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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Papa Francisco se encontra com “Bispo Vermelho”, bispo exilado pelo Papa João Paulo II

Quem quiser compreender a luta que já dura décadas entre católicos progressistas e o falecido Papa João Paulo II  que foi assessorado em sua renovação conservadora por seu braço direito teológico, o Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Emérito Bento XVI –, o melhor que tem a fazer é conhecer história do bispo francês Jacques Gaillot. A reportagem é de David Gibson, publicada por Religion News Service, 02-03-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
Gaillot foi nomeado bispo da Diocese de Evreux, a oeste de Paris, em 1982, nos primeiros anos do pontificado de João Paulo II. Ele rapidamente veio a se tornar uma espécie de símbolo daquele tipo de bispo ativista social – e progressista teológico – que o papa polonês procuraria tirar de cena ou censurar.
Depois de anos de tensões com o Vaticano e com seus colegas bispos franceses, João Paulo, em 1995, retirou Gaillot apelidado de Clérigo Vermelho – da Diocese de Evreux e, numa espécie de exílio, o nomeou chefe titular de Partênia, diocese extinta no deserto da moderna Argélia que não existe como uma verdadeira comunidade católica desde o século V.
Paradoxalmente, este exílio liberou Gaillot para continuar com o seu ativismo – e irritar Roma – já que ele se mudou para morar junto de posseiros em Paris e passou a defender uma série de causas na política e na Igreja.
Agora, em mais uma inacreditável virada no rumo dos eventos sob o pontificado atual, o Papa Francisco na terça-feira (1º de setembro) se encontrou em privado com Gaillot em sua residência no Vaticano. “’Eu não quero pedir nada ao senhor’, falei para o papa, mas muitas pessoas entre os pobres estão felizes que eu esteja sendo recebido aqui. Elas estão se sentindo reconhecidas também”, contou Gaillot à agência noticiosa Agence France-Presse – AFP.
“Eu falei com ele sobre (...) os doentes, os divorciados, os gays. Essas pessoas estão contando com o senhor”, contou Gaillot à agência. Gaillot, de 79 anos, disse ao papa que havia recentemente abençoado um casal divorciado assim como um casal homossexual.
“Eu visto roupas civis e simplesmente abençoo-os. Não se trata de um casamento, é apenas uma bênção”, disse Gaillot ao papa segundo uma reportagem da imprensa francesa traduzida e publicada em inglês no sítio do New Ways Ministry. “Temos o direito de dar a bênção de Deus, afinal de contas nós também abençoamos casas!”
“O papa escutou”, informou Gaillot. “Ele parecia aberto a tudo isso. Nesse momento em particular, o papa falou que abençoar as pessoas também envolve falar bem de Deus a elas”.
Segundo Gaillot, Francisco lhe disse: “Continue, o que você faz (pelos oprimidos) é bom”. Francisco certamente pareceu compreender a importância deste encontro.
Gaillot disse que Francisco deixou duas mensagens em sua secretária eletrônica nos últimos meses antes de escrever-lhe convidando-o formalmente para vir ao Vaticano.
“Com um sorriso, o Papa declarou: ‘Estou falando com o bispo de Partênia’”, disse Gaillot. Segundo o bispo, tudo no encontro foi bastante informal.
“Eu estava em um dos quartos comuns da Casa Santa Marta (residência no Vaticano onde Francisco mora). Uma porta se abriu e o papa simplesmente entrou. Este nosso momento se realizou como se eu fosse da família, sem nenhum protocolo. Ele é, realmente, um homem livre. A certa altura, ele se levantou e disse: Tens um fotógrafo? Como eu não tenho isso e não havia ninguém por perto para tirar a foto, nós mesmos a tiramos com um telefone celular”.
O Vaticano não divulgou nenhum detalhe do encontro entre Gaillot e Francisco, momento que não estava incluído na lista oficial de audiências papais.
Com certeza, este encontro desencadeará uma nova rodada de especulação sobre o que ele sinaliza quanto às intenções de Francisco  uma mudança na política ou doutrina da Igreja, ou nada mais que um ato de bondade para com um rebelde já em idade de idade avançada.
No mais, o encontro parece apontar para aquele tipo de Igreja como uma “grande tenda”, em que se acomodam dentro dela as extremidades e o meio. No entanto, esta ideia em si é, frequentemente, vista como um sério perigo aos puristas doutrinais que floresceram sob os papados de João Paulo II e Bento XVI.
Ainda assim, é interessante notar uma série de convergências entre Gaillot e Francisco, especialmente em termos trabalho social para com os marginalizados:
• Em sua primeira mensagem de Páscoa, Gaillot escreveu: “Cristo morreu do lado de fora dos muros assim como nasceu no lado de fora dos muros. Se quisermos a ver a luz, o sol, da Páscoa, teremos de sair para fora dos muros”.
• No discurso aos seus colegas cardeais antes do Conclave de 2013, o Cardeal Jorge Mario Bergoglio denunciou o “narcisismo teológico” de uma Igreja trancada dentro de si mesma em vez de “ir até as periferias, não apenas geográficas, mas também as periferias existenciais: as do mistério do pecado, as da dor, as da injustiça, as da ignorância e da abstenção religiosa, as do pensamento, as de toda a miséria”.
 Gaillot também disse: “Eu não estou aqui para convencer os convencidos ou cuidar dos que estão bem. Estou aqui para apoiar os enfermos e lançar a mão aos perdidos. Devo ser bispo que permanece em sua catedral ou que ele vai às ruas?”
• Da mesma forma, Francisco escreveu: “Eu prefiro uma Igreja que está machucada, ferida e suja porque foi para as ruas, em vez de uma Igreja que não é saudável por ser confinada e por se apegar à própria segurança (...) Mais do que meu receio de extraviar-se, minha esperança é que nós sejamos movidos pelo medo de permanecer calados dentro de estruturas que nos dão uma falsa ideia de segurança, dentro das regras que fazem de nós duros juízes, dentro dos hábitos que nos fazem sentir a salvo, enquanto à nossa porta as pessoas estão famintas e Jesus não cansa de nos dizer ‘Deem vós mesmos de comer’ (Mc 6, 37)”. Gaillot também se focou a ministrar aos desabrigados, acolhendo os gays e os divorciados, e pediu clemência para as mulheres que se submeteram ao aborto – ecoando o exemplo misericordioso que o Papa Francisco defendeu no início desta semana.
Francisco igualmente fez da prática de visitar os encarcerados uma peça central de seu ministério, e há relatos que dizem que na época quando Gaillot deixou a Diocese de Evreux ele já havia visitado mais prisões do que qualquer outro bispo na história francesa. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

COISAS DE FRANCISCO: O Papa na ótica.

D. Odilo pede investigação de vínculo entre refém e criminoso da Sé

Na primeira missa de domingo depois do tiroteio que terminou com dois mortos na porta da Catedral da Sé, o arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer, pediu para que os católicos não tenham medo de entrar na igreja.
Em entrevista, ele também afirmou que não acredita que a balconista feita refém, Elenilza Mariana de Oliveira Martins, fosse uma fiel e que estivesse rezando na igreja quando foi abordada. Para d. Odilo, ela e o criminoso, Luiz Antonio da Silva, 49, talvez já se conhecessem (leia abaixo).
Dizendo que há violência por toda a parte, afirmou que tanto a catedral como a praça da Sé são locais de paz e disse que visitantes continuam sendo bem-vindos.
Para d. Odilo, "na consciência pública" o tiroteio pode dar à igreja uma imagem de lugar violento, mas que na região não há mais incidentes do que no resto da cidade.
O líder religioso só falou sobre o incidente no fim da missa. Ele expressou "veemente repulsa e consternação diante de fatos tão graves", não só esse que aconteceu na porta da igreja, mas atos violentos de maneira geral, e pediu para que os fiéis "não se acostumem" com cenas como as de sexta (4).
No começo da tarde, Luiz Antonio fez a balconista refém dentro da catedral e a levou à escadaria na frente da igreja.
Pessoas que estavam na praça começaram a acompanhar a ação. Uma delas, o pedreiro Francisco Erasmo Rodrigues de Lima, 61, se aproximou dos dois, em seguida se jogou em cima de Luiz Antonio e livrou a refém.
O criminoso conseguiu se desvencilhar e atirou em Francisco Erasmo. Logo em seguida, a polícia abriu fogo contra Luiz Antonio. Os dois morreram.

*
Folha - Por que era importante fazer referência ao acontecimento no fim da celebração da missa?
D. Odilo Scherer - Porque aconteceu na frente da catedral. Na consciência pública se cria certo medo em relação a vir à catedral, uma imagem de que seria um lugar inseguro. E eu gostaria de afirmar a todos que não é um lugar inseguro. O que aconteceu poderia ter acontecido em qualquer lugar.

Há algo específico que chamou a sua atenção no incidente?
Eu gostaria de dizer que embora a mulher que estava sendo vítima de violência tenha dito que não conhecia esse homem, seria importante que as investigações fossem adiante para verificar que tipo de relação havia. Eu não compartilho com a ideia de que era uma fiel que estava dentro da catedral rezando e foi abordada por alguém desconhecido com quem ela não tinha nenhum contato. Seria necessário aprofundar essa questão.

O relato é que ela estava na catedral e foi tirada pelo homem.
De fato, os dois se encontravam na catedral, mas é preciso ver se os dois entraram juntos. Se antes dos fatos de violência os dois já não estavam em conversação juntos, se não havia relação anterior entre as duas pessoas e que acabaram desencadeando a violência desse homem que foi morto pelos policiais. Acho que aqui há algo a ser aprofundado. Eu sei pela imprensa que o vigia viu que havia algo não normal, o que depois se viu fora da catedral.

O senhor viu as imagens. Seria possível evitar as mortes?
Concluo que a ação da polícia, inicialmente, visava evitar o desfecho mais grave, que seria a morte de alguém. Mas o fato de alguém fora do esquema ter entrado, como uma ação pessoal para tentar resolver a questão mudou todo o esquema. De fato, o homem que estava agredindo a mulher estava armado, ameaçando não só a ela, mas outras pessoas. O que pude ver e perceber é que a polícia estava tentando desarmá-lo, pedindo que ele soltasse a arma. Porém, no momento que entrou alguém imprevisto na cena e precipitou a situação [deixando-a] fora de qualquer previsibilidade. Infelizmente a polícia interveio para atirar no homem que fazia violência porque ele continuava com a arma na mão e podia continuar a atirar em outras pessoas. Lamentavelmente foram duas outras mortes que se somam às chacinas, mortes não explicadas e não explicáveis. Acho que existe a necessidade de pensar um pouco não só a questão da segurança, mas a das relações sociais e dos valores. Penso que existe um alto nível de tensão e agressividade que poderia ser melhor trabalhado para que cenas como essa fossem evitadas.

Era uma questão de tempo para algo assim acontecer na praça?

A violência acontece em todos os cantos da cidade. Não é uma questão que estaria concentrada aqui na Sé, embora aqui haja situações que podem favorecer a violência. Mas também há bastante vigilância, tanto na praça como dentro da igreja. Até hoje, os fatos de violência não são tantos. Aqui não está fora da norma em relação a outros ambientes da cidade. Eu estou com muita frequência na praça, passo por ela e nunca me senti ameaçado. Claro que é preciso estar atento, porque a insegurança está em todas as partes. Fonte: http://www1.folha.uol.com.br

Imagens terríveis na principal igreja de SP devoram os espectadores

O público ainda nem esqueceu a imagem horrível do menino curdo morto afogado em praia da Turquia e uma nova sequência de imagens chocantes vai devorar os espectadores.
Na tarde desta sexta-feira (4), dois homens morreram após troca de tiros na escadaria da Catedral da Sé, cartão-postal do centro de São Paulo.
Não é o público quem consome as imagens, elas é que dominam sua mente, possuem sua alma, até a próxima cena terrível. Todos os dias as imagens precisam fazer a sua refeição de público. "A imprensa é uma necrófila insaciável", diz personagem do escritor Rubem Fonseca.
Enquanto escrevo, o vizinho assiste com o som alto o "Brasil Urgente", e ouço a voz do apresentador José Luiz Datena. O programa transmitiu e "trepetiu" as cenas em tempo real: um cinegrafista da emissora estava lá na hora H.
Há um poderoso simbolismo a potencializar a sequência de imagens na tarde de uma sexta-feira em que as estradas já iniciavam o congestionamento para o fim de semana prolongado: um homem e uma mulher na porta da principal igreja da cidade, ambos jovens, em vez de entrarem para um casamento, ele a mantém como refém.
A porta do templo se fecha para eles. Estão no alto da escadaria da catedral, como num palco. Ali é o centro geográfico de São Paulo, o "marco zero". Outro homem, mais velho, que remete à maturidade, se aproxima para tirar a mulher das mãos do primeiro. Sua aparente boa ação, estabanada, é punida com a morte, o que desencadeia um tiroteio, em que morre também o agressor, e a mulher sai do episódio ferida.
A cena é filmada em tempo real pela TV e também pelos celulares de centenas de pessoas que passavam pelo local, incluindo crianças, e correram para ver a cena (no tempo do selfie, os celulares se voltaram para o outro lado).
Parece um enredo de novela diabólica: homem e mulher explodem a ideia de casal, o bem é punido com a morte, nem o espaço do sagrado se salva da violência, as balas fuzilam o coração de São Paulo.
A capital paulista vive hoje os menores índices de homicídio (o termômetro mais usado) de sua história conhecida, revertendo décadas de crescimento contínuo. Nos anos 1980, quando Nova York era mais perigosa que São Paulo e esta tinha uma imagem de cidade segura, a violência era maior que hoje. E entre todas as áreas, o centro, onde fica a Sé, é das mais seguras.
Mas como acreditar em estatísticas diante de cenas como as desta sexta-feira, que vão reverberar na mídia até encontrar substitutas à altura? Há poucos dias houve a maior chacina da história; ontem dois homens são mortos diante do nariz, no centro da sala, de todos os paulistanos. As imagens devoram tudo: não há matemática nem racionalidade para contrapô-las.
Na mesma sexta-feira tiveram início no Rio os trabalhos do congresso da Intercom, um dos principais encontros de estudos da comunicação no país. Hoje, o evento homenageia o estudioso Norval Baitello (PUC-SP) pela maturidade de seus estudos sobre imagem. Ele cunhou a ideia de que vivemos uma "Era da Iconofagia" (título de um de seus livros), na qual as imagens devoram os espectadores, se tornam absolutas. Talvez seja apenas uma coincidência em busca de sentido. Ou não.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

OLHAR CARMELITANO: Em memória de Frei Caneca, Carmelita.

Pedro Pomar - 1974

A 13 de janeiro de 1825 - faz exatamente 150 anos - morria fuzilado em Recife, por ordem terminante de Pedro I, Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, grande herói da luta do povo brasileiro pela independência do jugo colonial português, eminente figura de nossa intelectualidade revolucionária, nacionalista.As classes dominantes relegaram-no ao esquecimento. Chegaram mesmo a escarnecê-lo como fez o ditador Médici, em 1972, ao mandar passear pelas ruas das capitais dos Estados os ossos de Pedro I. Nossos pseudo-liberais temem falar sobre ele. Em contraste, o proletariado revolucionário exalta a sua memória como um dos mais admiráveis exemplos de combatente da causa da libertação nacional e da soberania popular. São raras as pessoas que, como ele, revelaram tal grau de rebeldia militante contra os opressores do país e do povo, tanta intransigência em face dos inimigos, tamanho destemor perante a morte. As lições de sua vida e de sua luta são fontes perenes de inspiração para todos os patriotas e democratas, conservam bastante atualidade.
Frei Caneca nasceu na capital pernambucana, em 1774, quando no mundo feudal surgiam e se desenvolviam as ideias burguesas de emancipação política, os conceitos de pátria e de nação e, quando em terras brasileiras, sob o domínio de Portugal, brotavam os fermentos da autonomia. Era de origem humilde. O apelido que o honrava adveio do fato de, na infância, ter ajudado o pai, um tanoeiro, vendendo canecas. Certamente, por vocação religiosa e pelo desejo de estudar, ingressou na Ordem dos Carmelitas. Naquele tempo, e durante dezenas de anos depois, a Igreja Católica monopolizava a cultura na Colônia. Para instruir-se e ascender socialmente, os moços das camadas mais pobres da oprimida e acanhada sociedade colonial deviam ordenar-se frades ou padres. Outro recurso era ir estudar em Coimbra, o que só os filhos dos grandes proprietários e senhores de escravos podiam fazer. No entanto, não foi a confissão religiosa que converteu, desde os albores do século XIX, o jovem Frei Caneca num ardoroso partidário da independência do Brasil e dos direitos do povo. Ao contrário, a Igreja, como instituição reacionária, além de possuir muitas propriedades e riquezas, sempre esteve umbilicalmente ligada às classes dominantes, sustentou-as por todos os meios. A verdade histórica é que, nas jornadas de 1817 e 1824 - as primeiras gloriosas tentativas de nossa revolução nacional e democrática - Frei Caneca e a brilhante falange de seus companheiros, a maioria de procedência igualmente humilde, não representavam na revolução, de maneira alguma, o clero, e sim as forças radicais da sociedade brasileira. Pertenciam à intelectualidade revolucionária, camada mais avançada da luta libertadora. Eles sentiram, como ninguém, o quanto era intolerável o domínio da metrópole portuguesa, o quanto pioravam as condições de vida do povo. Simultaneamente, recebiam a influência das novas idéias revolucionárias e tomavam conhecimento da vitória da Revolução Francesa de 1789, dos movimentos emancipadores dos Estados Unidos, da América espanhola, do Haiti. Daí a decisão de empunhar com valentia a bandeira da autonomia nacional e das reivindicações liberais burguesas. De modo coerente, passaram a integrar a ala radical do "Partido Brasileiro", da união das correntes patrióticas favoráveis à independência, ala que pregava a liquidação da dinastia dos Bragança, sem regateios nem conciliações prejudiciais à nação.
Em 1822, depois do famoso grito do Ipiranga e do acordo que permitiu a Pedro I aparecer à frente do novo Estado Nacional, a linha da intelectualidade nacionalista, oriunda do clero pobre, chocava-se com a da Igreja oficial. Enquanto esta, já aderida à situação criada, acusava Frei Caneca de indisciplina e sustentava que a autoridade de Pedro I tinha origem divina, ele respondia, denunciando as manobras traidoras do régulo, seu absolutismo e proclamando que a única e verdadeira fonte do poder é o povo.Não apenas como pensador, mas também por suas qualidades políticas e organizativas, Frei Caneca destacou-se dentre todos os seus companheiros e contemporâneos. Junto com os padres João Ribeiro, Roma, Miguelinho, Mororó e dezenas de outros, foi um dos dirigentes da Revolução de 1817, quando pela primeira vez esteve em mãos de patriotas brasileiros o poder no país. Ao sobrevir a derrota, se bem que não tivesse sido enforcado ou arcabuzado, como alguns daqueles dirigentes, padeceu inomináveis torturas e ficou encarcerado na Bahia até 1821, sob a acusação de ter conclamado o povo à guerra revolucionária e organizado guerrilhas. Efetivamente, assim procedeu, expressando opiniões como as que seguem: "Quando a pátria está em perigo, todo cidadão é soldado, todos devem se adestrar nas armas para rebater o agressor. Não é bastante, que na ocasião do aperto maior, saiam de suas casas com algumas pistolas ou facas, ou outras quaisquer armas, sem disciplina, sem ordem, sem chefe hábil nos negócios da guerra; tal estado de coisas só pode causar a confusão e a desordem. O tempo é de atropelo, devem vosmecês atropelar também a economia de suas ações?" Não sem motivo, tornou-se conhecido, desde então, como o "frade guerrilheiro".As posições combativas, revolucionárias, nortearam toda a sua vida. Libertado, voltou logo a Pernambuco para participar da deposição das autoridades coloniais e da instauração de um governo provisório provincial até que, no plano nacional, a Assembléia Constituinte, já convocada, indicasse os verdadeiros rumos do novo Estado e da nação. Ao saber que Pedro de Bragança se entronizava como Imperador do Brasil, condicionou seu apoio a esse governante à exigência de que prevalecesse, na Constituição que se elaborava, a vontade soberana do povo. Com tal objetivo, fundou, em fins de 1823, o jornal Tifnis Pernambucano. Defendia a instituição de um regime constitucional, representativo, capaz, segundo ele, de assegurar a independência recém-conquistada. Afirmava que a unidade nacional devia ser baseada na autonomia das províncias, de acordo com as tradições brasileiras e como demonstrava a experiência positiva dos Estados Unidos da América do Norte. Considerava indispensável que o Brasil se constituísse numa federação, unida pelos interesses e pelos sentimentos do povo de todo o país. Percebia que a nação, apesar de jovem, já possuía fortes laços de solidariedade e condições para sobreviver e progredir, percepção que, ainda hoje, certos elementos ditos progressistas não alcançaram. Embora jamais tivesse acreditado no liberalismo de Pedro I, mostrou-se disposto a aceitar o regime monárquico, contanto que a autonomia das províncias fosse preservada, assim como respeitada a soberania popular. Por isso, a dissolução pela força da Assembléia Constituinte encontrou de sua parte firme repulsa. E ao ser informado da imposição da Carta Constitucional, elaborada nos corrilhos palacianos, conferindo todos os poderes a Pedro I, escreveu, indignado, a um amigo: "Não admitimos mais imposturas, conhecemos o despotismo, vamos decepá-lo".
A Confederação do Equador, de 2 de julho de 1824, teve em Frei Caneca seu principal cérebro, seu autêntico fundador. A República sonhada englobaria as províncias do Norte, as quais ficariam unidas por uma Constituição, cujas bases ele publicara em seu jornal, na véspera da Revolução. Nesse projeto de Lei Magna, propôs enfaticamente a liberdade política, a igualdade civil, todos os direitos inalienáveis do homem. Estabeleceu itens relativos à liberdade de imprensa e de opinião. Destacou, especialmente, a abolição da escravatura nos seguintes termos: "Todo homem pode entrar a serviço de outro pelo tempo que quiser, porém não pode vender-se, nem ser vendido". O conteúdo de seu ideário era nitidamente burguês, democrático. Não obstante, pareceu muito radical, bastante avançado para aquele período.Mas a Confederação do Equador só conseguiu o apoio das províncias da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Sem a adesão das demais, sobretudo da Bahia, cujo movimento popular revelara pujança e combatividade na luta contra as tropas do general português Madeira, a nova República duraria pouquíssimos meses. De seu lado, o governo imperial tomara incontinenti medidas para debelar a revolução a ferro e fogo. Cercado por terra e por mar, o governo confederado não pôde manter-se. A derrota deveu-se, fundamentalmente, a certas condições internas adversas da época, ao profundo atraso do país. Diferentemente dos Estados Unidos, onde vencera a Revolução da Independência com sentido democrático, no Brasil existia ainda um forte sistema feudal-escravista, que não deixou surgir nem florescer um núcleo numeroso de colonos livres. Os centros urbanos brasileiros eram então bastante débeis, distantes e dispersos. Além disso, a revolução não interessou direta e profundamente ao grosso da massa de escravos. Posto que condenasse formalmente a escravidão, não pretendia aboli-la imediata e radicalmente, mas sim de modo gradual. Em suma, por não terem compreendido a importância da participação da grande maioria da população escrava na luta pela independência, os líderes do movimento emancipador de 1817 e 1824 fatalmente seriam esmagados pela reação feudal e escravocrata.Frei Caneca não cedeu facilmente. Julgou encontrar no interior de Pernambuco condições políticas e topográficas propícias à continuação da luta. Como não podia deixar de ser, enveredou pelo caminho da resistência armada, recorrendo ao método da guerra de guerrilhas. Mas quase tudo lhe foi hostil. Até uma tremenda seca contribuiu para obstar-lhe os planos. Suas colunas rarearam cada vez mais diante das dificuldades. Havia defecções dos que não tinham igual confiança na vitória. Mesmo sem recursos, passando fome, rompeu diversos cercos, travou alguns combates com vantagens e penetrou no sertão do Ceará, em busca de apoio. Só a 29 de novembro, em decorrência da situação insustentável em que se achava, aceitou a proposta de rendição formulada pelo comandante das tropas imperiais, em troca do respeito pela vida dos guerrilheiros e do compromisso de que o governo não faria vinditas.Dessa forma, veio a cair nas mãos de Pedro I o mais intrépido defensor da causa emancipadora e democrática, o patriota que a reação mais temia e odiava. A Justiça Militar, nomeada a propósito pelo Imperador, empreendeu de imediato seu julgamento sumário. Frei Caneca não procurou justificar-se, pessoalmente; sustentou com bravura suas idéias, seu direito à promover a revolução; não claudicou nem se prestou a qualquer compromisso com os inimigos da pátria e do povo. Compreendia que Pedro I queria vê-lo rápida e severamente castigado para exemplo dos que se atrevessem a levantar-se contra a tirania. Seu comportamento altivo e digno, contribuiu para desmascarar o não cumprimento da promessa de que os prisioneiros teriam suas vidas poupadas. O desassombrado lutador deveria morrer na forca - tal a decisão dos juízes militares, antecipadamente tomada.Longe de ficar abatido, Frei Caneca, em virtude de sua fibra moral e de suas profundas convicções, revelou-se mais animoso do que nunca. O desprezo pela morte, a consciência de cumprir em qualquer circunstância seu dever de patriota, de sacrificar a vida pelo bem comum, forjaram nele um dos mais belos e íntegros caracteres de homens públicos populares que registra a história brasileira. Cantou tais sentimentos em versos como estes:
"O Patriota não morre:Vive além da eternidade;Sua glória, sem renome.São troféus da humanidade."
Pouco antes de ser fuzilado, ainda compôs outro poema que diz:
"Tem fim a vida daqueleQue a pátria não soube amar;A vida do patriotaNão pode o tempo acabar"
O episódio final do seu suplício mostra até que ponto ia a sanha da repressão. A agonia arrastou-se praticamente por três dias, nos quais sua figura se agigantou pela coragem, ao passo que a dos seus verdugos se amesquinhou pela crueldade. Desde o dia 10 de janeiro se haviam iniciado os preparativos para o enforcamento. Mas, nesse instante, a Igreja resolveu interceder junto a Pedro I em favor da vida do condenado, solicitando que a pena capital fosse comutada em prisão. O Imperador, além de recusar, ameaçou. A Igreja desistiu. Dia 13, pela manhã, já no patíbulo, ele foi submetido à degradação canônica, isto é, despido de seus hábitos religiosos e da condição de frade. Entretanto, o preso comum destinado a colocar-lhe o laço no pescoço, negou-se a fazê-lo. Ali mesmo foi pisoteado, surrado. Outros dois presos comuns convocados para a mesma bárbara função, também não a aceitaram. Diante disso, o representante de Pedro I, brigadeiro (como então se chamava ao general) Lima e Silva, optou pelo fuzilamento. Entrementes, Frei Caneca, que fora despertado do sono em que estava mergulhado para subir ao patíbulo, continuava sereno, procurando falar ao povo e auxiliar os carrascos a terminarem com a execução. Até que o ato infame se consumou.
Há 150 anos do holocausto do grande herói popular, cumpre às forças revolucionárias não apenas homenageá-lo como compreender o sentido de suas idéias e de sua luta, assim como continuá-la nas novas condições históricas. Nesse período, ocorreram enormes transformações no mundo e em nosso país. O socialismo venceu em alguns países e avança vitorioso, enquanto o capitalismo está apodrecendo. As contradições sociais e políticas se aguçaram. No Brasil, as forças que se opõem ao progresso, à democracia e à independência nacional já não são senhores de terras e escravistas junto com o colonialismo português, mas sim os latifundiários e a grande burguesia associada ao imperialismo, sobretudo ao norte-americano. Por outro lado, as forças interessadas na revolução são outras, muito mais poderosas. O papel que representam é também diverso do daquele tempo. Agora, apenas uma parte da burguesia, a não-ligada aos interesses estrangeiros e à reação, pode participar da revolução, mas não encabeçá-la. Tampouco a intelectualidade progressista, inclusive a provinda do clero, tem condições de ser a vanguarda revolucionária. A direção da revolução cabe ao proletariado, através de seu Partido marxista-leninista. Nessas circunstâncias, o caráter nacional e democrático da revolução, embora permaneça formalmente o mesmo, ganhou um novo conteúdo. Sob a liderança da classe operária e na base da aliança operário-camponesa, ela será inevitavelmente vitoriosa e abrirá caminho para o socialismo.Todavia, muitas das idéias e das medidas expostas e propugnadas por Frei Caneca têm atualidade, estão na ordem-do-dia. Igualmente, o caminho revolucionário, a luta armada, e a intransigência que preconizou e revelou são fundamentalmente os mesmos que hoje devemos trilhar e praticar no combate para pôr abaixo a ditadura militar e varrer com a dominação do imperialismo estadunidense. Honra e glória eternas ao grande precursor da luta do povo brasileiro pela independência e pela democracia!

 *Artigo de Pedro Pomar, publicado no jornal A Classe Operária, 1974.

domingo, 30 de agosto de 2015

OLHAR CARMELITANO: O chamado de Eliseu (1Reis 19,19-21)

Frei Emanuele Boaga, O.Carm. - Augusta de Castro Cotta, CDP

A história no seu contexto
A história do chamado de Eliseu se liga bem com a precedente a ela. Nesta vemos Elias seguir uma das ordens de Deus (19,16b) e assim agir para desenvolver o processo que levaria a vitória sobre o baalismo como Deus prometera (19,17). Será Eliseu que realizará as outras duas ordens: instigou a Hazael para que usurpasse o trono de Damasco (2 Reis 8,7-15) e a Jeu, o trono de Israel (2 Reis 9,1-13). Foi durante uma guerra de Hazael contra Jorão, rei de Israel, que Jeu mata Jorão e se proclama rei no seu lugar (2 Reis 9,14-26). Jeu mata também Jesabel (2 Reis 9,30-37) e os outros membros da família de Acab (2 Reis 10,1-11). Enfim, reúne os fiéis de Baal no seu templo, mata-os, destrói o templo (2 Reis 18-27). Assim Jeu exterminou Baal de Israel (2 Reis 10,28) e realiza-se a promessa que Deus fizera a Elias (1 Reis 19,17).

Interpretação
A ordem de Deus era a de ungir Eliseu como profeta. Mas os profetas não eram ungidos. O uso deste termo impróprio no v.19,16 pode-se explicar com o paralelismo, uma vez que ao nome de Eliseu segue-se o de Hazael e de Jeu, que como reis recebiam a unção.
Na nossa história o elemento principal para a eleição de Eliseu não é a unção, mas o manto de Elias. Talvez que um certo tipo de manto fosse a veste distintiva de um pro­feta (2 Reis 2,13-14). Neste caso o manto simboliza sempre a missão da pessoa e contém os poderes daquele que o usa (2 Reis 2,13-14). Também, jogar o manto sobre alguém indicava ainda o direito do proprietário do manto sobre a pessoa que o recebia (ver Ruth 3,9). Então, Elias com aquele seu gesto adquire um direito sobre Eliseu que começa a servir a Elias (v.21) e ao mesmo tempo o reveste da sua missão e dos seus po­deres como Profeta. Neste sentido pode-se considerar esta história como paralela a 2 Reis 2,1-18.
Eliseu aceita o chamado, pede apenas para ir despedir-se dos seus familiares antes de partir. A resposta de Elias tem provocado muitas discussões porque é assaz ambígua. Literalmente o texto hebraico diz: "Vai, mas volta porque sabes que coisa te fiz. (ou: ?)". Isto pode significar que Elias deixa Eliseu livre para escolher de segui-lo ou não. Mas, provavelmente significa: "Vai e volta porque tu sabes bem o que te fiz: eu te investi dos meus poderes".
 Eliseu oferece um sacrifício para o qual convida as pessoas de sua terra. Mas aqui o que é mais significativo é o fato de que para oferecer o sacrifício ele destrói o arado e mata seus bois, o que indica uma definitiva ruptura com o passado. É o mesmo que faz ao deixar as próprias vestes para vestir o manto de Elias (2 Reis 2,13). Agora possui uma nova identidade: é o servidor de Elias. Realmente o texto não nos diz que se tornou sucessor de Elias mas seu servidor. É necessário também ler este detalhe, como tantos outros da história de Elias, fazendo-se referência a história de Moisés. Josué, filho de Num, era servidor de Moisés na sua juventude, tornando-se depois seu sucessor. Assim também Eliseu inicia a sua carreira como servidor de Elias para tornar-se depois o seu sucessor.

*Institutum Carmelitanum- Comissão Internacional- Carisma e Espiritualidade.

FREI PETRÔNIO: Pensamento do Dia. (Domingo, 30).

22º Domingo do Tempo Comum: Homilia do Papa Francisco. Ano-B.

Neste domingo, 30 de agosto, antes de rezar o Angelus com os fiéis e peregrinos presentes na Praça de São Pedro, o Papa Francisco meditou sobre o Evangelho do dia e rezou pelos migrantes. Apresentamos as palavras do Papa:

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
O Evangelho deste domingo apresenta uma disputa entre Jesus e alguns fariseus e os escribas. A discussão é referente ao valor da "tradição dos antigos" (Mc 7,3) que Jesus, referindo-se ao profeta Isaías, define "preceitos dos homens" (v. 7), e que nunca deve ficar no lugar do "mandamento de Deus" (v. 8). As prescrições antigas compreendiam não apenas os preceitos que Deus revelou a Moisés, mas uma série de regras que especificavam as indicações da lei mosaica. Os interlocutores aplicavam tais normas de uma forma muito escrupulosa e as apresentavam como uma expressão de religiosidade autêntica. Portanto, repreendem Jesus e os seus discípulos pela transgressão delas, em particular, daquelas relacionadas com a purificação exterior do corpo (cf. v. 5). A resposta de Jesus tem a força de um pronunciamento profético: "Ignorando o mandamento de Deus - diz - observam a tradição dos homens" (v. 8). São palavras que nos enchem de admiração por nosso Mestre: sentimos que nEle há verdade e que a sua sabedoria nos liberta de preconceitos.
Mas atenção! Com essas palavras, Jesus quer alertar também a nós, hoje, que ao manter a observância exterior da lei seja suficiente para ser bons cristãos. Como à época para os fariseus, há também para nós o perigo de nos consideramos adequados ou, pior, melhor do que os outros pelo simples fato de observar as regras, as tradições, mesmo se não amamos o próximo, somos duros de coração, soberbos, orgulhosos. A observância literal dos preceitos é algo estéril se não muda o coração e não se traduz em atitudes concretas: abrir-se ao encontro com Deus e à Sua Palavra, a oração, buscar a justiça e a paz, ajudar os pobres, os fracos, os oprimidos. Todos sabemos que, nas nossas comunidades, nas nossas paróquias, nos nossos bairros, quanto mal fazem à Igreja e são motivo de escândalo as pessoas que se dizem muito católicas e vão muitas vezes na igreja, mas, depois, na sua vida quotidiana, descuidam da família, falam mal de outros e assim por diante. Isso é o que Jesus condena, porque é um contra- testemunho cristão.
Continuando a exortação, Jesus se concentra em um aspecto mais profundo e afirma: "Não existe nada fora do homem que, entrando nele, possa torná-lo impuro. Mas são as coisas que saem do homem que o tornam impuro"(v. 15). Desta forma, sublinha a primazia da interioridade, ou seja, a primazia do "coração": não são coisas exteriores que nos fazem santos ou não santos, mas é o coração que expressa as nossas intenções, as nossas escolhas e o desejo de fazer tudo por amor a Deus. As atitudes exteriores são a consequência do que decidimos no coração, mas não o contrário: com as atitudes exteriores, se o coração não muda, não somos verdadeiros cristãos. A fronteira entre o bem e o mal não passa fora de nós, mas sim, dentro de nós. Podemos nos perguntar: Onde está meu coração? Jesus diz: "O teu tesouro é onde está o seu coração". Qual é o meu tesouro? É Jesus, a sua doutrina?  É o coração bom ou o tesouro é outra coisa? Portanto, é o coração que deve ser purificado e convertido. Sem um coração purificado, não se pode ter mãos verdadeiramente limpas e lábios que pronunciem palavras sinceras de amor - tudo é duplo, uma vida dupla - lábios que pronunciam palavras de misericórdia, perdão. Somente isso só pode fazer o coração sincero e purificado.
Peçamos ao Senhor, por intercessão da Virgem Santa, para nos dar um coração puro, livre de toda hipocrisia. Esse é o adjetivo que Jesus disse aos fariseus: "hipócritas", porque dizem uma coisa e fazem outra. Um coração livre de toda hipocrisia, para que sejamos capazes de viver de acordo com o espírito da lei e alcançar o seu fim, que é o amor. Fonte: http://www.zenit.org
*Papa no Angelus. Cidade do Vaticano, 30 de Agosto de 2015.

Seminários e Conventos: Um olhar a partir da sexualidade.

Muitos formadores de seminários e conventos não conhecem as feridas que os candidatos trazem.
Entrevista à irmã Lacambra, especialista em temas de sexualidade humana
Por José Antonio Varela Vidal


ROMA, terça-feira, 05 de junho de 2012 (ZENIT.org). - É sempre bom saber a origem das coisas. Isto ajuda a identificar as causas dos problemas, que quando crescem com várias ramificações impedem uma solução adequada. Alguns deles são os temas relacionados à sexualidade humana ou ao mundo demoníaco.
Para conhecer mais de perto estas realidades, ZENIT conversou com a irmã Maria Blanca Lacambra, da congregação das Servas da Verdade, que reside em Bayamón, Puerto Rico. Ela trabalha há muitos anos com diversos grupos da arquidiocese de San Juan, no que diz respeito à disfunções sexuais, assim como casos de possessões diabólicas e exorcismos. Oferecemos a primeira parte da entrevista hoje.

ZENIT: Por que o tema da sexualidade, com suas perversões, tornou-se uma notícia de todos os dias?

IR. LACAMBRA: Em primeiro lugar considero a sexualidade sagrada, criada por Deus e, portanto um presente seu. As perversões são ocasionadas por vários fatores inerentes a traumas, estupros e abusos de todo tipo. Sendo Puerto Rico uma sociedade matriarcal, onde a mãe faz quase tudo com relação aos filhos, e o pai se dedica a trazer o sustento para o lar, - hoje muitas mães trabalham e não têm tempo para os filhos -, são os filhos que ficam afetados por isso e em muitos casos se debilitam. Tudo isso faz com que muitas feridas fiquem impressas no cérebro e os acompanhem por toda a vida. Se estas feridas não são tratadas com cuidado por diversos profissionais qualificados na matéria, juntos com a consciência séria da participação de Deus nas nossas vidas, teremos diante de nós adultos com muitos distúrbios de comportamento e de personalidade; problemas que mais adiante se manifestarão tanto na vida matrimonial como na vida religiosa.

E isso pode ser mudado?
IR. LACAMBRA: Existem sacerdotes, psiquiatras, psicólogos e sexólogos que trabalham com isso, e pelo que a experiência está me ensinando, é necessário trabalhar rapidamente para eliminar, na medida do possível, as feridas que impedem os homens de adquirir a libertação; lembremos de que somos imagem e semelhança de Deus e são as feridas que nos impedem de sentir no nosso ser esse “menino” ou “menina” criada por Deus e que constantemente está gritando dentro de nós porque quer ser o que Deus, Nosso Senhor quis que fosse: seu filho ou filha querida.

ZENIT: E como prevenir isso com aqueles que entram nos seminários e conventos?
IR. LACAMBRA: Vejo que está sendo feito algo ultimamente, mas pouco. Que se faça um teste psicológico não é suficiente, porque se a pessoa é inteligente poderá manipular todos aqueles que a queiram mudar e não se poderá saber como é na realidade o candidato. Os candidatos não dizem muitas coisas que se deveria saber antes de entrar no convento, para serem ajudados. Vêm com muitas feridas da infância e da adolescência. E ainda mais, considero que exista medo pelo tema da sexualidade; não se aprofundiza como se deveria fazer. Lembremos que a sexualidade abarca o corpo, alma e espírito e portanto, nos acompanha ao longo de toda a vida e se não nos é familiar, amiga, diria, como é possível amá-la e deixar que ela cumpra com o fim para o qual Deus, Nosso Senhor a criou?

ZENIT: Vêm-se alguns casos disso, não?
IR. LACAMBRA: Se entramos nas comunidades nos encontramos com tantas coisas que estão acontecendo a nível mundial, seja com sacerdotes, religiosas, pastores e nos escandalizamos mas..., quem acompanhou estes candidatos à vida religiosa e sacerdotal no aspecto da sexualidade? Por acaso os seus pais? É triste constatar que muitos pais não sabem nada do que se refere a este tema tão importante. Eu diria que nem sequer alguns formadores e superiores de comunidades religiosas têm muito conhecimento desse tema. Muitos jovens entram no seminário ou na vida religiosa com a intenção de ficar, seja porque têm vocação ou por outras causas que já conhecemos; algumas delas não muito positivas. O fato de que hão haja formadores devidamente preparados para acompanhar estes candidatos, supõe que ante o voto de castidade tenham problemas. Além do mais, o mero fato de saber que existe fortes tentações, não supõe necessariamente que não existe a vocação. Justamente os meios utilizados contra o maligno nestes momentos são importantíssimos: a oração, a recepção dos sacramentos, o santo terço, e acima de tudo, o acompanhamento de uma pessoa - geralmente o superior e o diretor espiritual - tanto no terreno espiritual como humano.

ZENIT: Na época da formação para o sacerdócio ou para a vida consagrada, quais são os sinais de alerta que se pode ter sobre isso?

IR. LACAMBRA: Eu diria que um apego excessivo ao superior, pois estão à procura de um pai; no caso das jovens, na superiora uma mãe. E isso se manifesta ao longo de toda a vida. Acredito que um candidato a religioso ou religiosa, que não tenha recebido o amor dos pais, terá muito mais dificuldade de seguir adiante sem ajuda. A necessidade de masturbar-se, de ver pornografia; a necessidade de estar horas diante da tela; o viver uma vida totalmente secularizada e superficial, são indícios da falta de compromisso diante de um assunto tão importante.

ZENIT: Não há como superar isso durante a formação?

IR.LACAMBRA: Na formação é necessário orientar os candidatos para terem uma vida de intensa oração, porque esse amor esmaga e apaga todo o resto. Mas não é o único. A nossa natureza é humana e, portanto, deve ser tida em conta. Se o amor radica na sexualidade, é impossível amar sem ser afetivo. Deus é amor! E quão bem o Papa Bento XVI nos dá a entender isso na sua Encíclica Deus Caritas Est. Os formadores deveriam ter conhecimentos da pessoa humana; devem ter conhecimentos da pessoa humana; devem preparar-se em sexologia e ser maduros afetivamente. Estudaram filosofia, teologia mas sabem pouco de afetividade se não provêm de uma família onde mamaram e foram testemunhas do amor que o pai tinha pela mãe e vice-versa; devem ter tido experiências de um amor filial que é o eixo da maturidade afetiva e do espírito. O sentido da castidade bem compreendida e vivida, leva a um amor tão grande que não se precisa de ninguém no caso do cônjuge; e de ninguém mais que o Esposo, no caso do célibe.



ZENIT: Outro tema do nosso tempo é a infidelidade entre os casais ... Onde se origina isso?

IR. LACAMBRA: Nas oficinas que temos, percebemos que o grande problema que nos apresentam quando chegam não é o esposo ou a esposa, mas a falta de amor na infância; falta de amor pelas feridas que têm, sobretudo dos 0 aos 6 anos. Ali não houve um papai ou uma mamãe que lhes dera amor que necessitavam, para depois usar esse mesmo amor ao longo de toda a vida. Ao longo da terapia eles mesmos se dão conta de que existem coisas no fundo que lhes impossibilita o amor gratuito e maduro que devem ter um pelo outro; a felicidade é um presente que Deus lhes deu; presente que tem que ir desenvolvendo ao longo da vida. O cônjuge não é o culpável pela falta de felicidade no outro, na maioria dos casos.

ZENIT: A infidelidade é uma doença?

IR. LACAMBRA: não me atreveria a dizer que é uma patologia. Mas sim diria que é uma atitude, um estado produzido por uma insatisfação, uma busca do prazer; do sentido sem ter aprofundado bem na afetividade, que é o que se aprende no lar. Como, então, falar de espiritualidade se o relacionado com a natureza humana está "manco"?

ZENIT: E sobre a questão da homossexualidade? Alguns dizem que é adquirida, outros que se nasce assim, o que se sabe hoje sobre isso?

IR. LACAMBRA: Há um monte de idéias e teorias sobre isso. O que estudei - embora não seja sexóloga - é que existem dois tipos de sexualidade, a primária e a secundária. A primária refere-se a aquelas pessoas que desde pequenas já têm essa inclinação. Existem muitos fatores que devem ser tidos em conta, mas eu diria que entre 100 homossexuais, somente alguns seriam primários (os verdadeiros homossexuais). O resto, o maior número seriam os secundários; para nós, pseudo-homossexuais.

ZENIT: Então, tudo isso pode ser canalizado?

IR. LACAMBRA: A sexualidade é uma ciência moderna do século XX, portanto ainda está na sua infância. Encontram-se muitas coisas, e trabalhando com as pessoas nos damos conta de que o homossexual secundário não o é realmente, é um falso ou pseudo-homossexual. O que faz que com a ajuda de pessoas idôneas possam voltar a ser heterossexuais, que é o que Deus quis para eles. No entanto, também encontramos casos de homossexuais primários que nos foi possível orientar por meio da vida espiritual e lhes ajudamos a amar a Deus, que constitui o fundamento do seu amor. Conseguiram: colocando a Deus, Nosso Senhor no topo, o resto fica em segundo plano. Na nossa arquidiocese existe um grupo chamado “Courage” que ajuda os homossexuais e ali consegue-se muitos frutos. É claro que ao aproximar-se de Deus, e aprender a amá-Lo faz com que a pessoa se apaixone por Ele e leva a ir apagando as paixões que nos separam Dele a nível terreno: o prazer, a comodidade, etc. Além do mais, o saber canalizar bem a energia sexual faz que a sexualidade não transborde e cause inundações que vemos em todos os lugares. Fonte: http://www.zenit.org

(Tradução Thácio Siqueira)

sábado, 29 de agosto de 2015

A Ordem do Carmo e a Revolução Francesa

Recordando a História da Ordem do Carmo, os séculos XVI e XVII foram séculos de grande expansão da Ordem através da devoção Mariana propagada pelos escritos da Espiritualidade Carmelitana e também pela atuação das Ordens Terceiras e Confrarias do Escapulário de Nossa Senhora do Carmo. No início so século XVI havia 30 Províncias 693 Conventos, 12.000 Religiosos e 75 Mosteiros femininos com 1500 Monjas de Clausura.
No fim do século XVIII irrompeu o furacão da Revolução Francesa quando a Ordem do Carmo estava com 15.000 Religiosos. A Revolução Francesa partiu para as perseguições contra a Igreja e as Ordens Religiosas, então o número de Religiosos Carmelitas foi reduzido a 757 e a sua recuperação só aconteceu no início do século XX.
Outro fator que abalou os alicerces da Igreja e das Ordens Religiosas foi o aparecimento de Napoleão Bonaparte que, depois da Revolução Francesa, apossou-se do governo francês, criou um consulado de três membros e ele foi eleito o Primeiro Cônsul, tornando-se vitalício no cargo e Ditador.
Com a Revolução Francesa e o despotismo de Napoleão, a Igreja sofreu horrores e dizia-se que Pio VI seria o último Papa. Faleceu Pio VI (1799), e, com muita dificuldade realizou-se um conclave (eleição) de um novo Papa, não em Roma, mas em Veneza/Itália, e foi eleito o Cardeal Barnabé Chiaramonti, que tomou o nome de Pio VII e governou a igreja de 1800 a 1823. Pio VII era Monge Beneditino, homem profundamente religioso e capaz, sofreu por demais no relacionamento com o Imperador Napoleão Bonaparte. O desfecho final de tanto sofrimento para o Papa e para a Igreja só terminou quando em 1814 Napoleão foi obrigado a abdicar, passando a residir na Ilha de EIba, e em compensação recebeu o título de Imperador. Mas em 1815 retornou a França, retomou o governo, mas foi derrotado em Waterloo a 18 de junho de 1815, foi desterrado para a Ilha de Santa Helena, onde veio a falecerem 1821.

Em 1814, Pio VII pode retornar a Roma, reorganizou o Estado Pontifício, as relações da Santa Sé com a França e outros países da Europa melhoraram, o Papa recuperou o seu prestígio e passou a ser aceito como centro inabalável do governo da Igreja. Pio VII faleceu em 1823. Encerra-se aqui a história da Revolução Francesa e do Imperador Napoleão Bonaparte e nesse período de 1789 a 1815, portanto 26 anos, as Ordens e Congregações Religiosas foram sensivelmente abaladas em seus quadros e a Ordem do Carmo na Europa e no Brasil, não passou ilesa durante esse período. No fim do século XIX a Ordem do Carmo no Brasil ficou reduzida a uns poucos Religiosos, mas Nossa Senhora do Carmo, que sempre esteve presente em nós e na vida de sua Ordem acorreu em nosso auxílio, enviando-nos alguns Religiosos Carmelitas da Espanha, primeiro, e depois, da Holanda, que receberam de Nossa Mãe do Carmo a Missão de restaurara Ordem do Carmo no Brasil!

O CORAÇÃO DA REGRA DO CARMO, QUAL É? (1ª Parte)

Frei Bruno Secondin, O. Carm.

A vocação do Carmelo à oração
              Toda a Regra toda propõe logicamente um itinerário em direção à maturidade. Já o demonstramos no próprio esquema, mas há também expressões que mais diretamente se referem a esta perspectiva: as palavras, por exemplo, meditare, vigilare, de corde puro, placere Deo, in obsequio Jesu Christi, pie vivere in Christo, æternæ vitæ mercedem, quæcumque(...) agenda(...) in verbo Domini fiant.
              A tradição dos séculos delineou a fisionomia do Carmelita segundo o capítulo 7º: oração e solidão. Somos definidos assim como homens e mulheres da espiritualidade, da vida interior, da oração. Hoje se diz freqüentemente que as nossas comunidades são fraternidades orantes. Como vamos conseguir pôr este dado da tradição de acordo com a nossa explicação da Regra, que desloca o centro para o capítulo 10º, orientando para lá o valor de todo o projeto, inclusive o capítulo 7º ?
              Temos de dizer que é ótima coisa a ênfase que a tradição põe no capítulo 7º, interpretando-o como prescrição de solidão, de meditação e oração, mas não corresponde com rigor ao sentido literal do texto e, ainda menos, ao sentido que tem aquele capítulo no dinamismo ideográfico da Regra na sua totalidade. É um capítulo que permanece fundamental, mas por causa da Palavra, que deve ser absolutizada na vida a ponto de encher a solidão e o tempo, por inteiro: die ac nocte meditantes; a ponto de vir a ser transmudada em sede e desejo veemente, pois vigilantes é de um sentido forte. Porém, o máximo grau da força e da potência da Palavra e o fundamento da verdade de tudo quanto Ela anuncia e comunica estão na Eucaristia, que faz participar da vitalidade do Cristo Ressuscitado. E o projeto de vida está regulado e modelado justamente pela "sacramentalidade" eucarística, muito mais do que pela solidão ou pela oração e meditação.
              É pena que a tradição materializou na solidão-isolamento e no rezar, em sentido genérico, uma prescrição que põe a sua força na meditação da Palavra e nas conseqüências que daí derivam, como oração, comunhão fraterna, celebração do Mistério e mais práticas decorrentes. Concentrar-se de maneira especial sobre o estar sós e sobre um conceito "vago" ou fraco de oração, no qual de fato a  meditação da Palavra não goza realmente do primado que lhe cabe, mas está ao par com outras modalidades de "oração", inclusive "devoções", isto levou a uma oração de solitários mais do que de solidários, a uma espiritualidade individualista mais do que a uma Igreja-comunhão.
              A oração, à qual deve o Carmelita dedicar-se, é descrita na Regra como um vigilare in orationibus (c.7), quer dizer, como uma resposta existencial à Palavra meditada e assimilada. Rezar é, então, penetrar nos segredos do coração de Deus, que a Palavra nos revela; é estender-se, por meio das várias modalidades de respostas - vamos dizer oração e práxis -, em direção de Alguém, que habita na Palavra e, contudo, é também algo a mais e nos atrai. Vigiar torna-se olhar atentamente com todo o seu ser e com toda a sua alma para Deus, na prece solitária, na oração dos salmos, assim como na fraternidade dos bens e dos corações, no trabalhar e no calar-se, no jejuar e no servir, no discernir e no observar. Tudo isto se resume e se completa na celebração da Páscoa de cada dia, que é síntese das intenções e da fecundidade histórica da Palavra, fermento de unidade e Boa Nova das futuras realidades.
              Na Comunidade Primitiva o rezar dos que acreditaram, um elemento fundamental e freqüentemente trazido à lembrança (At 1, 14-24; 2,42; 4,24-30; 6,6; 8,15; 9,40; 10,2; 13,3; 21,5 e mais), nasce da escuta da Palavra em comum, está unido à celebração do culto e é consolidado e coroado na vida, ao se tornarem "um só coração e uma só alma" (At 4,32). Assim deve ser o "rezar" dos Carmelitas: deve ser experiência de Igreja, um completar e animar com a oração uma edificação (Ef 4,16; Cl 2,19), uma oikodomé de koinonia entre irmãos, um viver a expectativa do povo de "ver" o seu Deus, de encontrar o seu rosto, de senti-lo "no meio" como o seu Guia e o "seu Senhor".
              Quando se fala dos Carmelitas como de "chamados para a oração", dever-se-ia fazer o possível para não se identificar o chamado com um chamado para uma experiência individualista, para uma seqüência de gestos religiosos a circular em redor da própria pessoa, acorrentados em espaços e tempos rígidos. Não é nem mesmo uma espécie de ascensão para o divino por estradas solitárias e únicas. Isto conduziria a formas de narcisismo espiritual e a uma oração próxima do psicologismo introspectivo. Preferiria que se falasse de um chamado a fazer viver a Igreja, a fazê-la vibrar como Corpo de Cristo.
              Orar para o Carmelita, segundo a Regra, não é tanto dedicar-se a fazer alguma coisa, a pensar de uma determinada maneira, por um certo tempo; isto também faz parte do orar, mas são elementos variáveis e secundários, segundo culturas e segundo pessoas. Rezar deve tornar-se um fazer própria a forma Ecclesiæ, isto é, deve levar a deixar-se convocar e amar, julgar e salvar pelo Senhor da Comunidade. Diante da ação e da presença d'Ele se reage com a palavra e com a vida, com os gestos e com a solidão, com a luta e com a deliberação, com o louvor e com a súplica, com o silêncio e com a memória, com a invocação e com a espera e com a vigilância. Daí deriva que o itinerário do Carmelita rumo à maturidade, através da oração, é autêntico, quando sabe respeitar os princípios da eclesialidade e se conforma com as exigências de uma autêntica experiência eclesial.
              Até a vida ascética e penitente, tão exaltada pela tradição do Carmelo, deve ser vivida, não como ascetismo individualista, mas como caminho eclesial: fidelidade trabalhosa, coerência sofrida para vivere pie in Christo (cf. 2Tm 3,12), num contexto de Igreja que conhece a fragilidade humana, que lhe obscurece o rosto, mas procura só no Senhor (c.14) a sua libertação e o seu esplendor (cf. LG 48).
              Para que se possa ser capaz de vigilare in orationibus, (c.7), como Ecclesia orans, é preciso ser ao mesmo tempo Igreja da reconciliação e do serviço, Igreja discípula e testemunha da Palavra, Igreja do Pão-Partido e repleta da consolação do Espírito: somente assim a oração será autêntica.
              Aquele lugar a se construir no meio das celas, que na Regra está arquitetonicamente no centro do espaço e do próprio texto (c.10), tem um poder de evocação de valores e razões de vida que supera qualquer outro elemento e os atrai todos para junto de si como ao seu ápice e medida. Dá realmente ao todo uma polarização nesta direção, isto é, rumo ao que aí se celebra e se exprime, num quotidiano "vir-juntos" (con-venire) carregado de emoções e de intencionalidades simbólicas. E este con-venire reclama um "arredar-se" longe da separação e do perigo da autarquia numa "cela isolada e pessoal" (c.3), para caminhar "ao encontro" dos irmãos até o lugar onde o "Senhor mora com o seu Mistério", chama para a escuta (ad audienda - c.10) e fermenta a comunhão rumo a uma total unidade.

              Podemos recorrer a uma idéia que encontramos no texto de espiritualidade carmelitana mais antigo, que conheçamos, a Ignea Sagitta de Nicolau, o Francês (1270). Referindo-se ao trecho da 1ª Carta de Pedro em 1Pd 2,4-5, ele informa que somos chamados a ser como pedras vivas lavradas pela graça, para construção do gloriosum ædificium cælestis civitatis Jerusalem. E, aplicando a idéia ao projeto carmelita, podemos dizer que o nosso itinerarium cordis, que com Teresa podemos chamar de Caminho da Perfeição ou com João da Cruz, de Subida do Monte Carmelo, só alcançará a sua autenticidade quando "a adesão a Cristo, Pedra Viva" (o obsequium do prólogo) e o "crescimento do gérmen da Palavra de Deus" (o die ac nocte in lege Domini meditantes do c.7 e o Verbum Dei abundanter habitet in ore et in cordibus do c.14) nos transformarem "como pedras vivas para a construção em casa do Senhor" (cf. 1Pd 1,23; 2,4-5).

FREI PETRÔNIO: Pensamento do Dia. (Sábado, 29).