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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Encruzilhada eleitoral

Dom Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo de Belo Horizonte (MG)


Na medida em que se entra na reta final para as eleições 2014, a propaganda avança e as pesquisas impactam. O cidadão se vê numa encruzilhada eleitoral. Um enorme desafio à cidadania. Não basta apenas escolher um nome. O alcance da responsabilidade e das consequências do voto não permitem atitude simplória, sob pena do alto custo de decisões inadequadas sobre o executivo e a representatividade. Uma gama enorme de fatores interfere na consolidação dessa esperada postura cidadã, obviamente na contramão da inadmissível proposta do voto nulo ou do não comparecimento às urnas. Eleições garantem o exercício nobre da cidadania. Por isso mesmo, supõem e exigem preparação individual muito mais elaborada. Um espinhoso processo de discernimento pela articulação e confronto desta gama de fatores que perpassam o emocional, as razões ideológicas - necessariamente presentes no embate eleitoral - e os interesses econômicos, atingindo um horizonte político de maior elaboração e clarividência. Fácil não é.
Escolher apenas por simpatia, sob impulso, é um tremendo risco. É indispensável analisar programas e propostas das coligações partidárias e ponderar elementos, especialmente aqueles de inegociável sensibilidade social, num momento em que o pobre e o excluído precisam ter prioridade de tratamento e destinações. Também não se pode dispensar o compromisso dos que têm competência para gerar e garantir dinâmicas de crescimento econômico e a consequente inclusão social. Trata-se de um exercício político que inclui atividade de conhecimento e disposição para debates e confrontos, nas rodas familiares, de amizade e profissionais, em exigente processo de discernimento. Agora é hora de buscar indispensável avanço na sociedade.
Os vícios da política brasileira e suas mediocridades não justificam a falta de envolvimento e empenho por parte dos cidadãos. Aliás, a construção do novo, em política e em cenários de igualdade social, é processo complexo que supõe um passo a passo até que se possa alcançar a meta, responsabilidade de todos, de uma sociedade mais civilizada e amadurecida no exercício e no tratamento de sua cidadania. Basta pensar a amplitude de reformas que precisam ocorrer para que um cenário novo se desenhe, superando o modo obsoleto de se fazer política no Brasil.
Sabe-se que sem reformas política, tributária, fiscal e outras não se avançará para além de discursos repetitivos, estéreis, e de promessas que caem no descrédito. Neste “passo a passo” para que as reformas aconteçam, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e outras 400 entidades continuam, nesta Semana da Pátria, a investir no Projeto de Lei de Iniciativa Popular pela Reforma Política. Ao oferecer critérios adequados para avaliar a qualidade dos candidatos ao Executivo e, sobretudo, ao Legislativo, esta proposta impactará a realidade política do Brasil. Não custa nada contribuir com sua assinatura e buscar outras, entre amigos e familiares. Só assim, será possível se chegar ao número exigido de adesões para que o projeto da Reforma Política passe a tramitar no Congresso Nacional. Um desafio à hombridade dos eleitos e à coragem de olharem para além dos interesses cartoriais e particulares.
Este Projeto de Lei, nos seus quatro importantes itens, terá força para modificar o atual quadro político do Brasil. Por meio dele, será possível afastar o poder econômico das eleições, com a proibição do financiamento de campanhas eleitorais por empresas; cobrar coerência de candidatos e partidos com a eleição em dois turnos - o primeiro para a escolha de um programa e o segundo para a escolha das pessoas que ocuparão os cargos políticos. Não se pode simplesmente, como acontece na realidade brasileira, depositar tudo nas mãos de algumas pessoas para que governem e legislem a partir de interesses próprios, de trocas e de pagamento de favores. A Reforma Política cobrará, ainda, a urgência inteligente de aumentar a participação das mulheres. Embora constituam 58% do eleitorado, apenas 8% delas desempenham funções políticas. É enorme a perda da contribuição feminina neste setor, em vista de sua qualificação comprovada em outras áreas.
É precioso ainda, como quarto ponto da proposta de Reforma Política, ampliar a participação do povo nas principais decisões, por meio da regulamentação de Plebiscito, Referendo Popular e Projeto de Lei de Iniciativa Popular, mesclando a democracia representativa com a democracia participativa. O não atendimento a esta urgência resultará em continuar a manter o povo - verdadeiro dono do poder - submisso a essa representatividade que não o representa. Refém de dirigentes que não atendem suas necessidades básicas e de direito, gerando quadros na contramão da justiça social.
Neste mesmo ato de coleta de assinaturas pela Reforma Política, como celebração digna da Semana da Pátria, se faz o recolhimento de votos por uma Assembleia Nacional Constituinte para mudar o sistema político no Brasil. O caráter popular deste plebiscito é um exercício importante de cidadania e com impacto nas instâncias governamentais para que convoquem um plebiscito oficial. O discernimento neste momento eleitoral e o gesto cidadão de participar desta coleta de assinaturas ajudarão a desenhar um novo cenário para que não seja tão nebulosa, como está agora, desafiando a todos, com riscos muito sérios, a atual encruzilhada eleitoral.

Em quem votar

Dom Fernando Arêas Rifan,
Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney (RJ)

Aproximam-se as eleições. Devemos encará-las com seriedade para votar certo e bem, pois do nosso voto também depende o futuro do nosso país e a definição da vida política de nossa pátria. Por isso, nós, Bispos do Estado do Rio de Janeiro, fizemos uma pequena cartilha de recomendações para essas eleições, que tem sido distribuída nas igrejas.
A Igreja não tem partidos nem candidatos. Não impõe nomes a serem sufragados nem obriga a votar em determinados candidatos. Somos contra o clientelismo e o chamado “voto de cabresto”. Assim como a Fé, o voto deve ser racional. A Igreja deixa à livre e responsável decisão dos eleitores católicos a escolha em quem votar. Ajuda-nos, porém, nessa reflexão. Diz, sobretudo, em quem não votar. Há candidatos e partidos que não podem receber o nosso apoio.
Procure conhecer os candidatos: conduta, ideias e partidos. Observe se seus candidatos estão comprometidos com a justiça, segurança, combate à violência, dignidade da pessoa, respeito pela vida humana desde a concepção até a morte natural. Não vote em candidatos ou partidos, que sejam favoráveis ao aborto e à eutanásia. Vote apenas em candidatos que promovam e defendam a família, segundo sua identidade natural conforme o plano de Deus.
Jamais se deve votar em candidatos comprovadamente corruptos. “É muito difícil que um corrupto consiga voltar atrás”, falou o Papa Francisco aos Parlamentares italianos. Dê o seu voto apenas a candidatos com “ficha limpa”, pois o homem público deve ter honestidade. Diga não à corrupção. Mas não só dos políticos e candidatos como à tentação de corrupção, que cada um de nós sente: não favoreça a corrupção eleitoral, à compra de votos, votando por interesse material e não com consciência. Voto não é troca de favores.
Ademais, observe se o candidato trabalha para o bem comum ou para o seu próprio interesse. Veja se ele representa apenas o seu grupo ou partido ou se pretende promover políticas que beneficiam a todos: o bom governante e legislador governa e faz leis para todos.
Vote em candidatos comprometidos seriamente com a superação da pobreza, com a educação, saúde, moradia, saneamento básico, respeito à vida e ao meio ambiente. “Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos que levem verdadeiramente a sério a sociedade, o povo, a vida dos pobres” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, 205).
Vote em candidatos que respeitem a liberdade religiosa e de consciência, não sejam fanáticos nem fundamentalistas religiosos, e que garantam o ensino religioso confessional e plural nas escolas públicas.
Pelo seu passado e pelo seu discurso se pode conhecer o candidato. E acompanhe os políticos depois das eleições, para cobrar deles o cumprimento das promessas de campanha e apoiar suas ações políticas e administrativas.
Essa participação na política é o importante e correto exercício da cidadania. Lembre-se que voto não tem preço, não se compra nem se vende. E tem várias e sérias consequências.

ORDEM TERCEIRA DE DIAMANTINA/MG: Retiro-02

terça-feira, 9 de setembro de 2014

RETIRO COM FREI PETRÔNIO: Testemunho de Vida.

A PALAVRA... Nº 684. Os Carmelitas e Feira Grande.

CAPELA DO CARMO DE DIAMANTINA: Um Olhar

A PALAVRA... Nº 685. O Fanatismo Político em Alagoas.

A PALAVRA... Nº 685. O Livro de mil e uma utilidades.

A NOITE ESCURA DE SÃO JOÃO DA CRUZ: Palestra de Frei Petrônio de Miranda, O. Carm.


ORDEM TERCEIRA DE DIAMANTINA/MG.
Encontro sobre a Espiritualidade Carmelitana.
Dia 07 de setembro -2014.
Com Frei Petrônio de Miranda, O.Carm
(E-mail do Frei: missaodomgabriel@bol.com.br)
Tema: A Noite Escura de São João da Cruz.

            São João da Cruz (1540-1591), filho de Elias, pela vida e pelos escritos mostrou conhecer noites escuras pontilhadas de estrelas ou de trevas sem luz. E ensina a caminhar.
            A Noite Escura "é o fim do narcisismo e da abstração, é disponibilidade para o encontro com o outro e com os outros. É a constante adaptação do homem a Deus. Não é um breve período de crises, mas uma situação permanente, porque nunca nós acabamos de nos adaptarmos à lógica divina, ao amor de Deus. Atitude crítica para consigo mesmo e perante a realidade; discernimento frente à história e dentro da história; uma consciência da relatividade das metas alcançadas, concedendo espaço para a novidade do Espírito. A noite é consequência do amor, é escola de amor. É o meio pelo qual se consegue uma nova consciência: tornamo-nos mais livres para Subir a Montanha sem que Nada se interponha (1S,13)".
Elemento essencial da Noite em São João da Cruz é a ação de protagonista do Espírito Santo: esta ação ilumina motivações profundas, estruturas interiores escondidas. É uma verdadeira desintegração criadora, uma autêntica descida aos infernos, que das bases arranca as pilastras.
Não causa surpresa, portanto, que São João da Cruz fale de morte viva, de situação horrível. E, de mais a mais, é uma fase necessária e obrigatória; assim ele fala no início da Subida: "geralmente deve a alma passar primeiro pelo meio de dois principais aspectos de trevas... ou noite" (1S 1,1). Não é paralisia, abandono, abatimento, inércia. A alma passa pelo meio da noite, e a noite, pelo meio da alma. Se assim é, então no centro de tudo não está primariamente à atividade da pessoa, mas o processo de reação teologal frente ao agir de Deus; para alcançar "um mais íntimo saber".
            Tende-se hoje a aplicar o processo da Noite a situações de sofrimento e desespero das pessoas em particular, mas também de grupos e da própria sociedade. Segundo o Papa João Paulo II, hoje santo, o "O Doutor Místico exige hoje a atenção de muitos crentes e não crentes para a descrição que ele mesmo faz da noite escura como experiência tipicamente humana e cristã. A nossa época viveu momentos dramáticos, nos quais o silêncio ou ausência de Deus, a experiência de calamidades e sofrimentos, como guerras ou o próprio holocausto de tantos seres inocentes, fizeram compreender melhor esta expressão, dando-lhe, além disto, um caráter  de experiência coletiva aplicada à própria realidade da vida e não somente a uma fase do caminho do espírito. A doutrina do Santo é invocada hoje diante deste mistério insondável da dor humana (...). A esta experiência, deu João da Cruz o nome simbólico e evocador de noite escura, com uma referência explícita à luz e obscuridade do mistério da fé".
            Com naturalidade se fala de noite escura quando se recorda a tragédia dos campos nazistas, onde havia desaparecido todo senso de dignidade e compaixão humana, enquanto milhões de pessoas se encontravam como num túnel escuro, num caos de sofrimentos e trevas. História horrenda sepultada nas entranhas da memória coletiva e que até hoje inquieta a todos nós. Usou-se a metáfora Noite Escura, ao se falar da oposição dos intelectuais americanos à guerra do Vietnã; podemos falar da noite escura para expressar à realidade dos moradores de rua das grandes metrópoles, dos jovens drogados e dos milhares de seres humanos a margem da sociedade do consumo e da produtividade excessiva.


A Noite Escura de Elias
O Profeta Elias, feliz na tranquilidade de Carit ou no aconchego da casa pobre da mulher de Sarepta e seu filhinho, é despertado pela tristeza da morte de um menino: é escuridão. "Javé, meu Deus, matando o filho dela, o Senhor quer afligir até mesmo esta viúva que me deu hospedagem?" (1Rs 17,20).  "Responda-me, Senhor! Responda-me!" (1Rs 18,37). "Javé, agora já é demais! Pode tirar a minha vida, pois não sou melhor do que os meus pais!" (1Rs 19,4). Comeu e bebeu e tornou a prostrar-se (1Rs 19,6). Depois quarenta dias e quarenta noites a caminho, sem comer nem beber (1Rs 19,8). "Estou só e querem tirar-me a vida!" (1Rs 19,10.14). Javé não estava não, nem no furacão desmantelador de montes e rachador de rochedos. Javé não estava nos tremores de terra, não (1Rs 19,11). Javé não estava no furor do fogo e dos raios, também não. Estava sim numa brisa calma, que cobriu Elias com o manto e com força o trouxe fora das cavernas (Rs 19,12-13). Um carro de fogo e cavalos de fogo arrancaram Elias de junto de Eliseu, e num redemoinho de fogo lá se foi Elias para o céu. Noites e luzes. Procurado por três dias (2Rs 2,11.17)[1]
Noite Escura de Maria
Virgem feliz em casa de Joaquim e Ana, mas é preciso dizer sim à vontade de Javé: "Eis-me aqui! Eu sou a escrava do Senhor. Aconteça em mim tudo segundo a tua palavra" (°1,38).
É preciso deixar pai e mãe e Nazaré, com muita coisa preparada para o nascimento e seguir José até Belém. Na hospedaria não há lugar e o Menino não vai esperar mais: Ela mesma tem de envolvê-Lo em faixas e acomodá-Lo dentro da manjedoura (°2,5.6.7). O boi e burro tenham paciência, e as mansas ovelhinhas... É preciso que o velho Simeão venha com aquela profecia? Para rebaixamento e soerguimento? Alvo diante da contradição? Uma espada que transpassa a alma? O velho estava vendo a Virgem-Mãe de pé junto à Cruz? (2,34-35)...
Noite Escura de Jesus
Menino unido com a Mãe que faz parte e participa da Noite Escura da Mãe nos mistérios da sua infância. Cresce e, conduzido pelo Espírito, caminha pelo deserto de Elias. Tem fome e é tentado pelo chato do diabo, que se cansa e o deixa em paz.
            Em Jerusalém causa-Lhe lágrimas e tristeza, e sentida elegia e lamentação. Amor traído faz sofrer. Jesus chorou. Quis ser como a galinhazinha de Nazaré, que com carinho sempre juntava a ninhada debaixo das asas, mas Jerusalém não quis...
            No meio da Escuridão é preciso falar com os amigos sobre a beleza da Luz e das alegrias do Reino: "o meu Corpo é dado em sacrifício por vós", "o meu Sangue é derramado por vós": "no meu Reino haveis de comer e beber à minha mesa" (22,19-20.30). Esperança: consolo e esperança somente...
PARA MEDITAÇÃO. Texto Bíblico. (1º Reis, 19, 1-9)
1º- Como a Espiritualidade Carmelitana, vivenciada pelos mártires e santos carmelitas; Simão Stock, Tito Brandsma, Edith Stein, Isidoro Bakanja, João da Cruz, Santa Teresinha... Ajuda-me a superar as noites escuras diárias?




sábado, 6 de setembro de 2014

ORDEM TERCEIRA DE SERRO-MG: Retiro-01.

Eleições 2014 - Vídeo 1 - Mais uma vez, eleições

23º Domingo do Tempo Comum. A graça de poder perdoar (Mt 18,15-35)

Frei Carlos Mesters, Lopes e Orofino.

Nesta reflexão para o evangelho do próximo domingo, Jesus nos fala da necessidade de perdoar o irmão, a irmã. Não é fácil perdoar, pois certas mágoas continuam machucando o coração. Há pessoas que dizem: “Eu perdoo, mas não esqueço!” Rancor, tensões, brigas, opiniões diferentes, ofensas, provocações dificultam o perdão e a reconciliação.

1-  Situando
1. Leremos a segunda parte do Sermão da Comunidade e meditar sobre ela. Veremos os assuntos da correção fraterna (18,15-18), da oração em comum (18,19-20), do perdão (18,21-22) e a parábola do perdão sem limites (18,23-35).
2. A organização das palavras de Jesus em cinco grandes Sermões mostra que, já no fim do primeiro século, as comunidades tinham formas bem concretas de catequese. O Sermão da Comunidade, por exemplo, traz instruções atualizadas de como proceder caso algum conflito surgisse entre os seus membros. Eram como cinco grandes setas no caminho que apontavam o rumo da caminhada e ofereciam critérios concretos para solucionar conflitos.

2-  Comentando
1.    Mateus 18,15-18: A correção fraterna e o poder de perdoar
Jesus traz normas simples e concretas de como proceder no caso de algum conflito na comunidade. Se um irmão ou uma irmã pecar, isto é, se tiver um comportamento não de acordo com a vida da comunidade, não se deve logo denunciá-los. Primeiro, procure conversar a sós. Procure saber os motivos do outro. Se não der resultado, leve mais duas ou três pessoas da comunidade, para ver se conseguem algum resultado. Só em caso extremo, deve levar o problema para a comunidade toda. E se a pessoa não quiser escutar a comunidade, que ela seja para você como um publicano ou pagão, isto é, como alguém que já não faz parte da comunidade. Não é você que a está excluindo, mas é a pessoa que se exclui a si mesma.

2. Mateus 18,19: A oração em comum
Essa exclusão não significa que a pessoa seja abandonada à sua própria sorte. Ela pode estar separada da comunidade, mas não estará separada de Deus. Caso a conversa na comunidade não der resultado, e a pessoa não quiser integrar-se na vida da comunidade, resta o último recurso de rezar juntos ao Pai para conseguir a reconciliação. E Jesus garante que o Pai vai atender.

3.  Mateus 18,20: A presença de Jesus na comunidade
O motivo da certeza de ser ouvido é a promessa de Jesus: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, estarei no meio deles!” Jesus diz que ele é o centro, o eixo, da comunidade e, como tal, junto com a comunidade estará rezando ao Pai, para que conceda o dom do retorno ao irmão ou à irmã que se excluiu.

4.  Mateus 18,21-22: Perdoar setenta vezes sete!
Diante das palavras de Jesus sobre a reconciliação, Pedro pergunta: “Quantas vezes devo perdoar? Sete vezes?” Sete é um número que indica uma perfeição e, no caso da proposta de Pedro, sete é sinônimo de sempre. Mas Jesus vai mais longe. Ele elimina todo e qualquer possível limite para o perdão: “Não te digo até sete, mas até setenta vezes sete!” Pois não há proporção entre o amor de Deus para conosco e o nosso amor para com o irmão. Jesus conta uma parábola para esclarecer a sua resposta a Pedro.

5.    Mateus 18,23-35: A parábola do perdão sem limite
Dívida de dez mil talentos é 164 toneladas de ouro. Dívida de cem denários é de 30 gramas de ouro. Não existe meio de comparação entre os dois. Mesmo que o devedor junto com mulher e filhos fosse trabalhar a vida inteira, jamais seria capaz de juntar 164 toneladas de ouro. Diante do amor de Deus que perdoa gratuitamente nossa dívida de 164 toneladas de ouro, é nada mais que justo que nós perdoemos ao irmão a dividazinha de 30 gramas de ouro. E atenção! O único limite para a gratuidade da misericórdia de Deus é a nossa incapacidade de perdoar o irmão. (Mt 18,34; 6,15).

3. Alargando
A comunidade como espaço alternativo de solidariedade e fraternidade
A sociedade do Império Romano era dura e sem coração, sem espaço para os pequenos. Estes buscavam um abrigo para o coração e não o encontravam. As sinagogas também eram exigentes e não ofereciam um lugar para eles. Nas comunidades, o rigor de alguns na observância da Lei levava para a convivência os mesmos critérios injustos da sociedade e da sinagoga. Assim, nas comunidades começaram a aparecer as mesmas divisões que existiam na sociedade e na sinagoga entre rico e pobre, dominação e submissão, falar e calar, carisma e poder, homem e mulher, raça e religião. Em vez de a comunidade ser um espaço de acolhimento, tornava-se um lugar de condenação. Juntando palavras de Jesus neste Sermão da Comunidade, Mateus quer iluminar a caminhada dos seguidores e das seguidoras de Jesus, para que as comunidades sejam um espaço alternativo de solidariedade e de fraternidade.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 683. Evangelho Dominical.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O CARMO EM SERRO E DIAMANTINA-MG: Convite.

ELIAS PROFETA NOS LIVROS DOS REIS. (1ª Parte)

Frei Alexander Vella, O.Carm.

1-  Ambiente histórico-religioso

Elias, como aliás todos os outros profetas, era ao mesmo tempo homem-de-seu-tempo, sofrendo os influxos próprios de seu ambiente, e homem-fora-do-tempo, com horizontes muito vastos que não se deixa fechar em esquemas fixos, nem mesmo no plano religioso. Fiel a tradição religiosa genuína de seu povo, o profeta não revive no­stalgicamente o seu passado. Vive intensamente o presente, mais intensamente do que a maior parte dos seus contemporâneos, porém sem alienação, com a capacidade de julgar o presente à luz de Deus. Sonha também ele com um futuro melhor, mas não se ilude, porque está consciente de que o futuro é uma construção que fazemos com nossas escolhas e nossas ações do presente. Devido a este enraizamento do profeta no seu pre­sente, é absolutamente necessário um conhecimento do seu ambiente histórico-religioso para bem compreender sua pessoa, sua mensagem e sua ação na história da salvação.
A história de Elias se desenvolve no Reino do Norte - Israel - no séc. IX A.C. Era tempo de prosperidade, assinalado por grande abertura para as nações vizinhas, como no tempo de Salomão. Era também um tempo de forte crise religiosa ou de sincretismo religioso, como se convencionou chamá-lo; consistia na assimilação dos elementos estranhos à própria religião, tomados de outra religião, com a consequente confusão, tanto no plano teológico como no plano prático-moral.
O sincretismo não era um problema novo para Israel. Realmente, desde a entrada dos Israelitas na terra de Canaã a religião cananéia passou a mesclar o javismo com idéias e práticas que lhe eram estranhas, e mesmo totalmente contrárias. Isto se tornou mais forte quando Davi estende o seu Reino por toda a terra prometida, incorporando nele in­teiras populações de cananeus que nem sempre se convertiam ao Deus de Israel ou, pior ainda, trocavam apenas o nome da divindade que adoravam sem verdadeira mudança de sua religião.
A religião dos cananeus era uma religião da natureza. Baal, o seu deus, era imagi­nado como um imenso touro que fecunda a mãe terra com a chuva, tornando-a fértil. Torna-se evidente porque Jeroboão, primeiro rei do norte, permite o culto ao bezerro de ouro em Betel e Dan, e são seus adoradores considerados idolatras pela tradição bíblica (1 Reis 12,28-30).
Provavelmente estes bezerros, no início, serviam apenas como o pedestal para o trono do Senhor, tal como os querubins o eram para a Arca da Aliança no templo de Jerusalém. Mas, não se pode excluir também que, com os seus bois, Jeroboão pretendia também ganhar a simpatia dos cananeus que estavam concentrados no seu reino.
Pode-se dizer então que as duas religiões, a javista e a de Baal existiam uma ao lado da outra. Os israelistas não abandonaram o Deus de seus pais, o Deus do Êxodo, mas junto a ele adoravam Baal, o deus da terra em que se encontravam. Acreditavam ter real necessidade de Baal por este ser o deus que tornava fecunda a sua terra, coisa que o Deus dos seus pais - Deus do deserto, não podia fazer. Isto é puro sincretismo religioso. Mas, havia também outro tipo de sincretismo, talvez mais perverso: adorar o Senhor como se fosse Baal, isto é, reduzindo-o a dimensões humanas; um deus que existe para satisfazer as necessidades do homem.
Esta situação se intensificou sob os reis Omri e Acab. Omri fez de Samaria, uma cidade cananéia onde havia um templo dedicado a Baal, a sua capital. Para consolidar a sua política de alianças com os reis vizinhos, Omri escolhe para esposa de seu filho Acab a filha Jesabel de Et-Baal, rei de Tiro e sacerdote de Baal. Este casamento, como era costume na época, comportava certa aliança entre os dois povos também no plano religioso. Tal compromisso levou Acab a construir uma capela no palácio real para o deus de Jesabel. Acab não abandonou o seu Deus: dá nomes javistas a seus filhos (Acazia, Ioram e Atalia) e se cerca dos Profetas do Senhor (1 Reis 22,5-12). Entretanto junto ao Senhor venera Baal e permite a Jesabel exercer seu papel de verdadeira mis­sionária de Baal.
            A identidade precisa do Baal, venerado por Jesabel, está amplamente discutida pelos biblistas porque o nome Baal é muito genérico. Alguns estudiosos de grande pre­stigio (Kittel, Eissfeldt, de Vaux) o identificam com Melgart, o deus de Tiro, que era provavelmente venerado também em alguns outros lugares. Entretanto, não existe nenhuma informação precisa sobre Melcart no tempo de Elias e por isso não podemos saber se é mesmo ele o deus de Jesabel. Galling sugeriu Baal-Carmel, um deus local vene­rado no Monte Carmelo. Entretanto, parece improvável que Jesabel propagasse o culto do deus do Carmelo, em vez do seu Baal de Tiro. As notícias que se tem do Baal-Carmel remontam apenas a época romana. Eissfeldt identificou o Baal de Jesabel com Baalshamen, um deus cujo culto floresceu desde o fim do 2º milênio antes de Cristo, du­rando bem uns dois mil anos. Outros, como Bronner, o identificam com o grande deus da tempestade do segundo milênio antes de Cristo, conhecido através dos textos encontra­dos em Ugarit na Síria. O problema é que existe uma grande distancia de tempo entre estes textos e aqueles bíblicos que se referem a Elias. Contudo, são tantos os paralelos entre estes textos que não é possível excluir uma certa relação entre o Baal de Ugarit e o Baal de Jesabel.
Ainda que fosse este Baal, a propagação de seu culto era assaz fácil em Israel de­vido ao grande número de cananeus presente no Reino e ao sincretismo já existente entre os israelitas. Sob a influência de Jesabel, Baal torna-se o deus que se venerava na corte e na cidade, enquanto nos lugares menores continuava-se com o sincretismo. O Senhor estava se tornando apenas mais um deus no panteão cananeu e nada mais. O javismo, que por sua natureza é uma religião exclusivista, estava para ser assimilado e absorvido pelo baalismo.

É nesta perspectiva que se deve ler a vida de Elias. Realmente a sua história não é simplesmente aquela de um profeta contra um rei déspota, mas é a luta entre o javismo e o baalismo porque na concepção do profeta as duas religiões se excluem. 

sábado, 30 de agosto de 2014

REPORTAGEM DO OLHAR: A Igreja vazia.

A voz do Pastor - 22º Domingo Comum - Domingo 31/08/14

22º Domingo do Tempo Comum. Ano- A: Aprender a perder

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 16, 21-27 que corresponde ao 22º Domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto
O ditado está registrado em todos os evangelhos e se repete até seis vezes: “Se alguém quer salvar a sua vida a perderá, mas quem a perde a encontrará por mim”. Jesus não está falando de uma temática religiosa. Ele está propondo aos seus discípulos qual é o verdadeiro valor da vida.
O ditado está expresso de forma paradoxal e provocativa. Há duas formas muito diferentes de orientar a vida: uma conduz para a salvação, a outra para a perdição. Jesus convida todos a seguir o caminho que parece mais duro e menos atrativo, pois conduz o ser humano à salvação definitiva.
O primeiro caminho consiste em se aferrar a vida vivendo exclusivamente para si mesmo: fazer do próprio “eu” a razão última e o objetivo supremo da existência. Este modo de viver, buscando sempre a própria ganância e vantagem, conduz o ser humano à perdição.
O segundo caminho consiste em saber perder, vivendo como Jesus, abertos ao objetivo final do projeto humanizador do Pai: saber renunciar à própria segurança ou ganância, buscando não somente o próprio bem, mas também o dos outros. Este modo generoso de viver conduz o ser humano à sua salvação.
Jesus está falando desde sua fé num Deus Salvador, mas suas palavras são uma forte advertência para todos: Que futuro espera uma Humanidade dividida e fragmentada, onde os poderes econômicos buscam seu próprio benefício; os países, seu próprio bem-estar; os indivíduos, seu próprio interesse?
A lógica que dirige nestes momentos o caminho do mundo é irracional. Os povos e os indivíduos estão caindo progressivamente na escravidão de “ter sempre mais”. Tudo é pouco para dar-se por satisfeito. Para viver bem, é necessário sempre mais produtividade, mais consumo, mais bem-estar material, mais poder sobre os outros.
Procura-se insaciavelmente o bem-estar, mas será que não há uma progressiva desumanização? Quer-se “progredir” cada vez mais, mas qual é o progresso que leva a abandonar milhões de seres humanos na miséria, na fome e na desnutrição? Por quantos anos será possível desfrutar desse bem-estar, fechando as fronteiras aos famintos?
Se os países privilegiados só procuram “salvar” seu nível de bem-estar, se não se quer perder o potencial econômico, jamais se darão passos em direção a uma solidariedade a nível mundial. Mas não nos enganemos. O mundo será cada vez mais inseguro e mais inabitável para todos e também para nós. Para salvar a vida humana no mundo é preciso aprender a perder.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 677. O Símbolo da Família.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 675. Os Carmelitas em Sergipe

O arcebispo que não precisou do Vaticano para ser santo

“A devoção ao ‘São Romero da América’ começou nos anos oitenta, em plena guerra civil, como demonstra as placas deixadas por salvadorenhos anônimos em agradecimento por algum milagre recebido”, é o que afirma Roberto Valencia, jornalista e autor do livro “Hablan de Monseñor Romero” (Fundação Dom Romero, São Salvador, 2011) e trabalha em clic El Faro. O artigo é publicado por BBC Mundo, 25-08-2014. A tradução é do Cepat. Fonte: http://goo.gl/dgCAcb

Eis o artigo.
O papa Francisco falou diretamente do céu sobre o mártir venerado por centena de milhares de pessoas em El Salvador – e além dele – como “São Romero da América”. E “falar do céu” não é uma licença poética: a coletiva de imprensa foi realizada a bordo do Airbus A330 da Alitalia que o levava de volta para Roma, após cinco dias na Coreia do Sul.
É tarde de segunda-feira, 18 de agosto de 2014. Um jornalista felicita o papa pelo seu inglês, aproveita para pedir-lhe, veladamente, uma entrevista, e o interpela: “Como vai o processo de Dom Romero? Como gostaria que ele fosse concluído?”.
Referia-se a Óscar Arnulfo Romero y Galdámez (1917-1980), o arcebispo de São Salvador assassinado de um disparo no peito enquanto ministrava a missa na capela de um hospital para doentes terminais de câncer, e cujo processo de beatificação está parado em Roma desde 1996.
A resposta entusiasmada do Papa Francisco é propagada em um minuto, mas não diz nada de novo; recorda que a causa está desbloqueada, reitera sua crença de que foi “um homem de Deus”, e explica que o caso continua ancorado na Congregação para a Causa dos Santos.
O único romantismo de seu discurso talvez seja o andamento recomendado aos proponentes: “depende de como irão se mover. É muito importante que o façam com rapidez”.

O salvadorenho mais universal
Desde que em 22 de fevereiro de 1977 tomou posse da arquidiocese de São Salvador, a relação do salvadorenho mais universal com seu povo tem sido imensa e sinuosa, como a estrada que sobre a um vulcão.
De tendência conservadora, sua nomeação ganhou no início o repudio dos setores progressistas, que o tinham como um bispo relacionado à oligarquia, papel que havia interpretado desde que, em 1944, iniciou seu trabalho pastoral em El Salvador.
A mudança foi radical e, em meados de 1977, censurava com firmeza o governo militar e denunciava a sistemática violação dos direitos humanos exercida pelo Estado e grupos paramilitares, ainda que também apontasse para os grupos armados que integravam a guerrilha da Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN).
Quando a ultradireita o assassinou em março de 1980, já era uma das vozes mais respeitadas da Igreja católica latino-americana, todo um referente da Teologia da Libertação, mesmo que Dom Romero nunca tenha se sentido parte desse movimento.
Em três anos havia ganhado o carinho de uma ampla porcentagem dos salvadorenhos, admiração acentuada nos estratos mais humildes da sociedade. O funeral foi um evento de massas que colapsou a capital.
A devoção para “São Romero da América” começou nos anos oitenta, em plena guerra civil, como demonstram as placas deixadas por salvadorenhos anônimos em agradecimento por algum milagre recebido.

Do silêncio oficial ao “guia espiritual”
Durante a guerra civil (1980-1992), o culto à sua figura foi clandestino, mas de uma honestidade formidável. Como testemunhos da incipiente fé nos “aspirantes a santos”, salvadorenhos anônimos esculpiram dezenas de placas “de milagres concedidos”, que hoje são expostos na modesta cabana na qual passou seus últimos anos de vida, que foi transformada em um pequeno, mas cativante museu.
A repressão governamental não rompeu sua aura, mesmo que ter um retrato seu colado na parede fosse suficiente para correr riscos. A salvadorenha Eleonor Chacón, uma mulher que não era politicamente ativa, mas tinha uma fotografia com ele por ter sido o sacerdote que a havia casado, queimou a imagem por sugestão de seu esposo.
O conflito civil, que deixou mais de 70 mil vítimas, desembocou nos governos do partido direitista Aliança Republicana Nacionalista (Arena), fundado por Roberto d'Auibuisson, o mentor intelectual do assassinato, de acordo com o Relatório da Comissão da Verdade, elaborado pelas Nações Unidas.
Foram duas décadas de absoluto silêncio, mas, como consequência dos espaços ganhos pelos Acordos de Paz de 1992, a sociedade civil e a Igreja começaram a se organizar para manterem viva sua memória, com procissões cada vez maiores e com mais visibilidade, principalmente em torno da data do assassinato.
Transformado em partido político, o FMLN tomou o poder em junho de 2009. Em seu discurso de posse, o agora ex-presidente Mauricio Funes não apenas invocou Dom Romero – algo inédito nos 20 anos da Arena -, como também o chamou de “meu mestre” e de “guia espiritual”. O fervor popular de boa parte da efervescência católica já estava assentada e, da noite para o dia, se sobrepôs a uma admiração institucional.
Durante os cinco anos de Funes, se rebatizou o aeroporto internacional e uma estratégica rodovia, a Casa Presidencial também se encheu de referências – um quadro gigantesco, uma importante sala de reuniões renomeada ... –, o governo organizou uma rota turística, e seu túmulo foi visitado pelos presidentes do Equador, Irlanda, Brasil... inclusive Barack Obama caminhou pelo porão da Catedral Metropolitana, onde estão os seus restos mortais.
Dom Romero se instalou no discurso oficial – o FMLN continua no poder, agora com o ex-guerrilheiro Salvador Sánchez Cerén como presidente–, mesmo que o compromisso com os mais necessitados e sua austeridade pareçam ser mais difíceis de assumir para a imensa maioria dos líderes políticos que o invocam.

Figura de culto
Já ameaçado de morte Dom Romero, que vivia em uma cabana de dois quartos, havia renunciou à proteção estatal (“Um bem-estar pessoal não me interessa enquanto ver em meu povo um sistema econômico, social e políticos que tenda, cada vez mais, a abrir essas diferenças sociais”, registrou em seu diário), e dou integralmente os US$10.000 que recebeu de uma universidade para a construção de um lar para crianças.
Já em 1978 três parlamentares britânicos o visitaram em representação dos 118 que haviam assinado a postulação oficial do salvadorenho para ao Prêmio Nobel da Paz.

E o culto se expandiu nos últimos cinco anos, além de ter se sofisticado.
As Nações Unidas entraram na onda e, desde novembro de 2012, reconhece o dia 24 de março, data na qual o assassinaram, como o Dia Internacional do Direito a Verdade em relação a Violações Graves dos Direitos Humanos e da Dignidade das Vítimas.

A atuação de Dom Romero como defensor dos direitos humanos não começou a edificar-se apenas com sua memória. Sua entrega foi reconhecida – em vida – por universidades dos Estados Unidos e Bélgica, com doutorados de Honoris Causa.

Em 24 de março de 2015 serão completos 35 anos do assassinato de Dom Romero.
A candidatura a Nobel da Paz não teve o êxito desejado por seus proponentes. Com o passar dos anos diferentes vozes denunciaram que do Vaticano, onde o Papa polonês João Paulo II acabava de se instalar, foi organizada uma campanha para neutralizar a possibilidade de que o incomodo Dom Romero recebesse um prêmio tão importante. Seja certo ou não, o Nobel da Paz em 1979 foi concedido a uma religiosa politicamente mais dócil: a Madre Teresa de Calcutá.
“Para mim Romero é um homem de Deus, mas o procedimento deve ser realizado, e o Senhor também tem que dar seu sinal... Se Ele o quiser, o fará. Contudo agora os proponentes tem que caminha porque não já não há impedimentos”, respondeu o papa Francisco ao jornalista que o consultou.
No dia 24 de março de 2015 se completarão 35 anos do assassinato de Dom Romero. Antes ou depois o papa Francisco voltará a se referir à questão da beatificação. E sua figura voltará a ser lembrada e venerada em El Salvador – principalmente, mas não apenas –, como já gostariam de serem lembrados e venerados tantos santos sem devotos da Igreja católica.

sábado, 23 de agosto de 2014

EU NÃO QUERO ESTE JESUS CRISTO.

21º Domingo do Tempo Comum: “E vós, quem dizeis que eu sou?”

Esta é a questão decisiva que marca o fim da primeira parte do evangelho de Mateus… Questão que continua hoje a ser posta a cada um de nós, e todos somos convocados a respondê-la.
A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 21º Domingo do Tempo Comum (Domingo, 24 de Agosto de 2014). A tradução é de Francisco O. Lara e João Bosco Lara.

Eis o texto.

Referências bíblicas
1ª leitura: Isaías 22,19-23
2ª leitura: Romanos 11,33-36
Evangelho: Mateus 16,13-20

Rumo à prova decisiva
Este texto do capítulo 16 de Mateus perde muito do seu significado quando separado dos versículos 21-28 que vêm logo a seguir e que só serão lidos no próximo domingo. De fato, Jesus está à véspera de partir para Jerusalém onde será crucificado (versículo 21, fora da leitura). Seus discípulos irão conhecer a prova maior da fé: é possível ter vindo de Deus, para estabelecer o seu «Reino», um homem que foi superado pelo complô dos que não aceitam a sua mensagem? E se não é o enviado de Deus, quem é ele? Daí vem a questão que abre este relato: «Quem dizem os homens ser o Filho do homem?» A resposta é significativa: Jesus não é visto apenas como uma espécie de reencarnação de um personagem do passado, mas é classificado ainda entre os personagens religiosos tradicionais. Não se vê o que ele tem de excepcional, de único. E os discípulos que estão próximos a Jesus, que não se contentam em escutar os seus ensinamentos, mas compartilham de sua vida? Eles, precisamente, irão estar na primeira linha nesta prova de fé decisiva que se vai ter de atravessar e que vai fazê-los duvidar. «E vós, quem dizeis que eu sou?» Este «vós» dirige-se prioritariamente aos Doze. Em nome deles, Pedro responde com uma profissão de fé que só poderá encontrar a sua forma e ganhar o seu sentido pleno à luz da Ressurreição. Sem que possam defini-la, os discípulos pressentem já, desde os primeiros encontros, a identidade secreta de Jesus, mas será na Páscoa, anunciada aqui no versículo 21, que ela se fará declarar em plena luz do dia.

"Tu és o Filho do Deus vivo"
Porque aceita morrer na cruz é que Jesus pode ser reconhecido como Filho de Deus, ou seja, perfeita imagem e semelhança de Deus. «Odiado sem razão» (João 15,25), foi de fato também sem razão que ele nos deu o seu amor. Ele pôs no mundo o amor com o qual o Pai, a Origem, nos ama: Foi, com efeito, «sem razão» que Deus nos fez existir. Vamos, no entanto, repetir que, aqui, a palavra Filho não tem o seu sentido habitual; por isso a escrevemos com uma maiúscula. Para João (1,1-5), o Verbo existe desde sempre, fora do tempo. Não vem depois de Deus, mas, se podemos dizer isto sem colocar Deus no tempo, Ele é contemporâneo de Deus. Paulo, em Colossenses 1,15-17, dirá que Ele é «a Imagem do Deus invisível», o que é um paradoxo. Como pode o invisível ter uma imagem? Ele é «o Primogênito de toda a criatura». Anterior a tudo, porque tudo o que existe só existe n’Ele e por Ele. Esta Palavra criadora, que habita o homem como um fermento para fazê-lo crescer, emerge quando aparece Jesus. Só então a nossa criação faz-se completa: o Cristo é o homem do final, o homem totalmente perfeito, o «Filho do homem», imagem humana do Deus invisível e, por aí, o Filho de Deus. O filho é, com efeito, imagem e semelhança: esta fórmula empregada para definir o homem em Gênesis 1,26 é repetida em 5,1 e utilizada novamente a propósito do primeiro filho de Adão. O Filho de Deus está em gestação no homem por toda a eternidade de Deus.

"E tu és Pedro"
Em Jesus, as pessoas viam apenas o filho do carpinteiro de Nazaré; só a fé poderia fazê-los pressentir a plenitude da sua identidade. O mesmo vale para Simão: vendo-o, diz-se que é o «Filho de Jonas». Perfeito! Só que, neste instante, não é esta herança, esta filiação de carne e sangue que está falando por ele, mas sim a sua origem absoluta, Aquele que é o Pai de tudo o que existe e que em Cristo foi criado. Simão torna-se «Pedro». Na Bíblia, a mudança do nome significa uma mudança de destino. Abrão, «pai muito elevado», torna-se Abraão, «pai de multidões»; Jacó torna-se Israel, «forte contra Deus»… O que significa «Pedro»? O rochedo sobre o qual se pode apoiar e construir, porque é sólido e não decepciona. É o próprio Deus: «Deus é o meu rochedo, a minha fortaleza, o meu libertador…» (2 Samuel 22,2…). O mesmo vale para o rochedo que Moisés “ferirá” com a sua vara, para fazer jorrar a água (Êxodo 17,1-7). Paulo vê neste rochedo (ao qual acrescenta a faculdade de mover-se, qualificando-o como «espiritual») uma figura do Cristo (1 Coríntios 10,4). Mas a pedra pode tornar-se uma pedra de tropeço que provoca a queda do transeunte que nela venha a tropeçar. Simão recebe a missão de se tornar a pedra sobre a qual será construído o edifício da fé. Mas aqui, no final do relato, o vemos tornar-se a pedra sobre a qual se tropeça. Agora é a sua herança humana que está falando por ele, e não a voz do Pai.

RETIRO DA ORDEM TERCEIRA. A Palavra do Frei Raimundo.

21º Domingo do Tempo Comum: Que dizemos nós?

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 16, 13-20 que corresponde ao 21º Domingo do Tempo Comum, ciclo- A do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto

Também hoje nos dirige Jesus aos cristãos a mesma pergunta que fez um dia aos Seus discípulos: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”. Não nos pergunta só para que nos pronunciemos sobre a Sua identidade misteriosa, mas também para que revejamos a nossa relação com Ele. Que Lhe podemos responder a partir das nossas comunidades?
Conhecemos cada vez melhor Jesus, ou temo-Lo “encerrado nos nossos velhos esquemas aborrecidos” de sempre? Somos comunidades vivas, interessadas em colocar Jesus no centro da nossa vida e das nossas atividades, ou vivemos presos na rotina e na mediocridade?
Amamos Jesus com paixão ou converteu-se para nós numa personagem gasta a quem continuamos a evocar enquanto no nosso coração vai crescendo a indiferença e o esquecimento? Quem se aproxima das nossas comunidades pode sentir a força e o atrativo que tem para nós?
Sentimo-nos discípulos e discípulas de Jesus? Estamos aprendendo a viver com o Seu estilo de vida no meio da sociedade atual, ou deixamo-nos arrastar por qualquer reclame mais apetecível para os nossos interesses? É igual viver de qualquer maneira, ou temos feito da nossa comunidade uma escola para aprender a viver como Jesus?
Estamos aprendendo a olhar a vida como a olhava Jesus? Olhamos a partir das nossas comunidades para os necessitados e excluídos, com compaixão e responsabilidade, ou encerramo-nos nas nossas celebrações, indiferentes ao sofrimento dos mais desvalidos e esquecidos: os que foram sempre os prediletos de Jesus?
Seguimos Jesus colaborando com Ele no projeto humanizador do Pai, ou continuamos a pensar que o mais importante do cristianismo é preocupar-nos exclusivamente com a nossa salvação? Estamos convencidos de que o modo de seguir Jesus é viver cada dia fazendo a vida mais humana e mais feliz para todos?
Vivemos o domingo Cristão celebrando a ressurreição de Jesus, ou organizamos o nosso fim de semana vazio de todo o sentido cristão? Temos aprendido a encontrar Jesus no silêncio do coração, ou sentimos que a nossa fé se vai apagando afogada pelo ruído e o vazio que há dentro de nós?
Acreditamos em Jesus ressuscitado que caminha conosco cheio de vida? Vivemos acolhendo nas nossas comunidades a paz que nos deixou em herança aos Seus seguidores? Acreditamos que Jesus nos ama com um amor que nunca acabará? Acreditamos na Sua força renovadora? Sabemos ser testemunhas do mistério de esperança que levamos dentro de nós?

ELZA BLOISE: Missa de Corpo Presente-01

A Voz do Pastor - 21º Domingo Tempo Comum - Domingo 24/08/14

IGREJA DA ORDEM TERCEIRA DE SALVADOR: Um Olhar

sábado, 16 de agosto de 2014

Eu não quero este Jesus Cristo

Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita Jornalista.

         Eu não quero este Jesus Cristo que fala alto nos palanques e na TV, corre, condena, grita e transforma a sua mensagem em poluição audiovisual. Não, o meu Jesus não é o Jesus do marketing, dos grandes shows, da corrida pelo ibope. Ele não é fashion, não tem cor. Ele ultrapassa as religiões, os ritos, os dogmas, ama a todos sem pré-conceitos, fala pouco, perdoa, contempla e ora. Passa na brisa suave e mora nas favelas, nas florestas, nos morros, nas montanhas e no silêncio da madrugada triste das penitenciárias, dos abrigos e das casas de recuperação dos drogados.
Eu não quero este Jesus dos templos televisivos. Não, o meu Jesus caminha com o mendigo no silêncio da noite, sorri com o ancião abandonado em um asilo, dorme com os menores nos viadutos das grandes metrópoles. Silencia na dor dos índios, na saudade dos migrantes, nas alegrias e tristezas do agricultor. Ele Ressuscita na luta de cada comunidade, no grito dos homossexuais espancados, das prostitutas, travestis, das lésbicas e drogados. Sim, o meu Jesus é trindade e se faz presente em cada grupo social na marcha contra os políticos corruptos e desumanos.
Eu não quero este Jesus Cristo competitivo no mercado financeiro da marca Bombril, com mil e uma utilidades. Eu fujo do sagrado comercial e sexualmente sedutor, consumido e comido nas fartas mesas do sistema econômico. Não, o meu Jesus não tem preço ou marca, Ele não se queima, não se corrompe e não se vende. Ele é frágil, humilde, carinhoso, misericordioso, manso, pequenino e só os puros de coração poderão ver e contemplá-lo.
Eu não quero este Jesus Cristo pop estar estampado nas camisetas, disputando espaço com a Madonna, o Pelé, o Justin Bieber, o Neymar, a Lady Gaga e todos os artistas e personalidades mundiais. Não, o meu Jesus não gosta de ser reconhecido. Ele não é o super-homem, ao contrário, foi condenado e crucificado em uma cruz. O meu herói caminha com os presos políticos, com os mutilados, desesperados e sedentos de paz e igualdade social.

Eu não quero este Jesus Cristo do cinema 3D, HD e digital que enriquece empresários do sagrado e transforma os seguidores em fanáticos. Não, o meu Jesus não tem tablet, aiphone ou iPad. Ele vive escondido em um pequeno casebre castigado pelas enchentes, sofre com a seca, as chacinas, a prostituição infantil e as epidemias, chora com os aidéticos e vive a procura de um pedaço de terra e de um teto para morar. Ele é o mesmo de ontem, de hoje e de sempre, porém, muitos não o aceitam, não o procuram e fecham os olhos para não o ver.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 670. A importância do voto.

Frei Petrônio de Miranda - A Importância da Comunicação para Igreja

ASSUNÇÃO: Homilia do Frei Petrônio de Miranda.

CARMELITAS EM BRASÍLIA: Posse do Frei Alexandre-01.

A NOITE TRAIÇOEIRA.

Frei Petrônio de Miranda, Padre e Jornalista Carmelita. 

“Ainda se vier, noites traiçoeiras, se a cruz pesada for, Cristo estará contigo, e o mundo pode até, fazer você chorar, mas Deus te quer sorrindo....”. Esta é a música tocada de norte a sul, de leste a oeste do nosso Brasil. Não apenas nas igrejas mas também em rádios e tvs. Por que tal música é tão querida pelas diferentes classes sociais? O que ela tem de especial em sua letra e melodia para cair na boca do povo? Será que somos vítimas de traiçoeiros? Será que vivemos na chamada noite escura, noite esta vivenciada pelo místico São João da Cruz, Frade Carmelita, em seu poema e na sua vida? Será que gostamos de carregar as pesadas cruzes da vida? Será que o mundo só nos traz tristezas e choros? Quando Deus nos quer sorrindo?
Meu caro leitor, essas interrogações são os ingredientes da “noite traiçoeira”, música bonita, não apenas na profundidade da letra como também na melodia. Quem nunca teve uma amizade quebrada ou um amor traído? Quem não passou por uma noite traiçoeira, daquelas que parecem infinitas na qual torna-se quase impossível se perceber o raiar do sol no novo dia?. São João da Cruz a chamava da noite da purificação. Ou seja, são momentos escuros da nossa vida que nos jogam contra a parede e nos fazem ver a nossa miséria e a nossa fragilidade humana. Sem essa noite, somos incapazes de vislumbrar a importância da luz ou da perspectiva de um novo dia que está logo ali. Na verdade, o que é preciso para encontrarmos a luz é darmos o primeiro passo; mas, às vezes, preferimos ficar na eterna escuridão, a exemplo do mito da caverna de Platão.
Muitas vezes somos tentados a nos acostumar com as escuridões da vida. Achamos que tudo é normal, que é à vontade de Deus. Ou ainda que é o nosso destino sofrer. Eu lhe pergunto: Você quer a dor, a escuridão e a morte para o seu filho? Se você não quer o mal para o seu filho, e Deus, que é a infinita bondade, será que Ele vai desejar que você fique na noite escura  da depressão, da desconfiança diante do seu marido, do medo ou do estresse? Claro que não. Portanto, está esperando o quê? Os nossos olhos foram feitos por Deus não apenas para derramar lágrimas, mas sim para ver o brilho das estrelas, principalmente quando a noite é escura.           
            “Deus te quer sorrindo”. Essa afirmação vai contra a teologia que afirma nas entre- linhas que o nosso Deus é do sofrimento e não do riso. Confirme esta minha afirmação através do filme: “O Nome da Rosa”. Gostaria ainda de lhe perguntar: Você já viu imagem de algum santo sorrindo? Você já viu uma pintura de Jesus Cristo sorrindo? Se não viu, olhe o painel da Igreja Matriz e veja uma foto rara de Jesus Cristo sorrindo. Dom Bosco- o santo, referência na educação em várias capitais do Brasil e diversos países, é representado através de uma imagem, que na sua fisionomia, aparece o riso. O próprio santo conta-nos a história de Domingos Sávio, então seu aluno, hoje também santo-São Domingos Sávio. Era desejo dessa criança ser santo. Para tal, participava de todas as missas do colégio e fazia todas as devoções possíveis com tal objetivo. Percebendo o seu entusiasmo, exagerarado para uma criança, Dom Bosco pergunta: “por que você não sai da igreja”? Ele disse- quero ser santo. O educador então lhe responde: “Viva com os seus colegas, jogue bola, corra, brinque, seja uma criança feliz que você será santo”. A partir daquele momento, Domingos Sávio começou a ter uma vida normal como todas as crianças, colocando Deus em primeiro lugar. Mais tarde, o discípulo e mestre foram reconhecidos como santos.
            Ao terminar a minha reflexão gostaria de lhe perguntar: Você sente gosto, prazer e tesão pela vida? Quantas vezes você saiu com os seus filhos para conversar, este ano, este mês, esta semana? Você pode me responder: Frei, eu trabalho, sou uma pessoa muito ocupada! E quando você estiver no seu leito de dor impossibilitado de caminhar? E quando você perceber que a vida passou na sua frente e você ficou para trás no mundo da depressão, do medo, da noite escura, alimentando as noites traiçoeiras da vida?. Viva enquanto é tempo. Depois, não venha culpar a sua família, o seu marido, a sua mulher, vizinho, o gato, o cachorro e o papagaio pelos seus problemas. A vida é sua. Se você não a vive, quem é que vai viver por você? Eu é que não vivo, Deus me livre! Eu quero é sorrir, frequentar a academia, correr todos os dias, caminhar, assistir a um bom filme, sentar em uma mesa com meus amigos e amigas. Enfim, viver! Chega de chororô e deprê!!! Quem fica parado é poste.         


A voz do Pastor - Assunção de Nossa Senhora - Domingo 17/08/14

CARMELITAS EM BRASÍLIA: Posse do Frei Alexandre-02.

CARMELITAS EM BRASÍLIA: Posse do Frei Alexandre-01.