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sexta-feira, 25 de julho de 2014

O amigo secreto de Francisco em Caserta

Não é católico, mas pentecostal. Faz parte dessas comunidades cristãs que se expandem deforma assombrosa no mundo. O Papa está se encontrando com seus líderes de forma gradual. De rivais quer fazê-los amigos, a ponto de pedir-lhes perdão. A reportagem é de Sandro Magister e publicada no sítio Chiesa.it, 23-07-2014. A tradução é de André Langer. Fonte: http://bit.ly/WGmmJK
Quando foi dada a notícia, confirmada pelo padre Federico Lombardi, de que o Papa Francisco tentava ir de forma privada a Caserta para encontrar um amigo seu, pastor de uma comunidade evangélica local, o bispo da cidade, Giovanni D’Alise, se surpreendeu. Não sabia de nada.
Além disso, o Papa havia programado esta visita relâmpago a Caserta justamente no dia da festa de Santa Ana, padroeira da cidade. Ao se verem marginalizados, houve entre os fiéis uma ameaça de sublevação. Foi necessária uma boa semana para convencer o Papa a mudar o programa e que desdobraria a viagem em duas partes: a primeira, no sábado, 26 de julho, de forma pública para os fiéis de Caserta, e a segunda, de forma privada, na segunda-feira seguinte, para o amigo evangélico.
Foram meses nos quais Jorge Mario Bergoglio havia programado encontrar-se com esse amigo. Já em 15 de janeiro havia feito alusão a esse propósito na presença de um grupo de fiéis de Caserta, depois de uma audiência geral na Praça São Pedro. Voltou a falar disso em 19 de junho, durante um encontro, em Roma, com alguns pastores evangélicos, entre os quais estava o amigo de Caserta, Giovanni Traettino, a quem conheceu em 2006 em Buenos Aires, por ocasião de um debate com o então arcebispo da capital argentina.
Na realidade, o encontro de Caserta com o pastor Traettino não é um episódio isolado, mas faz parte de um esforço de mais longo alcance que o Papa Francisco está fazendo para atrair as simpatias dos líderes mundiais desses movimentos “evangélicos” e pentecostais que, sobretudo na América Latina, são o mais temível concorrente da Igreja católica, da qual arrancam enormes massas de fiéis.
Os cristãos “evangélicos” e pentecostais, surgidos um século atrás no mundo protestante, se expandiram de forma espetacular. Calcula-se que hoje sejam quase um terço dos quase dois milhões de cristãos presentes no mundo e três quartos dos protestantes. Mas são encontrados também dentro da Igreja católica. Em 01 de junho passado, o Papa Francisco encontrou-se no Estádio Olímpico de Roma com 50.000 membros da Renovação no Espírito, que na Itália é a maior organização carismática católica.
Três dias depois, 04 de junho, o Papa encontrou-se durante várias horas, na residência de Santa Marta, com alguns líderes “evangélicos” dos Estados Unidos, entre os quais estavam o célebre tele-evangelista Joel Osteen, o pastor californiano Tim Timmons e o presidente do Evangelical Westmont College, Gayle D. Beege.
No dia 24 de junho houve outro encontro. Desta vez com os tele-evangelistas do Texas, James Robinson e Kenneth Copeland, com o bispo Anthony Palmer, da Comunhão das Igrejas Episcopais Evangélicas, com o casal John e Carol Arnott, de Turim, e outros destacados líderes religiosos. Estiveram presentes também Geoff Tunnicliffe e Brien C. Stiller, respectivamente secretário-geral e “embaixador” da Aliança Evangélica Mundial. O encontro durou três horas e prosseguiu durante o almoço, no refeitório de Santa Marta, onde o Papa, entre grandes gargalhadas, bateu sua mão aberta na do pastor Robinson. (foto)
Copeland e Osteen são defensores da “teologia da prosperidade”, segundo a qual quanto mais cresce a fé mais cresce a riqueza. Eles mesmos são muito ricos e levam um estilo de vida muito dispendioso. Mas Francisco lhes economizou uma pregação sobre o tema da pobreza.
Em vez disso – de acordo com a informação do “embaixador” Stiller –, o Papa lhes declarou: “Não estou interessado em converter os ‘evangélicos’ ao catolicismo. Em muitos pontos doutrinais não estamos de acordo. Basta mostrar o amor de Jesus”.
Mas também lhes disse que aprendeu da sua amizade com o pastor Traettino que a Igreja católica, com sua imponente presença, obstaculiza muito o crescimento e o testemunho destas comunidades. E que também por esse motivo havia pensado em visitar a comunidade pentecostal de Caserta “para desculpar-se pelas dificuldades provocadas à comunidade”.
Durante os pontificados de João Paulo II e mais ainda de Bento XVI, os “evangélicos” estadunidenses, em geral mais conservadores, haviam atenuado sua tradicional postura antipapal e encontraram momentos de encontro com a Igreja católica na luta comum pela defesa da liberdade religiosa, da vida e da família.
Em seus colóquios das semanas passadas, o Papa Francisco não se deteve sobre estes temas.
Mas, em março passado, o Papa encontrou-se brevemente, em Roma, com a religiosíssima família “evangélica” Green, proprietária da empresa Hobby Lobby. A Suprema Corte dos Estados Unidos deu ganho de causa, no final do mês de junho, a uma ação judicial contra a lei impulsionada por Barack Obama que obrigava as empresas a incluir no seguro médico dos empregados a cobertura por tratamentos anticoncepcionais e abortivos.

terça-feira, 17 de junho de 2014

“Jesus não quer príncipes, mas servidores”, diz Papa Francisco em entrevista

O Papa Francisco não acredita que seja um iluminado, mas cativou o mundo sem deixar ninguém indiferente, quer seja católico ou não. É o que demonstra na entrevista que deu a Henrique Cymerman e que no domingo foi veiculada pela Cuatro, a primeira para uma televisão espanhola. Fonte: http://bit.ly/1kYJMTE
Israel e Palestina, ponto de partida na qual Bergoglio aborda muitos assuntos, alguns fundamentais para a Igreja. Questões como a via soberanista na Catalunha. Além de grandes reflexões, também fala da Copa do Mundo.
A reportagem está publicada no sítio espanhol Religión Digital, 16-06-2014. A tradução é de André Langer.
O Papa, sobre seu encontro com os líderes da Palestina e Israel: “Não era um ato político”
“Não era um ato político, mas religioso. A oração também é um ato político com maiúscula. Alguém dizia que com a oração se faz pouco, mas sem a oração se faz menos. Na reunião presidimos todos, até o homem que tocava o violino”.
O Papa Francisco: “Não sei se sou revolucionário”
“Para mim, a grande revolução é ir às raízes, reconhecê-las e ver o que essas raízes querem dizer nos dias de hoje. Não sei se sou revolucionário, mas gosto de ir às nossas raízes da identidade cristã, judaica... e a partir daí dialogar com os desafios que vão se apresentando. Não há contradição entre ser revolucionário e ir às raízes. A maneira de fazer verdadeiras mudanças é a partir da própria identidade.”

Sobre a perseguição católica atual: “Há mais cristãos mártires do que naquela época”
“Estou convencido de que a perseguição contra os cristãos, hoje, é mais forte que nos primeiros séculos da Igreja. Hoje, há mais cristãos mártires do que naquela época.”
“Não vou saudar um povo e dizer-lhe que o quero bem dentro de uma lata de sardinhas”
“Sei que pode me acontecer alguma coisa, mas isso está nas mãos de Deus. Recordo que no Brasil haviam preparado um papamóvel fechado, com vidros, mas eu não posso saudar um povo e dizer-lhe que gosto muito dele dentro de uma lata de sardinhas, mesmo que seja de vidro. Para mim, isso é um muro. É verdade que algo pode me acontecer, mas sejamos realistas: na minha idade, não tenho muito a perder.”

O pontífice, sobre as riquezas da Igreja: “Não se pode entender o Evangelho sem a pobreza”
“Não se pode entender o Evangelho sem a pobreza. O Povo de Deus perdoa um pastor, um padre, que tenha tido um deslize afetivo. Perdoa-o. Que tenha tomado um pouquinho a mais de vinho. Perdoa-o. Mas nunca vai lhe perdoar que esteja atrás do dinheiro ou que maltrate as pessoas. Curioso como o povo tem o olfato do que Deus pede a um pastor. Jesus não quer que sejamos príncipes, mas servidores.”

Sobre as mudanças: “Estou apenas cumprindo o que os cardeais refletiram”
“Quero deixar claro que não tenho nenhuma iluminação, que não tenho nenhum projeto pessoal, porque nunca pensei que ficaria aqui. O que estou fazendo é cumprir o que os cardeais refletiram nas Congregações Gerais antes do conclave. Ali nos reunimos todos os dias para discutir os problemas da Igreja. Daí sai uma série de reflexões e conselhos para o próximo papa. Eu os estou cumprindo.”

“Às vezes, pela religião chegamos a contradições muito sérias”, declarou Francisco
“É uma contradição. É como se me dissessem: ‘Este homem é um bom filho, bate apenas três vezes por dia na mãe’. Em perspectiva histórica, os cristãos, às vezes, praticaram a violência em nome de Deus. Chegamos, às vezes, pela religião, a contradições muito sérias, muito graves.”
Após o abraço em frente ao Muro das Lamentações: “É possível a amizade entre as três religiões”
“Tomei uma decisão e Skorka sabia. Quis ir também com um bom amigo islâmico. Um homem que conhece muito bem o Islã. Como os amigos não se fazem com fotocópias cada um é diferente. Quero-os aos dois um montão e um não têm nada a ver com o outro. Disse: ‘Aqui estamos as três religiões e é possível a amizade para dar testemunho’. Conseguimos. Foi um grito de vitória porque tínhamos a esperança de poder fazer isso”.

“Há pessoas que negam o Holocausto”, disse sobre o antissemitismo
“Não saberia explicar porque existe, mas creio que está muito unido, em geral, à direita. O antissemitismo costuma aninhar-se melhor nas correntes políticas de direita que de esquerda, não? E continua até hoje. Há, inclusive, quem negue o holocausto, uma loucura.”

Assim recorda a Segunda Guerra Mundial
“Dá-me um pouco de urticária existencial quando vejo que todos atacam a Igreja e Pio XII... E as grandes potências? As grandes potências conheciam perfeitamente a rede ferroviária dos nazistas que levavam os judeus aos campos de concentração. Tinham fotos. Mas não bombardearam esses trilhos. Falemos de tudo um pouquinho. Creio que é preciso ser muito justo neste tema.”
             
Dos políticos: “Os políticos jovens falam dos mesmos problemas, mas com uma música diferente”
“Os políticos jovens talvez falem dos mesmos problemas, mas com uma música diferente, e gosto disso. Isso me dá esperança, porque a política é uma das formas mais elevadas do amor, da caridade, porque leva ao bem comum. Uma pessoa que, podendo fazê-lo, não se envolve com o bem comum, é egoísta; ou que usa a política para o bem próprio, é corrupção.”

O que acha do conflito com a Catalunha?
“Qualquer divisão me preocupa. Há independência por emancipação e há independência por secessão. A independência por secessão é um desmembramento e, às vezes, é muito óbvia. Há povos com culturas tão diversas que nem com cola pegam. Eu me pergunto se é tão claro em outros casos, em outros povos que até agora estiveram juntos. É preciso estudar caso a caso. Haverá casos que são justos e casos que não são justos, mas a secessão de um país sem um antecedente de unidade forçada é preciso tomá-lo com muitas pinças e analisá-lo caso a caso.”

Sobre a Copa do Mundo: “Espero poder ver algum jogo”

“Os brasileiros me pediram neutralidade e cumpro com minha palavra, porque o Brasil e a Argentina sempre são rivais. Espero poder ver algum jogo. Fiz um vídeo para a abertura porque se deve aproveitar um acontecimento lúdico para criar a cultura do encontro, da fraternidade.”.
O Pontífice gostaria de ser recordado como “um cara bom”
“Não pensei nisso, mas gosto quando alguém, recordando outra pessoa, diz: ‘Era um cara bom, fez o que pôde, não foi tão ruim’. Com isso me conformo.”

sábado, 10 de agosto de 2013

COISAS DE FRANCISCO: O Papa obriga arcebispo de Camarões a renunciar


 
 
“Os homossexuais são um perigo para a unidade da família e

Uma afronta à família; são o inimigo das mulheres e da criação”,

Afirmava.Simón-Victor Tonyé Bakot

Após ter decapitado a Igreja da Eslovênia por razões semelhantes, o Papa também tirou o líder religioso católico de Camarões, o arcebispo da capital, Yaoundé, Simón-Victor Tonyé Bakot (na foto), de 66 anos. A Rádio Vaticano informou, há alguns dias, que, de acordo com a imprensa desse país, o arcebispo estava envolvido em “numerosas operações imobiliárias” que parte do clero e dos fiéis considerava ser em proveito pessoal de Mons. Tonyé. A reportagem está publicada no sítio espanhol Religión Digital, 08-08-2013. A tradução é de André Langer.

A decisão do Papa argentino tem a data de 29 de julho, dia em que Jorge Bergoglio “aceitou a renúncia” que obrigou o chefe da Igreja de Camarões a apresentar, como estabelece o Código de Direito Canônico quando existem “razões graves”. A Santa Sé não explicou oficialmente as razões da renúncia forçada do alto prelado africano.

Na semana passada, Francisco havia feito “renunciar” os principais arcebispos da Eslovênia, de Liubliana e Maribor, após um longo escândalo pelas manobras na diocese de Maribor, que terminou em bancarrota devido a um “crack” financeiro estimado em quase um bilhão de dólares.

No caso camaronês, o importante semanário Jeune Afrique, editado em Paris, assinalou que a arquidiocese da capital, Yaoundé, possui “o maior patrimônio imobiliário do país depois do Estado, mas também tem grandes problemas de endividamento.

A Igreja de Camarões possui também terras e imóveis fora da capital. 53% de seus 20 milhões de habitantes são cristãos e 38% são católicos. No país da África Equatorial, que obteve certo progresso econômico e social, existem mais de 200 etnias. Os conflitos étnicos também colocaram em apuros o arcebispo Tonyé Bakot, que, segundo muitos fiéis e uma parte do clero, havia exasperado os enfrentamentos com suas posições taxativas nas questões étnicas.

Embora as razões da renúncia não se tornassem públicas, o fato certo é que Simon-Victor Tonyé Bakot havia se convertido em um personagem incômodo para a Igreja católica, e não somente por suas agressivas declarações homofóbicas. As dúvidas sobre sua administração econômica, que havia produzido uma gigantesca dívida (a Igreja católica em Camarões é possuidora, segundo o Jeune Afrique, do segundo maior patrimônio imobiliário do país, depois do próprio Estado), parecem ter jogado um papel determinante na renúncia do arcebispo, que conta com apenas 66 anos.

Além de sua obscura administração dos bens econômicos, o arcebispo camaronês era abertamente homofóbico. “O sexo gay é a causa do desemprego dos jovens, já que os jovens que se negam a ter relações homossexuais com funcionários do governo não conseguem trabalho”, assinalava o então arcebispo Victor Bakot.
“Os homossexuais são um perigo para a unidade da família e uma afronta à família; são o inimigo das mulheres e da criação”, afirmava.