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segunda-feira, 1 de junho de 2015

A ORDEM DO CARMO NO BRASIL

A nossa História no Brasil começou em 1580 quando aqui chegaram, vindos de Portugal, quatro Religiosos Carmelitas liderados por Frei Bernardo Pimentel Ord. Carm. Sucederam-se então as fundações dos nossos conventos: em 1584 o Convento de Olinda/PE, em 1589 o de Santos/SP, em 1590 o do Rio de Janeiro/RJ, em 1594 ode São Paulo/SP, em 1608 ode Angra dos Reis/RJ, em 1627 o de Mogí das Cruzes/SP, em 1622 o de Vitória/ES, e em 17180 de ltú/SP.
Até aqui, esses conventos pertenceram como Vice-Província àProvíncia Carmelitana de Portugal e somente em 1720 constituiu-se a Província Carmelitana Fluminense que em 1963 passou a chamar-se Província Carmelitana de Santo EIias.
A Ordem do Carmo no Brasil cresceu muito, chegamos até a ter três Províncias: a do Rio de Janeiro, a da Bahia e a de Pernambuco e ainda uma Vigararia, a do Maranhão. As atividades apostólicas dos Carmelitas estenderam-se por todo o litoral de São Luís do Maranhão até a cidade de Santos e, as suas atividades missionárias se estenderam até o Pará e o Amazonas.
Há uma tradição de que o imenso convento de Salvador chegou a abrigar até 100 Religiosos. Entretanto, nas épocas de Brasil-Colônia e Brasil-Império a Ordem do Carmo passou momentos sombrios, tenebrosos, de muitos conflitos com o envolvimento de Vice-reis, da Rainha D. Maria I, das autoridades eclesiásticas, etc. Um dos momentos mais dolorosos de nossa História foi a proibição de aceitar Noviços, resultado de uma circular do Ministro da Justiça e de sua Majestade o Imperador (D. Pedro II), que cassava a licença de entrada de Noviços nas Ordens Religiosas. Com esta medida governamental a Ordem do Carmo experimentou os estentores da agonia.
Em 1881 havia na nossa Província apenas quatro Religiosos nos conventos da Lapa, de Angra dos Reis e de Mogí das Cruzes. Os conventos de Belém do Pará, Itú, Santos e Vitória estavam sem Carmelitas. A situação era tão dramática e desoladora que o Papa Leão XIII em 1891 submeteu as Ordens Religiosas do Brasil à inteira dependência dos Prelados Diocesanos tanto no temporal como no espiritual. Foi então que o internúncio apostólico confiou aos Beneditinos Belgas a restauração dos mosteiros Beneditinos do Brasil; aos Franciscanos da Alemanha a restauração dos conventos Franciscanos e aos Carmelitas Espanhóis a restauração dos conventos Carmelitas: A 15 de novembro de 1889 aconteceu a Proclamação da República no Brasil, D.Pedro II e a Família Real retornaram a Portugal. Foi decretada a separação entre a Igreja e o Estado e as Ordens Religiosas receberam a autorização do governo de fundar conventos, abrir noviciados e administrar os seus próprios bens.
Em 1892 governava o Brasil o Marechal Floriano Peixoto de quem herdamos este feliz pronunciamento: “Não é nem pode ser intenção do Governo da República apossar-se dos bens que a piedade dos fiéis doou as Ordens Religiosas, mas não lhe pode ser indiferente vera decadência em que se acham; trate a Santa Sé de reformá-las e conte com o meu apoio”! Com estas palavras, o Marechal Floriano Peixoto deu um belo testemunho de bom senso de Magistrado do Governo Brasileiro.
Em 1893, iniciaram-se os entendimentos entre o Pe. Geral Aloísio Maria Galli e o Provincial espanhol Frei Anastácio Borras. Deste entendimento resultou a vinda da Espanha de seis Religiosos Carmelitas, liderados por Frei Joaquim Maria Guarch; isso aconteceu a 08 de agosto de 1894. Além deste primeiro grupo, sucederam-se outros grupos Religiosos espanhóis entre sacerdotes, professos e irmãos leigos, totalizando 21 Religiosos espanhóis que muito se empenharam em restaurar o Carmelo Brasileiro nas três Províncias: a Fluminense, a da Bahia e a de Pernambuco.
De 1894 a 1904, muita coisa aconteceu no Carmelo Brasileiro; dificuldades inúmeras de relações em que estiveram envolvidos: a Santa Sé, a Província Espanhola, os Religiosos Carmelitas do Rio de Janeiro, da Bahia, de Pernambuco, etc. Até que em abril de 1904, num Capítulo Provincial da Espanha foi resolvido que os Carmelitas espanhóis deixariam o Rio de Janeiro e a Bahia e iriam a Recife. Em junhode 1904, iniciaram-se os entendimentosentre o Pe. Geral Frei Pio Mayer e o Provincial holandês Frei Lamberto Smeets; ficou decidido que a Província Carmelita da Holanda iria assumir a Missão de continuar a restauração da Província Fluminense.
A 31 de outubro de 1904 seis sacerdotes e dois irmãos leigos, tendo como superior o Frei Cirilo Thewes, embarcaram em Antuérpia, Bélgica, num vapor alemão; quatro deles desembarcaram em Salvador e alguns dias depois seguiram para o Rio de Janeiro e na madrugada do dia 27 de novembro, os outros quatro aportaram no Rio de Janeiro. No mesmo dia, 27 de novembro de 1904, Frei Eliseu Duran por delegação do Pe. Geral, Frei Pio Mayer, entregou a Província Carmelitana Fluminense aos Carmelitas holandeses que, com muita dedicação se atiraram à penosa missão de dar continuidade ao zeloso trabalho iniciado pelos Carmelitas espanhóis: restaurar a Província Carmelitana Fluminense. A 27 de novembro a Província Carmelitana de Santo Elias procederá à abertura do Centenário de Restauração de nossa Província.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

CARMELITAS: Olhar o passado com os pés no futuro: A restauração da Ordem no Brasil – 1894



Por Frei Pedro Caxito, 0. Carm. (In Memoriam) 

            Tornou-se evidente que no fim do século a Ordem era capaz de organizar e manter esforços para a sua expansão. Enquanto os alemães e irlandeses partiram para terras fabulosas que até então não tinham sido palmilhadas por pés de carmelitas, os Espanhóis retornaram para a sua América e para as Províncias fundadas há séculos pela sua Província-Irmã de Portugal.
            Já em 1886, o Vigário Provincial, Alberto de Santa Augusta Cabral Vasconcelos escreveu de Recife, pedindo a Savini para mandar religiosos a fim de restaurar a Província de Pernambuco. Os frades sobreviventes da Província, dizia ele, estavam todos num único convento (Recife). As outras quatro casas estavam em mãos de padres seculares. Ele estava velho e doente e alguns dos mais jovens não gozavam de boa reputação. Savini conseguiu reunir um grupo internacional nas pessoas de Ângelo Mallia, André Montebello e José Gregório Geoghegan. Contudo esta primeira tentativa de restauração do Carmelo no Brasil não foi bem sucedida; nos inícios de 1889 Cabral e os recém-vindos separaram-se no meio de mútuas recriminações.
            Com a eleição de um novo Prior Geral, Cabral renovou em 1894 os seus insistentes pedidos de reforço. Por esta data pôde ser feito um esforço mais sério e garantido; a Província da Espanha, em vias de recuperação, estava capacitada a corresponder às necessidades. No dia 7 de julho de 1894, um grupo de 4 padres e 2 irmãos viajou para Recife: Joaquim Guarch (Comissário Geral), Eliseu Gomez, Cirilo Font, Mariano Gordon e os Irmãos Ângelo Trigagnon e Eliseu Gomez (a nota 56 diz que é coincidência mesmo de nome e sobrenome).
            Em 1895, um segundo grupo de dois padres, três clérigos e dois irmãos foram enviados da Espanha. Neste mesmo ano o Conselho da Ordem autorizou o Provincial da Espanha a nomear um vigário provincial para o Brasil e apontou também Cirilo Font como Comissário Geral. Os dois cargos praticamente se reuniram num só.
            Os espanhóis se responsabilizaram pela restauração não só da Província de Pernambuco, mas também de toda a Ordem no Brasil, em geral. A pressa de Cabral não foi compartilhada com igual ardor no Rio de Janeiro e na Bahia. Os poucos frades brasileiros sobreviventes nestas regiões recusaram-se a reconhecer o Comissário Geral e a submeter-se à Província da Espanha. Além disto não quiseram transferir para os espanhóis os bens da Ordem, nem era isto permitido pela lei. Os Brasileiros relutavam em renunciar à sua independência e abrir caminhos, submetendo-se à disciplina religiosa. Diante destas circunstâncias os Espanhóis perceberam que a Restauração do Carmelo Brasileiro seria uma tarefa desencorajadora.
            De fato, Leão XIII tinha um pouco antes, aos três de setembro de 1891, colocado os religiosos do Brasil debaixo da jurisdição dos bispos. Os bispos, por sua vez, delegaram as suas faculdades a um "visitador" episcopal. Numa situação destas um Comissário indicado pelo Prior Geral em Roma ajustava-se tal qual um pino quadrado num furo redondo. Era um caso parecido com o da Espanha nos inícios da restauração da Ordem por lá. Com o tempo as coisas foram-se ajeitando, mas não se pôde fugir inteiramente dos primeiros conflitos.
            Em cartas para Roma datadas de 23 de agosto e 22 de outubro de 1900, o Provincial Eliseu Durán contou como ia a situação no Brasil. Da Vigararia do Maranhão nada restou. A Província de Pernambuco contava com três conventos e um hospício. Em Recife estavam cinco frades espanhóis. Dois anos depois da chegada dos recém-vindos em 1894, morreram os dois brasileiros que restavam, deixando o acima citado no comando da situação. Da Província da Bahia existia somente o Convento de Salvador com dois espanhóis e o brasileiro Frei Inocêncio do Monte Carmelo Sena. Um outro padre brasileiro vivia fora do convento em concubinato. A Província do Rio de Janeiro continha seis casas, duas das quais, Rio e Angra dos Reis, tinham moradores. São Paulo e Santos podiam ser reformadas sem grandes despesas. No Rio de Janeiro viviam sete espanhóis; em Angra, dois espanhóis e o brasileiro Frei Inácio da Conceição Silva, que ostentava o título de Provincial. O outro brasileiro da Província, Frei Antônio Muniz, vivia fora do Convento e na imprensa pública entrou numa campanha de guerrilha contra as autoridades eclesiásticas e os confrades espanhóis. De início viviam no Rio os Padres Furbão (deve ser Pe. Manuel de Santa Teresa Trovão) e Manuel da Ascensão Franco, o administrador do vasto patrimônio do Convento. Quando morreu Furbão em 1896, Mariano Gordon e Carmelo Pastor aí estabeleceram residência. Depois da morte de Manuel em 1899, o arcebispo indicou um administrador leigo para os bens do Convento. Mas a pedido do Internúncio seis frades foram enviados para o Convento de Angra dos Reis destinado a ser casa de Noviciado. Os Espanhóis tinham pouca fé na possibilidade de um noviciado no Brasil. Noviços eram poucos (em seis anos Recife recebeu um só) e tinham pouca chance de serem iniciados adequadamente na vida religiosa. Durán preferiu estabelecer na Espanha um colégio missionário para o Brasil.
            O Capítulo Geral de 1902 deu instruções ao Procurador Geral para conseguir da Santa Sé um decreto que concedesse à Província da Espanha os bens da Ordem no Brasil como medida para uma chance pequenina de sucesso.