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sábado, 25 de julho de 2015

*A ORAÇÃO NA VIDA CARMELITANA: Reflexões e textos de autores carmelitanos sobre a Comunhão com Deus e a Oração no Carmelo (1ª Parte).

ESCONDE-TE NA TORRENTE DO CARIT
Frei Emanuele Boaga, O.Carm. In Memoriam.

Da: “Forma de vida dos primeiros monges” (ano 1370)
Elias, o primeiro monge, institui a vida monástica por inspiração de Deus. Do Retiro de Elias no Deserto. Do duplo fim da vida eremítica e da renúncia aos bens terrenos.

Este Elias, Profeta de Deus, foi o primeiro de todos os monges que existiram e nele teve princípio a santa e gloriosa instituição monacal.
Com a ânsia que sentia pela divina contemplação e o veemente desejo de progredir na virtude, retirou-se para longe das cidades e despojando-se de todos os interesses terrenos e mundanos, se propôs começar a viver a vida eremítica, religiosa e profética, consagrando-se a ela como ninguém até então havia feito, e com a inspiração e o impulso do Espírito Santo, começou a vivê-la e a instituiu.
Porque, aparecendo-lhe o Senhor, lhe ordenou que fugisse dos povoados dos homens e se escondesse no deserto, e vivesse dali em diante a vida monástica da maneira que lhe havia inspirado.
Isto se prova claramente com as palavras da Sagrada Escritura. Referindo-se a isto, lê-se no Livro dos Reis: “E falou o Senhor a Elias, dizendo-lhe: Sai daqui dirija-te para o Oriente e esconde-te na fonte do Carit, que está defronte o Jordão. Ali beberás da fonte e mandei aos corvos que te levem de comer. (III Rs, 3,4).
O Espírito Santo pôs em Elias um veemente desejo de executar tão santo e tão conveniente mandato que lhe havia inspirado, e o escolheu e fortaleceu para que pusesse em prática tão desejadas promessas.
Os Religiosos monges ermitães que somos, devemos meditar sempre mais cada uma destas palavras, não só no sentido literal histórico, mas principalmente no sentido místico, e com tanto maior solicitude, quanto nelas se encerra mais perfeitamente a instituição, isto é: o modo de vida para chegar à perfeição profética e, enfim, à vida religiosa eremítica.
Esta vida de perfeição religiosa encerra dois fins: um podemos consegui-lo com nosso esforço e o exercício das virtudes, ajudados pela graça divina. Este fim consiste em oferecer a Deus o coração santo e limpo de toda mancha atual de pecado.
Conseguimos este fim quando já formos perfeitos e estivermos no Carit. ou seja, quando nos tivermos escondido naquela caridade da qual disse o sábio: “a caridade cobre todas as faltas” (Prov 10,12).
Mostrando o Senhor a Elias que queria que chegasse a este fim de caridade, lhe disse:
te esconderás na torrente do Carit.
O outro fim da santa vida eremítica é dom totalmente gratuito de Deus que Ele comunica à alma. Consiste em que, não só depois da morte, mas ainda nesta vida mortal, possa gozar no afeto do amor e no gozo da luz do entendimento, algo sobrenatural do poder da presença de Deus e o deleite da eterna glória. Isto quer significar beber da torrente da delícia divina.
Deus prometeu este fim a Elias ao dizer-lhe; ali beberás da torrente.
Para conseguir estes dois fins, o monge deve abrasar-se na vida profética e eremítica, como o disse o Profeta; nesta terra deserta, sem caminho e sem água, ponho-me em tua presença como no santuário, para contemplar teu poder e tua glória. (SI 62, 3).
Por isto escolheu viver em terra deserta, sem caminho e sem água, para deste modo apresentar-se como num santuário diante do Senhor, que é o coração limpo de pecado, afirma o primeiro fim da vida solitária escolhida, que é oferecer a Deus o coração santo e limpo de todo pecado atual.
E o que segue para contemplar teu poder e tua glória, expressa claramente o segundo fim da vida eremítica que consiste em experimentar de alguma forma nesta vida ver misticamente dentro da alma algo do poder da divina presença e saborear a doçura da eterna glória.
O Primeiro fim que é o coração limpo se alcança pelo esforço e a prática das virtudes, ajudados pela divina graça. Ao segundo, chega-se pelo amor perfeito e pela pureza do coração; isto é: chega-se a saborear deleitosamente algo de uma alta notícia de Deus e da glória celestial, conforme o que disse o Senhor: “o que me ama, será amado por meu Pai, e eu o amareis e me manifestarei nele” (Jo XIV, 21).
Pois, conforme as palavras que até aqui copiamos. Deus falou a Elias para lhe ensinar como o primeiro e principal de todos os monges e nele persuadir-nos a todos quantos nos propusermos imitá-lo: “que sejamos perfeitos, como nosso Pai celestial é perfeito (Mt III, 48); e, sobretudo, mantende a caridade que é o vínculo da perfeição “ 1° aos Cor, 3, 14).
Para que cheguemos a obter os dons da perfeição aconselhada e a saborear a visão da glória prometida a Elias pelo Senhor nas palavras citadas, esforcemo-nos com atenta diligência por entendê-las com exatidão e logo pô-las em prática.
Quando o Senhor fala a Santo Elias, diz a todo Religioso do Antigo ou do Novo Testamento: “Sai daqui, isto é, das coisas mundanas e passageiras e vai para o oriente, isto é: dirige tua luta contra a natural concupiscência de teu corpo, e esconde-te na torrente do Carit: não vivas nas cidades, entre o povo, mas diante ou melhor, defronte do Jordão, que é o viver separado do pecado pela caridade”.
Subindo por estes quatro degraus, chegarás ao cimo da perfeição profética e ali beberás da torrente. E para que não te falte a perseverança neste modo de viver, mandei aos corvos que te levem de comer.
Compreenderás isto com maior clareza quando eu o explicar-te ordenadamente, expondo-o frase-por-frase.
*Encontros de Espiritualidade Carmelitana das Irmãs Carmelitas da Divina Providência. JULHO - 1986 - Rio Janeiro.


segunda-feira, 20 de julho de 2015

LITURGIA DA MISSA DE SANTO ELIAS, PROFETA.

SANTO ELIAS, Profeta

20 de julho

O profeta Elias aparece nas Sagradas Escrituras como o homem de Deus que caminha na presença do Senhor, e que, abrasado de zelo, luta pela defesa do culto do único Deus verdadeiro. Defendeu os direitos de Deus num desafio público, realizado no monte Carmelo entre ele e os sacerdotes de Baal. Entregou-se à íntima experiência do Deus vivo no monte Horeb. Nele se inspiraram os primeiros eremitas que, por volta do séc. XII, iniciaram no Monte Carmelo um novo estilo de vida que originou a Ordem dos Irmãos da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo. Por este motivo, o profeta Elias é considerado o Fundador ideal da Ordem.

ANTÍFONA DE ENTRADA 1Rs 17, 1
O profeta Elias disse: «Vive o Senhor, Deus de Israel, a quem eu sirvo».

Diz-se o Glória.

ORAÇÃO COLETA

Deus eterno e onipotente,
que concedestes ao bem-aventurado Elias,
vosso profeta e nosso pai,
a graça de viver na vossa presença
e de se inflamar de zelo pela vossa glória,
fazei que, procurando sempre a vossa presença,
nos tornemos testemunhas do vosso amor.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

1ª LEITURA: 1Rs 19,1-9.11-14

Leitura do primeiro livros dos Reis.
Acab contou a Jezabel tudo que Elias tinha feito e como tinha passado ao fio da espada todos os profetas de Baal. Então Jezabel mandou um mensageiro a Elias para lhe dizer: “Os deuses me cumulem de castigos, se amanhã, a esta hora, eu não tiver feito contigo o mesmo que fizeste com a vida desses profetas”. Elias ficou com medo e, para salvar sua vida, partiu. Chegou a Bersabéia de Judá e ali deixou o seu servo. Depois, adentrou o deserto e caminhou o dia todo. Sentou-se, finalmente, debaixo de um junípero e pediu para si a morte, dizendo: “Agora basta, Senhor! Tira a minha vida, pois não sou melhor que meus pais”. E, deitando-se no chão, adormeceu à sombra do junípero. De repente, um anjo tocou-o e disse: “Levanta-te e come!” Ele abriu os olhos e viu junto à sua cabeça um pão assado na pedra e um jarro de água. Comeu, bebeu e tornou a dormir. Mas o anjo do SENHOR veio pela segunda vez, tocou-o e disse: “Levanta-te e come! Ainda tens um caminho longo a percorrer”. Elias levantou-se, comeu e bebeu, e, com a força desse alimento, andou quarenta dias e quarenta noites, até chegar ao Horeb, o monte de Deus. Chegando ali, entrou numa gruta, onde passou a noite. Então a palavra do SENHOR veio a ele, dizendo: “Que fazes aqui, Elias?” Ele respondeu: “Estou ardendo de zelo pelo SENHOR, Deus dos exércitos, porque os israelitas abandonaram tua aliança, demoliram teus altares, mataram à espada teus profetas. Só eu escapei; mas agora querem matar-me também”. O SENHOR disse-lhe: “Sai e permanece sobre o monte diante do SENHOR”. Então o SENHOR passou. Antes do SENHOR, porém, veio um vento impetuoso e forte, que desfazia as montanhas e quebrava os rochedos, mas o SENHOR não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o SENHOR não estava no terremoto. Passado o terremoto, veio um fogo, mas o SENHOR não estava no fogo. E depois do fogo ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Ouvindo isto, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta. Ouviu, então, uma voz que dizia: “Que fazes aqui, Elias?”  Ele respondeu: “Estou ardendo de zelo pelo SENHOR, Deus dos exércitos, porque os israelitas abandonaram tua aliança, demoliram teus altares e mataram à espada teus profetas. Só eu escapei. Mas, agora, querem matar-me também”. – Palavra do Senhor.

SALMO DE MEDITAÇÃO

Refrão: Diante dos meus olhos tenho presente o Senhor.

Protege-me, ó Deus: em ti me refugio.
Eu digo ao SENHOR: “És tu o meu Senhor,
fora de ti não tenho bem algum”.

Refrão: Diante dos meus olhos tenho presente o Senhor.

O SENHOR é a minha parte da herança e meu cálice.
Nas tuas mãos, a minha porção.
Para mim a sorte caiu em lugares deliciosos,
maravilhosa é minha herança.

Refrão: Diante dos meus olhos tenho presente o Senhor.

Sempre coloco à minha frente o SENHOR,
ele está à minha direita, não vacilo.
Disso se alegra meu coração, exulta a minha alma;
também meu corpo repousa seguro,

Refrão: Diante dos meus olhos tenho presente o Senhor.

pois não vais abandonar minha vida no sepulcro,
nem vais deixar que teu santo experimente a corrupção,
O caminho da vida me indicarás,
alegria plena à tua direita, para sempre.

Refrão: Diante dos meus olhos tenho presente o Senhor.


2ª LEITURA: 1Pd 1,8-12

Leitura da primeira carta de São Pedro.
Sem terdes visto o Senhor, vós o amais. Sem que agora o estejais vendo, credes nele. Isto será para vós fonte de alegria inefável e gloriosa, pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação.  Esta salvação tem sido objeto das investigações e meditações dos profetas. Eles profetizaram a respeito da graça que estava destinada para vós. Procuraram saber a que época e a que circunstâncias se referia o Espírito de Cristo, que estava neles, ao anunciar com antecedência os sofrimentos de Cristo e a glória que viria depois.  Foi-lhes revelado que não para si mesmos, mas para vós é que estavam ministrando esses ensinamentos, que agora são anunciados a vós. Agora vo-los anunciam aqueles que vos pregam a Boa Nova em virtude do Espírito Santo, enviado do céu; são revelações que até os anjos desejam contemplar! – Palavra do Senhor.

EVANGELHO: Lc 9,28B-36

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas.
Naquele tempo, Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para orar. Enquanto orava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou branca e brilhante. Dois homens conversavam com ele: eram Moisés e Elias. Apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a saída deste mundo que Jesus iria consumar em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Quando acordaram, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele. E enquanto esses homens iam se afastando, Pedro disse a Jesus: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Nem sabia o que estava dizendo. Estava ainda falando, quando desceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. Ao entrarem na nuvem, os discípulos ficaram cheios de temor. E da nuvem saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Eleito. Escutai-o!” Enquanto a voz ressoava, Jesus ficou sozinho. Os discípulos ficaram calados e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto. – Palavra da Salvação.

Onde se celebra como Solenidade, diz-se o Credo.

ORAÇÃO SOBRE AS OFERENDAS
Aceitai, Senhor, os dons da vossa Igreja,
e, assim como aceitastes o sacrifício do profeta Elias,
dignai-Vos, de igual modo,
receber as nossas ofertas de pão e vinho.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

PREFÁCIO- O profeta Elias, amigo de Deus e apóstolo

V. O Senhor esteja convosco.
R. Ele está no meio de nós.
V. Corações ao alto.
R. O nosso coração está em Deus.
V. Demos graças ao Senhor nosso Deus.
R. É nosso dever, é nossa salvação.
Senhor, Pai Santo, Deus eterno e onipotente
é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação
dar-Vos graças, sempre e em toda a parte,
por Cristo nosso Senhor.
Vós suscitastes profetas para que proclamassem
que sois o Deus vivo e verdadeiro
e conduzissem o vosso povo na esperança da salvação.
Entre eles honrastes com a vossa divina amizade o profeta Elias,
para que, devorado pelo zelo da vossa glória,
manifestasse a vossa onipotência e a vossa misericórdia.
Ele caminhou sempre na vossa presença
e por isso o quisestes junto a Cristo no Tabor,
como testemunha da Transfiguração,
para se alegrar com a presença gloriosa do vosso Filho.
Por isso, com os Anjos e os Santos,
proclamamos a vossa glória,
cantando numa só voz: Santo, Santo, Santo.

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Cfr 1Rs 19, 8
Elias comeu e bebeu,
e, fortalecido com o alimento,
caminhou até ao monte de Deus.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO

Fortalecidos com a comida e a bebida angélica
da mesa do vosso Filho,
concedei-nos, Senhor,
que, procurando-Vos sempre por meio da fé,
alcancemos a contemplação da vossa presença
no monte santo da glória.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

BÊNÇÃO SOLENE

- Deus, nosso Pai, que hoje nos reuniu
para celebrar a festa de Santo Elias,
vos abençoe e proteja e vos confirme na sua paz.
R. Amém
- Cristo Nosso Senhor,
que manifestou de modo admirável em Santo Elias
a força e a imagem do mistério pascal,
faça de vós testemunhas fiéis do seu Evangelho.
R. Amém.
- O Espírito Santo,
que em Santo Elias nos deu um sinal da caridade divina,
vos torne capazes
de formar uma verdadeira comunidade de fé e amor.
R. Amém.
- Abençoe-vos Deus todo-poderoso,
Pai, Filho   e Espírito Santo.
R. Amém.


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

ELIAS PROFETA NOS LIVROS DOS REIS. (1ª Parte)

Frei Alexander Vella, O.Carm.

1-  Ambiente histórico-religioso

Elias, como aliás todos os outros profetas, era ao mesmo tempo homem-de-seu-tempo, sofrendo os influxos próprios de seu ambiente, e homem-fora-do-tempo, com horizontes muito vastos que não se deixa fechar em esquemas fixos, nem mesmo no plano religioso. Fiel a tradição religiosa genuína de seu povo, o profeta não revive no­stalgicamente o seu passado. Vive intensamente o presente, mais intensamente do que a maior parte dos seus contemporâneos, porém sem alienação, com a capacidade de julgar o presente à luz de Deus. Sonha também ele com um futuro melhor, mas não se ilude, porque está consciente de que o futuro é uma construção que fazemos com nossas escolhas e nossas ações do presente. Devido a este enraizamento do profeta no seu pre­sente, é absolutamente necessário um conhecimento do seu ambiente histórico-religioso para bem compreender sua pessoa, sua mensagem e sua ação na história da salvação.
A história de Elias se desenvolve no Reino do Norte - Israel - no séc. IX A.C. Era tempo de prosperidade, assinalado por grande abertura para as nações vizinhas, como no tempo de Salomão. Era também um tempo de forte crise religiosa ou de sincretismo religioso, como se convencionou chamá-lo; consistia na assimilação dos elementos estranhos à própria religião, tomados de outra religião, com a consequente confusão, tanto no plano teológico como no plano prático-moral.
O sincretismo não era um problema novo para Israel. Realmente, desde a entrada dos Israelitas na terra de Canaã a religião cananéia passou a mesclar o javismo com idéias e práticas que lhe eram estranhas, e mesmo totalmente contrárias. Isto se tornou mais forte quando Davi estende o seu Reino por toda a terra prometida, incorporando nele in­teiras populações de cananeus que nem sempre se convertiam ao Deus de Israel ou, pior ainda, trocavam apenas o nome da divindade que adoravam sem verdadeira mudança de sua religião.
A religião dos cananeus era uma religião da natureza. Baal, o seu deus, era imagi­nado como um imenso touro que fecunda a mãe terra com a chuva, tornando-a fértil. Torna-se evidente porque Jeroboão, primeiro rei do norte, permite o culto ao bezerro de ouro em Betel e Dan, e são seus adoradores considerados idolatras pela tradição bíblica (1 Reis 12,28-30).
Provavelmente estes bezerros, no início, serviam apenas como o pedestal para o trono do Senhor, tal como os querubins o eram para a Arca da Aliança no templo de Jerusalém. Mas, não se pode excluir também que, com os seus bois, Jeroboão pretendia também ganhar a simpatia dos cananeus que estavam concentrados no seu reino.
Pode-se dizer então que as duas religiões, a javista e a de Baal existiam uma ao lado da outra. Os israelistas não abandonaram o Deus de seus pais, o Deus do Êxodo, mas junto a ele adoravam Baal, o deus da terra em que se encontravam. Acreditavam ter real necessidade de Baal por este ser o deus que tornava fecunda a sua terra, coisa que o Deus dos seus pais - Deus do deserto, não podia fazer. Isto é puro sincretismo religioso. Mas, havia também outro tipo de sincretismo, talvez mais perverso: adorar o Senhor como se fosse Baal, isto é, reduzindo-o a dimensões humanas; um deus que existe para satisfazer as necessidades do homem.
Esta situação se intensificou sob os reis Omri e Acab. Omri fez de Samaria, uma cidade cananéia onde havia um templo dedicado a Baal, a sua capital. Para consolidar a sua política de alianças com os reis vizinhos, Omri escolhe para esposa de seu filho Acab a filha Jesabel de Et-Baal, rei de Tiro e sacerdote de Baal. Este casamento, como era costume na época, comportava certa aliança entre os dois povos também no plano religioso. Tal compromisso levou Acab a construir uma capela no palácio real para o deus de Jesabel. Acab não abandonou o seu Deus: dá nomes javistas a seus filhos (Acazia, Ioram e Atalia) e se cerca dos Profetas do Senhor (1 Reis 22,5-12). Entretanto junto ao Senhor venera Baal e permite a Jesabel exercer seu papel de verdadeira mis­sionária de Baal.
            A identidade precisa do Baal, venerado por Jesabel, está amplamente discutida pelos biblistas porque o nome Baal é muito genérico. Alguns estudiosos de grande pre­stigio (Kittel, Eissfeldt, de Vaux) o identificam com Melgart, o deus de Tiro, que era provavelmente venerado também em alguns outros lugares. Entretanto, não existe nenhuma informação precisa sobre Melcart no tempo de Elias e por isso não podemos saber se é mesmo ele o deus de Jesabel. Galling sugeriu Baal-Carmel, um deus local vene­rado no Monte Carmelo. Entretanto, parece improvável que Jesabel propagasse o culto do deus do Carmelo, em vez do seu Baal de Tiro. As notícias que se tem do Baal-Carmel remontam apenas a época romana. Eissfeldt identificou o Baal de Jesabel com Baalshamen, um deus cujo culto floresceu desde o fim do 2º milênio antes de Cristo, du­rando bem uns dois mil anos. Outros, como Bronner, o identificam com o grande deus da tempestade do segundo milênio antes de Cristo, conhecido através dos textos encontra­dos em Ugarit na Síria. O problema é que existe uma grande distancia de tempo entre estes textos e aqueles bíblicos que se referem a Elias. Contudo, são tantos os paralelos entre estes textos que não é possível excluir uma certa relação entre o Baal de Ugarit e o Baal de Jesabel.
Ainda que fosse este Baal, a propagação de seu culto era assaz fácil em Israel de­vido ao grande número de cananeus presente no Reino e ao sincretismo já existente entre os israelitas. Sob a influência de Jesabel, Baal torna-se o deus que se venerava na corte e na cidade, enquanto nos lugares menores continuava-se com o sincretismo. O Senhor estava se tornando apenas mais um deus no panteão cananeu e nada mais. O javismo, que por sua natureza é uma religião exclusivista, estava para ser assimilado e absorvido pelo baalismo.

É nesta perspectiva que se deve ler a vida de Elias. Realmente a sua história não é simplesmente aquela de um profeta contra um rei déspota, mas é a luta entre o javismo e o baalismo porque na concepção do profeta as duas religiões se excluem.