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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

O fracasso do Papa na África

O Papa Francisco, agora de volta a Roma em segurança, deixou passar uma importante oportunidade em sua viagem à África. Os seus apelos pela paz e reconciliação entre os cristãos e muçulmanos do continente foram bem recebidos por ambos os grupos. A sua repreensão para com a indiferença dos ricos, enquanto visitava uma favela com casas feitas de papelão, foi oportuna. Ele foi bastante aplaudido quando advertiu sobre a catástrofe caso as negociações climáticas em Paris esta semana não resultarem positivo. Mas, quanto à forma como os gays são tratados em um continente onde a homossexualidade é ilegal em muitos países, ele ofereceu apenas um silêncio ensurdecedor.
O comentário é de Paul Vallely, publicado por The New York Times, 02-12-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa. Paul Vallely é o autor de “Pope Francis: The Struggle for the Soul of Catholicism”, sem tradução no Brasil.
Os seus defensores dirão que os direitos dos gays são uma obsessão dos países ocidentais e que teria sido contraproducente para o papa levantar esta bandeira em uma breve visita a um continente que é hostil ao desejo do papa em fazer a Igreja Católica de Roma mais acolhedora junto à comunidade homoafetiva, ou aos divorciados e casais que vivem juntos sem estar casados. Isso porém está errado. A maneira como os gays são tratados é fundamental para o futuro da Igreja universal – e o Papa Francisco sabe disso.
É verdade que este primeiro papa vindo de um país em desenvolvimento olha o mundo de forma diferente dos papas europeus. Nesse sentido, a sua ida à África foi uma quintessência da nova abordagem de Francisco ao ser papa. Ele quer uma Igreja que esteja “em missão”, estendendo a mão aos outros em vez de esperar que eles venham até ela. E ele é, em especial, preciso em estender a mão àqueles que ele mesmo descreve como estando “nas periferias”, motivo por que ele escolheu o República Centro-Africana – país não muito presente nos lugares onde o mundo, em geral, centra a sua atenção.
Ele deseja uma Igreja misericordiosa que seja um “hospital de campanha” para os inúmeros feridos deste mundo, razão pela qual ele se aventurou em um dos lugares mais problemáticos e perigosos do mundo na segunda-feira (30 de nov.) para pedir, a cristãos e muçulmanos, que deem um fim à espiral sangrenta de ódio na qual milhares morreram nos últimos três anos. A paz e a reconciliação foram as mensagens mais consistentes nos três países visitados – Quênia, Uganda e República Centro-Africana –, onde a violência entre religiões diferentes é comum.
Quando perguntado sobre o perigo de homens armados durante a viagem, Francisco respondeu: “Estou mais preocupados com os mosquitos”.
Este papa quer uma Igreja que seja “pobre e para os pobres”, motivo por qual ele fez questão de visitar uma das maiores favelas de Nairóbi. Água limpa e um sistema sanitário eficaz são direitos humanos dados por Deus neste mundo de abundância, disse ele. O papa também atacou a minoria rica que tolera o sofrimento dos pobres – ou mesmo se beneficia dele.
Francisco pode ser o primeiro papa do sul global, mas esta sua ida à África foi uma curva íngreme de aprendizado. Esta foi a sua primeira viagem a um continente do qual ele sabe pouco – embora esteja bem ciente de que a África será uma das novas potências do catolicismo. As frequências às missas podem estar em declínio no velho mundo, mas o número de católicos na África cresceu em 238% desde 1980.
Estes números sublinham, todavia, a importância de confrontar a África com o seu preconceito contra os gays. No recente Sínodo dos Bispos sobre a família ocorrido em Roma, a questão de como a Igreja Católica trata os gays foi deixado de fora da pauta, graças a uma aliança entre os bispos das guerras culturais americanos, os conservadores da Europa oriental e um novo bloco poderoso de bispos africanos que constituía um quinto dos Padres Sinodais.
A visão que estes religiosos partilham não é a mesma do Papa Francisco. Quando perguntado, ainda nos primeiros meses em Roma, sobre um sacerdote gay, Francisco deu a seguinte resposta: “Quem sou eu para julgar?” Esta resposta tornou-se na marca definidora de seu papado que então se iniciava. Mas o papa claramente assumiu um ponto de vista tático no Sínodo, decidindo lutar uma batalha de cada vez, priorizando a questão de como a Igreja trata os fiéis divorciados, que atualmente estão proibidos de receber o sacramento da Comunhão.
Pode perfeitamente ser que o Papa Francisco tenha decidido que uma estada de seis dias na África não era o lugar para levantar uma questão tão delicada [como a da homossexualidade]. O debate sobre o lugar dos gays na Igreja irá exigir tempo para uma abordagem mais suave e gradualista.
Porém, este problema é um impedimento duplo para Francisco – um problema que ele deveria ter iniciado publicamente a abordar. Está-se diante de uma injustiça maciça aos direitos humanos porque a homofobia é endêmica na África; a maior parte dos países aí, incluindo os três que ele visitou, possuem leis contra a homossexualidade. Em Uganda, uma medida transformada em lei no ano passado por seu presidente obrigou os cidadãos a relatarem à polícia atividades homossexuais suspeitas. Como consequência, os níveis de violência contra a comunidade gay aumentaram.
Papa o Papa Francisco, tais atitudes constituem um problema adicional do lado de dentro da Igreja Católica, onde elas são um freio às mudanças que ele, o papa, quer trazer à instituição por ele governada. Está-se diante de um problema profundamente arraigado, quando líderes africanos, como o Cardeal Robert Sarah, da Guiné – religioso promovido por Francisco –, se apresenta em público e declara que “as ideologias homossexuais e abortivas do ocidente, bem como o fanatismo islâmico” são, para o século XXI, o que foram as “bestas” gêmeas da ideologia nazista e comunista o foram para o século XX.
O papa deveria ter, no mínimo, estabelecido um ponto de referência dizendo que uma tal intolerância não tem lugar na Igreja. Mas, pelo contrário, ele permitiu que esta minoria vociferante o deixasse sem ação e numa situação difícil. Os defensores de Francisco sugerem que ele fez uma referência tangencial à perseguição aos gays em um sermão onde afirmou que devemos “proteger-nos e ajudar-nos uns aos outros como membros da única família humana”.
Mas, como um apelo contra a discriminação, esta fala foi altamente oblíqua, num debate onde os opositores da tolerância aos homossexuais são brutais e diretos. Aliás, muitos irão tomar o seu apoio ao matrimônio, trazido em seu discurso em Uganda, como um apoio implícito à postura antigay. Estas pessoas acharão o mesmo a respeito de seu ataque, no Quênia, às novas “formas de colonialismo”, com o que ele quer dizer a imposição de valores ocidentais à saúde sexual da mulher em troca de cooperação internacional.
A África está prestes a se tornar uma força cada vez maior dentro do catolicismo. O Papa Francisco perdeu uma bela oportunidade de sublinhar a amplitude da mensagem de amor, misericórdia e inclusão que é preciso ter para se tornar um membro aceito da Igreja universal. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Deus é gay?

Frei Betto, OP.

Jesus transitou, sem discriminação, entre o mundo dos ‘pecadores’ e dos ‘virtuosos’. Agora, o papa Francisco ousa se erguer contra o cinismo.

Nunca antes na história da Igreja um papa ousou, como Francisco, colocar a questão da sexualidade no centro do debate eclesial: homossexualidade, casais recasados, uso de preservativo etc. O Sínodo da Família, realizado no Vaticano, só dará sua palavra final sobre esses temas em outubro de 2015, quando voltará a se reunir.
Quem, como eu, transita há décadas na esfera eclesiástica sabe que é significativo o número de gays entre seminaristas, padres e bispos. Por que não gozarem, no seio da Igreja, do mesmo direito dos heterossexuais de se assumir como tal? Devem permanecer “no armário”, vitimizados pela Igreja e, supostamente, por Deus, por culpa que não têm?
É preciso reler o Evangelho pela ótica gay, como pela feminista, já que a presença de Jesus entre nós foi lida pelas óticas aramaica (Marcos); judaica (Mateus); pagã (Lucas); gnóstica (João); platônica (Agostinho) e aristotélica (Tomás de Aquino).
A unidade na diversidade é característica da Igreja. Basta lembrar que são quatro os evangelhos, não um só: quatro enfoques distintos sobre Jesus. Até a década de 1960, predominava no Ocidente uma única ótica teológica: a europeia, tida como “a teologia”. O surgimento da Teologia da Libertação, com a leitura da Palavra de Deus pela ótica dos pobres, causa ainda incômodo aos que consideram a ótica eurocentrada como universalmente ortodoxa.
Diante dos escândalos de pedofilia, dos 100 mil padres que abandonaram o sacerdócio por amor a mulheres, e da violência física e simbólica aos gays, Francisco ousa se erguer contra o cinismo dos que se arvoram em “atirar a primeira pedra.”
Como Jesus, a Igreja não pode discriminar ninguém em razão de tendência sexual, cor da pele ou condição social. O que está em jogo é a dignidade da pessoa humana, o direito de casais gays serem protegidos pela lei civil e educarem seus filhos na fé cristã, o combate e a criminalização da homofobia, um grave pecado. A Igreja não pode continuar cúmplice e, por isso, acaba de superar oficialmente a postura de considerar a homossexualidade um “desvio” e “intrinsecamente desordenada”.
A dificuldade de a Igreja Católica aceitar a plena cidadania LGTB se deve à sua tradição bimilenar judaico-cristã, que é heteronormativa. Por isso, os conservadores reagem como se o papa traísse a Igreja, a exemplo do que fizeram no passado, quando se recusaram a aceitar a separação entre Igreja e Estado; a autonomia das ciências; a liberdade de consciência; as relações sexuais, sem fins procriativos, dentro do matrimônio; a liturgia em língua vernácula.
Deus é gay? “Deus é amor”, diz a Primeira Carta do apóstolo João, e acrescenta “o amor é de Deus, e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus.” E, se somos capazes de nos amar uns aos outros, “Deus permanece em nós.”
Por ser a presença de Deus entre nós, Jesus transitou, sem discriminação, entre o mundo dos “pecadores” e dos “virtuosos”. Não apedrejou a adúltera; não fugiu da prostituta que lhe enxugou os pés com os cabelos; não negou a Madalena, que tinha “sete demônios”, a graça de ser a primeira testemunha de sua ressurreição. Jesus também não se recusou a dialogar com os “virtuosos” — aceitou jantar na casa do fariseu; acolheu Nicodemos na calada da noite; dialogou sobre o amor samaritano com o doutor da lei; propôs ao rico que, “desde jovem” abraçava todos os mandamentos, a fazer opção pelos pobres.
Sobretudo, ensinou que não é escalando a montanha das virtudes morais que alcançamos o amor de Deus. É nos entregando a esse amor, gratuito e misericordioso, que logramos fidelidade à Palavra.
Fé, confiança e fidelidade são palavras irmãs. Têm a mesma raiz. E a vida ensina que João é fiel a Maria, e vice-versa, não porque temem o pecado do adultério, e sim porque vivem em relação amorosa tão intensa que nem cogitam a menor infidelidade.