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terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Os santos do povo: padre Ibiapina, Antonio Conselheiro e Padre Cícero

“Comumente a Igreja situava- se (e em alguns casos ainda se situa) ao lado dos poderosos. Entretanto, sempre houve personagens que se distinguiam: homem e mulheres de Deus que, em geral, não eram muito bem-vindos pelos poderes político-religiosos e que, em alguns casos, acabaram em finais não muito felizes.” escreve o missionário Luis Miguel Modino, em artigo publicado no sítio Religión Digital, 02-01-2014 . A tradução é do Cepat.


Eis o artigo.
O nordeste brasileiro sempre foi uma região de profundos contrastes, onde diferenças sociais foram acirradas ao longo de gerações. Devido às circunstâncias sociopolíticas, construiu-se uma sociedade profundamente desigual, marcada por muito sofrimento às camadas mais pobres.
Comumente a Igreja situava- se (e em alguns casos ainda se situa) ao lado dos poderosos. Entretanto, sempre houve personagens que se distinguiam: homem e mulheres de Deus que, em geral, não eram muito bem-vindos pelos poderes político-religiosos e que, em alguns casos, acabaram em finais não muito felizes. O que também não mudou muito.
Entre eles destacamos Padre Ibiapina, Antonio Conselheiro Padre Cícero (foto),considerados os maiores evangelizadores do sertão, uma grande região semidesértica com mais de um milhão de quilômetros quadrados, com baixos e irregulares índices de pluviosidade que provocam periódicas e prolongadas secas, como a que vem ocorrendo nos últimos quatro anos e que tem, como consequência, os grandes bolsões de pobreza, muito acentuada na época em que eles viveram.
O primeiro, o Padre José Maria Antonio Ibiapina (1806-1883), foi o inspirador de Conselheiro e de Padre Cícero. Trabalhou como magistrado na Câmara dos Deputados, mas aos 47 anos, decepcionado com o sistema social, iniciou uma obra missionária, percorrendo em missões evangelizadoras a região Nordeste do Brasil, construindo inumeráveis obras sociais e defendendo os direitos dos trabalhadores rurais que, em  muitos casos, estavam em condições de escravidão. Tudo isto deixou marcas significativas tanto para a organização eclesiástica superior, como para própria vida nas pequenas comunidades do interior. Com Ibiapina começou-se a vislumbrar a opção pelos pobres pela Igreja católica que, a partir do Vaticano II, concretizou-se na América Latina com a Teologia da Libertação.
O segundo, Antonio Vicente Mendes Maciel, conhecido como Antônio Conselheiro (1830-1897), foi um dos principais líderes sociais brasileiros que, durante décadas, atraiu numerosos seguidores entre a população mais pobre da região nordeste, que lhe deu o nome pelo qual se tornou conhecido. Em sua vida combinava o cristianismo com visões messiânicas, fazendo com que decidisse liderar uma revolta junto ao povo de Canudos, onde havia chegado em 1893, atraindo assim milhares de moradores locais como agricultores pobres, índios e escravos recém-libertos, aos quais prometia uma comunidade igualitária sob o amparo de Deus, seguindo o exemplo dos primeiros cristão, escravos e proletários. Em Canudos, através de uma vida baseada no trabalho comunitário, conseguiu-se que ninguém passasse fome. Foi construída uma comunidade sem classes, com uma economia autossustentável, baseada na solidariedade. A religião converteu-se em um instrumento da libertação social, para a criação de um mundo mais justo.
E por tudo isto provocou a ira da República, apoiada pelas autoridades religiosas, que ordenou ao exército que destruísse a comunidade e que ele fosse retratado como um louco, demente, fanático-religioso e um contrarrevolucionário monárquico perigoso, o que seria usado para justificar a matança de 15.000 pessoas. Este fato histórico inspirou o romance de Mario Vargas Llosa, “A Guerra do Fim do Mundo”. Na época da ditadura brasileira, na segunda metade do século XX, foi construída uma barragem para se tentar, sem sucesso, acabar para sempre com a memória de Canudos.
O terceiro personagem é o Padre Cícero Romão Batista (1844-1934), personagem carismático, de grande poder e influência sobre a vida social, política e religiosa do Nordeste brasileiro. Foi ordenado sacerdote em 1870 e exerceu o ministério na cidade de Juazeiro do Norte, sediará o 13º Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, entre os próximos dias 7 a 11 de janeiro.
O padre Cícero desenvolveu um intenso trabalho pastoral com pregações, conselhos e visitas feitas de casa em casa, como nunca se havia visto na região, ganhando a estima de todos e se tornando um grande líder comunitário. A isto se somou uma grande austeridade no seu modo de vida. Em consequência a tudo isso, pouco a pouco chegaram pessoas que queriam conhecê-lo, especialmente aqueles castigados pelas secas periódicas que, após perderem tudo, eram acolhido por ele com carinho.
Para auxiliá-lo em seu trabalho recrutou mulheres solteiras e viúvas, que organizariam uma irmandade de leigas, conhecidas como as beatas. Estas irmandades, que também foram constituídas por Ibiapina e Conselheiro, eram independentes da hierarquia eclesiástica. Eram baseadas na Regra de São Bento, oração e trabalho, e combatiam as inquietudes sofridas pelos mais pobres, provendo uma sociedade regida pelas regras da fé, esperança e caridade e pelos mandamentos da Lei de Deus, sendo a prática da caridade o seu principal objetivo.
Em 1889 ocorreu o suposto milagre que, ao longo do tempo, se tornou a causa de muito de seus problemas. Ao dar à comunhão a beata Maria de Araujo, a hóstia se transformou em sangue em sua boca, o que se repetiu durante anos em diferentes ocasiões. Rapidamente a notícia se espalhou e a diocese criou uma comissão para examinar o assunto, que determinou que o fato não tinha explicação natural.
Não contente com isto, o bispo nomeou uma nova comissão que concluiu que não houve milagre, dizendo que tudo tratava de mentira. O Padre Cícero foi suspenso das ordens sacerdotais e a beata foi condenada a viver enclausurada até morrer, em 1914. Em 1898, o padre Cícero foi ao Vaticano para se reunir com o Papa Leão XII e com membros daInquisição, onde foi absolvido. Todavia, ao voltar à cidade de Juazeiro, o bispo não apenas não respeitou a decisão de Roma, como excomungou Padre Cícero.
Na realidade, as atitudes de Padre Cícero incomodavam o interior da Igreja, afinal com elas questionava-se a vida dos outros clérigos. Era necessário apenas um motivo, para que pudesse tirá-lo do meio. Após tudo isto, Padre Cícero foi o primeiro prefeito da cidade de Juazeiro, em 1911, que até então dependia da cidade de Crato, e chegou a ser vice-governador do estado do Ceará.
Com o passar do tempo sua fama de santo milagroso cresceu. Morreu em 1934 e foi enterrado na Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que se converteu em um dos lugares de peregrinação mais importantes do Brasil.
A devoção popular por Padre Cícero é uma das marcas da religiosidade popular brasileira, especialmente na região Nordeste. Até pouco tempo, Juazeiro era visto como lugar dos contra-valores cristãos, afinal o clero não intervinha nas romarias e tudo era coordenado pelos leigos, chegando a criar sua própria liturgia.
Apesar de tudo as romarias não diminuíram e, a cada ano, o número de peregrinos que visitam o túmulo de Padre Cícero, pobres em sua maioria, supera os dois milhões de pessoas. Hoje a Igreja católica tenta reabilitar a figura dePadre Cícero, dando a tudo uma nova forma. Fonte:
As imagens de padre Cícero ocupam as praças de muitas cidades nordestinas e têm um lugar de destaque em muitas casas. As pessoas fazem procissões, orações e pedidos a seu “Padim, Padre Cícero”, com uma fé incomum. E pode-se se perguntar: como é possível que um excomungado tenha se convertido no “santo” do povo?

Padre Cícero é RECONCILIADO com a Igreja Católica

A Solenidade de abertura da Porta Santa realizada hoje, 13 de dezembro, na Catedral Nossa Senhora da Penha, em Crato- CE, teve para os fiéis da Diocese de Crato e romeiros do Padre Cícero Romão Batista um significado ainda maior. Neste dia o Bispo Dom Fernando Panico comunicou ao povo, durante sua homilia, que o Papa Francisco havia enviado uma carta, assinada pelo Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado de Sua Santidade, na qual autoriza a reconciliação do “Padim Ciço”, como é carinhosamente chamado pelos devotos, com a Igreja Católica.
As palavras aguardadas há décadas pelos fiéis foram recebidas com júbilo. Fogos de artificio, palmas e expressões de alegria era o que se notava no rosto dos que participavam da celebração. Um quadro com a imagem do padre foi introduzida não no altar, pois ele ainda não foi canonizado, mas dentro da Igreja, próximo ao altar. “Ele vai entrar como romeiro. Seu lugar não será ainda o Altar, mas ficará no meio do Povo, invocando e cantando conosco a misericórdia do Pai”, disse Dom Fernando.
Além de destacar a fé simples e a devoção a Nossa Senhora que o Padre Cícero teve em sua existência, o Papa ainda caracterizou o seu modo de evangelização, vivido no final do século XIX e início do XX, como atual. “Atitude de saída, ao encontro das periferias existenciais, a atitude do Padre Cícero em acolher a todos, especialmente aos pobres e sofredores, aconselhando-os e abençoando-os, constitui sem dúvida, um sinal importante e atual”, afirmou.
Padre Cícero morreu em 1934 suspenso de ordem. A partir da data de seu falecimento o número de fiéis que realizam romarias a cidade que ele fundou, Juazeiro do Norte, só cresce. Diante desta realidade ao chegar na Diocese de Crato, em 2001, Dom Fernando Panico colocou esta reconciliação como prioridade de seu episcopado.
O Bispo formou uma comissão e deu entrada, em 2006, na Congregação para Doutrina da Fé, no Vaticano, ao processo de REABILITAÇÃO, porém o Papa Francisco foi além. A partir dos estudos realizados pela Equipe de Direito Canônico do Vaticano, foi decidido que a Igreja deveria conceder a RECONCILIAÇÃO do padre com a Igreja, permitindo assim que os fiéis realizem sua devoção com a aprovação da Santa Sé.
Dom Fernando, diante da realização de um dos seus maiores sonhos, afirmou que toda a Diocese de Crato foi justificada pela ação do Papa Francisco, e que não houve equivoco em assumirem a opção pastoral em favor das romarias e o acolhimento aos romeiros. “Como Bispo Diocesano dessa Igreja particular, fico feliz por poder receber essa grande graça, em nome do Padre Cícero e de seus romeiros e romeiras, em nome de todos aqueles bispos – Dom Quintino, Dom Delgado – que alguma vez pediram que a Igreja e Padre Cícero se reconciliassem, em nome de todas as pessoas que queriam ver o Seu Padrinho ser, de novo, acolhido pela Igreja Católica da mesma forma que sempre foi acolhido por seus afilhados!”, disse.
Na Igreja onde foi batizado e realizou a primeira missa, neste ano 2015, ao Padre Cícero foi concedida uma reconciliação histórica mostrando que a misericórdia de Deus está acima das ações humanas.

Reabilitação e Reconciliação
Reabilitação é recuperação de ordens que estavam suspensas. Reconciliação é apagar qualquer oposição a ação do Padre Cícero.
A Diocese de Crato deu entrada ao processo de reabilitação pelo fato do Padre Cícero ter morrido suspenso de ordem, porém como o padre já havia falecido e as punições cessadas, não tinha o que o Papa reabilitar.

Padres da Basílica Nossa Senhora das Dores, Santuário São Francisco das Chagas e Paróquia Sagrado Coração de Jesus colocando o quadro com a foto do Padre Cícero próximo ao altar. (Foto: Patrícia Silva)
Padres da Basílica Nossa Senhora das Dores, Santuário São Francisco das Chagas e Paróquia Sagrado Coração de Jesus colocando o quadro com a foto do Padre Cícero próximo ao altar. (Foto: Patrícia Silva)
De 2006 a 2014 uma equipe de direito canônico do Vaticano estudou como resolver esta questão. Eles chegaram a conclusão de que a Igreja teria que ter uma Reconciliação. “Como a ação do Padre Cícero se tornou crescente mesmo após a sua morte, eles disseram era oportuno a reconciliação da Igreja com o Padre”, disse o chanceler Armando Lopes Rafael.
Em outubro de 2015 o Papa Francisco enviou uma carta reconciliando a Igreja Católica com a herança espiritual do Padre Cícero, porque entendeu que o Padre deu continuidade a obra de divulgação do evangelho que Jesus queria. “Ele se dedicou aos humildes e estes permaneceram fiéis a Igreja Católica, por isso a reconciliação”, disse Armando.
A Reconciliação é mais ampla que a Reabilitação pois, conforme explica o chanceler, é uma aceitação e reconhecimento dos frutos feitos através das romarias e devoção ao padre Cícero, propiciando uma maior aproximação dos romeiros com toda a Igreja Católica.

Resumo da carta-mensagem do Papa Francisco

Sobre a Reconciliação histórica da Igreja Católica com a memória do Padre Cícero Romão Batista
Em longa correspondência enviada ao Bispo Diocesano de Crato, Dom Fernando Panico, o Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, afirmou que: “A presente mensagem foi redigida por expressa vontade de Sua Santidade o Papa Francisco, na esperança de que Vossa Excelência Reverendíssima não deixará de apresentar à sua Diocese e aos romeiros do Padre Cícero a autentica interpretação da mesma, procurando por todos os meios apoiar e promover a unidade de todos na mais autentica comunhão eclesial e na dinâmica de uma evangelização que dê sempre e de maneira explicita o lugar central a Cristo, principio e meta da História”.
A mensagem lembra, inicialmente, as festas pelo centenário de criação da Diocese de Crato acrescentando “que (essas comemorações) põem em realce a figura do Padre Cícero Romão Batista e a nova Evangelização, procurando concretamente ressaltar os bons frutos que hoje podem ser vivenciados pelos inúmeros romeiros que, sem cessar, peregrinam a Juazeiro atraídos pela figura daquele sacerdote. Procedendo desta forma, pode-se perceber que a memória do Padre Cícero Romão Batista mantém, no conjunto de boa parte do catolicismo deste país, e, dessa forma, valoriza-la desde um ponto de vista eminentemente pastoral e religioso, como um possível instrumento de evangelização popular”.
Lembrando que Deus sempre se serve de pobres instrumentos para realizar suas maravilhas e que todos nós somos “vasos de argila” (2Co 4,7) em Suas mãos, o texto afirma, sem dúvida alguma, que Padre Cícero, pelo seu intenso amor pelos mais pobres e por sua inquebrantável confiança em Deus, foi esse instrumento escolhido por Ele. O Padre respondeu a este chamado, movido por um desejo sincero de estender o Reino de Deus.

Na correspondência constam vários tópicos, dos quais alguns são reproduzidos, a seguir, textualmente: “Mas é sempre possível, com a distância do tempo e o evoluir das diversas circunstâncias, reavaliar e apreciar as várias dimensões que marcaram a ação do Padre Cícero como sacerdote e, deixando à margem os pontos mais controversos, por em evidência aspectos positivos de sua vida e figura, tal como é atualmente percebida pelos fiéis”.
†  “É inegável que o Padre Cícero Romão Batista, no arco de sua existência, viveu uma fé simples, em sintonia com o seu povo e, por isso mesmo, desde o início, foi compreendido e amado por este mesmo povo”.
†   “Deixou marcas profundas no povo nordestino a intensa devoção do Padre Cícero à Virgem Maria” no seu título de “Mãe das Dores e das Candeias” (…) Como não reconhecer, Dom Fernando, na devoção simples e arraigada destes romeiros, o sentido consciente de pertença à Igreja Católica, que tem na Mãe de Jesus Cristo um dos seus elementos mais característicos?
†   “A grande romaria do dia de Finados, iniciada pelo Padre Cícero, transmite a dimensão escatológica da existência humana. Pois, como afirma o documento de Aparecida, Nossos povos (…) têm sede de vida e felicidade em Cristo. (…)
†   “Não deixa de chamar a atenção o fato de que estes romeiros, desde então, sentindo-se acolhidos e tendo experimentado, através da pessoa do sacerdote, a própria misericórdia de Deus, com ele estabeleceram – e continuam estabelecendo no presente – uma relação de intimidade, chamando-o na carinhosa linguagem popular nordestina de “padim”, ou seja, considerando-o como um verdadeiro padrinho de batismo, investido da missão de acompanhá-los e de ajuda-los na vivência da sua fé”.
†   “No momento em que a Igreja inteira é convidada pelo Papa Francisco a uma atitude de saída, ao encontro das periferias existenciais, a atitude do Padre Cícero em acolher a todos, especialmente aos pobres e sofredores, aconselhando-os e abençoando-os, constitui sem dúvida, um sinal importante e atual”.
†   “O afeto popular que cerca a figura do Padre Cícero pode constituir um alicerce forte para a solidificação da fé católica no ânimo do povo nordestino (…). Portanto, é necessário, neste contexto, dirigir nossa atenção ao Senhor e agradecê-lo por todo o bem que ele suscitou por meio do Padre Cícero”.
†   “Assim fazendo, abrem-se inúmeras perspectivas para a evangelização, na linha desta recomendação do Documento de Aparecida; “Deve-se dar catequese apropriada que acompanhe a fé já presente na religiosidade popular”. (Documento de Aparecida, 300).
†   “Ao mesmo tempo que me desempenho da honra de transmitir uma fraterna saudação do Santo Padre a todo o povo fiel do sertão do Ceará, com os seus Pastores, bendizendo a Deus pelos luminosos frutos de santidade que a semente do Evangelho faz brotar nestas terras abençoadas, valho-me do ensejo para lhe testemunhar minha fraterna estima e me confirmar de Vossa Excelência Reverendíssima devotíssimo no Senhor.

25 ANOS DE PADRE: Imagens de Ação de Graças.

domingo, 13 de dezembro de 2015

25 ANOS DE PADRE: Palavras do Frei Valter.

25 ANOS DE PADRE: Homilia do Frei Petrônio.

VÍDEO SELF-16: Evangelho do Dia. (13 de dezembro-2015).

RIO DE JANEIRO: Ano da Misericórdia.

O escândalo da misericórdia

*Enzo Bianchi,

A misericórdia, o coração para os miseráveis, é um dos principais atributos de Deus e à humanidade em toda a Bíblia: está no espaço do amor e indica bondade, benevolência, indulgência, amizade, disposição favorável, piedade, graça. O amor, a misericórdia de Deus é eterna, fiel, preciosa, maravilhosa, o melhor da vida, alargada: assim cantam os Salmos. O evento em si da revelação de Deus é um evento de misericórdia: Deus visita Israel, misericordia motus, movido pela misericórdia.
Assim, a revelação definitiva do nome de Deus a Moisés no livro do Êxodo termina com a declaração: “O Senhor, o Senhor Deus misericordioso e compassivo, lento para a ira, e cheio de amor e fidelidade” (Ex 34: 5-6). A partir desta revelação, em toda a Bíblia, dos profetas até os Salmos, tomou o seu nome, “misericordioso e compassivo”: a misericórdia de Deus é para todos, para os necessitados e sofredores, pelos pecadores; a misericórdia é eterna, atual, escatológica.
Jesus, veio para revelar Deus plenamente e definitivamente, o faz com atitudes e palavras esta imagem do Deus misericordioso e compassivo: é o Evangelho, a boa notícia da misericórdia. Mesmo para Jesus justiça e misericórdia tensionam, mas é certo que ele rejeita o julgamento na história. Como a misericórdia caracteriza o seu ministério, assim na sua prática todo o julgamento está suspenso, e cada sentença não realizada.
Devemos confessar que até hoje o que para Jesus mais escandaliza não são as suas palavras de julgamento e mesmo o seu “fazer o bem.” Pelo contrário, o que escandaliza é a misericórdia, interpretada por Jesus de uma forma que é o oposto do que pensado pelos homens religiosos, por nós! Às vezes parece que a misericórdia seja invocada por Deus, desejada e fácil de pôr em prática, e por outro lado – devemos confessá-la humildemente – em toda história da Igreja a misericórdia escandalizou, o que foi pouco exercitada. Quase sempre apareceu mais atestado o ministério da condenação e não a da misericórdia e da reconciliação. Bastaria ler a história com atenção, para ver como aquela segurança ao longo dos séculos usou a parábola do joio (cfr. Mt 13,24-30), pervertendo-a. Nela Jesus nos pede para não arrancar as ervas daninhas, embora se ameaça o bom trigo, e esperar que a colheita e o julgamento no final dos tempos. Mas, ao contrário, muitos cristãos atribuíram o inimigo, o outro como joio, permitindo a sua erradicação, até sua condenação à fogueira …
Esta mensagem escandalosa da misericórdia não é compreendida por aqueles que se sentem em paz com Deus (e para quem Jesus não veio: cf. Mc 02:17.!), Embora seja compreendida e esperada por aqueles que se sentem no pecado, com necessidade do perdão de Deus. Foi assim durante o ministério de Jesus, foi assim na história da Igreja, é assim até hoje quando somos interrogados pelo Papa Francisco na nossa própria capacidade de misericórdia: misericórdia da Igreja, misericórdia de cada um por quem errou ou que precisa do nosso amor.
Nós frequentemente estamos dispostos a fazer misericórdia se houver punição daqueles que tiverem praticado o mal, se o pecador foi suficientemente humilhado, e somente se pedir misericórdia como um mendigo. Em todo o caso, determinamos os limites precisos da misericórdia, porque pensamos que certos erros, certas decisões tomadas mau e não mais reparáveis devam ser punidas para sempre pela disciplina eclesiástica: para alguns erros a partir da qual não podemos voltar atrás não há misericórdia, por conseguinte, a misericórdia não é infinita, mas é em condições específicas…
Aqui está a nossa traição do Evangelho, eis como a misericórdia nos escandaliza. Em outras palavras, a sequência crime punição está consagrada na nossa postura de fiéis, de homens religiosos, mas devemos nos perguntar se o “crime e castigo” é cristão! Por que nós nunca entenderemos que a santidade de Deus não resplandece quando não há pecado no homem, mas quando Deus tem misericórdia e perdão? Por que não podemos entender que a onipotência, a soberania de Deus se mostra especialmente perdoando? À luz desta santidade de Deus, desta sua onipotência, se pode viver como um instrumento de boas obras e “Não desesperar jamais da misericórdia de Deus” (Regra de Bento 4,74).
Quantas palavras, parábolas e encontros de Jesus têm escandalizado e ainda escandalizam até os supostos justos! Eles, de acordo com o julgamento que se dão livre de grandes pecados e perdas, eles se sentem diferentes dos outros e acreditam que podem reivindicar direitos diante de Deus! Que Deus acolha os pecadores arrependidos é coisa boa, louvável, porque ele “é amor” (1 Jo 4,8.16), mas que os pecadores e as prostitutas precedam no Reino de Deus os sacerdotes e os especialistas da Lei (cf. Mt 21: 32), esto é inédito, e é perigoso dizer isto: contudo Jesus disse abertamente sobre estes últimos…
Que “o filho pródigo” seja perdoado pelo pai amoroso seria aceitável, talvez depois de um tempo de punição e a promessa de não repetir o erro; mas celebrar em sua honra uma festa sem por-lhe condições e admiti-lo em casa, sem objeção, isso é demais (cf. Lc 15,20-24): é um perigoso excesso de misericórdia, pois todos se sentirão autorizados a repetir a fuga do filho pródigo, contando com o pai que perdoa sempre… E depois desta forma se subverte o conceito de justiça: onde acaba a justiça, se há um perdão assim gratuito sem condições?
Sim, a misericórdia de Jesus, a que Ele praticou e pregou, é exagerada e nos escandaliza! Estamos mais disponíveis para os atos de culto, na liturgia que a misericórdia (cf. Os 6,6; Mt 9:13; 12,7). Com razão escreveu Albert Camus em ‘A queda’: “Ao longo da história humana houve um momento em que se falava do perdão e da misericórdia, mas não durou muito tempo, cerca de dois ou três anos, e a história terminou mal.”
Enzo Bianchi, Fundador da Comunidade Monástica de Bose – Itália
Por ocasião do XXIII Congresso ecumênico internacional de espiritualidade ortodoxa, dedicado a «Misericórdia e perdão».

Tradução e adaptação: Edilma Oliveira. Fonte: http://santuario.cancaonova.com

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

VÍDEO SELF-08: Evangelho do Dia. (05 de dezembro-2015).

2º Domingo do Advento: No marco do deserto

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus segundo Lucas 3, 1-6 que corresponde ao Segundo Domingo de Advento, Ciclo C do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto
Lucas tem interesse em indicar com detalhes o nome dos personagens que controlam naquele momento as diferentes esferas do poder político e religioso. Eles são os que planificam e dirigem tudo. No entanto, o acontecimento decisivo de Jesus Cristo prepara-se e acontece fora do seu âmbito de influência e poder, sem que eles tomem conhecimento nem decidam nada.
Assim aparece sempre o essencial no mundo e nas nossas vidas. Assim penetra na história humana a graça e a salvação de Deus. O essencial não está nas mãos dos poderosos. Lucas diz concisamente que «a Palavra de Deus veio sobre João no deserto», não na Roma imperial nem no recinto sagrado do Templo de Jerusalém.
Em nenhuma parte se pode escutar melhor que no deserto a chamada de Deus para mudar o mundo. O deserto é um território da verdade. O lugar onde se vive do essencial. Não há sítio para o supérfluo. Não se pode viver acumulando coisas sem necessidade. Não é possível o luxo nem a ostentação. O decisivo é procurar o caminho acertado para orientar a vida.
Por isso, alguns profetas recordam tanto o deserto, símbolo de uma vida mais simples e melhor enraizada no essencial, uma vida todavia sem distorções por tantas infidelidades a Deus e tantas injustiças com o povo. Neste marco do deserto, João Baptista anuncia o símbolo grandioso do «Batismo», ponto de partida de conversão, purificação, perdão e início de vida nova.
Como responder hoje a esta chamada? O Baptista resume-o numa imagem tomada de Isaías: «Preparai o caminho do Senhor». As nossas vidas estão semeadas de obstáculos e resistências que impedem ou dificultam a chegada de Deus aos nossos corações e comunidades, à nossa Igreja e ao nosso mundo. Deus está sempre próximo. Somos nós os que temos de abrir caminhos para acolhê-Lo encarnado em Jesus.
As imagens de Isaías convidam a compromissos muito básicos e fundamentais: cuidar melhor do essencial sem nos distrairmos com o secundário; retificar o que temos vindo a deformar entre todos; tomar caminhos difíceis; afrontar a verdade real das nossas vidas para recuperar um perfil de conversão. Temos de cuidar bem dos batismos das nossas crianças, mas o que necessitamos todos é um «batismo de conversão».

O fracasso do Papa na África

O Papa Francisco, agora de volta a Roma em segurança, deixou passar uma importante oportunidade em sua viagem à África. Os seus apelos pela paz e reconciliação entre os cristãos e muçulmanos do continente foram bem recebidos por ambos os grupos. A sua repreensão para com a indiferença dos ricos, enquanto visitava uma favela com casas feitas de papelão, foi oportuna. Ele foi bastante aplaudido quando advertiu sobre a catástrofe caso as negociações climáticas em Paris esta semana não resultarem positivo. Mas, quanto à forma como os gays são tratados em um continente onde a homossexualidade é ilegal em muitos países, ele ofereceu apenas um silêncio ensurdecedor.
O comentário é de Paul Vallely, publicado por The New York Times, 02-12-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa. Paul Vallely é o autor de “Pope Francis: The Struggle for the Soul of Catholicism”, sem tradução no Brasil.
Os seus defensores dirão que os direitos dos gays são uma obsessão dos países ocidentais e que teria sido contraproducente para o papa levantar esta bandeira em uma breve visita a um continente que é hostil ao desejo do papa em fazer a Igreja Católica de Roma mais acolhedora junto à comunidade homoafetiva, ou aos divorciados e casais que vivem juntos sem estar casados. Isso porém está errado. A maneira como os gays são tratados é fundamental para o futuro da Igreja universal – e o Papa Francisco sabe disso.
É verdade que este primeiro papa vindo de um país em desenvolvimento olha o mundo de forma diferente dos papas europeus. Nesse sentido, a sua ida à África foi uma quintessência da nova abordagem de Francisco ao ser papa. Ele quer uma Igreja que esteja “em missão”, estendendo a mão aos outros em vez de esperar que eles venham até ela. E ele é, em especial, preciso em estender a mão àqueles que ele mesmo descreve como estando “nas periferias”, motivo por que ele escolheu o República Centro-Africana – país não muito presente nos lugares onde o mundo, em geral, centra a sua atenção.
Ele deseja uma Igreja misericordiosa que seja um “hospital de campanha” para os inúmeros feridos deste mundo, razão pela qual ele se aventurou em um dos lugares mais problemáticos e perigosos do mundo na segunda-feira (30 de nov.) para pedir, a cristãos e muçulmanos, que deem um fim à espiral sangrenta de ódio na qual milhares morreram nos últimos três anos. A paz e a reconciliação foram as mensagens mais consistentes nos três países visitados – Quênia, Uganda e República Centro-Africana –, onde a violência entre religiões diferentes é comum.
Quando perguntado sobre o perigo de homens armados durante a viagem, Francisco respondeu: “Estou mais preocupados com os mosquitos”.
Este papa quer uma Igreja que seja “pobre e para os pobres”, motivo por qual ele fez questão de visitar uma das maiores favelas de Nairóbi. Água limpa e um sistema sanitário eficaz são direitos humanos dados por Deus neste mundo de abundância, disse ele. O papa também atacou a minoria rica que tolera o sofrimento dos pobres – ou mesmo se beneficia dele.
Francisco pode ser o primeiro papa do sul global, mas esta sua ida à África foi uma curva íngreme de aprendizado. Esta foi a sua primeira viagem a um continente do qual ele sabe pouco – embora esteja bem ciente de que a África será uma das novas potências do catolicismo. As frequências às missas podem estar em declínio no velho mundo, mas o número de católicos na África cresceu em 238% desde 1980.
Estes números sublinham, todavia, a importância de confrontar a África com o seu preconceito contra os gays. No recente Sínodo dos Bispos sobre a família ocorrido em Roma, a questão de como a Igreja Católica trata os gays foi deixado de fora da pauta, graças a uma aliança entre os bispos das guerras culturais americanos, os conservadores da Europa oriental e um novo bloco poderoso de bispos africanos que constituía um quinto dos Padres Sinodais.
A visão que estes religiosos partilham não é a mesma do Papa Francisco. Quando perguntado, ainda nos primeiros meses em Roma, sobre um sacerdote gay, Francisco deu a seguinte resposta: “Quem sou eu para julgar?” Esta resposta tornou-se na marca definidora de seu papado que então se iniciava. Mas o papa claramente assumiu um ponto de vista tático no Sínodo, decidindo lutar uma batalha de cada vez, priorizando a questão de como a Igreja trata os fiéis divorciados, que atualmente estão proibidos de receber o sacramento da Comunhão.
Pode perfeitamente ser que o Papa Francisco tenha decidido que uma estada de seis dias na África não era o lugar para levantar uma questão tão delicada [como a da homossexualidade]. O debate sobre o lugar dos gays na Igreja irá exigir tempo para uma abordagem mais suave e gradualista.
Porém, este problema é um impedimento duplo para Francisco – um problema que ele deveria ter iniciado publicamente a abordar. Está-se diante de uma injustiça maciça aos direitos humanos porque a homofobia é endêmica na África; a maior parte dos países aí, incluindo os três que ele visitou, possuem leis contra a homossexualidade. Em Uganda, uma medida transformada em lei no ano passado por seu presidente obrigou os cidadãos a relatarem à polícia atividades homossexuais suspeitas. Como consequência, os níveis de violência contra a comunidade gay aumentaram.
Papa o Papa Francisco, tais atitudes constituem um problema adicional do lado de dentro da Igreja Católica, onde elas são um freio às mudanças que ele, o papa, quer trazer à instituição por ele governada. Está-se diante de um problema profundamente arraigado, quando líderes africanos, como o Cardeal Robert Sarah, da Guiné – religioso promovido por Francisco –, se apresenta em público e declara que “as ideologias homossexuais e abortivas do ocidente, bem como o fanatismo islâmico” são, para o século XXI, o que foram as “bestas” gêmeas da ideologia nazista e comunista o foram para o século XX.
O papa deveria ter, no mínimo, estabelecido um ponto de referência dizendo que uma tal intolerância não tem lugar na Igreja. Mas, pelo contrário, ele permitiu que esta minoria vociferante o deixasse sem ação e numa situação difícil. Os defensores de Francisco sugerem que ele fez uma referência tangencial à perseguição aos gays em um sermão onde afirmou que devemos “proteger-nos e ajudar-nos uns aos outros como membros da única família humana”.
Mas, como um apelo contra a discriminação, esta fala foi altamente oblíqua, num debate onde os opositores da tolerância aos homossexuais são brutais e diretos. Aliás, muitos irão tomar o seu apoio ao matrimônio, trazido em seu discurso em Uganda, como um apoio implícito à postura antigay. Estas pessoas acharão o mesmo a respeito de seu ataque, no Quênia, às novas “formas de colonialismo”, com o que ele quer dizer a imposição de valores ocidentais à saúde sexual da mulher em troca de cooperação internacional.
A África está prestes a se tornar uma força cada vez maior dentro do catolicismo. O Papa Francisco perdeu uma bela oportunidade de sublinhar a amplitude da mensagem de amor, misericórdia e inclusão que é preciso ter para se tornar um membro aceito da Igreja universal. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

EU ESTIVE NA LAMA Editorial Bento Rodrigues (Vinheta) - Vídeo Dailymotion

EU ESTIVE NA LAMA Editorial Bento Rodrigues (Vinheta) - Vídeo Dailymotion

EU ESTIVE NA LAMA: Editorial Bento Rodrigues. (Vinheta)

EU ESTIVE NA LAMA: Editorial Bento Rodrigues.

EU ESTIVE NA LAMA: Editorial Bento Rodrigues.

Paróquia do Pilar, de Ouro Preto-MG: A RESPEITO DO ROMPIMENTO DA BARRAGEM DO FUNDÃO

São passadas três semanas da tragédia em Mariana, com o rompimento da barragem do Fundão, da empresa Samarco.
Desde então, acompanhamos, consternados, os desdobramentos deste caos social, cultural e ambiental, com perdas humanas, destruição de cidades e vilarejos e enorme desastre ambiental, atingindo dez municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo.
Por onde a lama passou, deixou um rastro de morte e destruição que agora atinge as águas oceânicas, depois de atingir nossos rios, sobretudo o Rio Doce, com consequências imprevisíveis.
Em meio a este cenário de destruição e morte, é preciso destacar a solidariedade do povo local e de todo o Brasil com doações e ações de voluntariado e algumas ações públicas em socorro aos atingidos, vítimas desta tragédia.
É bom lembrar que essa tragédia foi causada por mãos humanas. Ela tem como responsáveis as empresas detentoras da barragem que se rompeu e os governos, através dos órgãos encarregados de fiscalizar o cumprimento das leis que regulam a atividade minerária e o monitoramento da segurança das populações e do meio ambiente.
Agradecemos sua ajuda solidária, nesse primeiro momento, com roupas, água, material de higiene e outros. Recordamos que você pode ajudar fazendo doações em dinheiro, com depósito em contas abertas pela prefeitura de Mariana e pela Arquidiocese de Mariana para ajudar os atingidos desta tragédia.
Nossa Arquidiocese de Mariana, através dos serviços diocesanos e das paróquias, tem acompanhado, de perto, as pessoas e as comunidades atingidas, oferecendo apoio humano/social e religioso; ajudando na organização das vítimas e participando, diretamente, das iniciativas em vista dos passos futuros a serem dados para prover as vítimas em suas necessidades e direitos, também em vista da reconstrução de suas vidas e de suas comunidades.
Esperamos que esta situação não fique impune. Esperamos que as vítimas dessa tragédia sejam ouvidas, ativamente, no processo de reconstrução de suas vidas e de suas comunidades. Esperamos que esta tragédia modifique as leis de licenciamento e fiscalização minerária e nos faça, governos, instituições e sociedade, repensar esse modelo desenvolvimentista de bem estar que coloca o projeto econômico acima do valor da vida humana e do bem viver.
Deus fortaleça os atingidos no processo de reconstrução de suas vidas, para que não desanimem; conceda a todos, comunidades e lideranças, perseverança nas ações de solidariedade e defesa dos interesses dos atingidos. Ele, na ação de seu Santo Espírito, ilumine autoridades e órgãos responsáveis para que seja feita justiça, haja reparação, compensação e indenização diante dos danos causados pelo rompimento da barragem, minorando os sofrimentos e perdas dos atingidos por esta tragédia.
Não somos mais os mesmos, depois desta tragédia; sentimo-nos todos atingidos, somos uma grande família de irmãos e irmãs. Com a confiança quem vem da fé, trazemos a certeza de que desses escombros a vida haverá de brotar. A palavra é de esperança, pois o “menino que vem nesse natal, vem como “luz” para dissipar as “trevas”, vem trazer vida e salvação.

Comunidade Paroquial do Pilar – padres; Danival, Rogério e Pe. Marcelo.

A PALAVRA... Nº 1051. E se não existissem as Mineradoras?

ARQUIDIOCESE DE MARIANA-MG: 270 Anos.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

CAMPANHA: Um Tijolo Para Maria-10

VÍDEO SELF-03: Evangelho do Dia. (26 de novembro-2015).

FREI PETRÔNIO: Pensamento do Dia. (QUINTA, 26).

Letalidade da PM é escandalosa, diz diretor da Anistia Internacional no Brasil.

No país há uma “classe perigosa”, composta por jovens negros e moradores da periferia. É com esta premissa que opera a repressão policial no país, afirma o diretor da Anistia Internacional no Brasil, Atila Roque.
Em entrevista à Ponte, Roque diz ainda que existe, por parte da sociedade, grande aceitação das mortes cometidas pelos agentes das forças de segurança, principalmente devido à forma como normalmente esses crimes são retratados pela chamada “grande mídia”. A seguir, a entrevista com Roque:

PONTE - O total de mortos por PMs no estado de SP subiu de 269 (primeiro semestre de 2013) para 434 (primeiro semestre de 2014). Como o senhor avalia esse crescimento de 62% no número de mortos por PMs, seja no trabalho ou na folga?

ATILA ROQUE - Infelizmente essa variação reforça um padrão histórico de alta letalidade nas ações policiais decorrente de um conjunto de fatores, que incluem uma polícia formada para a “guerra” e para a eliminação do “inimigo”, despreparo técnico e psicológico dos profissionais que atuam na ponta do policiamento e, sobretudo, uma doutrina de segurança pública estruturada desde sempre por uma lógica de repressão e controle das “classes perigosas”, o que leva a uma alta concentração de jovens negros e pobres da periferia entre os mortos pela polícia. “São dados escandalosos. Estamos a caminho de voltar ao patamar de quase mil mortes por ano, somente no Estado de São Paulo”
Podemos acrescentar a isso uma naturalização da violência que resulta em um grau alto de aceitação por parte da sociedade – alimentada por uma grande indiferença da grande mídia sobre as circunstâncias em que essas mortes ocorrem – que acaba por considerar o que deveria ser percebido como um escândalo nacional, como um fato supostamente inevitável da luta contra o crime. Sem uma mudança de fundo na doutrina da segurança pública e na estrutura militarizada das polícias, juntamente com um compromisso efetivo das altas autoridades do estado, a começar pelo governador, com um policiamento voltado para a garantia do direito à segurança pública de todas as pessoas, independente da classe social, local de moradia ou cor da pele, continuaremos a conviver no Brasil e em São Paulo com a triste realidade de ter uma das polícias que  mais mata e mais morre do mundo.

PONTE - Como o senhor classifica os índices de letalidade da PM de São Paulo?

ATILA ROQUE - São dados escandalosos. Estamos a caminho de voltar ao patamar de quase mil mortes por ano, somente no Estado de São Paulo, o mais rico e moderno do Brasil. Basta pensar que a polícia de São Paulo matou em apenas 6 meses, aproximadamente, quase o que todas as polícias dos Estados Unidos matam em um ano. Para se ter uma ideia, em 2012 a polícia da cidade de Nova Iorque matou (em serviço e fora de serviço) 16 pessoas. A da Filadélfia, no mesmo ano, matou 54 pessoas.

PONTE – Na sua opinião, como seria possível fazer com que a PM de São Paulo matasse menos?

ATILA ROQUE - É importante dizer que esse não é um desafio restrito a São Paulo, onde pelo menos temos acesso aos dados referentes a essas mortes. Com exceção de poucos estados, como é o caso de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, o Brasil simplesmente não sabe quantas pessoas morrem nas mãos das policias, seja em serviço ou fora de serviço. Isso em um país em que mais de 50 mil pessoas são vítimas de homicídio todos os anos é um fato de extrema gravidade, considerando que a primeira medida para se executar qualquer política de redução da letalidade policial é saber quanto o estado mata e em quais circunstâncias.
Em relação a São Paulo, é necessário um comprometimento mais amplo de todas as esferas do estado, em especial do governador e das instâncias legislativas, para a implementação de políticas efetivas de redução da letalidade, o que inclui não apenas treinamento e protocolos claros sobre as circunstâncias em que o uso de armas de fogo é aceitável, mas, sobretudo, investigação rigorosa e independente sobre as situações que resultam em mortes de suspeitos.
Em relação a São Paulo, é necessário um comprometimento mais amplo de todas as esferas do estado, em especial do governador e das instâncias legislativas, para a implementação de políticas efetivas de redução da letalidade, o que inclui não apenas treinamento e protocolos claros sobre as circunstâncias em que o uso de armas de fogo é aceitável, mas, sobretudo, investigação rigorosa e independente sobre as situações que resultam em mortes de suspeitos. A responsabilidade sobre isso cabe não apenas a Secretaria de Segurança Pública, mas especialmente às instâncias externas de controle, como o Ministério Público e outras instâncias da Justiça. O que temos visto, lamentavelmente, é um patamar alto de impunidade e baixo nível de investigação para situações de homicídios envolvendo policiais. Em geral a versão da polícia de que foi uma morte decorrente de reação por parte da pessoa suspeita costuma ser aceita como ponto de partida legítimo da investigação, com raras exceções – como, por exemplo, o caso dos dois homens mortos na semana passada quando, tudo indica, foram surpreendidos e mortos pelos agentes policiais em uma ação de pichação de um prédio e não de ação criminosa violenta. Nesse caso a investigação, esperemos, será capaz de apontar o que aconteceu de fato e a responsabilidade dos policiais envolvidos.

PONTE – Que avaliação o senhor faz da resolução nº 5, feita pela Secretaria da Segurança Pública em janeiro de 2013, que recomenda que a polícia não socorra feridos nas ruas e aguarde atendimento especializado?


ATILA ROQUE - Acho ainda cedo para avaliar plenamente os efeitos dessa medida. Em princípio ela se mostrou positiva, pois dificulta que se forjem os chamados autos de resistência e falsos socorros de pessoas executadas em ações criminosas de alguns policiais. Mas a redução da letalidade decorrente de ações policias e das mortes de policiais em serviço ou fora de serviço não depende de uma medida isolada, mas de um conjunto de fatores que formam a política de segurança pública como um todo e as ações das policiais em particular, inclusive bom treinamento, remuneração e apoio psicológico aos profissionais. Fonte: https://anistia.org.br

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

*René Girard, uma leitura não sacrificial do texto bíblico?

O relato dos Evangelhos, inclinando-se ao lado da vítima inocente, mostra-nos a violência estrutural do mecanismo sacrificial sobre o qual, segundo René Girard, está fundada a nossa sociedade. A opinião é do pastor valdense italiano Davide Rostan, em artigo publicado no sítio Riforma.it, 06-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.
O falecimento de Girard nos dá a oportunidade de voltar a alguns dos seus temas, ainda hoje de extrema atualidade: a violência, a questão das vítimas, o conceito de revelação e a ação de Deus por nós.
O que realmente preocupa Girard são as vítimas do mecanismo sacrificial. O seu percurso, que começou como análise literária, tornou-se lentamente uma espécie de conversão pessoal à causa das vítimas e ao anúncio daquela que era, segundo ele, a verdadeira boa nova para toda a humanidade: Jesus morreu para que nós pudéssemos reconhecer o mecanismo sacrificial.
A morte de Cristo, portanto, tem uma função reveladora de um conhecimento. O processo de revelação, já iniciado no Antigo Testamento, chega ao seu cumprimento na cruz, com a morte da única vítima que, ao contrário do que é mostrado nas narrativas mitológicas, nos é claramente indicada como inocente.
O relato dos Evangelhos, inclinando-se ao lado da vítima inocente, mostra-nos, assim, a violência estrutural do mecanismo sacrificial sobre o qual, segundo Girard, está fundada a nossa sociedade: os sistemas religiosos, os ritos, as proibições, o sistema judiciário e, por fim, o poder que pôde canalizar a violência, através de mecanismos de não reconhecimento, contra vítimas substitutivas.
A violência, inerente à humanidade, para Girard, é o resultado do desejo mimético: o sujeito se constitui com base em um desejo indicado pelo Outro, desencadeando assim uma rivalidade mimética e um processo de negação do outro. O pecado, identificado por Girard na potência diabólica do mimetismo, é explicitado na história de Caim e Abel.
A violência, assim, será gerida através do mecanismo sacrificial do bode expiatório e a identificação de uma vítima que, depois, será sacralizada através de um processo antes ritual e, por fim, de narrativa mítica.
Continua sendo exemplar nesse sentido a leitura que Girard nos deixa do relato da cura do endemoninhado de Gerasa. Os habitantes do vilarejo amarram a vítima com correntes, mas ela consegue fugir todas as vezes, para depois ser capturada de novo. Quando o vínculo vítima-vilarejo é interrompido pelo curador que expulsa o espírito de modo definitivo, e a vítima se cura, os habitantes do vilarejo, em vez de mostrar gratidão, assustados pela ruptura desse vínculo estrutural, expulsam o curandeiro da aldeia.
Talvez não por acaso, Girard teve um grande sucesso no mundo católico italiano e estadunidense, que elogiaram nessa leitura um forte compromisso ético em favor das vítimas e a possibilidade de reler o "por nós" de Cristo em termos não sacrificiais.
Permanece em aberto, no entanto, a meu ver, a questão central que o próprio Girard põe: a crise do homem moderno descrita por Dostoiévski em Memórias do subterrâneo, como uma humanidade esmagada por um grande ódio contra si mesma e contra a sua condição de finitude.
No início da sua obra, de fato, em Mentira romântica e verdade romanesca, o próprio Girard identifica nos personagens de Dostoiévski o modelo daquela humanidade em crise que se encontra sozinha, na ausência de um Deus que desapareceu do horizonte, lidando com a absolutez dos próprios desejos frustrados pelo real e que renova perenemente a crise mimética.
Jesus é descrito em um dos seus textos fundamentais, Coisas ocultas desde a fundação do mundo, como o único homem capaz de alcançar o fim atribuído por Deus para a humanidade e, como tal. é proposto como modelo para evitar a propagação de uma violência destrutiva.
A função reveladora dos Evangelhos e da cruz, porém, parece-me levar, na proposta ética da imitação de Cristo, da forma como Girard formula, a uma espécie de beco sem saída. Que espaço, de fato, é concedido à alteridade na sua proposta para sair da dinâmica violenta provocada pelo desejo mimético?
A ausência de uma alteridade divina – não por acaso, talvez Girard evita se confrontar na elaboração dos seus textos com o tema da ressurreição e a proposta da imitação de um modelo, por definição, não imitável – parece-me retornar a humanidade à mesma situação que ele mesmo entrevê nos romances de Dostoiévski.
O fascínio da sua leitura universal, a revelação do mecanismo da vítima sacrificial, a atenção para as vítimas inocentes e as perguntas que Girard nos deixa, parecem-me encontrar apenas em parte uma solução na sua proposta ética.
Tal leitura do texto bíblico, que não se confronta com o tema da liberdade de Deus e com o seu agir na história, correm o risco de nos entregar um modelo, mesmo que o do Jesus terreno, incapaz de realizar aquela reconciliação consigo mesma que a impeça de ter como única perspectiva a tentativa de se conformar com um modelo, aliás, que nunca poderemos alcançar. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
*NOTA: O acadêmico francês René Girard, eminente teórico conhecido como "o novo Darwin das ciências humanas", morreu no dia 04 de novembro de 2015 aos 91 anos, nos Estados Unidos, anunciou a universidade de Stanford, onde lecionou durante muitos anos. "O professor francês de Stanford, um dos 40 'imortais' da prestigiosa Academia francesa, faleceu em sua residência de Stanford nesta quarta-feira, após uma longa doença", informou a universidade californiana em um comunicado. Seus livros traduzidos em todo o mundo "ofereceram uma visão audaz e vasta da natureza, da história e do destino humano", acrescentou a universidade. René Girard iniciou sua carreira como teórico de literatura, fascinado por todas as ciências sociais: história, antropologia, sociologia, filosofia, religião, psicologia e teologia.
Ele influenciou escritores como o prêmio Nobel J.M. Coetzee e o tcheco Milan Kundera. Nascido no Natal de 1923 em Avignon, Girard escreveu muito sobre a diversidade e a unidade das religiões. Fonte: http://g1.globo.com

A PALAVRA... Nº 1030. Qual é a música da sua vida?

32º Domingo do Tempo Comum: As duas viúvas.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

IL RELIGIOSO FRATELLO CARMELITANO[1]

P. Emanuele Boaga, O. Carm.

Nella riflessione di questi ultimi anni per il rinnovamento della vita religiosa si è venuta accentuando sempre più negli Istituti clericali l’attenzione alla vocazione carismatica del « fratello », ossia del religioso non sacerdote. Quale contributo allo studio di questo importante tema offro, nel presente convegno dedicato ad esso, le seguenti note che delineano brevemente come si sia configurata e istituzionalizzata storicamente la figura del « fratello », detto in passato « laico » e poi anche « converso », nell’Ordine Carmelitano, per poi presentarne i problemi e le esperienze dell’aggiornamento con e dopo il Concilio Vaticano II.

Alle origini

L’origine dell’Ordine risale a un gruppo di eremiti latini che si stabilirono - dopo la terza crociata (1192) - sul monte Carmelo, in Palestina, ove eressero un eremo presso l’abbandonata laura bizantina del Wadi ain es-Siah.
Nulla si conosce della condizione personale di questi eremiti: se crociati o pellegrini, se nobili o plebei. Si sa solo che avevano partecipato alle crociate per visitare la Terra Santa. Il gruppo all’inizio presentava una forte caratterizzazione secondo la linea della conversione - pellegrinaggio - eremitismo che si riscontrava nelle correnti laicali dei secoli XII e XIII e nella spiritualità del cosiddetto pellegrinaggio in Terra Santa. Erano, per usare un’espressione dell’epoca, un gruppo di laici « viventi in santa penitenza ». La loro vita si svolgeva secondo la tipica esperienza eremitica del tempo: solitudine, lettura della Bibbia, orazione, contemplazione, lavoro manuale, digiuni, veglie e opere di misericordia.
A questo gruppo laicale S. Alberto, patriarca di Gerusalemme, tra il 1206 e il 1214 diede una breve Regola, approvata in seguito da Onorio III nel 1226 e più tardi, nel 1247, da Innocenzo IV.
Questa Regola non fa distinzione tra sacerdoti e non sacerdoti: chiama tutti semplicemente « fratres » (fratelli). Alla guida della comunità la parte più numerosa e matura elegge uno del gruppo (cap. I). La preoccupazione per la vita d’insieme, nelle principali decisioni, era condivisa da tutti; anche il bene spirituale dei fratelli è materia di comune responsabilità e viene discusso insieme (cc. II, III, XI). Tutti prendono parte al lavoro manuale (c. XV). Non esistono norme speciali o privilegi per i sacerdoti.
L’unica distinzione che viene fatta nella Regola è tra coloro che sanno leggere e quelli che non lo sanno fare. Nel capitolo VIII, infatti, del testo primitivo, tra le preghiere da dirsi in privato, si stabiliva il Salterio per coloro che erano capaci di leggere e la recita di un certo numero di Pater in sostituzione per gli altri. Nel 1247, con la correzione innocenziana della Regola, si ha l’introduzione delle « ore canoniche ». Su questo testo si basano, con poco senso storico, diversi autori per provare già nel 1247 l’esistenza dei due gruppi, chierici e laici. Questa disposizione, invece, inquadrata nelle consuetudini e nelle leggi del tempo, indica due cose. Prima di tutto l’impegno del santificare le ore liturgiche è dovuto non allo stato religioso (cioè alla classe clericale o no), ma alla capacità o meno di ognuno di recitare le ore come facevano i « chierici » in genere nelle collegiate, e alle quali ufficiature si prendeva parte in mancanza della chiesa propria. Inoltre vi è sottesa un’altra cosa: una volta ottenuta la chiesa propria la disposizione indica pure il senso di attività pastorale che assumeva nel proprio tempio la celebrazione pubblica e corale delle ore canoniche.

La clericalizzazione dell’Ordine nel secolo XIII

Con la diffusione in Europa dal 1235 in poi e sotto la spinta di interventi pontifici nel 1229 e 1247, l’Ordine si inserisce nella corrente dei Mendicanti. Ben presto in questo suo nuovo contesto si manifesta e matura un processo di trasformazione istituzionale: la clericalizzazione dell’Ordine medesimo.
Tale processo si presenta in modo analogo, anche se con maggiore rapidità, di quanto avvenne per i Francescani, e subì pure le influenze della legislazione domenicana (Ordine clericale fin dall’inizio).
I fattori che hanno determinato questo fenomeno sono da individuare prima di tutto nella crescente importanza data alle comunità nei centri urbani e al relativo impegno pastorale per assicurare il buon andamento religioso e culturale dei fedeli nel cui ambiente si viveva. Così a coloro che già entravano da sacerdoti nell’Ordine, si aggiungevano in crescendo i « fratres » che richiedevano l’ordinazione sacerdotale. Altro fattore, era il ministero, comune ai Mendicanti, della predicazione dottrinale, riservata ai soli chierici fin da quando il divieto di Gregorio IX agli Umiliati (1228) entrò nel Corpus iuris canonici con valore assoluto di proibizione della predicazione laicale. Si può anche, ricordare l’aumento continuo delle nuove leve di « letterati » tra i « fratres », con spinta verso il sacerdozio e l’apertura agli studi e al mondo universitario, e di conseguenza i problemi concreti suscitati dall’analfabetizzazione di una parte dei « fratres » stessi.
Anche, se documenti del 1253 fanno supporre che ancora non esista una vera divisione giuridica in classi di religiosi, i chierici e i laici, ciò dovette avvenire ben presto.
Infatti, nelle costituzioni del 1281, le più antiche finora conosciute, il gruppo dei chierici ha già una nettissima prevalenza giuridica sul secondo, i laici. Quest’ultimi - secondo le disposizioni costituzionali - vanno in coro con i chierici per mattutino, vespri e compieta (non però per le altre ore canoniche); portando il vestito come i chierici ad eccezione dell’almuzia o abito corale; prendono parte al capitolo conventuale, settimanale con parità di diritti con i chierici; però non prendono parte al capitolo quotidiano delle colpe dopo Terza, se non in determinate occasioni; non prendono parte al capitolo provinciale e generale. Non possono i laici studiare, ne avere libri in uso proprio e nemmeno portare la tonsura come i chierici; devono però essere istruiti ed esercitati in qualche mestiere utile all’Ordine e ad essi è affidata la cucina. Quattro volte l’anno è spiegata loro la Regola in lingua volgare.
Pochi anni dopo, il capitolo generale di Treviri nel 1291, abbattendo l’ultimo segno della primitiva parità tra chierici e laici, escluse quest’ultimi dall’esercizio della voce attiva e passiva. La disposizione sancisce così la completa e definitiva clericalizzazione dell’Ordine.
Per la completezza del quadro si deve ricordare che già nella seconda metà del secolo XIII presso molti conventi appaiono forme di oblazione di uomini e donne (i familiares, i conversi e le converse, i manomessi e le manomesse, i confratres ecc.). Subito dopo il Concilio di Vienne (1311-12) i conversi (la cui oblazione corrispondeva alla professione religiosa dei tre voti) vennero a formare un terzo gruppo di religiosi, che nelle costituzioni dell’epoca sono chiamati semifratres (e in qualche codice: servifratres).
Professavano i tre voti religiosi, ma avevano un abito distino da quello dei chierici e laici, e in chiesa il loro posto era tra il coro e le cappelle. Come i laici lavoravano nel servizio della comunità, dentro e fuori le mura del convento, secondo le indicazioni del superiore. Col passare del tempo il gruppo venne assimilato ai fratelli laici; da ciò ebbe origine nell’Ordine l’uso del termine converso per indicare il fratello laico.

La legislazione sui « fratelli » dal sec. XIV al 1930

Dopo la disposizione del capitolo di Treviri e le norme date per i laici sulla « precedenza » nelle costituzioni del 1294, si sentì il bisogno di avere riorganizzata in modo più organico tutta la materia loro spettante. Ciò fu fatto con le costituzioni del 1324, dedicando ai fratelli laici e ai semifrati o conversi un intero capitolo (la « rubrica XXX »). In questo testo, ripetendo le normative precedenti, viene chiaramente, delineata la fisionomia del fratello laico: la sua caratteristica di vero religioso, la sua distinzione dai chierici, la sua esclusione dalla voce attiva e passiva, il suo lavoro compiuto con capacità e diligenza nel servizio della comunità, la sua preghiera (ormai disancorata del tutto da quella dei chierici, eccetto che la messa conventuale). Solo per i semifrati o conversi è stabilito un abito diverso per distinguerli dagli altri frati (chierici e laici, che continuano a indossare lo stesso abito).
La legislazione del 1324 viene ripetuta « ad litteram » nei testi costituzionali del secolo XIV e giunge in pratica fino al secolo XIX. Si può ricordare che nel secolo XV per il Nord Europa si ebbero delle norme particolari circa l’abito dei laici, ma ben presto furono abolite. Notevole è invece la disposizione fatta dal priore generale Nicolo Audet nel 1530 durante la visita al convento di Parigi: l’istituzione di un « director conversorum » che aveva l’incarico di curarne l’istruzione e la condotta.
Per mettersi in linea con le disposizioni postridentine, specialmente sui requisiti per l’ammissione dei conversi e sulla necessità del noviziato appositamente designato per loro, le costituzioni del 1625 rielaborarono il testo riguardante i laici. Viene così fatto l’aggiornamento richiesto, ma permangono i contenuti della legislazione precedente circa la fisionomia del laico.
Un ulteriore aggiornamento ai decreti che la Santa Sede continuava a rinnovare sull’età minima per la professione dei conversi e sulla loro istruzione catechistica da farsi ogni domenica, veniva compiuto nel capitolo generale del 1680 e poi con norme particolari durante il secolo XVIII.
Nelle costituzioni del 1904 si continuò a riportare la sostanza della legislazione precedente, ammorbidendola però in alcuni dettagli.
Con l’avvento del Codice di diritto canonico, le costituzioni vennero rinnovate completamente nel 1930. Il capitolo dedicato ai fratelli laici, detti conversi, era caratterizzato da una profonda preoccupazione per la loro formazione religiosa e spirituale, seguendo in questo le prescrizioni del diritto comune. Non appariva invece una forte preoccupazione del significato della loro vita nella Chiesa, anche se dichiaravano i laici veri e perfetti religiosi, da amare e onorare da parte dei confratelli. Il loro stato perdura ad essere distinto da quello dei sacerdoti e a loro è subordinato, con esclusione dalla voce attiva e passiva.
A questa rinnovata legislazione si aggiunsero nel 1953 alcune norme emanate dal capitolo generale di quell’anno. In particolare: i fratelli laici devono esser chiamati semplicemente « fratres » ad evitare il senso discriminatorio dato alla designazione « laico » o « converso ». Viene curata maggiormente la loro formazione sia nella fase preparatoria al noviziato (postulandato), sia dopo. E’ pure data la possibilità di sostituire la preghiera tradizionale dei Pater con la recita del Piccolo Ufficio della Madonna. Di queste norme capitolari la prima rimase praticamente lettera morta. La seconda portò nel 1959 ad aggiornare le prescrizioni costituzionali per quanto riguardava il postulandato e la formazione spirituale e tecnica dei fratelli di voti semplici. La terza norma fu accolta da molti con gioia, e in alcune comunità i fratelli dicevano tale ufficio comunitariamente.

L’aggiornamento dal 1965 ad oggi

Nel recente aggiornamento dal 1965 ad oggi la figura del fratello nella famiglia carmelitana ha avuto un profondo cambiamento: dalla rivalutazione della sua vocazione religiosa che, con i confratelli sacerdoti, lo rende operante nella Chiesa e nell’Ordine, fino alla riscoperta - risalendo alle origini dell’Ordine medesimo - della ispirazione laicale del carisma carmelitano.
Nel capitolo generale del 1965, che segna l’inizio del rinnovamento dell’Ordine, si prese atto del diffuso desiderio che venissero ancor più sviluppati i vincoli fraterni all’interno della famiglia religiosa eliminando il più possibile le conseguenze della discriminazione dovuta alle due classi di religiosi, sacerdoti e laici. A livello normativo ci portò nei decreti capitolari a sviluppare il discorso in tre direzioni:
a) una più completa formazione umana e spirituale che realmente sia intesa ad una promozione dei fratelli laici;
b) forme di preghiera comunitaria più intense e più qualificate, tra cui la partecipazione con i chierici alla Liturgia delle Ore;
c) una maggiore partecipazione, alla vita della comunità. In questa linea circa l’esercizio della voce attiva e passiva si concesse alle Province di determinarne l’esercizio per i laici in modo che gradualmente potessero giungere al pieno diritto di tale esercizio, anche se la voce passiva era limitata « ai soli uffici di cui sono capaci canonicamente ».
Raccogliendo l’indicazione del PC 15 nel capitolo generale speciale e straordinario del 1968 si esplicito il principio generale dell’accesso dei fratelli a] governo, anche se in pratica venivano poste le limitazioni alle liriche di superiore e ad altre, eventualmente in uso presso le Province. E’ da ricordare che nei decreti capitolari vi è ancora il capitolo dedicato ai fratelli laici.
Successivamente, nel contesa del rinnovamento postconciliare dell’Ordine, la riflessione sul ruolo della vita religiosa in sé stessa, il maggiore apprezzamento della dignità della persona, e soprattutto la riscoperta - risalendo alle origini - dell’ispirazione laicale del carisma carmelitano determinano in pratica il superamento della divisione dei religiosi in due classi. Nelle costituzioni ultime, quelle del 1971, non esisti un capitolo dedicato ai fratelli laici, ma tutte le costituzioni si rivolgono ai « fratres » indistintamente. L’Ordine è composto da frati anche se si ricorda che la maggior parte di essi « riceve i sacri Ordini » (n. 17); in forza della professione tutti i religiosi « godono di una fondamentale uguaglianza con i medesimi diritti ed i medesimi obblighi sia comuni che particolari dell’Ordine, fatta eccezione di quelli inerenti al sacerdozio o che competono temporaneamente ad alcune persone a motivo dell’ufficio che hanno » (n. 19). Ciò comporta la piena partecipazione e collaborazione di tutti i religiosi alla vita comunitaria, alla preghiera liturgica e alle attività della comunità stessa. La differenza nei servizi ecclesiastici (dovuta al sacerdozio, al diaconato e ai ministeri) non condiziona minimamente l’esercizio di uffici amministrativi e anche di governo a livello locale, provinciale e generale, fatta eccezione dell’ufficio di superiore ai suindicati livelli. Eccezione dovuta al noto e discusso decreto Clericalia instituta della Congregazione dei Religiosi, emanato nel 1969.
Oggi nell’Ordine vi è una forte corrente che chiede l’abolizione di questa limitazione posta dal ricordato decreto Clericalia instituta. La limitazione viene interpretata da multi arbitraria nel collegare necessariamente il sacerdozio al superiorato, e discriminante perché in pratica fa permanere resistenza di religiosi « di seconda classe ». Questa limitazione, però, è doveroso ricordare, non è assoluta: infatti proprio lo scorso anno (1981), con permesso della Congregazione dei Religiosi si è potuto eleggere per la prima volta come superiore di una comunità negli Stati Uniti un fratello.
In seguito all’andata in vigore delle Costituzioni del 1971 non sono mancate difficoltà di ordine pratico, dovute principalmente alla formazione data in passato e al mutamento richiesto di mentalità soprattutto nelle vecchie generazioni. Altre difficoltà sono sorte in alcuni casi per l’inserimento di fratelli nel quadro della ristrutturazione delle opere. Vari sono stati i modi con cui si è cercato di risolvere dette difficoltà. Un notevole apporto è stato dato anche dall’esperienza, condotta in Italia per alcuni anni, di incontri a livello nazionale dedicati ai fratelli per la riflessione e la discussione dei problemi comuni nella nuova situazione, favorendo al tempo stesso una maturazione di mentalità.
Un accenno va fatto - prima di concludere - a due questioni, sorte in questi ultimi anni: il diaconato permanente e il passaggio di fratelli al sacerdozio.
Il diaconato permanente, introdotto nell’Ordine già nel 1974 dietro pressione di una esigua corrente, non costituisce un problema. I diaconi permanenti oggi nell’Ordine sono tre (su un totale di 406 religiosi non sacerdoti, dei quali 239 sono i fratelli). La ordinazione diaconale ha assunto l’aspetto non di promozione sociale, ma di ministero apostolico nella vigna del Signore. Al diaconato si è preferita l’apertura ai ministeri del lettorato, dell’accolitato e della distribuzione dell’Eucaristia. Anche se mancano dati statistici precisi, il fenomeno appare abbastanza presente soprattutto nei paesi latini.
Nei paesi anglosassoni, invece, si sono registrati molti casi in questi ultimi tempi, di passaggio di fratelli al sacerdozio. L’esperienza indica che esistono al riguardo dei problemi, non solo di adattamento alla nuova situazione, ma anche il pericolo di cadere in una malintesa promozione dei fratelli stessi. Purtroppo su questo aspetto non è stato fatto ancora una riflessione valutativa come meriterebbe.
In un recente documento dell’Ordine si legge: « ...Abbiamo finora costituito più un Ordine di padri che di frati, ossia fratelli. Se la Regola ci chiama tutti ugualmente fratres, senza alcuna distinzione, non devono esistere tra di noi differenze di stato, ma sono concepibili soltanto varietà di funzioni e compiti ».
Nella comprensione e nel rispetto reciproco di queste diverse funzioni il cammino della fraternità nella famiglia carmelitana vuol portare ad essere sempre più intensa e viva l’uguaglianza evangelica, proclamata con la propria vita religiosa, dono dello Spirito.

Nota
Le fonti usate per questo studio sull’origine e sviluppo della figura del fratello nella famiglia carmelitana si trovano in: Monumenta historica carmelitana, Lirinae 1907; Acta capitulorum generalium Ordinis Fratrum B.V. Marine de Monte Carmelo, 2 v., Romae 1912-34; Bullarium carmelitanum, 4 v., Romae 1715-68; Analecta Ordinis Carmelitarum III, 156; XV, 205-245; XVI 123-185; 308; XXIV, suppl. fasc. 6-8; XXVII, 1-164; XXIX, 1-88; Constitutiones Ordinis Fratrum B. Virginis Mariae de Monte Carmelo, Romae 1971. Si sono anche utilizzati i seguenti studi: J. smet, The origin of the Carmelite Laybrothers, in The Sword 5 (1942) 121-137; E. frIfdman, The latin hermits of mount Carmel: A study in Carmelite origins, Roma 1979; C. cicconetti, La Regola del Carmelo: origine, natura, significato, Roma 1973.



[1] In IL FRATELLO RELIGIOSO NELLA COMUNITA’ ECCLESIALE OGGI – Atti del Iº Convegno Intercongregazionale, Roma 18-23 aprile 1982 – “La vocazione religiosa del Fratello negli istituti clericali”, a cura di P. Fernando Taccone, Edizioni CIPI Roma 1983, pp. 141-150.