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sexta-feira, 7 de abril de 2017

O inimaginável Deus crucificado

 

“Saberemos dar espaço para aquele Deus de Jesus que vem, como um ladrão, para nos roubar as nossas certezas religiosas amadurecidas? Porque, na cruz, é transpassada aquela ideologia tranquilizadora que faz de Deus o poderoso fiador das nossas posições adquiridas.” A opinião é dos pastores batistas italianos Lidia Maggi e Angelo Reginato, em artigo publicado na revista Riforma, publicação das Igrejas evangélicas batista, metodista e valdense italianas, de abril de 2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

O tempo que precede a Páscoa pretende promover a sabedoria de diminuir o ritmo, de podar as vidas de todos aqueles elementos não essenciais que as engolem, de modo que possa emergir o coração do Evangelho, o Cristo morto e ressuscitado.
Quarenta dias, um tempo litúrgico que remete aos 40 anos no deserto, nos quais Israel aprendeu a se deixar alimentar diretamente por Deus. Para nós, um tempo de verificação para nos interrogarmos sobre a nossa bulimia de paixões tristes, que impedem que a alegria pascal flua. 
Um tempo para revisitar a nossa dieta espiritual e nos interrogarmos sobre as carências alimentares: que papel tem a oração, aquele diálogo precioso com Deus? Que papel desempenha a comunidade de fé, na qual Deus me fala através da voz de irmãs e irmãos? Que peso tem a Palavra que, como bom pão, sacia e fortifica? O êxodo de Jesus, da morte à vida, é como um parto. 
A Quaresma, um tempo de gestação para conservar e fazer crescer em nós a esperança da nova vida. Quando o trabalho de parto tem início, não pode ser suspenso. Assim também nós, no tempo que precede a Páscoa, esperamos captar aquelas contrações vitais da alma, que nos fazem perceber os sinais do renascimento. Dor, fadiga, mas também alegria. Movimentos da alma contraditórios, para manter juntos o anúncio da vida na agonia da última hora.
Todos os anos, voltamos à cena-mãe da fé cristã, a Páscoa de Jesus para reconhecer que algo daquela cena que escapa. Quanto mais tentamos compreendê-la, mais sentimos que ela resiste a nós. Como manter juntos o plano de Deus (“é preciso que o filho do homem sofra...”) e as escolhas humanas (“fizeram um plano para matá-lo...”)? Uma questão que emerge já na primeira Páscoa, a do Egito: é Deus que endurece o coração do faraó, ou é este último que o endurece por livre escolha? E, depois, o problema dos problemas: como interpretar o “por nós” daquela morte cruenta? Expiação, dom, resultado de uma vida? 
É claro, no conflito das interpretações fornecidas em dois mil anos de cristianismo, algumas evidências permanecem. É impossível não ver naquela cena a inversão do imaginário religioso que, desde sempre, pensou um Deus que pede que a humanidade se sacrifique por Ele, enquanto no Gólgota é Deus que se sacrifica por nós. 
Na cruz, entrevemos um rosto de Deus diferente daquele percebido pelo sentimento comum; lá, revela-se o Deus da graça. Partamos daí, da revelação que está no coração da cena da cruz, onde o véu do templo se rasga, e nós entretemos o rosto de Deus. Rosto inédito. Quando só O podíamos ver de costas, O pensávamos exatamente ao contrário. Como o Senhor que está no alto e impõe que os Seus subalternos O sirvam. E, assim, a religião educou a reconhecer e a temer a potência de Deus. E, no nome desse Deus, reproduziu o consenso aos poderosos da terra, tenentes do trono celestial. E pregou a manutenção da ordem: “Que um homem só morra pelo povo e não pereça toda a nação!”.
Também nós, que reconhecemos na cruz a sua ação salvífica, continuamos imaginando Deus de acordo com aquela narrativa religiosa. Narrativa que pode apresentar entre os seus méritos a manutenção da ordem e de um certo tipo de paz. E não é, talvez, essa a tarefa da religião, especialmente hoje, em tempos de enfurecimento do terrorismo?
Não que haja algo de errado em desejar um deus que possa garantir uma vida tranquila. Ao contrário. Mas, na cena da cruz, os imaginários humanos são postos de cabeça para baixo. Aquele Filho, que nos deu a conhecer a Deus, apresenta-se inerme, à baila dos poderes, por uma vez muito concordes em eliminá-lo, fazendo dele um maldito a ser crucificado. Ele que, por muito tempo, tinha preparado os seus discípulos para tomar a cruz, para perder a própria vida por causa dele, ei-lo que, tendo chegado a hora fatal, preocupa-se em salvá-los. João focaliza essa preocupação do Mestre até reinterpretar a vil fuga dos seus na despedida desejada pelo próprio Jesus: “‘Quem é que vocês estão procurando?’ Eles responderam: ‘Jesus de Nazaré.’ Jesus falou: ‘Já lhes disse que sou eu. Se vocês estão me procurando, deixem os outros irem embora’” (18, 7-8).
O que significa crer em um Deus assim? Tentemos, por uma vez, abrir mão da pergunta sobre “o que fazer”. Não que não seja preciso: todos percebemos a urgência de agir. A Igreja, no rastro desse seu Senhor, é chamada a viver uma fé que opera por meio do amor. Mas, pelo menos na Páscoa, suspendamos o costumeiro operar e tornemo-nos uma comunidade inoperante, na escuta pura dessa chocante revelação do Deus crucificado.
Escutemos aquela voz que o coração reconhece como proveniente de Deus e que diz: “Busquem o meu rosto!” (Salmo 27, 8). Seremos capazes disso? Saberemos dar espaço para aquele Deus de Jesus que vem, como um ladrão, para nos roubar as nossas certezas religiosas amadurecidas? Porque, na cruz, é transpassada aquela ideologia tranquilizadora que faz de Deus o poderoso fiador das nossas posições adquiridas.
O desafio, portanto, é o de ficar na cena da cruz, silenciando explicações e expectativas demasiado humanas, para retornar principiantes, capazes de nos admirarmos com um Deus inimaginável, que irrompe na história fazendo gestos inesperados.

sábado, 1 de abril de 2017

AO VIVO: 1º DE ABRIL: Frei Petrônio.

A missa terminou. Então, depois de cinco séculos declina a figura do padre.

"O declínio quantitativo das ordenações desenha, há dois séculos, uma curva descendente diante da qual se fecham os olhos, especialmente aqueles que estão sob uma mitra episcopal". O comentário é de Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, em Bolonha, em artigo publicado por La Repubblica, 22-03-2017. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis o artigo.
Alguns grandes ciclos históricos terminaram com eventos estrondosos. Outros, ao contrário, encerraram-se quase despercebidamente, embora não menos importantes do que aqueles aos quais a ereção de um monumento ou uma linha de texto num manual escolar concedem eterna glória. No silêncio exauriu-se um grande ciclo: a do padre. Esta formidável invenção do século XVI, que moldou a cultura e a política, a psicologia e a vida interior, a arte e a teologia do Ocidente e das suas antigas colônias não desapareceu (são cerca de 420 mil padres no mundo), mas, há mais de três séculos, está em crise: na Itália, em noventa anos passamos de 15 mil para cerca de 2.700 seminaristas.
Claro que fatores extrínsecos têm algum peso: amanhã a desgraça da pedofilia que a lente da mídia faz parecer um crime específico dos padres; ontem, a preguiça das autoridades em discutir o celibato eclesiástico; hoje, a simonia soft que remunera presenteando dioceses - prêmios dados para quem "fabrica" padres numerosos ou vistosos. Conta ainda nesta fase histórica a reverberação sobre o clero da queda das qualidades intelectuais das classes dirigentes às quais pertencem tanto aqueles que escolhem o sacerdócio como aqueles que o conferem. A questão se encrava ainda mais profundamente na história.
O padre que conhecemos tem data precisa de nascimento: o Concílio de Trento, concluído em 1563. E o enorme esforço com o qual tentou marcar uma cesura (contestada pelos protestantes que, em vez, acusavam a Igreja Católica de continuidade com o abuso) da reforma de Lutero. Tarde, mas com coragem, o Concílio tentou inventar remédios desconhecidos: impôs, por exemplo, aos bispos a residência na diocese, impedindo-os de assídua frequência à corte papal. E inventou o padre: este, caçoado pela literatura e pelo cinema, o homem feito sábio somente pelos insucessos, santificado pelo peso institucional daquilo ao qual se doa.
O padre que não tem filhos para criar, o padre formado com curso padrão, e muito longo, o padre líder que leva os proletários a tornarem-se classe dirigente, o padre que interpreta o "suprema lex salus animarum", que é a misericórdia. Este "padre tridentino" parece atravessar o ponto de viragem da modernidade sem danos: ao contrário, o nascimento das novas ordens e das sociedades do clero do século XIX, o zelo em construir seminários grandes como fábricas, parecem garantir que sua função permaneça intacta dentro da mesma couraça institucional e teológica.
Mas, isso não é verdade: a igreja que se encastela na defesa do seu próprio espaço cria um funcionário cujo perfil interior desgasta-se pelo controle social. O escrutínio da consciência de uma humanidade da qual não tem nenhuma experiência enfraquece sua compaixão. Sua antiga ciência, em comparação à transmissão de conhecimentos cada vez mais sofisticados, o faz um sub-educado. O zelo eclesiástico em condenar tudo a que se pode colar o sufixo "ismo", empobrece suas leituras e torna-o estranho aos “seus”, que se tornam, de repente, "distantes". A perda do papel e a negligência afetiva o expõe ao pior: da insípida exaltação do celibato que aprisiona a sexualidade em busca de sublimação até atrair ao presbiterato pessoas não resolvidas, ou mesmo doentes. Sua qualificação torna-se o nome de um vício nunca combatido suficientemente: o clericalismo.
E na recente história da Europa a profissão de padre é contratada, tais como tarefas marginais, aos clérigos de importação, eleitos cuidadores de comunidades abandonadas. Mesmo a discussão sobre as mulheres-padre (esquecendo-se que o "sacerdócio" recebido no batismo as mulheres já o têm, o que não é pouca coisa) mistura-se perigosamente a lógica toda machista que concede ao outro gênero as tarefas tornadas obsoletas. O declínio quantitativo das ordenações desenha, há dois séculos, uma curva descendente diante da qual se fecham os olhos, especialmente aqueles que estão sob uma mitra episcopal. Não seria, de fato, preciso e até mesmo urgente repensar o padre partindo exatamente da eucaristia e da comunidade, e não de detalhes de vida ou de gênero. Mas disso, no entanto, parece impossível falar, mesmo no último meio século.
Não falou o Vaticano II que se limitou em tentar remover do padre aquele tom semimonástico que tinha. Não o papado, que simplesmente confecciona uma poética do padre. Não falam os bispos que empacotam as comunidades naquilo que na Itália se chamam de "unidades pastorais", e condenam os padres a tornarem-se funcionários esbaforidos, esmagados por uma poligamia comunitária onde ninguém os ama, e eles são incapazes de amar, com risco de tornarem-se santos ou náufragos nas rochas eróticas nem sempre cândidas.
Isso é tão grave que nem mesmo o Papa Francisco fala. O próximo Sínodo, na verdade, tem um tema genérico-geral como o do "jovem": como se até mesmo o infatigável Papa reformador quisesse uma pausa às polêmicas. E se a "próxima encíclica, como se diz, será sobre a religiosidade "popular", terá também esta o mesmo limite.

Por outro lado, a decisão mais importante do pontificado, contida na Evangelii Gaudium, ainda não foi recebida pelos bispos: que as conferências episcopais têm "autêntica autoridade doutrinal". Então, tocaria aos bispos, nas Conferências Episcopais, levantar o tema sobre o qual se joga a vida de suas igrejas: mas a "indolência prevalece, encorajada pela esperança de que amanhã a reforma terá a mesma coragem daquela que "inventou o padre". Figura que, enquanto evapora, acende as memórias e as lamentações de crentes, ex-crentes e não-crentes. Fonte: www.ihu.unisinos.br

Igrejas vazias e poucos sacerdotes. É a crise do modelo religioso italiano

"Pequenas paróquias, padres em idade avançada, quase nenhuma ordenação de novos sacerdotes. Decide-se pela fusão de paróquias com um único pároco e alguns sacerdotes colaboradores. Mas não é possível apagar por decreto mais de mil anos de história de tantas realidades e identidades paroquiais", foi o desabafo de Don Achille Lumetti, pároco de Madonna di Sotto, perto de Módena, alguns anos atrás. Estava indignado com as “integrações”, com as novas unidades pastorais que os bispos em quase todo lugar estão criando para garantir uma presença cristã nos pequenos vilarejos com mil (ou menos) habitantes, que pontilham a Itália de norte a sul. Que esta não passe de uma tentativa de estancar uma enchente com barragens de papel, só o tempo dirá. A reportagem é de Matteo Matzuzzi, publicada por Il Foglio, 28-03-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.
Por enquanto a vida segue, entre os projetos (muitos) e esperanças de que com o passar dos anos alguma coisa mude, que talvez a secularização se reverta e, quem sabe, as arcas de salvação da chamada Opção Bento, construídas no aguardo que a maré da secularização passe (conforme o ensaio The Benedict Option, de Rod Dreher que está sendo lançado nos Estados Unidos), possam retornar aos portos e iniciar a ‘re-evangelização’ do ocidente. Também porque a "secularização não é irreversível", explica para o Foglio o Professor Massimo Borghesi, docente de Filosofia Moral na Universidade de Perugia. "Todo o período que vai de 1989 a 2001 foi marcado pelo triunfo da secularização que, aliás, já havia se afirmado nos anos 1970. O Ocidente considerava como um dogma a irreversibilidade desse fenômeno e, ao mesmo tempo, a restrição de cristianização a setores extremamente específicos".
Então, tudo mudou: "Com o 11 setembro de 2001, este regime entrou em crise. A religião voltou à tona, tanto em sua versão positiva como no seu aspecto mais aberrante, como o terrorismo religioso. Estamos testemunhando desde então o retorno do momento religioso como um qualificante da modernidade". Em suma, "a dimensão religiosa não estava morta: estava simplesmente adormecida".
Nas vinte e sete mil paróquias italianas, constatar esse renascimento é, muitas vezes, uma tarefa árdua. Saindo do centro para as periferias (também geográficas), sobre as quais tanto fala o Papa, notam-se os sinais de mudança, que é, acima de tudo, cultural: à missa dos domingos, o número de pessoas presentes é cada vez menor, embora seja conveniente certa cautela antes de generalizar algumas impressões. "Se realmente aconteceu, o grande retrocesso foi nos anos 1970, não tem nada a ver com o Papa Francisco", observa o sociólogo Massimo Introvigne, diretor do CESNUR (Centro de Estudos sobre as Novas Religiões).
"Estritamente falando, não sabemos se realmente diminuiu o número de pessoas, porque só temos dados gerados pelo CATI (Computer Assisted Telephone Interviewing, ou seja, entrevistas por telefone) que remontam a poucos anos atrás".
“Ao lado de dados não confiáveis quanto à diminuição dos fiéis - pessoalmente acredito que os fiéis foram realmente mais numerosos nas décadas de 1950 e 1960, mas precisamos ter humildade metodológica para dizer que isso não passa de mera especulação, enquanto também não acho que eles fossem definitivamente muito mais numerosos dez anos atrás e, provavelmente, nem mesmo nas décadas de 1970 e 1980 – existe uma informação absolutamente certa, ou seja, a diminuição das vocações" continua Introvigne.
Levantamentos estatísticos, portanto, que devem ser analisados com cautela. Também porque "a questão de quantos realmente frequentam à igreja no domingo é, de longe, a mais controversa no âmbito da pesquisa sociológica mundial. A metodologia CATI - explica Introvigne - entrou em crise porque desapareceram as listas telefônicas, poucos ainda têm telefone fixo e com os celulares tudo ficou mais difícil. Mas, acima de tudo, entrou em crise porque alguns estudiosos norte-americanos instilaram o germe de dúvida sobre o chamado over reporting, ou seja, sobre o fato que muitos dos que dizem frequentar a missa (ou ao culto protestante), na verdade, não o fazem. Percebeu-se assim que as CATI mensuram aqueles que dizem que vão à missa e não aqueles que vão à missa: e estas são coisas muito diferentes. O mesmo vale para os levantamentos do Istat (Instituto Nacional de Estatística italiano), que chegam a detectar fantásticos trinta e três por cento antes e trinta por cento hoje, dados que nenhum sociólogo italiano considera reais”. Para investigar a crise da paróquia italiana é preciso entender como ela se desenvolveu ao longo do tempo. "Assim como hoje a conhecemos, é o produto de uma estratégia pastoral de concepção sofisticada e de realização relativamente recente, como parte do processo de modernização religiosa que tem seu principal protagonista em Pio XI", já dizia há catorze anos o professor Luca Diotallevi, também sociólogo e professor da Universidade Roma Tre, em um seminário sobre o projeto cultural da CEI (Conferência Episcopal Italiana).
"A paróquia proposta por esta estratégia é concebida como parte integrante de outras iniciativas pastorais especializadas. Essa integração - continuava - prevê um papel importante para as instituições pastorais por área e um papel importante, mas não autônomo, para as outras iniciativas. Daí a imagem 'uma primeira perna e muitas segundas pernas' (Cf. Diotallevi, primeira perna: a estrutura institucional eclesiástica e segunda perna: os novos grupos e movimentos em busca de novas religiosidades). A paróquia italiana do século XX é tanto instituição do tipo "primeira perna", quanto articulação institucional e organizada da integração existente entre a "primeira perna' e as 'segundas pernas'".
Modelo que entrou em crise, com a paróquia que "por um lado, já não tem mais a capacidade de fomentar e administrar a religião dos grandes números, e pelo outro lado, não é capaz de satisfazer a demanda de identidade de que precisam as formas religiosas dos pequenos números". E isso "ficou claro desde o início dos anos 1970" explicava Diotallevi, que nisso concorda com Introvigne. A demanda, neste ponto, em virtude do contexto tão profundamente mudado é saber se é preferível a situação de hoje, com poucos fiéis, mas bons, ou seja, convictos do que é celebrado durante a missa - "o modelo ‘poucos, mas bons’, no entanto, nunca foi opção da igreja, católica e por sua natureza expansionista", conta Introvigne, que tem grandes ressalvas também quanto à Opção Bento e a teoria das "minorias criativas" oriunda de Ratzinger, a seu ver válida para algumas áreas da Europa Ocidental, mas que não pode tornar-se um programa para toda a igreja - ou se era preferível a situação anterior: igrejas lotadas, mas escassa sensibilidade pelo Mistério.
“Potencialmente era melhor então, no sentido de que antes da famosa revolução antropológica pasoliniana existia um povo cristão", explica Borghesi. "Nos anos 1950, ainda havia um ethos e uma sensibilidade permeados pela fé, mesmo quando esta não era explicitamente professada. A sensibilidade moral era definida e havia uma grande participação popular nos ritos da tradição cristã". O "verdadeiro problema", acrescenta ele, "é que a igreja não se mostrou à altura daquela participação. Frente a uma sociedade que estava mudando no nível social e na mentalidade, com a introdução da televisão e do modelo americano, a igreja limitou-se a uma mensagem de tipo moral e – eu acrescentaria - a uma moral de tipo moralista. Omitindo-se de uma proposta cristã que chegasse ao coração das pessoas e, acima de tudo, pudesse se transformar na proposta de vida capaz de acompanhar os laicos no seu dia-a-dia, não apenas nas manhãs de domingo".
Em suma, este foi o limite: "Perdeu-se uma tradição popular e não se estive à altura do momento histórico. Daí a mensagem do Papa Francisco, tão mal compreendida, relativa às prioridades da anunciação sobre a doutrina moral". Existe ainda outro detalhe, falta demonstrar que cinquenta anos atrás as Igrejas estavam mesmo lotadas. O famoso sociólogo Rodney Stark, por exemplo, rejeita totalmente esta alegação. Da mesma forma que manifesta grande perplexidade quanto à chamada Idade Média cristã europeia, com catedrais apinhadas de fiéis e multidões em oração e adoração. Stark dividiu a área do piso das igrejas medievais e o suposto número de missas pela capacidade média dos recintos. O resultado é que a afluência ficava entre um quarto e um terço. Praticamente igual aos números atuais.
Precisa ser feita uma distinção, argumenta Introvigne: "O copo está meio vazio, se olharmos para a Polônia, onde a conferência episcopal local, desde os tempos do comunismo, faz um inventário de todas as missas, os hospitais, os movimentos e os santuários, enviando em todos os lugares voluntários com máquinas calculadoras. E também realiza uma série de entrevistas por telefone na mesma área. Os dados na Polônia documentam que sessenta por cento das pessoas dizem que vão para a missa, mas, na realidade, esse número não passa de quarenta por cento. São dados altíssimos". Mas o copo também pode ser meio cheio. Basta se deslocar alguns milhares de quilômetros para oeste: "Na França, as poucas contagens efetuadas nos portões das igrejas apontam para cinco por cento de fiéis dominicais, e quinze por cento na Espanha. A Itália, portanto, manteve-se melhor que os outros grandes países do Mediterrâneo".
E assim, os planos para a reestruturação do sistema paroquial italiano avançam um pouco em toda parte. Em 2003, a CEI dedicou ao tema uma assembléia geral, e depois novamente (em janeiro do ano seguinte) no Conselho Permanente. A crise já estava evidente e esforços para repropor a centralidade desse modelo encontraram obstáculos só superáveis a expensas de grande esforço e desgastes de energia. Já na época Diotallevi dizia que "a escolha dos bispos italianos de focar na paróquia, no padre diocesano e na Ação Católica pode ter chegado tarde". Talvez "não demasiado tarde", mas, certamente, o quadro já mostrava um evidente desgaste. "Deslegitimar a paróquia é equivalente a deslegitimar a mais difundida - se não a única - instituição religiosa na Itália, que está sob a forma 'de igreja'", acrescentava.
Passada pouco mais que uma década, o discurso está superado; não se trata mais de reavivar a paróquia, mas de convencer os fiéis que, "da mesma forma que não frequentam mais o armazém do bairro, preferindo o hipermercado a quilômetros de distância, assim não podem mais ter um padre ao lado de suas casas", diz o sociólogo Franco Garelli, autor do recente Educazione (Ed. il Mulino), e do anterior Piccoli atei crescono. Davvero una generazione senza Dio? (‘Pequenos ateus crescem. Realmente uma geração sem Deus?’, em trad. livre, de 2016). Tomemos o caso da diocese de Turim, com dados bastante recentes: para 355 paróquias espalhadas em 158 municípios, os sacerdotes são 260. Mais ainda, 46 assumem atribuições duplas, 14 triplas e 3 quádruplas. Em 2014 - mas a situação não mudou muito desde então - faltavam 95 párocos para atender completamente a necessidade.
Natural, portanto, que a situação seja enfrentada como em Údine, herdeira do Patriarcado de Aquileia, vasta diocese (da fronteira com a Áustria até o mar Adriático), onde há alguns meses o arcebispo publicou as diretrizes para a instituição das Colaborações pastorais. "As paróquias - explica no longo documento - até poucos anos atrás conseguiam realizar a missão de ‘tornar a igreja visível como um sinal efetivo da anunciação do Evangelho para a vida do homem no seu cotidiano e dos frutos da comunhão que germinam para a sociedade'. Conseguiam porque tinham os recursos para oferecer às pessoas, dentro de sua área de atuação, as ‘ações' pastorais que o bispo tinha como dever assegurar a toda a diocese. Graças a esses recursos, cada um podia encontrar em sua própria paróquia a ajuda necessária para receber a fé e o batismo, para amadurecer na vida cristã, para testemunhá-la no mundo e caminhar na santidade".
Agora tudo mudou: "Muitas paróquias, nos últimos tempos, não têm mais pessoas e recursos para implementar, efetivamente, todas essas ‘ações’ em favor de seus próprios cristãos. Devemos constatar, portanto, que elas não estão mais em condições de desempenhar de maneira suficientemente eficaz a sua missão. Isto é devido a vários fatores; entre estes, podemos citar: a redução demográfica de muitas comunidades devido a uma distribuição diferente da população na área, a mobilidade das pessoas que altera seu relacionamento com o pertencimento territorial e a diminuição do número de sacerdotes".
A consequência é que serão aplicadas as disposições da Nota Pastoral da CEI. O aspecto missionário das paróquias, ou seja, prosseguir com a integração de várias entidades paroquiais: "As paróquias não podem agir sozinhas, é preciso uma pastoral integrada, em que, na unidade da diocese, abandonando qualquer pretensão de autossuficiência, as paróquias se interliguem umas às outras, com diferentes formas, dependendo da situação". Na prática, consta no texto, a Colaboração pastoral "é confiada a um pároco que tem a responsabilidade pastoral de todas as comunidades que compõem a Colaboração pastoral e, para isso, é nomeado pároco em cada uma delas". Isso significa que um único sacerdote será pároco de até quatorze paróquias diferentes. Com consequências inevitáveis, como, por exemplo, o rodízio das missas dominicais entre as várias localidades.
"O problema é a atual organização das paróquias, ou seja, o fato de que a igreja não tem feito grandes intervenções do um ponto de vista organizacional", observa Franco Garelli. Acrescenta ainda: "Existem muitas pequenas paróquias em áreas que perderam cotas populacionais; são comunidades acostumadas a ter um serviço perto de casa. Este é um problema relevante, existe uma forte mudança na sociedade. É o que poderia ser chamado de "uma secularização suave", não traumática. O verdadeiro problema não é tanto o percentual daqueles que frequentam a missa aos domingos, que inclusive é ainda alto quando comparado com os baixos números apresentados por outros fenômenos de agregação, mas a distribuição desigual das paróquias. Por isso, torna-se complexo atualizar o modelo de paróquia para estas condições drasticamente alteradas em relação ao passado".
Acima de tudo, é cada vez mais difícil garantir que a "esperança colocada por escrito pela Conferência Episcopal Italiana em 2003, que é - nas palavras do padre dehoniano Mauro Pizzighini - que as paróquias continuam "a assegurar a dimensão popular da igreja, tecendo relações diretas com todos os habitantes da região e manifestando uma profunda preocupação com os mais fracos e pobres", possa continuar a ser realizada. O dado numericamente certo, mesmo na Itália, aponta para uma redução no número de vocações. Números que explicam, em parte, a necessidade de lidar com colaborações, integrações, parcerias e incorporações.
"A culpa não é do celibato, porque mesmo as grandes congregações protestantes mostram dificuldade em recrutar pastores", fala Introvigne, acrescentando que "assim como o declínio da prática religiosa na década de 1970 não foi decorrente do Vaticano II, porque ocorreram fenômenos semelhantes entre os protestantes históricos e os judeus". Como corrigir isso? São necessárias atitudes concretas: "Há muitas razões complexas para explicar a diminuição das vocações, entre as quais o declínio demográfico", observa o diretor do CESNUR, "mas é claro que o problema não será resolvido em breve. Eu não sou fã das unidades paroquiais, mas quem não gosta delas precisa propor outras soluções. A vida religiosa nas paróquias italianas – opinião compartilhada pelo próprio Papa - às vezes é mais desgastada do que nas igrejas dirigidas por religiosos ou movimentos. Por outro lado, nos Estados Unidos fala-se em renascimento da paróquia. Em suma, depende de quem é o pároco".
Um grande problema, manifesta Garelli, a tal ponto que "agora é necessário rever o papel do sacerdote dentro da nova situação. É preciso dar amplo espaço para os laicos e existem as condições para uma mudança radical positiva. Algumas tentativas já estão sendo postas em prática, mas há a necessidade de orientações claras, inclusive no nível da formação do clero". Borghesi reporta-se ao Papa: "Francisco nos disse para ter cuidado, advertindo-nos que estávamos errados na educação dos laicos, porque pretendíamos que os laicos comprometidos fossem apenas aqueles pertencentes ao conselho pastoral E assim formamos uma elite secular que é absolutamente clerical. Este é o resultado de se utilizar laicos segundo uma lógica clerical. Ao contrário, devemos seguir por uma lógica que apoie os laicos a viver sua fé na normalidade da vida cotidiana".
Quanto às paróquias, é verdade que existe uma distribuição desigual, embora seja primariamente qualitativa: "Algumas desempenham um papel relevante em vários campos. Em outras, entretanto, respira-se uma atmosfera obsoleta, caduca. Um clima, justamente, clerical". Claro, há o risco de que o desgaste do tecido cultural italiano - feito principalmente de pequenos vilarejos que durante décadas tiveram no pároco a principal figura de referência – continue de forma irrefreável.
O caminho batismo-catequese diária-vida paroquial em suas múltiplas formas que as gerações nascidas até os anos 1960 vivenciaram, com o tempo marcado pelos momentos religiosos da comunidade, pertence ao passado. "Estamos caminhando para um empobrecimento das relações sociais, com uma presença menor no território de pontos de referência que permitem o agrupamento coletivo", diz Franco Garelli. "É um problema real. O clero tem dificuldade em continuar a praticar um modelo que implica em pesadas incumbências e carga de trabalho estafante. "A solução, no entanto, não necessariamente passa pela chamada "importação de padres" do hemisfério sul. "Eu sempre olhei com perplexidade este fenômeno. África e América Latina não são Europa. Paradoxalmente, corre-se o risco de favorecer o ocidente, cada vez mais secularizado, removendo energias e forças de contextos onde a situação, ao contrário, é a oposta". Mas a situação não está perdida ou, pelo menos, não inteiramente.
O professor Borghesi está convencido de que a chave para reverter o curso pode, de alguma forma, ser representada por Francisco. Não se trata das dissertações sobre a contabilização de multidões arrebatadas em oração, mas do "carisma deste Pontífice, que vem da experiência do cristianismo popular latino-americano e que indica a possibilidade de um novo encontro entre fé e realidade popular. Ele faz isso, concentrando-se nas pessoas simples, com uma mensagem do Evangelho que vai direto ao coração tanto dos que estão próximos, como dos distantes. Pessoas que, em muitos casos, voltam a frequentar a missa".
Mérito de Bergoglio? "Eu não digo que depende apenas do Papa, é claro. Mas algo foi posto em movimento. Realmente, depende muito do pároco: as pessoas voltam para a missa no domingo, quando encontram párocos que têm humanidade e coração". Muitas vezes, as realidades paroquiais "mais vivas" são aquelas guiadas pelos movimentos, mesmo que, comenta Borghesi, "não é justo pensar que as paróquias coordenadas por movimentos sejam as únicas vivas ou destinadas a sobreviver. É preciso, é claro, que o pároco também esteja aberto a essas experiências, especialmente (e principalmente) por seu próprio interesse. Mais uma vez, é preciso sair de dentro de si mesmo e questionar-se sobre as necessidades do ambiente que vive à nossa volta".
Mais severo foi o julgamento de Diotallevi, que há tempo denunciava uma "competição" entre os movimentos que inevitavelmente reverberava sobre a "estrutura territorial da igreja", tanto que a "sua autonomia pastoral dos bispos e dos párocos – não "amigos"- é bastante elevada". O sociólogo de Roma teria sugerido olhar com atenção a realidade da Opus Dei. Não é por acaso que esta dialética, às vezes positiva e frutífera, outras problemática, foi tratada em profusão durante o Sínodo dos Bispos sobre a Europa, dezoito anos atrás.
A questão da relação entre a paróquia e os movimentos foi abordada, naquela ocasião, pelo cardeal Carlo Maria Martini, em um dos seus três famosos "sonhos" sobre o futuro da igreja: o então arcebispo de Milão pedia um maior envolvimento dos movimentos seculares e das novas comunidades na pastoral paroquial, a fim de circunscrever (para muitos, limitar) a sua ação. Desde então, o debate continuou, de forma cada vez mais desanimada. Enquanto isso, no aguardo que a nova evangelização siga seu curso, apenas resta assistir ao fim de uma época marcada pelo repicar dos campanários. Entender, então, que o "Angelus” do pintor Jean-François Millet, retrata um tempo que já passou. Fonte: www.ihu.unisinos.br


Assim quero morrer: Evangelho do 5º Domingo da Quaresma.

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho segundo João 11-1-45 que corresponde ao Quinto Domingo de Quaresma, ciclo A do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto. 

Eis o texto
Jesus nunca escondeu seu carinho pelos três irmãos que vivem em Betânia. Seguramente são os que o acolhem na sua casa sempre que sobe a Jerusalém. Um dia, Jesus recebe um recado: «O nosso irmão Lázaro, o teu amigo, está doente». Ao fim de pouco tempo Jesus encaminha-se para a pequena aldeia.
Quando se apresenta, Lázaro já morreu. Ao vê-lo chegar, Maria, a irmã mais jovem, põe-se a chorar. Ninguém a pode consolar. Ao ver chorar a sua amiga e também os judeus que a acompanham, Jesus não pode conter-se. Também Ele «se põe a chorar» junto deles. As pessoas comentam: “Como o queria!”.
Jesus não chora só pela morte de um amigo muito querido. Quebra-se sua alma ao sentir a impotência de todos ante a morte. Todos levamos no mais íntimo do nosso ser um desejo insaciável de viver. Por que temos de morrer? Por que a vida não é mais feliz, mais longa, mais segura, mais vida?
O homem de hoje, como em todas as épocas, leva cravada no seu coração a pergunta mais inquietante e mais difícil de responder: que vai ser de todos e cada um de nós? É inútil tratar de nos enganarmos. Que podemos fazer ante a morte? Revoltar-nos? Deprimir-nos?
Sem dúvida, a reação mais comum é esquecer e «seguir em frente». Mas, não está o ser humano chamado a viver a sua vida e a viver-se a si mesmo com lucidez e responsabilidade? Só próximo do nosso fim, havemos de nos acercar de forma inconsciente e irresponsável, sem tomar qualquer posição?
Ante o mistério último da morte, não é possível apelar a dogmas científicos nem religiosos. Não nos podemos guiar mais para além desta vida. Mais honrada parece a postura do escultor Eduardo Chillida, o qual, em certa ocasião, escutei-o dizer: «Da morte, a razão me diz que é definitiva. Da razão, a razão me diz que é limitada».
O cristão não sabe da outra vida mais que os outros. Também nós devemos aproximar-nos com humildade ao acontecimento obscuro da nossa morte. Mas fazemos com uma confiança radical na bondade do Mistério de Deus que vislumbramos em Jesus. Esse Jesus a quem, sem o termos visto, amamos e a quem, sem o ver ainda, damos a nossa confiança.

Esta confiança não pode ser entendida a partir de fora. Só pode ser vivida por quem respondeu, com fé simples, às palavras de Jesus: «Eu sou a ressurreição e a vida. Acreditas nisto?». Recentemente, Hans Küng, o teólogo católico mais crítico do século XX, próximo já do seu fim, disse que, para ele, morrer é «descansar no mistério da misericórdia de Deus». Assim eu quero morrer. Fonte: www.ihu.unisinos.br

Lázaro, vem para fora! 5º Domingo da Quaresma.

Um tal de Lázaro tinha caído de cama. Ele era natural de Betânia, o povoado de Maria e de sua irmã Marta.
Maria era aquela que tinha ungido o Senhor com perfume, e que tinha enxugado os pés dele com os cabelos. Lázaro, que estava doente, era irmão dela. Então as irmãs mandaram a Jesus um recado que dizia: «Senhor, aquele a quem amas está doente.»
Ouvindo o recado, Jesus disse: «Essa doença não é para a morte, mas para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por meio dela.» Jesus amava Marta, a irmã dela e Lázaro. Quando ouviu que ele estava doente, ficou ainda dois dias no lugar onde estava. Só então disse aos discípulos: «Vamos outra vez à Judéia.» Os discípulos contestaram: «Mestre, agora há pouco os judeus queriam te apedrejar, e vais de novo para lá?»
Jesus respondeu: «Não são doze as horas do dia? Se alguém caminha de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo. Mas se alguém caminha de noite, tropeça, porque nele não há luz.» Disse isso e acrescentou: «O nosso amigo Lázaro adormeceu. Eu vou acordá-lo.»
Os discípulos disseram: «Senhor, se ele está dormindo, vai se salvar.» Jesus se referia à morte de Lázaro, mas os discípulos pensaram que ele estivesse falando de sono natural.
Então Jesus falou claramente para eles: «Lázaro está morto. E eu me alegro por não termos estado lá, para que vocês acreditem. Agora, vamos para a casa dele.» Então Tomé, chamado Gêmeo, disse aos companheiros: «Vamos nós também para morrermos com ele.»
Leitura completa do Evangelho de João 11, 1-45. (Correspondente ao 5º Domingo de Quaresma, ciclo A do Ano Litúrgico). O comentário é de Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado

Lázaro, vem para fora!
Nos primeiros séculos do Cristianismo, o tempo de Quaresma era o tempo para preparar-se para o Batismo.
Antes de entrar no evangelho de hoje, nos perguntamos por que este evangelho é lido neste período de Quaresma.
Lembremos que no tempo atual também há várias pessoas que se preparam para receber o Sacramento do Batismo e serem membros da Igreja: discípulos e testemunhos do Amor incondicional do Pai e todas as pessoas que ainda não sabem da sua Presença no meio de nós.
Lembremos os textos do Evangelho de João que foram lidos nos domingos anteriores.
A narrativa da mulher de Samaria, que encontra Jesus no poço aonde ela ia periodicamente para tirar água. O diálogo que se inicia a partir do momento que Jesus pede-lhe de beber, leva a mulher ao reconhecimento da sua profunda sede interior. Assim Jesus fez jorrar nela uma fonte da água Viva que sacia suas necessidades e a transforma num manancial de vida em abundância.
No domingo último, meditamos sobre a história do cego de nascença que é curado por Jesus e recupera a vista. Passa das trevas à luz! Como discípulo de Jesus, converte-se em testemunho dele como Luz do mundo no meio de um ambiente que em vários momentos escolhe a obscuridade!
Hoje nos introduzimos no milagre da Vida que vence a morte. Lázaro, que, junto com suas duas irmãs, era amigo querido de Jesus, vai morrer. Nele se dará a manifestação do poder da Vida que triunfa diante da morte, da Palavra que realiza aquilo que pronuncia.
Penetramos assim na simbologia da água, da Luz e da Vida. Três signos fundamentais do Batismo.
A água onde somos submergidos e ressurgimos para a Vida de Deus. Renascimento da água e do Espírito Santo!
A luz que representa Cristo, como luz do mundo, e nos convida a caminhar a partir desse momento na luz. Como disse Paulo, deixar as trevas porque somos Filhos da Luz. A Vida que vence a morte: a vida de Cristo Ressuscitado!
Todos nós fomos iluminados no Batismo e convidados a ver a realidade como ele a vê. Jesus nos oferece a verdadeira luz da nossa vida, caminhar na luz, ter vida em abundância.
Dom inestimável do Batismo, que sejamos sempre portadores da Luz de Cristo, da sua vida! Nele cada um de nós se pode se ver refletido.
Neste domingo a narrativa do capítulo 11 do Evangelho de João apresenta-nos o vencimento da vida diante da morte. É um texto extenso mas carregado de sentido. Jesus realiza um milagre: seu amigo Lázaro, que estava doente, morre e Jesus oferece-lhe de novo a vida.
Um sinal da Vida que vence a morte, prenúncio da sua ressurreição. Como consequência deste fato, os judeus e os fariseus, que ao longo de todo o Evangelho desejam matar Jesus, decidem sua morte. É o último sinal de Jesus, prenúncio de sua morte. O episódio de Lázaro termina com a menção da Páscoa, de morte de Jesus no final do capítulo (11,55).
No início do texto lemos que: “Um tal de Lázaro tinha caído de cama. Ele era natural de Betânia, o povoado de Maria e de sua irmã Marta.” Mais adiante dirá que Jesus amava Marta, a irmã dela e Lázaro (11,5). Eles representam também a humanidade, cada um e cada uma de nós. O Amor de Deus é incondicional e cheio de misericórdia.
Ao longo do texto nos identificamos com cada um dos personagens que aparecem. Os discípulos tentam dissuadir Jesus do seu retorno à Judeia, porque “há pouco os judeus queriam te apedrejar, e vais de novo para lá?”.
Vemos as atitudes dos judeus que foram à casa de Maria e Marta para “as consolar por causa do seu irmão”. Lázaro tinha morrido. Vemos os diferentes procedimentos de Marta e Maria com Jesus. O Evangelho nos diz que “quando Marta ouviu que Jesus estava chegando, foi ao encontro dele. Maria, porém, ficou sentada em casa”.
Marta sai à procura de Jesus e o encontra no caminho. No diálogo estabelecido, Marta fez uma manifestação de sua fé em Jesus, que disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e acredita em mim, não morrerá para sempre.”
Marta acredita em Jesus e o reconhece como a Ressurreição e a vida! A confissão de fé de Marta corresponde à dos primeiros cristãos. Alguns biblistas reconhecem nela a comunidade joanina que se expressa.
“Dito isso - continua o relato evangélico -, Marta foi chamar sua irmã Maria.” Falou com ela em voz baixa: “O Mestre está aí, e está chamando você”. “Quando Maria ouviu isso, levantou-se depressa e foi ao encontro de Jesus.” Ela o encontra no mesmo lugar onde Marta o havia encontrado.”
Maria estava “sentada em casa”, como deve fazer uma mulher que está de luto. Agora ela responde ao chamado de Jesus e vai ao seu encontro junto com os judeus que estavam na sua casa e a procuravam consolar. "Quando Jesus viu que Maria e os judeus que iam com ela estavam chorando se conturba e fica comovido”. Quando acompanha o grupo até o túmulo, Jesus começa a chorar e suas lágrimas fazem reconhecer aos outros seu amor por Lázaro e nele por cada um de nós.
As atitudes de Jesus expressam de forma muito natural seu amor, seu desejo de vida, sua dor diante da morte. Ele sofre ao ver-nos na obscuridade, fechados em nós mesmos, num mundo sem vida, atados como Lázaro pelas trevas interiores, atitudes que só conduzem à morte!
Uma pedra fecha a entrada de nossos túmulos! Diante da morte que nos oprime e escraviza, Jesus reage. Num primeiro momento, pede que seja retirada a pedra do túmulo para logo “gritar bem forte: Lázaro, vem para fora!”.
Lázaro, sai da morte, sai dessa obscuridade sem sentido, que só vos escraviza, e conhece a luz da vida verdadeira!
Podemos perguntar-nos qual é a pedra que nos impede de sair, que é preciso tirar e assim sair da sepultura que aprisiona nossas energias e nos escraviza. Ressentimentos, agressividades acumuladas, inveja, ciúmes, e tantas outras coisas que só nos fecham em nós mesmos, transformando-nos como “mortos que caminham”. Cegos sem rumo, sem destino nem orientação, perdidos e entregues ao imediato?
Hoje Jesus dirige-se também a cada um de nós para chamar-nos à Vida, para tirar-nos da morte, desatar-nos das escravidões, e assim viver livres nele.

Preparando-nos para viver a Semana Santa junto com ele, somos convidados a sair do sepulcro e abraçar a Vida! Fonte: www.ihu.unisinos.br

quinta-feira, 30 de março de 2017

OLHAR RECORDAÇÃO: Aniversário de Eduardo. - Vídeo Dailymotion

OLHAR RECORDAÇÃO: Aniversário de Eduardo. - Vídeo Dailymotion: OLHAR RECORDAÇÃO: Vídeo de Aniversário de Eduardo Gonçalves de Miranda, (Sobrinho do Frei Petrônio de Miranda), no dia 27 de julho-2000 no Shopping Interlagos, São Paulo. Convento do Carmo da Lapa, Rio de Janeiro. 30 de março-2017. DIVULGAÇÃO: www.olharjornalistico.com.br

AO VIVO-BATE PAPO BÍBLCO: Com Frei Carlos Mesters e Frei Petrônio.

quarta-feira, 15 de março de 2017

AO VIVO COM FREI PETRÔNIO: O Bioma do Carmelo.

ASSEMBLEIA DA ORDEM TERCEIRA/2017: O Bioma do Carmelo. - Vídeo Dailymotion

ASSEMBLEIA DA ORDEM TERCEIRA/2017: O Bioma do Carmelo. - Vídeo Dailymotion: Imagens da Assembleia Eletiva Provincial da Ordem Terceira do Carmo. O evento acontece entre os dias 10-12 de março no Convento do Carmo, da Bela Vista, São Paulo. No vídeo, oração da manhã do dia 12, domingo. Convento do Carmo, São Paulo. 12 de março-2017. DIVULGAÇÃO: www.mensagensdofreipetroniodemiranda.blogspot.com www.dailymotion.com/olharjornalistico www.facebook.com/freipetronio2; www.olharjornalistico.com.br;

Da Regra da Ordem Terceira do Carmo: Participação no carisma da Ordem

A Ordem do Carmo está presente na Igreja com os frades e com as monjas de vida claustral, as de vida ativa e os seculares, que participam de forma diversa e gradual do carisma e da espiritualidade próprios da Ordem Também os leigos, de fato, podem fazer parte do mesmo chamado à santidade e da idêntica missão do Carmelo A Ordem, reconhecendo a sua vocação, acolhe-os, e organiza-os nas formas e modalidades próprias do seu estado de vida, comunica-lhes as riquezas da própria espiritualidade e tradição, tornando-os ainda participantes dos benefícios espirituais e boas obras realizadas por todos os membros da Família Carmelitana. Para os leigos a forma mais completa e orgânica de incorporação na Ordem do Carmo é a profissão na Ordem Terceira do Carmo, pela qual participam do carisma Carmelita, segundo o seu modo específico e próprio de leigos.
O Carmelo favorece o ingresso de casais, famílias e jovens que desejam conhecer e viver a espiritualidade Carmelita, ainda que sob novas formas, erigindo a Ordem Terceira do Carmo como forma estável e aprovada de agregação, que pode receber um novo influxo vital do confronto com estas novas formas de iniciativa. O carisma Carmelita vivido desde há séculos em diversas culturas e tradições, oferece um caminho seguro para se chegar à santidade compreendida como padrão da vida cristã ordinária.

Seguindo pelo caminho aberto pelo Concilio Vaticano II, o Carmelo explicitou o próprio carisma de forma sintética, expressa nos documentos recentes nos seguintes termos: “viver no obséquio de Jesus Cristo com postura contemplativa que plasma a nossa vida de oração, de fraternidade e de serviço. Reconhecemos na Virgem Maria e no Profeta Elias os modelos inspiradores e paradigmáticos desta experiência de fé, guias seguros na travessia dos árduos caminhos, que levam “ao cume do monte, Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Da Regra da Ordem Terceira do Carmo: Chamado específico do Carmelita Secular

A vida espiritual - ou vida segundo o Espírito - começa com a iniciativa do Pai, que, mediante o Filho e no Espírito Santo dá a cada homem e a cada mulher sua vida e santidade, chamando cada um a viver uma misteriosa relação de comunhão com as pessoas da Santíssima Trindade. Deus vem a procura de cada pessoa, atraindo-a para si através do seu Filho o Espírito faz com que dirija sua atenção para Ele, escute a sua voz, acolha a sua Palavra, se abra à sua ação transformadora. A procura de Deus por parte de um Carmelita Secular e sua obediência ao senhorio de Nosso Senhor Jesus Cristo é uma resposta, impulsionada pelo Espírito, à sua voz no diálogo fraterno que ele estabelece com cada um pelo Verbo que se fez carne. O caminho de um terceiro começa com o ato de fé que o faz acolher Jesus e o evento pascal, como o sentido da sua vida e o faz deixar-se conduzir por Ele, colocando-o no centro de sua própria vida. Assim enraizados no amor misericordioso de Deus, os Leigos Carmelitas se propõem a subir o Monte Carmelo, cujo cume é Cristo Jesus.
A subida do Monte por parte de um leigo, em primeiro lugar, implica em seguir a Cristo com todo o seu ser e servi- Lo “fielmente com coração puro e total dedicação”. O espírito de Cristo deveria entranhar sua pessoa a ponto de poder repetir com São Paulo, “não sou mais eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”, de forma que todo seu agir ocorra “sob sua palavra”
Jesus deve tomar-se progressivamente a Pessoa mais importante da sua existência. Isto significa uma relação pessoal, calorosa, afetuosa, constante com Jesus. Tal relação é nutrida pela Eucaristia, vida litúrgica, Sagrada Escritura e pelas várias formas de oração, induzindo o terceiro a reconhecer Jesus no próximo e nos eventos quotidianos, levando-o a testemunhal pelas estradas do mundo a marca indelével de sua presença.
O chamamento do Pai para o seguimento de Cristo por obra vivificante do Espírito Santo, se realiza na plena pertença à Igreja. O terceiro recebe o chamado à santidade pelo sacramento do Batismo que incorpora os seres humanos no Corpo Místico de Cristo. A sua maior dignidade consiste exatamente no gozo da própria vida divina e do amor de Deus derramado em seu coração pelo Espírito. Deste modo em companhia dos demais, segundo a vocação e os dons de cada um, pode contribuir para a grandiosa obra de edificação do único Corpo de Cristo.
A natureza humana, débil e limitada, por causa de suas misérias, deixa-se conduzir pela vontade divina e abraça uma vida de conversão sempre mais profunda envolvendo o ser humano por toda a vida e em todas as dimensões, a conversão implica um radical e novo direcionamento a uma progressiva transformação. Guiados pelo Espírito os terceiros buscam a superação dos obstáculos que encontram nos seus caminhos e evitam tudo aquilo que possa desviá-los da estrada rumo ao cume. Além disso, reconhecendo possíveis limitações e resistências, empenham-se em seguir, sem vacilar e sem desvios, por um caminho gradual rumo aos ideais escolhidos.
A “Subida do Monte” implica a experiência do deserto, no qual “a chama viva do amor” de Deus realiza uma transformação que faz com que o Carmelita Secular se desapegue de tudo, até mesmo da imagem que fez de Deu, purificando-a. Revestindo-se de Cristo, começa a resplandecer como imagem viva de Cristo, nele transformado em nova criatura.

Esta transformação gradual toma o terceiro mais capaz de discernir os sinais dos tempos e a presença de Deus na história, reforçando em si mesmo o sentido de fraternidade e conduzindo a um empenho sério e decisivo em favor da transformação do mundo.

Da Regra da Ordem Terceira do Carmo: A dimensão contemplativa da existência


Também os leigos Carmelitas são chamados a viver na presença do Deus vivo e verdadeiro, que em Cristo habitou no meio de nós, e a procurar toda a possibilidade e ocasião de alcançar a intimidade divina, deixando-se guiar pela ação do Espírito Santo, os leigos Carmelitas aceitam ser transformados na mente e no coração, no olhar e nos gestos. Todo o seu ser e sua existência se abrem ao reconhecimento da ação imediata e plena de misericórdia de Deus na vida de cada um.
Descobrem-se irmãos e irmãs, chamados a repartir o caminho comum em direção à plena santidade e a levar a todos o anúncio de que somos filhos do único Pai, irmãos de Jesus. Deixam-se entusiasmar pelas grandes obras que Deus executa e por meio das quais Ele solicita seu compromisso e eficaz contributo.

“No Carmelo se recorda aos homens, cheios de tantas preocupações, que a prioridade absoluta deve ser dada à procura “do Reino de Deus e da sua justiça”. Por essa razão, na família, no ambiente de trabalho e na vida profissional, nas responsabilidades sociais e eclesiais, nas ações de cada dia, no relacionamento com o próximo, os leigos Carmelitas procuram as pegadas ocultas de Deus. Reconhecendo-as, fazem com que germine a semente da salvação segundo o espírito das bem-aventuranças, com humilde e constante exercício das virtudes da probidade, espírito de justiça, sinceridade, cortesia, fortaleza de ânimo, sem as quais não pode haver uma verdadeira vida humana e cristã.

Índios gays: Amor e ódio na colônia

Padres chegaram a matar um tupi homossexual amarrando-o na boca de um canhão
Foi aos pés do Forte de São Luís do Maranhão, onde hoje funciona o Palácio dos Leões. 1614, o missionário francês Yves D’Évreux (1577-1632), da Ordem dos Capuchinhos, ordenou a prisão, tortura e execução do índio Tibira, da tribo dos tupinambás, sob o pretexto de “purificar a terra do abominável pecado da sodomia”. Tibira ainda tentou fugir, escondendo-se na mata por alguns dias, mas foi logo capturado. Amarrado pela cintura à boca de um canhão, “onde deitaram-lhe ferros aos pés”, teve seu corpo destroçado. Uma parte dele caiu aos pés do forte. A outra desapareceu no mar. 
O extermínio de Tibira foi documentado pelo próprio d’Evreux, que dedicou um capítulo inteiro de seu livro, Voyage Dans le Nord du Brésil Fait Durant les Années 1613 et 1614 (“Viagem ao Norte do Brasil feita nos anos de 1613 e 1614”, em livre tradução), ao índio tupinambá – “bruto, mais cavalo do que homem”. Antes de sentenciá-lo à morte, o capuchinho ainda lhe concedeu um último desejo: o de fumar tabaco – ou “petum”, em língua tupinambá. Segundo um costume indígena, quando saíam para caçar, os tupinambás costumavam levar “petum”. Caso viesse a faltar mantimentos, saciavam a fome, mastigando folhas de fumo. Para Tibira não morrer pagão, D’Évreux providenciou o batismo dele, com o nome de Dimas – em alusão ao “bom ladrão” perdoado por Jesus Cristo na cruz. 
Suas últimas palavras? “Vou morrer. Não tenho mais medo de Jurupari (Diabo). Agora, sou filho de Deus”. Para não sujar as mãos com sangue inocente, os missionários franceses concederam a “honra” da execução a outro tupinambá. “Morres por teus crimes, aprovamos tua morte e eu mesmo quero pôr fogo no canhão para que saibam e vejam os franceses que detestamos as sujeiras que cometeste”, declarou o cacique Caruatapirã, seu rival mortal. Daquele dia em diante, o algoz de Tibira passou a gabar-se de seu feito e, pior, a servir-se dele para impor respeito aos outros nativos. A execução, em praça pública, foi assistida por autoridades civis e militares da então colônia francesa, além de chefes de diversas etnias indígenas. 
Ainda hoje, quatrocentos anos depois, o relato da morte de Tibira causa espanto a Luiz Mott, doutor em Antropologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Não temos notícia no Brasil de outros criminosos que tivessem sido executados na boca de um canhão”, afirma. Segundo Mott, as razões de tão cruel execução são duas: medo do castigo divino – não é à toa que o termo sodomia originou-se a partir do episódio bíblico que narra a destruição das cidades de Sodoma e Gomorra – e receio de contágio. “Ao castigar um adepto da sodomia com a pena capital, os religiosos aplicavam a pedagogia do medo não só para erradicar essa abominação da terra selvagem, como para inibir sua prática nefanda entre os colonos”, explica o antropólogo e historiador. 
Em países do Velho Mundo, como França, Portugal e Espanha, sodomitas, hereges e bruxos, entre outros, eram condenados à morte na fogueira, “para não deixar vestígios”. No Brasil colonial, a utilização de um canhão como instrumento de execução só pode ser explicada como artifício para espetacularizar a morte de um pecador. Segundo Mott, o extremismo homofóbico perpetrado em São Luís do Maranhão infringia o próprio Direito Canônico da Igreja Católica, que não autorizava missionários de condenarem suspeitos de sodomia à morte. “A execução de Tibira foi totalmente arbitrária. Só o tribunal do Santo Ofício tinha jurisdição papal para queimar sodomitas”, afirma Mott. 

Outros costumes
Os três navios franceses da expedição de Daniel de La Touche, que trouxeram o missionário francês Yves D’Évreux ao Brasil, ainda não tinham sequer zarpado do porto de Cancele, na Bretanha, em março de 1612 e os colonizadores portugueses já se escandalizavam com os hábitos sexuais dos silvícolas brasileiros. Um dos primeiros documentos que se tem notícia é o do jesuíta português Padre Manuel da Nóbrega (1517-1570). “Os índios do Brasil cometem pecados que clamam aos céus”, denunciou o sacerdote à Coroa Portuguesa, em 1549. Outro relato que chama a atenção é o do historiador português Gabriel Soares de Sousa (1540-1592). “São os tupinambás tão luxuriosos que não há pecado que eles não cometam”, decretou em seu “Tratado Descritivo do Brasil”, de 1587. 
Além deles, o jesuíta português Pero Correia (1551), o missionário francês Jean de Léry (1557) e o historiador português Pero de Magalhães Gandavo (1576) também reportaram casos de sodomia entre os tupinambás. Curiosamente, algumas mulheres da tribo também assumiam papéis diferentes do habitual. Saíam para caçar, participavam de guerras, tinham esposas. Se os gays eram conhecidos como “tibira”, as lésbicas eram chamadas de “çacoaimbeguiras”. “Algumas índias deixam todo o exercício de mulheres e, imitando os homens, seguem seus ofícios como se não fossem fêmeas. E cada uma tem mulher que a serve, com quem diz que é casada. E assim se comunicam e conservam como marido e mulher”, relata Pero de Magalhães Gandavo (1540-1580) em “Tratado da Terra do Brasil”, de 1576. 
Os tupinambás, porém, não eram os únicos a praticar o que Yves D’Évreux chamava de “o mais torpe, sujo e desonesto dos pecados”. Outras etnias, como guaicurus, xambioás, nambiquaras, bororos e tikunas, só para citar algumas, também não viam problema com a homossexualidade. “Tal conjunto de práticas era comum em sociedades indígenas brasileiras, sem que houvesse estigma sobre essas pessoas por parte de seu grupo”, afirma o sociólogo Estevão Rafael Fernandes, da Universidade Federal de Rondônia (UNIR). “Há várias fontes, inclusive, apontando para um papel espiritual desempenhado por esses indivíduos em suas aldeias. O que os missionários e colonizadores percebiam como depravação era, muitas vezes, percebido como potencial xamânico pelos indígenas”. 
Autor do artigo “Homossexualidade Indígena no Brasil”, Fernandes observa que, nos EUA e Canadá, tribos indígenas com uma sexualidade fora do modelo predominante também foram perseguidas por ingleses, franceses e espanhóis. E mais: lá, os indígenas homossexuais são chamados de two-spirit pelos seus iguais. Mais do que uma maldição, nascer com “dois espíritos” seria uma benção. É como se estivessem em transição entre dois mundos: o masculino e o feminino, o terreno e o espiritual, o indígena e o não-indígena. “Isso garantia a eles um papel de destaque em suas tribos”, completa.  
Perseguição no primeiro século
1547 – O português Estêvão Redondo é o primeiro homossexual degredado pelo Santo Ofício da Inquisição para o Brasil. Ele chegou a Recife, em fevereiro daquele ano, vindo de Lisboa. Teve seu nome inscrito no Livro dos Degregados pelo próprio governador de Pernambuco, Dom Duarte d’Albuquerque Coelho. 
1580 – O medo de morrer queimado era tanto que levava os suspeitos de sodomia a praticar atos impensáveis. Como o do professor baiano Fernão Luiz. Na esperança de apagar as provas do “crime”, tramou a morte de seu parceiro e de sua família: pôs veneno em uma galinha, preparou uma canja e a deu para eles como refeição. 
1586 – Para escapar da repressão inquisitorial, o feitor baiano Gaspar Roiz subornou um padre para queimar o sumário de culpas que o acusava de sodomia com um jovem chamado Matias. Muitas vezes, os acusados tinham seus bens confiscados pelo Santo Ofício, antes mesmo de conseguirem provar sua inocência. 
1591 – O padre Frutuoso Álvares foi o primeiro homossexual a ser interrogado pela Inquisição no Brasil. Era acusado de praticar atos libidinosos, como masturbação e sodomia, em homens e rapazes. Seu inquisidor foi o padre Heitor Furtado de Mendonça, responsável pela primeira visitação do Tribunal do Santo Ofício à colônia. 
1592 –  Filipa de Souza foi a primeira lésbica a ser açoitada publicamente pela Inquisição no Brasil. Nascida em Portugal, chegou à colônia em data ignorada. Viúva, foi denunciada por “práticas nefandas” e presa em 18 de dezembro de 1591, aos 35 anos. Depois de expulsa da capitania, não se teve mais notícias de seu paradeiro. 

sexta-feira, 3 de março de 2017

MISERICÓRDIA OU SACRIFÍCIO? Frei Petrônio.

ELEIDE DE MIRANDA: Aniversário.

OLHAR DE CONVERSÃO: Frei Petrônio.

“As aparições de Medjugorje não são autênticas”, afirma bispo de Mostar

O artigo publicado há dois dias pelo bispo de Mostar (Bósnia e Herzegovina), sob cuja jurisdição Medjugorje atualmente se encontra, é muito significativo, começando pelo título. “As aparições dos primeiros sete dias em Medjugorje” é uma acusação com a qual dom Ratko Peric, desde sempre contra qualquer credibilidade ao fenômeno, procura desmantelar as “aparições” precisamente em sua primeira fase, utilizando material já conhecido e publicado há muitos anos. Essa fase sobre a qual a comissão criada por Bento XVI e conduzida pelo cardeal Camilo Ruini reconheceu, ao contrário, elementos sobrenaturais. O relatório entregue a Francisco, em 2014, fruto do trabalho de quatro anos, sugeria ao Pontífice que somente procedesse com o reconhecimento do fenômeno das primeiras semanas. A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 28-02-2017. A tradução é do Cepat.
Contudo, o que mais surpreende é a coincidência temporal. Dom Peric publicou o artigo a pouco tempo da chegada do enviado especial do Papa, o arcebispo de Varsóvia-Praga Henryk Hoser, encarregado em “adquirir conhecimentos mais profundos sobre a situação pastoral daquela realidade e, sobretudo, sobre as exigências dos fiéis que ali chegam em peregrinação e, com base nelas, sugerir eventuais iniciativas pastorais para o futuro”. Sabe-se que o mandato de Hoser não está relacionado com a autenticidade das aparições, mas apenas com o cuidado pastoral dos fiéis e com a solução dos antigos problemas que, há tempo, na região, opõem os frades franciscanos, titulares da paróquia, ao bispo de Mostar.
Em seu artigo, Peric critica qualquer tendência a considerar autêntico o fenômeno de Medjugorje: “A posição desta Cúria por todo este período foi clara e decidida: não se trata de verdadeiras aparições da Beata Virgem Maria”. E critica exatamente as conclusões (nunca publicadas) da comissão Ruini. “Ainda que, às vezes, se tenha dito que as aparições dos primeiros dias poderiam ser consideradas autênticas e que, depois, haveria se somado uma sobreposição por outros motivos, principalmente não religiosos, esta Cúria promoveu a verdade também em relação a estes primeiros dias. Após ter transcrito as gravações das entrevistas ocorridas, na primeira semana, no escritório paroquial de Medjugorje, entre o pessoal pastoral e os pequenos e pequenas que tinham afirmado terem visto a Virgem, com plena convicção e responsabilidade expomos os motivos pelos quais nos parece evidente a não autenticidade dos supostos fenômenos. Se a verdadeira Virgem, Mãe de Jesus, não apareceu (como de fato não aconteceu), então é necessário aplicar a tudo as seguintes fórmulas: “supostos videntes”, “supostas mensagens”, “suposto sinal visível” e “chamados secretos””.
Com base nas gravações das entrevistas desses primeiros dias, o bispo de Mostar afirma que surge: “uma figura ambígua. A figura feminina que teria aparecido em Medjugorje se comporta de maneira completamente diferente da verdadeira Virgem, Mãe de Deus, nas aparições reconhecidas até agora como autênticas pela Igreja: normalmente não fala primeiro; ri de maneira estranha; diante de certas perguntas desaparece e depois retorna; obedece aos ‘videntes’ e ao pároco que a fazem descer da montanha à igreja, contra sua vontade. Não sabe com certeza por quanto tempo aparecerá; permite que alguns presentes pisoteiem seu véu estendido pelo chão e que toquem seu vestido e seu corpo. Esta não é a Virgem evangélica”.
Peric ressaltou o ‘estranho tremor’ que um dos videntes, Ivan Dragicevic, “na conversa com o capelão, frei Zrinko Cuvalo (1936-1991), disse ter percebido, no primeiro dia, um ‘tremor’ das mãos da aparecida. Qual ‘tremor’? Tal percepção pode suscitar não só uma forte suspeita, como também uma profunda convicção de que não se trata de uma autêntica aparição da Beata Virgem Maria”.

Outras críticas do bispo estão relacionadas com a data e o aniversário das ‘supostas aparições’, que se iniciaram no dia 24 de junho de 1981, ainda que se tenha decidido que a festa anual se celebre no dia 25 de junho, dia em que supostamente todos os videntes teriam presenciado as aparições. As argumentações do bispo continuam: “os ‘videntes’, desde o início do segundo dia, pediram a sua figura algum ‘sinal’ como prova da autenticidade da aparição. Segundo Ivanka, a aparecida deu o ‘sinal’ movendo os ponteiros do relógio de Mirjana: ‘o relógio girou por completo’, ‘e ela deixou um sinal no relógio’. Mais que ridículo é estranho”.
E mais ainda: Ivanka “está segura de que a figura deixará um sinal na montanha, talvez sob a forma de água. Após quase quatro décadas, não existe nenhum sinal, nem água, só fantasias!”. E durante os primeiros sete dias, “a aparecida não assume nenhuma iniciativa, nunca começa a falar primeiro. Responde as perguntas dos ‘videntes’ de maneira genérica, de forma bastante ambígua, inclinando a cabeça, postergando para outro momento, prometendo o milagre da cura e deixando uma mensagem às pessoas: ‘Que as pessoas creiam firmemente como se me visse’. E também aos franciscanos: ‘que creiam firmemente””.
O bispo também recorda que as descrições dos vestidos de Maria não coincidem. “Segundo as conversas com os ‘videntes’, a aparecida se veste de maneira diferente. A figura tinha o vestido, diz Ivan, ‘de cor azul’, no primeiro dia; segundo Ivanka, ‘de cor café’, no segundo dia; segundo os outros ‘videntes’, ‘de cor cinza’: Jakov, Mirjana e Ivanka, no sexto dia”.
Para concluir, dom Peric denuncia “manipulações intencionais. O interlocutor dos ‘videntes’, frei Jozo Zovko, pároco, demonstra-se muito nervoso porque a figura aparecida não envia mensagens concretas para as pessoas, nem para os frades; porque não desce da colina à igreja onde está sua estátua. E mais, questiona-se se poderia ‘obrigar’ (assim, literalmente!) a Virgem a descer e aparecer na igreja. O padre Zovko: ‘Interessa-me isto Mirjana: se a Virgem não aparecer na igreja, vocês podem obrigá-la a aparecer na igreja? Talvez a fizesse, não é certo? Qual a sua opinião?’. Mirjana: ‘Não sei. Não refletimos sobre isso”. O padre Zovko repete: ‘Eu acredito que poderiam obrigá-la: ‘Virgem, peço que me apareça na igreja’. Qual a sua opinião?’. E, em seguida, Mirjana cede e pensa que isto ‘seria melhor, porque então nem sequer a polícia nos procuraria...’”. E assim, conclui o bipo Peric, “com as manipulações, as ‘aparições’ mudaram para a igreja no dia primeiro de julho de 1981. Este ‘obrigar’ à aparecida descer e aparecer na igreja é um jogo mágico, e não o Evangelho de Cristo”.
A conclusão do bispo de Mostar é que não é possível falar em fenômenos sobrenaturais. “Tendo em conta tudo o que foi examinado e estudado por esta Cúria diocesana, incluído o estudo dos primeiros sete dias das supostas aparições, pode-se pacificamente afirmar: a Virgem não apareceu em Medjugorje!”.
O bispo havia afirmado o mesmo em outros textos do passado. As gravações mencionadas por ele, há tempo, foram transcritas, traduzidas ao croata, ao francês e ao inglês, e publicadas em três volumes. Estes materiais foram analisados com atenção pela comissão conduzida pelo cardeal Ruini.
O que surpreende é que justamente no momento em que a Santa Sé decide nomear um enviado especial do Papa, encarregado de verificar os problemas existentes para o acompanhamento pastoral dos peregrinos, o bispo tenha decidido intervir desta maneira, procurando condicionar o exame sobre a natureza sobrenatural das aparições. Um exame que agora compete à Congregação para a Doutrina da Fé. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br