Total de visualizações de página

Seguidores

Mostrando postagens com marcador El Salvador. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador El Salvador. Mostrar todas as postagens

sábado, 31 de outubro de 2015

Dossiê - Mártires de El Salvador: Seis Padres Jesuítas e Duas Mulheres foram Assassinados.

Há exatos 20 anos, seis padres jesuítas e duas mulheres foram assassinados a sangue frio no campus da Universidade Centro-Americana José Simeón Cañas (UCA), em El Salvador. Entre eles, estavam o reitor da universidade, Ignacio Ellacuría, e o vice-reitor, Ignacio Martín-Baró. Paramilitares do Exército Salvadorenho invadiram a residência dos jesuítas com o objetivo único de matar aqueles que incomodavam a ditadura. Para recordar o martírio e a luta destes militantes que almejavam a liberdade e o bem social de El Salvador, a IHU On-Line desta semana preparou o dossiê a seguir. Leia um breve perfil dos mártires e, em seguida, algumas entrevistas que lembram seu legado e memória.

Por: Patricia Fachin
O Instituto Humanitas Unisinos – IHU também exibirá o debate Memory and it Strength: The martyrs of El Salvador (A memória e sua força: Os mártires de El Salvador), que irá ocorrer no Boston College,  nos EUA, no próximo dia 30 de novembro. Mediados pelo jesuíta e reitor emérito do Boston College, J. Donald Monan, Noam Chomsky e o jesuíta, teólogo Jon Sobrino irão discutir a importância dessa memória. A exibição no IHU corre em 10 de dezembro, dia Internacional dos Direitos Humanos, em um evento que marca a inauguração da sala Ignacio Ellacuría e companheiros, no IHU. Confira.

Ignacio Ellacuría (1930-1989)
Ignacio Ellacuría nasceu em Portugalete, província de Vizcaya, Espanha, no dia 9 de novembro de 1930. Foi o quarto de cinco filhos. Depois de concluir o ensino primário na cidade natal, Ellacuría continuou os estudos no Colégio dos Jesuítas de Tudela. Em 1949, junto com outros cinco noviços, foi enviado para o noviciado da Companhia de Jesus em Santa Tecla, El Salvador, e fez os votos de pobreza, obediência e castidade.
Completou seus estudos de Ciências Humans e estudou Filosofia em Quito. Na Áustria, cursou Teologia e foi influenciado pelos ensinamentos de Karl Rahner.  No ano de 1961, foi ordenado sacerdote em Innsbruck e fez os últimos votos como jesuíta em 1962, em Portugalete, onde nasceu. Nesta época, também realizou o doutorado em Madri, na Universidade Complutense, sob a direção de Xavier Zubiri,  dando origem à tese La principialidad de la esencia en Xavier Zubiri.
Em 1967, Ellacuría retornou a El Salvador para atuar como professor na Universidade Centro-Americana (UCA). Nos primeiros anos da década de 70, foi responsável pela formação dos jovens jesuítas da Província da América Central. Neste período, também foi nomeado Diretor do Departamento de Filosofia da UCA e, posteriormente, em 1973, publicou o livro Teologia Política, editado também em inglês, em Nova York, sob o título Freedom Made Flesh: The Mission of Christ and His Church. No ano seguinte, Ellacuría fundou o Centro de Reflexão Teológico da UCA. Assumiu a reitoria da UCA em 1979.

Confrontos em El Salvador
Nomeado diretor da revista Estudios Centroamericanos (ECA), Ellacuría, em 1976, publicou o editorial intitulado “A sus órdenes, mi capital”, o qual ocasionou a retirada do apoio do governo salvadorenho à UCA e gerou a violência paramilitar contra a Universidade. Ellacuría foi exilado na Espanha entre 1977 e 1978. No ano seguinte, El Salvador iniciou uma longa guerra civil que durou doze anos. Os jesuítas começaram a receber ameaças de morte e, em 24 de março de 1980, o arcebispo de San Salvador, Oscar Romero  foi assassinado durante a celebração da Eucaristia. Neste mesmo ano, Ellacuría retornou ao exílio. Na Espanha, participou da primeira reunião das religiões abraâmicas, em 1987. No encontro, expressou publicamente a necessidade de encontrar um terreno comum para superar os conflitos em El Salvador. Defendeu assim, a contribuição da Teologia da Libertação nas religiões abraâmicas para superar o individualismo e o positivismo.  
Ellacuría retornou a El Salvador em 13 de novembro de 1989 para tentar mediar a paz. Em 16 de novembro do mesmo ano, foi morto por um pelotão do Batalhão Atlacatl das Forças Armadas de El Salvador, na residência da Universidade UCA, junto com outros cinco jesuítas: Ignacio Martín-Baró, Segundo Montes, Amando López, Juan Ramón Moreno e Joaquin López y López. Também foram mortas Elba Julia Ramos, funcionária da residência, e sua filha, Celina, de 15 anos.

Obras
Ellacuría publicou várias análises de conjuntura da realidade salvadorenha e artigos sobre filosofia e teologia. Negou-se a publicar livros pela Editora UCA, pois considerava isto antiético. Seus livros foram publicados postumamente. Entre eles, citamos Filosofía de la Realidad histórica; Veinte años de historia en El Salvador; Escritos filosóficos; Escritos teológicos; e Escritos universitarios.

Ignacio Martín-Baró (1942-1989)
Ignacio Martín-Baró nasceu em 7 de novembro de 1942, em Valladolid, na Espanha. Ingressou no noviciado da Companhia de Jesus no ano de 1959, sendo transferido para Santa Tecla, em El Salvador, onde concluiu o noviciado em 1961. Escritor e professor universitário, publicou onze livros e uma vasta lista de artigos científicos e culturais em diversas revistas latino-americanas e estadunidenses. Regressando às raízes históricas da psicologia, ele falava em psicologia social e psicologia da libertação e argumentava que sobre o psicológico recai a tarefa de ajudar a consciência humana a ter uma compreensão maior de sua identidade pessoal e social. Confira a seguir alguns fatos relevantes da vida de Martín-Baró.
1965 - Obteve o bacharel em Filosofia e Letras, pela Universidad Javeriana, em Bogotá, Colômbia. Depois de morar alguns anos em Bogotá, retorna a El Salvador;
1967 - Inicia sua carreira de professor acadêmico na UCA;
1970 - Conclui o bacharelado em Teologia em Eegenhoven, na Bélgica;
1975 - Concluiu licenciatura em Psicologia pela Universidade Centro Americana Simeón Cañas (UCA);
1979- Conclui doutorado em Psicologia Social;
1981 - Assume o cargo de vice-reitor acadêmico da UCA;
1986 - Fundou e foi diretor do Instituto Universitario de Opinión Pública – IUDOP, além de atuar como professor convidado em muitas universidades. Também foi vice-presidente da Sociedad Interamericana de Psicologia.

Segundo Montes (1933-1989)
Segundo Montes nasceu em Valladolid, em 15 de maio de 1933. Permaneceu na cidade natal até 1950, onde realizou seus primeiros estudos e, em seguida, ingressou no noviciado de Santa Tecla, em El Salvador. Dois anos depois, concluiu o noviciado e foi enviado para Quito cursar Ciências Humanas na Universidad Católica. Ficou conhecido entre os colegas por seu desejo de compreender melhor a realidade social salvadorenha. Dedicou-se aos estudos sobre a estratificação social e os militares. Identificou ainda, na década de 80, um fenômeno curioso: a baixa do dólar, ou seja, os salvadorenhos que viviam nos EUA não tinham mais condições de enviar dólares para os familiares que residiam em El Salvador. Este fato o alertou sobre a importância da emigração salvadorenha para a economia nacional. Confira alguns aspectos de sua história.
1957 - Concluiu o curso de Licenciatura em Filosofia em Quito;
1964 - Obteve o título de Teologia em Innsbruck, na Áustria;
1957-60, 1966-76 - Desempenhou vários cargos, inclusive foi reitor do Colégio Externado de San José, em El Salvador;
1970-76 -Decano da Faculdade de Ciências do Homem, na UCA;
1978 - Concluiu o doutorado em Antropologia Social em Madri;
1978-82 - Foi chefe de redação da revista Estudios Centroamericanos (ECA);
1985 - Fundou e coordenou o Instituto de Derechos Humanos - IDHUCA. Pesquisou sobre direitos humanos e denunciou muitas situações de refugiados.

Joaquín López y López (1918 – 1989)
Joaquin López y López nasceu em Chalchuapa, em El Salvador, no dia 16 de agosto de 1918. Iniciou seus estudos em Santa Ana e os concluiu em Santa Tecla, em El Salvador, no ano de 1938. Nesta mesma data, entrou para o noviciado da Companhia de Jesus, em El Paso, no Texas, EUA. Formou-se em Ciências Humanas e Filosofia em meados da década de 40. Retornou para a América Central e permaneceu por alguns anos no Colégio Externado, em El Salvador. Em 1949, mudou-se para Saint Mary’s, no Kansas, onde estudou Teologia. Enviado para a Espanha em 1951, foi ordenado sacerdote no ano seguinte. Ficou conhecido pela fala: “Se teus projetos são para cinco anos, semeie trigo; se são para dez anos, semeie uma árvore; mas se são para cem anos, eduque o povo”. Conheça outros aspectos da vida de López y López.
1961 – Coordena a construção da Capela do Colégio Externado de San José;
1964 – Trabalhou na campanha de aprovação da lei de universidades privadas;
1969 – Fundou e coordenou a "Fe y Alegría", um movimento de educação popular integral, o qual dirige setores empobrecidos e excluídos da sociedade. A organização dispõem de  30 centros educativos de 8 departamentos. O projeto atendeu 48.000 beneficiados até 1989.

Armando López (1936 – 1989)
Armando López nasceu em Cubo de Bureda, Espanha, no dia seis de fevereiro de 1936. Entrou para o noviciado em 1952. Como seus colegas jesuítas, também foi enviado à Santa Tecla, em El Salvador. Em Quito, estudou Filosofia e Ciências Humanas na Universidad Católica e concluiu os cursos no final dos anos 50. Foi enviado para a Nicarágua, onde atuou como professor de matemática no Colégio Centro América de Granada. Cursou Teologia em Dublin, na Irlanda, e foi ordenado sacerdote no ano de 1965. Realizou seu doutorado na Universidad Gregoriana, em Roma, entre 1967 e 1968. Nos momentos mais duros da repressão ditatorial de El Salvador, Amando López abriu as portas do colégio para acolher famílias necessitadas, professores e seus familiares. Confira alguns aspectos de sua vida.
1971-72 – Concluiu o doutorado em Ciências Religiosas na França, foi reitor do Seminário San José de La Montaña;
1973 – Atuou como docente no curso de filosofia na UCA, em El Salvador;
1979 – Foi reitor da UCA de Manágua;
1984 – Foi professor de Teologia e Filosofia e coordenador do curso de Filosofia da UCA, em El Salvador.

Juan Ramón Moreno (1933-1989)
Nasceu em Villatuerta, Espanha, no dia 29 de agosto de 1933. Seus primeiros estudos foram realizados em Bilbao, entre 1938 e 1943. Entrou para o noviciado da Companhia de Jesus de Orduña, em 1950, e, um ano depois, foi transferido para Santa Tecla. Estudou Ciências Humanas e Filosofia e foi ordenado sacerdote em Saint Mary’s, no Kansas, EUA, em 1964. No ano de 1958, ao concluir os estudos em Quito, retornou para a Nicarágua, onde foi professor de química no Colégio Centro América de Granada, na Nicarágua.
No início dos anos 1980, Moreno participou com entusiasmo na campanha de alfabetização da Nicarágua. Também foi especialista em moral e fez uma síntese entre as ciências e a moral, unindo bioética com a moral cristã. Confira mais alguns aspectos da vida de Moreno.
1965 – Concluiu o curso de Teologia em Missouri;
1971 – Iniciou sua carreira como docente na UCA, em El Salvador; 
1976-80 – Fundou e coordenou o Centro Ignaciano de Centroamérica no Panamá;
1980 – Coordenou o Instituto de Ciências Religiosas na Nicarágua;
1985 – Ensinou Teologia na UCA, organizou a biblioteca do Centro de Reflexión Teológica, supervisionou a construção do Centro Monseñor Romero.

Elba y Celina Ramos
Elba nasceu em Santiago de Maria, no dia 5 de março de 1947. No final da década de 1960, ela conheceu seu esposo Obdulio. Durante alguns anos, eles viveram em uma fazenda, nos arredores de Santa Tecla, El Salvador. No ano de 1973, nasceu Celina, a terceira filha do casal – o primeiro filho nasceu morto e o segundo faleceu meses após o nascimento. Até 1985, a família morou em diferentes regiões de El Salvador, sempre em busca de empregos que garantissem melhores condições de vida. Neste ano, Elba trabalhava como cozinheira na residência dos jesuítas, em Antiguo Cuscatlán, município de El Salvador. Quatro anos mais tarde, em 1989, Obdulio conseguiu um emprego como jardineiro da UCA. Ambos trabalhavam com os jesuítas e moravam numa casa recém-feita, junto ao portão de entrada da residência, na avenida Eistein, em El Salvador. 
No dia 16-11-1989, Obdulio foi o primeiro a encontrar o corpo da esposa, da filha e dos jesuítas assassinados por paramilitares do Exército salvadorenho.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Reconhecido o martírio de Romero

Romero é mártir. Foi morto in odium fidei. João Paulo II já repetia isso com voz flébil em novembro de 2003, falando com alguns bispos salvadorenhos que foram a Roma em visita ad limina. Também atestaram nessa quinta-feira, com voto unânime, os membros do Congresso dos Teólogos da Congregação para as Causas dos Santos, reconhecendo o martírio formal e material do arcebispo, morto no altar enquanto celebrava a missa no dia 24 de março de 1980.
A reportagem é de Gianni Valente, publicada no sítioVatican Insider, 09-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
A revelação é de Stefania Falasca no jornal Avvenire, acrescentando que "agora, segundo a práxis canônica, só resta o juízo do Congresso dos Bispos e dos Cardeais e, enfim, a aprovação do papa para a conclusão do processo que o levará em breve à beatificação".
Percorrendo todos os passos do processo, a autora do artigo ressalta que o pronunciamento sobre o martírio de Romero"certamente marca o ápice de uma causa conturbada", em que acusações e as tentativas de frear ou de encobrir o caminho do bispo mártir rumo à beatificação muitas vezes haviam se revestido de argumentações teológicas e doutrinais.
Por isso, o pronunciamento dos teólogos que colaboram com o dicastério vaticano para os Santos e parece dirimente e crucial, bem mais do que o próximo – e evidente – nihil obstat dos bispos e dos cardeais membros da própria Congregação.
O reconhecimento do martírio de Romero confirma de maneira definitiva que o arcebispo salvadorenho foi morto in odium fidei. O que impulsionou os executores não foi a simples ânsia de matar um inimigo político, mas o ódio desencadeado pelo amor pela justiça e pela predileção dos pobres que Romero manifestava como reverberação direta da sua fé em Cristo e da sua fidelidade ao magistério da Igreja.
No delírio sangrento que martirizava El Salvador naqueles anos atrozes, Romero foi o bom pastor disposto a oferecer a vida para seguir a predileção pelos pobres própria do Evangelho. A fé – reconheceram os teólogos do dicastério vaticano – era a fonte da sua obra, das palavras que ele pronunciava e dos gestos que ele fazia no contexto conturbado em que ele era chamado a agir e a viver como arcebispo.
O pronunciamento dos teólogos da Congregação limpam décadas de operações voltadas a propagandear uma interpretação apenas política da eliminação de Romero. O reconhecimento do seu martírio in odium fidei confirma que, no El Salvador dos esquadrões da morte e da guerra civil, a Igreja sofria uma perseguição feroz por parte de pessoas que, ao menos sociologicamente, eram cristãs.
O desencadeamento do ódio que o matou era cultivado e compartilhado também por setores da oligarquia, acostumados a ir à missa ou a fazer ofertas e doações para as instituições eclesiásticas. Incluindo as associações das chamadas "mulheres católicas" que publicavam nos jornais acusações e maldades fabricadas artisticamente contra ele.
O nihil obstat dos teólogos também dissipa a cortina de fumaça de insinuações montadas artisticamente para creditar a fábula do Romero pró-guerrilheiro, agitador político, influenciado e subjugado pelo marxismo. O processo para a causa de beatificação – cujo postulador é o arcebispo Vincenzo Paglia – verificou com autoridade e definitivamente aquilo que sempre repetiam todos os amigos do bispo mártir: Romero – como escreveu o professor Roberto Morozzo della Rocca– era um "sacerdote e bispo romano, obediente à Igreja e ao Evangelho através da Tradição", chamado a desempenhar o seu ministério de pastor "naquele Ocidente extremo e abalado que era a América Latina daqueles anos", onde as forças militares e os esquadrões da morte reprimiam ferozmente um povo inteiro em nome da oligarquia. Onde os sacerdotes e os catequistas eram mortos e, no campo, tornava-se perigoso possuir um Evangelho. Onde bastava pedir justiça para ser tachado de comunista subversivo. Onde a Igreja era perseguida porque se isentava do papel de braço espiritual do poder oligárquico.
No entanto, por anos, depois do ano 2000, a causa de Romero permaneceu parada, com a motivação de que todas as homilias e os escritos do bispo salvadorenho deviam ser submetidos a exame pela Congregação para a Doutrina da Fé, para verificar a sua ortodoxia. Naqueles anos, que assumiu um papel preponderante na gestão do dossiê Romero – e que pressionou para que a causa não seguisse em frente – foi particularmente o cardeal colombiano Alfonso López Trujillo, naquele tempo influente consultor do ex-Santo Ofício, falecido em 2008.
Naquele momento, chegaram à Congregação para as Causas dos Santos disposições orientadas no sentido do adiamento. Segundo alguns setores, levar Romero à honra dos altares equivalia a beatificar a Teologia da Libertaçãoou até mesmo os movimentos populares de inspiração marxista e as guerrilhas revolucionárias dos anos 1970. Por isso, de acordo com alguns, as motivações do martírio in odium fidei não podiam ser aplicadas ao seu caso, enquanto haviam servido para levar à honra dos altares, em 2010, Jerzy Popieluszko, o sacerdote de 37 anos assassinado em 1984 por um comando dos serviços de segurança da Polônia comunista.
Agora, parece ter chegado o momento também de Oscar Arnulfo Romero. Só resta esperar. E não será preciso esperar muito, se levarmos em conta que, para a beatificação dos mártires, não é necessária a confirmação canônica de um milagre realizado pela sua intercessão.



quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O arcebispo que não precisou do Vaticano para ser santo

“A devoção ao ‘São Romero da América’ começou nos anos oitenta, em plena guerra civil, como demonstra as placas deixadas por salvadorenhos anônimos em agradecimento por algum milagre recebido”, é o que afirma Roberto Valencia, jornalista e autor do livro “Hablan de Monseñor Romero” (Fundação Dom Romero, São Salvador, 2011) e trabalha em clic El Faro. O artigo é publicado por BBC Mundo, 25-08-2014. A tradução é do Cepat. Fonte: http://goo.gl/dgCAcb

Eis o artigo.
O papa Francisco falou diretamente do céu sobre o mártir venerado por centena de milhares de pessoas em El Salvador – e além dele – como “São Romero da América”. E “falar do céu” não é uma licença poética: a coletiva de imprensa foi realizada a bordo do Airbus A330 da Alitalia que o levava de volta para Roma, após cinco dias na Coreia do Sul.
É tarde de segunda-feira, 18 de agosto de 2014. Um jornalista felicita o papa pelo seu inglês, aproveita para pedir-lhe, veladamente, uma entrevista, e o interpela: “Como vai o processo de Dom Romero? Como gostaria que ele fosse concluído?”.
Referia-se a Óscar Arnulfo Romero y Galdámez (1917-1980), o arcebispo de São Salvador assassinado de um disparo no peito enquanto ministrava a missa na capela de um hospital para doentes terminais de câncer, e cujo processo de beatificação está parado em Roma desde 1996.
A resposta entusiasmada do Papa Francisco é propagada em um minuto, mas não diz nada de novo; recorda que a causa está desbloqueada, reitera sua crença de que foi “um homem de Deus”, e explica que o caso continua ancorado na Congregação para a Causa dos Santos.
O único romantismo de seu discurso talvez seja o andamento recomendado aos proponentes: “depende de como irão se mover. É muito importante que o façam com rapidez”.

O salvadorenho mais universal
Desde que em 22 de fevereiro de 1977 tomou posse da arquidiocese de São Salvador, a relação do salvadorenho mais universal com seu povo tem sido imensa e sinuosa, como a estrada que sobre a um vulcão.
De tendência conservadora, sua nomeação ganhou no início o repudio dos setores progressistas, que o tinham como um bispo relacionado à oligarquia, papel que havia interpretado desde que, em 1944, iniciou seu trabalho pastoral em El Salvador.
A mudança foi radical e, em meados de 1977, censurava com firmeza o governo militar e denunciava a sistemática violação dos direitos humanos exercida pelo Estado e grupos paramilitares, ainda que também apontasse para os grupos armados que integravam a guerrilha da Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN).
Quando a ultradireita o assassinou em março de 1980, já era uma das vozes mais respeitadas da Igreja católica latino-americana, todo um referente da Teologia da Libertação, mesmo que Dom Romero nunca tenha se sentido parte desse movimento.
Em três anos havia ganhado o carinho de uma ampla porcentagem dos salvadorenhos, admiração acentuada nos estratos mais humildes da sociedade. O funeral foi um evento de massas que colapsou a capital.
A devoção para “São Romero da América” começou nos anos oitenta, em plena guerra civil, como demonstram as placas deixadas por salvadorenhos anônimos em agradecimento por algum milagre recebido.

Do silêncio oficial ao “guia espiritual”
Durante a guerra civil (1980-1992), o culto à sua figura foi clandestino, mas de uma honestidade formidável. Como testemunhos da incipiente fé nos “aspirantes a santos”, salvadorenhos anônimos esculpiram dezenas de placas “de milagres concedidos”, que hoje são expostos na modesta cabana na qual passou seus últimos anos de vida, que foi transformada em um pequeno, mas cativante museu.
A repressão governamental não rompeu sua aura, mesmo que ter um retrato seu colado na parede fosse suficiente para correr riscos. A salvadorenha Eleonor Chacón, uma mulher que não era politicamente ativa, mas tinha uma fotografia com ele por ter sido o sacerdote que a havia casado, queimou a imagem por sugestão de seu esposo.
O conflito civil, que deixou mais de 70 mil vítimas, desembocou nos governos do partido direitista Aliança Republicana Nacionalista (Arena), fundado por Roberto d'Auibuisson, o mentor intelectual do assassinato, de acordo com o Relatório da Comissão da Verdade, elaborado pelas Nações Unidas.
Foram duas décadas de absoluto silêncio, mas, como consequência dos espaços ganhos pelos Acordos de Paz de 1992, a sociedade civil e a Igreja começaram a se organizar para manterem viva sua memória, com procissões cada vez maiores e com mais visibilidade, principalmente em torno da data do assassinato.
Transformado em partido político, o FMLN tomou o poder em junho de 2009. Em seu discurso de posse, o agora ex-presidente Mauricio Funes não apenas invocou Dom Romero – algo inédito nos 20 anos da Arena -, como também o chamou de “meu mestre” e de “guia espiritual”. O fervor popular de boa parte da efervescência católica já estava assentada e, da noite para o dia, se sobrepôs a uma admiração institucional.
Durante os cinco anos de Funes, se rebatizou o aeroporto internacional e uma estratégica rodovia, a Casa Presidencial também se encheu de referências – um quadro gigantesco, uma importante sala de reuniões renomeada ... –, o governo organizou uma rota turística, e seu túmulo foi visitado pelos presidentes do Equador, Irlanda, Brasil... inclusive Barack Obama caminhou pelo porão da Catedral Metropolitana, onde estão os seus restos mortais.
Dom Romero se instalou no discurso oficial – o FMLN continua no poder, agora com o ex-guerrilheiro Salvador Sánchez Cerén como presidente–, mesmo que o compromisso com os mais necessitados e sua austeridade pareçam ser mais difíceis de assumir para a imensa maioria dos líderes políticos que o invocam.

Figura de culto
Já ameaçado de morte Dom Romero, que vivia em uma cabana de dois quartos, havia renunciou à proteção estatal (“Um bem-estar pessoal não me interessa enquanto ver em meu povo um sistema econômico, social e políticos que tenda, cada vez mais, a abrir essas diferenças sociais”, registrou em seu diário), e dou integralmente os US$10.000 que recebeu de uma universidade para a construção de um lar para crianças.
Já em 1978 três parlamentares britânicos o visitaram em representação dos 118 que haviam assinado a postulação oficial do salvadorenho para ao Prêmio Nobel da Paz.

E o culto se expandiu nos últimos cinco anos, além de ter se sofisticado.
As Nações Unidas entraram na onda e, desde novembro de 2012, reconhece o dia 24 de março, data na qual o assassinaram, como o Dia Internacional do Direito a Verdade em relação a Violações Graves dos Direitos Humanos e da Dignidade das Vítimas.

A atuação de Dom Romero como defensor dos direitos humanos não começou a edificar-se apenas com sua memória. Sua entrega foi reconhecida – em vida – por universidades dos Estados Unidos e Bélgica, com doutorados de Honoris Causa.

Em 24 de março de 2015 serão completos 35 anos do assassinato de Dom Romero.
A candidatura a Nobel da Paz não teve o êxito desejado por seus proponentes. Com o passar dos anos diferentes vozes denunciaram que do Vaticano, onde o Papa polonês João Paulo II acabava de se instalar, foi organizada uma campanha para neutralizar a possibilidade de que o incomodo Dom Romero recebesse um prêmio tão importante. Seja certo ou não, o Nobel da Paz em 1979 foi concedido a uma religiosa politicamente mais dócil: a Madre Teresa de Calcutá.
“Para mim Romero é um homem de Deus, mas o procedimento deve ser realizado, e o Senhor também tem que dar seu sinal... Se Ele o quiser, o fará. Contudo agora os proponentes tem que caminha porque não já não há impedimentos”, respondeu o papa Francisco ao jornalista que o consultou.
No dia 24 de março de 2015 se completarão 35 anos do assassinato de Dom Romero. Antes ou depois o papa Francisco voltará a se referir à questão da beatificação. E sua figura voltará a ser lembrada e venerada em El Salvador – principalmente, mas não apenas –, como já gostariam de serem lembrados e venerados tantos santos sem devotos da Igreja católica.

segunda-feira, 24 de março de 2014

34 ANOS DEPOIS: (24/03/1980- 24/03/2014: Dom Oscar Romero ajudou a fortalecer o compromisso com os mais pobres.


Ao passar sua mensagem de paz e justiça ao povo salvadorenho, Dom Romero nos deixou um legado importante de amor e luta. Um exemplo desse legado foi vivido por Anne Marie Crosville. A francesa conheceu Dom Romero numa favela no México e, neste momento, recebeu um convite para lutar junto com os salvadorenhos e levar a mensagem de que este povo lutava por paz e justiça à Europa. Anne Marie conta essa história e tudo o que aprendeu com Dom Romero nesta entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line. “O exemplo de Dom Oscar Romero me ajudou a melhorar e fortalecer meu compromisso ao lado dos mais pobres”, disse ela.
Anne Marie Crosville nasceu na França e é pedagoga. Ela já viveu em vários países do mundo. Hoje, mora em Cachoeirinha, região metropolitana de Porto Alegre, onde está à frente do Centro Infanto-Juvenil Luiz Itamar desde 1988.

Confira a entrevista.
A senhora trabalhou com Dom Romero, certo? Pode nos contar um pouco sobre como era ele?

Anne Marie – Eu conheci Dom Romero quando estava no México trabalhando numa favela com crianças e adolescentes de rua. Ele chegou a nosso bairro para visitar as famílias salvadorenhas que fugiam da guerra e da violência. Tinha sempre a preocupação de visitar seu povo e defender a vida deles contra a ditadura. Então, tive a oportunidade de conhecê-lo. Passei uma semana com ele em torno do bairro, mas não cheguei a trabalhar diretamente. Dom Romero me fez um convite para me solidarizar com o povo salvadorenho e poder ser sua mensageira quando voltasse para a Europa. Eu deveria dizer que o povo salvadorenho lutaria por justiça, dignidade e se voltaria contra a ditadura. Ele me fez esse convite para ser testemunha da luta do povo salvadorenho. O pedido mexeu muito comigo e, num primeiro momento, falei que não tinha vocação, que era um compromisso muito grande. Ele me disse, com sua voz muito terna e firme: “O convite está feito, mas você tem que pensar, pois precisamos de estrangeiros que apoiem essa luta tão sofrida”. Em setembro de 1979, ele me fez o convite e, em 24 de março de 1980, foi assassinado, o que foi muito forte para mim. Fui para El salvador depois e senti que era um chamado fazer essa experiência e apoiar o povo salvadorenho. Em 1983, entrei na zona de guerra e fiz um trabalho de alfabetização. O exemplo de Dom Oscar Romero me ajudou a melhorar e fortalecer meu compromisso ao lado dos mais pobres. Ele sempre estava lá pela Igreja e dizia que um Bispo não estava a serviço do poder, mas sim a serviço da vida.

Quais foram às circunstâncias do martírio de Dom Romero?
Anne Marie –
Ele foi ameaçado várias vezes de morte porque defendia sempre o povo. Falava na rádio todos os domingos, tratando da paz com justiça e dignidade, não como uma paz dos cemitérios. Na última homilia, falava para os soldados do exército que não podia continuar obedecendo à lei dos militares e dos comandantes, que tinham uma lei que matava os próprios irmãos, uma vez que os soldados eram originários do campo. Aos soldados, quando viviam no campo, diziam que iam ganhar muito dinheiro se aceitassem participar do exército militar. Ele falou para os soldados: “Vocês estão matando seus próprios irmãos. A lei de Deus é a lei da Fraternidade e da Justiça". Então você não pode obedecer a lei da morte. Assim, ele pediu para os soldados desobedecerem. Essas foram suas últimas palavras no rádio. No dia seguinte, ele celebrou uma missa num hospital onde morava. Romero tinha um quarto nesse hospital e durante a consagração o mataram a tiros. Ofereceu seu sangue, que se misturou ao sangue de Jesus. Até hoje, aqueles que o mataram estão soltos. Foi um choque muito grande para o povo, para os mais pobres, porque ele era a voz da justiça e do amor. No enterro dele, houve outro massacre, pois havia muitas pessoas presentes e cerca de 400 delas foram assassinadas. Isso porque havia franco-atiradores da oligarquia em cima dos telhados, matando aqueles que queriam homenagear Dom Romero.

O contexto em que viveu Oscar Romero é diferente do atual?
Anne Marie – O contexto em que ele viveu era de guerra civil. É um país que viveu muitos terremotos e sua construção é muito difícil, mas a esperança de agora é que o novo presidente, que ganhou a eleição recente, Mauricio Funes, mude a realidade. Depois de tantos anos de luta, agora a esquerda socialista ganhou a presidência. Eu tive de sair de lá em 1985, voltei dez anos depois e percebi que o povo continuava lutando pela reconstrução do país. Temos esperanças grandes no povo salvadorenho.

E, depois que Dom Romero morreu, que caminho a senhora percorreu?
Anne Marie –
Eu respondi ao convite que ele me fez uns meses antes. Senti o chamado. Me preparei para entrar na zona de guerra, entrei clandestinamente e fiz todo um trabalho de alfabetização dos combatentes. Eu não combatia com armas, mas sim para fazer acontecer a libertação através da educação. Acompanhei esse povo durante alguns anos. Para mim, foi a coisa mais forte da minha vida,pois acompanhei o povo de verdade,e o povo lutava para construir uma sociedade mais justa. Quando tínhamos de fugir dos militares que entravam nos acampamentos dos guerrilheiros, parecia que estávamos aminhando até a terra prometida. Foi muito forte isso em mim, marcou e renovou minha fé e meu compromisso ao lado dos pobres. Aprendi com os salvadorenhos que, a cada vez que caíam, não se falava de morte. Foi uma época muito intensa, mas tive de sair porque fui denunciada. Fui procurada, mas consegui sair e voltar para a França.

E por que a senhora veio para o Brasil depois?
Anne Marie – Eu trabalho em Cachoeirinha, na Vila Anair, um bairro bem pobre. Trabalho com crianças e adolescentes desfavorecidos. Vim para o Brasil só porque conheci um brasileiro daqui de Cachoeirinha. Foi uma escolha de amor. Ele era da fraternidade cristã de doentes e deficientes. Era uma pessoa parecida, talvez, com Oscar Romero, pois defendia a vida a partir de suas limitações, porque ele era tetraplégico. Ele teve esclerose e o conheci nos últimos anos de sua vida. Era quase totalmente paralisado, mas tinha uma força de vida, um sorriso... não sei, foi um amor bem bonito, intenso, mas durou pouco. Romero morreu em 1989, e ficamos um ano construindo esse projeto nessa vila onde estou. Ele deixou uma mensagem de lutar também por uma vida melhor.

E como à senhora vê a El Salvador de hoje, que acaba de colocar na presidência do país a linha que tem em Dom Romero o seu protagonista maior?
Anne Marie –Vejo o país com esperança, porque agora o presidente é da esquerda, da linha de Oscar Romero, se é que podemos dizer assim, pois ele não era de um partido, mas sim a favor da vida. Acho que essa vitória é um misto de promessa de vida melhor e uma recompensa para tanta gente que lutou. Eu tenho muita esperança apesar de ser cautelosa, pois não sei o que irá acontecer. Tenho muita fé de que o povo poderá viver um pouco melhor.
Que legado Dom Romero deixou, em sua opinião?
Anne Marie – Romero deixou bem claro que o compromisso nosso é estar ao lado dos mais pobres e dos que sofrem injustiça. É ir na contramão do poder dos ricos e dos conservadores. É amar com justiça e com dignidade, respeitar a cultura do povo e acompanhá-lo na sua vida cotidiana, sem importa uma doutrina. Ele deixou bem claro que quem não segue a vida com justiça não é cristão.