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domingo, 20 de julho de 2014

O PROFETA ELIAS: Apontamentos espirituais de Dom Frei Vital Wilderink, Im Memoriam.

Frei Martinho Cortez, O.Carm
 (De uma meditação de Dom Vital Wilderink sobre 1 RS 19, 1-21, em dia de recolhimento, Capítulo Geral de 1995)

"É VIVO O DEUS EM CUJA PRESENÇA EXISTO" (1RS)
"ARDO-ME DE ZELO PELAS COISAS DO DEUS SENHOR DE TUDO" (1RS)

I-Acima, duas frases que descrevem o ser e o fazer do profeta Elias: homem de contemplação e de ação; e de ação porque de contemplação.
Os carmelitas vêem nele seu PAI E FUNDADOR, assegurando-se uma identidade necessária. Não ter pai é problema; reclamavam os samaritanos com Jesus, reclamam os meninos de rua hoje. Quem não tem pai é gente sem origem, sem originalidade, sem garantia, sem alguém que por ele (ela) responda. Razão do nomadismo, da insegurança e mesmo da desesperança! Ter pai é como a uma nau ter a segurança de uma âncora. Pai é sinônimo de vínculo, herança, garantia. Jesus fez o maior bem para o homem, por lhe ter restituído O PAI (cf episódio da samaritana).

II- Elias é um verdadeiro ITINERÁRIO DE VIDA: experiências de deserto, oração, ação/contemplação (teor tensionante), história/escatologia (idem). A palavra a Elias - "RESTA-TE UM LONGO CAMINHO" - é para todo carmelita também. Herdamos a audácia da encarnação e a segurança da memória, para superar as angústias da caminhada.
III- O ponto de partida de 1RS 19, 1-21, é o desânimo, a vontade de fugir, a perda de sentido da vida. De PROFETA o homem passa a simples FRAGILIDADE. Revelam-se para ele suas fraquezas: presunção, medo, ameaças, abandono da fé, censura do poder, perseguição. Nesse momento, sente a necessidade de mudança, de CONVERSÃO. Como carmelitas, somos chamados à IDENTIFICAÇÃO COM O PROFETA ELIAS, para podermos continuar: a VIAGEM é a marca dele e será a nossa. Uma viagem não só geográfica, mas vital, que exige conversão interior provocada pela história (exterior). É aqui que acontece a GRAÇA e Deus se revela em nossa fraqueza.
IV- Intervenção do anjo de Deus, mandando DEIXAR, RENUNCIAR, ESVAZIAR-SE ("vacare Deo"). Fase da purificação, para entender que não é super-homem. Na verdade, a PROFECIA é uma intuição profunda em meio aos defeitos, às limitações. É-se convidado a destruir as aparências de força, as defesas de poder. Como diz Paulo: precisamos carregar em nosso corpo a MORTE DE CRISTO. Inicia-se assim a caminhada para a montanha de Deus: amadurecendo as relações com o próprio Deus. Este será sempre um MISTÉRIO, uma NOVIDADE. Converter-se é também MUDAR DE PSICOLOGIA: o homem se relaciona com Deus, SE entender que isso é Deus relacionando-se com o homem (J.da Cruz). SER HOMEM DE RELACIONAMENTO COM DEUS é a vocação do Carmelo, para EM SI MESMO mostrar ao homem o rosto de Deus, na maturidade de relacionamento com Deus. O Deus revelado no Carmelo vem de um voltar-se PARA DENTRO (interioridade) e de um voltar-se PARA FORA (fraternidade).
V- Longo caminho NO DESERTO. Noite escura. Luz no final do túnel (escatologia). Tensão "Mundo Presente><Mundo Futuro", para a qual é preciso SENSIBILIDADE. Reconstruir sempre a História, a Si Mesmo e ao Povo. Caminho de ESCONDIMENTO de Deus, obscuridade, presença certa do AMOR ETERNO. Descoberta do NOVO (brisa mansa). Volta ao entusiasmo e ao trabalho (ação profética).

VI- O passo final é VER A VERDADE. Que não se é o único. Que existe muita gente fiel. Que Deus sempre é defensor e PRESENÇA. Que se é simples SEMENTE. É o ponto de chegada: Deus sempre presente faz ver que há fiéis entre cristãos, não-cristãos, homens de boa vontade. No retorno para a ação profética, Elias de ontem e de hoje, ao enxergar-se mais verdadeiro, redescobre a missão, adquire maturidade, gera filhos. Como, no Evangelho, Jesus leva o homem a descobrir-se NA SITUAÇÃO EM QUE VIVE (ambiente real), superando o orgulho, a auto-suficiência, a idéia de poder. Talvez, por isso, a nossa tarefa carmelitana seja a de ILUMINAR O CAMINHO QUE O PRÓPRIO HOMEM LIVREMENTE DEVE ESCOLHER.