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terça-feira, 21 de julho de 2015

A EVANGELIZAÇÃO DO BRASIL COLONIAL[1]

(Primeira época)
   
            Oficialmente os primeiros portugueses chegaram no Brasil em 22 de abril de 1500 com a frota naval comandada por Pedro Álvares Cabral, que seguia para a Índia. O primeiro nome dado à terra encontrada foi: Ilha de Vera Cruz. Como viram que era muito maior do que uma ilha, rebatizaram com o nome de Terra de Santa Cruz. Só posteriormente passou a se chamar Brasil.
            Para a colonização, D. João III decidiu aplicar no Brasil o sistema de capitanias hereditárias, que era então a melhor forma de colonizar sem gastar e assegurar o território recém encontrado. Este sistema, se foi um sucesso na ilhas dos Açores e Cabo Verde, foi em geral um fracasso no Brasil. Por isso foi tomada a decisão de se criar um governo-geral com poderes centralizados em 1548. No ano seguinte chegou o primeiro governador, Tomé de Sousa, fundou a cidade de Salvador da Bahia e ali instalou a primeira capital brasileira em 1549.

            Devido ao Padroado, a Igreja no Brasil não tinha independência e autonomia durante o período colonial[2]. Após a independência (1822) o Padroado continuou em vigor até a proclamação da República (1889), quando se estabeleceu a separação definitiva entre Igreja e Estado no Brasil.
            Na prática o chefe da Igreja no Brasil não era o Papa e sim o rei de Portugal. Por isso “a implantação da Igreja no Brasil foi feita numa dependência direta da Coroa lusitana”[3]. Esta administrava a Igreja através da chamada “Mesa de Consciência e Ordens”[4].

            A primeira missa no Brasil foi celebrada em 26 de abril de 1500 pelo franciscano frei Henrique de Coimbra, mas efetivamente a catequese e a evangelização dos índios na Terra de Santa Cruz começou com a chegada de 6 jesuítas chefiados pelo Pe. Manuel da Nóbrega em 1549. Antes havia alguns padres e religiosos espalhados pelas povoações dando assistência aos colonos.
            Os jesuítas foram os mais dinâmicos e entusiasmados missionários do Brasil colonial. “No início, seu apostolado não divergia do que fizeram anteriormente outros padres e frades, isto é, batizavam crianças em perigo de morte e mesmo alguns adultos nas mesmas condições. Aos poucos prepararam, por meio de intérpretes, alguns adultos para o batismo. Usavam o mesmo sistema seguido pelos missionários do tempo, que consistia numa breve catequização, em que eram expostas as verdades fundamentais da fé: um Deus Criador e Senhor de todas as coisas, a queda do homem, a redenção por Jesus Cristo, a instituição da Igreja com os Sacramentos da salvação da nova aliança, a vida dos filhos de Deus, finalmente o Juízo universal, com o castigo dos maus e recompensa dos bons”[5].

            Os jesuítas logo se empenharam na evangelização dos índios utilizando todos os meios possíveis. “Começaram por aprender a língua do gentio, e em poucos meses já a falavam tão bem como o português. O padre Navarro principalmente pregava com tal desembaraço que aos próprios índios fazia maravilhas.
            E desde os primeiros tempos, no entusiasmo da sua temeridade, metendo-se pela aldeias, acariciando as crianças, fazendo brindes às mulheres, agradando aos velhos, socorrendo os enfermos, mostrando-se com todos invariavelmente afetuosos e leais, de modo a desmentir a fama de refalsados que os colonos tinham feito”[6]. O jesuíta Leonardo do Vale, grande conhecedor da língua tupi, escreveu o primeiro Vocabulário na Língua Tupi e depois Doutrina Cristã na Língua do Brasil.
            Em 1553 os jesuítas começaram com os aldeamentos dos índios em torno de um colégio. Foi assim que fundaram a cidade de São Paulo em 1554.
            O Pe. Luís da Grã, “como provincial promoveu os estudos da língua brasílica nos colégios, a catequese e os aldeamentos no Recôncavo baiano e em Piratininga (São Paulo)”[7]. “Aos poucos a estrutura colégio-aldeamento foi perdendo seu dinamismo e o colégio começou a atuar junto aos filhos dos moradores nas vilas e cidades, abandonando seu caráter missionário”[8].

            A catequese dos índios teve um lugar de destaque para os jesuítas. Foram muito criativos neste campo. Utilizaram cantos, teatro, escreveram catecismos adaptados à realidade e na língua dos indígenas. “Reproduziam os gestos e a música dos índios; e para industriar e animar os meninos, tocavam e até alguma vez dançavam com eles”[9].
            Não se esqueceram dos africanos. Por isso enviaram aos portos brasileiros jesuítas nascidos em Angola, portanto conhecedores da língua angola, para aí catequizarem os escravos que chegavam da África. O principal catequista de africanos foi o Pe. Pedro Dias. Ele aprendeu bem a língua angola e escreveu a obra Arte da Língua de Angola Oferecida à Virgem Senhora Nossa do Rosário, Mãe e Senhora dos Mesmos Pretos. É chamado de o “São Pedro Cláver do Brasil”.

            Foi entre os jesuítas que surgiram as primeiras vozes proféticas em defesa dos escravos. Os padres Miguel Garcia e Gonçalo Leite, professores do Colégio da Bahia, sustentaram a opinião de que nenhum escravo da África ou Brasil era justamente cativo. Recusavam-se a atender a confissão das pessoas que possuiam escravos, incluindo os próprios padres jesuítas do Colégio[10]. Os dois foram taxados de “inquietos” e mandados de volta para a Europa.

OUTROS RELIGIOSOS

CARMELITAS[11]. Chegaram no Brasil em 1580, fixando-se em Olinda. Depois fundaram conventos em: Salvador da Bahia (1586), Santos (1588), Rio de Janeiro (1590), São Paulo (1594), Paraíba (1606), São Cristóvão (1607), Angra dos Reis (1608), São Luís (1615), Belém do Pará (1624), Mogi das Cruzes (1629), Gurupá (1639), Alcântara (1647), Recife (1654), Goiana (1666), Rio Real (1680), Vitória (1680), Cabo de Santo Agostinho (1687), Cachoeira (1688). Em 1606 havia 99 carmelitas no Brasil; em 1635, perto de 200; em 1675, 246; e 466 em 1715.
            Inicialmente dedicaram-se ao trabalho com o povo das cidades. Só em 1694 foram encarregados de missionar os índios da Amazônia, mais precisamente nos rios Negro e Solimões. Naquelas regiões foram não só anunciadores do evangelho mas também defensores das fronteiras portuguesas, como demonstram os incidentes com o jesuíta Padre Samuel Fritz[12].

BENEDITINOS[13]. Chegaram em Salvador da Bahia em 1581. Depois fundaram  mosteiros no Rio de Janeiro (1585), Olinda (1590), Paraíba (1596) e São Paulo (1598). Por ser uma Ordem monástica, pouco fizeram em relação à evangelização dos índios.

FRANCISCANOS[14]. Estabeleceram-se definitivamente no Brasil em 1585. Antes disso alguns franciscanos trabalharam em terras brasileiras, mas individualmente e sem fazer uma verdadeira fundação. A primeira fundação de Olinda foi seguida pelas de: Salvador da Bahia (1587), Paraíba (1589) e Vila Velha (1591). Muito trabalharam na evangelização dos indígenas.

CARMELITAS DESCALÇOS. Chegaram no Brasil em 1615 e fixaram-se na Bahia e depois fundaram outro convento em Olinda. Tiveram algumas missões no rio São Francisco.

MERCEDÁRIOS. “Estabelecidos no Pará em 1640 e no Maranhão em 1664, pouco se deram à catequização dos índios. Fizeram algumas entradas entre os índios da Amazônia”[15].

CAPUCHINHOS FRANCESES. Chegaram no Brasil, pode-se dizer por acaso, porque em 1642 dirigiam-se para as missões de Guiné, mas foram aprisionados pelos holandeses e levados para Pernambuco. Após a expulsão dos holandeses[16], foram autorizados a permanecerem no país. “Foram os primeiros missionários no Brasil dependentes da S.C. de Propaganda Fide, chamados, por isso, missionários apostólicos”[17]. Além das missões populares entre os colonos, dedicaram-se com entusiasmo à evangelização dos indígenas, sobretudo no rio São Francisco.
            Em 1700 foram expulsos do Brasil por problemas políticos entre Portugal e França.

RELIGIOSAS. “Cedo tentou-se a fundação de mosteiros femininos no Brasil, mas houve resistência da Corte. Já nos inícios do século a Câmara do Salvador enviou uma petição ao Rei, para que autorizasse a fundação de mosteiros femininos na Bahia e Pernambuco. Examinado o pedido na Mesa de Consciência e Ordens, a 22/9/1603 foi indeferida a dita petição, alegando falta de mulheres suficientes no Brasil, sendo necessário mandar donzelas do Reino para aqui casarem e povoarem a terra. É sugerido que se providenciem Recolhimentos para donzelas órfãs e outras, a fim de prepará-las para o matrimônio. Nova tentativa da Câmara da Bahia em 1633, encontrou parecida resposta”[18]. Somente em 1669 foi autorizada a fundação de um mosteiro de franciscanas clarissas na Bahia.

            ESTRUTURA ECLESIÁSTICA

            A primeira diocese do Brasil foi a de São Salvador da Bahia, criada em 25 de fevereiro de 1551 pela bula Super specula militantis Ecclesiae de Júlio III[19]. Dom Pedro (ou Pero) Fernandes Sardinha foi o primeiro bispo.
            Novas dioceses só foram criadas 125 anos depois, ou seja, em 1676 quando o Papa Inocêncio XI criou as dioceses de Olinda e do Rio de Janeiro. No ano seguinte foi criada a diocese do Maranhão.
            Até a independência (1822) só foram criadas mais 3 dioceses: Belém do Pará (1719), Mariana e São Paulo (1745).




[1] R. AZZI, A Cristandade Colonial: um projeto autoritário, Paulinas, São Paulo 1987; CEHILA, História da Igreja no Brasil, tomo II/1, Paulinas-Vozes, São Paulo-Petrópolis 41992; A.L. FARINHA, A expansão da Fé na África e no Brasil, vol. I, Lisboa 1942; E. HOORNAERT, A Igreja no Brasil, in E. DUSSEL (org.), Historia liberationis: 500 anos de História da Igreja na América Latina, Ed. Paulinas, São Paulo 1992, pp. 297-317; ID., A Igreja no Brasil-Colônia [1550-1800], Brasiliense, São Paulo1982; S. LEITE, História da Companhia de Jesus no Brasil, 10 volumes, Livraria Portugalia e Civilização Brasileira, Lisboa-Rio de Janeiro 1938-1950; ID., Monumenta Brasiliae, Roma 1956; J. MARIA, O Catolicismo no Brasil, AGIR, Rio de Janeiro 1950; H. PIRES, Temas de História Eclesiástica do Brasil, São Paulo 1946; F. ROCHA POMBO, História do Brasil,  Melhoramentos, São Paulo 81958; A. RUBERT, A Igreja no Brasil, em 4 volumes, Ed. Pallotti, Santa Maria 1981-1993; P. F. da SILVEIRA CAMARGO, História Eclesiástica do Brasil, Vozes, Petrópolis 1955.
[2] Devido ao Padroado os soberanos de Portugal e Espanha tinham “plena autoridade sobre a Igreja no território das missões. Os direitos do Estado podem ser resumidos nestes pontos: 1) Nomeação para todos os benefícios. 2) Admissão ou exclusão de missionários confiada ao arbítrio soberano, e com a condição, de qualquer modo, de que eles partissem sobretudo de Lisboa, de Sevilha e de Cádiz. Os missionários, portanto, não podiam partir sem a autorização régia; ora, os portugueses não viam com muito boa vontade a afluência de missionários estrangeiros, tolerados mais facilmente pelos espanhóis (na América Latina, no séc. XVIII, os missionários jesuítas eram 75 por cento alemães). 3) Controle sobre todos os negócios eclesiásticos, com exclusão de qualquer outra autoridade: os missionários podiam se dirigir a Roma somente por meio do governo, e a congregação de Propaganda jamais teve autoridade alguma nas colônias portuguesas e espanholas. A esses direitos correspondiam, evidentemente, deveres, ou seja: 1) Escolha e envio dos missionários. ... 2) Prover a todas as despesas do culto, ao sustento e às viagens dos missionários, do bispo ao último sacristão; cuidar da ereção, da manutenção e da restauração dos edifícios de culto” (G. MARTINA, História da Igreja de Lutero aos nossos dias, vol. 1, São Paulo 1996, 310) Sobre o Padroado: R. AZZI, A instituição eclesiástica durante a primeira época colonial, in CEHILA, História da Igreja no Brasil, tomo II/1, 160-169; J. DORNAS FILHO, O Padroado e a Igreja no Brasil, São Paulo 1938; C. MENDES DE ALMEIDA, Direito do Padroado no Brasil, Rio de Janeiro 1858.
[3] R. AZZI, A Cristandade Colonial: um projeto autoritário, São Paulo 1987, 24.
[4] A Mesa da Consciência e Ordens foi a instituição portuguesa dos assuntos religiosos. Era uma espécie de ministério do culto. Começou a funcionar em 1532. Tinha um tribunal próprio e dava parecer ao rei sobre resgates de cativos, paróquias, capelas, hospitais, ordens religiosas, cargos eclesiásticos, universidades, etc. As questões coloniais eram da competência do Conselho Ultramarino.
[5] A. RUBERT A Igreja no Brasil, vol. I, Santa Maria 1983, 154.
[6] F. ROCHA POMBO, História do Brasil,  São Paulo 1958, 81.
[7] E. HOORNAERT, A Evangelização do Brasil durante a primeira época colonial, in CEHILA, História da Igreja no Brasil, tomo II/1, 51.
[8] E. HOORNAERT, A Evangelização do Brasil durante a primeira época colonial, in CEHILA, História da Igreja no Brasil, tomo II/1, 51.
[9] S. LEITE, História da Companhia, vol. II, 102.
[10] Em 1583 o P. Miguel escrevia ao seu superior geral Pe. Aquaviva: A multidão dos escravos, que tem a Companhia nesta Província, particularmente neste Colégio [da Baía], é coisa que de maneira nenhuma posso tragar, maxime, por não poder entrar no meu entendimento serem licitamente havidos. ... E dos da terra, entre certos e duvidosos, é tão grande o número, que a mim me enfada; e com estas coisas e com ver os perigos da consciência in multis, nesta terra, alguma vez me passou por pensamento que seguramente serviria a Deus e me salvaria in saeculo que em Província, onde vejo as coisas que vejo (Citado por S. LEITE, História da Companhia, vol. II, 227-228).
[11] Sobre as missões carmelitas no Brasil, ver: A. PRAT, Notas históricas sobre as missões carmelitas no extremo norte do Brasil (séculos XVII-XVIII), 2 vol., Recife 1941-1942; M. WERMERS, O Estabelecimento das Missões Carmelitas no Rio Negro e no Solimões (1695-1711), in Actas do V Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, vol. II, Coimbra 1965, E. HOORNAERT, As missões carmelitanas na Amazônia, in E. HOORNAERT (org.), Das reduções latino-americanas às lutas indígenas atuais, São Paulo 1982, 161-174; J.R.F. de CARVALHO, Presença e permanência da Ordem do Carmo no Solimões e no Rio Negro no século XVIII, in E. HOORNAERT (org.), Das reduções latino-americanas às lutas indígenas atuais, São Paulo 1982, 175-190.
[12] Cf. M. WERMERS, O Estabelecimento das Missões Carmelitas no Rio Negro e no Solimões (1695-1711), in Actas do V Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, vol. II, Coimbra 1965.
[13] Sobre os beneditinos: J.G. LUNA, Os monges beneditinos no Brasil, Rio de Janeiro 1947.
[14] Sobre os franciscanos: V. WILLEKE, Missões Franciscanas no Brasil (1500-1975), Petrópolis 1974; B. RÖWER, Páginas de história fanciscana no Brasil, Petrópolis 21957; ID., A Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, Petrópolis 1922.
[15] A. RUBERT A Igreja no Brasil, vol. II, Santa Maria 1983, 141.
[16] Os holandeses fizeram algumas tentativas de se estabelecerem no Brasil. A primeira foi em 1624 na Bahia. Só durou um ano. A segunda e a mais importante foi a realizada em Pernambuco em1630. Foram expulsos em 1654. É deste período (1645) o gupo de mártires brasileiros beatificados por João Paulo II em 5/3/2000. O martírio foi provocado pelos calvinistas holandeses.
[17] A. RUBERT A Igreja no Brasil, vol. II, Santa Maria 1983, 269.
[18] A. RUBERT A Igreja no Brasil, vol. II, Santa Maria 1983, 272.
[19] America Pontificia primi saeculi evangelizationis  (1493-1592), Città del Vaticano 1991, 635.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

AO VIVO- MISSA DE SANTO ELIAS (ÀS 18H: 3º MIN)

LITURGIA DA MISSA DE SANTO ELIAS, PROFETA.

SANTO ELIAS, Profeta

20 de julho

O profeta Elias aparece nas Sagradas Escrituras como o homem de Deus que caminha na presença do Senhor, e que, abrasado de zelo, luta pela defesa do culto do único Deus verdadeiro. Defendeu os direitos de Deus num desafio público, realizado no monte Carmelo entre ele e os sacerdotes de Baal. Entregou-se à íntima experiência do Deus vivo no monte Horeb. Nele se inspiraram os primeiros eremitas que, por volta do séc. XII, iniciaram no Monte Carmelo um novo estilo de vida que originou a Ordem dos Irmãos da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo. Por este motivo, o profeta Elias é considerado o Fundador ideal da Ordem.

ANTÍFONA DE ENTRADA 1Rs 17, 1
O profeta Elias disse: «Vive o Senhor, Deus de Israel, a quem eu sirvo».

Diz-se o Glória.

ORAÇÃO COLETA

Deus eterno e onipotente,
que concedestes ao bem-aventurado Elias,
vosso profeta e nosso pai,
a graça de viver na vossa presença
e de se inflamar de zelo pela vossa glória,
fazei que, procurando sempre a vossa presença,
nos tornemos testemunhas do vosso amor.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

1ª LEITURA: 1Rs 19,1-9.11-14

Leitura do primeiro livros dos Reis.
Acab contou a Jezabel tudo que Elias tinha feito e como tinha passado ao fio da espada todos os profetas de Baal. Então Jezabel mandou um mensageiro a Elias para lhe dizer: “Os deuses me cumulem de castigos, se amanhã, a esta hora, eu não tiver feito contigo o mesmo que fizeste com a vida desses profetas”. Elias ficou com medo e, para salvar sua vida, partiu. Chegou a Bersabéia de Judá e ali deixou o seu servo. Depois, adentrou o deserto e caminhou o dia todo. Sentou-se, finalmente, debaixo de um junípero e pediu para si a morte, dizendo: “Agora basta, Senhor! Tira a minha vida, pois não sou melhor que meus pais”. E, deitando-se no chão, adormeceu à sombra do junípero. De repente, um anjo tocou-o e disse: “Levanta-te e come!” Ele abriu os olhos e viu junto à sua cabeça um pão assado na pedra e um jarro de água. Comeu, bebeu e tornou a dormir. Mas o anjo do SENHOR veio pela segunda vez, tocou-o e disse: “Levanta-te e come! Ainda tens um caminho longo a percorrer”. Elias levantou-se, comeu e bebeu, e, com a força desse alimento, andou quarenta dias e quarenta noites, até chegar ao Horeb, o monte de Deus. Chegando ali, entrou numa gruta, onde passou a noite. Então a palavra do SENHOR veio a ele, dizendo: “Que fazes aqui, Elias?” Ele respondeu: “Estou ardendo de zelo pelo SENHOR, Deus dos exércitos, porque os israelitas abandonaram tua aliança, demoliram teus altares, mataram à espada teus profetas. Só eu escapei; mas agora querem matar-me também”. O SENHOR disse-lhe: “Sai e permanece sobre o monte diante do SENHOR”. Então o SENHOR passou. Antes do SENHOR, porém, veio um vento impetuoso e forte, que desfazia as montanhas e quebrava os rochedos, mas o SENHOR não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o SENHOR não estava no terremoto. Passado o terremoto, veio um fogo, mas o SENHOR não estava no fogo. E depois do fogo ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Ouvindo isto, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta. Ouviu, então, uma voz que dizia: “Que fazes aqui, Elias?”  Ele respondeu: “Estou ardendo de zelo pelo SENHOR, Deus dos exércitos, porque os israelitas abandonaram tua aliança, demoliram teus altares e mataram à espada teus profetas. Só eu escapei. Mas, agora, querem matar-me também”. – Palavra do Senhor.

SALMO DE MEDITAÇÃO

Refrão: Diante dos meus olhos tenho presente o Senhor.

Protege-me, ó Deus: em ti me refugio.
Eu digo ao SENHOR: “És tu o meu Senhor,
fora de ti não tenho bem algum”.

Refrão: Diante dos meus olhos tenho presente o Senhor.

O SENHOR é a minha parte da herança e meu cálice.
Nas tuas mãos, a minha porção.
Para mim a sorte caiu em lugares deliciosos,
maravilhosa é minha herança.

Refrão: Diante dos meus olhos tenho presente o Senhor.

Sempre coloco à minha frente o SENHOR,
ele está à minha direita, não vacilo.
Disso se alegra meu coração, exulta a minha alma;
também meu corpo repousa seguro,

Refrão: Diante dos meus olhos tenho presente o Senhor.

pois não vais abandonar minha vida no sepulcro,
nem vais deixar que teu santo experimente a corrupção,
O caminho da vida me indicarás,
alegria plena à tua direita, para sempre.

Refrão: Diante dos meus olhos tenho presente o Senhor.


2ª LEITURA: 1Pd 1,8-12

Leitura da primeira carta de São Pedro.
Sem terdes visto o Senhor, vós o amais. Sem que agora o estejais vendo, credes nele. Isto será para vós fonte de alegria inefável e gloriosa, pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação.  Esta salvação tem sido objeto das investigações e meditações dos profetas. Eles profetizaram a respeito da graça que estava destinada para vós. Procuraram saber a que época e a que circunstâncias se referia o Espírito de Cristo, que estava neles, ao anunciar com antecedência os sofrimentos de Cristo e a glória que viria depois.  Foi-lhes revelado que não para si mesmos, mas para vós é que estavam ministrando esses ensinamentos, que agora são anunciados a vós. Agora vo-los anunciam aqueles que vos pregam a Boa Nova em virtude do Espírito Santo, enviado do céu; são revelações que até os anjos desejam contemplar! – Palavra do Senhor.

EVANGELHO: Lc 9,28B-36

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas.
Naquele tempo, Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para orar. Enquanto orava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou branca e brilhante. Dois homens conversavam com ele: eram Moisés e Elias. Apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a saída deste mundo que Jesus iria consumar em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Quando acordaram, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele. E enquanto esses homens iam se afastando, Pedro disse a Jesus: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Nem sabia o que estava dizendo. Estava ainda falando, quando desceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. Ao entrarem na nuvem, os discípulos ficaram cheios de temor. E da nuvem saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Eleito. Escutai-o!” Enquanto a voz ressoava, Jesus ficou sozinho. Os discípulos ficaram calados e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto. – Palavra da Salvação.

Onde se celebra como Solenidade, diz-se o Credo.

ORAÇÃO SOBRE AS OFERENDAS
Aceitai, Senhor, os dons da vossa Igreja,
e, assim como aceitastes o sacrifício do profeta Elias,
dignai-Vos, de igual modo,
receber as nossas ofertas de pão e vinho.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

PREFÁCIO- O profeta Elias, amigo de Deus e apóstolo

V. O Senhor esteja convosco.
R. Ele está no meio de nós.
V. Corações ao alto.
R. O nosso coração está em Deus.
V. Demos graças ao Senhor nosso Deus.
R. É nosso dever, é nossa salvação.
Senhor, Pai Santo, Deus eterno e onipotente
é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação
dar-Vos graças, sempre e em toda a parte,
por Cristo nosso Senhor.
Vós suscitastes profetas para que proclamassem
que sois o Deus vivo e verdadeiro
e conduzissem o vosso povo na esperança da salvação.
Entre eles honrastes com a vossa divina amizade o profeta Elias,
para que, devorado pelo zelo da vossa glória,
manifestasse a vossa onipotência e a vossa misericórdia.
Ele caminhou sempre na vossa presença
e por isso o quisestes junto a Cristo no Tabor,
como testemunha da Transfiguração,
para se alegrar com a presença gloriosa do vosso Filho.
Por isso, com os Anjos e os Santos,
proclamamos a vossa glória,
cantando numa só voz: Santo, Santo, Santo.

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Cfr 1Rs 19, 8
Elias comeu e bebeu,
e, fortalecido com o alimento,
caminhou até ao monte de Deus.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO

Fortalecidos com a comida e a bebida angélica
da mesa do vosso Filho,
concedei-nos, Senhor,
que, procurando-Vos sempre por meio da fé,
alcancemos a contemplação da vossa presença
no monte santo da glória.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

BÊNÇÃO SOLENE

- Deus, nosso Pai, que hoje nos reuniu
para celebrar a festa de Santo Elias,
vos abençoe e proteja e vos confirme na sua paz.
R. Amém
- Cristo Nosso Senhor,
que manifestou de modo admirável em Santo Elias
a força e a imagem do mistério pascal,
faça de vós testemunhas fiéis do seu Evangelho.
R. Amém.
- O Espírito Santo,
que em Santo Elias nos deu um sinal da caridade divina,
vos torne capazes
de formar uma verdadeira comunidade de fé e amor.
R. Amém.
- Abençoe-vos Deus todo-poderoso,
Pai, Filho   e Espírito Santo.
R. Amém.


IMAGEM PEREGRINA DE ELIAS: Frei Herrysson, O. Carm.

TRÍDUO DE SANTO ELIAS: Homilia do Frei Petrônio.

JESUS SEGUNDO LUCAS E SEGUNDO O PROFETA ELIAS-01.

Frei Pedro Caxito, O. Carm. In memoriam. *São Romão-MG. 31/12/1926 + São Paulo. 02/09/ 2009.

APRESENTAÇÃO
            "Para São Lucas Jesus é o Novo Elias como para São Mateus é, principalmente, o Novo Moisés". Assim escrevia o Pe. Eugênio Driessen nos Analecta Ord. Carm. v.XII  1943  167-190. Senti alegria quando, há muitíssimos anos atrás, chegou isto ao meu conhecimento e, daí em diante, procurei prestar mais atenção ao que encontrasse a respeito, porque os peritos, que eu consultava naquele tempo, diziam-me que não estavam sabendo disto. Procurei, portanto, ao ler São Lucas, anotar os versículos, que parecessem relacionar-se com a figura de Elias.
            Em 1982, as Edições Paulinas publicaram em tradução Leitura do Evangelho segundo São Lucas de A.George, que me abriu ótimas pistas.
            Em 1988, durante o "Curso de Formação Permanente", em Roma, o Pe.Henrique Pidyarto, carmelita da Indonésia, deu-nos um resumo da sua tese sobre o Evangelho de São João e a figura do Profeta Elias e citou-nos vários autores, que falavam sobre Jesus, Novo Elias segundo São Lucas. Mais uma luz![1]
            Outro fato, que antes me havia falado de algo desconhecido e sempre me aferroou, foi a leitura do artigo "A força poderosa do arquétipo" do Pe.Bruno de J-M OCD em Élie le Prophète que traz cartas de C.G.Jung, que fala sobre o arquétipo[2]. Foi-me ensinado que "arquétipo é disposição estrutural da alma com tendência a cada vez mais concretizar-se novamente em símbolos e animar os seres" (Pe.Rudin SJ).
            Segundo Jung, Elias é um arquétipo "vivo" e "constelado", a quem sempre se ligam novas, múltiplas e diversificadas lendas, mitos, gestas e gestos miraculosos, paralelos a outros mitos ou figuras mitológicas, ao qual os que vêm depois sempre vão acres-centando novas tradições claramente mitológicas. Não se nega logo a existência do personagem histórico, mas por ser justamente personagem tão rico de conaturalidade, muito conforme com "as imagens primordiais" e "representações coletivas" e universais do inconsciente torna-se personagem mais do que atraente, como um ímã que, avassalando o inconsciente, puxa o consciente. E foi assim que Elias atraiu os Carmelitas, como antes atraíra israelitas, gregos, romanos, drusos e muçulmanos; em Israel a reação javista, o Sirácide, Malaquias e, no Evangelho, o nosso Lucas e João. Certos nomes, se trouxeram alguma aproximação, trouxeram também maior estímulo para o arquétipo: El, El-Elion, Eli, Eloí e o grego Hélios (o Sol Ascendente). Porque a graça supõe a natureza, o Espírito Santo esteve unido com os autores humanos; a vontade de Deus, com a vontade dos homens; esparsas pelo universo de Deus, as "sementes do Verbo", com as vagarosas descobertas dos filhos de Eva que, aqui e ali, "porém, faíscam, não raro, uma centelha daquela Verdade, que ilumina a todos os homens"[3].
            Com razão os nossos pais o chamaram de "Pai e Fundador": lá está na Basílica de São Pedro a valente estátua do Profeta, Pai virginalmente, sem nenhuma ligação de cronologia ou "jus", mas muito mais bonita: a da virtude e do coração. Sente-se pena e dó do Cardeal Barônio e dos bolandistas e da tinta, ira e papel, que os nossos antepassados gastaram.
            Apresento agora o fruto da minha colheita, sem pretender nem ter nunca pretendido oferecer um trabalho de exegeta, de que não sou capaz, mas qualquer coisa boa para animar o "seguimento e serviço de Jesus Cristo" no "espírito e fortaleza de Elias". Exegetas serão muitos dos autores que irei citando. É também uma compilação que desejo aproveitada hoje, como quis, outrora, pelos meus noviços.

INTRODUÇÃO

Elias, precursor da 1ª chegada de Jesus na pessoa de João Batista, e amostra e tipo da Páscoa do Filho de Deus
            Segundo Lucas, João Batista, forte no espírito, vai caminhar à frente do Senhor, animado pelo espírito e pela força de Elias (1,17), manifestar-se-á a Israel (1,80) e anunciará Aquele que vem batizar com o fogo e o Espírito Santo (3,16), pombinha "sem fel" que, pura e mansa, descerá sobre Jesus (3,22) e, deserto adentro, o irá conduzindo durante 40 dias (4,1) até reconduzi-lo vigorosamente de volta para a Galiléia (4,14), a fim de ungir reis, sacerdotes e profetas a todos os que forem batizados no seu Nome.

Preferência de Lucas pelos nomes de profetas
            Na genealogia do Senhor Jesus Lucas cita os nomes de Eli [equivalente a Elias] (3,23), Amós e Naum (3,25), Jesus (3,29) e Natã (3,31). Jesus é um grande profeta surgido no meio de nós (7,16.39), poderoso em obras e palavras (24,19.25.27), muito maior do que Jonas (11,29-30.32). Cf. ainda 4,24; 9,8; 10,24; 13,33-34; 16,16; 22,64.

Jesus Cristo é o Novo Elias
            João Batista virá no poder e no espírito de Elias (1,17), mas Jesus Cristo é o Novo Elias, maior do que o primeiro e do que o segundo. Conforme Malaquias há dois personagens: "o meu mal'aki (mensageiro)" e o "Anjo da Aliança, o Senhor". O primeiro per-sonagem está a serviço do segundo. Se João é o mensageiro, que prepara os caminhos, Jesus é o Anjo (o Mensageiro) da Aliança, o Novo Elias, que vem antes do dia terrível de Javé (cf.Eclo [Sr] 48,10), aquele que os céus receberam, até que se complete o tempo da restauração de todo o universo (At 3,21) ; se João anuncia a Boa Nova (3,18), Jesus anuncia o seu Evangelho da Libertação Universal (4,18; 8,1) .
            Para Mateus e para Marcos (que cita Elias primeiro) o Novo Elias é João segundo disse Jesus logo após a Transfiguração, mas porque para Lucas o novo Elias é Jesus mesmo, de quem Elias é figura e tipo, Lucas não contará aquela pergunta dos Apóstolos sobre Elias logo após a Transfiguração do Senhor

Jesus demitiza
            A Lei, o Sábado, a Circuncisão, a Realeza, o Sacerdócio Levítico, a Letra, os Pobres, cada um é colocado no seu lugar pelo Senhor Jesus e pelo Novo Testamento: são demitizados, assim como o nosso Pai Elias, que já veio, João é Elias , aliás é maior do que ele (7,26.28). Outros virão "no espírito e na força de Elias". Apesar de ser Elias, como João, isto é, um profeta que sofre e é perseguido, mas glorificado com Moisés na excelsa Montanha da Transfiguração (9,29-31) , não se deve fazer tudo tal como fez Elias e convocar o fogo do céu (9,55) : outro é o fogo, que o Filho do Homem veio meter na Terra (12,49-50). Andam dizendo que Jesus é Elias (9,8; 9,19), mas só o Pai sabe quem é o Filho e também aquele a quem o Pai contar (10,22), como a Pedro, na região de Cesaréia de Filipe .
            São Paulo entendeu que o Nosso Pai não fez muito bonito no Horeb , acusando o Povo de Deus, pois afinal o "nosso pai" era igual a nós, bem gente como a gente . Nem por isso deixa Elias de ser muito grande para Lucas, graças à sua relação com o Cristo de Deus, que morreu e ressuscitou, como o tipo do Profeta dos Profetas ; no Apocalipse João ainda vê Pedro e Paulo na força e nos gestos de Elias e Moisés.



    [1]Ver Apêndice
    [2]Em Les Études Carmélitaines  v.II  1956  p.11-33
    [3].  Nostra Aetate 2; Evangelii Nuntiandi 53, n 74, que cita Justino Mártir 2 Apol 7(8), 1-4 sobre as "sementes do Verbo": pelo Universo anda espalhada "uma parcela da Palavra Semeadora" (spermaticû lógu méros).

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A PALAVRA... Nº 936. A Novena acabou, e agora?

SENHORA DO CARMO: Canto.

Maria na espiritualidade do nosso tempo

*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm, In Memoriam.
(Congresso Mariano Mariológico – Recife/PE. 11/07/2001)

A espiritualidade nasce de uma expectativa do ser humano  diante do mistério. Criado à imagem de Deus, ele já traz em si algo que é maior do que seu coração. Expectativa freqüentemente anônima, mas presente no tecido da nossa história. Só o mistério maior pode responder a esta nossa  expectativa. Deus cruzou o limiar da sua transcendência mediante seu Filho único que atravessou a extensão do universo para colocar-se nos caminhos do homem. Concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da virgem Maria. Em Maria Deus assumiu a humanidade para que nós pudéssemos ter acesso à divindade, fazendo em sentido inverso o caminho que o conduziu até nós.   A relação do ser humano com Deus, passa pela realidade pessoal do Filho encarnado. É por Cristo, com Cristo, em Cristo que se estabelece a nossa relação  com o próprio mistério da Trindade. Não é uma  relação simplesmente acrescentada à nossa realidade humana. Ela transforma o ser do homem por dentro: “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos!”(1Jo 3, 1). Maria foi a primeira criatura atingida por esse plano de Deus. Nela a Palavra de Deus manifestou toda a sua fecunda eficácia. Maria tinha razão para dizer: “Daqui para a frente me felicitarão todas as gerações”. O presente Congresso nos coloca no meio dessas gerações.
            Não teria muito sentido alegrar-se com Maria se essa alegria não brotasse de dentro de nós mesmos, ou seja da nossa própria espiritualidade. Sem uma consciência de fé, pelo menos incoativa, no mistério do amor de Deus, nem teríamos razões para chamar Maria de bendita. Pois é a partir dessa consciência que se define para nós o lugar e o papel que ela tem na espiritualidade contemporânea..
            O que é feito da nossa espiritualidade hoje? Eu faria uma distinção entre religião, religiosidade e espiritualidade. Religião e espiritualidade não são palavras sinônimas, não dizem a mesma coisa, embora entre as duas existe - pelo menos deveria existir - uma íntima conexão. Desligada da religião surge facilmente um misticismo esotérico. Mas nem sempre uma religião é espiritual e mística. A religião dos antigos romanos se reduzia a um legalismo, às vezes, até piedoso cujo objetivo era também a manutenção  da estrutura política do império. Jesus tinha suas razões para dizer: “Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21).
            Espiritualidade é um movimento interior, constantemente renovado, a partir de Deus. A primazia de Deus e da sua iniciativa é sempre “anterior” à  nossa história, à nossa cultura, e às dialéticas que nela se manifestam. E não basta que interiormente eu esteja convicto de tudo isso. Devo também tentar traduzir na vida as razões que tenho para reconhecer e testemunhar, sempre de novo, essa primazia de Deus. Isto supõe uma sede de Deus e uma coerência com essa sede. Mostra também que o decisivo na pessoa humana é o “coração”,  a interioridade, o espírito.  Afinal, é deste centro que partem as livres decisões, as definições dos horizontes  que dão sentido à história. O destinatário da palavra de Deus que ilumina e salva, é o coração onde está em jogo todo o nosso humano existir. O que faz compreender a importância do silêncio. Silêncio que não é um simples ficar calado, mas uma atenção vigilante inerente à nossa relação com Deus.  É o que chamamos a dimensão contemplativa da vida. Não é raro encontrar esses contemplativos no meio do povo, nas nossas comunidades. Não são  pessoas que não tenham as suas perplexidades,  as inquietações da noite da fé. Sendo Deus a última medida, elas não o vêem, mas crêem nele. Sem noite a aurora não aparece. Assim pode acontecer quando vemos desfeitos os nossos planos, quando o próprio ambiente cultural parece ocultar Deus aos olhos da nossa fé, quando nos deixamos interrogar pelas provações, pelo sofrimento, pela violência; quando parece apagar-se a luz recebida na oração, numa  leitura espiritual ou durante um retiro. Luz  que tínhamos diante dos olhos como uma lâmpada que brilha na escuridão, até que amanheça o dia, e o astro matutino desponte nos nossos corações (2Pd 1,19). Deus é sempre maior, e por isto freqüentemente parece recuar quando pensamos ter chegado a um melhor conhecimento dele. Assim também acontece com as nossas comunidades, acontece com a própria Igreja que nunca pode compreender-se a fundo a si mesma, nem pode deixar de procurar com paixão e paciência a sua identidade. O nosso encontro com Deus não é fruto de uma dialética humana, seja ela coletiva ou pessoal. Nem é uma conquista eclesiástica.  É só a graça que muda e renova: “permanecei em mim” como Jesus disse a seus discípulos. É esse seguimento na radicalidade da fé que forma o critério da autenticidade da espiritualidade de uma pessoa ou de um movimento. Dá também sentido a uma pertença institucional cujas possibilidades e conseqüências são assumidas e desenvolvidas na fidelidade à graça de Deus. A fé que despreza esse pertencer não pode ser genuína. É nesta perspectiva que podemos interpretar o que Dom Hélder repetia a Dom Paulo Evaristo, agora arcebispo emérito de São Paulo: “A coisa mais importante de todas que você pode fazer pela Igreja é a celebração da missa e a recitação das orações”.
            A espiritualidade é um caminho que se percorre para descobrir a própria identidade. O ser humano se descobre a si mesmo à medida que vai entrando em contato com os outros, com aquilo que não é ele mesmo, com tudo aquilo que é novo. Quando perdemos a capacidade de encontrar o outro como outro, ficamos rodando num egocentrismo que é um círculo vicioso. Uma criança mimada pode tornar-se insuportável porque se lhe negou o encontro com o outro como outro,  reconhecendo-lhe em tudo direitos de propriedade. O ambiente de uma sociedade de consumo favorece o individualismo. Até certos gestos aparentemente altruístas podem esconder um narcisismo. A espiritualidade é o acontecer de uma relação com o Totalmente Outro. No mais profundo do ser humano existe uma nostalgia desse Absoluto que é o Mistério de Deus. Mas o encontro com esse Totalmente  Outro supõe um itinerário que atravessa a nossa vida de cada dia. Aos poucos vamos descobrindo que o encontro com o Outro, não se faz sem o encontro com o outro. A necessidade que um outro tem, pode tornar-se possibilidade de um encontro. Mas também pode acontecer o movimento inverso quando mediante o discernimento de uma possibilidade se descobre nela uma necessidade. É assim que se faz a descoberta da própria vocação. Foi assim que Maria deu o seu sim a Deus. É descobrir  que nós estamos procurando Deus porque é Ele que está à nossa procura. “Não fomos nós que amamos a Deus, mas Ele nos amou primeiro” como escreveu São João. Santa Teresa traduz isto numa expressão que ela escutou na oração: “Busca-me em ti - Busca-te em mim”. É importante que a nossa vida espiritual seja alimentada pela Palavra de Deus através de uma leitura orante. Isto prepara o terreno para que essa Palavra possa fazer-se carne na nossa história. São Bernardo de Clairvaux num sermão sobre o Cântico dos Cânticos  fez uma belíssima confissão: “Confesso-vos uma coisa: sei que o Verbo de Deus me visitou. Mas não sei como ele entrou em meu coração nem como saiu, mas senti a sua ação que me enternece e converte o meu coração. Aliás, só posso saber que tive essa experiência íntima da sua visita por causa de uma leve mudança que experimentei no sentido da minha conversão”.
             O homem de hoje não está muito a procura de idéias, de doutrinas. Está buscando alguém. Anos atrás cantávamos muitas vezes: “Quando Jesus passar, eu quero estar no meu lugar”. O evangelho de João, conta que um certo André e um companheiro dele, provavelmente o próprio João, viram Jesus passar. João Batista, tinha-lhes chamado a atenção: “Eis o cordeiro de Deus”. Eles foram atrás dele. Jesus voltou-se e perguntou: “O que estão procurando?”. Como se  quisesse indagar os motivos que os dois tinham para segui-lo a fim de que tomassem consciência do que pretendiam. E eles responderam com outra pergunta: “Mestre onde moras?” Não penso que a pergunta deles era superficial ou evasiva, no sentido de querer saber onde Jesus se alojava. O que eles investigavam era o mistério da morada transcendente de Jesus. Daí Jesus respondeu: “Venham e vejam”. Talvez tenham recebido naquele dia que ficaram com ele, uma primeira instrução. João anota no seu evangelho que eram as quatro horas da tarde. A Bíblia de Jerusalém diz: “Era a hora décima, aproximadamente”. A passagem de Jesus na praça da vida nunca é casual, mesmo se já é a “undécima  hora”(Mt 20,6). Acontece sempre no “hoje” de Deus.
            No dia seguinte ao  encontro de Jesus com os primeiros discípulos, o evangelho de João apresenta o grupo na festa de um casamento em Caná da Galiléia:  “Aí estava a mãe de Jesus. Também Jesus e seus discípulos foram convidados para o casamento” (Jo 2,1-2). O evangelista tem uma clara intenção em relatar os acontecimentos  nas bodas de Caná: salientar a presença de Maria na festa do casamento. Já no livros do Antigo Testamento o casamento é um símbolo freqüente do amor de Deus por Jerusalém (Is 62,5). . No Novo Testamento torna-se símbolo da união do Messias com a Igreja (Ef 5, 21-33). Nas bodas de Caná  esse casamento de Jesus com a Igreja em vista da humanidade inteira ainda não aconteceu: “Mulher, que desejas de mim? A minha hora ainda não chegou”. Maria está presente ao primeiro milagre, que revela a glória de Jesus. A expressão “chegou a hora” aparece repetidas vezes no evangelho de João, apontando principalmente para a paixão e glorificação de Jesus: “Pai, chegou a hora, glorifica teu Filho para que teu Filho te glorifique” (Jo 17,1). Cristo amou a Igreja e se entregou por ela. Maria está novamente presente, junto à cruz: “Mulher, eis o teu filho! E depois dirigindo-se ao discípulo: “Eis a tua mãe” (Jo 19,26-27).
            O evangelho de Lucas, já nos primeiros dois capítulos do seu evangelho, nos deixa permanecer longamente na presença de Maria de Nazaré, acompanhando as suas reações na anunciação do anjo, a sua visita a Isabel, sua viagem a Belém junto com José, o nascimento de seu Filho em condições precárias, sua silenciosa meditação diante dos pastores que acorreram para ver o menino recém-nascido, a apresentação de Jesus no templo onde o velho Simeão lhe predisse que o Filho dela seria uma bandeira disputada que haveria de mostrar os pensamentos de todos, ou contra ou a favor. O que seria como uma espada que atravessaria a ela mesma. Para Maria foi uma caminhada de fé nesse mistério do seu próprio Filho. Caminhada feita no dia a dia na casa de Nazaré, na viagem de retorno  a Jerusalém onde, depois de uma procura angustiada de três dias,  reencontrou o menino no templo. Maria e José não entenderam a justificativa que Jesus deu do seu comportamento: “Não sabíeis que eu tenho de estar na casa do meu Pai?”. E de novo, Maria guardava tudo isso em seu íntimo. Aos poucos vai descobrindo que o silêncio de Deus não é ausência de resposta. Durante toda a sua vida ela repetiu: “Que tudo aconteça segundo a sua palavra”. Palavra de Deus que ela mesma deu à luz por intervenção do Espírito Santo. Uma palavra é autêntica, realmente nova, quando sai do silêncio. Deus por ser o Totalmente Outro é sempre silêncio, em comparação com a música que já conhecemos.  É por assim uma lei que rege a espiritualidade. No processo da espiritualidade as nossas palavras, as nossas atividades, as nossas alegrias e tristezas, enfim a nossa vida devem tornar-se grávidas do silêncio do mistério de Deus.
            No Evangelho de João, Maria aparece no início da vida pública de seu Filho. Ao que parece é uma convidada importante. Ela tem suficiente autoridade para colocar os empregados da casa a serviço de Jesus: “Fazei o que ele vos disser”. Percebeu que estava faltando vinho para o casamento... É algo trágico num casamento. Dirige-se a Jesus: “Eles não têm mais vinho”. A reação de Jesus é de uma aparente indiferença. De fato, não cabe a ela definir os tempos nem as ações de Jesus. Mas, como primeira criatura humana atingida pelo projeto do Pai, e envolvida como primeira beneficiada na revelação histórica desse projeto redentor, Maria seguiu os passos de Jesus pois Ele é “o caminho, a verdade e a vida”.
            Olhando para o nosso mundo, percebemos que nele falta o vinho: o vinho da vida, o vinho da esperança, o vinho da espiritualidade. Faz pensar num texto de Isaías: “Já não se bebe vinho ao som do cântico, e a bebida forte tem um sabor amargo para quem o bebe” (Is 24,9). “Eles não têm mais vinho”, disse Maria a Jesus no casamento em Caná. Pelo Espírito que Jesus prometeu enviar a água pode transformar-se em vinho. Peçamos  à Mãe de Jesus que interceda por nós. Ela o fará contanto que sigamos o que ela nos propõe a partir da sua própria experiência: “Fazei tudo o que ele vos disser”.

*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm- Eremita Carmelita- foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNO. Nº 935. 16 de julho e o Carmelo.

NOSSA SENHORA DO CARMO: Mensagem do Nabil

NOSSA SENHORA DO CARMO: Mensagem da Dona Sâmia.

FESTA DE NOSSA SENHORA: Mensagem do Frei Alonso,

NOSSA SENHORA DO CARMO: Imposição do Escapulário.

NOSSA SENHORA DO CARMO: Engravidar de Jesus.

NOSSA SENHORA DO CARMO: Muito mais que uma devoção.