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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Em memória de Frei Caneca

Pedro Pomar - 1974
A 13 de janeiro de 1825 - faz exatamente 150 anos - morria fuzilado em Recife, por ordem terminante de Pedro I, Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, grande herói da luta do povo brasileiro pela independência do jugo colonial português, eminente figura de nossa intelectualidade revolucionária, nacionalista.

As classes dominantes relegaram-no ao esquecimento. Chegaram mesmo a escarnecê-lo como fez o ditador Médici, em 1972, ao mandar passear pelas ruas das capitais dos Estados os ossos de Pedro I. Nossos pseudo-liberais temem falar sobre ele. Em contraste, o proletariado revolucionário exalta a sua memória como um dos mais admiráveis exemplos de combatente da causa da libertação nacional e da soberania popular. São raras as pessoas que, como ele, revelaram tal grau de rebeldia militante contra os opressores do país e do povo, tanta intransigência em face dos inimigos, tamanho destemor perante a morte. As lições de sua vida e de sua luta são fontes perenes de inspiração para todos os patriotas e democratas, conservam bastante atualidade.
Frei Caneca nasceu na capital pernambucana, em 1774, quando no mundo feudal surgiam e se desenvolviam as idéias burguesas de emancipação política, os conceitos de pátria e de nação e, quando em terras brasileiras, sob o domínio de Portugal, brotavam os fermentos da autonomia. Era de origem humilde. O apelido que o honrava adveio do fato de, na infância, ter ajudado o pai, um tanoeiro, vendendo canecas. Certamente, por vocação religiosa e pelo desejo de estudar, ingressou na Ordem dos Carmelitas.
Naquele tempo, e durante dezenas de anos depois, a Igreja Católica monopolizava a cultura na Colônia. Para instruir-se e ascender socialmente, os moços das camadas mais pobres da oprimida e acanhada sociedade colonial deviam ordenar-se frades ou padres. Outro recurso era ir estudar em Coimbra, o que só os filhos dos grandes proprietários e senhores de escravos podiam fazer. No entanto, não foi a confissão religiosa que converteu, desde os albores do século XIX, o jovem Frei Caneca num ardoroso partidário da independência do Brasil e dos direitos do povo. Ao contrário, a Igreja, como instituição reacionária, além de possuir muitas propriedades e riquezas, sempre esteve umbilicalmente ligada às classes dominantes, sustentou-as por todos os meios.
A verdade histórica é que, nas jornadas de 1817 e 1824 - as primeiras gloriosas tentativas de nossa revolução nacional e democrática - Frei Caneca e a brilhante falange de seus companheiros, a maioria de procedência igualmente humilde, não representavam na revolução, de maneira alguma, o clero, e sim as forças radicais da sociedade brasileira.
Pertenciam à intelectualidade revolucionária, camada mais avançada da luta libertadora. Eles sentiram, como ninguém, o quanto era intolerável o domínio da metrópole portuguesa, o quanto pioravam as condições de vida do povo. Simultaneamente, recebiam a influência das novas idéias revolucionárias e tomavam conhecimento da vitória da Revolução Francesa de 1789, dos movimentos emancipadores dos Estados Unidos, da América espanhola, do Haiti. Daí a decisão de empunhar com valentia a bandeira da autonomia nacional e das reivindicações liberais burguesas. De modo coerente, passaram a integrar a ala radical do "Partido Brasileiro", da união das correntes patrióticas favoráveis à independência, ala que pregava a liquidação da dinastia dos Bragança, sem regateios nem conciliações prejudiciais à nação.
Em 1822, depois do famoso grito do Ipiranga e do acordo que permitiu a Pedro I aparecer à frente do novo Estado Nacional, a linha da intelectualidade nacionalista, oriunda do clero pobre, chocava-se com a da Igreja oficial. Enquanto esta, já aderida à situação criada, acusava Frei Caneca de indisciplina e sustentava que a autoridade de Pedro I tinha origem divina, ele respondia, denunciando as manobras traidoras do régulo, seu absolutismo e proclamando que a única e verdadeira fonte do poder é o povo.
Não apenas como pensador, mas também por suas qualidades políticas e organizativas, Frei Caneca destacou-se dentre todos os seus companheiros e contemporâneos. Junto com os padres João Ribeiro, Roma, Miguelinho, Mororó e dezenas de outros, foi um dos dirigentes da Revolução de 1817, quando pela primeira vez esteve em mãos de patriotas brasileiros o poder no país.
 
Ao sobrevir a derrota, se bem que não tivesse sido enforcado ou arcabuzado, como alguns daqueles dirigentes, padeceu inomináveis torturas e ficou encarcerado na Bahia até 1821, sob a acusação de ter conclamado o povo à guerra revolucionária e organizado guerrilhas. Efetivamente, assim procedeu, expressando opiniões como as que seguem: "Quando a pátria está em perigo, todo cidadão é soldado, todos devem se adestrar nas armas para rebater o agressor. Não é bastante, que na ocasião do aperto maior, saiam de suas casas com algumas pistolas ou facas, ou outras quaisquer armas, sem disciplina, sem ordem, sem chefe hábil nos negócios da guerra; tal estado de coisas só pode causar a confusão e a desordem. O tempo é de atropelo, devem vosmecês atropelar também a economia de suas ações?" Não sem motivo, tornou-se conhecido, desde então, como o "frade guerrilheiro".
As posições combativas, revolucionárias, nortearam toda a sua vida. Libertado, voltou logo a Pernambuco para participar da deposição das autoridades coloniais e da instauração de um governo provisório provincial até que, no plano nacional, a Assembléia Constituinte, já convocada, indicasse os verdadeiros rumos do novo Estado e da nação.
 
Ao saber que Pedro de Bragança se entronizava como Imperador do Brasil, condicionou seu apoio a esse governante à exigência de que prevalecesse, na Constituição que se elaborava, a vontade soberana do povo. Com tal objetivo, fundou, em fins de 1823, o jornal Tifnis Pernambucano. Defendia a instituição de um regime constitucional, representativo, capaz, segundo ele, de assegurar a independência recém-conquistada. Afirmava que a unidade nacional devia ser baseada na autonomia das províncias, de acordo com as tradições brasileiras e como demonstrava a experiência positiva dos Estados Unidos da América do Norte. Considerava indispensável que o Brasil se constituísse numa federação, unida pelos interesses e pelos sentimentos do povo de todo o país. Percebia que a nação, apesar de jovem, já possuía fortes laços de solidariedade e condições para sobreviver e progredir, percepção que, ainda hoje, certos elementos ditos progressistas não alcançaram. Embora jamais tivesse acreditado no liberalismo de Pedro I, mostrou-se disposto a aceitar o regime monárquico, contanto que a autonomia das províncias fosse preservada, assim como respeitada a soberania popular. Por isso, a dissolução pela força da Assembléia Constituinte encontrou de sua parte firme repulsa. E ao ser informado da imposição da Carta Constitucional, elaborada nos corrilhos palacianos, conferindo todos os poderes a Pedro I, escreveu, indignado, a um amigo: "Não admitimos mais imposturas, conhecemos o despotismo, vamos decepá-lo".
 
A Confederação do Equador, de 2 de julho de 1824, teve em Frei Caneca seu principal cérebro, seu autêntico fundador. A República sonhada englobaria as províncias do Norte, as quais ficariam unidas por uma Constituição, cujas bases ele publicara em seu jornal, na véspera da Revolução. Nesse projeto de Lei Magna, propôs enfaticamente a liberdade política, a igualdade civil, todos os direitos inalienáveis do homem. Estabeleceu itens relativos à liberdade de imprensa e de opinião. Destacou, especialmente, a abolição da escravatura nos seguintes termos: "Todo homem pode entrar a serviço de outro pelo tempo que quiser, porém não pode vender-se, nem ser vendido".
O conteúdo de seu ideário era nitidamente burguês, democrático. Não obstante, pareceu muito radical, bastante avançado para aquele período.
Mas a Confederação do Equador só conseguiu o apoio das províncias da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Sem a adesão das demais, sobretudo da Bahia, cujo movimento popular revelara pujança e combatividade na luta contra as tropas do general português Madeira, a nova República duraria pouquíssimos meses. De seu lado, o governo imperial tomara incontinenti medidas para debelar a revolução a ferro e fogo. Cercado por terra e por mar, o governo confederado não pôde manter-se. A derrota deveu-se, fundamentalmente, a certas condições internas adversas da época, ao profundo atraso do país. Diferentemente dos Estados Unidos, onde vencera a Revolução da Independência com sentido democrático, no Brasil existia ainda um forte sistema feudal-escravista, que não deixou surgir nem florescer um núcleo numeroso de colonos livres. Os centros urbanos brasileiros eram então bastante débeis, distantes e dispersos. Além disso, a revolução não interessou direta e profundamente ao grosso da massa de escravos.
Posto que condenasse formalmente a escravidão, não pretendia aboli-la imediata e radicalmente, mas sim de modo gradual. Em suma, por não terem compreendido a importância da participação da grande maioria da população escrava na luta pela independência, os líderes do movimento emancipador de 1817 e 1824 fatalmente seriam esmagados pela reação feudal e escravocrata.
 Frei Caneca não cedeu facilmente. Julgou encontrar no interior de Pernambuco condições políticas e topográficas propícias à continuação da luta. Como não podia deixar de ser, enveredou pelo caminho da resistência armada, recorrendo ao método da guerra de guerrilhas. Mas quase tudo lhe foi hostil. Até uma tremenda seca contribuiu para obstar-lhe os planos. Suas colunas rarearam cada vez mais diante das dificuldades. Havia defecções dos que não tinham igual confiança na vitória. Mesmo sem recursos, passando fome, rompeu diversos cercos, travou alguns combates com vantagens e penetrou no sertão do Ceará, em busca de apoio. Só a 29 de novembro, em decorrência da situação insustentável em que se achava, aceitou a proposta de rendição formulada pelo comandante das tropas imperiais, em troca do respeito pela vida dos guerrilheiros e do compromisso de que o governo não faria vinditas.
 Dessa forma, veio a cair nas mãos de Pedro I o mais intrépido defensor da causa emancipadora e democrática, o patriota que a reação mais temia e odiava.
A Justiça Militar, nomeada a propósito pelo Imperador, empreendeu de imediato seu julgamento sumário. Frei Caneca não procurou justificar-se, pessoalmente; sustentou com bravura suas idéias, seu direito à promover a revolução; não claudicou nem se prestou a qualquer compromisso com os inimigos da pátria e do povo. Compreendia que Pedro I queria vê-lo rápida e severamente castigado para exemplo dos que se atrevessem a levantar-se contra a tirania. Seu comportamento altivo e digno, contribuiu para desmascarar o não cumprimento da promessa de que os prisioneiros teriam suas vidas poupadas. O desassombrado lutador deveria morrer na forca - tal a decisão dos juízes militares, antecipadamente tomada.
Longe de ficar abatido, Frei Caneca, em virtude de sua fibra moral e de suas profundas convicções, revelou-se mais animoso do que nunca. O desprezo pela morte, a consciência de cumprir em qualquer circunstância seu dever de patriota, de sacrificar a vida pelo bem comum, forjaram nele um dos mais belos e íntegros caracteres de homens públicos populares que registra a história brasileira. Cantou tais sentimentos em versos como estes:
"O Patriota não morre:
Vive além da eternidade;
Sua glória, sem renome.
São troféus da humanidade."
Pouco antes de ser fuzilado, ainda compôs outro poema que diz:
"Tem fim a vida daquele
Que a pátria não soube amar;
A vida do patriota
Não pode o tempo acabar"
O episódio final do seu suplício mostra até que ponto ia a sanha da repressão. A agonia arrastou-se praticamente por três dias, nos quais sua figura se agigantou pela coragem, ao passo que a dos seus verdugos se amesquinhou pela crueldade. Desde o dia 10 de janeiro se haviam iniciado os preparativos para o enforcamento. Mas, nesse instante, a Igreja resolveu interceder junto a Pedro I em favor da vida do condenado, solicitando que a pena capital fosse comutada em prisão. O Imperador, além de recusar, ameaçou.
A Igreja desistiu. Dia 13, pela manhã, já no patíbulo, ele foi submetido à degradação canônica, isto é, despido de seus hábitos religiosos e da condição de frade. Entretanto, o preso comum destinado a colocar-lhe o laço no pescoço, negou-se a fazê-lo. Ali mesmo foi pisoteado, surrado. Outros dois presos comuns convocados para a mesma bárbara função, também não a aceitaram. Diante disso, o representante de Pedro I, brigadeiro (como então se chamava ao general) Lima e Silva, optou pelo fuzilamento. Entrementes, Frei Caneca, que fora despertado do sono em que estava mergulhado para subir ao patíbulo, continuava sereno, procurando falar ao povo e auxiliar os carrascos a terminarem com a execução. Até que o ato infame se consumou.
Há 150 anos do holocausto do grande herói popular, cumpre às forças revolucionárias não apenas homenageá-lo como compreender o sentido de suas idéias e de sua luta, assim como continuá-la nas novas condições históricas. Nesse período, ocorreram enormes transformações no mundo e em nosso país. O socialismo venceu em alguns países e avança vitorioso, enquanto o capitalismo está apodrecendo. As contradições sociais e políticas se aguçaram. No Brasil, as forças que se opõem ao progresso, à democracia e à independência nacional já não são senhores de terras e escravistas junto com o colonialismo português, mas sim os latifundiários e a grande burguesia associada ao imperialismo, sobretudo ao norte-americano. Por outro lado, as forças interessadas na revolução são outras, muito mais poderosas. O papel que representam é também diverso do daquele tempo. Agora, apenas uma parte da burguesia, a não-ligada aos interesses estrangeiros e à reação, pode participar da revolução, mas não encabeçá-la. Tampouco a intelectualidade progressista, inclusive a provinda do clero, tem condições de ser a vanguarda revolucionária.
 
A direção da revolução cabe ao proletariado, através de seu Partido marxista-leninista. Nessas circunstâncias, o caráter nacional e democrático da revolução, embora permaneça formalmente o mesmo, ganhou um novo conteúdo. Sob a liderança da classe operária e na base da aliança operário-camponesa, ela será inevitavelmente vitoriosa e abrirá caminho para o socialismo.
Todavia, muitas das idéias e das medidas expostas e propugnadas por Frei Caneca têm atualidade, estão na ordem-do-dia. Igualmente, o caminho revolucionário, a luta armada, e a intransigência que preconizou e revelou são fundamentalmente os mesmos que hoje devemos trilhar e praticar no combate para pôr abaixo a ditadura militar e varrer com a dominação do imperialismo estadunidense.
Honra e glória eternas ao grande precursor da luta do povo brasileiro pela independência e pela democracia!
(Artigo de Pedro Pomar publicado no jornal A Classe Operária, 1974.)

sexta-feira, 26 de abril de 2013

CARMELITAS: Olhar o passado com os pés no futuro: A restauração da Ordem no Brasil – 1894



Por Frei Pedro Caxito, 0. Carm. (In Memoriam) 

            Tornou-se evidente que no fim do século a Ordem era capaz de organizar e manter esforços para a sua expansão. Enquanto os alemães e irlandeses partiram para terras fabulosas que até então não tinham sido palmilhadas por pés de carmelitas, os Espanhóis retornaram para a sua América e para as Províncias fundadas há séculos pela sua Província-Irmã de Portugal.
            Já em 1886, o Vigário Provincial, Alberto de Santa Augusta Cabral Vasconcelos escreveu de Recife, pedindo a Savini para mandar religiosos a fim de restaurar a Província de Pernambuco. Os frades sobreviventes da Província, dizia ele, estavam todos num único convento (Recife). As outras quatro casas estavam em mãos de padres seculares. Ele estava velho e doente e alguns dos mais jovens não gozavam de boa reputação. Savini conseguiu reunir um grupo internacional nas pessoas de Ângelo Mallia, André Montebello e José Gregório Geoghegan. Contudo esta primeira tentativa de restauração do Carmelo no Brasil não foi bem sucedida; nos inícios de 1889 Cabral e os recém-vindos separaram-se no meio de mútuas recriminações.
            Com a eleição de um novo Prior Geral, Cabral renovou em 1894 os seus insistentes pedidos de reforço. Por esta data pôde ser feito um esforço mais sério e garantido; a Província da Espanha, em vias de recuperação, estava capacitada a corresponder às necessidades. No dia 7 de julho de 1894, um grupo de 4 padres e 2 irmãos viajou para Recife: Joaquim Guarch (Comissário Geral), Eliseu Gomez, Cirilo Font, Mariano Gordon e os Irmãos Ângelo Trigagnon e Eliseu Gomez (a nota 56 diz que é coincidência mesmo de nome e sobrenome).
            Em 1895, um segundo grupo de dois padres, três clérigos e dois irmãos foram enviados da Espanha. Neste mesmo ano o Conselho da Ordem autorizou o Provincial da Espanha a nomear um vigário provincial para o Brasil e apontou também Cirilo Font como Comissário Geral. Os dois cargos praticamente se reuniram num só.
            Os espanhóis se responsabilizaram pela restauração não só da Província de Pernambuco, mas também de toda a Ordem no Brasil, em geral. A pressa de Cabral não foi compartilhada com igual ardor no Rio de Janeiro e na Bahia. Os poucos frades brasileiros sobreviventes nestas regiões recusaram-se a reconhecer o Comissário Geral e a submeter-se à Província da Espanha. Além disto não quiseram transferir para os espanhóis os bens da Ordem, nem era isto permitido pela lei. Os Brasileiros relutavam em renunciar à sua independência e abrir caminhos, submetendo-se à disciplina religiosa. Diante destas circunstâncias os Espanhóis perceberam que a Restauração do Carmelo Brasileiro seria uma tarefa desencorajadora.
            De fato, Leão XIII tinha um pouco antes, aos três de setembro de 1891, colocado os religiosos do Brasil debaixo da jurisdição dos bispos. Os bispos, por sua vez, delegaram as suas faculdades a um "visitador" episcopal. Numa situação destas um Comissário indicado pelo Prior Geral em Roma ajustava-se tal qual um pino quadrado num furo redondo. Era um caso parecido com o da Espanha nos inícios da restauração da Ordem por lá. Com o tempo as coisas foram-se ajeitando, mas não se pôde fugir inteiramente dos primeiros conflitos.
            Em cartas para Roma datadas de 23 de agosto e 22 de outubro de 1900, o Provincial Eliseu Durán contou como ia a situação no Brasil. Da Vigararia do Maranhão nada restou. A Província de Pernambuco contava com três conventos e um hospício. Em Recife estavam cinco frades espanhóis. Dois anos depois da chegada dos recém-vindos em 1894, morreram os dois brasileiros que restavam, deixando o acima citado no comando da situação. Da Província da Bahia existia somente o Convento de Salvador com dois espanhóis e o brasileiro Frei Inocêncio do Monte Carmelo Sena. Um outro padre brasileiro vivia fora do convento em concubinato. A Província do Rio de Janeiro continha seis casas, duas das quais, Rio e Angra dos Reis, tinham moradores. São Paulo e Santos podiam ser reformadas sem grandes despesas. No Rio de Janeiro viviam sete espanhóis; em Angra, dois espanhóis e o brasileiro Frei Inácio da Conceição Silva, que ostentava o título de Provincial. O outro brasileiro da Província, Frei Antônio Muniz, vivia fora do Convento e na imprensa pública entrou numa campanha de guerrilha contra as autoridades eclesiásticas e os confrades espanhóis. De início viviam no Rio os Padres Furbão (deve ser Pe. Manuel de Santa Teresa Trovão) e Manuel da Ascensão Franco, o administrador do vasto patrimônio do Convento. Quando morreu Furbão em 1896, Mariano Gordon e Carmelo Pastor aí estabeleceram residência. Depois da morte de Manuel em 1899, o arcebispo indicou um administrador leigo para os bens do Convento. Mas a pedido do Internúncio seis frades foram enviados para o Convento de Angra dos Reis destinado a ser casa de Noviciado. Os Espanhóis tinham pouca fé na possibilidade de um noviciado no Brasil. Noviços eram poucos (em seis anos Recife recebeu um só) e tinham pouca chance de serem iniciados adequadamente na vida religiosa. Durán preferiu estabelecer na Espanha um colégio missionário para o Brasil.
            O Capítulo Geral de 1902 deu instruções ao Procurador Geral para conseguir da Santa Sé um decreto que concedesse à Província da Espanha os bens da Ordem no Brasil como medida para uma chance pequenina de sucesso.

CARMELITAS: Olhar o passado com os pés no futuro: O Carmelo no Brasil - 1904-1919.


Por Frei Pedro Caxito, 0. Carm. (In Memoriam)  
           
              A restauração das três Províncias do Brasil apresentava afinal uma carga acima dos recursos da Província da Espanha. O Capítulo Provincial de 1900, por isso, comunicou ao Núncio no Brasil que gostariam de limitar os seus esforços ao Norte, deixando para alguma outra Província a restauração do Rio de Janeiro. Em 1916 ficou decidido que a Andaluzia ficaria com o encargo da Bahia e a Arago-Valentina, de Pernambuco.
            Em 1906 Pio Maria Mayer decretou que o Provincial de Pernambuco seria também o seu Comissário para a Bahia, e de fato deste ano em diante até 1923 era regularmente indicado pelo Provincial de Pernambuco um vigário para a Bahia. Em 1919 a Província da Bahia contava com 4 sacerdotes, 1 diácono e 2 irmãos, todos espanhóis, que viviam na Bahia e em Cachoeira. São Cristóvão não foi mais ocupado.
            O Capítulo Geral de 1902 proclamou o direito das províncias de estabelecer a sua legislação própria e Pernambuco no mesmo ano fez os seus estatutos, que determinaram ser requerida a cidadania brasileira, de nascimento ou por naturalização, para se fazerem os votos solenes. Esta condição foi imposta, sem dúvida, em vista de constituir a Província como entidade jurídica. Em 1919 contava a Província 10 padres e três irmãos, todos concentrados em Recife.
            A 23 de junho de 1904, Pio Mayer abordou o Provincial da Província Holandesa, Lamberto Smeets, para que tomasse conta da Província do Rio de Janeiro, que estava abandonada. Este encargo foi aceito sob a condição de que a administração dos bens fosse devolvida à Ordem. No dia 27 de novembro de 1904, seis padres e 2 irmãos chegaram ao Rio de Janeiro: Frei Cirilo Thewes (superior), Atanásio Rijswijk, Guilherme Meijer, Serapião de Lange, Gregório Meijer, Constâncio Lokkers e os Irmãos Simão Jans e Anastácio Korterijk. Os frades espanhóis governados por André Prat ficaram ajudando no Convento da Lapa. No mês de dezembro Guilherme Meijer e Constâncio Lokkers dirigiram-se para Angra dos Reis, onde encontraram Inácio da Conceição Silva que era digno de toda confiança. Em 1906 o Bispo de Petrópolis, Dom João Braga, confiou aos Carmelitas as Paróquias de Angra dos Reis, Mambucaba, Ribeira, Jacuecanga, Ilha Grande e Jacareí. Aquela região por longo tempo abandonada ofereceu aos missionários oportunidade total para exercerem o seu zelo apostólico.
            No dia 16 de maio de 1905 os freis Cirilo Thewes, Guilherme Meijer e o Irmão Simão Jans foram tomar posse do Convento de São Paulo. Aí incorreram na oposição do terrível Frei Antônio da Virgem Maria Muniz Barreto, prior de Mogi das Cruzes, que se havia empenhado numa contenda legal com o Bispo de São Paulo. Em 1877 Muniz tinha sido nomeado "præses" dos Conventos de São Paulo, Santos e Mogi das Cruzes pelo Vigário Geral do Rio, (Dom) Félix Maria de Freitas Albuquerque, e foi confirmado neste cargo pelo Visitador Apostólico, (Pe.) Eduardo Duarte e Silva. Quando Inácio da Conceição Silva foi nomeado Provincial em 1900, nomeou o Bispo de São Paulo, Antônio de Alvarenga, com o seu Vigário Geral, (Mons.) Manuel Vicente, administradores dos bens da Ordem em São Paulo e Santos, decisão com a qual Muniz não concordou. Finalmente, no dia 22 de junho de 1906, o caso foi resolvido em favor do Bispo e Muniz foi consolado com o Priorado perpétuo de Mogi das Cruzes. Quando morreu em 1919, os seus confrades ficaram livres para entrar na posse do seu Convento.
            Santos foi recuperado em 1906 e Itu em 1917.
            Os Carmelitas Holandeses por toda parte se distinguiram como educadores e assim abriram escolas ou deram continuidade àquelas que já existiam: Rio de Janeiro (1908), Itu (1908), São Paulo (1911), Santos (1917). As escolas de Mogi das Cruzes e de Angra dos Reis vieram a ter vida curta.
            Além da reocupação destes Conventos, os Carmelitas tomaram a seu cargo uma missão em Corumbá, no Mato Grosso. Os pioneiros foram Frei Paulo Hurkmans (superior), Canísio Mulderman, Carmelo Lambooij e o Irmão Pancrácio Helmich. Ao faltar a saúde a Frei Hurkmans, foi ele substituído por Frei Mulderman como superior. Em 1911 Frei Maurício Lans veio ajuntar-se ao grupo. Era enorme o território da missão e exigia viagens de cinco ou seis meses no lombo de cavalos. Ao ser Corumbá elevada a Diocese em 1912, Mulderman foi o seu administrador até à chegada do novo Bispo e a igreja dos Carmelitas serviu de Catedral. Por causa de um desentendimento infeliz surgido entre o Bispo, Dom Cirilo de Paula Freitas, e os Carmelitas, estes abandonaram a missão em 1914.
            Outra missão em Paranaguá, no Paraná, fundada em 1915, teve de ser abandonada por falta de mão-de-obra.
            Os frades holandeses dedicaram-se às Ordens Terceiras, que tinham sobrevivido à supressão dos religiosos. Em Angra dos Reis e Mogi das Cruzes, Inácio da Silva e Antônio Muniz conservaram vivas as Ordens Terceiras locais. No Rio de Janeiro o sodalício degenerou em superstição e prática de macumba e foi extinto pelo diretor Frei Tomás Jansen, que inaugurou um novo no dia 8 de dezembro de 1910, com a profissão de 32 noviços, 16 mulheres e 16 homens. Este sodalício tornou-se o núcleo donde brotaram outros.
            Em 1919 a Província tinha 22 membros: 18 padres e 4 irmãos. Somente Rio e São Paulo na posição de Conventos.