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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Vaticano reafirma proibição a padres gays

Na quarta-feira, 7 de dezembro, o Vaticano declarou que “pessoas com tendências homossexuais” não podem ser admitidas nos seminários católicos. Isso reafirma uma norma de 2005 aparentemente em desacordo com o famoso “Quem sou eu para julgar?”, resposta dada pelo Papa Francisco ao ser perguntado sobre padres gays em 2013. A reportagem é de Michael O’Loughlin, publicada por America, 07-12-2016. A  tradução é de Isaque Gomes Correa.
O documento, intitulado “O dom da vocação presbiteral”, foi elaborado pela Congregação para o Clero e apresenta diretrizes gerais para a formação sacerdotal. Além de várias citações do Papa Francisco, o documento baseia-se fortemente nos escritos de São João Paulo II e do Papa Bento XVI.
Três dos 210 parágrafos do documento são dedicados a “pessoas com tendências homossexuais” que desejam se tornar padres, sustentados principalmente em um documento de 2005 que proíbe candidatos com “tendências homossexuais profundamente radicadas”.
O Papa Francisco aprovou o documento, segundo uma carta assinada pelo Cardeal Beniamino Stella, que preside a Congregação para o Clero.
Citando o ensinamento de 2005, o novo texto diz que os homens “que praticam a homossexualidade, apresentam tendências homossexuais profundamente radicadas ou apoiam a chamada ‘cura gay’” não podem ser admitidos aos seminários.
Segue dizendo que “estas pessoas encontram-se, de fato, numa situação que constitui um grave obstáculo a um correto relacionamento com homens e mulheres”.
“De modo algum, se hão de descuidar as consequências negativas que podem derivar da Ordenação de pessoas com tendências homossexuais profundamente radicadas”, diz.
Mas aqueles que expressam uma atração “transitória” a outros homens poderiam ser admitidos aos seminários, lê-se no documento, repetindo novamente o documento de 2005, embora tais tendências “devem estar claramente superadas, pelo menos três anos antes da Ordenação diaconal”.
A Igreja permite que bispos individuais, reitores de seminários e superiores de ordens religiosas selecionem candidatos para as ordens santas, e como uma consequência as diretrizes emitidas em 2005 vêm sendo implementadas de maneiras amplamente diversas.
Em alguns exemplos, as pessoas encarregadas pela entrada nos seminários e em ordens religiosas, assim como aqueles encarregados pela formação sacerdotal, interpretam que gays estão proibidos de ser admitidos em seminários católicos.
Em outros, os homens que fizeram da homossexualidade a sua identidade primeira, ou que têm apoiado abertamente aquilo que o Vaticano chama de “a chamada cultura gay”, são barrados.
Mas uma terceira interpretação tem sido a de que os homens que se identificam como gays podem entrar na medida em que não ajam com base em seus desejos e mantenham os votos de castidade ou promessas de uma vida celibatária. (Embora haja raras exceções, tais como padres casados vindos de outras tradições religiosas que se tornaram católicos, em regra todos eles devem praticar o celibato.)
Por exemplo, o Cardeal Timothy Dolan, arcebispo de Nova York e ex-reitor do Colégio Norte-Americano em Roma – residência para seminaristas americanos –, disse em 2005 que gays que satisfizessem todos as exigências do Vaticano “não deveriam se sentir desencorajados” a se tornarem padres.
O novo documento diz que os gays que procuram entrar para o seminário devem ser honestos com os seus diretores espirituais, “numa relação de diálogo sincero e de recíproca confiança”, e que, por sua vez, as autoridades eclesiásticas têm o dever de “dissuadir” esses candidatos de prosseguir para a ordenação.
Essa linguagem, barrando os gays ao sacerdócio, veio à luz primeiramente em 2005 com o Papa Bento XVI, tendo sido elaborada logo após romper os escândalos de pedofilia clerical no começo dos anos 2000.
Na época, alguns analistas disseram que as lideranças católicas estariam tentando associar estes escândalos a padres homossexuais, muito embora a psicologia e especialistas em direito dizem não haver ligação entre homossexualidade e abuso sexual infantil.
Uma carta divulgada com o documento em 2005 dizia que os padres gays teriam a permissão para continuar no ministério, mas que não deveriam trabalhar na formação dos atuais seminaristas.
Em 2008, o Vaticano emitiu uma atualização, que afirmava que os responsáveis pela supervisão dos processos de formação de futuros padres devem olhar para “áreas de imaturidade”, incluindo “identidade sexual incerta” e “tendências homossexuais profundamente radicadas”, ao determinarem a adequação dos candidatos ao sacerdócio.
No novo documento, os parágrafos sobre sacerdotes gays aparecem entre uma seção sobre os seminaristas que sofrem de problemas psíquicos e seminaristas considerados ameaças a menores de idade.
Não existem dados estatísticos confiáveis sobre o número de padres nos EUA que são gays. Mas o padre jesuíta James Bretzke, professor de teologia moral na Boston College, disse em 2013 que “é um fato empírico que muitos homens gays são padres. E que eles são padres muito bons”.
“Eu também faria a observação de que o número de gays e lésbicas no ministério católico é provavelmente maior do que na população geral, exatamente porque eles não estão em busca de se casar”, afirmou o professor na ocasião.

O novo documento vaticano, datado de 8 de dezembro – Festa da Imaculada Conceição –, foi elaborado na primavera de 2014, cerca de um ano após o Papa Francisco ser eleito. Ele então passou por várias rodadas de edição após sugestões de vários dicastérios romanos e bispos de todo o mundo. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Deus é gay?

Frei Betto, OP.

Jesus transitou, sem discriminação, entre o mundo dos ‘pecadores’ e dos ‘virtuosos’. Agora, o papa Francisco ousa se erguer contra o cinismo.

Nunca antes na história da Igreja um papa ousou, como Francisco, colocar a questão da sexualidade no centro do debate eclesial: homossexualidade, casais recasados, uso de preservativo etc. O Sínodo da Família, realizado no Vaticano, só dará sua palavra final sobre esses temas em outubro de 2015, quando voltará a se reunir.
Quem, como eu, transita há décadas na esfera eclesiástica sabe que é significativo o número de gays entre seminaristas, padres e bispos. Por que não gozarem, no seio da Igreja, do mesmo direito dos heterossexuais de se assumir como tal? Devem permanecer “no armário”, vitimizados pela Igreja e, supostamente, por Deus, por culpa que não têm?
É preciso reler o Evangelho pela ótica gay, como pela feminista, já que a presença de Jesus entre nós foi lida pelas óticas aramaica (Marcos); judaica (Mateus); pagã (Lucas); gnóstica (João); platônica (Agostinho) e aristotélica (Tomás de Aquino).
A unidade na diversidade é característica da Igreja. Basta lembrar que são quatro os evangelhos, não um só: quatro enfoques distintos sobre Jesus. Até a década de 1960, predominava no Ocidente uma única ótica teológica: a europeia, tida como “a teologia”. O surgimento da Teologia da Libertação, com a leitura da Palavra de Deus pela ótica dos pobres, causa ainda incômodo aos que consideram a ótica eurocentrada como universalmente ortodoxa.
Diante dos escândalos de pedofilia, dos 100 mil padres que abandonaram o sacerdócio por amor a mulheres, e da violência física e simbólica aos gays, Francisco ousa se erguer contra o cinismo dos que se arvoram em “atirar a primeira pedra.”
Como Jesus, a Igreja não pode discriminar ninguém em razão de tendência sexual, cor da pele ou condição social. O que está em jogo é a dignidade da pessoa humana, o direito de casais gays serem protegidos pela lei civil e educarem seus filhos na fé cristã, o combate e a criminalização da homofobia, um grave pecado. A Igreja não pode continuar cúmplice e, por isso, acaba de superar oficialmente a postura de considerar a homossexualidade um “desvio” e “intrinsecamente desordenada”.
A dificuldade de a Igreja Católica aceitar a plena cidadania LGTB se deve à sua tradição bimilenar judaico-cristã, que é heteronormativa. Por isso, os conservadores reagem como se o papa traísse a Igreja, a exemplo do que fizeram no passado, quando se recusaram a aceitar a separação entre Igreja e Estado; a autonomia das ciências; a liberdade de consciência; as relações sexuais, sem fins procriativos, dentro do matrimônio; a liturgia em língua vernácula.
Deus é gay? “Deus é amor”, diz a Primeira Carta do apóstolo João, e acrescenta “o amor é de Deus, e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus.” E, se somos capazes de nos amar uns aos outros, “Deus permanece em nós.”
Por ser a presença de Deus entre nós, Jesus transitou, sem discriminação, entre o mundo dos “pecadores” e dos “virtuosos”. Não apedrejou a adúltera; não fugiu da prostituta que lhe enxugou os pés com os cabelos; não negou a Madalena, que tinha “sete demônios”, a graça de ser a primeira testemunha de sua ressurreição. Jesus também não se recusou a dialogar com os “virtuosos” — aceitou jantar na casa do fariseu; acolheu Nicodemos na calada da noite; dialogou sobre o amor samaritano com o doutor da lei; propôs ao rico que, “desde jovem” abraçava todos os mandamentos, a fazer opção pelos pobres.
Sobretudo, ensinou que não é escalando a montanha das virtudes morais que alcançamos o amor de Deus. É nos entregando a esse amor, gratuito e misericordioso, que logramos fidelidade à Palavra.
Fé, confiança e fidelidade são palavras irmãs. Têm a mesma raiz. E a vida ensina que João é fiel a Maria, e vice-versa, não porque temem o pecado do adultério, e sim porque vivem em relação amorosa tão intensa que nem cogitam a menor infidelidade.