Total de visualizações de página

Seguidores

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Vaticano revoga suspensão do padre Miguel d'Escoto

O Vaticano emitiu um decreto que levanta a suspensão de 29 anos contra o padre Miguel F. d'Escoto Brockmann, um sacerdote maryknoll. Os Padres e Irmãos de Maryknoll é uma congregação missionária da Igreja dos EUA. A reportagem é publicada pelo sítio Christian Newswire, 01-08-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
O padre d'Escoto, 81 anos, foi ordenado sacerdote católico no dia 10 de junho de 1961. Ele ajudou a fundar a Orbis Books, a divisão de publicação teológica dos maryknoll, e foi um representante junto ao Conselho Mundial de Igrejas.
Durante os anos 1970, o padre d'Escoto participou da política na Nicarágua. Juntou-se à Frente Sandinista de Libertação Nacional, um partido político que derrubou Anastasio Somoza Debayle e estabeleceu um governo revolucionário.
Por causa das suas ações políticas, pelo envolvimento no governo sandinista e por não renunciar a um cargo político (ministro das Relações Exteriores da Nicarágua), o padre d'Escoto foi suspenso das suas funções sacerdotais pelo Vaticano.
Na notificação do Vaticano datada de 1º de agosto de 2014, "o Santo Padre concede o seu benévolo assentimento para que o padre Miguel d'Escoto Brockmann seja absolvido da censura canônica infligida contra ele e confia-o ao Superior Geral do Instituto [Maryknoll ] com o objetivo de acompanhá-lo no processo de reintegração no sacerdócio ministerial". O levantamento da suspensão permite que o padre d'Escoto retome as suas funções sacerdotais.
O padre d'Escoto manteve-se como membro da Sociedade Maryknoll com residência na Nicarágua. De setembro de 2008 até setembro de 2009, ele presidiu a 63ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas como seu presidente.
Abençoada pelo Papa Pio X em 29 de junho de 1911, a Sociedade Maryknoll, aos seus 103 anos, segue Jesus no serviço aos pobres e aos necessitados em 26 países, que incluem os EUA. Como uma sociedade de missão estrangeira da Igreja Católica nos Estados Unidos, a Maryknoll partilha o amor de Deus e o Evangelho em seus esforços de evangelização no combate à pobreza, fornecendo cuidados de saúde, construindo comunidades cristãs e promovendo a dignidade de todas as pessoas.
Todos os católicos são chamados à missão através do batismo e da confirmação, e os esforços de educação à missão da Maryknoll em paróquias e escolas em todo o país engaja os católicos norte-americanos em missão por meio de vocações, oração, doações e como voluntários. Seu sítio é www.maryknollsociety.org.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 659. Um olhar sob Jundiaí.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 658. Faz de conta que sou mudo.

OLHAR CRÍTICO: Pensamentos de Dom João Bosco.

Retiro dos Carmelitas em Jundiaí/SP: ( De 28/07 a 01/08 de 2014).

Pensamentos do pregador, Dom João Bosco Óliver de Faria, da Arquidiocese de Diamantina-MG.

“A melhor maneira para ter um convento cheio de Frades é não descartar aqueles que já estão no Convento”.
“A Igreja gasta muito para formar um padre e não faz nada para salvar um”.
“O melhor amigo do Frei é um Frei”.
“O Padre, a comunidade ou o convento que não gera vacação tem que se questionar”.
 “Uma comunidade alegre é uma mina de vocação”.
“A maior marca vocacional é a alegria da comunidade conventual”.
“A Fraternidade é uma necessidade do ser e do fazer do Padre”.
“O Padre vive da eucaristia, pela eucaristia e para eucaristia”.
“A Vida de um Carmelita sem radicalidade não tem sentido”.
“Um Padre só passa Deus se tiver Deus nele”.
“Quando eu sou capaz de rezar por quem me fez o mal já é o perdão”.
“Os dez mandamentos é o salário mínimo para entrar no céu. Em outras palavras, todos os santos saíram do mínimo da vida e foram em direção do amor”.
“A oração não é santidade, mas um meio para chegar até Deus”.
“A oração me lança no apostolado e o apostolado me lança na oração”.
“Jesus não errou ao chamar Judas- o traidor? Não. O problema é que ele se fechou a Graça”.
“Para ser um líder social não é necessário ser sacerdote”.
“As pessoas que se amam falam pelo olhar. Enquanto não houver afeto não haverá oração”.
“A mais professores de oração do que testemunhas de oração”.
“Quem não entra no céu é um bispo, um padre ou um religioso auto-suficiente da santidade”.

“O maior risco para nós- padres e religiosos é vê na oração uma obrigação”.

O Padre, vocação de amor e liberdade


Dom Roberto Francisco Ferreria Paz, Bispo de Campos

Neste primeiro domingo de agosto celebramos iniciando omês vocacional, o chamado a ser padre. Foram-se os tempos que as famílias se sentiam agraciadas e muito honradas de ter um sacerdote entre os seus membros.
A sociedade valorizava e defendia com afã sincero e arraigado os seus ministros sagrados, pensando certamente na sua proteção e projeção de eternidade. Hoje, estamos numa sociedade secularizada, num mundo pós-cristão e talvez sem transcendência, um mundo neutro e muitas vezes hostil para os sacerdotes. No entanto o que vemos detrás das idolatrias e da busca desenfreada de bens efêmeros éa nostalgia e a saudade de Deus. Hálugar para o Padre neste mundo?
Certamente que sim, porque Deus énecessário, porque todas as pessoas clamam sedentas por um amor que não passa, por conhecer a verdadeira felicidade. Por isso o Padre embora não paparicado como antes éum sinal vivo do que estamos a procurar e não encontramos nas prateleiras midiáticas ou nos Shoopings Centers, ele é a referência do absoluto e do sentido das coisas. Ele é testemunha do essencial, do bom, do belo e do verdadeiro anunciando a pérola de infinito valor: Jesus Cristo.
Que alegria encontrar-se com um Padre que entusiasmado nos coloca na perspectiva do Reino, que nos fascina com as Palavras de Cristo e nos oferece o próprio Cristo na Eucaristia. Quesempre tem tempo para uma conversa, para curar as nossas feridas e nos dar o perdão em nome de Deus. Um irmão entre os irmãos e Pai para todos/as, especialmente dos pobres e desamparados, dos quais ele éo advogado, amigo e defensor incondicional. Num mundo frio, calculista, e por certo líquido temos num Padre a pessoa cujo coração bate em sintonia ao Coração de Jesus, sentimos perto dele o bálsamo e o óleo da misericórdia, da compaixão e do amor que sempre acolhe.
Hoje sem dúvida como em todas as épocas precisamos de padres, porque são indispensáveis, eles sempre estão a nos acompanhar num momento do ciclo da vida, desde o berço atéo túmulo, compartilhando conosco os momentos de alegrias e as perdas, trazendo sempre a presença e a benção de Deus. Gostaria neste ano jubilar de prata afirmar com todas as letras de alto e bom tom, que éuma grandiosa aventura e maravilha ser padre, se mil vezes eu nascesse voltaria com o mesmo entusiasmo ao seminário, para ser somente e unicamente um padre. Deus seja louvado!

18º- Domingo do Tempo comum: "Compaixão, partilha, eucaristia". Papa Francisco.

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Neste domingo, o Evangelho nos apresenta o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes (Mt 14, 13-21). Jesus o realizou no Mar da Galileia, em um lugar isolado, onde tinha se retirado com seus discípulos depois de saber da morte de João Batista. Mas muitas pessoas os seguiram e os encontraram; e Jesus, vendo-os, teve compaixão e curou os enfermos até o entardecer. Então, os discípulos, preocupados com a hora tardia, aconselharam-no ignorar as multidões para que pudessem ir as aldeias buscar o que comer. Mas Jesus, tranquilamente, respondeu: "Dai-lhes vós mesmos de comer" (Mt 14, 16); e levando-lhe cinco pães e dois peixes, abençoou-os e começou a partí-los e dá-los aos discípulos, que os distribuíram às pessoas. Todos comeram e ficaram satisfeitos, e até mesmo sobrou!
Neste acontecimento podemos ver três mensagens. A primeira é a compaixão. Diante da multidão que vai atrás dele e – por assim dizer – “não o deixa em paz”, Jesus não reage com irritação, não diz: "Essas pessoas me incomodam". Não, não. Mas reage com um sentimento de compaixão, porque sabe que não o procuram por curiosidade, mas por necessidade. Mas vejamos: compaixão - o que sente Jesus - não é simplesmente sentir pena; é mais! Significa com-patire, ou seja, identificar-se com o sofrimento dos outros, a ponto de sofrê-los também. Assim é Jesus: sofre conosco, sofre junto conosco, sofre por nós. E o sinal dessa compaixão são as muitas curas realizadas por ele. Jesus nos ensina a colocar as necessidades dos pobres antes das nossas. As nossas necessidades, embora legítimas, não serão nunca urgentes como aquelas dos pobres, que não têm o necessário para viver. Nós falamos muitas vezes dos pobres. Mas, quando falamos dos pobres, sentimos que aquele homem, aquela mulher, aquelas crianças não têm o necessário para viver? Quem não tem nada para comer, não tem o que vestir, não tem a possibilidade de remédios... que também as crianças não têm a oportunidade de ir à escola? E por esta razão, as nossas necessidades, embora legítimas, nunca serão tão urgentes como aquelas dos pobres que não têm o necessário para viver.
A segunda mensagem é a partilha. A primeira é a compaixão, aquela que Jesus sentia, a segunda a partilha. É útil confrontar a reação dos discípulos diante das pessoas cansadas e famintas, com aquela de Jesus. São diferentes. Os discípulos pensaram que era melhor manda-los embora, para que pudessem procurar alimento. Jesus, em vez disso, disse: dai-lhes vós mesmos de comer. Duas reações diferentes, que refletem duas lógicas opostas: os discípulos pensam de acordo com o mundo, onde cada um deve pensar em si mesmo; pensam como se dissessem: “Se virem sozinhos”. Jesus pensa com a lógica de Deus, que é aquela da partilha. Quantas vezes olhamos para o outro lado com tal de não ver os irmãos necessitados! E esse olhar para outro lado é um modo educado de dizer, com luvas brancas, “Se virem sozinhos”. E isso não é de Jesus: isso é egoísmo. Se tivesse mandado embora as multidões, muitas pessoas teriam ficado sem comer. Pelo contrário, aqueles poucos pães e peixes, compartilhados e abençoados por Deus, foram suficientes para todos. E atenção! Não é uma magia, é um “sinal”: um sinal que convida a ter fé em Deus, Pai providente, que não nos deixa faltar o “nosso pão de cada dia”, se nós o sabemos compartilhar como irmãos.
Compaixão, partilha. E a terceira mensagem: o milagre dos pães anuncia a Eucaristia. Isto pode ser visto no gesto de Jesus que "recitou a bênção" (v. 19), antes de partir os pães e distribuí-los ao povo. É o mesmo gesto que fará Jesus na Última Ceia, quando vai instituir o memorial perpétuo do seu Sacrifício redentor. Na Eucaristia, Jesus não dá um pedaço de pão, mas o pão da vida eterna, dá a Si mesmo, oferecendo-se ao Pai por amor a nós. Mas nós temos que ir à Eucaristia com aqueles sentimentos de Jesus, ou seja, a compaixão e aquela vontade de compartilhar. Quem vai à Eucaristia sem ter compaixão dos necessitados e sem compartilhar, não se encontra bem com Jesus.
Compaixão, partilha, Eucaristia. Este é o caminho que Jesus nos mostra neste Evangelho. Um caminho que nos leva a encarar com fraternidade as necessidades deste mundo, mas que nos leva para além deste mundo, porque vem de Deus Pai e volta para Ele. A Virgem Maria, Mãe da divina Providência, nos acompanhe neste caminho.

sábado, 2 de agosto de 2014

BATE PAPO CARMELITANO: Frei Marcelo de Jesus.

A Voz do Pastor - Domingo Comum - Domingo 03/08/2014

Vocação

Dom Jaime Spengler, Arcebispo de Porto Alegre

Escreveu o Papa Francisco: “A vocação é fruto que amadurece no terreno bem cultivado do amor de uns aos outros, que se faz serviço recíproco, no contexto de uma vida eclesial autêntica. Nenhuma vocação nasce por si, nem vive para si”.
Todos nós desejamos uma vida bem vivida. Almejamos uma vida com sentido. Nossas buscas, projetos e sonhos se sustentam a partir de um horizonte de vida sólido. A pergunta, talvez, sempre necessária, é: o que significa uma vida, uma existência com sentido? A partir de onde se encontra sentido para a própria vida? Aqui certamente se expressa o nobre, digno e necessário serviço junto, especialmente, a nossos adolescentes de orientar, dialogar e auxiliar; afinal, perceber qual o caminho de vida que vem ao encontro das tendências, dotes e mesmo necessidades pessoais, nem sempre é tarefa fácil.
Uma história, pertencente à tradição hebraica, pode auxiliar na compreensão dos desafios característicos quanto à necessidade de realizar uma opção de vida. Diz a história: “Um certo rabi procurou seu mestre, suplicando-lhe: ‘Indicai-me um caminho universal para o serviço a Deus’. O mestre respondeu: ‘Não se trata de dizer ao homem qual caminho deve percorrer, porque existe uma estrada por meio da qual se segue a Deus por meio do estudo, outra, por meio da oração, e outra, por meio do jejum, e ainda outra comendo! É tarefa de cada homem conhecer bem a direção de qual estrada o atrai, o próprio coração e depois escolher aquela estrada com todas as forças’”.
A pessoa humana é única. Possui uma tarefa intransferível. Cada ser humano é convocado a testemunhar sua irrepetibilidade. Para isso, se faz necessário o conhecimento de si mesmo, das próprias qualidades e tendências essenciais. Considerando esse conjunto de elementos, é possível sondar um caminho de vida.
A escolha de um caminho de vida requer muito mais que a opção por uma determinada profissão. Profissão tem a ver com preparação técnica, competência, eficiência produtiva, ganha-pão, função social, status, reconhecimento externo. Tudo isso pressupõe decisão pessoal, realização, chamado interior, paixão, amor e gosto pelo que se faz, ou seja, pressupõe vocação. Assim, retomando a história da tradição hebraica, pode-se perceber que o “serviço de Deus” requer muito mais que somente profissionalismo. Exige escuta do próprio coração, para conhecer bem a direção de qual estrada ele o atrai.
A vocação se orienta eminentemente para um futuro. Ela se realiza, sim, no presente, mas orientada para um futuro. Por isso, pode-se afirmar que vocação é uma tarefa em constante realização. Da profissão, nos aposentamos. Já aquilo que denominamos vocação perpassa todas as fases da existência.
A escuta do próprio coração requer sintonia, escuta, disposição para acolher aquilo que a vida solicita. Escuta e compreende tal solicitação quem cultiva a afeição, a cordialidade, o amor, o respeito pela própria condição. Para nós, cristãos e cristãs, a condição é de filhos e filhas, seguidores e seguidoras do Senhor, caminho, verdade e vida.
Jesus – caminho, verdade e vida – percorria as cidades e aldeias... Contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como um rebanho de ovelhas sem pastor. Disse, então, aos seus discípulos: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a sua messe” (Mt 9,35-38).

Oxalá possamos cooperar para que homens e mulheres, especialmente os adolescentes e jovens, saibam e possam corresponder à vocação recebida, e serem no mundo cooperadores do Senhor na construção do Seu Reino!

Ser padre vocação para servir


Dom Pedro Carlos Cipolini, Bispo de Amparo

Todas as vocações são dadas por Deus e são sublimes. A grande e primeira vocação do ser humano é a filiação divina: tornar-se em Jesus Cristo filhos de Deus. Jesus ensinou a chamar Deus de Pai nosso. Esta vida de amor filial a Deus, portanto, tem como consequência o amor fraternal aos irmãos. Esta é nossa vocação primeira: união com Deus no amor. “O Unigênito Filho de Deus, querendo fazer-nos participantes da sua divindade, assumiu nossa natureza, para que feito homem, dos homens fizesse deuses” (S. Tomás de Aquino, in Op. 57, In festo Corporis Christi, lect. 1-4).
Porém Jesus deixou-nos a Igreja, Povo de Deus que caminha neste mundo; “O Senhor Jesus iniciou sua Igreja pregando a boa nova do Reino de Deus...” (LG n. 5). Na Igreja temos vários carismas e vocações, para múltiplas tarefas que constroem na caridade um novo mundo possível: o Reino de Deus que tem início aqui e se consuma na eternidade. Um destes carismas é o serviço sacerdotal. Ser padre é uma vocação para o serviço. Ser para a comunidade um sinal (sacramento) da presença de Jesus bom pastor no meio de seu povo.
Este ser sinal de Jesus Cristo, é uma vocação, é uma tarefa importante e necessária para o crescimento da Igreja e consequentemente do Reino de Deus, a serviço doa qual está a Igreja. Esta missão deve ser assumida com grande humildade, discernimento e determinação. Ser padre é antes de tudo um serviço de amor (amoris officium). Este serviço de amor é uma doação desinteressada que não tem como objetivo a projeção de si mesmo, nem o lucro pessoal. “Há mais alegria em dar que em receber” (At 20, 35).
Este serviço do padre é sinalizado na “caridade pastoral” a qual se caracteriza pelo conhecimento das ovelhas. Isto não significa conhecer todas as pessoas da paróquia, mas saber e estar consciente de suas dores, angústias, preocupações e alegrias. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas, não se preservando, dando tudo, até mesmo o tempo que sobra. O bom pastor busca as ovelhas desgarradas. Não se trata, creio eu de ir bater à porta das casas, mas ser uma presença visível e acessível para todos.
A condição para isso nós sabemos, esta na intimidade com Jesus Cristo. É Ele que dá força e sustento em meio às dificuldades e contratempos que sobreveem no exercício do ministério. Pois não se pode esquecer que a escolha dos apóstolos é para em primeiro lugar “estar com ele” (cf. Mc 3, 14).
O padre deve ter sempre presente o que escreveu um grande santo e bispo de Milão no terceiro século da Igreja: “O clérigo que serve a Igreja de Cristo deve de início considerar e traduzir o nome que leva e, depois de ter definido esse nome, esforçar-se por ser o que o título exprime. A palavra grega kléros significa parte , porção tirada em sorte: os que levam o nome de clérigos levam-no porque são a parte do Senhor ou porque tem o Senhor por parte. Aquele que professa uma e outra coisa deve mostrar por seu comportamento que possui o Senhor ou que é possuído por Ele. mas aquele que possui o Senhor e diz com o Profeta: O Senhor é minha herança, não pode ter nada além do Senhor”(Santo Ambrósio, Epist. 52,5 ad Nepontianum in- P L 22, 531).
Assim, o significado da palavra clero, que não raro hoje é depreciado, adquire seu verdadeiro sentido: ser uma pessoa livre para servir somente a Deus, e por causa dele servir os irmãos.

No início deste mês de agosto no qual celebramos o padroeiro dos padres, o Santo Cura d´Ars, rezemos pelos nossos padres. Procuremos ajudá-los a viver esta sublime vocação a que foram chamados.

A Palavra 03 de Agosto 2014

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 656. Esperança e Voto.

RETIRO: Agradecimentos do Padre Provincial.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

OLHAR JORNALÍSTICO: Retiro dos Carmelitas.

18º Domingo do Tempo Comum – Ciclo A do Ano Litúrgico: A multiplicação dos pães

A Eucaristia não é somente a reunião dominical em que o padre consagra o pão e o distribui aos participantes, que voltam para suas casas após um ato de devoção... Não! A Eucaristia só tem sentido se, participando dela, tomamos consciência de que nós devemos colaborar.
A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 18º Domingo do Tempo Comum – Ciclo A do Ano Litúrgico (03 de agosto de 2014). A tradução é de André Langer.

Referências bíblicas:
Primeira leitura: Is 55,1-3
Segunda leitura: Rm 8,35.37-39
Evangelho: Mt 14,13-21

Eis o texto.
Depois do discurso em parábolas sobre o Reino, temos agora gestos concretos que mostram o poder do Reino, com o qual os discípulos devem se comprometer, desde já, para que possa se realizar plenamente. O primeiro gesto é o da multiplicação, ou melhor, da partilha do pão. É um gesto tão importante que é contado seis vezes nos evangelhos. Mas, cuidado para não tomar o relato de Mateus ao pé da letra, pois trata-se de um acontecimento teológico e seria ruim tomá-lo como algo que teria acontecido na vida do Nazareno. É o que diz o francês Noël Le Bousse: “Ninguém duvida que Jesus teve poderes miraculosos. Limitada a essa constatação, a multiplicação dos pães não passaria de uma história. Ela torna-se um acontecimento rico de sentido graças às luzes da tradição evangélica que o enriquecem com toda a experiência bíblica: Jesus é o profeta que renova o milagre da Igreja. Ele é o pastor do Povo de Deus que alimenta os seus com um maná novo no deserto de um novo Êxodo, o da aventura da fé cristã. Ele realiza esta missão pelo dom da Eucaristia. Ele é a Sabedoria de Deus que alimenta os doentes e os famintos, sem que tenham necessidade de comprar para comer (cf. Is 55,1-3). Tudo isso não cai do céu. A multiplicação dos pães é confiada aos discípulos. Ministros da Palavra, da caridade ou da Eucaristia, eles aprenderão a olhar para as multidões com o olhar de compaixão de Jesus”.

Mas que mensagens podemos tirar das leituras de hoje?

1. “Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Mt 14,16)
Eu não sei se compreendemos toda a responsabilidade que temos como discípulos do Cristo ressuscitado. A Eucaristia, pois trata-se da Eucaristia... as próprias palavras nos remetem a isso: “Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães, e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões” (Mt 14,19), a Eucaristia, portanto, não é somente a reunião dominical em que o padre consagra o pão e o distribui aos participantes, que voltam para suas casas após um ato de devoção... Não! A Eucaristia só tem sentido se, participando dela, tomamos consciência de que nós devemos colaborar de duas maneiras:
1) Devemos trazer e dar o que temos, mesmo que seja pouco: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes” (Mt 14,17). Talvez não seja muito, mas é o suficiente e mesmo necessário para que o gesto da multiplicação e da partilha possa se realizar, porque Cristo não pode fazer nada sem nós. Os números cinco e dois marcam a falta, mas os dois somados formam o sete, a perfeição.
2) Devemos estar dispostos a partilhar o que temos e o que trouxemos. Nós temos a responsabilidade de distribuir o pão, de partilhá-lo, para que os famintos do mundo sejam saciados: “Em seguida partiu os pães, e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões” (Mt 14,19). Mais uma vez, Cristo não pode fazer nada se os discípulos não distribuem o pão partido e oferecido.

2. “Só temos aqui cinco pães e dois peixes” (Mt 14,17)
O pão é o símbolo do trabalho humano. Ele tem sua importância em todas as culturas; significa a contribuição humana na transformação do trigo que se torna alimento dos humanos. O peixe também tem sua simbologia, pois a cena contada se passa perto do Lago da Galileia, onde os primeiros discípulos eram pescadores. No momento da Eucaristia, o peixe desaparece, mas conserva toda a sua simbologia para designar a Igreja do primeiro século. A palavra grega Ichthys é uma verdadeira profissão de fé cristã no Cristo da Páscoa; cada letra tem seu significado: Iēsous Christos Theou Yios Sōtēr, que significa Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador.
Mas hoje, o que são os cinco pães e os dois peixes? Somos nós, com os nossos talentos, as nossas qualidades e mesmo os nossos defeitos, o que somos, o que possuímos como riqueza, o que temos para dar aos outros. São também a nossa fé, a nossa esperança e o nosso amor. Tudo isso, devemos trazer para partilhar, a fim de saciar os famintos do mundo. Mas quem são esses famintos do mundo de hoje? Quando mais de 2/3 da humanidade sofre de fome, há a fome material, em relação à qual não podemos ficar indiferentes. Mas há muitos outros: as vítimas da guerra, do ódio, da maldade humana; aquelas e aqueles que sofrem de Aids e de todo tipo de doença; as vítimas da injustiça, da intolerância, da desigualdade, do racismo, da opressão e da exclusão. É a todos essas pessoas que o Jesus do evangelho nos diz: “Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Mt 14,16). Nós, talvez, não temos muito, mas o pouco que temos, se o damos gratuitamente, o milagre da multiplicação dos pães se realizará para saciar todas as fomes do nosso mundo.
Eu diria que a missa, a Eucaristia, tem esse preço, se queremos celebrar o Cristo vivo no coração da nossa humanidade. Mesmo o deserto se transformará; florirá. No evangelho, Mateus nos diz que a cena se passa num lugar deserto (v. 13), e na hora da partilha, de repente, há grama para sentar-se: “Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama” (Mt 14,19a). Além disso, nós devemos nos questionar sobre a qualidade das nossas celebrações eucarísticas. Porque se as multidões desertaram das nossas igrejas, talvez devamos nos perguntar se as nossas reuniões realmente matam as fomes do nosso mundo.

3. O Amor
Para celebrar verdadeiramente a Eucaristia, só o Amor em sua gratuidade pode nos permitir fazê-lo. Em sua carta aos Romanos, Paulo, após ter discutido os diversos aspectos da nossa vida nova em Cristo e da nossa esperança, conclui com um hino cheio de emoção, cujo vocabulário sugere o contexto de um julgamento (Cf. TOB, Rm 8,31 nota x). Deus, como um Juiz, ganhou a nossa causa: “O que nos resta dizer? Se Deus está a nosso favor, quem estará contra nós?” (Rm 8,31) O próprio Cristo, como um advogado, intercede por nós: “Quem condenará? Jesus Cristo? Ele que morreu, ou melhor, que ressuscitou, que está à direita de Deus e intercede por nós?” (Rm 8,34) Então, quem ousará acusar aquele que Deus escolheu? “Quem acusará os escolhidos de Deus? É Deus quem torna justo!” (Rm 8,33) Que obstáculos poderiam derrotar a nossa aventura cristã? “Quem nos separará do amor de Cristo?” (Rm 8,35a) As primeiras acusações, a primeira série de sete, dizem respeito ao desafio de crer num mundo hostil à fé: “Tribulação? Angústia? Perseguição? Fome? Nudez? Perigo? Espada?” (Rm 8,35b) Todas essas acusações são rejeitadas pelo Amor: “Em tudo isso, somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou!” (Rm 8,37) A segunda série de adversidades é mais temível; sete no total, são as forças invisíveis que fizeram mais de um temer no tempo de São Paulo: “Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os poderes celestiais, nem o presente nem o futuro, nem as forças cósmicas, nem a altura, nem a profundeza, nem outra criatura qualquer” (Rm 8,38-39a). Por outro lado, mesmo essas forças invisíveis são impotentes diante do Amor: “Nada será capaz de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,39b).
Concluindo, gostaria simplesmente de partilhar esta bela reflexão sobre o Amor, do século XII, de São Bernardo de Claraval: “O fruto do amor é o amor. Amo porque amo, amo para poder amar. Grande coisa é o amor, contanto que vá a seu princípio, volte à sua origem, mergulhe em sua fonte, sempre beba donde corre sem cessar. De todos os movimentos da alma, sentidos e afeições, o amor é o único com que pode a criatura, embora não condignamente, responder ao Criador e, por sua vez, dar-lhe outro tanto”.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 655. Mensagem Vocacional

RETIRO DOS CARMELITAS-2014: Um olhar-08.

RETIRO DOS CARMELITAS-2014: Um olhar-06.

RETIRO DOS CARMELITAS-2014: Um olhar-07.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

AS ÉPOCAS DO CORAÇÃO: A DINÂMICA ESPIRITUAL DA VIDA CARMELITANA. O amor obscuro de Deus.

AS ÉPOCAS DO CORAÇÃO: A DINÂMICA ESPIRITUAL DA VIDA CARMELITANA. O amor obscuro de Deus.
 Frei John Welch, O. Carm. Whitefriars Hall , Washington

Teresa de Ávila advertiu que as lutas dentro de nossos frágeis psiquismos são muito mais difíceis que as externas.  Teresa teve que vencer muitos obstáculos em sua reforma. Teve que lutar com os opositores, com a compra de casas adequadas para suas comunidades, contratar operários para reformá-las, arrecadar fundos para sua manutenção, recrutar membros para a comunidade, relacionar-se com vários eclesiásticos que não a apoiavam, viajar pelos difíceis caminhos da Espanha em más condições e enfrentar algum litígio com a corte.
Não obstante, ela comunicou que estas batalhas não se comparam com as batalhas enfrentadas em sua alma, enquanto ela se ocupava de suas profundidades na oração. “..Escutar  Sua voz dá mais trabalho que não escutá-la”.  Pode parecer que a reflexão de Teresa sobre o “entrar em si mesmo” seria como ir para casa; que as batalhas de fora são uma coisa, mas dentro da alma tudo é harmonia.  Entretanto, foi o contrário, pois ao entrar em seu interior, verificava que estava em guerra consigo mesma.
A oração lança luz sobre aspectos de nossa alma que anteriormente não tínhamos examinado.  As compulsões, os apegos, as maneiras não autênticas de viver, o falso eu, e os falsos deuses, tudo sai à luz enquanto a pessoa vai se afinando mais na verdade. Esta desagradável experiência pode conduzir ao medo, à debilidade do coração  e à tentação de abandonar o  itinerário  existencial. O chamado de Teresa à valentia e a determinação através de uma vida de oração não é demasiadamente dramática.  Aquilo de que a alma necessita, escreveu Teresa, é do conhecimento de si mesma. E a porta  desse conhecimento  de si mesma,  a porta  ao interior  do castelo,  é a oração  e a reflexão.
Sem um esforço orante, nos manteremos desesperançosamente fechados na periferia de nossas vidas perguntando aos outros e à criação  o que somente  Deus  pode nos dizer, isto é, quem somos.  Sem um verdadeiro centro que emerja de nossas vidas, viveremos com muitos “centros”, fragmentados e dispersos, pedindo a cada um deles que realize os desejos do nosso coração. O único antídoto contra a morte certa que decorre do apego aos ídolos, é a dolorosa batalha que supõe entrar em si mesmo  através da oração.
Os leitores modernos podem simpatizar com Teresa enquanto ela enumera as dificuldades de sua vida que são, ter sido elogiada demais, injustamente criticada, tendo além de tudo que sofrer as contradições de homens bons que pensavam que suas experiências de oração vinham do demônio e diariamente  tinha que enfrentar-se a sua saúde precária.
Porém sua experiência mais difícil surgiu justamente quando sua relação com o Senhor era mais íntima.  Ela começou a questionar todo seu itinerário existencial, perguntando se tudo não fora criado por sua imaginação, ou, se era de fato a presença de Deus em sua vida. Teria imaginado que Deus tinha sido bom com ela no passado?  Ela própria tinha sido boa no passado ou tinha imaginado isso? Em outras palavras, quando se esperaria que a amizade com Deus fosse base sólida, então surgiram às dúvidas.  Há alguém em casa, no centro? Tendo entregado sua vida e sua melhor energia ao seguimento dessa “chama” , ela começou a perguntar-se se tudo era ilusão.
A pergunta também seria feita de outra maneira: O final será todo bom?  Tudo isso: a criação, o plano da salvação, o próprio Deus, é para nós?  Ou somos uma paixão inútil? O imenso desejo de nosso coração, a fome da alma, serão frustrados no final de tudo? Ou existe uma realidade, um amor do tamanho do nosso desejo? Todas estas perguntas estão no coração do peregrinar humano.

O tempo, a perseverança, e a graça de Deus, deram a Teresa a resposta às suas dúvidas. Mais tarde ela nos fala da ausência dessas dúvidas que lhe corroíam a alma, e da certeza de uma relação profunda, mas não preocupante com o Senhor.  Porém, ainda nessa condição que ela identifica com o “desponsório espiritual” diz que confia mais no sofrimento. Ainda nos momentos em que estava presa na periferia da vida, ela sabia   que o discípulo de Jesus  levaria a cruz e que através desta surgiria  a vida.  Ela não construía cruzes artificiais em sua vida, mas também não fugia das cruzes que a vida lhe apresentava. Ela tinha aprendido a confiar nesse, às vezes, obscuro amor de Deus.

A PALAVRA... Nº 654. Uma prece de agradecimento.

CANTANDO COM FREI PETRÔNIO: São Cristóvão.

RETIRO DOS CARMELITAS-2014: Um olhar-04.

sábado, 26 de julho de 2014

OLHAR RETROSPECTIVA DA SEMANA. Nº 1.

ESPIRITUALIDADE CARMELITANA: Querer o que Deus quer

Frei John Welch, O. Carm. Whitefriars Hall , Washington

         O propósito da oração é conformar-se com a vontade Deus, escreveu Teresa de Ávila. A pessoa orante está cada vez mais em união com Deus e esta união se expressa no fato de a pessoa desejar mais e mais aquilo que Deus deseja.  Nós não nos fazemos mais fortes através da ascética, lutando para submeter nossa vontade à vontade de Deus.  Não, o amor de Deus nos convida à transformação de nosso desejo para que nós desejemos o que Deus deseja; queremos o que Deus quer, disse João, “Assim, o que tu queres que peça, peço, e o que não queres, não quero, inclusive  nem posso, nem me passa pelo pensamento querer.”
A divinização é a participação gradativa  no conhecimento e no amor de Deus.  O peregrino fica tão transformado que todo o seu modo de viver se converte em expressão da vontade de Deus.  Se podemos interpretar o que Jesus disse, que a vontade de Deus é o bem-estar  da humanidade, então a pessoa orante vive mais do que esse bem-estar. Em outras  palavras, a pessoa  transformada e divinizada vive de tal forma que coopera com o Reino de Deus presente e vindouro.
Estas pessoas são difíceis de se identificar. O Mestre Eickhart nos previne que uma pessoa que vive a partir do seu centro, vive na vontade de Deus.  Diz que enquanto outros jejuam, eles comem; enquanto outros estão em vigília, eles dormem; enquanto outros oram eles estão em silêncio.  Pois, qual é o propósito da vigília, da oração, do jejum senão o viver do  centro da alma que é Deus? É claro que ele está exagerando ao expressar sua compreensão,  já que nosso peregrinar nunca acaba deste lado da morte. O que ele quer expressar é a absoluta humanização da pessoa transformada.
Teresa nos disse que estas pessoas não estão continuamente conscientes de sua vida espiritual.  A interioridade se converte cada vez menos num ponto de enfoque. Nem Deus lhes preocupa, porque o modo como vivem expressa sua relação com Deus. A meta nunca foi chegar a ser um contemplativo, ou um santo, ou ter uma vida espiritual. A meta sempre foi querer o que Deus quer numa consonância de desejo.
Na conclusão da Regra Carmelitana, Alberto, Patriarca de Jerusalém e o legislador escrevem: “É isto que, com brevidade, lhes escrevemos determinando a forma de conduta, segundo a qual vocês deverão viver. Se alguém fizer mais do que o prescrito, o Senhor mesmo lhe retribuirá quando voltar.” Kees Waaijman do Instituto Tito Brandsma de Nimega vê nesta afirmação  uma clara alusão à passagem do Bom Samaritano.  O Carmelita assume o papel do hospedeiro. Seus planos e a ordem de sua casa se vêm alterados quando um forasteiro traz um homem machucado para que cuide dele. O forasteiro pede ao hospedeiro que cuide daquele homem machucado e se gastar algo mais, isto é , se fizer mais, o forasteiro na volta o pagará.
O forasteiro, Cristo, pede ao Carmelita que cuide de sua gente durante sua ausência. Ainda que o hóspede não seja esperado e a ordem da casa fique alterada, o hospedeiro obedientemente se ocupa do homem ferido, talvez sem envolver-se emocional ou pessoalmente, e com pouca satisfação. Kees conclui que toda entrega autêntica é essencialmente obscura.  A presença que se encontra no profundo do coração do Carmelita é uma noite que guia, uma chama que cura, uma ausência reveladora.
Os frades não tem necessidade de desculpar-se por não ser autênticos carmelitas. Nossa espiritualidade não é de um ascetismo heroico, mas do amor de Deus que conquista  e toca cada coração e o faz adoecer, de outro modo não estaríamos aqui.


Assumindo que no cume do Monte Carmelo nos sentimos em casa, quer dizer, nos braços de Deus, e ao mesmo tempo sempre necessitamos de sua misericórdia, nosso ministério é fazer acessível a tradição do Carmelo para ajudar a nossos irmãos e irmãs a ver e ouvir a presença de Deus em sua vidas.
Para manter viva esta chama nos outros, pareceria correto que primeiro nós a tivéssemos acolhido em nossas vidas. Se escutarmos nossos corações, conheceremos os corações das pessoas com as quais trabalhamos e assim as serviremos melhor. Tiremos a poeira de qualquer vocação carmelita e ali  encontraremos uma brasa esperando tornar-se  uma chama, uma chama que deseja a totalidade, a paz, a segurança, o gozo, a unidade e que  encontra sua melhor expressão  no serviço aos irmãos  e irmãs.  Para isso viemos.  Para isso estamos aqui.

Resumo     
“Entrar no Carmelo” não é simplesmente entrar em um edifício, unir-se a uma comunidade, e assumir um ministério, seja este contemplativo ou apostólico.  Pode ser isso certamente, porém, “entrar ao Carmelo” é também entrar em um drama que se realiza no profundo de cada vida humana. O drama do encontro de espírito humano com o espírito de Deus é essencialmente inefável.
Os carmelitas são exploradores do lugar secreto onde Deus habita, esse lugar do espírito humano onde o Mistério se dirige ao espírito. O Carmelo honra essa primeira e privilegiada relação entre criatura e Criador. Os místicos carmelitas tem usado as imagens dos desposórios  e, com frequência, a história de amor do Cântico dos Cânticos  para captar a intimidade do encontro.  A paisagem dos Cânticos começa a dar forma à “terra do Carmelo”
O propósito da oração é a conformidade com a vontade de Deus, nos disse Teresa de Ávila. Nesta relação os desejos do peregrino são transformados de tal maneira que cada vez mais o cristão expressa em sua vida aqueles desejos que estão conformes com os desejos de Deus. Se dissermos que a meta do amor de Deus é o bem-estar da humanidade, então o cristão transformado vive de uma maneira que naturalmente coopera com o Reino de Deus.

Perguntas para reflexão:  
1-Quem são as pessoas verdadeiramente santas na minha experiência?  Como são?
2-Entendo a vida espiritual como um crescimento heroico, ou como um despertar para um amor que brota do centro do meu ser?
3-Estou disposto a confiar, de um modo prático, que o amor de Deus é gratuito, impossível de ser conquistado? Existem maneira sutis em que tento assegurar meu valor?

4-“Descanse, tudo já foi feito”, disse um teólogo da graça. O que pode significar esta frase?

17º- DOMINGO DO TEMPO COMUM. ANO- A

       A liturgia deste domingo convida-nos a refletir nas nossas prioridades, nos valores sobre os quais fundamentamos a nossa existência. Sugere, especialmente, que o cristão deve construir a sua vida sobre os valores propostos por Jesus.
A primeira leitura apresenta-nos o exemplo de Salomão, rei de Israel. Ele é o protótipo do homem “sábio”, que consegue perceber e escolher o que é importante e que não se deixa seduzir e alienar por valores efémeros.
No Evangelho, recorrendo à linguagem das parábolas, Jesus recomenda aos seus seguidores que façam do Reino de Deus a sua prioridade fundamental. Todos os outros valores e interesses devem passar para segundo plano, face a esse “tesouro” supremo que é o Reino.
A segunda leitura convida-nos a seguir o caminho e a proposta de Jesus. Esse é o valor mais alto, que deve sobrepor-se a todos os outros valores e propostas.

ATUALIZAÇÃO (EVANGELHO – Mt 13,44-52)

Ter em conta, na reflexão, os seguintes elementos.

A primeira e mais importante questão abordada neste texto é a das nossas prioridades. Para Mateus, não há qualquer dúvida: ser cristão é ter como prioridade, como objectivo mais importante, como valor fundamental, o Reino. O cristão vive no meio do mundo e é todos os dias desafiado pelos esquemas e valores do mundo; mas não pode deixar que a procura dos bens seja o objetivo número um da sua vida, pois o Reino é partilha. O cristão está permanentemente mergulhado num ambiente em que a força e o poder aparecem como o grande ideal; mas ele não pode deixar que o poder seja o seu objetivo fundamental, porque o Reino é serviço. O cristão é todos os dias convencido de que o êxito profissional, a fama a qualquer preço são condições essenciais para triunfar e para deixar a sua marca na história; mas ele não pode deixar-se seduzir por esses esquemas, pois a realidade do Reino vive-se na humildade e na simplicidade. O cristão faz a sua caminhada num mundo que exalta o orgulho, a auto-suficiência, a independência; mas ele já aprendeu, com Jesus, que o Reino é perdão, tolerância, encontro, fraternidade… O que é que comanda a minha vida? Quais são os valores pelos quais eu sou capaz de deixar tudo? Que significado têm as propostas de Jesus na minha escala de valores?
A decisão pelo Reino, uma vez tomada, não admite tibiezas, hesitações, jogos duplos. Escolher o Reino não é agradar a Deus e ao diabo, pactuar com realidades que mutuamente se excluem; mas é optar radicalmente por Deus e pelos valores do Evangelho. A minha opção pelo Reino é uma opção radical, sincera, que não pactua com desvios, com compromissos a “meio gás”, com hipocrisias e incoerências?
Porque é que os cristãos apresentam, tantas vezes, um ar amargurado, sofredor, desolado? Quando a tristeza nos tolda a vista e nos impede de sorrir, quando apresentamos semblantes carrancudos e preocupados, quando deixamos transparecer em gestos e em palavras a agitação e o desassossego, quando olhamos para o mundo com os óculos do pessimismo e do desespero, quando só nos deixamos impressionar pelo mal que acontece à nossa volta, já teremos descoberto esse valor fundamental – o Reino – que é paz, esperança, serenidade, alegria, harmonia?
Mais uma vez o Evangelho convida-nos a admirar (e a absorver) os métodos de Deus, que não tem pressa nenhuma em condenar e destruir, mas dá tempo ao homem – todo o tempo do mundo – para amadurecer as suas opções e fazer as suas opções. Sabemos respeitar, com esta tolerância e liberdade, o ritmo de crescimento e de amadurecimento dos irmãos que nos rodeiam?

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 651. Evangelho Dominical.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 650. São Cristóvão.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

O amigo secreto de Francisco em Caserta

Não é católico, mas pentecostal. Faz parte dessas comunidades cristãs que se expandem deforma assombrosa no mundo. O Papa está se encontrando com seus líderes de forma gradual. De rivais quer fazê-los amigos, a ponto de pedir-lhes perdão. A reportagem é de Sandro Magister e publicada no sítio Chiesa.it, 23-07-2014. A tradução é de André Langer. Fonte: http://bit.ly/WGmmJK
Quando foi dada a notícia, confirmada pelo padre Federico Lombardi, de que o Papa Francisco tentava ir de forma privada a Caserta para encontrar um amigo seu, pastor de uma comunidade evangélica local, o bispo da cidade, Giovanni D’Alise, se surpreendeu. Não sabia de nada.
Além disso, o Papa havia programado esta visita relâmpago a Caserta justamente no dia da festa de Santa Ana, padroeira da cidade. Ao se verem marginalizados, houve entre os fiéis uma ameaça de sublevação. Foi necessária uma boa semana para convencer o Papa a mudar o programa e que desdobraria a viagem em duas partes: a primeira, no sábado, 26 de julho, de forma pública para os fiéis de Caserta, e a segunda, de forma privada, na segunda-feira seguinte, para o amigo evangélico.
Foram meses nos quais Jorge Mario Bergoglio havia programado encontrar-se com esse amigo. Já em 15 de janeiro havia feito alusão a esse propósito na presença de um grupo de fiéis de Caserta, depois de uma audiência geral na Praça São Pedro. Voltou a falar disso em 19 de junho, durante um encontro, em Roma, com alguns pastores evangélicos, entre os quais estava o amigo de Caserta, Giovanni Traettino, a quem conheceu em 2006 em Buenos Aires, por ocasião de um debate com o então arcebispo da capital argentina.
Na realidade, o encontro de Caserta com o pastor Traettino não é um episódio isolado, mas faz parte de um esforço de mais longo alcance que o Papa Francisco está fazendo para atrair as simpatias dos líderes mundiais desses movimentos “evangélicos” e pentecostais que, sobretudo na América Latina, são o mais temível concorrente da Igreja católica, da qual arrancam enormes massas de fiéis.
Os cristãos “evangélicos” e pentecostais, surgidos um século atrás no mundo protestante, se expandiram de forma espetacular. Calcula-se que hoje sejam quase um terço dos quase dois milhões de cristãos presentes no mundo e três quartos dos protestantes. Mas são encontrados também dentro da Igreja católica. Em 01 de junho passado, o Papa Francisco encontrou-se no Estádio Olímpico de Roma com 50.000 membros da Renovação no Espírito, que na Itália é a maior organização carismática católica.
Três dias depois, 04 de junho, o Papa encontrou-se durante várias horas, na residência de Santa Marta, com alguns líderes “evangélicos” dos Estados Unidos, entre os quais estavam o célebre tele-evangelista Joel Osteen, o pastor californiano Tim Timmons e o presidente do Evangelical Westmont College, Gayle D. Beege.
No dia 24 de junho houve outro encontro. Desta vez com os tele-evangelistas do Texas, James Robinson e Kenneth Copeland, com o bispo Anthony Palmer, da Comunhão das Igrejas Episcopais Evangélicas, com o casal John e Carol Arnott, de Turim, e outros destacados líderes religiosos. Estiveram presentes também Geoff Tunnicliffe e Brien C. Stiller, respectivamente secretário-geral e “embaixador” da Aliança Evangélica Mundial. O encontro durou três horas e prosseguiu durante o almoço, no refeitório de Santa Marta, onde o Papa, entre grandes gargalhadas, bateu sua mão aberta na do pastor Robinson. (foto)
Copeland e Osteen são defensores da “teologia da prosperidade”, segundo a qual quanto mais cresce a fé mais cresce a riqueza. Eles mesmos são muito ricos e levam um estilo de vida muito dispendioso. Mas Francisco lhes economizou uma pregação sobre o tema da pobreza.
Em vez disso – de acordo com a informação do “embaixador” Stiller –, o Papa lhes declarou: “Não estou interessado em converter os ‘evangélicos’ ao catolicismo. Em muitos pontos doutrinais não estamos de acordo. Basta mostrar o amor de Jesus”.
Mas também lhes disse que aprendeu da sua amizade com o pastor Traettino que a Igreja católica, com sua imponente presença, obstaculiza muito o crescimento e o testemunho destas comunidades. E que também por esse motivo havia pensado em visitar a comunidade pentecostal de Caserta “para desculpar-se pelas dificuldades provocadas à comunidade”.
Durante os pontificados de João Paulo II e mais ainda de Bento XVI, os “evangélicos” estadunidenses, em geral mais conservadores, haviam atenuado sua tradicional postura antipapal e encontraram momentos de encontro com a Igreja católica na luta comum pela defesa da liberdade religiosa, da vida e da família.
Em seus colóquios das semanas passadas, o Papa Francisco não se deteve sobre estes temas.
Mas, em março passado, o Papa encontrou-se brevemente, em Roma, com a religiosíssima família “evangélica” Green, proprietária da empresa Hobby Lobby. A Suprema Corte dos Estados Unidos deu ganho de causa, no final do mês de junho, a uma ação judicial contra a lei impulsionada por Barack Obama que obrigava as empresas a incluir no seguro médico dos empregados a cobertura por tratamentos anticoncepcionais e abortivos.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Um olhar sobre a vida religiosa: Os Conselhos Evangélicos ou votos.

 Introdução
Os conselhos evangélicos que um religioso professa devem ser compreendidos num determinado contexto. Os votos são uma realidade vivida. São valores evangélicos proclamados publicamente na Igreja por homens e mulheres. Precisamos compreendê-los menos como um ideal, ou um estado de perfeição para o qual trabalhamos, do que como um contexto ou uma condição para seguir Jesus Cristo hoje. Eles apontam para o futuro, para o eskáton. No entanto, eles também são um modo de viver e testemunhar hoje a presença misericordiosa de Deus no mundo. Depois destes esclarecimentos, refletiremos sobre os votos a partir de três princípios básicos ou contextuais.
Em primeiro lugar, a reflexão teológica para nossa discussão sobre os votos é a encarnação de Jesus Cristo. Uma teologia pré-Vaticano II enfocava a natureza escatológica dos votos, dando uma ênfase ao relacionamento espiritual com Cristo e com o mundo. Este conceito de vida religiosa como um estado de perfeição baseava sua teologia na interpretação da história do jovem rico (Mt 19,16-22), enfatizando a ideia de dois caminhos. O melhor caminho é aquele dos conselhos evangélicos oferecidos a algumas almas escolhidas com a pretensa superioridade do estado religioso definido mais tarde como o estado da perfeição. Por outro lado, uma teologia inserida vê Jesus Cristo como a encarnação do amor de Deus por nós. A realidade histórica de Jesus, e a entrada de Deus na história humana através dele, mudou a forma de experimentarmos Deus. Por ter sido agraciada por Deus em Jesus, a experiência humana é o principal veículo para a experiência do amor de Deus. Então, no contexto dos votos, devemos encará-los como um meio específico de viver a vida cristã e carmelitana hoje, sem considerá-los exclusivamente como uma como uma escolha privilegiada.
Em segundo lugar, a contribuição carmelitana para nossa discussão dos votos é a Regra de Santo Alberto. Em resposta ao Espírito Santo os primeiros carmelitas desenvolveram um modo de vida no seguimento de Jesus Cristo.   Embora os votos na Regra sejam apenas mencionados mas não explorados explicitamente, os elementos fundamentais do carisma carmelitano expressos na Regra são o contexto no qual somos chamados a viver os votos. A busca pela face de Deus   no contexto da vida comunitária   e no serviço ao povo de Deus   é o local e o processo para vivermos os conselhos evangélicos.
Este carisma é uma expressão do chamado evangélico à constante conversão em nossos relacionamentos com Deus. Ele é uma expressão do que significa seguir Jesus. Então, os três votos tornam-se uma outra maneira de ajudar nesta experiência contínua de conversão. Uma vida de oração, vivida em comunidade e no serviço aos outros, torna-se o contexto para a vivência dos votos como religiosos. Os votos, vividos no contexto carmelitano, deveriam nos ajudar no processo que “nos transforma na existência amorosa de Deus”.
Finalmente, o terceiro ponto para nossa discussão dos votos é o contexto cultural que cada um de nós leva para a vivência dos votos. O desafio para cada um de nós é viver os votos em nosso próprio contexto. Em outras palavras, o cenário histórico e cultural de cada carmelita é um sacramento para nós.

História
A história dos votos religiosos nos mostra uma evolução na vida da igreja. Ao longo da história da Igreja, a forma e o conteúdo dos votos mudam de acordo com as necessidades e expectativas da comunidade cristã. Em outras palavras, a vida religiosa nem sempre foi identificada com os três conselhos evangélicos, tais como os conhecemos hoje.
Os primeiros eremitas e cenobitas não faziam uma profissão religiosa formal. Enquanto a castidade, que possuía uma ênfase mais unitiva e mística, era a virtude característica das mulheres que faziam votos ao serviço de Deus na Igreja, a virtude que caracterizava a vida monástica era a obediência, que possuía uma ênfase mais ascética. Um monge, por exemplo, ia para o deserto e colocava-se sob a obediência de um pai espiritual. Este pai espiritual o guiaria em sua jornada espiritual e no desenvolvimento das outras virtudes evangélicas, incluindo, é claro, a castidade e a pobreza.
Enquanto o estilo de vida cenobítico crescia, reunindo várias pessoas vivendo juntas em comunidade, a obediência se tornou um meio de organizar e harmonizar a comunidade. É difícil determinar quando o compromisso de obediência entrou na vida monástica, mas nos primeiros anos do século VI, o abade não era visto simplesmente como o guia espiritual, mas como aquele que está no lugar de Cristo, dirigindo a família monástica de fé.
Com a Regra de São Bento foram introduzidas outras promessas. Bento exigiu que o monge professasse a estabilidade, a mudança de vida e a obediência.   Ele menciona a castidade apenas uma vez como um dos setenta e dois Instrumentos das Obras de Caridade no capítulo quatro de sua Regra. Caso o monge ainda não tivesse renunciado à sua propriedade antes de entrar para o mosteiro, ele deveria doá-la ao mosteiro “não retendo nada para si, sabendo com isso que, deste dia em diante, não seria dono nem de seu próprio corpo”.
Durante as Reformas Carolíngias, entre o fim do século VIII e início do século IX, a Regra de São Bento tornou-se a regra normativa para os monges na Igreja ocidental. Assim a profissão da obediência, da mudança de vida e da estabilidade eram os votos religiosos padrões. Durante os séculos que se seguiram a Bento, especialmente do século VIII até o século XI, muitas das abadias cresceram e se tornaram estabelecimentos muito prósperos.
Enquanto a Regra Beneditina tornava-se universal entre os mosteiros da Europa ocidental ao longo do século IX, surgiu uma forma alternativa de vida religiosa que buscava inspiração em outro lugar. Um número significativo de monges e cônegos, seguindo a Regra Agostiniana, que se desenvolveu no início do século XI, optaram por ser eremitas orantes e um número de mosteiros começou a se reformar e a se voltar para um estilo de vida mais simples. O século XII foi um período de revolução econômica na qual a base da riqueza mudou do capitalismo feudal para o capitalismo comercial. Enquanto as cidades se revitalizavam através da expansão do comércio, ocorreu uma revolução social. A riqueza e o poder na sociedade passaram da nobreza rural para os comerciantes urbanos.
Esta revolução econômica gerou um tremendo sentimento de ansiedade moral, na medida em que as pessoas viam a ordem estabelecida sucumbir e ser substituída. Nesta tensão, surgiram muitos movimentos que glorificavam a pobreza evangélica. Os valdenses, os umiliati e, finalmente, os franciscanos tentaram responder a esse momento, especialmente este último grupo. Nasceu assim o movimento mendicante: uma proposta radical de viver o evangelho.
A Regra que Alberto de Jerusalém deu aos primeiros carmelitas exigia que os eremitas professassem apenas a obediência.   Nesta ocasião a autoridade era vista cada vez mais como algo adquirido pelos cidadãos que escolhiam seus líderes para governar, a partir de um consenso entre o povo. Esta mudança social se refletia num novo estilo de liderança fraterna nas comunidades religiosas deste período. As novas comunidades rejeitaram o governo abacial em favor dos priores que governavam suas comunidades com o consentimento do capítulo. A obediência determinada na Regra Carmelitana refletiu este novo espírito.
 O chamado para um único voto na Regra não sobreviveu à mitigação de 1247 de Inocêncio IV. Uma das modificações era expressar diretamente que os carmelitas professam “obediência – que, ao prometer, o carmelita deve tentar fazer de seu ato uma verdadeira reflexão – e também a castidade e a renúncia da propriedade”.   É interessante observar que a fórmula de profissão não foi mudada para mencionar a castidade e a renúncia da propriedade até as Constituições de John Soreth em 1462.
A razão precisa para esta mudança, que afetou todos os mendicantes, não está clara. Obviamente os frades não poderiam assumir os votos monásticos, já que a estabilidade era contrária à visão de Francisco, que queria que seus frades pregassem o evangelho de cidade em cidade. De fato, para Francisco o que substituía a estabilidade era a pobreza. Enquanto a Igreja do tempo de Bento necessitava de monges que respondessem a um pai espiritual confiável, a Igreja no tempo de Francisco necessitava de religiosos que possuíssem aquela santidade testemunhada pela pobreza. A pobreza dos valdenses (um grupo de radicais seguidores do evangelho) e a pobreza e a castidade reconhecidamente rigorosa dos cátaros (um grupo radical no movimento de vita apostolica) exigia que estas virtudes fossem intensamente vividas pelos frades. Portanto, faz sentido que a Igreja tenha ligado estas duas virtudes à obediência, apresentando-as como as qualidades essenciais da vida religiosa no começo do século XIII.
Quanto ao voto de pobreza, originalmente os mendicantes queriam um novo estilo de pobreza. Não significava simplesmente que o indivíduo não tinha qualquer bem pessoal, mas também obrigava a própria comunidade à pobreza. As ricas abadias não eram mais o ideal. Os dominicanos e os franciscanos tinham visões ligeiramente diferentes a respeito desta pobreza comum. Embora nenhum dos dois possuísse propriedades de produção de renda, os dominicanos tiveram a permissão de possuir conventos com as plantações que forneciam alimento para sua mesa, ao passo que os franciscanos não possuíam nem o título de suas casas. Gregório IX impôs um estilo de pobreza franciscana aos carmelitas em sua Bula de 1229. “... proibimos estritamente de qualquer forma que vocês aceitem ou ousem manter como sua propriedade tanto suas ermidas ou bens ou casas ou outra renda...”
Já que Gregório IX foi um admirador e confidente de Francisco, era natural para ele impor o ideal de Francisco como o modelo a partir do qual os outros religiosos deveriam se confrontar. No entanto, tal idealismo não resistiu ao século. Na verdade, nas últimas décadas do século XIII as comunidades carmelitanas não apenas possuíam seus conventos e hortas, mas também propriedades com produção de renda, tais como casas particulares, vinhas, lojas, fazendas e igrejas paroquiais.

Assim, os votos têm sido uma realidade que evoluiu na vida religiosa. A forma tríplice tem se mantido em vigor desde o século XIII. Contudo, está claro que seu papel na vida religiosa e o significado dos votos particulares mudou através de toda história da vida religiosa. Então, é importante perceber que como símbolos de um compromisso interior eles querem ser uma personificação de um valor evangélico vivido num determinado momento histórico. Eles precisam falar com renovado vigor em cada situação nova que os religiosos e suas comunidades enfrentam. A história nos ensina que apenas as coisas que estão abertas para um renovador significado e para uma compreensão nova, sobrevivem de uma geração à outra e continuam a contribuir para a vida do corpo de Cristo.

domingo, 20 de julho de 2014

O PROFETA ELIAS: Apontamentos espirituais de Dom Frei Vital Wilderink, Im Memoriam.

Frei Martinho Cortez, O.Carm
 (De uma meditação de Dom Vital Wilderink sobre 1 RS 19, 1-21, em dia de recolhimento, Capítulo Geral de 1995)

"É VIVO O DEUS EM CUJA PRESENÇA EXISTO" (1RS)
"ARDO-ME DE ZELO PELAS COISAS DO DEUS SENHOR DE TUDO" (1RS)

I-Acima, duas frases que descrevem o ser e o fazer do profeta Elias: homem de contemplação e de ação; e de ação porque de contemplação.
Os carmelitas vêem nele seu PAI E FUNDADOR, assegurando-se uma identidade necessária. Não ter pai é problema; reclamavam os samaritanos com Jesus, reclamam os meninos de rua hoje. Quem não tem pai é gente sem origem, sem originalidade, sem garantia, sem alguém que por ele (ela) responda. Razão do nomadismo, da insegurança e mesmo da desesperança! Ter pai é como a uma nau ter a segurança de uma âncora. Pai é sinônimo de vínculo, herança, garantia. Jesus fez o maior bem para o homem, por lhe ter restituído O PAI (cf episódio da samaritana).

II- Elias é um verdadeiro ITINERÁRIO DE VIDA: experiências de deserto, oração, ação/contemplação (teor tensionante), história/escatologia (idem). A palavra a Elias - "RESTA-TE UM LONGO CAMINHO" - é para todo carmelita também. Herdamos a audácia da encarnação e a segurança da memória, para superar as angústias da caminhada.
III- O ponto de partida de 1RS 19, 1-21, é o desânimo, a vontade de fugir, a perda de sentido da vida. De PROFETA o homem passa a simples FRAGILIDADE. Revelam-se para ele suas fraquezas: presunção, medo, ameaças, abandono da fé, censura do poder, perseguição. Nesse momento, sente a necessidade de mudança, de CONVERSÃO. Como carmelitas, somos chamados à IDENTIFICAÇÃO COM O PROFETA ELIAS, para podermos continuar: a VIAGEM é a marca dele e será a nossa. Uma viagem não só geográfica, mas vital, que exige conversão interior provocada pela história (exterior). É aqui que acontece a GRAÇA e Deus se revela em nossa fraqueza.
IV- Intervenção do anjo de Deus, mandando DEIXAR, RENUNCIAR, ESVAZIAR-SE ("vacare Deo"). Fase da purificação, para entender que não é super-homem. Na verdade, a PROFECIA é uma intuição profunda em meio aos defeitos, às limitações. É-se convidado a destruir as aparências de força, as defesas de poder. Como diz Paulo: precisamos carregar em nosso corpo a MORTE DE CRISTO. Inicia-se assim a caminhada para a montanha de Deus: amadurecendo as relações com o próprio Deus. Este será sempre um MISTÉRIO, uma NOVIDADE. Converter-se é também MUDAR DE PSICOLOGIA: o homem se relaciona com Deus, SE entender que isso é Deus relacionando-se com o homem (J.da Cruz). SER HOMEM DE RELACIONAMENTO COM DEUS é a vocação do Carmelo, para EM SI MESMO mostrar ao homem o rosto de Deus, na maturidade de relacionamento com Deus. O Deus revelado no Carmelo vem de um voltar-se PARA DENTRO (interioridade) e de um voltar-se PARA FORA (fraternidade).
V- Longo caminho NO DESERTO. Noite escura. Luz no final do túnel (escatologia). Tensão "Mundo Presente><Mundo Futuro", para a qual é preciso SENSIBILIDADE. Reconstruir sempre a História, a Si Mesmo e ao Povo. Caminho de ESCONDIMENTO de Deus, obscuridade, presença certa do AMOR ETERNO. Descoberta do NOVO (brisa mansa). Volta ao entusiasmo e ao trabalho (ação profética).

VI- O passo final é VER A VERDADE. Que não se é o único. Que existe muita gente fiel. Que Deus sempre é defensor e PRESENÇA. Que se é simples SEMENTE. É o ponto de chegada: Deus sempre presente faz ver que há fiéis entre cristãos, não-cristãos, homens de boa vontade. No retorno para a ação profética, Elias de ontem e de hoje, ao enxergar-se mais verdadeiro, redescobre a missão, adquire maturidade, gera filhos. Como, no Evangelho, Jesus leva o homem a descobrir-se NA SITUAÇÃO EM QUE VIVE (ambiente real), superando o orgulho, a auto-suficiência, a idéia de poder. Talvez, por isso, a nossa tarefa carmelitana seja a de ILUMINAR O CAMINHO QUE O PRÓPRIO HOMEM LIVREMENTE DEVE ESCOLHER.