou o mundo a tal ponto que deu o seu Filho único” (Jo 3,16). Esta gratuidade da iniciativa do amor de Deus envolveu em Jesus Cristo as interrogações que a humanidade carrega.
            Na sua “História de uma alma” Teresinha nos conta como ela descobriu e se deixou tocar por esse amor gratuito de Deus. Procurou conformar sua vida com o sentir e pensar de Jesus Cristo (cf Fl 2,5). a quem acompanhou do seu nascimento em Belém até a morte no Calvário. Até o nome que assumiu na sua vida de carmelita traça esse itinerário: Teresa do Menino Jesus e da Santa Face.
            Misteriosa solidariedade esta do Filho de Deus que como Palavra de Deus assumiu a história humana com suas interrogações entre as quais ressoa o tom dominante do pecado do mundo. Teresa não foge delas. Assenta-se inclusive à mesa dos pecadores. A revelação da misericórdia de Deus em Jesus Cristo a torna amorosa e confiante, como uma criança diante do pai, mesmo quando este parece mais ausente que presente. Daí a sua declaração dois meses antes de morrer: “Sinto que minha missão vai começar, minha missão de fazer amar o bom Deus como eu o amo, de indicar às almas minha pequena trilha”.
            Esta novena pressupõem as múltiplas interrogações que estão presentes na nossa vida, na história com suas alegrias e tristezas, esperanças e angústias. Temos muito para agradecer a Deus. Mas também não nos faltam aspirações, preocupações, problemas e sofrimentos, seja no enredo da vida pessoal, seja na realidade mais ampla em que vivemos.  É possível que, às vezes,  enxerguemos as coisas de uma maneira distorcida; o que já é uma causa de sofrimento.  A nossa fragilidade manifesta-se freqüentemente na própria autosuficiência
            Fato é que há inúmeras situações que nos levam a questionar  a vida que temos. Mas, se questionamos, deve haver alguma coisa que para nós está fora de discussão. Qual é este horizonte? É importante descobrir o que realmente está em jogo nas nossas interrogações e na resposta que esperamos. Muitos dentre nós irão participar desta novena para pedir uma graça de Deus por intercessão de Santa Teresinha. Afinal, foi ela mesma que nos motivou: “Quão infeliz não serei no céu, se não puder promover pequenas alegrias aos que amo”. A simplicidade destas palavras poderia dissimular a importância e qualidade dessa declaração. É preciso interpretá-la  na perspectiva do testemunho da vida de Teresinha como aparece nos seus escritos. O que ela quer é cantar a misericórdia divina cuja ação soberana ela descobre tanto no conjunto como nos detalhes de sua vida, tanto nos acontecimentos felizes como nas situações dolorosas.
            Possa esta novena contribuir para simplificar também o nosso olhar que descobre tudo, em Deus e na história, sob a luz da misericórdia divina. Se nossos problemas não têm bom enfoque, dificilmente encontraremos boa solução para eles.
            O que está em jogo, também nesta novena, é a nossa renovação espiritual. Teresa do Menino Jesus e da Santa Face entende disto porque se encontra na encruzilhada das questões essenciais no nosso tempo. Não é sem razão que ela foi proclamada Doutora da Igreja.

Como fazer a novena?
            Há várias maneiras de fazer a novena: em pequenos grupos, na igreja com maior número de fiéis, individualmente. Cada maneira tem uma dinâmica diferente. Apresentamos algumas sugestões para a celebração em pequenos grupos. É um roteiro que facilmente poderá ser modificado e adaptado segundo as possibilidades de outros ambientes.

Acolhida
   1. Criar um bom ambiente. Dar as boas- vindas. Colocar as pessoas à vontade.
   2. Introduzir a Bíblia e uma imagem ou fotografia de Santa Teresinha.
   3.  Canto de abertura
   4.  Apresentar brevemente o assunto que vai ser refletido, meditado e rezado no respectivo dia da novena.
5. Invocar a luz do Espírito Santo.
   6.  Uma pessoa do grupo, convidada com antecedência, faz uma pequena introdução ao tema do dia, com o objetivo de colocá-lo dentro da vida, de tal maneira que os participantes possam conversar sobre o assunto olhando de perto as coisas de nossa vida.
   7. Leitura do texto da Bíblia. Segue um momento de silêncio e são colocadas algumas perguntas para a reflexão.
   8. Leitura de um texto de (ou sobre) Santa Teresinha, para ver como ela viveu na sua vida o tema refletido pelo grupo.
   9. Celebrar o dom que Deus nos fez na vida e na vocação de Santa Teresinha.

Primeiro dia
Tema: A nossa vida de fé

Acolhida
   1. Criar um bom ambiente, dando as boas-vindas e colocando as pessoas à vontade.
   2. Canto inicial. Sugestão: “Em nome do Pai, em nome do Filho, em nome do Espírito Santo, estamos aqui...”. Durante o canto são introduzidas a Bíblia e, em seguida, uma imagem de Santa Teresinha, e colocadas sobre uma mesinha no meio de grupo.
   3. O presidente ou coordenador da celebração apresenta brevemente o assunto que vai ser refletido, meditado e rezado neste primeiro dia da novena.
   4. Os participantes invocam a luz do Espírito Santo.

Vamos olhar de perto a nossa vida de fé
De certos personagens que aparecem na Bíblia se diz que “andavam com Deus”, que “caminhavam na presença dele”. São expressões que indicam seu relacionamento pessoal com Deus no centro da vida e da história. “Caminhar com Deus” significa percorrer as estradas e atalhos da vida cotidiana acolhendo, além de simples sentimentos nostálgicos, o imprevisto de sua manifestação. É onde os seus pensamentos não são os nossos pensamentos, os seus caminhos não são os nossos caminhos.  “Caminhar com Deus” significa também descobrir aos poucos que Deus não existe para ajustar-se ao meu “Eu”.
            Todos somos chamados a caminhar com Deus. Mas como podemos sentir que a nossa vida é perpassada pela presença divina? É o próprio Deus que nos dá esta capacidade. Deus infunde na alma dos fiéis as assim chamadas virtudes teologais que dispõem os cristãos a viver em relação com a Santíssima Trindade . As virtudes teologais são três: a fé, a esperança e a caridade. Já imaginou como seria a nossa vida sem crer, sem esperar, sem amar? Seria uma vida sem horizonte, sem rumo, sem sentido.  Um verdadeiro buraco! As virtudes teologais se referem diretamente a Deus como sua origem, motivo e objeto. Elas abrem horizontes sempre mais amplas para a nossa vida.
            A fé é o princípio, o fundamento e a fonte da salvação. A salvação consiste em ser verdadeiros filhos de Deus, em participar, como criaturas, da vida da própria Trindade. É ter a vida eterna em nós. É realmente uma Boa Nova!  Mas é preciso lembrar que esta iniciativa de Deus de dar-nos poder de nos tornarmos filhos dele implica a nossa conversão: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Não pode haver alegria antes da conversão. Na caminhada com Deus sempre ressoa a nossa humilde prece: “Senhor, tende piedade de nós...”.
            A fé é entregar-se livremente a Deus. É uma entrega total, pois pela fé cremos em Deus. Cremos em tudo o que ele disse e  revelou, e que a Igreja nos propõe para crer. É que Deus é a própria verdade. A fidelidade a essa entrega nos faz procurar conhecer e fazer a vontade de Deus. Fazendo o contrário, a fé vai morrendo, porque a sua dinâmica que anima e caracteriza o agir moral do cristão vai diminuindo e desaparecendo. Por isto o apóstolo Tiago escreve na sua carta: “A fé sem obras é morta” (Tg 2,26). Ficando privado da esperança e do amor, o dom da fé  permanece, a não ser que se peca contra a própria fé. Cria-se, porém, uma situação muito precária. Há cristãos que perdem a fé como se perde um objeto. Aos poucos a fé desaparece como o verniz numa porta que fica exposta às intempéries.
            Um cristão cuja fé é morta, continua a crer no que Deus revelou em Jesus Cristo, mas a sua fé não incide na sua vida, como fonte de sentido, de orientação e de santidade. Por isto é  bom lembrar que a revelação de Deus não se reduz a um conjunto de verdades, de conhecimentos transmitidos. A revelação é em primeiro lugar Deus que se doa à nós. A revelação é um encontro que nos introduz num “cara a cara”.

A Bíblia nos fala da fé
1. Introdução à leitura do texto.
            Os evangelhos nos dizem que ter fé é garantia de mudança da história, porque “em verdade vos digo: se tiverdes fé do tamanho de um grão de mostarda, direis a esta montanha: ‘Vai daqui para lá’ e ela irá. Nada vos será impossível” (Mt 17,20). Vamos ouvir um  texto do evangelho de Marcos inteiramente centrado no tema da fé, ou melhor, na falta de fé.
 2. Um canto de aclamação ao evangelho.
 3. Leitura do texto: Marcos,  9, 14-29.
4. Momento de silêncio.
 5. Perguntas para a reflexão:
•Qual o ponto que chamou mais a sua atenção? Por quê?
•O menino epilético do evangelho “tem um espírito mudo”. Parece que o mudismo atingiu também os discí-pulos”: não conseguirem fazer nada. Ficaram olhando o doente e, quem sabe, discutindo. Porque será que Jesus diz que a impotência deles é sinal de uma “geração sem fé”?
           
Fé: a aposta e o combate de Teresa
Recebemos o germe da fé no batismo. Ele vai se desenvolvendo num ritmo que varia de pessoa para pessoa. É um processo, sempre vulnerável, que depende também de fatores interiores e exteriores à pessoa, positivos ou negativos. Basta pensar na educação, no ambiente familiar, social e cultural, nos condicionamentos afetivos e psicológicos de quem caminha. Mas a fé é sempre um “caminhar com Deus” a quem cabe a iniciativa constante. Na história de uma vida, defrontamo-nos sempre com o mistério insondável do Deus que “nos amou primeiro”.
            Aderir a Cristo não é simplesmente uma questão de sentimentos ou de um sistema de pensamento, nem mesmo de um código de moral. No cristão de fé madura, é o centro de gravidade de sua própria vida que se desloca. A fé atinge a sua própria razão de ser, de viver, de servir, de sofrer, de esperar e de amar. Por isto quando a fé é testada, purificada no crisol da vida, o cristão sente-se ameaçado no equilíbrio de seu ser, como um barco  que vai a pique. Assim aconteceu com o profeta Elias que acabou com o culto dos falsos deuses no Monte Carmelo, favorecido pela rainha Jezabel. Quando ela prometeu vingar-se, Elias, tomado de medo, fugiu para o deserto. Caminhou sempre na presença do Deus vivo, combatendo com grande ardor a idolatria. Agora sente-se questionado profundamente na visão que tinha das coisas, nos valores que motivavam todas as fibras de seu ser a serviço do verdadeiro Deus. O deserto que não oferece nada a que possa agarrar-se, parece até zombar-se dele: para que serviu todo esse seu zelo?  Exausto pelo cansaço e pela falta total de motivação, o profeta cai debaixo de um junípero.
 “Pediu a morte, dizendo ‘Agora basta, Iahweh! Retira-me a vida, pois não sou melhor que meus pais’...Mas eis que um Anjo o tocou e disse-lhe: ‘Levanta-te e come’. Abriu os olhos e eis que, à sua cabeceira, havia um pão cozido sobre pedras quentes e um jarro de água. Comeu e bebeu e depois tornou a deitar-se. Mas o Anjo de Iahweh veio pela segunda vez, tocou-o e disse: ‘Levante-te e come, pois do contrário o caminho te será longo demais’. Levantou-se e, depois, sustentado por aquela comida, caminhou quarenta dia e quarenta noites até à montanha de Deus, o Horeb” (1 Reis, 19, 4-8).
A fé é uma entrega, é uma aposta total. Quem com esta disposição caminha com Deus, vai descobrindo que Deus é diferente do que pensávamos, que Ele é maior que o nosso coração. Quanto mais profundamente  a fé penetrar na alma do cristão, tanto mais ele se sentirá sacudido nos fundamentos do seu ser. O seguimento de Jesus Cristo não tem um itinerário pré-programado como o peregrino tinha imaginado. Para cada cristão chega a hora de deixar as redes e o barco de seus de seus planos.
            O caminho da fé não é igual para todos. Cada um tem sua história. Se há homens e mulheres que nele chamam a nossa atenção pelo testemunho da sua aventura, é para o bem de todos nós. Eles nos lembram que a fé é um desafio, e que só pode existir verdadeiro desafio quando se mergulha no essencial da vida. Santa Teresinha é uma dessas testemunhas cuja grandeza consiste em ter descoberto um “pequeno caminho inteiramente novo” feito para os simples e os pequenos.
            O ambiente da família em que Teresinha nasceu e cresceu ofereceu, sem dúvida, um solo favorável para o desenvolvimento do germe da fé que ela recebeu no batismo, em 4 de janeiro de 1873. A cultura religiosa de uma família da burguesia francesa do fim do século XIX, não deixará de marcar o estilo dos seus escritos que transbordam de diminutivos e imagens nem sempre ao gosto da nossa época. Estilo que durante muito tempo escondeu para muitos o verdadeiro rosto desta Santa que revolucionou a espiritualidade cristã deslocando o eixo da vocação à santidade da “perfeição” à comunhão com Deus.
            Teresa era uma menina sensível. Muito emotiva e dotada de uma imaginação viva, que observa e registra tudo que vê, ela chora frequentemente. Há um quê de altivez e teimosia nessa criança. A impaciência e a cólera não lhe são estranhas. Mais tarde, com vinte e dois anos de idade, a carmelita irmã Teresa reconhecerá que estava longe de ser uma menina sem defeitos. Ela não era santa, mas tornou-se santa. Bem podia ter tomado na vida um caminho oposto:
 “Não tenho, portanto, nenhum mérito em me não ter entregue ao amor das criaturas, uma vez que só fui preservada pela grande misericórdia do Bom Deus ... Reconheço que, sem Ele, poderia cair tão baixo com Santa Madalena... Não ignora também que a mim Jesus perdoou mais do que a Santa Madalena, pois me perdoou por antecipação, porquanto me impediu que caísse. Oh! pudera explicar o que sinto!” 
    Nos defeitos existe sempre algo de positivo que deve ser burilado. A pequena Teresa sabia o que queria. Decidida como era, não lhe assentava a beatice. Ainda pequena, refletia sobre o poder de Deus, gostava de pensar no céu. À sua maneira ela faz pequenos sacrifícios. Seu desejo, não isento de birra infantil, é “dar prazer a Jesus”.
            Em 1887, os jornais franceses acompanharam o caso de Henrique Pranzini, que, acusado de assassinatos, fora condenado à morte pelo tribunal.  Teresa, assume o criminoso como seu pecador rezando e fazendo sacrifícios pela sua conversão do assassino impenitente. Às escondidas, ela percorre ansiosamente as páginas do jornal para saber como foi a morte dele. Declarou a Deus que acreditaria no seu perdão concedida a Pranzini mesmo se este “não se confessasse nem manifestasse alguma sombra de arrependimento, tanta era a minha confiança na infinita misericórdia de Jesus”..A única coisa que ela pedia era um  “sinal” de arrependimento. Isto lhe daria coragem para continuar a rezar pelos pecadores. As lágrimas de Teresa rolaram quando leu a reportagem da execução: já no patíbulo para ser guilhotinado, Pranzini arranca das mãos do sacerdote o crucifixo beijando três vezes as Sagradas Chagas.
            A “teimosia” e o caráter decidido de Teresinha encontram aos poucos um leito na sua vida de fé. Insiste junto às autoridades da Igreja, subindo a escada da hierarquia até o Papa Leão XIII, a permissão de entrar no Carmelo de Lisieux com quinze anos de idade. As lágrimas continuam a aparecer quando recebe respostas negativas ou evasivas. Mas tudo isto não abalava sua fé, mesmo diante da falta de sensibilidade humana do superior do Carmelo, ferrenho opositor à entrada de Teresa no Carmelo. No momento da sua entrada  no mosteiro o sacerdote, como delegado do Bispo diocesano, não lhe poupou palavras duras. Dirigindo-se à comunidade das carmelitas, assim se expressou: “Faço votos que esta criança de quinze anos, cuja entrada desejaram, não decepcione suas esperanças. Mas chamo a sua atenção que, se acontecer o contrário, a responsabilidade é toda das senhoras”.
            Em uma das suas cartas, o apóstolo Paulo escreve: “Sei em quem pus minha fé”(2Tm 1,12). Isto jamais poderia dizer da  fé que alguém pode pôr em uma pessoa humana. A fé cristã é um entregar-se incondicionalmente a Deus e crer absolutamente no que ele diz. Cremos em Deus porque é Deus.  Ele revela e não pode nem enganar-se e nem enganar-nos. A fé está acima da razão humana embora entre uma e outra jamais possa haver uma real oposição. Sempre, porém, há uma tendência de transformar a fé, a sua certeza e as verdades nela contidas, em propriedade nossa. Por isto o crescimento na fé não acontece sem uma purificação. A fé passa por fases de desapropriação que não são as mesmas para todos nós. Para Teresa de Lisieux a provação da fé foi muito profunda. Mas foi, provavelmente, indispensável  - Deus o sabe -  para testar a sua espiritualidade pessoal a fim de que tivesse credibilidade na Igreja inteira: a espiritualidade das mãos vazias. Teresa chegou à convicção de que aquilo que é realmente importante para a uma vida santa não nos advém de práticas e realizações extraordinárias, mas nos cai nas mãos por pura graça de Deus.
            Desde a Páscoa de 1896 a vida de Teresa é marcada por uma profunda crise de fé. Desde pequena a Céu tinha sido seu grande ponto de referência. Era sua felicidade. Houve tempos em que o desejo do céu  na sua vivência da fé fora tão sensivelmente consoladora, que ela pensou ter alcançado em alguns momentos a perfeita felicidade: “a dúvida não era mais possível, já a fé e a esperança não eram mais necessárias”.
            A educação religiosa recebida no ambiente familiar não foi estranha a esse pensamento constante do céu. A própria mãe de Teresa interpreta seu papel no sentido de “educar muitos filhos para o céu”. O senso religioso no lar está permeado pelo  desejo do céu. Daí a insistência numa vida que possa merecê-lo. Orientação arriscada para quem ainda não chegou a descobrir a terra. É preciso andar na ponta dos pés para não se manchar e desmerecer o prêmio do céu. Teresinha contará mais tarde como ela, com seus doze anos de idade, se viu assaltada por escrúpulos: “É preciso ter passado por esse martírio para compreendê-lo bem, dizer o que sofri durante um ano e meio ser-me-ia impossível. Todos os meus pensamentos e as minhas mais comezinhas atividades se tornavam para mim motivo de perturbação”. 
            Em 7 de julho de 1895 - ela já vive sete anos no Carmelo - irmã Teresa se oferece como vítima ao Amor Misericordioso de Deus. “Terminado o exílio da terra, espero ir gozar convosco na Pátria. Eu não quero acumular merecimentos para o Céu. Quero trabalhar por vosso único amor, com o único objetivo de dar-vos prazer, de consolar vosso Sagrado Coração e de salvar almas que vos amem eternamente.              
            No entardecer da vida comparecerei diante de vós de mãos vazias, pois não vos peço, Senhor, para contar  minhas obras. Todas as nossas justiças têm defeitos aos vossos olhos.  Quero, pois, revestir-me de vosso própria justiça, e receber de vosso amor a eterna posse de Vós mesmo. Não quero outro trono nem outra coroa senão Vós mesmo, ó meu Bem-Amado!
            O tempo nada conta aos vossos olhos. Um único dia é como se fossem mil anos. Podeis, portanto, preparar-me num instante para comparecer à vossa presença”.
As perspectivas do seu desejo do Céu mudaram, como mudou a linguagem. Desapareceram as tensões nervosas, a angústia da vida. Ela opta pela vida, no que der e vier, pois sabe que o Céu consiste em amar a Deus. Neste ponto as análises psicológicas, bem aplicáveis a Teresinha, criança e adolescente, começam a gaguejar. Não que isto leva a constatar uma ruptura na vida da Santa, entre um antes e depois. A própria Teresa não se teria dado o trabalho de escrever as reminiscências da sua infância e juventude a pedido de Madre Inês, sua irmã mais velha e Priora do Carmelo de Lisieux. Nessas memórias ela descreve a matéria utilizada por Deus para dar forma à sua vocação e missão na Igreja. Para um verdadeiro artista até o material insignificante pode ser bem vindo para fazer uma obra prima. Para Teresa essa obra prima consiste no Amor do próprio Deus que atinge e envolve a sua alma fazendo irromper nela as torrentes de infinita ternura que nele se comportam, e assim a torna mártir de seu amor.  Nesse ano de 1896, a fé de Teresa, feita de entrega incondicional ao Amor de Deus, torna-se uma fonte de água viva num conhecimento experiencial desse mistério: “Não tenho mais desejo algum a não ser o de amar a Jesus a mais não poder".  Isto lhe deixa no mais íntimo do coração uma paz humilde e profunda.
            A fé viva, acesa ao ponto de transbordar num único desejo de amar a Jesus até a loucura,  torna Teresinha interiormente unificada. Nem a consciência da sua pequenez e fragilidade elimina essa coerência interior. “Jesus soube satisfazer plenamente todos os meus desejos! ... Desvaneceram-se meus desejos de criança.... Já não desejo tampouco, nem o sofrimento nem a morte. No entanto, amo ambas as cousas. O que, porém, me atrai é unicamente o amor. ...Agora, o que me guia é só o abandono, já não tenho outra bússola”.  Mas o Amor amado, é o Amor absoluto. Deus só pode ser Deus. O Amor quer tudo. Haverá uma bússola adequada fora dele?  Poderá Deus dar menos que Deus?  “Deus amou o mundo a tal ponto que deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não morra, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16). O amor de Deus revelou-se no amor de Jesus. Teresa gravou num tabique na sua cela as seguintes palavras: “Jesus é meu único amor”. É sempre Jesus que atrai a agulha de sua bússola. Nisto ela parece confirmar as palavras de Jesus, anunciando o poder de sua morte e ressurreição: “Quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12, 32).É olhando para o crucifixo que ela segurava nas suas mãos que Teresa morreu dizendo: “Meu Deus, eu vos amo”.
            Em Teresa concretizou-se o apelo universal à santidade. Ela definiu sua missão na terra como no Céu da seguinte maneira: “Amar Jesus e o fazer amar”. A atração que Jesus exerce sobre todos os seres humanos pelo seu Espírito, presente em todos os tempos e todos os lugares, Teresa a vê como a atração do Amor. É uma mensagem universal que toca o coração humano. Através de todas as épocas e todas as culturas, o Amor, que  criou e redimiu esse coração, é a única força capaz de atrai-lo  em profundidade. Durante os últimos dezassete meses de sua vida Teresinha fez as provas finais para o seu doutorado na Igreja:  Doutora no Amor de Cristo que ultrapassa todo conhecimento (cf  Ef 3, 19). Foi uma prova do corpo e da alma.
            Foi na noite de 2 para 3 de abril de 1896. Era Quinta Feira Santa. Teresa tinha ficado em adoração do Santíssimo até meia noite. Apenas repousou a cabeça no travesseiro de sua cama, ela sentiu uma golfada subindo até aos lábios. Na noite seguinte novos escarros de sangue. Nem Teresa nem a comunidade das irmãs tinha suspeitado de que ela já estava, há mais tempo, atingida pela tuberculose. “Minha alma encheu-se de grande consolação. Estava intimamente persuadida de que Jesus no dia do aniversário de sua Morte, me queria fazer ouvir um primeiro chamado. Era como que um murmúrio suave e distante a anunciar-me a chegada do Esposo”.   Mas quase ao mesmo tempo começam a surgir dúvidas: E se o Céu não existir?  Aparecem as torturas da alma. A idéia do Céu que durante a sua vida tinha dado tanta alegria, se torna agora fonte de luta e de trevas.  A própria Teresa comenta: “Essa provação faz-me perder tudo quanto encontraria de satisfação natural no desejo que tinha do Céu. ... Desejos altaneiros, já não os tenho, senão o de amar, até morrer de amor”.   A noite da fé acrescida a uma impotência física lhe faz sentir toda a sua vulnerabilidade. As coisas mais insignificantes tornam-se insuportáveis. O que causa outros sofrimentos morais a Teresa que sempre procurou traduzir sua grande sensibilidade em delicadeza para com todas as irmãs da comunidade. Não faltam tentações de desespero que chegaram até a vertigem do suicídio. “Como tudo isto é estranho e incoerente!”, exclama Teresa. ‘’E difícil, senão impossível, descrever a provação da fé numa alma. Para a própria Teresa permanecia um mistério. Ela tenta dar uma descrição comparando-se com alguém que, nascido num país envolto em denso nevoeiro, nunca viu a natureza risonha, inundada, transfigurada pelo sol coruscante. No entanto, desde criança, só ouviu falar.
            No tempo em que a ideia do Céu constituía sua felicidade, Teresa  não podia imaginar que houvesse pessoas sem fé. Agora ela se sente equiparada a elas e pede em nome dela mesma e em nome desses seus irmãos: “Tende piedade de nós, Senhor, porque somos pecadores”.   A crise pela qual ela passa a faz sentar junto com os pecadores e incrédulos, com os excluídos, pedindo a Deus que o Céu, fechado para ela na sua noite escura, possa abrir-se para todos.
            Teresa sabe que não há argumentos ou outra ajuda do lado de fora que possam mantê-la de pé nessa provação. Quando uma das religiosas pretende dar-lhe força e coragem lendo alguns textos bonitos, ela reage simplesmente: “É como se você cantasse”. Mas Teresa também compreende que ela não está dispensada de prestar “obediência à fé” (Rm 16,26) em que ninguém pode substituí-la. A fé é vida divina que só se fortalece a partir de dentro. E, na escuridão da noite, Teresa renova constantemente sua fé, como adesão total, apoiando-se unicamente na Palavra de Deus. É assim que ela declara: “Nunca me apoio nos meus próprios pensamentos; sei muito bem que sou fraca”. Fraqueza reconhecida diante de Deus em que se manifesta a força da graça.

Agradecer o dom da fé que Deus
  1. Canto: “Vem e mostrarei”
   2. Olhando para a vida de Santa Teresinha, o que Deus está pedindo de mim e de nós como comunidade?
   3. Colocar em forma de prece o nosso agradecimento a Deus pelo dom da fé e pelo exemplo que Santa Teresinha nos deu.
   4. Rezar um salmo. Sugestão: Salmo 16: “Guarda-me, Deus, pois eu me abrigo em ti”.
   5. Rezar o Pai Nosso.
   6. Oração:
Deus de infinita bondade, abris as portas do vosso Reino aos humildes e simples. Dai-nos a graça de seguir com confiança o caminho traçado por Santa Teresinha, para que também a nós se revele a glória da vossa Face. Por Cristo nosso Senhor.

*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm- Eremita Carmelita- foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo.

FREI PETRÔNIO: Pensamento do Dia. (QUARTA, 23).

PEDALANDO COM FÉ: Convite

Frei Carlos Mesters no VII Encontro Mineiro de CEBs, Unaí, de 18 a 20 09...

domingo, 20 de setembro de 2015

OLHAR TESTEMUNHO: Gustavo Ferreira.

25º Domingo do Tempo Comum - Ano B

Tema do 25º Domingo do Tempo Comum
A liturgia do 25º Domingo do Comum convida os crentes a prescindir da “sabedoria do mundo” e a escolher a “sabedoria de Deus”. Só a “sabedoria de Deus” – dizem os textos bíblicos deste domingo – possibilitará ao homem o acesso à vida plena, à felicidade sem fim.
O Evangelho apresenta-nos uma história de confronto entre a “sabedoria de Deus” e a “sabedoria do mundo”. Jesus, imbuído da lógica de Deus, está disposto a aceitar o projeto do Pai e a fazer da sua vida um dom de amor aos homens; os discípulos, imbuídos da lógica do mundo, não têm dificuldade em entender essa opção e em comprometer-se com esse projeto. Jesus avisa-os, contudo, de que só há lugar na comunidade cristã para quem escuta os desafios de Deus e aceita fazer da vida um serviço aos irmãos, particularmente aos humildes, aos pequenos, aos pobres.

EVANGELHO – Mc 9, 30-37

Neste episódio, os discípulos são o exemplo clássico de quem raciocina segundo a “sabedoria do mundo”. Quando Jesus fala em servir e dar a vida, eles não concordam e fecham-se num silêncio amuado; e logo a seguir, discutem uns com os outros por causa da satisfação dos seus apetites de poder e de domínio. Aquilo que os preocupa não é o cumprimento da vontade de Deus, mas a satisfação dos seus interesses próprios, dos seus sonhos pessoais. A atitude dos discípulos mostra a dificuldade que os homens têm em entender e acolher a lógica de Deus. Contudo, a reacção de Jesus diante de tudo isto é clara: quem quer seguir Jesus tem de mudar a mentalidade, os esquemas de pensamento, os valores egoístas e abrir o coração à vontade de Deus, às propostas de Deus, aos desafios de Deus. Não é possível fazer parte da comunidade de Jesus, se não estivermos dispostos a realizar este processo.
O Evangelho de hoje convida-nos a repensar a nossa forma de nos situarmos, quer na sociedade, quer dentro da própria comunidade cristã. A instrução de Jesus aos discípulos que o Evangelho deste domingo nos apresenta é uma denúncia dos jogos de poder, das tentativas de domínio sobre os irmãos, dos sonhos de grandeza, das manobras para conquistar honras e privilégios, da busca desenfreada de títulos, da caça às posições de prestígio… Esses comportamentos são ainda mais graves quando acontecem dentro da comunidade cristã: trata-se de comportamentos incompatíveis com o seguimento de Jesus. Nós, os seguidores de Jesus, não podemos, de forma alguma, pactuar com a “sabedoria do mundo”; e uma Igreja que se organiza e estrutura tendo em conta os esquemas do mundo não é a Igreja de Jesus.
Na nossa sociedade, os primeiros são os que têm dinheiro, os que têm poder, os que frequentam as festas badaladas nas revistas da sociedade, os que vestem segundo as exigências da moda, os que têm sucesso profissional, os que sabem colar-se aos valores politicamente corretos… E na comunidade cristã? Quem são os primeiros? As palavras de Jesus não deixam qualquer dúvida: “quem quiser ser o primeiro, será o último de todos e o servo de todos”. Na comunidade cristã, a única grandeza é a grandeza de quem, com humildade e simplicidade, faz da própria vida um serviço aos irmãos. Na comunidade cristã não há donos, nem grupos privilegiados, nem pessoas mais importantes do que as outras, nem distinções baseadas no dinheiro, na beleza, na cultura, na posição social… Na comunidade cristã há irmãos iguais, a quem a comunidade confia serviços diversos em vista do bem de todos. Aquilo que nos deve mover é a vontade de servir, de partilhar com os irmãos os dons que Deus nos concedeu.
A atitude de serviço que Jesus pede aos seus discípulos deve manifestar-se, de forma especial, no acolhimento dos pobres, dos débeis, dos humildes, dos marginalizados, dos sem direitos, daqueles que não nos trazem o reconhecimento público, daqueles que não podem retribuir-nos… Seremos capazes de acolher e de amar os que levam uma vida pouco exemplar, os marginalizados, os estrangeiros, os doentes incuráveis, os idosos, os difíceis, os que ninguém quer e ninguém ama? Fonte: http://www.dehonianos.org

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

DIAMANTINA: Encontro da Ordem Terceira do Carmo.

SÃO PAULO: Encontro da Família Carmelitana.

Do Bergoglio conservador ao Francisco liberal

Os que visitam o Papa veem diferença entre sua mensagem e a de quando era arcebispo. Para os mais próximos, suas convicções são as mesmas.
Jorge Mario Bergoglio não voltou para a Argentina desde que foi eleito papa em 2013, mas isso não foi um problema. Quase todas as personalidades argentinas viajaram para o Vaticano para cumprimentá-lo e tirar fotos. E muitos que o visitaram garantem que há enormes diferenças entre o Bergoglio que foi e o Francisco que é, que sua mensagem atual é muito mais liberal. Outros, talvez os que mais de perto o conhecem, afirmam, no entanto, que apesar de um caráter que é sem dúvida mais cordial agora, suas convicções continuam sendo as mesmas. Quando alguns de seus velhos conhecidos lhe perguntam sobre essa mudança, ele responde com um sorriso zombeteiro: “É que é muito melhor ser Papa do que arcebispo de Buenos Aires”.
A ideia mais difundida entre os que o visitam na Santa Sé é que Bergoglio se libertou, que antes tinha de fazer pactos internos dentro da Igreja argentina e que agora, logicamente, tem muito mais poder e liberdade. Também há quem acredite que, na realidade, sempre foi um conservador, um peronista de direita, mas que se deu conta, graças a um pragmatismo e a uma visão política que nunca lhe faltaram, que o que agora convém à Igreja é uma mudança de mentalidade, mais compreensão em questões como o aborto, o divórcio e a homossexualidade nas quais antes se mostrava extremamente duro. Qualquer que seja a opção, a verdade é que conquistou inclusive seus detratores mais ferozes.
Adolfo Pérez Esquivel, prêmio Nobel da Paz em 1980 por seu papel contra as ditaduras latino-americanas e um dos maiores expoentes da teologia da libertação, está entusiasmado com a nova face de Bergoglio. “Antes, como chefe da Igreja argentina, representava muita gente, e também os mais conservadores. Agora pode dizer como papa o que antes guardava para si. Além disso, o mundo muda, a igreja muda, e o Papa também. Ele fez isso pela via da espiritualidade. Está causando uma grande surpresa para todos. Provocou uma esperança que há muito tempo não se via na igreja universal”, explica Pérez Esquivel, que se emociona quando ressalta o apoio do Papa aos mais desfavorecidos ou sua “encíclica impressionante” contra as multinacionais.
Horacio González, diretor da Biblioteca Nacional e líder da Carta Aberta, um grupo de intelectuais kirchneristas, foi duríssimo em suas críticas a Bergoglio quando estava em Buenos Aires. Agora se rendeu: “Realizou uma transmutação político-religiosa fascinante. Antes o víamos como um grande opositor do Governo, representante dos setores mais conservadores, do peronismo de direita. Agora Francisco está próximo à teologia da libertação que Bergoglio combateu. Mudei minha avaliação sobre ele com uma certa dor pessoal; agora estou de alguma forma pensando contra minha própria convicção. Mas não acredito que a transmutação de Bergoglio seja uma mudança tática. O mundo mudou, e ele faz a leitura do abismo que se abre diante da enorme crise ética da humanidade”.
Dois dos argentinos que afirmam que Bergoglio não mudou são o monsenhor Marcelo Sánchez Sorondo, secretário da Pontifícia Academia das Ciências, e a jornalista Elisabetta Piqué, autora do livro Francisco. Vida e Revolução, no qual se baseia o filme sobre o Papa que estreia agora. Ambos são, além disso, amigos do “padre Jorge”.
Segundo Sánchez Sorondo, Bergoglio continua sendo o mesmo: “Não mudou. Continua sendo contra o aborto, mas adverte os cristãos de que não se pode ser contra o aborto e a favor de jogar 70.000 bombas no Iraque. Mas isso o Papa sempre disse. Ele é a mesma pessoa, o que é mais curioso é que no Governo agora todos sejam amigos de Francisco”.
Piqué reforça que Bergoglio “sempre teve a mesma atitude aberta e de inclusão com homossexuais e divorciados que se casaram novamente, e de misericórdia com as mulheres que passaram pelo drama do aborto”. A jornalista dá uma prova: “Não se pode esquecer que, quando era arcebispo de Buenos Aires, setores conservadores do Vaticano o questionaram por ser morno em todas essas questões, ou por ordenar aos padres de sua diocese que não se negassem jamais a batizar filhos de mães solteiras”.

ANIVERSÁRIO DO FREI PETRÔNIO: Assunta Petruccelli.

sábado, 12 de setembro de 2015

A ESPIRITUALIDADE LITÚRGICA CARMELITANA (4ª Parte)

Frei James Boyce, O.Carm.

Os Carmelitas e o Concílio de Trento

O Concílio de Trento (1545-63)[i]  foi uma tentativa de estabilizar e de regulamentar a vida dos fiéis depois dos efeitos devastadores da Reforma Protestante. Tendo isto em mente, todos os textos litúrgicos questionáveis, até mesmo as festas, foram eliminados do calendário. Desse modo, a festa das Três Marias foi proibida aos carmelitas. Todas as festas, com seus textos litúrgicos, tiveram que receber aprovação individual da Santa Sé, antes de serem incluídas no ritual de uma Ordem religiosa ou de uma diocese.[ii]  De forma semelhante, a música tinha que se ajustar às normas estabelecidas pela Santa Sé.
Na época do Concílio de Trento, a Ordem Carmelita estava bem estabelecida e contava com um número de santos próprios em suas fileiras. Na reformulação da liturgia carmelitana, a herança que receberam da Terra Santa tornou-se cada vez mais remota, mas o ritual revisado permitiu que eles celebrassem liturgicamente seus confrades que alcançaram a santidade.

Novas festas carmelitanas

Eliseu e Elias
Por causa do relacionamento próximo entre Elias e Eliseu, as duas festas são consideradas como uma só. O relacionamento dos carmelitas com estas duas figuras proeminentes do Antigo Testamento já estava bem estabelecida espiritualmente, muito antes de ser celebrada liturgicamente. Uma afirmação, um tanto comovente, das Constituições do Capítulo de Londres de 1281, demonstra a importância de Elias e de Eliseu dentro da auto-compreensão carmelitana. Apresentamos a seguir uma tradução de Joachim Smet daquelas Constituições:
 Declaramos, dando testemunho da verdade, que desde o tempo quando os profetas Elias e Eliseu habitavam devotamente no Monte Carmelo, Pais santos tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, cuja contemplação das coisas celestiais os conduziu à solidão do mesmo monte, eles sem dúvida guiaram suas louváveis vidas lá, junto à fonte de Elias, numa penitência sagrada, contínua e eficazmente mantida.
Foram estes mesmos sucessores que Alberto, o patriarca de Jerusalém no tempo de Inocêncio III, uniu numa comunidade, escrevendo uma regra para eles que o papa Honório, o sucessor do mesmo Inocêncio, e muitos de seus sucessores, aprovando esta ordem, confirmaram-na devotamente por seus decretos. Na profissão desta regra, nós, seus seguidores, servimos o Senhor em várias partes do mundo até hoje.[iii]
Esta afirmação demonstra que os carmelitas medievais viam a continuidade entre o povo do Antigo e o do Novo Testamento, os que habitavam à sombra da presença de Elias no Monte Carmelo, os primeiros eremitas reunidos pelo patriarca Alberto, e eles mesmos, em várias partes do mundo. O lugar do Monte Carmelo, a imagem do profeta Elias e a jurisdição de Alberto ajudaram a incutir nos carmelitas, ao longo dos séculos, a santidade de suas vidas e a importância de seu trabalho como religiosos. Além da identificação com a tradição de Elias, tanto Santo Antão quanto São Jerônimo fazem uma associação explícita entre Elias e aqueles que seguem o modo de vida eremítico.[iv]
Apesar da importância de Elias e de Eliseu na auto-compreensão carmelitana, sua celebração litúrgica é um fenômeno posterior. Elias é claramente a mais proeminente das duas figuras, apresentado como um modelo potencial. O fato de Elias ter ido para o céu sem morrer, significava que como ele não tinha um dies natalis, ou data de morte, ele não poderia ser venerado como um santo.[v]  Assim, o carmelita John Bale escreveu um ofício para a Assunção de Elias.[vi]  Este é certamente um ofício único, de um indivíduo empreendedor, em vez de uma festa carmelitana medieval padronizada. Posteriormente a festa foi aceita, apesar da ausência de uma data de morte ou dies natalis. A evidência mais antiga da festa de Elias é a Missa votiva dos missais do século XVI (1551 e 1574), contemporânea do Concílio de Trento.[vii]  Embora a veneração de Eliseu não tenha envolvido os mesmos problemas, seu ofício e missa também são um fenômeno medieval tardio ou mesmo pós-tridentino. De qualquer modo, não temos nenhum indício substancial da veneração, tanto de Elias quanto de Eliseu, que tenha sobrevivido do período anterior ao Concílio de Trento.
A mais antiga evidência Tridentina da festa de Santo Elias é encontrada num suplemento carmelitano Florentino, com a antífona compilada por Fr. Archangelus Paulius, prior de Carmine, no ano de 1627,[viii]  assim como em antigos manuscritos do século XVIII de São Martino ai Monti e de Santa Maria em Transpontina. Também nos manuscritos mais recentes que estão guardados no Colégio Sant’Alberto em Roma. Um processionário de 1593 do convento da Encarnação, em Ávila, contém vários cantos para Santo Elias onde ele é chamado tanto de nuestro Santisimo Padre Elias quanto de nuestro Glorioso Padre Elias.
Apesar da veneração de Elias como santo ser bem conhecida nas liturgias do rito oriental, tal observância no ocidente é inteiramente peculiar aos carmelitas. As festas de Elias e de Eliseu deram aos carmelitas a oportunidade de recontar a história dos dois homens cujas vidas modelaram as suas. Como o próprio Monte Carmelo tornou-se cada vez mais distante da experiência de vida carmelitana, a celebração da festa das duas proeminentes figuras do Antigo Testamento permitia aos carmelitas refletir pessoalmente sobre sua herança e a moldar suas próprias vidas no exemplo corajoso de seus antepassados no Monte Carmelo. A celebração destas festas equiparava-se à celebração de uma liturgia para um fundador em outras tradições, já que permitia aos carmelitas explorar as raízes de sua espiritualidade de uma forma litúrgica.
A primeira antífona das primeiras Vésperas para o ofício de Santo Elias é Zelo zelatus sum pro domino deo exercituum, [O zelo pelo Senhor, o Deus dos exércitos, me consome] de 1Reis 19,10 e repetido em 1Reis 19,14, palavras que são fundamentais na auto-compreensão de cada carmelita. O zelo por Deus caracteriza a vida e o ministério do profeta, assim como do carmelita, exercido sem compromissos. A primeira antífona para as Laudes, uma reconstrução do texto das Escrituras, afirma: Elias dum zelat zelum legis receptus est in celum [Elias, enquanto estava consumido pelo zelo, foi recebido no céu], insistindo no zelo por Deus que caracteriza a vida do profeta. Ele manteve este zelo por toda sua vida associando-o à sua assunção ao céu. A antífona do Benedictus cita a carta de Tiago que recorda Elias: Elias homo erat similis nobis passibilis et oratione oravit ut non plueret super terram et non pluit annos tres et menses sex et rursum oravit et celum dedit pluvium et terra dedit fructum suum [Elias era homem fraco como nós. No entanto, ele rezou bastante para que não chovesse e não choveu sobre a terra durante três anos e meio. Depois ele rezou de novo e o céu mandou chuva e a terra produziu seu fruto].
É importante enfatizar a semelhança entre Elias e todos aqueles que escolhem a vida de oração. A oração de Elias é poderosa. Deus a escuta e, assim, intensifica a força da oração de cada um dos carmelitas. O responsório das primeiras Vésperas lembra Elias caminhando “quarenta dias e quarenta noites para o Horeb, o monte de Deus” enfatizando a importância da jornada carmelitana pela vida, em direção ao monte sagrado, para experimentar a presença de Deus. Elias brigou com os profetas de Baal, devolveu a vida da viúva de Sarepta e rezou por chuva em meio à seca. Pela profundidade de sua oração, sua vida foi preservada no Monte Carmelo e, em seus últimos dias, ele foi aceito na vida eterna de Deus. A escolha de Elias como modelo de vida, na antiga liturgia medieval, se compara à ênfase na dimensão masculina da oração na regra. A falta de um fundador no início da Ordem a ser imitado, permitiu que os carmelitas escolhessem um, num estágio posterior de desenvolvimento. A escolha de Elias como modelo de oração sugere que a própria oração, se for seguida tanto por homens quanto por mulheres carmelitas, é uma ocupação ativa, vibrante e poderosa. Os carmelitas não precisam se preocupar com a eficácia da oração, já que o exemplo de Elias demonstra claramente seu poder e ligação direta entre a oração do pedinte e a ação de Deus. Como a própria palavra poderosa de Deus, a oração pode levar Deus a agir em favor de Seu povo. Portanto, os carmelitas estão seguros do significado, da força e do valor da vida de oração que abraçaram em sua vocação.

Nossa Senhora do Monte Carmelo
         Ainda que possam ocorrer referências à festa da Solene Celebração de Nossa Senhora do Monte Carmelo nas fontes medievais, a liturgia tridentina deu plena expressão à sua celebração. Como se poderia esperar, as cinco primeiras antífonas das Vésperas características de todas as festas marianas medievais, também foram usadas aqui. Numa das leituras para as Matinas recorda-se a história de Maria aparecendo ao papa Honório, inspirando-o a permitir o estabelecimento da Ordem Carmelitana.[ix]  Isto é muito significativo, já que as primeiras batalhas da Ordem visando sua aceitação passaram a ser claramente situadas dentro da estrutura da intercessão de Maria. Ela não é apenas celebrada como a padroeira da Ordem, mas é lembrada na sua intervenção direta possível a fundação da Ordem. Mediante esta festa os carmelitas veneram Maria como aquela que abençoa a Ordem e os esforços individuais de seus membros. A festa dava plena expressão à união perpétua entre a Virgem Maria e a Ordem. O relacionamento dos carmelitas com ela era visto tanto na perspectiva da Ordem quanto individualmente, onde cada frade busca forças para viver a vida carmelitana contando com sua intercessão na oração.

São Simão Stock
Apesar da figura um tanto evasiva de São Simão Stock ter sido de grande importância na adaptação dos carmelitas à vida no Ocidente, sua festa surge apenas no tempo do Concílio de Trento. Neste caso, os textos para o ofício vêm de sua vita em vez da Escritura e a música se adapta à pauta imposta pelo Concílio de Trento. Os textos do ofício oferecem uma reflexão sobre a santidade de São Simão Stock como religioso e sobre seus dons para a Ordem. Assim, uma das antífonas das Matinas diz que Desiderium cordis eius tribuit ei Dominus cum Carmelitarum institutum vidit in Europa propagatum alleluia [Deus deu a ele o desejo de seu coração quando ele viu o instituto dos Carmelitas espalhado pela Europa] e realmente ele é geralmente associado com a adaptação da Ordem na sociedade ocidental. Os textos da Missa são tirados de cantos comuns tais como os iusti meditabitur sapientiam [A boca do justo fala com sabedoria (Sl 37,30)] e o verso do Aleluia, Justus germinabit sicut lilium [O justo “florescerá como o lírio” (Os 14,6)]. Simão é o homem justo e o carmelita leal que serve de modelo de vida religiosa para todos que celebram sua festa. Liturgicamente a festa visava renovar nos participantes o zelo pelos caminhos do Carmelo.

Santa Teresa d’Ávila
A grande reformadora da Ordem Carmelita, Santa Teresa d’Ávila, morreu dentro da Ordem dos Carmelitas em Alba de Tormes, perto de Salamanca, em 1582. Os textos para sua liturgia referem-se a seu zelo por Deus e à sua sede pela sabedoria, enfatizando apropriadamente suas qualidades místicas e intelectuais. A antífona de abertura para seu ofício, Zelo zelata sum pro honore sponsi mei Jesu Christi [Com zelo sou dedicada à honra de meu esposo, Jesus Cristo] é um complemento feminino ao texto para o ofício de Santo Elias: “sou muito dedicado ao Senhor, o Deus dos exércitos”, indicando que, para os carmelitas, Teresa exemplificou o ideal de Elias na sua sede apaixonada por Deus. Outra antífona fala de seu coração sendo perfurado pela lança ardente do amor de Deus (que posteriormente levaria à uma festa separada, a da Transverberação ou perfuração do coração de Santa Teresa). Outra ainda se refere a ela recebendo sabedoria e prudência. Os textos litúrgicos enfocam os atributos significativos de Santa Teresa e constituem uma meditação sobre suas notáveis virtudes. Recitá-los é rever as qualidades essenciais de sua vida e ser renovado por elas. As virtudes que a liturgia recomenda foram vividas de modo extraordinário por Santa Teresa d’Ávila, e servem como um modelo de imitação por todo carmelita.

Santo Alberto da Sicília
O ofício de Santo Alberto da Sicília é um daqueles raros, onde todas as linhas do texto rimam. Este é o único ofício rimado que sobreviveu intacto ao Concílio de Trento. Como o primeiro santo propriamente carmelitano, Alberto goza de preeminência na veneração litúrgica e o texto rimado para o ofício sugere a estima com que era considerado. A antífona de abertura O Alberte norma munditie, puritatis et continentie [Ó Alberto, modelo de integridade, de pureza e de continência] nos lembra que Alberto é o modelo de integridade de vida e sugere que, para o carmelita, a busca pela santidade deve predominar sobre tudo mais.

Santo Ângelo
Como o primeiro mártir carmelitano, Santo Ângelo corresponde ao Bem-aventurado Pedro, mártir para os dominicanos. O cerne da história de Ângelo ocorre na antífona do Magnificat: Quinque plagis lethalibus transfossus Angelus crucifixum deprecabatur ut suis persecutoribus ad poenitentiam conversis veniam peccatorem concederet et diei obitu sui memoriam a gentibus optatam omnem gratiam largiretur alleluia [Tendo sido ferido com cinco feridas mortais, Ângelo implorou pela cruz de modo que seus perseguidores pudessem receber a graça de ir do pecado à penitência e no dia de sua morte ele rezou para que a graça pudesse ser dada ao povo que celebrou sua memória, aleluia].

Santo André Corsini
Santo André Corsini, o carmelita florentino que se tornou bispo de Fiesole, gozou de forte veneração, especialmente em Florença. Mas sua festa foi observada liturgicamente por toda a Ordem. Tanto sua importância como bispo e nobre, assim como sua santidade pessoal contribuíram para que tivesse um ofício e uma Missa próprios, cujas evidências mais antigas ocorreram após o Concílio de Trento.

Reflexões sobre a liturgia carmelitana tridentina
O período após o Concílio de Trento foi para os carmelitas, como para a Igreja em geral, um tempo de adaptação para estabelecer as novas práticas diante da Reforma. Embora de algumas forma repressivo, o Concílio de Trento deu aos carmelitas a oportunidade de venerar seus próprios santos de um modo que não foi possível durante o período medieval.
Apesar de os carmelitas continuarem a cultivar suas origens do Santo Sepulcro, agora eles também podiam venerar alguns carmelitas que foram aprovados pela Igreja como santos. Cada uma destas figuras ajudou a modelar o ideal carmelitano: Elias e Eliseu simbolizam a dimensão profética da Ordem, bem como a sede de Deus; Maria é mais do que nunca a padroeira e a protetora da Ordem; Santo Alberto é o modelo de pureza e de vida na presença de Deus; Santo André Corsini é o exemplo do carmelita agindo como um bom religioso e também participando da vida administrativa da Igreja; São Simão Stock representa a necessidade de manter a santidade da vida religiosa enquanto concilia as necessidades da Igreja e da sociedade; e Santa Teresa d’Ávila simboliza a contínua sede pelos caminhos de Deus, em especial a sabedoria.
A liturgia carmelitana fala mais e mais da espiritualização do Monte Carmelo. Hoje fala menos da montanha física e mais do caminho da perfeição espiritual. O crescente número de santos carmelitanos próprios, cujas virtudes e fidelidade ao modo de vida carmelitano fez com que merecessem um lugar no Reino, serve agora como inspiração e exemplo ao carmelita que se empenha em viver sua própria vocação. Enquanto em outras tradições a forte presença de um fundador em especial foi sentida através dos séculos e que outros membros da Ordem alcançaram santidade por se adaptarem a um modelo em particular, na tradição carmelitana a ausência de um fundador permitiu uma grande flexibilidade na interpretação e na vivência do ideal carmelitano. A diversidade se reflete nos diversos santos do Carmelo no período tridentino e em sua tradição litúrgica de alguma forma bastante eclética.
(Veja na 5º Parte: A liturgia carmelitana moderna)



[i]  Jedin, NCE.
[ii]  Caruana (1984) faz uma tentativa preliminar em discutir a influência do Concílio de Trento na liturgia carmelitana. Ele não discute o ciclo santoral em seu trabalho e outros trabalhos detalhados precisam ser feitos nesta área.
[iii]  As constituições deste Capítulo estão publicadas em Saggi (1950); a tradução é de Smet (1988), I:15-16.
[iv]  Cf. Smet (1988) Vol. I, pp. 7-8, citando Athanasius, Vita Antonli, 7; Patrologia Graeca 26, 854 e [Jerônimo] Epistola 58 ad Paulinum; Patrologia Latina, 22, 583.
[v]  Kallenberg (1956).
[vi]  Os textos neste ofício da Biblioteca da Universidade de Cambridge, Ms. 7 estão publicados em Zimmerman (1910), pp. 341-345.
[vii]  Zimmerman (1910), pp. 346-347.
[viii]  O manuscrito é Florence, Carmine, Ms. S. Cf. meu próximo artigo em Manuscripta considerando este manuscrito e o trabalho de Fr. Archangelus Paulius, O. Carm.
[ix]  De um breviário editado em 1495 em Bamberg, hoje na biblioteca do Colégio Amherst.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

FREI VALTER RUBENS: Aniversário.

Reconhecer Jesus o Cristo: 24º Domingo do Tempo Comum

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus segundo Marcos 8,27-35 que corresponde ao 24° Domingo do Tempo Comum, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto
O episódio ocupa um lugar central e decisivo no relato de Marcos. Os discípulos levam já algum tempo convivendo com Jesus. Chegou o momento em que se tem de pronunciar com clareza. A quem estão seguindo? Que é que descobrem em Jesus? Que captam nas suas vidas, a Sua mensagem e o Seu projeto?
Desde que se uniram a Ele, vivem interrogando-se sobre a Sua identidade. O que mais os surpreende é a autoridade com que Lhes fala, a força com que cura os doentes e o amor com que oferece o perdão de Deus aos pecadores. Quem é este homem em quem sentem tão presente e tão próximo a Deus como Amigo da vida e do perdão?
Entre as pessoas que não conviveram com Ele corre variados rumores, mas a Jesus interessa-lhe a posição dos Seus discípulos: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Não basta que entre eles haja opiniões diferentes mais ou menos acertadas. É fundamental que os que se comprometeram com a Sua causa, reconheçam o mistério que se encerra Nele. Se não é assim, quem manterá viva a Sua mensagem? Que será do Seu projeto de reino de Deus? Em que terminará aquele grupo que está tratando de pôr em marcha?
Mas a questão é vital também para os Seus discípulos. Afeta-os radicalmente. Não é possível seguir Jesus de forma inconsciente e ligeira. Têm que conhecer cada vez com mais profundidade. Pedro, recolhendo as experiências que viveram junto a Ele até esse momento, responde-Lhe em nome de todos: «Tu és o Messias».
A confissão de Pedro é, todavia, limitada. Os discípulos não conhecem ainda a crucificação de Jesus às mãos dos Seus adversários. Não podem nem suspeitar que seja ressuscitado pelo Pai como Filho amado. Não conhecem experiências que lhes permitam captar tudo o que se encerra em Jesus. Só seguindo de perto, o irão descobrindo com fé crescente.

Para os cristãos é vital reconhecer e confessar cada vez com mais profundidade o mistério de Jesus o Cristo. Se se ignora a Cristo, a Igreja vive ignorando-se a si mesma. Se não O conhece, não pode conhecer o mais essencial e decisivo da Sua tarefa e missão. Mas, para conhecer e confessar a Jesus Cristo, não basta encher a nossa boca com títulos cristianológicos admiráveis. É necessário segui-lo de perto e colaborar com Ele dia a dia. Esta é a principal tarefa que temos de promover nos grupos e comunidades cristãs. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br