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sábado, 6 de julho de 2013

Mal do Carmelita Terceiro.


Por Frei Pedro Caxito, 0. Carm (In Memoriam).

 
Um Carmelita Terceiro é um religioso que, ouvindo a voz de Deus, como São Paulo, no caminho de Damasco, procura amar e servir a Deus, de acordo com os mandamentos de sua lei, que são: - Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, por amor desse mesmo Deus, não fazendo aos outros o que não quer que lhe façam.

Um Carmelita Terceiro, pois, é um filho de Nossa Senhora do Carmo, cujo hábito tem a ventura de vestir, deve ter uma vida irrepreensível, não só em relação à  Ordem do Carmo, como também à sociedade que ele deve edificar seguindo os passos do Profeta Elias, nosso Pai Espiritual e dos santos e santas Carmelitas.

Ora, um Carmelita Terceiro que traz para o seio da sua Ordem as irregularidades do mundo versátil não só se torna um elemento de escândalo para a mesma Ordem Terceira, como ainda escandaliza a própria sociedade que o olha com mais atenção para lhe apontar as faltas. É um hábito, aliás, justo, do povo taxar de hipócritas os religiosos que pregam a moral e dela vivem divorciados.

Não cumprindo os votos que fez na investidura do seu hábito, o mal Carmelita Terceiro, necessariamente, comete um ato de injustiça para com a sua Ordem, que dele espera o exato cumprimento dos seus deveres, que não é mais do que um ato de justiça para com Deus, sob cuja lei ele prometeu viver livrimente, e para com a sociedade que ele tem o dever de edificar com a sua vida exemplar. Essa justiça é de tal modo inalienável, que violá-la importa nada menos do que perder o próprio homem a sua dignidade pessoal, a honestidade e todos os atributos que devem constituir a integridade do seu bom caráter.

A justiça é uma grande e nobre virtude e um dos mais belos ornatos da alma! Por ventura não é um ato de justiça amar a Deus que nos criou para sua honra e glória, como ele exige que o amemos? Ele nos deu a vida, nos dá a paz e nos promete a felicidade que o mundo não pode dar. Não é isso verdade?

Abramos a história e lancemos os olhos para a vida dos Santos. Eles, os santos carmelitas, nasceram como nós; viveram no mundo como nós, e muitos tivemos em sua mocidade as nossas imperfeições. Um dia, porém, ouviram eles a voz de Deus, como nós Terceiros já ouviu, e, fazendo um ato de justiça, passaram a viver para Deus, dando ao mundo, somente o que a sociedade precisa que o homem de bem lhe dê. Viver no mundo, aceitando tudo o que mundo tem de mal e leviano, é, indubitavelmente, a cega condição do homem que não segue o Evangelho e nós, da Ordem do Carmo, a sua regra e espiritualidade carmelitana. Viver, porém, no mundo, seguindo a lei de Deus e a nossa espiritualidade é a mais bela e mais heroica virtude de todos nós, carmelitas, de cuja lealdade Nossa Senhora do Carmo espera o cumprimento desse dever para que a sua justiça se faça completa, na promessa do Santo Escapulário.

Um mal Terceiro Carmelita, isto é, o que não cumpre os seus deveres para com a sua Ordem, na exata observância da sua regra, se tiver um momento de verdadeira meditação, um lampejo de justiça, ha de reconhecer que o Santo Escapulário, em vez de ser a sua salvação, será unicamente a sua condenação, porque em vida não soube honrá-lo. A má ovelha põe o rebanho a perder.

O mal Terceiro Carmelita também é um elemento perigoso a Ordem, porque, ou ele falta às missas, reuniões e a vivência espiritual na família e na sociedade a que é obrigado por um voto formal, de acordo com a Regra, e isso leva outros a fazerem o mesmo; ou ele não sendo obediente humilde e casto, de acordo com o seu estado, produz o escândalo, introduzindo na Ordem o espírito de rebeldia.

No tempo, em relação à eternidade, breves e alternados de alegria e acerbas dores são os dia do homem, nos quais procura ele sempre o desígnio de realizar uma ideia: a ideia da felicidade. Esta felicidade o que é?  A saúde? A fortuna? Os prazeres? De certo que não. Essas coisas são de tal modo instáveis que, se aproximando o temo da vida, tudo desaparece menos dores psíquicas que nos consomem, e as dores morais que nos acompanham se não fizermos boas escolhas dos nossos atos, praticando o bem e combatendo o mal, como um ato de justiça para com Deus, que nos deu a paz, única riqueza que acompanha o homem do berço ao túmulo. Essa paz, o mal Carmelita Terceiro não tem, porque ele não ama como deve a sua Ordem e porque desconhece a sua Regra cujo cumprimento o faria bom e feliz.

O mal Terceiro Carmelita serve mais ao mundo do que a Deus. Haverá serviço mais duro do que o mundo, com suas inquietações, temores, ciúmes, ódios, vinganças, perturbações, espantos, lágrimas, penas, orgulho abatido, vaidade não satisfeita, amor próprio ofendido, enfim, todo o desencadear das paixões que lhes são próprias? No entanto o serviço de Deus é suave e doce.

O Terceiro que não cumpre o seu dever, que não conhece e não obedece à Regra da sua Ordem, em um instante de recolhimento, diante da imagem de Nossa Senhora do Carmo, ha de sentir uma grande amargura, considerando a sua ingratidão, a sua falta de amor à Ordem que o acolheu, como o pai que recebe o filho pródigo.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

EGITO: Jovem é assassinado em protesto.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 368. Escapulário: Como usar?

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 367. Escapulário e São Simão Stock.

Protesto em visita papal preocupa Planalto

O governo Dilma Rousseff está ciente das movimentações de grupos de jovens e evangélicos para a organização de manifestações durante a Jornada Mundial da Juventude e quer evitar que ocorra um novo desgaste político entre o Executivo e a Igreja, num momento em que era esperada uma reaproximação entre o governo Dilma e o Vaticano.

A Jornada Mundial da Juventude, evento organizado pela Igreja Católica que pode mobilizar cerca de 3 milhões de jovens e peregrinos, está agendada para os dias 23 a 28 de julho, no Rio de Janeiro.

Representantes do Palácio do Planalto já alertaram aos seus interlocutores que o evento poderá acontecer em meio a manifestações, mas que não aceitará a ocorrência de episódios violentos. O governo federal está em contato permanente com o governo fluminense e a Prefeitura do Rio de Janeiro. A segurança do evento contará com o apoio das Forças Armadas e demais tropas federais. A reportagem é de Fernando Exman e publicada pelo jornal Valor, 04-07-2013.

Autoridades do governo e do PT acreditam que a Igreja sob o papado de Bento XVI teve um comportamento inadequado na eleição de 2010, quando às vésperas do segundo turno de um pleito repleto de debates de ordem moral o papa criticou projetos políticos favoráveis à legalização do aborto e pediu que os líderes religiosos orientassem os eleitores. Com a eleição de um novo papa que colocou no centro de sua agenda a área social e o combate à fome e à pobreza, temas caros à administração federal, a expectativa de auxiliares da presidente Dilma Rousseff é de que esse mal-estar passe de vez.

Além de manifestações semelhantes às que ocorreram nas últimas semanas em que setores da sociedade aproveitaram a Copa das Confederações para pedir melhores serviços, há a possibilidade de grupos evangélicos protestarem contra os gastos públicos na organização da visita do papa. Em resposta, integrantes da Igreja argumentam que não se pode esquecer que o papa Francisco é um chefe de Estado e o evento demanda um esquema especial de segurança e logística. Segundo informações publicadas recentemente pela imprensa, o papa citará a onda de protestos em seu discurso no Rio por considerar que as reivindicações por maior justiça não contradizem o Evangelho.

A missa de abertura da Jornada Mundial da Juventude acontecerá no dia 23, na Praia de Copacabana. Ela será celebrada pelo arcebispo do Rio de Janeiro, dom Orani João Tempesta. O papa Francisco participará de cerimônias nos dias seguintes na Praia de Copacabana e em Guaratiba.

O papa Francisco também pretende visitar uma comunidade carente na Zona Norte da cidade e um hospital e centro de recuperação de dependência química. Ele deve receber jovens detentos e ir ao Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, no interior paulista.

Por ora, está previsto que a presidente receba o papa no aeroporto e tenha em seguida uma reunião bilateral com o pontífice. A presidente também deve acompanhá-lo na visita ao centro de saúde, que recebe recursos do governo federal. Ainda não está fechada a participação de Dilma em algum ato religioso ou na despedida do papa Francisco.

O chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, ministro Gilberto Carvalho, é um dos principais interlocutores do governo com a Igreja e outras lideranças religiosas e movimentos sociais. Além da ponte feita pela Secretaria-Geral da Presidência, a organização da Jornada Mundial da Juventude conta no governo com o apoio de uma comissão especial composta por representantes da Casa Civil, Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, Secretaria de Aviação Civil e dos ministérios das Relações Exteriores, Justiça, Defesa, Fazenda, Comunicações e Turismo.

A última Jornada Mundial da Juventude foi promovida em 2011 em Madri, na Espanha, e contou com aproximadamente 2 milhões de participantes. A anterior reuniu menos fiéis, em 2008, na Austrália. A jornada foi criada pelo papa João Paulo II em 1985 e ocorre anualmente em âmbito diocesano. A cada dois ou três anos, porém, são realizados grandes eventos internacionais.

Síria: sacerdote belga e mosteiro na mira de jihadistas

Damasco (RV) – O sacerdote belga, Padre Daniel Maes, de 74 anos, da congregação dos "Cônegos Regulares Premonstratenses", está na mira de grupos jihadistas que pretendem eliminá-lo e invadir o mosteiro de São Tiago mutilado, em Qara, 90 km ao norte de Damasco.

O mosteiro, pertencente à diocese greco-católica de Homs, e está localizado em uma área que poderia ser ocupada para se tornar base logística dos rebeldes. Após a morte do Padre François Murad, no último 23 de junho, a comunidade cristã na Síria está preocupada. As linhas de comunicação com o mosteiro estão interrompidas. O alerta foi dado por alguns líderes católicos sírios e pelas famílias dos monges que vivem no mosteiro, pertencentes a nove nacionalidades diversas.

Padre Maes ensinou teologia moral na Bélgica por 20 anos e desde 2010 reside no mosteiro, onde è Diretor do Seminário. O Convento de São Tiago em Qara é uma antiga estrutura que remonta ao século V e abriga uma comunidade monástica feminina, guiada pela religiosa palestina Ir. Agnes Mariam de La Croix. Ao longo dos anos passou a abrigar também uma comunidade religiosa masculina e famílias de leigos cristãos, sunitas e alawitas.

Nos últimos meses o convento foi danificado por bombardeios do exército regular, que buscava destruir presumíveis depósitos de armas nas fossas localizadas junto ao mosteiro, que na época bizantina eram usadas para armazenar água. Desde o início da guerra civil síria, o mosteiro acolhe famílias de refugiados, independente da pertença religiosa. Padre Daniel mantém contatos estreitos com grupos de sírios na França, Bélgica e Holanda, através associações de voluntariado que enviam ajuda humanitária para os deslocados.

Recentemente o sacerdote denunciou a ‘limpeza étnica’ realizada contra os cristãos em Qusair, quando a cidade foi tomada por rebeldes e por grupos jihadistas. “As localidades cristãs circundantes foram destruídas e todos fiéis que puderam ser capturados foram mortos, movidos por ódio sectário”, denunciou. “Por decênios, cristãos e muçulmanos viveram em paz na Síria. Se grupos criminosos podem dispersar e aterrorizar os civis, isto não é contra as leis internacionais? Quem protegerá os inocentes e poderá garantir o futuro deste país?”, questiona o sacerdote.

Ao descrever a situação social vivida na Síria, padre Maes diz que “os jovens estão desiludidos, porque são as potências estrangeiras que ditam a sua agenda. Os muçulmanos moderados estão preocupados, porque os salafitas e fundamentalistas querem impor uma ditadura totalitária de matiz religiosa. Os cidadãos estão aterrorizados porque são vítimas inocentes de grupos armados”.

Ao concluir, o sacerdote afirma que “o regime sírio perdeu a credibilidade há muito tempo. A urgência hoje é fazer o país sobreviver. O próprio povo sírio deve reformar o país, segundo um processo de verdadeira democracia: um povo que, autonomamente, garanta a igualdade de tratamento para todos”.

Encíclica Lumen fidei - A luz da fé: síntese do conteúdo

Lumen Fidei - A luz da fé, assim se intitula a primeira Encíclica do Papa Francisco que hoje foi publicada. Dirigida aos bispos, sacerdotes, diáconos, religiosos e religiosas e a todos os fiéis leigos, a Encíclica – explica o Papa Francisco - já estava "quase completada" por Bento XVI. Àquela "primeira versão" o actual Pontífice acrescentou "ulteriores contribuições ". A finalidade do documento é recuperar o carácter de luz que é específico da fé, capaz de iluminar toda a existência humana.
Quem acredita nunca está sozinho, porque a fé é um bem comum que ajuda a edificar as nossas sociedades, dando esperança. E’ este é o coração da Lumen fidei. Numa época como a nossa, a moderna - escreve o Papa - em que o acreditar se opõe ao pesquisar e a fé é vista como um salto no vazio que impede a liberdade do homem, é importante ter fé e confiar, com humildade e coragem, ao amor misericordioso de Deus, que endireita as distorções da nossa história.
Testemunha fiável da fé é Jesus, através do qual Deus actua realmente na história. Como na vida de cada dia confiamos no arquitecto, o farmacêutico, o advogado, que conhecem as coisas melhor que nós, assim também para a fé confiamos em Jesus, um especialista nas coisas de Deus. A fé sem a verdade não salva, diz em seguida o Papa – fica a ser apenas um bonito conto de fadas, sobretudo hoje em que se vive uma crise de verdade, porque se acredita apenas na tecnologia ou nas verdades do indivíduo, porque se teme o fanatismo e se prefere o relativismo. Pelo contrário, a fé não é intransigente, o crente não é arrogante: a verdade que vem do amor de Deus não se impõe pela violência, não esmaga o indivíduo e torna possível o diálogo entre fé e razão.Se torna, portanto, essencial a evangelização: a luz de Jesus brilha no rosto dos cristãos e se transmite de geração em geração, através das testemunhas da fé. Mas de uma maneira especial, a fé se transmite através dos Sacramentos, como o Baptismo e a Eucaristia, e através da confissão de fé do Credo e a Oração do Pai Nosso, que envolvem o crente nas verdades que confessa e o fazem ver com os olhos de Cristo. A fé é uma, sublinha o Papa, e a unidade da fé é a unidade da Igreja.
Também é forte a ligação entre acreditar e construir o bem comum: a fé torna fortes os laços entre os homens e se coloca ao serviço da justiça, do direito e da paz. Essa não nos afasta do mundo, muito pelo contrário: se a tirarmos das nossas cidades, ficamos unidos apenas por medo ou por interesse. A fé, pelo contrário, ilumina a família fundada no matrimónio entre um homem e uma mulher; ilumina o mundo dos jovens que desejam “uma vida grande ", dá luz à natureza e nos ajuda a respeitá-la, para "encontrar modelos de desenvolvimento que não se baseiam apenas na "utilidade ou lucro, mas que consideram a criação como um dom". Mesmo o sofrimento e a morte recebem um sentido do facto de confiarmos em Deus, escreve ainda o Pontífice: ao homem que sofre o Senhor não dá um raciocínio que explica tudo, mas a sua presença que o acompanha.Finalmente, o Papa lança um apelo: "Não deixemos que nos roubem a esperança, não deixemos que ela seja frustrada com soluções e propostas imediatas que nos bloqueiam o caminho para Deus”.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

E as manifestações nas ruas? (I e II)

Paulo Reims

         No início da semana passada, dia 17 de junho, escrevi sobre o assunto, e o partilhei no dia seguinte. Até este momento estava alegre com as manifestações nas ruas, apesar da preocupação com a violência, até então por iniciativa dos policiais, a mando do governo do Estado de São Paulo. Aliás, este foi o motivo principal a aumentar o número de manifestantes. Os dias foram se sucedendo, e minha alegria foi tomada por um misto de tristeza. Por quê?

Procurei acompanhar as manifestações bem de perto. Estava contente porque o povo estava despertando, e triste porque percebi que a maioria, sem se dar muita conta, após longos anos, acordou com cataratas, que deixam a visão muito embaçada. Como assim? Vamos recordar. No início, a reivindicação era a revogação do aumento das tarifas do transporte coletivo. A iniciativa foi do Movimento Passe Livre (MPL). A seguir, as manifestações foram tomando proporções maiores em número de pessoas, cidades, dentro e fora do país, e com uma pauta de reivindicações que aumentava dia após dia.

Dizia para mim mesmo: o MPL não está conseguindo coordenar as manifestações, e concluí que havia infiltrações de todo tipo, pessoas violentas, bandidos, saqueadores, depredadores. Mas, como ventilei no artigo da semana passada, havia infiltração truculenta e mascarada da direita burguesa, detentora do poder econômico, político que, por sua vez, é senhora, também, do Partido da Imprensa Golpista (PIG). Desta forma começou a conduzir o processo –dando a pauta das manifestações e provavelmente infiltrando alguns depredadores– o que poderia levar a um golpe, como aconteceu com as manifestações nas ruas em 1964. A direita quer o progresso, mas somente para os seus pares. Foi assim, inculcando terror na massa, que conseguiu fazer morrer na casca as reformas sociais incipientes do governo de João Goulart, e aumentar seus patrimônios.

Como faz falta a filosofia na escola, em todos os níveis e cursos! Creio que é a principal causa das cataratas nos olhos da massa, pois assim é manobrada com facilidade. Mas, então, você quer dizer que as manifestações não foram oportunas? Não é isso. Elas exerceram um papel importante ao fazer as "autoridades” despertarem, em todos os sentidos, também o da iminência de um golpe. Sacudiram as folhas secas para caírem e se transformarem em adubo, energia para uma retomada mais vigorosa do processo de transformação social, que tenha como escopo o bem comum, e não o acúmulo para aqueles que já têm demais.

Quando digo que o Brasil acordou com cataratas nos olhos, o faço pela parcialidade das manifestações. Como assim? Por acaso alguém viu um cartaz, faixa ou palavra de ordem contra o Judiciário, eivado de irregularidades, algumas clamorosas, como por exemplo: a venda de sentenças, viagens internacionais da esposas dos ministros do STF com dinheiro público, parcialidade nos julgamentos dos mensalões - até agora o processo contra o mensalão do PSDB está engavetado, sendo que é anterior ao do PT - , toda a privataria tucana, especialmente a da Vale do Rio Doce, e por aí...? Alguém viu uma palavra contra o Congresso Nacional, o mais bem pago do mundo, depois dos USA, e que continua agregando mordomias, com uma população tão pobre, uma das nações com a maior desigualdade social do mundo, apesar dos avanços dos últimos dez anos, não podemos negar? Nem os parlamentares da oposição se manifestam contra estas regalias e privilégios; com seus "bolsos” abarrotados eles silenciam, mesmo a custa do suor e do sangue dos verdadeiros trabalhadores que fazem o progresso deste país. Fora a manifestação contra as PECs 33 e 37, nada mais. Aliás, a PEC 37, quase por unanimidade, acabou de ser derrubada.

Ontem, dia 24 de junho, um senador do DEM foi contra a Presidente Dilma que, entre outras propostas concretas, anunciou a convocação de um plebiscito para uma constituinte exclusiva para fazer a reforma política, desde que o Congresso Nacional a aprove. Ele se pavoneou em dono da verdade, dizendo que isto é prerrogativa do Congresso Nacional. Igualmente, hoje, dia 25 de junho, Aécio Neves não perdeu tempo em também aparecer dizendo que as propostas da Presidente Dilma são uma afronta às reivindicações do povo nas ruas. Feliz mesmo foi o Presidente da OAB que falou da necessidade de se ouvir o povo, mas não criar uma constituinte, pois iria atrasar ainda mais o processo da reforma política. Admirável assessoria esta. E é isto que vai prevalecer.

Mas as saídas da oposição refletem que, na verdade, a voz do povo é um detalhe. Por que a Presidenta não pode propor uma constituinte através da escuta do povo? Qualquer cidadão pode fazer propostas que sejam do interesse da coletividade, e os parlamentares, se representam o povo, devem acolhê-las. A impressão que os membros da oposição passam, com suas reações, é a de que o povo é somente um detalhe que interessa na hora de lhes dar o voto.

Quero enaltecer o gesto da Presidenta Dilma por tal proposta, pois creio que a partir da reforma política, bem conduzida, muitas outras reformas de base poderão se suceder, se a direita fascista e a imprensa burguesa, assessorados pela CIA e outros mais, não derem o golpe. O MPL já percebeu esta intenção, tanto que avisou publicamente que saía das manifestações, uma vez que conseguiu o objetivo da sua luta: revogação do aumento das passagens do transporte coletivo.

E aqui uma vez mais se percebe que o Brasil acordou com cataratas nos olhos: onde estava a faixa solicitando do Congresso Nacional a regulamentação do artigo 14 da Constituição, para que tenhamos uma Democracia Participativa, ou seja, para que o povo seja sempre consultado a respeito dos assuntos importantes para a vida desta nação? Não encontrei nenhum cartaz contra a imprensa burguesa, e a favor da democratização e socialização da imprensa.

Realmente, as manifestações perderam sua originalidade na medida em que estão sendo parciais, permitindo, mesmo de forma incauta, a manipulação do terror da direita que quer voltar a tomar o poder para transformar nossos sonhos e ideais em pesadelos reais.

            Também não encontrei uma faixa que reivindicasse a reforma agrária, para diminuir a violência no campo e também a miséria...

Voltemos nosso olhar para aquilo que a imprensa vive chamando de primavera árabe. Com a desculpa de que queria ajudar estes povos a ter liberdade, a transformaram em rigoroso inverno. Um exemplo, a título de recordação: a Líbia tinha todos os seus jovens nas universidades. Hoje a Líbia virou ruína e miséria. É o que o Tio Sam e seus aliados sabem fazer. Os poderios econômico e bélico deles crescem e a miséria e o sofrimento dos países invadidos e subjugados também crescem assustadoramente. Quem será a próxima vítima?

Não estou afirmando que neste governo não existem problemas. Eles estão aí, são sérios e precisam ser enfrentados com vigor. A corrupção, infelizmente, é grande; desperdício de verbas também, a começar pela construção de algumas arenas que, após o mundial,terão pouco proveito; o orçamento para a transposição do Rio São Francisco já duplicou, e creio que não chegará ao fim, e se chegar será para satisfazer os donos do agronegócio; tem muita coisa errada sim. Porém, o atual senador Roberto Requião afirmou em uma entrevista à revista "Caros Amigos”, em 2005 –auge das denúncias do mensalão– "a gente não precisa nem de um roubômetro para avaliar; o FHC, com a privataria tucana, roubou 10.000 vezes mais do que qualquer possibilidade de desvio do governo Lula”. E que providências foram tomadas?

Concluo dizendo que precisamos cortar na própria carne, ou seja, precisamos fazer cirurgia para retirada de cataratas, para vermos melhor e agirmos de forma coerente e concreta.

Neste caso, proponho ao Congresso Nacional que tenha a coragem da Assembleia Nacional do Equador, que no dia 14 de junho pp, aprovou a sua Lei de Imprensa. Foram 108 votos a favor, 26 votos contra, certamente estes são os donos da imprensa de lá, e uma abstenção, ou seja, não sabe porque está lá. Realmente foi uma vitória popular. E aí, senhores senadores e deputados? Estão com medo de quem? Vocês representam o povo, ou os grupos econômicos que também são donos do PIG?

Precisamos urgentemente de uma Lei de Imprensa que venha favorecer a imprensa alternativa, para combater as mentiras com caras de verdades da imprensa burguesa e golpista.

Vamos lá, já, queremos enxergar melhor para sairmos às ruas com propostas concretas e sem parcialidade, pelo bem comum. Juntemo-nos aos movimentos sociais organizados, para não sermos manipulados pela direita fascista.

Este é o medo dos "poderosos” que tentam nos manter com cataratas, miopias, hipermetropia, astigmatismo...

E as manifestações nas ruas? (I)
Por Paulo Reims

          As manifestações tiveram início em São Paulo, a princípio contra o aumento das tarifas de transportes públicos. Mas, já se estendem por todo o país, com apoio no exterior, tendo várias reivindicações.

Jovens estudantes e trabalhadores, usando, também, a ferramenta das redes sociais, começam a despertar, sentindo o aperto no bolso.

O Movimento Passe Livre (MPL) já contagiou e agregou milhares de milhares por este país. Sinceramente, esta movimentação de pessoas despertando traz alegria e comprova que a esperança continua viva, apesar de uma multidão continuar em silêncio, induzida pela grande mídia, que também programa as mentes para o "delírio” durante as copas e carnavais, bem do jeito que os donos do poder apreciam.

E, de repente, se ouvem os adestrados do PIG anunciarem: "Manifestantes usam de violência e depredam patrimônios públicos e particulares”. Fiquei atento, e dizia para mim mesmo: Aí tem coisa! Certamente tem gente infiltrada para macular a imagem das manifestações e manipular a consciência dos incautos.

Depois veio à tona, pelos meios de comunicação alternativos, que havia policiais militares e civis, infiltrados à paisana, para dar início aos atos de vandalismo, a mando do governo estadual, justificando assim toda a violência do aparato militar, com bombas de efeito moral, tiros com balas de borracha, spray de pimenta, enfim, com toda truculência comparada à época da ditadura militar.

Pensei que fossem somente alguns da direita rançosa que estivessem infiltrados no meio da nossa juventude - que corre atrás do novo mundo possível - com o objetivo de distorcer os verdadeiros anseios juvenis, mas o velho chuchu também tentou produzir rebentos, dando ordens aos seus subordinados para que agissem com autoritarismo e violência.

           Realmente, as novas gerações que participaram e ou assistiram, no dia 13 de junho PP, toda a violência contra os manifestantes puderam ter uma ideia das repressões, torturas e mortes ocorridas durante os 21 anos de ditadura militar neste país, e uma multidão ficou atônita ao reviver a mesma realidade por algumas horas.

Toda esta truculência deve ser usada contra bandidos, mas quanto eu tenha conhecimento ali estava a juventude em busca dos seus ideais de vida, de dignidade.

Os bandidos estão em outras esferas. É nas esferas superiores que se encontram os baderneiros e vândalos do erário público. Quantas obras faraônicas, com desperdício de quantias astronômicas para satisfazer algumas pessoas e grupos inescrupulosos, em detrimento da quase totalidade do povo que tem que viver a duras penas.

Interessante é perceber a capacidade de se camuflar de alguns personagens que nos dias passados se apresentavam como ditadores. De repente, pareciam pessoas amistosas; e sobraram convites para o diálogo e negociações, vendo as manifestações tomarem grandes proporções.

Ficou muito feia a fotografia de várias autoridades deste país. Mas as imagens dos manifestantes, com algumas exceções, continuam repercutindo muito bem. É isso mesmo: "Sonho que se sonha junto é início de uma nova realidade”.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

BAHIA: Os Protestos chegam ao sertão

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 358. Caridade X Religião.

O desafio do jornalismo crítico numa democracia comprometida

Lúcio Flávio Pinto

 Entrevista do jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto aos alunos de jornalismo da Unesp (Universidade do Estado de São Paulo) de Bauru.

Recentemente, um ranking sobre o nível de liberdade de imprensa nos países foi divulgado e o Brasil ficou em uma posição bem ruim por conta do alto número de assassinatos de jornalistas, da constante influência empresarial e política no ramo e de ações sociais contra blogueiros e sites. O que você acha que pode mudar essa situação?

É uma situação grave e paradoxal. Esta é a mais longa democracia que já tivemos na república brasileira. Graças a essa longevidade (para o liliputiano padrão brasileiro de democracia), começam a surgir instituições e outras se fortalecem. No entanto, há menos liberdade de crítica e mesmo de informação. Várias das instituições em vigor, sobretudo as que deviam ser os esteios da sociedade, com destaque para o judiciário e o executivo, se mostram refratárias à fiscalização e ao controle social. Quem ficar acima e fora do alcance das representações menos institucionais da sociedade, como a imprensa.

Claro que não existe "uma” ou "a” imprensa. Há uma variedade enorme de entes individuais sob esse conceito. Mesmo as piores, no entanto, são vitais para a democracia. Todos devem poder se expressar, sobretudo quando dirigem suas baterias na direção do poder institucionalizado. E as chamadas autoridades, de que natureza ou formato sejam, devem reagir com a verdade, ou contribuir para a sua busca. Mas geralmente reagem com intolerância, abusando do próprio poder.

O judiciário, como autor ou instrumento da repressão à liberdade, tem tipo papel destacado. Daí haver tantos processos contra jornalistas e outros personagens que manifestam crítica e opinião. Levada ao extremo, essa reação resulta em atentados contra a integridade e a vida por dito crime de opinião. O Brasil enriquece, mas a liberdade tem sido empobrecida.

Em 2005, você foi premiado com o Internacional Press Freedom Award pela defesa da liberdade de imprensa. Acredita que no Brasil ainda sofremos muito com esse tipo de censura?

A censura tem remotas raízes no Brasil. É um valor muito mais cultuado do que a liberdade. Quando se compara com a evolução histórica de um país que se constitui ao mesmo tempo, como os Estados Unidos, é um contraste brutal. A imprensa surgiu no novo continente, das Américas, um século antes de colocar os seus pés no Brasil. E quando surgiu já encontrou postada a junta de censura do império português, que tentava impedir a independência da sua colônia americana. O primeiro jornal teve que circular fora do país, em Londres, em 1808, quando a imprensa já estava estabelecida na parte hispânica e anglo-saxônica das Américas.

Assim, tanto a sociedade quanto o poder são sempre tentados a cercear a liberdade de expressão. Ou pela intervenção política direta das ditaduras ou pela coação pessoal, psicológica, sem falar no instrumento mais eficaz: a compra. É esse instrumento que age agora, na nossa longeva democracia, depois de duas décadas de ditadura. A autocensura é o fato mais destacado e perigoso dos nossos dias. Não só as empresas se automutilam para servir aos seus interesses. Os jornalistas também se colocam a mordaça – e às vezes sem ordem patronal ou coação externa. É porque muitos jornalistas também se tornaram extensões do poder coercitivo, cúmplices da manipulação da opinião pública.

 Após deixar a grande imprensa e começar a trabalhar no Jornal Pessoal, você acredita que conquistou uma maior liberdade para se expressar e divulgar suas opiniões e ideias?

Sem dúvida. Adotei o menor formato possível que qualquer publicação podia ter para se viabilizar com plena liberdade. Escrevo todo o jornal, tenho apenas a participação do meu irmão na edição e ilustração, mais a gráfica para imprimir e uma agência para distribuir os exemplares. Não há custo menor. Não uso cores nem fotos. Assim, pude dispensar a receita da publicidade, para isso aceitando ser pequeno e pobre. Mas há o lado ruim dessa opção: não tenho capital para bancar viagens e outras despesas.

Mais do que nunca, a informação custa caro. É uma ilusão infantil achar que ela está toda na rede mundial de computadores. Há informações que só se obtém indo aos locais onde os fatores acontecem e conversando com os personagens dos fatos, que, evidentemente, não caem dos céus como maná semiológico. Esta mobilidade e capacidade de penetração o meu jornal não tem.

Como eu já estava havia 21 anos no jornalismo profissional quando comecei o Jornal Pessoal, depois de atuar em algumas das principais empresas jornalísticas do Brasil, uso esse capital até hoje para suprir minhas deficiências. O que me surpreende – e me entristece – é que mesmo sendo um anão empresarial, consigo dar informações que jamais aparecem na grande imprensa.

Você já sofreu algum tipo de censura em relação ao seu trabalho? Se sim, como isso se deu?

Muitas e distintas, na ditadura e na democracia. Mas reagi a todas. Pedi demissão três vezes de grandes empresas jornalísticas por não concordar com a censura. Tive que fazer isso porque, apenas dois meses depois de ter ingressado no jornalismo, em 1966, consegui meu primeiro espaço de opinião. Era uma coluna cultural chamada "De gente, fatos e livros”. Às vezes tive de negociar a publicação de algum artigo que a direção da empresa não queria publicar. Quando houve intolerância, pedi o boné.

Nunca aceitei a censura como uma ordem. Ela pode ser uma condição, que não temos o direito de ignorar. Se existe, é por resultar de um ato de força, que pode estar disfarçado e ser sutil. Temos que reagir à sua origem. Com meu Jornal Pessoal deixou de haver censura. Nem mesmo a subconsciente, dentro de mim. Pago caro, mas gozo de plena liberdade, como nubca tivce.

Já presenciou algum tipo de censura? No local de trabalho ou com colegas da área?

Sou de uma geração que conviveu com a censura, sobretudo a que veio com fúria depois do AI-5, no final de 1968, o "ano que não terminou”. A única vantagem desse relacionamento é que sabíamos perfeitamente quem era o inimigo: era aquela pessoa mandada para a redação com a missão de mutilar o trabalho dos profissionais da imprensa. Fazíamos o que podíamos para resistir e nos contrapormos a esse personagem, Hoje o jornalismo está ao nosso lado e pode ser um de nós.

Você foi professor visitante em várias universidades. Como você vê o assunto ‘liberdade de imprensa’ sendo tratado nas instituições de ensino? Acredita que esse é o modo correto de tal assunto ser abordado?

Há um grande preconceito acadêmico contra o jornalismo. Inclusive nos cursos de comunicação social. Há um tipo de acadêmico que não considera o jornalismo como fonte de referência confiável. É difícil encontrar fontes jornalísticas na bibliografia das dissertações e teses universitárias. Em parte, a restrição procede. Muitos jornalistas não são rigorosos na apuração dos fatos e poucos utilizam métodos de observação científicos. Mas o jornalismo de linha de frente, que está nos acontecimentos quando os canhões ainda estão quentes, de fato ou metaforicamente falando, esse é imprescindível nos nossos dias de vida digital e virtual. Mesmo assim, os acadêmicos viram os olhos dessa fonte. E muitos encaram a imprensa com preconceitos e dogmas. Acham a imprensa nada mais do que arauto do poder estabelecido. É uma visão esquerdista, no sentido daquela doença ideológica apontada por Lênin (antes de também se sujeitar a ela).

Acredita que com a internet e o maior número de meios para divulgar artigos e trabalhos a liberdade de imprensa possa ser, vamos dizer, ‘mais praticada’?

De fato há incomparavelmente mais liberdade, mas a taxa de eficiência dessa liberdade é espantosamente baixa. O caldo dessa cultura é engrossado por opinião em cima de opinião. A internet é o paraíso do "achismo”, praticado por donos da verdade capazes de qualquer juízo de valor, mas pouco propensos a demonstrá-lo. O mundo digital, prometendo o paraíso. É um doce desvio para o inferno.

Você acha que as leis deveriam proteger melhor os jornalistas ao exercerem sua liberdade de imprensa?

Fiel às remotas origens autoritárias da vida coletiva no Brasil, o legislador sempre está mais preocupado em cercear a imprensa do que em liberá-las das amarras e condicionantes do poder. Voltando ao paralelo com os EUA: terminada a constituição americana, Jefferson se voltou ao texto enxuto e adicionou-lhe a primeira das duas dezenas que ele viria a ter nos dois séculos e meio seguintes. Foi para não deixar dúvida que os pais fundadores da pátria consideravam a imprensa mais importante do que o governo. A imprensa traduz melhor a sociedade do que o governo. É mais porosa e permeável, a despeito de todos os seus vícios e defeitos. Graças a ela, o New York Times pode publicar os documentos secretos do Pentágono sobre a guerra no sudeste asiático e o Washington Post seguiu na apuração do escândalo de Watergate, num momento em que o presidente Nixon queria mandar cortar os seios de Katharina Graham, a dona do jornal.

Os casos de assassinatos mais recentes ocorreram em anos eleitorais. Você acredita que isso é apenas uma coincidência?

Os casos mais recentes de assassinato estão acontecendo durante o ano inteiro. Pode haver maior incremento em eleições de assassinatos políticos, que incluem a imprensa. Mas é um incremento sazonal típico. Há outros no curso do exercício de sangue de todos os anos. A expansão do homicídio é a contrafação do enriquecimento abusivo de certos setores sociais do país, um dos mais injustos do planeta.

Por fim, qual a sua opinião sobre a liberdade de imprensa no Brasil?

Continua a ser principalmente a do dono, seja o dono da empresa jornalística como daquele que pode comprá-lo e aos demais. A liberdade passou a ser uma commodity de mercado.


 

sábado, 22 de junho de 2013

12º Domingo do Tempo Comum - Ano C. Afinal, quem é Jesus para você?

“Jesus Cristo não é apenas doce de coco”. Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita da Ordem do Carmo.


Evangelho de Lucas 9,18-24

A liturgia deste domingo coloca no centro da nossa reflexão a figura de Jesus: quem é Ele e qual o impacto que a sua proposta de vida tem em nós? A Palavra de Deus que nos é proposta impele-nos a descobrir em Jesus o “messias” de Deus, que realiza a libertação dos homens através do amor e do dom da vida; e convida cada “cristão” à identificação com Cristo – isto é, a “tomar a cruz”, a fazer da própria vida um dom generoso aos outros.

O Evangelho confronta-nos com a pergunta de Jesus: “e vós, quem dizeis que Eu sou?” Paralelamente, apresenta o caminho messiânico de Jesus, não como um caminho de glória e de triunfos humanos, mas como um caminho de amor e de cruz. “Conhecer Jesus” é aderir a Ele e segui-l’O nesse caminho de entrega, de doação, de amor total.

ATUALIZAÇÃO

O Evangelho de hoje define a existência cristã como um “tomar a cruz” do amor, da doação, da entrega aos irmãos. Supõe uma existência vivida na simplicidade, no serviço humilde, na generosidade, no esquecimento de si para se fazer dom aos outros. É esse o “caminho” que eu procuro percorrer?

Na sociedade em geral e na Igreja em particular, encontramos muitos cristãos para quem o prestígio, as honras, os postos elevados, os tronos, os títulos são uma espécie de droga de que não prescindem e a que não podem fugir. Frequentemente, servem-se dos carismas e usam as tarefas que lhe são confiadas para se autopromover, gerando conflitos, rivalidades, ciúmes e mal-estar. À luz do “tomar a cruz e seguir Jesus”, que sentido é que isto fará? Como podemos, pessoal e comunitariamente, lidar com estas situações? Podemos tolerá-las – em nós ou nos outros? Como é possível usar bem os talentos que nos são confiados, sem nos deixarmos tentar pelo prestígio, pelo poder, pelas honras? Tem alguma importância, à luz do que Jesus aqui ensina que a Igreja apareça em lugar proeminente nos acontecimentos sociais e mundanos e que exija tratamentos de privilégio?

Quem é Jesus, para nós? É alguém que conhecemos das fórmulas do catecismo ou dos livros de teologia, sobre quem sabemos dizer coisas que aprendemos nos livros? Ou é alguém que está no centro da nossa existência, cujo “caminho” tem um real impacto no nosso dia a dia, cuja vida circula em nós e nos transforma com quem dialogamos com quem nos identificamos e a quem amamos?

É na oração que eu procuro perceber a vontade de Deus e encontrar o caminho do amor e do dom da vida? Nos momentos das decisões importantes da minha vida, sinto a necessidade de dialogar com Deus e de escutar o que Ele tem para me dizer?


 
A PALAVRA DO FREI PETRNÔNIO

SALMO RESPONSORIAL. Salmo 62 (63)

“A minha alma tem sede de Vós, meu Deus”.

 Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita da Ordem do Carmo, São Paulo. E-mail: missaodomgabriel@bol.com.br. Twitter: www.twitter.com/freipetronio  Facebook:  www.facebook.com/freipetronio2. Site: www.olharjornalistico.com.br Blog: www.mensagensdofreipetroniodemiranda.blogspot.com Youtube: www.youtube.com/olharjornalistico

 Neste 12º do Tempo Comum nós queremos rezar com o salmista: “A minha alma tem sede de Vós, meu Deus”. Sim, a nossa alma tem sede de um Deus que ouviu o clamor do povo e desceu para salvá-lo. Ele protegeu os famintos e desvalidos ao longo da história da salvação. Este Deus se encarnou no seio da Virgem Maria, nasceu no relento, cresceu na família pobre de Nazaré, sem nome ou prestígio, anunciou a Boa Nova, foi condenados, crucificado e morto em uma cruz, e no terceiro dia acrescentou uma nova página na história da salvação vencendo a morte.  
Sim, é este mesmo Deus que hoje nos interroga, joga-nos contra a parede e nos faz perceber à luz dos fatos e acontecimentos bíblicos que o seu olhar sempre esteve voltado para aqueles e aquelas que padeciam. Impossível confessar o seu nome e esquecer o lado negro, sofrido e corrompido dos milhares de seres humanos no esgoto social da discriminação, da fome, das prisões e dos porões da miséria étnica, sexual ou política.
Sim, este nosso Deus nos impulsiona para uma adesão radical na transformação das pessoas. Impossível confessar o seu nome e abandonar a sua compaixão, o seu sorriso acolhedor, o seu coração bondoso, o seu olhar sincero e a sua palavra amiga para todos que o procuravam.
O Jesus que nos interroga hoje é aquele da prostitua Madalena, do pecador Zaqueu, do teimoso Pedro, do traidor Judas, do soldado romano, do indeciso jovem rico, das crianças simples, do bom ladrão, das santas mulheres junto ao túmulo, dos amedrontados discípulos de Emaús, dos apóstolos tristes do cenáculo e da primeira comunidade fervorosa na oração, na fraternidade e na partilha dos bens.
O Jesus que nos interroga hoje não o conhecemos em grandes obras teológicas, nas tradicionais doutrinas, nas grandes reflexões ou nos luxuosos templos. Não, o Jesus de hoje e o Deus do Salmo de Meditação caminha nas vidas sem vida, nos sonhos interrompidos, no olhar triste das crianças passando fome, nos jovens protestando nas ruas, nas comunidades clamando por dignidade, ética e justiça social.
Meu caro. Você encontrou Jesus ou um passatempo? Você encontrou Jesus um alívio para a sua consciência? Você encontrou Jesus ou um suco de maracujá. Lembre-se, Jesus Cristo não é apenas um doce de coco. Ele também é jiló.  Você quer encontrá-lo?

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 356. O Grito da Favela.

Nota da CNBB: "Ouvir o clamor que vem das ruas"

Os bispos manifestam "solidariedade e apoio às manifestações, desde que pacíficas, que têm levado às ruas gente de todas as idades, sobretudo os jovens". A presidência da CNBB apresentou a Nota em entrevista coletiva e o documento foi aprovado na reunião do Conselho Permanente concluída na manhã desta sexta-feira, 21 de junho.
Leia a Nota:
Ouvir o clamor que vem das ruas
Nós, bispos do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reunidos em Brasília de 19 a 21 de junho, declaramos nossa solidariedade e apoio às manifestações, desde que pacíficas, que têm levado às ruas gente de todas as idades, sobretudo os jovens. Trata-se de um fenômeno que envolve o povo brasileiro e o desperta para uma nova consciência. Requerem atenção e discernimento a fim de que se identifiquem seus valores e limites, sempre em vista à construção da sociedade justa e fraterna que almejamos.
Nascidas de maneira livre e espontânea a partir das redes sociais, as mobilizações questionam a todos nós e atestam que não é possível mais viver num país com tanta desigualdade. Sustentam-se na justa e necessária reivindicação de políticas públicas para todos. Gritam contra a corrupção, a impunidade e a falta de transparência na gestão pública. Denunciam a violência contra a juventude. São, ao mesmo tempo, testemunho de que a solução dos problemas por que passa o povo brasileiro só será possível com participação de todos. Fazem, assim, renascer a esperança quando gritam: “O Gigante acordou!”
Numa sociedade em que as pessoas têm o seu direito negado sobre a condução da própria vida, a presença do povo nas ruas testemunha que é na prática de valores como a solidariedade e o serviço gratuito ao outro que encontramos o sentido do existir. A indiferença e o conformismo levam as pessoas, especialmente os jovens, a desistirem da vida e se constituem em obstáculo à transformação das estruturas que ferem de morte a dignidade humana. As manifestações destes dias mostram que os brasileiros não estão dormindo em “berço esplêndido”.
O direito democrático a manifestações como estas deve ser sempre garantido pelo Estado. De todos espera-se o respeito à paz e à ordem. Nada justifica a violência, a destruição do patrimônio público e privado, o desrespeito e a agressão a pessoas e instituições, o cerceamento à liberdade de ir e vir, de pensar e agir diferente, que devem ser repudiados com veemência. Quando isso ocorre, negam-se os valores inerentes às manifestações, instalando-se uma incoerência corrosiva que leva ao descrédito.
Sejam estas manifestações fortalecimento da participação popular nos destinos de nosso país e prenúncio de novos tempos para todos. Que o clamor do povo seja ouvido!
Sobre todos invocamos a proteção de Nossa Senhora Aparecida e a bênção de Deus, que é justo e santo.

Brasília, 21 de junho de 2013
Cardeal Raymundo Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida
Presidente da CNBB
Dom José Belisário da Silva
Arcebispo de São Luís
Vice-presidente da CNBB
Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB

‘Cura Gay’


Jardel Santana

          Hoje (18/06), infelizmente (ou será felizmente?) foi aprovado na Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados, o projeto popularmente conhecido como "Cura Gay”, o qual visa sustar dois trechos da resolução 001/99 do Conselho Federal de Psicologia (CFP). O primeiro afirma que "os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades" e o segundo determina que "os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica".
          Confesso que fiquei surpreso, não com a aprovação em si, pois isso já era esperado, considerando que a CDHM é composta, majoritariamente, por fundamentalistas religiosos. O que me deixou surpreso foi a votação ter ocorrido hoje, após as manifestações de ontem (17/06).
           Sinceramente, até gostei da notícia (algumas pessoas pensarão que sou favorável à "Cura Gay”, não sou! Mesmo porque não há cura para o que não é doença). Gostei, pois somente assim o projeto sai da CDHM (comissão que já há alguns meses deixou de representar verdadeiramente os Direitos Humanos e as Minorias) e, portanto, poderemos pressionar para que não passe nas demais comissões (Seguridade Social e Constituição e Justiça) e muito menos no plenário.
           Outro ponto positivo que percebo na aprovação, é o fato de que agora o presidente da CDHM, provavelmente, não estará tanto na mídia, quanto vinha estando (é óbvio que devemos esperar algumas estratégias dele e é por isso que agora devemos lutar ainda mais para sua saída da CDHM). Ele colocar o projeto em pauta e em cima da hora retirar, como vinha fazendo, era estratégia para chamar atenção, estratégia que foi ficando desgastada, tanto que para ele voltar a ter visibilidade, usou de artimanhas regimentais irregulares para colocar a matéria em discussão, conforme afirmou um dos deputados da CDHM. Exemplo de que essa era uma estratégia de Feliciano para manter-se na mídia, é a afirmação do deputado Simplício Araújo (PPS-MA), o qual afirmou que "Esse projeto é eleitoreiro, não atinge o clamor das multidões que tomam as ruas".
       Fazendo alusão a um texto publicado aqui no Miraculoso (http://www.miraculoso.com.br/brasil/378-agradeco-pelo-aumento), espero futuramente agradecer a aprovação do projeto na CDHM. Espero que com essa aprovação, assim como ocorreu com o aumento da passagem em São Paulo e que desencadeou uma onda de protestos país afora, as entidades de Direitos Humanos e de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (LGBTTT) se mobilizem ainda mais, não apenas virtualmente e nem protestando somente na porta do Plenário da CDHM, mas que intensifiquem ainda mais os atos/protestos, principalmente nas ruas, que voltemos a nos mobilizar nacionalmente contra o fundamentalismo religioso, nas ruas e nas praças.
Fonte: http://www.adital.com.br/

A pedagogia do medo na formação dos padres

José Lisboa Moreira de Oliveira

          O que vou narrar inicialmente não aconteceu na Idade Média e nem na primeira metade do século passado, antes da realização do Concílio Vaticano II. Aconteceu há poucas semanas atrás, em pleno século XXI, no ano da graça do Senhor de 2013.

Um seminarista, meu conhecido, pediu-me para ser seu amigo no Facebook. Como eu o conhecia, não tive problemas para adicioná-lo. Desde então comecei a receber mensagens dele. Logo notei a pobreza de tais mensagens ou, pior dizendo, o monte de baboseiras que era postado porele, que dizia estar cursando o segundo ano de teologia. Comecei, então, a fazer alguns comentários ao que ele postava. Na última postagem o seminarista colocou uma charge com a qual justificava a necessidade(notem bem o vocábulo!) do uso da batina. Na charge um padre, estando num lugar, sem batina, vestido como o comum dos mortais, recebia uma bela cantada de uma mulher.

Percebendo o absurdo, fiz um comentário no qual chamava a atenção para algumas coisas. Antes de tudo a presença da pedagogia do medo da mulher. Dizia para o seminarista que esse medo denotava insegurança vocacional e de identidade. Em segundo lugar, mostrava que tal posição estava carregada de preconceito contra a mulher, vista como a sedutora, aquela que induz ao "pecado da carne”. Além disso, mostrei-lhe que, pela minha experiência de mais de quarenta anos de convivência direta com os eclesiásticos, nem sempre é a mulher que seduz o padre. Na maioria absoluta dos casos são padres, afetivamente carentes e psicologicamente despreparados, os sedutores das mulheres. São constantes, ainda hoje, os casos de padres que engravidam mulheres e que, inclusive, as forçam a praticar o aborto. Na Itália existe uma ONG que cuida de filhos abandonados de padres. Por fim, lembrava ao ilustre seminarista queencontrei em vários seminários casos escabrosos que aconteciam na calada da noite, apesar do uso frequente da batina. Casos de pedofilia, de casais "estáveis” de seminaristas homossexuais, os quais eram defensores ferrenhos do celibato e do uso da batina até para dormir. Concluía, então, meu comentário dizendo que a batina, por si só, não funciona, se faltar ao seminarista e ao padre aquela maturidade psico-afetiva-sexual da qual tanto falam os documentos da Igreja sobre a formação dos presbíteros. O resultado do meu comentário você já deve ter deduzido: o seminarista me excluiu da sua lista de amigos no Facebook.

O caso me fez refletir sobre o que estaria acontecendo com a formação dos padres. O que leva um seminarista do segundo ano de teologia a ter uma visão tão desequilibrada e tão medrosa do celibato? E não tive alternativa a não ser me convencer, mais uma vez, de que a maioria absoluta dos seminaristas não está sendo preparada para encarar o celibato com naturalidade. E isso por uma simples razão: a maioria absoluta deles não é portadora desse dom do Espírito. Fingem tê-lo e os formadores e bispos, mais preocupados com a quantidade do que com a qualidade, continuam fazendo de conta que não estão vendo nada. Insistem em manter a lei obrigatória do celibato, mas se recusam a afastar do ministério presbiteral todos aqueles que não são portadores desse carisma. Toda opção tem consequências sérias. E a principal consequência séria da opção da hierarquia pelo celibato obrigatório é, sem dúvida alguma, a exclusão (esta é a palavra exata), através de um bom discernimento, de todos aqueles que não possuem este dom. E tal exclusão precisa ser realizada antes de tudo para o bem dos próprios seminaristas e depois para o bem da Igreja.

E ao dizer que estou convencido de que a maioria dos seminaristas não possui o dom do celibato, estou falando a partir de experiências concretas. Várias vezes, em diversos momentos e lugares, numa simples conversa, aberta e franca, aquela do tipo "olho no olho”, isso ficou muito claro para mim. Eles não conseguem esconder seus disfarces. É claro que os seminaristas não são culpados disso. A responsabilidade é da hierarquia da Igreja que insiste em fazer de conta que tudo vai muito bem; uma hierarquia que não é capaz de ler os sinais dos tempos e repensar a questão do celibato obrigatório.

De tudo isso, podemos deduzir duas consequências. A primeira é de termos padres distantes das pessoas; padres que colocam barreiras, como a batina, para não se aproximarem do povo e para que o povo não se aproxime deles. Padres que, diferentemente de Jesus, não se misturam com as pessoas, não assumem "em tudo a condição humana” (Hb 4,15). Padres incapazes de compaixão e de misericórdia porque não vivem como vive o povo, especialmente como vivem aquelas pessoas prostradas e abatidas, sem consolação, sem esperança, sem vida e para as quais eles deveriam ter um carinho especial (Mt 9,36). Por mais que se esforcem, estarão sempre distantes, uma vez que não há como ser próximo quando se usa de artimanhas para "passar adiante, pelo outro lado” (Lc 10,31-32), longe de quem está caído. Enquanto o Concílio Vaticano II pedia aos padres para mergulharem profundamente na vida do povo, convivendo com todas as pessoas (PO,6), a formação dada nos seminários, verdadeiros "redomas de vidro”, distancia o pastor das ovelhas.

A outra consequência grave é a constatação de uma profunda fragilidade desses futuros padres. A necessidade de usar escudos de proteção, como a batina, revela uma personalidade doente, imatura, carente e psicologicamente enfraquecida. Não se trata de pensar nos padres como super-heróis, mas de ajudá-los a serem, o quanto possível, pessoas normais, sem grandes amarras e humanamente acessíveis. Como podem padres assim ser sinais sacramentais do Cristo Pastor se são incapazes de "dar a vida” (Jo 10,11) pelas pessoas? Porque o dar a vida não se reduz ao martírio, mas implica um gastar-se, um consumir-se pela humanidade (Mc 6,31). E só é possível doar-se totalmente quando não se possui nenhum tipo de "reserva”, nenhum tipo de amarra, nenhum tipo de medo da outra pessoa (Mc 2,15-17).

Estudos sérios afirmam que o homem sempre teve medo da mulher inclusive do ponto de vista sexual. Giacomo Dacquino em sua obra Viver o prazer (Paulinas, 1992) chama a atenção para este aspecto, lembrando que esse medo se exasperou nas últimas décadas em razão da progressiva emancipação da mulher. Dacquino lembra que medos cultivados em relação à mulher podem revelar que o homem não superou o complexo de Édipo, mantendo certo vínculo edípico com a mãe e rejeitando a heterossexualidade, ou seja, qualquer relação ou aproximação afetiva com as outras mulheres (pp. 147-150).

O Concílio Vaticano II, no documento sobre a vida e o ministério dos presbíteros, afirmou que a missão do padre é ajudar as pessoas a conseguirem a maturidade cristã. Diz, sem meios-termos, que de nada adiantam cerimônias bonitas, "rebanhões”, procissões, curas, movimentos eclesiais florescentes se os cristãos e as cristãs não atingem a maturidade na fé. E para realizar essa tarefa os padres devem acolher todas as pessoas: jovens, casais, famílias etc. (PO, 6). O documento conciliar sobre a formação dos padres chega a dizer que para cumprirem fielmente essa missão os seminaristas devem ser educados sobre o valor e a dignidade do casamento e sobre o que significa realmente a renúncia ao matrimônio, a qual não é renúncia ao amor (OT, 10).

Causa, pois, enorme espanto que, cinquenta anos depois, ainda se dê uma formação que estimula o medo e o cultivo de barreiras na relação dos padres com as pessoas. Nico Dal Molin, em seu belíssimo livro sobre o amadurecimento psicoafetivo, intitulado Itinerário para o Amor (Paulinas, 1996), afirma que o amor maduro tem a coragem de derrubar barreiras, uma vez que as barreiras impedem a transparência e distorcem o modo de viver o amor (pp. 144-162). O amor, como sabemos, é o distintivo por excelência do discípulo e da discípula de Jesus (Jo 13,34-35). E "no amor não existe medo; pelo contrário o amor perfeito lança fora o medo, porque o medo supõe castigo. Por conseguinte, quem sente medo ainda não está realizado no amor” (1Jo 4,18). Tenho pena das comunidades que irão receber esses futuros padres, modelados na "fôrma”da lei do temor e não educados na pedagogia do amor.

domingo, 16 de junho de 2013

11º- DOMINGO DO TEMPO COMUM. ANO-C: Violência Policial em São Paulo.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 353. 11º Domingo do Tempo Comum.

11º Domingo do Tempo Comum. Ano- C.

A liturgia deste domingo apresenta-nos um Deus de bondade e de misericórdia, que detesta o pecado, mas ama o pecador; por isso, Ele multiplica “a fundo perdido” a oferta da salvação. Da descoberta de um Deus assim, brota o amor e a vontade de vivermos uma vida nova, integrados na sua família.

A primeira leitura apresenta-nos, através da história do pecador David, um Deus que não pactua com o pecado; mas que também não abandona esse pecador que reconhece a sua falta e aceita o dom da misericórdia.

Na segunda leitura, Paulo garante-nos que a salvação é um dom gratuito que Deus oferece, não uma conquista humana. Para ter acesso a esse dom, não é fundamental cumprir ritos e viver na observância escrupulosa das leis; mas é preciso aderir a Jesus e identificar-se com o Cristo do amor e da entrega: é isso que conduz à vida plena.

O Evangelho coloca diante dos nossos olhos a figura de uma “mulher da cidade que era pecadora” e que vem chorar aos pés de Jesus. Lucas dá a entender que o amor da mulher resulta de haver experimentado a misericórdia de Deus. O dom gratuito do perdão gera amor e vida nova. Deus sabe isso; é por isso que age assim.

EVANGELHO – Lc 7,36 – 8,3

MENSAGEM

           A personagem central é a mulher a quem Lucas apresenta como “uma mulher da cidade que era pecadora”. Não há qualquer indicação acerca de anteriores contactos entre Jesus e esta mulher, embora possamos supor que a mulher já se tinha encontrado com Jesus e tinha percebido n’Ele uma atitude diferente dos mestres da época, sempre preocupados em evitar os pecadores notórios e em condená-los.

A ação da mulher (o choro, as lágrimas derramadas sobre os pés de Jesus, o enxugar os pés com os cabelos, o beijar os pés e ungi-los com perfume) é descrita como uma resposta de gratidão, como consequência do perdão recebido (vers. 47). A parábola que Jesus conta, a este propósito (vers. 41-42), parece significar não que o perdão resulta do muito amor manifestado pela mulher, mas que o muito amor da mulher é o resultado da atitude de misericórdia de Jesus: o amor manifestado pela mulher nasce de um coração agradecido de alguém que não se sentiu excluído nem marginalizado, mas que, nos gestos de Jesus, tomou consciência da bondade e da misericórdia de Deus.

A outra figura central deste episódio é Simão, o fariseu. Ele representa aqueles zelosos defensores da Lei que evitavam qualquer contato com os pecadores e que achavam que o próprio Deus não podia acolher nem deixar-Se tocar pelos transgressores notórios da Lei e da moral. Jesus procura fazê-lo entender que só a lógica de Deus – uma lógica de amor e de misericórdia – pode gerar o amor e, portanto, a conversão e a vida nova. Jesus empenha-se em mostrar a Simão que não é marginalizando e segregando que se pode obter uma nova atitude do pecador; mas que é amando e acolhendo que se pode transformar os corações e despertar neles o amor: essa é a perspectiva de Deus. O perdão não se dá a troco de amor, mas dá-se, simplesmente, sem esperar nada em troca. A reação de Jesus não é um caso isolado, mas resulta da missão de que Ele se sente investido por Deus – atitude que Ele procurará manifestar em tantas situações semelhantes: dizer aos proscritos, aos moralmente fracassados, que Deus não os condena nem marginaliza, mas vem ao seu encontro para libertá-los, para dar-lhes dignidade, para os convocar para o banquete escatológico do Reino. É esta atitude de Deus que gera o amor e a vontade de começar vida nova, inserida na lógica do Reino.

O texto que nos é proposto termina com uma referência ao grupo que acompanha Jesus: os Doze e algumas mulheres. O facto de o “mestre” Se fazer acompanhar por mulheres (Lucas é o único evangelista que refere a incorporação de mulheres no grupo itinerante dos discípulos) era algo insólito, numa sociedade em que a mulher desempenhava um papel social e religioso marginal. No entanto, manifesta a lógica de Deus que não exclui ninguém, mas integra todos – sem excepção – na comunidade do Reino. As mulheres – grupo com um estatuto de subalternidade, cujos direitos sociais e religiosos eram limitados pela organização social da época – também são integradas nessa comunidade de irmãos que é a comunidade do Reino: Deus não exclui nem marginaliza ninguém, mas a todos chama a fazer parte da sua família.

 ATUALIZAÇÃO

 Considerar, na reflexão, as seguintes questões:

 1º-Em primeiro lugar, o nosso texto põe em relevo a atitude de Deus, que ama sempre (mesmo antes da conversão e do arrependimento) e que não Se sente conspurcado por ser tocado pelos pecadores e pelos marginais. É o Deus da bondade e da misericórdia, que ama todos como filhos e que a todos convida a integrar o seu família. É esse Deus que temos de propor aos nossos irmãos e que, de forma especial, temos de apresentar àqueles que a sociedade trata como marginais.

 2º- A figura de Simão, o fariseu, representa aqueles que, instalados nas suas certezas e numa prática religiosa feita de ritos e obrigações bem definidos e rigorosamente cumpridos, se acham em regra com Deus e com os outros. Consideram-se no direito de exigir de Deus a salvação e desprezam aqueles que não cumprem escrupulosamente as regras e que não têm comportamentos social e religiosamente correctos. É possível que nenhum de nós se identifique totalmente com esta figura; mas, não teremos, de quando em quando, “tiques” de orgulho e de auto-suficiência que nos levam a considerar-nos mais ou menos “perfeitos” e a desprezar aqueles que nos parecem pecadores, imperfeitos, marginais?

 3º- A exclusão e a marginalização não geram vida nova; só o amor e a misericórdia interpelam o coração e provocam uma resposta de amor. Frequentemente fala-se, entre nós, no agravamento das penas previstas para quem infringe as regras sociais, como se estivesse aí a solução mágica para a mudança de comportamentos… A lógica de Deus garante-nos que só o amor e a misericórdia conduzem à vida nova.

4º- Na linha do que a Palavra de Deus nos propõe hoje, como tratar esses excluídos, que todos os dias batem à porta da “fortaleza Europa” à procura de condições mínimas para viver com dignidade? E os moralmente fracassados, que testemunho de amor e de misericórdia encontram nas nossas comunidades?

 5º- Ultimamente, fala-se muito do papel e do estatuto das mulheres na comunidade cristã. Este texto diz-nos que, ao contrário do que era costume na época, as mulheres faziam parte do grupo de Jesus. Que significa isso: que elas devem ter acesso aos ministérios na comunidade cristã? Seja qual for a resposta, o que é importante é que não façamos disto uma luta pelo poder, ou uma reivindicação de direitos, mas uma questão de amor e de serviço.

 ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 11º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(Em parte adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

 1- ABERTURA DA CELEBRAÇÃO.

 A força dos textos deste domingo merece que nos preparemos desde o início da celebração para bem os acolher. Podemos realçar a palavra do salmo, mesmo antes do início do cântico de entrada: “perdoai, Senhor, minha culpa e meu pecado”. A fim de nos colocarmos em atitude de ser perdoados, um tempo de silêncio permitirá tomar consciência disso antes de serem proclamadas as primeiras palavras da saudação inicial: “a graça de Nosso Senhor…” O rito penitencial pode ser introduzido pelas palavras do salmo: “Feliz o homem a quem o Senhor não acusa de iniquidade e em cujo espírito não há engano”.

 2- BILHETE DE EVANGELHO.

 O fariseu que recebe Jesus à mesa pára o seu olhar sobre o que se vê: uma pecadora introduziu-se na sua casa; para ele, ela não é senão uma pecadora. Quanto a Jesus, lança o seu olhar sobre a mulher procurando ver, através do seu comportamento, tudo o que se passa no seu coração: se ela chora, é porque é infeliz e lamenta o seu passado; se ela molha com as suas lágrimas e limpa com os seus cabelos os pés de Jesus, se ela os beija e sobre eles derrama perfume precioso, é para manifestar o seu grande amor. Não é preciso mais nada para Jesus: Ele perdoa, não porque ela pecou muito, mas porque amou muito, mesmo se ela amou mal; sobretudo, é a sua fé que a salva. Ela faz a experiência do Amor louco de Deus que perdoa, experiência que o fariseu ainda não fez. Porque o fariseu e os convidados se ficam pelas aparências, encerram a mulher no passado. Porque Jesus olha para além das aparências, abre-se à mulher um futuro diferente, e ela parte em paz.

 3- À ESCUTA DA PALAVRA.

 Espantoso encontro na casa de Simão! O fariseu queria, sem dúvida, ver de mais perto este jovem rabino que dizia vir da parte de Deus. Falava bem, irradiava bondade. Porém… Tudo se desmorona! Eis que Jesus Se presta a uma cena no mínimo chocante, mesmo escabrosa. Esta mulher que se aproxima d’Ele é conhecida por ser da má vida, uma pecadora. Os seus gestos, ambíguos, dizem o que ela é. Mas o escândalo vem, sobretudo, da falta de reacção de Jesus. Simão pensava ter convidado um homem de Deus. E eis que está diante dele um homem como todos os outros, talvez mesmo um futuro “cliente” da mulher. Se ao menos Jesus tivesse retirado os seus pés, se tivesse protestado, colocado a mulher no seu devido lugar! Mas não! Segundo a Lei, deixar-se tocar por uma mulher impura tornava-o cúmplice do seu pecado. O paradoxo é grande! Cremos que Jesus é o Filho de Deus feito homem, totalmente santo, sem qualquer pecado.

Também para nós, a cena é incompreensível: de um lado, a pureza, a presença mesmo do Deus três vezes santo, o fogo ardente do seu amor; do outro, a impureza, o pecado, a água suja das nossas misérias. Como vai terminar este encontro? Jesus vai cumprir uma divina alquimia. Jesus dá a esta mulher um amor que transfigura os seus gestos ambíguos. Faz deste encontro uma ocasião para manifestar a maneira de agir de Deus para com os pecadores. Jesus não aprova o seu pecado. Mas acolhe esta mulher tal como ela é. Aceita o que ela é capaz de Lhe dar. Se Ele a tivesse afastado, tê-la-ia encerrado no seu pecado. Deixando-a fazer, quer fazer-lhe compreender que não quer tomá-la para Si, como os outros homens que ela encontrava. Dá-lhe um amor que ela nunca tinha recebido, um amor gratuito, para a fazer nascer ela própria. Ele transforma a água suja dos seus pecados em fonte purificadora, transfigurada pelo fogo do amor divino. Porque a pecadora recebeu um perdão infinito e gratuito, pôde, por sua vez, mostrar um grande amor, e nascer para a vida. É isso que Jesus nos convida a viver quando vamos até Ele!

4- PALAVRA PARA O CAMINHO.

A página do Evangelho deste domingo pode facilmente dar lugar a uma partilha. Porque não aproveitar para visitar uma pessoa um pouco isolada no seu sofrimento, e propor-lhe para falar à volta deste Evangelho? Isso poderia ajudá-la a se sentir amada e a “ir em paz”.

5- VIVER AS ATITUDES DO CORAÇÃO DE JESUS.

Estamos no mês do Coração de Jesus, cuja Solenidade celebrámos na passada sexta-feira. Podemos acolher a Palavra deste domingo sob essa luz, tentando descobrir as atitudes bem presentes no Coração de Jesus: pensar nas atitudes que recebemos do Coração de Jesus, tão presentes na liturgia da Palavra deste domingo: Amor, Misericórdia, Perdão, Bondade… (cada um pode continuar a lista); rezar essas atitudes em ambiente de adoração e vivê-las sempre com empenho, em particular ao longo deste mês. Mãos à obra! Continuação de fecundo mês do Coração de Jesus!
Fonte: http://www.dehonianos.org/