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sábado, 20 de junho de 2015

Parábola da tempestade (12º Domingo do Tempo Comum).

Marcos, ao descrever em seu evangelho o pavor dos discípulos diante da tempestade, estaria com os olhos voltados para o medo dos primeiros cristãos. Conclamava, assim, os destinatários do seu evangelho à confiança.
A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 12º Domingo do Tempo Comum B (21 de junho de 2015). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara, e José J. Lara.

Eis o texto.
Referências bíblicas:
1ª leitura: «Cessa aqui a arrogância de tuas ondas!» (Jó 38,1.8-11)
Salmo: 106 (107) - R/ Dai graças ao Senhor porque ele é bom, porque eterna é a sua misericórdia!
2ª leitura: «O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo.» (2 Coríntios 5,14-17)
Evangelho: «Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?» (Marcos 4,35-41)

Em confronto com as águas da morte
A 1ª leitura, o Salmo e o Evangelho relatam o conflito imemorial entre o homem e as águas profundas, o mar. Nas primeiras linhas da Bíblia, o abismo é a imagem do nada. Em seguida, temos as águas do dilúvio, imagem da morte. Daí em diante não haverá mais dilúvio: como diz a primeira leitura, Deus impõe um limite às águas mortais. No decurso do Êxodo, a travessia do Mar Vermelho será a travessia da morte. Já o Salmo de hoje está construído no mesmo esquema do evangelho, mesmo havendo somente o elemento líquido. Em Gênesis 1, o sopro de Deus sobrevoa por cima do abismo: é o vento que encontramos em todos os relatos que acabamos de evocar. Há um vento que é bom, que domina o mar, e um vento que é mau, que o agita. Este vento, do mau espírito, parece escapar ao domínio de Deus. Saibamos ler estes símbolos: trata-se de todas as tempestades que vêm sacudir as nossas existências. Os lutos, as doenças, as separações, as traições… Morremos um pouco, a cada vez, porque tudo isso se encaminha no sentido da morte. O evangelho é, pois, uma espécie de parábola sobre a nossa vida. Nós também estamos prestes a atravessar para «a outra margem», para uma terra nova, livre de todas as tempestades. Jesus entra na barca assim como está, sem roupa adequada para o mar e sem provisões. Desprovido de tudo, está reduzido à sua simples humanidade. Não é necessário dizer que temos aqui uma imagem da Páscoa.

O sono de Deus
Deus fixou, portanto, um limite às inundações (1ª leitura), ou seja, a tudo o que temos de sofrer. O difícil é manter a fé enquanto estamos sendo sacudidos pelas tempestades. Nestas ocasiões, Deus parece estar ausente. «Onde está o teu Deus?» é a pergunta que se põe ao crente (Salmo 42, 4 e 11). Nas parábolas evangélicas vemos muitas vezes o dono se ausentar, confiando a seus empregados a gestão dos seus bens. O capítulo 25 de Mateus nos fala da ausência de Deus e da espera. Ora, a espera é justamente o que é difícil: funda-se integralmente na fé, que não se vê, enquanto que a ausência é constatável imediatamente. Em Mateus 28,20, no entanto, Jesus diz que está conosco “até a consumação dos séculos”. São as últimas palavras deste evangelho. No relato da tempestade acalmada, Jesus não está ausente: ele dorme. Dorme, enquanto os discípulos são sacudidos violentamente no pequeno barco. Quantas vezes os Salmos pedem a Deus para acordar! Esta é a nossa condição. Exige uma fé total na presença de Deus, na provação que atravessamos. Deus a compartilha conosco, de qualquer forma; Ele mesmo a vive através de nós. Nada afeta ao homem, nem de bem e nem de mal, que não afete ao mesmo tempo a Deus, a fonte de que brotamos. Nisto se crê, mas não se vê, sobretudo quando a tempestade parece ir até ao naufrágio. Por isso Jesus diz aos discípulos: «Por que tendes medo? Ainda não tendes fé?»

Uma parábola pascal
No evangelho, a tempestade se acalma e a fé renasce. Olhando de perto, é exatamente o que vai acontecer na Páscoa. Os discípulos estão abalados e perturbados; Jesus, desprovido de qualquer poder, é um joguete nas mãos dos poderosos, entregue de um tribunal para o outro. Não tem reação, na maior parte do tempo, nem tem palavras: está «mudo como um cordeiro conduzido ao matadouro.» E Deus, enquanto isso: dorme? É o que parece, pois Jesus, citando o Salmo 22, diz: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» E, no entanto, «entregou a própria vida em suas mãos». A tempestade irá se acalmar. Deus e Jesus irão acordar juntos na hora da ressurreição. Em Cristo e por Cristo, o próprio Deus, de fato, é que foi rejeitado, ridicularizado, reduzido ao silêncio e eliminado da cidade dos homens. Só que, assim como um riacho não pode eliminar a sua fonte, Deus também não pode morrer. Apesar de tudo o que havia deixado acontecer e da aparência de ter estado dormindo durante a tempestade pascal. Ele nos mostrou por meio disso que «o inimigo último», a morte, não tem o poder de reduzir a nada nem a Deus e nem ao homem. Em Jesus, um homem, precisamente, entra na vida de Deus: a promessa do nosso próprio futuro. Ouçamos então Jesus nos dizer: «Por que tendes medo?» Havia dito acima que, assim como na Ressurreição, com o fim da tempestade renasceu a fé. Isto é verdade para a Ressurreição. Mas há uma particularidade para o caso do relato da tempestade acalmada: é apenas uma figura inacabada do gesto pascal. Os discípulos não dizem «Tu és o Filho de Deus», mas «Quem é este…?» Esta pergunta sobre a identidade de Jesus, o primeiro passo na fé, vai estar sempre presente nos evangelhos. A Ressurreição é que irá permitir uma resposta definitiva.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

ORDEM DO CARMO: Um olhar sobre os Carmelitas.

ORDEM DOS CARMELITAS (sigla: O.Carm.)
Única nascida na Terra Santa, tem o nome oficial de ORDEM DOS IRMÃOS DA SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA DO MONTE CARMELO

Frei Pedro Caxito O. Carm. In Memoriam. (São Romão-MG. *31/12/1926. São Paulo. + 02 / 09/ 2009).

CARISMA - "Viver no seguimento e serviço de Jesus, empenhando-se na busca do rosto do Deus Vivo (dimensão contemplativa), na fraternidade e no serviço em favor dos irmãos (diaconia) no meio do povo", a exemplo de Maria, Mãe de Jesus, e do Profeta Elias.

ORIGEM - Era tempo de heroísmos e luta pela reconquista da Terra Santa, a serviço do Senhor e da Senhora do lugar, Jesus e Maria. Era o tempo da 1ª Cruzada e do Reino Cristão de Jerusalém (1096-1187): para lá sentiram-se atraídos "eremitas, penitentes, peregrinos, pessoas a Deus consagradas e, naturalmente... soldados"; também bispos, abades, cônegos, clérigos, monges, comerciantes, pobres e ricos, nobres e mendigos, e até mesmo adolescentes e crianças. E então muitos foram viver como eremitas no desprendimento, junto aos lugares mais santos: ansiavam por um deserto cheio de Deus.
            Infelizmente, veio a Batalha de Hattin (em 1187) e perdeu-se o Reino de Jerusalém. Em 1191, porém, Ricardo, Coração de Leão, firmou um armistício com Saladino, o vencedor de Hattin, e a região do Carmelo ficou liberada para os Cristãos: por aqui e por ali estabeleceram-se os eremitas. Não já da violência esperavam a vitória, mas da oração no silêncio, na serenidade, e - à imitação de Paulo - no trabalho, revestidos com a "armadura de Deus" e, de pé, na luta contra os espíritos do mal.
            De onde vieram? Quantos eram? Quem eram? Bertoldo? Bernardo? Boemundo? Balduíno? Brocardo? O que é certo é que o Carmelo foi bom demais para eles com tantas grutas naturais e a possibilidade de cavar outras no calcário como favos de alguma colmeia. Ali, junto à fonte de Elias, gozavam das proximidades de Nazaré, onde Jesus cresceu, e de Séforis, onde moravam Ana e Joaquim e nasceu Maria: viviam na lembrança e no espírito de Elias, profeta de Deus, felizes por acolher a Mãe de Jesus e o Profeta como seu modelo e causa exemplar. "Destilavam a doçura do mel da contemplação", "vivendo dia e noite em oração a meditar na Lei do Senhor", buscando "oferecer a Deus um coração santo, purificado com o auxílio da divina graça" e, "sendo Deus servido, não só depois da morte, mas já nesta vida mortal saborear de algum modo no coração e experimentar no espírito os efeitos da presença divina e as doçuras da glória celeste".

QUEM OS REUNIU ? - Alberto, Patriarca de Jerusalém, os reuniu num grupo harmonioso e, entre 1206 e 1214, deu-lhes uma "forma de vida" respigada nas Escrituras. Na palavra clarividente de Santa Teresa: "Desta casta vimos nós, daqueles nossos santos Padres do Monte Carmelo, que em tão grande soledade e com tanto desprezo do mundo buscavam este tesouro, esta pérola preciosa": a contempla-ção. De tronco tão vigoroso brotaram ramos florescentes.
MIGRAÇÃO - Devido às perseguições muçulmanas, buscaram o seu Ocidente, e ali cresceram e se propagaram: então, como Elias, sem deixar o Carmelo interior, decidiram estar no meio do povo e, como mendicantes, "pobres de Javé", imitar Elias e Maria, filha do Povo, a Filha de Sião, que os gerou e protegia com muito amor! Nesta espiritualidade tão robusta beberam Simão Stock, Alberto da Sicília, Pedro Tomás, André Corsini, Joana de Tolosa, Nuno Álva-res, Batista Mantuano, João Soreth, Teresa de Ávila, João da Cruz, Maria Madalena de Pazzi e muitíssimos outros. Por isso nós, ramos do Carmelo Primitivo, estamos, desde o 4º centenário da santa morte de João da Cruz (1591-1991), vivendo e convivendo mais o que nos une do que tudo o que nos separou. Segundo Tito Brandsma, somos para Maria outros Jesus, e por Maria geramos Cristo na História do mundo: somos Jesus para os outros. O nosso Geral, José Chalmers, aconselha-nos: "Não só trabalhar para Deus, mas fazer também os trabalhos de Deus, aqueles que Deus espera!".

NO BRASIL - Em 1250, os Cavaleiros da Ordem do Santo Sepulcro trouxeram-nos do Carmelo para Moura, em Portugal, e de Moura o Santo Condestável Nuno Álvares Pereira levou-nos para Lisboa. Portugal tornou-se uma Província fervorosa, elogiada pelos Padres Gerais Reformadores, Audet (1531) e Rossi (1566), aquele que dizia a Teresa fundasse tantos Carmelos Reformados quantos fossem os cabelos da sua cabeça. Desta Província, "no ano de 1581, vieram em companhia de Frutuoso Barbosa, que vinha povoar o Rio da Paraíba, três Frades do Carmo", conta-nos o Bem-Aventurado José de Anchieta. E até o final deste século da Descoberta do Brasil, estávamos estabelecidos em Olinda, Bahia, Rio de Janeiro, Santos e São Paulo, e depois continuamos pelo Brasil, em cidades, vilas e missões, no sul, norte e nordeste, onde propagamos a fé e evangelizamos os povos, alargando mesmo as fronteiras nas regiões setentrional e ocidental dos rios Amazonas, Negro e Branco, onde lançamos os fundamentos de muitas futuras cidades.

HOJE - Hoje, no Brasil, somos 2 Províncias e 1 Comissariado (província em preparação) com 31 conventos ou casas em Brasília (DF) e nos Estados da Bahia, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rondônia e São Paulo, 3 Mosteiros de Monjas de vida contemplativa, quatro Congregações de Irmãs de vida ativa: Irmãs do Instituto de Nossa Senhora do Carmo (1854), Irmãs Carmelitas da Divina Providência (1899 - fundação brasileira), Irmãs Carmelitas Missionárias de Santa Teresinha do Menino Jesus (1925), Irmãs Missionárias Carmelitas de Jesus (1938 - fundação brasileira) e ainda as Trabalhadoras Missionárias "Donum Dei", da Ordem Terceira do Carmo, fundadas pelo santo e piedoso Pe. Marcelo Roussel em 1950.

NO MUNDO - No final do século XIII, no ano de 1300, eram uns 180 os conventos, onde vivíamos: na Alemanha, Bélgica, Chipre, Escócia, Espanha, França, Holanda, Inglaterra, Irlanda, Itália, País de Gales e Portugal.  Hoje estamos nos cinco continentes: na Alemanha, Argentina, Austrália, Bolívia, Brasil, Burquina Fasso, Colômbia, Escócia, Espanha, Estados Unidos, Filipinas, França, Holanda, Índia, Indonésia, Inglaterra, Irlanda, Itália, Malta, México, Moçambique, Peru, Polônia, Porto Rico, Portugal, Quênia, Repúblicas Checa, do Congo, de São Domingos, Romênia, Trindade e Tobago, Ucrânia, Venezuela, Vietnã e Zimbábue. Em 31 de dezembro de 1998 éramos 2.059 frades.
            Somos a Família Carmelitana: Ordem 1ª (frades), Ordem 2ª (monjas), Ordem 3ª regular (freiras) ou secular (solteiros e casados, jovens e adultos), Devotos do Escapulário e Amigos do Carmo e seu carisma. Diz nosso Geral: "Estamos com 72 mosteiros de Monjas Carmelitas, ao redor do mundo, e 15 Congregações afi-liadas, e também, mais ou menos, 30.000 irmãos e irmãs do laica-to, que assumiram algum tipo de compromisso público de viver os valores da nossa espiritualidade. Há vários grupos que, no momen-to, estão pedindo sua afiliação à Ordem".


QUE FAZEMOS ? - Fiéis ao espírito da Ordem e ao carisma pessoal, humildemente, como lhes inspira o Espírito do Senhor, alguns, por meio de retiros, encontros espirituais e missões... e o exemplo, transmitem a alegria de procurar o Deus Vivo até encontrá-lo e deixá-lo ser Deus em nós, para viver com Ele uma união cada vez mais íntima e frutuosa, orando pelo bem do Povo; todos anunciam Maria, que pelo seu escapulário se consagra a todos com amor de Mãe e, feliz, recebe de todos a consagração de filhos; outros vivem a vida paroquial com as suas pastorais; outros dedicam-se ao ensino, principalmente da Bíblia; outros, à opção preferencial pelos pobres, inserindo-se entre os moradores de favelas ou de cortiços, ou zelando pelos meninos de rua, mas também levando a Palavra de Deus, o sentido da vida, a fortaleza na luta e a confiança no Senhor; outros, ainda, vão para outros continentes ou regiões mais necessitadas de fé ou, talvez, de esperança e amor, para levar-lhes o Evangelho da alegria e do amor de Deus e do irmão, "com Justiça e Paz". Somos assim! Gostou?! Venha!

terça-feira, 16 de junho de 2015

Laudato Sí em América Latina. (Seja louvado), Sobre os Cuidados da Casa Comum".

"O espírito consumista e o sistema capitalista crescem a uma velocidade exponencial; outros modelos de vida que com dificuldade resistem à agressão deles observam-nos com angústia e incompreensão, definindo-os, lucidamente, 'sistemas suicidas'. Desse ponto de vista, a leitura de Laudato Sí poderia ter profundas implicações político-econômicas", afirma Dário Bossi, padre comboniano, membro da rede Justiça nos Trilhos e da Rede Brasileira de Justiça Ambiental.

Eis o artigo.
Os Ka’apor do Maranhão levantaram a voz. Por isso querem amordaçá-los.
Cansados de esperar que o Estado os defenda e garanta proteção para eles e a floresta, organizaram por sua conta “missões” de controle da reserva em que vivem.
Vigiam sobre os acessos à sua terra e surpreendem os madeireiros que a invadem e saqueiam, protegidos e aliados a políticos e empresários locais. Quando os índios os descobrem, apoderam-se de suas motosserras, incendeiam seus caminhões e os expulsam de suas terras, declaradas Kaar Husak Há, isto é Áreas Protegidas.
Eusébio Ka’apor era um dos defensores da terra indígena. Mataram-no com dois tiros nas costas, no final de abril, pouco distante de sua aldeia. No Brasil as vítimas da violência em terra indígena nesses últimos anos aumentaram com a mesma proporção da arrogante bancada ruralista.
O que esperariam os Ka’apor da encíclica Laudato Sí de Papa Francisco? Será preciso lê-la do ponto de vista deles e de muitas outras vítimas da violência ambiental.
Nós missionários combonianos faremos dela instrumento de estudo popular da realidade, com as comunidades cristãs junto às quais vivemos.
Muitos estão esperando por essa encíclica. Sobretudo as comunidades e igrejas perseguidas por seu empenho em defesa da Criação e em conflito com os grandes projetos nas regiões amazônicas: mineração, monoculturas, hidrelétricas e barragens, infraestruturas para a exportação de commodities... Chamados “projetos de desenvolvimento”, revelam rapidamente o interesse quase exclusivo de desenvolver os capitais de quem investe nisso, provocando graves violações dos direitos socioambientais às populações locais e criminalização dos líderes populares que a eles se opõem.
Um dos motivos da criação da rede latinoamericana Iglesias y Minería, por exemplo, foi exatamente evitar o isolamento das comunidades mais empenhadas nessas frentes e demonstrar apoio moral, político e institucional da Igreja a seu lado. Esse talvez será o efeito prático mais imediato e importante de Laudato Sí.
Esperamos que essa encíclica confirme uma posição clara da Igreja ao lado das vítimas do assim chamado “racismo ambiental”. Desejamos que, ao denunciar os riscos da sobrevivência do Planeta, o documento seja solidário às comunidades mais pobres. Essas são de um lado as vítimas maiormente atingidas por essa violência e, do outro, em muitos casos, indicam-nos caminhos de preservação da vida e de organização de economias a baixo impacto ambiental nos territórios.
Em muitos países está sendo implicitamente declarada uma guerra de baixa intensidade, disputando territórios e bens naturais. A história se repete no estilo das antigas colônias, como bem demonstra o saudoso Eduardo Galeano em “As veias abertas da América Latina”, mas com ritmos e tecnologias bem mais impactantes, chegando assim a violar também os direitos das futuras gerações.

O espírito consumista e o sistema capitalista crescem a uma velocidade exponencial; outros modelos de vida que com dificuldade resistem à agressão deles observam-nos com angústia e incompreensão, definindo-os, lucidamente, “sistemas suicidas”. Desse ponto de vista, a leitura de Laudato Sí poderia ter profundas implicações político-econômicas.
As comunidades que a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho define “indígenas e tribais” representam ao nosso ver um “baluarte” (Kaar Husak Há). Assim como ao longo da história as fortalezas protegeram inteiros territórios das invasões e frearam o controle inimigo dos territórios, da mesma forma o direito à autodeterminação das populações locais pode ser uma estratégia, hoje, para evitar a entrega indiscriminada dos bens comuns às corporações mineiras ou às multinacionais da comunicação, da água ou das grandes cadeias de produtos alimentares.
A Igreja deveria apoiar com força o direito à “consulta prévia, livre e informada” das comunidades locais, assim que seja garantido o autocontrole de seus territórios.
A Red Eclesial Panamazónica comprometeu-se nesse sentido em diversos Países da América Latina. Articula comunidades cristãs de base, grupos e instituições religiosas e as conferências episcopais da grande Amazônia, com especial atenção aos direitos dos povos indígenas e com uma interessante proposta de colaboração permanente com a Comissão Interamericana dos Direitos Humanos.
A visita de Papa Francisco a Washington em setembro, poucos meses depois da publicação da Encíclica, poderá tocar também esses temas delicados e urgentes.
Em chave de política internacional, a encíclica poderia ser oportunidade para relançar a proposta de criação de uma Corte Penal de Justiça Ambiental. Hoje, de fato, não existem adequados mecanismos de responsabilização em nível internacional por crimes ambientais. Assim, mesmo em caso de graves violações desses direitos, as multinacionais e os governos locais, vinculados entre si por acordos e interesses econômicos, acabam praticamente impunes.
Sobretudo, esperamos que o documento vaticano sobre ecologia ofereça uma releitura teológica das referências bíblicas que ao longo da história, por interpretações patriarcais e colonizadoras, separaram a Criação do homem, considerando esse último o dominador e controlador da vida.
Sabemos quanto o sistema capitalista, ecocida e suicida, herdou da cultura religiosa cristã. Por outro lado, temos a inspiração radicalmente evangélica de São Francisco e o testemunho vivo de muitos e muitas mártires que nos relançam em defesa da vida.
Precisamos igualmente de um profundo e humilde processo de conversão e purificação. Uma nova escuta da Revelação, a partir do encontro fecundo entre a Palavra bíblica, o livro da criação e a sabedoria dos povos e das religiões.

A PALAVRA... Nº 907. Um olhar sobre João Batista-01.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 906. Andar devagar...

24 DE JUNHO - Nascimento de João Batista - Lucas 1, 57-66.80

Por Tintoretto, atualmente no Museu Hermitage, em São Petersburgo.

Terminou para Isabel o tempo de gravidez, e ela deu à luz um filho. Os vizinhos e parentes ouviram dizer como o Senhor tinha sido bom para Isabel, e se alegraram com ela. No oitavo dia, foram circuncidar o menino, e queriam dar-lhe o nome de seu pai, Zacarias. A mãe, porém, disse: “Não! Ele vai se chamar João.” Os outros disseram: “Você não tem nenhum parente com esse nome!”
Então fizeram sinais ao pai, perguntando como ele queria que o menino se chamasse. Zacarias pediu uma tabuinha, e escreveu: “O nome dele é João.”
E todos ficaram admirados. No mesmo instante, a boca de Zacarias se abriu, sua língua se soltou, e ele começou a louvar a Deus. Todos os vizinhos ficaram com medo, e a notícia se espalhou por toda a região montanhosa da Judéia. E todos os que ouviam a notícia, ficavam pensando: “O que será que esse menino vai ser?” De fato, a mão do Senhor estava com ele.
O menino ia crescendo, e ficando forte de espírito. João viveu no deserto, até o dia em que se manifestou a Israel.

(Correspondente a Segunda 24 de Junho  - Festa do Nascimento de São João Batista do Ano Litúrgico).

O nome dele é João
Neste domingo celebramos uma festa muito conhecida: o Nascimento de São João Batista. Se procurarmos nos evangelhos dados sobre João Batista, encontraremos alguns poucos. A Igreja nos oferece hoje um trecho do Evangelho de Lucas para meditar.
Façamos um breve percurso pelos primeiros capítulos deste evangelho. Nos primeiros versículos do capítulo primeiro, o evangelista apresenta seu texto dirigido a seu amigo Teófilo “a fim de que possas verificar a solidez dos ensinamentos que recebeste” (Lc 1,4). Dois anúncios, a Zacarias e a Maria, dois nascimentos, duas circuncisões e as primeiras palavras de Jesus no templo constituem a grandes pincelas o conteúdo geral dos dois primeiros capítulos. Eles manifestam um espírito lucano no sentido da alegria e da festa.
O texto que a liturgia nos oferece hoje é o fim da época da gravidez para Isabel e o momento de dar a luz. Os vizinhos ficam alegres porque o Senhor foi bom com ela. Lembremos que ela era estéril e que Zacarias tinha idade avançada. Por isso não podiam ter filhos. Mas o Senhor falou para Zacarias no templo e anunciou-lhe o nascimento de seu filho.
A partir desse momento ele permaneceu mudo por não ter acreditado nas palavras do anjo do Senhor. No texto que a liturgia nos apresenta hoje ele recupera sua capacidade de fala na hora da circuncisão do menino. O nome que a mãe e o pai colocam para ele é João. Os que estão ao lado deles não podem entender por que esse nome, visto que em sua família não há ninguém que o tenha.
Escutemos brevemente este trecho: A mãe, porém, disse: “Não! Ele vai se chamar João”. Os outros disseram: “Você não tem nenhum parente com esse nome!” Então fizeram sinais ao pai, perguntando como ele queria que o menino se chamasse. Zacarias pediu uma tabuinha, e escreveu: “O nome dele é João”. E todos ficaram admirados.
Zacarias consegue soltar sua língua com essa primeira frase ao momento de circuncidar o menino. João significa: “Deus se mostrou misericordioso”. O menino é um dom gratuito de Deus que não está condicionado por parâmetros humanos. João pertence desde o início a Deus, e anunciara sua vinda como caminho a seguir, como convite para todos e todas para acolher o Messias.
Hoje ao nosso redor há pessoas silenciadas que ficam mudas porque ninguém tem interesse em escutar suas palavras, os/as outros/as não querem saber que Deus é misericordioso, que preferem acreditar em milagres passageiros, mas não num Deus que compromete sua vida toda como aconteceu com Zacarias.
João é o último dos profetas e quem prepara o caminho para Jesus. Suas palavras fazem tremer as seguranças de uma religião que fazia dormir o povo. Ele é o resumo do Antigo Testamento, ele fez que o povo expressasse seus desejos de salvação. Aquilo que estava no coração de sua história se abra para o futuro e a religião não fique adormecida por trás de uma fé falsa. Sua palavra é cortante, “afilada com espada” e incômoda para quem não quer saber de Deus na sua vida.
Assim acontece hoje com tantos profetas que são silenciados ao nosso redor porque eles falam com verdade, porque eles denunciam aquilo que está oprimindo as pessoas. Conhecemos a história da Irmã Dorothy Mae Stang assassinada sete anos atrás e as pessoas que hoje sofrem de persecução porque denunciam os que tentam roubar a vida dos pobres e aflitos.
Dom Erwin Kräutler é uma dessas pessoas que são perseguidas. Na homilia da Irmã Dorothy o ano passado, falava sobre a necessidade de “ser uma Igreja engajada na construção do Reino de Deus, uma Igreja samaritana que abre seu coração aos que sofrem, mas também uma Igreja profética que denuncia com vigor as agressões e o desrespeito à dignidade e aos direitos humanos e se opõe a projetos e programas que destroem o lar que Deus criou para todos os povos” [1].
Cada um/a de nós pode se perguntar de que forma pode ser profeta no lugar onde mora, na sua cidade, no seu pequeno lar. O amor gratuito de Deus nos da a força necessária em qualquer momento e circunstância para que isso seja levado adiante.

As sem-razões do amor
Carlos Drumond de Andrade

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
E nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
E com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
É semeado no vento,
Na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
E a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
Bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
Não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
Feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
E da morte vencedor,
Por mais que o matem (e matam)
A cada instante de amor.

terça-feira, 9 de junho de 2015

“Algumas freiras vendem o que entregaram ao Senhor para poder viver”, destaca religiosa africana.

Na missa celebrada ao meio-dia, do domingo de 31 de maio, na basílica romana de ‘Santa Maria sopra Minerva’, as leituras e os pedidos ficaram a cargo de irmã Rita Mboshu Kongo (foto), religiosa congolesa que leciona na Pontifícia Universidade Urbaniana. Foi quem presidiu a missa, o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado, que pediu que ela fosse ao púlpito. Dessa forma, reconhecia a intervenção de Mboshu Kongo durante o recente seminário sobre a condição da mulher na Igreja, realizado no Vaticano, e que era encerrado com aquela eucaristia. A reportagem é de Darío Menor, publicado por Vida Nueva, 05-06-2015. A tradução é do Cepat.
A fala de irmã Rita no encontro, organizado por Donne Chiesa Mondo – o suplemento feminino de L’Osservatore Romano e que é publicado por Vida Nueva em espanhol –, impressionou o auditório por descortinar uma realidade muitas vezes escondida: os abusos que algumas freiras africanas sofrem por parte de eclesiásticos e o maltrato que recebem de suas próprias superioras.
Vida Nueva teve a oportunidade de conversar com esta religiosa das Filhas de Maria Santíssima Corredentora, antes de iniciar uma das sessões do seminário.
“Ficou sabendo do recente suicídio de uma freira congolesa perto de Florença?” “Possuía um grande um amor pela vida. Não deve se assumir com banalidade sua morte, dizendo que retirou a vida porque estava deprimida. É necessário procurar as causas profundas que a empurraram a cometer este ato feio para a Igreja e para a mulher”, conta a este semanário. As chaves, para irmã Rita, estão não “falta de formação e de acompanhamento”. “Vivia em um túnel de total obscuridade, sofreu sozinha, sem assistência espiritual e psicológica”, queixa-se, comparando este caso com o de uma religiosa latino-americana que deu à luz um bebê, no mês de janeiro, em Macerata. “De quem é a culpa? Desta jovem que, por fim, precisou deixar o convento?”.

Falta de recursos
A falta de recursos é uma das causas subjacentes deste problema que acaba explodindo em casos como o dessas duas freiras. “Há muitas congregações africanas pobres que enviam religiosas para estudar sem proporcionar os meios para o seu sustento”. Para ir adiante, as consagradas se veem, em determinadas ocasiões, obrigadas a pedir esmola. Nessa situação, “quem oferece a mão é o que manda”.
“Seus benfeitores as submetem e exploram seu corpo. Se não possuem nada para dar em troca, vendem o que têm: precisam comercializar a parte que entregaram ao Senhor para poder viver”, denuncia irmã Rita, afirmando que são muitas as religiosas que conhecem esta realidade. O medo faz com que não falem sobre isso. “Só se trata desse assunto quando surge um problema como o da religiosa grávida. Nesses casos, muitas vezes, a freira é condenada com a sua expulsão do convento. É o habitual na África. A congregação e a Igreja não sabem onde vão parar estas pobrezinhas. São consideradas uma vergonha. São como os leprosos do Antigo Testamento. Nenhuma irmã quer lhes dirigir a palavra”.
Em parte, as religiosas perseguidas não são capazes de enfrentar os eclesiásticos que lhes exigem serviços sexuais porque cresceram em uma cultura onde a mulher é inferior ao homem. “Pensa-se que é preciso obedecê-los. Inclusive, alguns padres chegam a utilizar falsos argumentos teológicos para justificar seu comportamento”, denuncia a docente congolesa. Nos países onde a Aids abunda, os sacerdotes e bispos estupradores consideram as freiras “mais seguras” para evitar o contágio desta enfermidade quando mantêm relações íntimas com mulheres.


A professora da Pontifícia Universidade Urbaniana disse que é quase impossível quantificar o número de freiras que sofrem abusos de seus benfeitores ou que foram abandonadas por suas congregações, demonstrando o seu desejo de que a Igreja intervenha para ajudá-las. “Estão espalhadas pelo mundo. Quem alguma vez se interessou por estas religiosas? Onde estão? O que fazem? Não nos interessa. As freiras são as que deveriam buscar as ovelhas desgarradas, mas são estas freiras as que estão perdidas”. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Boicote ao Boticário na Marcha para Jesus? Não, prefiro meu perfume.

Religiosos criticam a propaganda, mas consideram pedido de boicote "exagerado demais". Comercial do Boticário testa o risco de tomar posição no Brasil

Amanda Ornelas e o namorado, Luis Henrique, decidiram aproveitar o feriado de sol em São Paulo para acompanhar milhares —340.000, de acordo com a Polícia Militar—,  na Marcha para Jesus 2015, uma tradicional passeata anual convocada por denominações evangélicas, o grupo religioso que mais cresce no Brasil. Na zona norte da cidade, Amanda, 18, e Luis Henrique, 21, vestidos com a camisa do evento em azul forte, comentaram o tema que deflagrou disputa nas redes sociais nesta semana: a propaganda do Boticário com casais gays. “Acho que é errado passar em um horário que crianças possam ver”, lançou Luis Henrique, que não gostou do comercial. “Mas a verdade é que tem coisa bem pior na TV.” “Mesmo se o meu pastor pedisse, eu não faria, não penso em deixar de usar os produtos deles”, disse ela, sobre a decisão do pastor Silas Malafaia, presidente da Assembleia de Deus, uma das mais fortes e influentes denominações evangélicas do Brasil, de gravar um vídeo conclamando os fiéis a boicotar a marca de cosméticos. “Se alguém quiser me dar um desodorante deles eu aceito, porque estou precisando”, brincou o pai de Amanda, Orlando.
O tom mais ameno da família, em comparação à agressiva disputa virtual em torno do tema, foi o que prevaleceu. A pedagoga Renata Ferreira Dauta, 43, que frequenta a igreja Renascer em Cristo, disse apoiar a presença de gays em comerciais. “Achei [a propaganda de O Boticário] atual. Hoje em dia tem que abordar de tudo, não dá para deixar a questão do homossexualismo de fora”. Quanto ao boicote, Renata diz que “por mais que o Malafaia peça, os fiéis não vão deixar de comprar. Até porque, se for para boicotar empresas que apoiam gays, teria que deixar de lado muitas marcas”.
“O pastor Silas é muito rígido. É óbvio que não gostei da propaganda, mas deixar de comprar uma marca por isso também não é o caso”, concordou Ideli Maria de Souza, 50, também na marcha. Ela conta que uma sobrinha de seis anos viu a propaganda e lhe perguntou o porque de dois homens trocando presentes: “Eu não soube responder. Pedi para que ela fosse perguntar para os pais dela”.
A rejeição ao boicote, apesar do incômodo provocado pelo reclame, pode ser lido como um sinal de alento para o Boticário, que resolveu testar, em propagandas na TV aberta, o risco de tomar posição num tema que desagrada as lideranças dos evangélicos. Segundo o levantamento do Censo 2010, os dados mais recentes disponíveis, a população evangélica no Brasil passou de 15,4% em para 22,2% em dez anos. São 42,3 milhões de pessoas, um eleitorado considerável, menor apenas que os católicos, que movimentam um mercado que se segmenta para agradá-los, de roupa à música e até experimentos em redes sociais.
Na loja de O Boticário da rodoviária do Tietê, não muito longe da Marcha de Jesus, os funcionários não estavam interessados —ou autorizados— a comentar a polêmica. Durante a visita do EL PAÍS, o casal Steffani Ortiz e Jessica Thawani, as duas de 17 anos, mostraram a outra ponta da história. “Comprei um presentinho de Dia dos Namorados para ela”, afirma Jessica, que é evangélica. Ela e Steffani gostaram da propaganda, mas com ressalvas. “Eu por exemplo, que tenho uma identidade de gênero e um jeito de me vestir mais masculino, não me sinto muito representada”, seguiu Jéssica.
"Não vou mentir: me desagrada ver gays se beijando, a bíblia fala que é errado. Mas também é errado agredi-los”, diz, distraída com a vitrine, Josida Maria da Silva, 57, frequentadora  da igreja Assembleia de Deus, a de Malafaia. Sobre o pastor, ela diz: "Como eu disse para você, eu gosto da marca".

Luciano Siqueira, gay de 29 anos, deixa a loja, satisfeito, de sacola na mão - um presente para a prima. Para ele, a propaganda com casais gays da marca tem efeito pedagógico na população: “As pessoas precisam ver casais homossexuais na TV e nas ruas até se acostumar. Essa história de boicote é coisa de quem não tem mais o que fazer. Com tanto problema sério por aí as pessoas vão querer se preocupar com a vida dos outros?”. Fonte: http://brasil.elpais.com

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 897. Dom Hélder e o Corpus Christi.

AO VIVO- AGORA (10h). Missa de Corpus Christi direto do Carmo/RJ.

terça-feira, 2 de junho de 2015

A Contemplação na Igreja

RAFAEL CHECA CURI
  
            Este mistério da relação Deus-Homem, que teve suas tipificações no Antigo Testamento, alcança sua plenitude no Novo. No Filho de Deus se consuma a relação inefável entre Deus e o Homem-Jesus Cristo e desde então todos os homens têm oportunidade de uma intimidade com o Senhor, intimidade que só será alcançada, excepcionalmente, pelos homens-tipo do povo de Deus.
            Jesus se converte no modelo deste novo relacionamento entre o Homem e
deus. O mistério pascal da morte e da ressurreição de Jesus Cristo é a realização paradigmática dessa outra morte e ressurreição que se protagoniza em cada homem. O que se liberta, pela redenção de Jesus, da escravidão do pecado e ressuscita para a plenitude da graça, pela ação do Espírito Santo, é o mesmo homem que, a níveis de contemplação, vive na plenitude de vida divina. A este respeito se afirma:
"O fato místico que testemunha a história da espiritualidade cristã, oriental e ocidental, é um fato cristocêntrico, eclesial. Quaisquer que sejam suas formas e conteúdos, a experiência mística se concebe somente como uma participação privilegiada, do mistério morte e ressurreição, presente em uma Igreja sacramental e hierárquica, cuja missão é a de colaborar para a redenção do mundo."(8)
            Efetivamente, é na Igreja comunidade dos fiéis, e pelo sacramento de entrada, como se explica a vitalidade mística e contemplativa de seus membros. Comentando o Cântico B. cap. 23, num. 6, de são João da Cruz, diz-nos certo autor: "O mistério fundamental realiza-se na cruz; sua aplicação concreta a cada alma faz-se no batismo, participação sacramental no mistério da redenção. O esplendor e a perfeição deste desposório batismal realizam-se mediante a experiência do desposório espiritual do qual fala o Santo no Cântico. Existe unidade intrínseca: é a mesma graça; existe diversidade na realização: na passagem da alma por via de perfeição." (9)
            A Igreja se fez cada vez mais consciente desta realidade, e sabe que o mistério de suas relações esponsais com Cristo tem uma ressonância plena em cada um de seus membros que participam de sua vida.
            O Concílio Vaticano II explicita-o em vários de seus documentos. A Igreja sabe que vive na história, entretanto projeta-se para a eternidade; tem um compromisso humano e visível, vive, contudo a tensão do invisível e do contemplativo. (S.C. 2).

            A Igreja nutre-se da Palavra e está mesma ela dá aos fiéis como alimento de sua contemplação e conversação com Deus (D.V.B), "esta tradição com a Escritura de ambos os Testamentos, são o espelho em que a Igreja peregrina contempla a Deus, de quem tudo recebe, até vê-lo face a face como Ele é" (D.V. 7). E assim recomenda igualmente aos que se sentem comprometidos no empenho apostólico a que "alimentem e fomentem sua ação na abundância da contemplação" (L.G. 41).

OS CARMELITAS NO MEIO DO POVO

2Ts 3,7  “Vocês sabem como devem imitar-nos: nós não ficamos sem fazer nada quando estivemos entre vocês,
8  nem pedimos a ninguém o pão que comemos; pelo contrário, trabalhamos com fadiga e esforço, noite e dia, para não sermos um peso para nenhum de vocês.
9  Não porque não tivéssemos direito a isso, mas porque nós quisemos ser um exemplo para vocês imitarem.
10  De fato, quanto estávamos entre vocês, demos esta norma: quem não quer trabalhar, também não coma.
11  Ouvimos dizer que entre vocês existem alguns que vivem à toa, sem fazer nada e em contínua agitação.
12  A essas pessoas mandamos e pedimos, no Senhor Jesus Cristo, que comam o próprio pão, trabalhando em paz.
Quanto a vocês, irmãos, não se cansem de fazer o bem”.  (Ver também o capítulo 20 da Regra onde este texto é citado).

SERVIR E TRABALHAR
Como resultado da aprovação da Regra pelo Papa Inocêncio IV, os carmelitas se colaram à serviço da Igreja (Cons. Art. 10). De acordo com a Regra, somos chamados em primeiro lugar ao serviço. Servimos a Jesus Cristo fielmente, com um coração puro e uma consciência serena (Regra 1). O serviço no meio do povo é um elemento essencial de nosso carisma de acordo com a Ratio: “Somos chamados a dar uma expressão concreta à missão de evangelização e de salvação em união com o Senhor e com sua Igreja, para que todos possam receber a mensagem do evangelho e tornar-se parte da família de Deus” (Ratio, 8).
Como carmelitas não estamos ligados a nenhum trabalho apostólico específico. Isso tem sido uma grande bênção através dos séculos porque fomos capazes de nos adaptar às mudanças do tempo. Devemos revelar o amor de Deus em todos os nossos trabalhos pela humanidade. Podemos fazer isso de diferentes maneiras.
Um elemento de nosso carisma que não foi muito desenvolvido é o papel de São Paulo na Regra. Ele é muito citado na Regra e é apresentado aos carmelitas como um modelo para o trabalho. O capítulo 20 da Regra diz: “Vocês devem fazer algum trabalho, para que o diabo sempre os encontre ocupados e não consiga, através da ociosidade de vocês, encontrar alguma brecha para penetrar nas suas almas. Nisto vocês têm o ensinamento e o exemplo de São Paulo apóstolo, por cuja boca Cristo falava e que por Deus foi constituído e dado como pregador e mestre dos gentios na fé e na verdade. Se seguirem a ele, não poderão desviar-se”. Continua citando o texto da Escritura que mencionamos no começo tirado da segunda carta aos Tessalonicenses.
Em seu livro, “O Espaço Místico do Carmelo”, Kees Waaijman reflete porque o exemplo de São Paulo é tão enfatizado na Regra. Sua resposta é que Paulo dá o exemplo de como os cristãos devem trabalhar neste mundo enquanto se voltam para o Fim dos tempos. No livro do Gênesis, o trabalho é visto como uma punição imposta aos seres humanos por Deus (3,17-19). No Eclesiastes o trabalho é considerado tormento e vaidade (2,18-23). Para o salmista do Salmo 104, o trabalho é um modo de se unir a Deus na criação das coisas baseado na sabedoria de Deus (v. 23-24). O Salmo 8 vê os seres humanos como representantes de Deus. A humanidade governa a criação da parte de Deus e em nome de Deus. O trabalho humano é visto a partir de uma variedade de perspectivas. Em Tessalônica, Paulo deparou-se com um problema. Algumas pessoas estavam tão convencidas que o Fim era iminente que pararam de trabalhar e atrapalhavam as outras pessoas. Ele adverte aos cristãos daquela cidade e a nós que o trabalho é muito importante. Não devemos trabalhar para construir nosso próprio pequeno reino. Em vez disso, nosso trabalho deve ser preparar a vinda do Reino de Deus.
A questão do motivo para nosso trabalho emerge da idéia de trabalho na Regra. O trabalho de Paulo estava voltado para construir o Corpo de Cristo. Para não ser um fardo e não dar oportunidade a seus inimigos de levarem as pessoas para o mau caminho, ele se recusou a receber o que tinha direito como emissário do Evangelho. Então, ele trabalhou noite e dia. A maioria de nós trabalha muito. Aqueles que não trabalham e interferem no trabalho dos outros, podem simplesmente ler novamente a Regra e as passagens de São Paulo lá citadas. Contudo, peço àqueles que trabalham, que voltem sua reflexão para os motivos que os levam a realizar tal trabalho.
O falso eu, que é a parte egoísta de cada um de nós, deve morrer para que tenhamos vida. O falso eu enfoca uma única pessoa e é muito sutil. A jornada espiritual carmelitana trata da transformação em Cristo. Essa transformação não é simplesmente uma mudança do comportamento exterior. Ela atinge as raízes de nossa existência e transforma nossa motivação. Seguimos em frente, vendo como Deus vê e amando como Deus ama. Nosso modo de ser e de amar é distorcido sob a influência do falso eu.

AS TENTAÇÕES DE JESUS
Aparentemente, Jesus passou um longo tempo se preparando para sua missão, cerca de 30 anos. Ele trabalhou como carpinteiro (Mc 6,3). Essa experiência não facilitou a aceitação de sua mensagem por certos setores da sociedade. Antes de anunciar sua missão na sinagoga de Nazaré, Jesus passou algum tempo comungando com seu Pai na solidão do deserto (Lc 4,1-13). Ele foi tentado pelo diabo e as três tentações principais são muito instrutivas para nós porque tocam o âmago de sua identidade e de sua missão. Elas também podem falar muito sobre nós mesmos e irradiar luz sobre nossa missão.
A primeira tentação diz respeito a autocompreensão de Jesus como o Filho de Deus: “Se tu és Filho de Deus, manda que essa pedra se torne pão”. Jesus poderia abusar de seu poder divino em seu próprio benefício e fazer sua própria vontade em vez da vontade do Pai? Todos nós estamos numa jornada de transformação. Essa é normalmente uma longa jornada com muitas curvas e desvios enquanto tudo que é falso dentro de nós gradualmente se transforma em Cristo. A tradição carmelitana fala da noite escura, que é um grande bênção de Deus. É o momento em que Deus está alcançando as partes escondidas de nossos corações para nos transformar completamente. A noite escura não é tão escura. Pelo contrário, ela é brilhante, muito brilhante para nós e por isso nos parece escura. Esta sala pode parecer bem limpa, mas se trouxermos algumas lâmpadas super poderosas, veremos então toda sujeira que não é visível a olho nu.
Não iniciamos a jornada espiritual como se já estivéssemos transformados. Somos marcados por nossa natureza decadente e, por isso, somos fundamentalmente egoístas não importa o quanto nos sentimos ou parecemos santos para os outros. São João da Cruz ressalta as muitas faltas do iniciante em seu livro “A Noite Escura” para que ele ou ela perceba que a perfeição ainda está distante. O falso eu se concentra totalmente na realização de suas necessidades e desejos egoístas. É vital compreender que o falso eu não é destruído simplesmente porque começamos a levar Deus a sério. O falso eu é bem feliz numa situação religiosa desde que possa usar este ambiente para realizar seus próprios desejos.
A primeira tentação de Cristo no deserto também está dirigida a nós. Como usaremos os dons e talentos que nos foram dados, em nosso benefício ou em prol do Reino de Deus?
Lembre-se que o falso eu é muito desonesto. Posso servir as pessoas de forma que não as liberte para serem cidadãos do Reino de Deus, mas para que se tornem cada vez mais dependentes de mim. A jornada espiritual alcança as profundezas escondidas do coração humano e purifica o coração de tudo o que não é Deus. Temos a tendência de pensar que somos generosos e que nos dedicamos no serviço ao próximo, mas isso certamente não é verdade no início de nosso ministério.
É importante lembrar as palavras do sábio:
Meu filho, se você se apresenta para servir ao Senhor, prepare-se para a provação. Tenha coração reto, seja constante e não se desvie no tempo da adversidade. Una-se ao Senhor e não se separe, para que você no último dia seja exaltado. Aceite tudo o que lhe acontecer, e seja paciente nas situações dolorosas, porque o ouro é provado no fogo e as pessoas escolhidas, no forno da humilhação. Confie no Senhor, e ele o ajudará; seja reto o seu caminho, e espere no Senhor” (Eclo 2,1-6).
A razão para esse teste é que precisamos ser purificados para que sejamos capazes de servir aos outros de coração puro. Contudo, não iniciamos a jornada com um coração puro. Trata-se de um processo gradual. Muitas vezes nossa oração será seca, mas isso não significa que Deus não esteja falando conosco. Deus normalmente fala fora do tempo da oração em meio à nossa vida diária. Na medida em que o Reino de Deus já está presente no mundo, podemos estar amorosamente conscientes da presença de Deus. Mas na medida em que ele ainda não está presente, devemos estar amargamente conscientes da ausência de Deus. No entanto, não podemos estar conscientes da ausência de Deus (ou aparente ausência porque Deus não está ausente de lugar algum) a menos que tenhamos experimentado a presença de Deus. Experimentamos a presença de Deus na oração. É na oração que Cristo forma em nós sua própria mente e coração. Essa experiência permite que nos tornemos constantemente conscientes da presença de Deus na realidade que nos cerca, mesmo nas situações menos prováveis.
É durante o tempo da oração que Deus purifica nossos sentidos espirituais para que sejamos capazes de discernir sua voz em meio a tantas outras vozes que ouvimos a cada dia. Às vezes, Deus usa palavras de consolo, mas às vezes também nos aponta algo que necessita ser modificado. É vital que aceitemos isso e que façamos algo sobre isso, do contrário não cresceremos. Sem dúvida, nosso falso eu fará uso de todos os tipos de argumentos para não mudar e isso parecerá razoável. Devo permitir que qualquer emoção forte se acalme e, então, perguntar a mim mesmo o que posso aprender com o que foi dito ou com o que aprendi sobre mim mesmo. Seria proveitoso perguntar por que surgiram essas emoções fortes? Lentamente me desligarei de minhas próprias opiniões, do meu jeito de fazer as coisas e serei capaz de discernir o que Deus está me dizendo.
A segunda tentação de Jesus no deserto dirige-se ao desejo do ser humano pelo poder. Todos têm algum poder. Mesmo se estamos na base da pirâmide, ainda podemos chutar o cachorro! Todos os reinos da terra e suas riquezas são oferecidos a Jesus, mas ele recusa e reitera mais uma vez seu compromisso com a vontade de seu Pai. Estamos tentando realizar a vontade de quem em nosso ministério? Portanto, a purificação de nossa motivação é importante para que qualquer poder ou autoridade que tenhamos, por menor que pareça, seja usada para a glória de Deus e não para nossa própria glória.
A terceira e última tentação de Jesus no deserto é realizar maravilhas para atrair a admiração das multidões. Jesus realmente realiza milagres, mas sempre como sinais da presença do Reino de Deus e não para chamar atenção sobre si mesmo. No final de seu ministério público, ele foi desafiado a descer da cruz para que o povo acreditasse nele. Ele permaneceu na cruz, dando sua vida para a salvação do mundo.

SERVIR NA ESPERANÇA
O falso eu concentra-se em si mesmo. Ele é fundamentalmente egoísta. Como nas tentações anteriores, somos desafiados a nos questionar sobre nossas ações. Jesus nos diz no Evangelho para não julgar. A razão para isso é bem simples: não sabemos qual a motivação de uma pessoa e todas as circunstâncias que a levaram a agir. A advertência para não julgar geralmente é compreendida num sentido negativo, isto é, para não julgar alguém negativamente. No entanto, também podemos estar errados se julgarmos positivamente. É compreensível considerarmos que alguém que cuida dos enfermos é um cristão maravilhoso, muito melhor do que alguém cujo trabalho não conhecemos. Contudo, não sabemos porque a pessoa cuida dos enfermos. É possível realizar boas obras pelos motivos errados como, por exemplo, usar outras pessoas para chamar atenção para si mesmo. Então é melhor deixar todo julgamento para o Senhor. Acredito que teremos uma ou duas surpresas!
O coração humano é muito sutil e requer uma purificação profunda. Esse é o propósito da jornada espiritual. Ao crescermos mais e mais à semelhança de Cristo, aprendemos a nos ver como realmente somos. Somos chamados a servir as pessoas como comunidades contemplativas. Respondendo ao chamado de Cristo para segui-lo, empenhamo-nos a assumir sua visão e valores. No entanto, logo descobrimos que somos incapazes de viver de acordo com nossos ideais sozinhos. Ao amadurecermos em nosso relacionamento com Deus, damos espaço para que Deus nos purifique. Assim começamos a ver como Deus vê e a amar como Deus ama. Esse modo de ver e amar é doloroso para o ser humano porque requer uma transformação radical do coração. O clamor do pobre penetrará em nossas defesas e nossa resposta, livre da distorção do falso eu, virá de um coração puro.
No início de Regra (cap. 2), Santo Alberto diz que, como todos os cristãos, nos empenhamos à serviço do Mestre. Mas adiante, ele nos dá o exemplo de São Paulo, que trabalhou incansavelmente e sem medo por Cristo e não em nome de sua própria reputação. No final da Regra, parece que estamos diante de um outro modelo, o do estalajadeiro na história do Bom Samaritano. Kees Waaijman comenta sobre o paralelismo entre a história e a Regra: “Se alguém fizer mais do que o prescrito, o Senhor mesmo lhe retribuirá quando voltar” (Regra 24). Ele afirma que esse ‘mais’ não se refere àqueles que têm maior generosidade e zelo, mas é uma proposta para todos os carmelitas. Precisamos trabalhar como o estalajadeiro, não com os olhos na recompensa, mas prestando atenção naquele dia, talvez muito distante, quando o Mestre retornará.

“Os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano concebeu o que Deus reservou para aqueles que o amam”.

Perguntas para reflexão:
Pessoal:
1-Como você trabalha para a vinda do Reino de Deus?
2-Releia as tentações de Jesus (Lc 4,1-13). Como você responde à tentação em seu ministério?

Em Grupo:
1-Qual é a missão da Ordem Terceira do Carmo, e como ela pode ser melhorada?
2- Qual é o programa de formação permenente que permite que os membros da Ordem Terceira do Carmo  trabalhem para a vinda do Reino de Deus?


AO VIVO- Direto de Sapopemba/SP. (Edição-01).

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 895. Segura na Mão de Deus.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

A ORDEM DO CARMO NO BRASIL

A nossa História no Brasil começou em 1580 quando aqui chegaram, vindos de Portugal, quatro Religiosos Carmelitas liderados por Frei Bernardo Pimentel Ord. Carm. Sucederam-se então as fundações dos nossos conventos: em 1584 o Convento de Olinda/PE, em 1589 o de Santos/SP, em 1590 o do Rio de Janeiro/RJ, em 1594 ode São Paulo/SP, em 1608 ode Angra dos Reis/RJ, em 1627 o de Mogí das Cruzes/SP, em 1622 o de Vitória/ES, e em 17180 de ltú/SP.
Até aqui, esses conventos pertenceram como Vice-Província àProvíncia Carmelitana de Portugal e somente em 1720 constituiu-se a Província Carmelitana Fluminense que em 1963 passou a chamar-se Província Carmelitana de Santo EIias.
A Ordem do Carmo no Brasil cresceu muito, chegamos até a ter três Províncias: a do Rio de Janeiro, a da Bahia e a de Pernambuco e ainda uma Vigararia, a do Maranhão. As atividades apostólicas dos Carmelitas estenderam-se por todo o litoral de São Luís do Maranhão até a cidade de Santos e, as suas atividades missionárias se estenderam até o Pará e o Amazonas.
Há uma tradição de que o imenso convento de Salvador chegou a abrigar até 100 Religiosos. Entretanto, nas épocas de Brasil-Colônia e Brasil-Império a Ordem do Carmo passou momentos sombrios, tenebrosos, de muitos conflitos com o envolvimento de Vice-reis, da Rainha D. Maria I, das autoridades eclesiásticas, etc. Um dos momentos mais dolorosos de nossa História foi a proibição de aceitar Noviços, resultado de uma circular do Ministro da Justiça e de sua Majestade o Imperador (D. Pedro II), que cassava a licença de entrada de Noviços nas Ordens Religiosas. Com esta medida governamental a Ordem do Carmo experimentou os estentores da agonia.
Em 1881 havia na nossa Província apenas quatro Religiosos nos conventos da Lapa, de Angra dos Reis e de Mogí das Cruzes. Os conventos de Belém do Pará, Itú, Santos e Vitória estavam sem Carmelitas. A situação era tão dramática e desoladora que o Papa Leão XIII em 1891 submeteu as Ordens Religiosas do Brasil à inteira dependência dos Prelados Diocesanos tanto no temporal como no espiritual. Foi então que o internúncio apostólico confiou aos Beneditinos Belgas a restauração dos mosteiros Beneditinos do Brasil; aos Franciscanos da Alemanha a restauração dos conventos Franciscanos e aos Carmelitas Espanhóis a restauração dos conventos Carmelitas: A 15 de novembro de 1889 aconteceu a Proclamação da República no Brasil, D.Pedro II e a Família Real retornaram a Portugal. Foi decretada a separação entre a Igreja e o Estado e as Ordens Religiosas receberam a autorização do governo de fundar conventos, abrir noviciados e administrar os seus próprios bens.
Em 1892 governava o Brasil o Marechal Floriano Peixoto de quem herdamos este feliz pronunciamento: “Não é nem pode ser intenção do Governo da República apossar-se dos bens que a piedade dos fiéis doou as Ordens Religiosas, mas não lhe pode ser indiferente vera decadência em que se acham; trate a Santa Sé de reformá-las e conte com o meu apoio”! Com estas palavras, o Marechal Floriano Peixoto deu um belo testemunho de bom senso de Magistrado do Governo Brasileiro.
Em 1893, iniciaram-se os entendimentos entre o Pe. Geral Aloísio Maria Galli e o Provincial espanhol Frei Anastácio Borras. Deste entendimento resultou a vinda da Espanha de seis Religiosos Carmelitas, liderados por Frei Joaquim Maria Guarch; isso aconteceu a 08 de agosto de 1894. Além deste primeiro grupo, sucederam-se outros grupos Religiosos espanhóis entre sacerdotes, professos e irmãos leigos, totalizando 21 Religiosos espanhóis que muito se empenharam em restaurar o Carmelo Brasileiro nas três Províncias: a Fluminense, a da Bahia e a de Pernambuco.
De 1894 a 1904, muita coisa aconteceu no Carmelo Brasileiro; dificuldades inúmeras de relações em que estiveram envolvidos: a Santa Sé, a Província Espanhola, os Religiosos Carmelitas do Rio de Janeiro, da Bahia, de Pernambuco, etc. Até que em abril de 1904, num Capítulo Provincial da Espanha foi resolvido que os Carmelitas espanhóis deixariam o Rio de Janeiro e a Bahia e iriam a Recife. Em junhode 1904, iniciaram-se os entendimentosentre o Pe. Geral Frei Pio Mayer e o Provincial holandês Frei Lamberto Smeets; ficou decidido que a Província Carmelita da Holanda iria assumir a Missão de continuar a restauração da Província Fluminense.
A 31 de outubro de 1904 seis sacerdotes e dois irmãos leigos, tendo como superior o Frei Cirilo Thewes, embarcaram em Antuérpia, Bélgica, num vapor alemão; quatro deles desembarcaram em Salvador e alguns dias depois seguiram para o Rio de Janeiro e na madrugada do dia 27 de novembro, os outros quatro aportaram no Rio de Janeiro. No mesmo dia, 27 de novembro de 1904, Frei Eliseu Duran por delegação do Pe. Geral, Frei Pio Mayer, entregou a Província Carmelitana Fluminense aos Carmelitas holandeses que, com muita dedicação se atiraram à penosa missão de dar continuidade ao zeloso trabalho iniciado pelos Carmelitas espanhóis: restaurar a Província Carmelitana Fluminense. A 27 de novembro a Província Carmelitana de Santo Elias procederá à abertura do Centenário de Restauração de nossa Província.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 894. Uma história de fé.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Vaticano diz que casamento gay é “derrota para a humanidade”

Secretário de Estado diz que a Igreja precisa reagir ao resultado do referendo irlandês
Irlanda, o primeiro país a aprovar o casamento gay em um referendo

O sim da católica Irlanda ao casamento homossexual caiu como uma bomba no Vaticano. Seu mais graduado funcionário, o secretário de Estado Pietro Parolin, um diplomata com muitos anos de experiência e fama de moderado, assim se referiu ao resultado do referendo: “Não só se pode falar de uma derrota dos princípios cristãos, mas também de uma derrota da humanidade”.
O cardeal italiano Parolin acrescentou que se sente “muito triste pelo resultado” – 62% dos votos favoráveis ao casamento entre homossexuais, 37% apostaram contra – e pediu à Igreja que reaja. “O arcebispo de Dublin”, acrescentou o secretário de Estado durante um ato da fundação Centesimus Annus, “disse que a Igreja deve levar em conta essa realidade, mas me parece que no sentido de reforçar seu esforço evangelizador. A família tem que continuar no centro, e devemos defendê-la, tutelá-la e promovê-la. O futuro da humanidade e da Igreja depende da família. Golpeá-la seria como tirar os alicerces do edifício do futuro”.
As palavras de Parolin chamam a atenção por dois aspectos. Primeiro porque ele não costuma se estender – e muito menos com tal eloquência – quando fala em público. Seu trabalho até agora era no sentido de sustentar de forma calada, quase invisível, os esforços do papa Francisco para renovar a Igreja e, sobretudo, colocar a máquina diplomática do Vaticano a serviço da paz. Em segundo lugar, desde que o Papa se referiu à homossexualidade durante seu voo de volta do Brasil – “Quem sou eu para julgar os gays” – a Santa Sé vinha procurando atualizar os velhos clichês.
Mas, até o momento, tratava-se apenas de uma aproximação mais respeitosa, talvez mais compreensiva em relação aos homossexuais, mas deixando claro –como faz nesta quarta-feira o cardeal Angelo Bagnasco, presidente da Conferência Episcopal Italiana, em uma entrevista ao jornal La Repubblica – que a Igreja continua rejeitando as uniões civis. “Acreditamos”, observa Bagnasco, “na família que nasce da união estável entre um homem e uma mulher, potencialmente aberta à vida; esta união, que constitui um bem essencial para a sociedade, não é equiparável a outras formas de convivência”.
Talvez as palavras de Pietro Parolin possam ser explicadas pelo fato de a Igreja temer um efeito-dominó do referendo europeu no resto da Europa.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

¡Romero Mártir por amor a los pobres!

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 888. A Mulher invisível.

Carta aberta ao bispo de Maceió, Dom Antônio Muniz

Dom Antônio Muniz, Arcebispo Metropolitano de Maceió:

Rogo a atenção de V. Exa. Revma. para fixar ainda mais o seu olhar sobre Alagoas. O estado não consegue controlar a epidemia de violência homicida que tem enlutado milhares de famílias.
Alagoas, nas últimas duas décadas, alcançou o primeiro lugar no ranking dos estados mais violentos. São números trágicos e vergonhosos que se assemelham aos de guerra. 
O Mapa da Violência de 2014 revela que entre 2008 e 2012 ocorreram 10.159 homicídios em Alagoas; desses, 6.114 são jovens, na faixa etária de 15 a 29 anos, ocorrendo 60% dos homicídios entre negros e pobres.
Os dados estatísticos produzidos pela Secretaria de Defesa Social (SDS) em 2013 revelam 2.260 crimes violentos letais, uma média de 6,19 homicídios/dia, e em 2014 foram assassinados mais 2.199; a média mantida é de 6,02 homicídios/dia. A soma do período é de 14.618 homicídios.
Esse contingente de jovens negros e pobres em idade escolar não teve o direito de viver com o mínimo de dignidade; foram assassinados e os motivos nunca serão esclarecidos pela policia alagoana, fato que mantém a impunidade como regra geral e política de Estado.
Dom Antônio, as condições em que o Estado se encontra é de sucateamento, notadamente nas áreas em que a população mais necessita: educação, saúde, assistência social, e com taxa de desemprego crescente.
As políticas públicas essenciais não existem concretamente, a não ser na propaganda oficial. A possibilidade de incluir os jovens no mundo do trabalho e da cultura é impensável em Alagoas.
O Núcleo Estadual de Atendimento Socioeducativo (Neas), localizado no Tabuleiro, em Maceió, é um depósito em condições inferiores às das piores pocilgas. A tortura física e psicológica tem sido o método de castigo implementado pelos agentes públicos. Não bastou o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, em 2014, ouvir dos adolescentes relatos de torturas e de que a comida era deplorável, pois as condições permanecem iguais ou o que mudou tem efeito meramente cosmético.      
Dom Antônio, a presença mais visível do estado nos bolsões de pobreza e miséria é através da presença da polícia, que insiste na “guerra contra a criminalidade” como meio de “oferecer segurança pública”. Essa prática retrógrada se mantém com o apoio e incentivo público dos responsáveis pela segurança pública.
Essa prática tem servido tão somente para incitar o ódio estatal contra o fenômeno crescente de violência, identificado como um estágio de epidemia. Toda a fúria policial é um instrumento que operacionaliza o processo de “limpeza social e étnica” instaurado há décadas no seio da segurança pública.
Dom Antônio, como cidadão preocupado com essa questão, me reporto ao tempo em que era criança em Anadia, interior de Alagoas. Era então comum ouvir o dito popular: “vá se queixar ao bispo”. É o que me ocorre diante do estado de entorpecimento das autoridades de Alagoas.
Apelo a V. Exa. Revma. por identificar na figura do arcebispo metropolitano e na Igreja Católica a possibilidade de intervir nesse quadro desolador.
Os meus respeitos e admiração
Geraldo de Majella