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quinta-feira, 1 de maio de 2014

3º Domingo da Páscoa: No Caminho de Emaús - Ele está no meio de nós! (Lucas 24,14-31) Frei Carlos Mesters e Mercedes Lopes

1. De que estavam falando pelo caminho?
Duas pessoas andando pela estrada. Desanimadas. Tristes! Estavam indo na direção contrária. Fugindo. Buscando. Imagem de ontem e de hoje. Imagem de todos nós. No ano de 85, muitos discípulos e discípulas andavam pelo caminho, tristes, desanimados, sem saber se estavam no caminho certo. Parece que a cruz ficou maior e mais pesada. O desemprego, a violência, a droga, a falta de atenção séria à saúde e à educação, a falta de dinheiro, as dívidas... o desespero. Sentimo-nos impotentes frente à corrupção que desvia fundos dos cofres públicos, ou frente à má administração que deixa o povo no desamparo. O sistema neoliberal vai gerando cada dia mais exclusões de indivíduos, grupos e países. Parece que vivemos em um caos, em uma situação sem saída. Temos a impressão de estarmos caminhando ladeira abaixo, para o pior.

2. Tinham os olhos vendados
A experiência da morte de Jesus tinha sido tão dolorosa que eles perderam o sentido de viver em comunidade, abandonaram o grupo de discípulos e discípulas. Sentiram-se impotentes diante do poder que matou Jesus e procuraram salvar pelo menos a própria pele. Sua frustração era tão grande, que nem reconheceram Jesus, quando este se aproximou e passou a caminhar com eles (24,15). Tinham um esquema rígido de interpretação sobre o Messias, e não puderam ver a salvação de Deus entrando em suas vidas. Algumas discípulas tentaram ajudar os companheiros a perceber que Jesus estava vivo (24,22-23). Mas eles se recusaram a acreditar (24,24). Esta notícia era por demais surpreendente. Era o mesmo que dizer que Jesus era o vencedor do caos e da morte. Só podia ser fantasia, sonho, delírio de mulheres (24,11). Impossível acreditar! Quando a dor e a indignação pegam forte, há pessoas que ficam depressivas, desesperadas. Outras se tornam coléricas e amargas. Algumas invocam o fim do mundo com catástrofes que vão tirar os maus da face da terra. Outras buscam evadir-se numa oração sem compromisso social e político. Mas nenhuma dessas posturas ajuda a abrir os olhos e analisar a situação com fé lúcida e responsável, capaz de inventar saídas para esta situação aparentemente sem saída.

3. A Bíblia esquentou o coração, mas não abriu os olhos
Caminhando com eles, sem eles se darem conta, Jesus fazia perguntas. Escutava as respostas com interesse. Dessa maneira, obrigava-os a irem fundo no motivo da sua tristeza e fuga. Procurava fazê-los expressar a frustração que sentiam. Depois, ia iluminando a situação com palavras da Escritura. Procurava situar os discípulos na história do povo, para que pudessem entender o momento que estavam vivendo. Foi uma experiência apaixonante. Mais tarde, eles iriam fazer uma reflexão e perceber que o coração deles ardia, quando Jesus lhes explicava as Escrituras pelo caminho (24,32). Mas a explicação que Jesus dava a partir das Escrituras não conseguiu abrir os olhos dos discípulos.

4. Eles o reconheceram na partilha do pão
Caminhando com Jesus, os discípulos sentiram o coração arder. Cresceu dentro deles uma atitude de acolhida: "Fica conosco! Cai a tarde e o dia já declina!" (24,29). Foi só então que a partilha aconteceu. Partilha de vida, de oração e de pão. Partilha que abriu os olhos e provocou a mais importante descoberta da fé: ele está vivo, no meio de nós! (24,30-31). Esta descoberta lhes deu forças para voltar a Jerusalém, mesmo de noite. Tinham pressa de partilhar com os outros a descoberta que os fez renascer e ter coragem para enfrentar o poder da morte. Sim, Jesus era de fato o vencedor do caos e da morte! Não era fantasia das mulheres. Era uma realidade escondida, misteriosa, que só pode ser descoberta por quem aprende a partilhar, a se entregar, a sair do círculo vicioso dos interesses egoístas, para lutar junto com os outros pela vida de todos. Quando seus olhos se abriram, livres das trevas e travas por poder dominante, puderam descobrir a morte de Jesus como expressão máxima de um amor sem limites. Amor que tem sua origem no Pai cheio de ternura, gerador incansável da vida. Amor que tomou carne em Jesus de Nazaré para visitar e redimir a humanidade. Amor que se mantém fiel até ao extremo de dar a própria vida, para que todos tenham vida (Jo 10,10). Amor que foi confirmado pelo Pai, quando ressuscitou Jesus da morte.

5. Renascer para uma nova esperança
Esta experiência fez os discípulos renascerem para uma nova esperança. Ao redor de Jesus vivo, eles se uniram de novo e assumiram o projeto de vida para todos. A esperança é como um motor que leva a acreditar nos outros e a inventar práticas de fé. Com a esperança renovada, aquilo que parecia uma total impossibilidade passou a ter um novo significado para eles. Perderam o medo, superaram a experiência de incapacidade e de impotência. Deixaram de lado o negativismo derrotista e voltaram, em plena noite, como se fosse de dia. Voltaram para recomeçar, para reconstruir a comunidade, expressão, sinal e sacramento da presença de Jesus Ressuscitado.

6. Refazer hoje a experiência do caminho de Emaús
Desafiados pela atual conjuntura, somos chamados a viver hoje a experiência de Emaús e descobrir, na partilha solidária, a presença de Deus no meio de nós. Como comunidade de fé, somos chamados a reconstruir, no diálogo, na abertura e na acolhida, o projeto de Jesus, pelo qual ele entregou sua própria vida. A solidariedade leva à descoberta da força libertadora de Deus na história. Com olhar lúcido e criativo procuraremos expressar esta fé numa solidariedade bem concreta e articulada, seja a nível de grupo, de bairro ou de cidade. Dizer articulada quer dizer que esta ação solidária deve ser comunitária. Só assim será de fato sinal do Reino e poderá intervir em favor da vida, da vida indefesa dos pobres, os preferidos de Jesus.

RETIRO EM UNAÍ-MG: Convite.

A PALAVRA... Nº 577. O meu santo não faz milagres, apenas trabalha.

domingo, 27 de abril de 2014

2º Domingo da Páscoa: Homilia do Frei Petrônio.

Íntegra da homilia do Papa Francisco na canonização de São João Paulo II e São João XXIII

VATICANO, 27 Abr. 14 / 09:24 am (ACI/EWTN Noticias).- Em uma cerimônia sem precedentes na história da Igreja, o Papa Francisco declarou santos a São João Paulo II e São João XXIII durante uma missa concelebrada por mais de mil pastores entre cardeaisbispos e sacerdotes, incluindo o Pontífice Emérito Bento XVI.

Esta é a íntegra da homilia que pronunciou o Papa Francisco:
No centro deste domingo, que encerra a Oitava de Páscoa e que João Paulo II quis dedicar à Divina Misericórdia, encontramos as chagas gloriosas de Jesus ressuscitado.
Já as mostrara quando apareceu pela primeira vez aos Apóstolos, ao anoitecer do dia depois do sábado, o dia da Ressurreição. Mas, naquela noite, Tomé não estava; e quando os outros lhe disseram que tinham visto o Senhor, respondeu que, se não visse e tocasse aquelas feridas, não acreditaria. Oito dias depois, Jesus apareceu de novo no meio dos discípulos, no Cenáculo, encontrando-se presente também Tomé; dirigindo-Se a ele, convidou-o a tocar as suas chagas. E então aquele homem sincero, aquele homem habituado a verificar tudo pessoalmente, ajoelhou-se diante de Jesus e disse: «Meu Senhor e meu Deus!» (Jo 20, 28).
Se as chagas de Jesus podem ser de escândalo para a fé, são também a verificação da fé. Por isso, no corpo de Cristo ressuscitado, as chagas não desaparecem, continuam, porque aquelas chagas são o sinal permanente do amor de Deus por nós, sendo indispensáveis para crer em Deus: não para crer que Deus existe, mas sim que Deus é amor, misericórdia, fidelidade. Citando Isaías, São Pedro escreve aos cristãos: ‘pelas suas chagas, fostes curados’ (1 Ped 2, 24; cf. Is 53, 5).
São João XXIII e São João Paulo II tiveram a coragem de contemplar as feridas de Jesus, tocar as suas mãos chagadas e o seu lado transpassado. Não tiveram vergonha da carne de Cristo, não se escandalizaram d’Ele, da sua cruz; não tiveram vergonha da carne do irmão (cf. Is 58, 7), porque em cada pessoa atribulada viam Jesus. Foram dois homens corajosos, cheios da parresia do Espírito Santo, e deram testemunho da bondade de Deus, da sua misericórdia, à Igreja e ao mundo.
Foram sacerdotes, bispos e papas do século XX. Conheceram as suas tragédias, mas não foram vencidos por elas. Mais forte, neles, era Deus; mais forte era a fé em Jesus Cristo, Redentor do homem e Senhor da história; mais forte, neles, era a misericórdia de Deus que se manifesta nestas cinco chagas; mais forte era a proximidade materna de Maria.
Nestes dois homens contemplativos das chagas de Cristo e testemunhas da sua misericórdia, habitava «uma esperança viva», juntamente com «uma alegria indescritível e irradiante» (1 Ped 1, 3.8). A esperança e a alegria que Cristo ressuscitado dá aos seus discípulos, e de que nada e ninguém os pode privar. A esperança e a alegria pascais, passadas pelo crisol do despojamento, do aniquilamento, da proximidade aos pecadores levada até ao extremo, até à náusea pela amargura daquele cálice. Estas são a esperança e a alegria que os dois santos Papas receberam como dom do Senhor ressuscitado, tendo-as, por sua vez, doado em abundância ao Povo de Deus, recebendo sua eterna gratidão.
Esta esperança e esta alegria respiravam-se na primeira comunidade dos crentes, em Jerusalém, de que nos falam os Atos dos Apóstolos (cf. 2, 42-47). É uma comunidade onde se vive o essencial do Evangelho, isto é, o amor, a misericórdia, com simplicidade e fraternidade.

E esta é a imagem de Igreja que o Concílio Vaticano II teve diante de si. João XXIII e João Paulo II colaboraram com o Espírito Santo para restabelecer e atualizar a Igreja segundo a sua fisionomia originária, a fisionomia que lhe deram os santos ao longo dos séculos. Não esqueçamos que são precisamente os santos que levam avante e fazem crescer a Igreja. Na convocação do Concílio, João XXIII demonstrou uma delicada docilidade ao Espírito Santo, deixou-se conduzir e foi para a Igreja um pastor, um guia-guiado. Este foi o seu grande serviço à Igreja; foi o Papa da docilidade ao Espírito.
Neste serviço ao Povo de Deus, João Paulo II foi o Papa da família. Ele mesmo disse uma vez que assim gostaria de ser lembrado: como o Papa da família. Apraz-me sublinhá-lo no momento em que estamos a viver um caminho sinodal sobre a família e com as famílias, um caminho que ele seguramente acompanha e sustenta do Céu.
Que estes dois novos santos Pastores do Povo de Deus intercedam pela Igreja para que, durante estes dois anos de caminho sinodal, seja dócil ao Espírito Santo no serviço pastoral à família. Que ambos nos ensinem a não nos escandalizarmos das chagas de Cristo, a penetrarmos no mistério da misericórdia divina que sempre espera, sempre perdoa, porque sempre ama”.

Canonization of John XXIII and John Paul II

sexta-feira, 25 de abril de 2014

PASSA QUATRO-2014/MG: Celebração da Esperança-02

2º Domingo da Páscoa: “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20,28)

O Jesus ressuscitado ainda traz as marcas e as chagas da sua paixão. A ressurreição de Jesus não o fez retroagir ao passado, como se sua morte nunca tivesse acontecido. Pelo contrário, venceu a morte e ainda traz as marcas da crucificação. O Jesus ressuscitado não virou anjo; ele continua sendo homem. A ressurreição de Jesus muda o nosso olhar sobre o homem.
A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 2º Domingo da Páscoa – Ciclo A do Ano Litúrgico (27 de abril de 2014). A tradução é de André Langer.

Referência bíblica:
Evangelho: Jo 20,19-31

Eis o texto.
Cada ano, no segundo domingo da Páscoa, nós temos esse belíssimo relato que só se encontra em João, passagem que marcava, originalmente, o fim do seu evangelho. Esta dupla aparição do Ressuscitado aos discípulos, primeiro na ausência de Tomé, e depois na sua presença, nos diz algo sobre a Igreja primitiva, mas também sobre a nossa Igreja hoje. Como em todos os relatos evangélicos, encontramos o testemunho de fé dos primeiros cristãos, e podemos identificar, ao mesmo tempo, mensagens para os cristãos do século XXI.
1.A Ressurreição... uma questão. Ao ler os relatos da Páscoa dos quatro evangelistas, podemos ter a impressão de que a Ressurreição é uma realidade tangível que não deixa margem para dúvidas, de tal modo sua manifestação parece clara: pensemos no tremor de terra evocado por Mateus e o anjo luminoso que vem do céu, enquanto que os soldados que guardam o túmulo tremeram de medo e ficaram como mortos (Mt 28,1-4). De modo especial, não devemos esquecer que esses relatos, escritos muito tempo depois da Páscoa, querem simplesmente expressar a fé na Ressurreição que vai gradativamente se desenvolvendo nas comunidades cristãs e que esses relatos carregam as marcas do autor que os compôs. Portanto, Mateus que era judeu, procura mostrar que o Cristo ressuscitado realiza plenamente os profetas da Antiga Aliança e que ele é o novo Moisés, o libertador do seu povo, da Igreja, o que explica os sinais resplandecentes das teofanias que encontramos nos textos do Antigo Testamento. Por outro lado, nos outros evangelhos, os sinais da Ressurreição são antes necessários e colocam mais perguntas para as quais não têm respostas: um túmulo vazio, em Lucas; o silêncio das mulheres em Marcos; um lençol dobrado no canto, emJoão; uma palavra no caminho, uma partilha do pão, etc. Assim, em todos os evangelhos, as testemunhas devem passar da angústia e da dúvida ao momento em que eles reconhecem que é o Cristo que está aí, que está vivo, que é verdadeiramente ressuscitado. Todos esses testemunhos da primeira hora descobrem aos poucos o caminho da fé. É o que emerge do evangelho de João de hoje.
2. A Ressurreição... uma presença na ausência. Jesus morreu. Ele não pode estar aí fisicamente como antes; ele só pode está aí como depois, isto é, através dos seus discípulos. De fato, os discípulos se sentem sozinhos, nos dizJoão. Eles estão num lugar fechado, com todas as portas trancadas, por causa do medo que sentem (Jo 20,19a). Mesmo assim, o Cristo está no meio deles (Jo 20,19b). Ele é, em primeiro lugar, Palavra: “A paz esteja com vocês!” (Jo 20,19c). Depois destas palavras, ele mostra a sua humanidade ferida (Jo 20,20c). Não esqueçamos que estamos no final do século I, no momento das piores perseguições aos cristãos: na comunidade de João, muitos cristãos martirizados se reúnem, no primeiro dia da semana, no domingo, para recordar o Ausente, isto é, através da Palavra partilhada e do testemunho da sua vida, eles descobrem a presença do Ressuscitado na ausência do Crucificado. Imediatamente, é a alegria experimentada por toda a comunidade reunida (Jo 20,20b).
3. A Ressurreição... uma vida nova. No encontro dominical, os primeiros cristãos tomam consciência de que a missão do Cristo lhes pertence: “Jesus disse novamente: a paz esteja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês” (Jo 20,21). É a nova criação; assim como no tempo da primeira criação, quando Deus sopra nas narinas de Adão para lhe dar a vida, Cristo faz o mesmo com os seus discípulos reunidos: “Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: ‘Recebam o Espírito Santo’” (Jo 20,22).
4. A Ressurreição... uma libertação. Recriados, investidos pelo Espírito de Cristo, os discípulos tornam-se libertadores, capazes de reconciliar e de libertar as pessoas: “Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados” (Jo 20,23). É uma responsabilidade que lhes é confiada, já que os discípulos têm o poder de libertar as pessoas ou de se recusar a fazê-lo, e esta responsabilidade não é reservada apenas aos apóstolos; de agora em diante, todos os discípulos podem e devem fazê-lo, o que significa que ainda hoje somos todos responsáveis pela reconciliação e pela liberdade. Cabe a nós reconciliar as pessoas e de torná-las livres.
5. A comunidade... uma necessidade. A fé cristã não pode ser vivida de maneira isolada; ela tem necessidade dos outros, da comunidade. É o significado da segunda parte do relato de João, onde Tomé, nosso gêmeo, não se encontra com os outros. Esses lhe contaram que o Cristo está vivo e que se faz presente no seu encontro do domingo, mas Tomé na pode crê-lo, porque ele não se encontrou com ele, pois estava ausente dessa reunião. É, pois, no âmago da celebração dominical seguinte que Tomé, desta vez presente, poderá fazer a experiência do Ressuscitado. E temos então a profissão de fé de Tomé em toda a sua solenidade: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28). Mas!!!
6. A fé... um testemunho. Mas!!! O evangelista João parece dizer que a fé deverá nascer primeiramente e antes de tudo da experiência dos outros que testemunham seu encontro com o Ressuscitado. O que significa que o nosso testemunho deve ser muito confiável e convincente para que os outros adiram à fé e para que tenham o gosto, também eles, de vir à reunião dominical para encontrar e reconhecer o Ressuscitado. É através das chagas dos participantes da reunião que reconhecemos o Crucificado ressuscitado. É uma missão e uma responsabilidade que é confiada hoje a todos os cristãos.
Concluindo, podemos dizer que a experiência de Tomé, que é também a nossa, tem um valor importante para a Igreja de hoje. A este respeito, gostaria de compartilhar os comentários do exegeta francês Jean Debruynne: “Deste ponto de vista, Tomé nos presta um grande serviço: as perguntas que ele faz em voz alta, são as mesmas que nós fazemos em voz baixa. Tomé nos tranquiliza, uma vez que ele, um incrédulo, chega à experiência da fé. Isso deveria nos livrar de muitas das nossas dúvidas. Não precisamos refazer a busca, Tomé já a fez! Mas este pedido de Tomé de querer colocar os dedos nas chagas das mãos e dos pés de Jesus e suas mãos na chaga do seu lado, não é apenas expressão do ceticismo; é também uma afirmação muito importante para a nossa fé: o Jesus ressuscitado ainda traz as marcas e as chagas da sua paixão. A ressurreição de Jesus não o fez retroagir ao passado, como se sua morte nunca tivesse acontecido. Pelo contrário, venceu a morte e ainda traz as marcas da crucificação. O Jesus ressuscitado não virou anjo; ele continua sendo homem. A ressurreição de Jesus muda o nosso olhar sobre o homem. As chagas de Jesus dizem que o ressuscitado carrega em si todas as chagas de todos os humilhados do mundo. Elas dizem também que nenhuma chaga, por mais injusta e humilhante que seja, pode nos impedir de nos tornarmos pessoas de cabeça erguida no coração do mundo. De agora em diante, nenhuma das nossas chagas pode nos impedir de ser livres: Jesus ressuscitado é, em primeiro lugar, aquele que carrega as chagas da nossa condição humana. De maneira clara, não esperemos nos livrar dos nossos males para vivermos de cabeça erguida. Jesus ressuscitou e é hoje que, mesmo com as nossas chagas, podemos nascer para a liberdade.”

sábado, 5 de abril de 2014

Um jornal sem jornalistas

Upworthy, o site de maior crescimento na historia da internet, se faz sem jornalistas. Lançado em 2012, atingiu, em novembro de 2013, 87 milhões de visitantes.
por Emir Sader em 05/04/2014 às 15:44

Upworthy, o site de maior crescimento na historia da internet, se faz sem jornalistas. Lançado em março de 2012, ele atingiu, em novembro do ano passado, 87 milhões de visitantes únicos, quase três vezes mais do que o site do New York Times, e gerou 17 milhões de compartilhamentos no Facebook, publicando apenas 225 artigos.
Para se ter uma comparação, um site como Yahoo coloca, mensalmente, 115 mil artigos e gera menos de 4 milhões de compartilhamentos. A equipe do site, que não conta com nenhum jornalista busca na Internet conteúdos que ela julga interessantes. O objetivo, segundo um dos seus diretores, é “ajudar as pessoas a encontrar conteúdos sérios mas divertidos”.
Eles consideram que vale mais a pena menos conteúdos de boa qualidade do que bombardear o publico com milhares de artigos de má qualidade. A estrutura dos textos do Upworthy é sempre a mesma: duas frases curtas, do tipo: “Nós não ouvimos devidamente a voz do ameríndios. Eis a mensagem edificange de um deles.” Eles pretendem fazer com que as pessoas se interessem por temas importantes.
Um autor conhecido sobre os circuitos de internet, Johan Berger, lista 6 princípios que tornariam um texto um viral: o valor social, a facilidade de memorização, a ressonância afetiva, a possibilidade de observação (o fato de que se trata de um tema evidente para todos), a utilidade e o estilo narrativo.
Upworthy se vale do papel chave da viralidade para a difusão das informações. Eles consideram que cada vez menos pessoas leem uma história se ela não está postada por alguém em alguma das redes sociais. As historias se tornam populares se as pessoas as compartilham no Facebook, no Twitter ou em alguma outra das redes sociais.

A PALAVRA... Nº 562. Os amigos de Jesus não morrem.

SANTA TERESA DE JESUS: V Centenário- 03

segunda-feira, 31 de março de 2014

A ORAÇÃO NAS ORIGENS E NA REGRA DO CARMELO

A. Como abelhas do Senhor
1. Na base da oração-contemplação vivida no Carmelo encontramos a experiência e o modo de entendê-la dos eremitas que, no final do século XII e nos primeiros decênios do século seguinte, viviam à imitação do Profeta Elias, no Monte Carmelo, perto da fonte chamada de Elias, - “Em pequenas celas, semelhantes a alvéolos, como abelhas do Senhor, recolhendo o mel divino da doçura espiritual” (Jacques de Vitry) - esforçando-se continuamente para assimilar o modo de ser de Cristo.
2. Esta atitude dos primeiros carmelitas vem codificada na Vitae Formula (depois Regra do Carmo), pelo santo Patriarca de Jerusalém, Alberto de Vercelli, no bem fundamentado discurso sobre a oração, elemento primordial e fundante da vida carmelitana, juntamente com a fraternidade e a diaconia.

B. Perspectiva cristocêntrica
3. O fundamento de todo o discurso albertino é a colocação do Absoluto da experiência humana em Jesus Cristo. Nele adquire sentido a expressão de conotação bíblica (cf. 2Cor 10,5), “Viver em obséquio de Jesus Cristo” (RC, n. 2), aplicado conforme a mentalidade da época medieval: colocando realmente Cristo como início e fim de toda a realidade e de toda a vida carmelitana.
4. O centro vital da proposta é a Eucaristia (cf. RC, n. 14), compreendida não como simples rito, mas como realidade que constrói a Igreja, cujo significado está expresso no simbolismo do convergir quotidano para a capela ou oratório, construído no meio das celas.
5. O discurso sobre a oração no Carmelo não pode ser compreendido sem esta sua característica cristocêntrica e sem a referência eclesial do mesmo.

C. A estrutura dinâmica da oração segundo a Regra
6. Situando-se o exame de todos os elementos (indicações e prescrições sobre a oração na Regra, no contexto do primeiro grupo carmelitano (cf. espiritualidade da peregrinação), encontramos mais que evidente o seu caráter cristológico que unifica o empenho concreto (estrutura e formas de oração) e exige a encarnação na realidade onde está se formando a Igreja, corpo místico e total de Cristo. Em todo o discurso feito, através do estudo da Regra sobre a oração, é possível individuar a estrutura dinâmica que vem proposta ao carmelita como caminho - itinerário de crescimento em direção à plenitude de vida e a comunhão com Deus e o seu mistério.

7. São elementos desta estrutura dinâmica:
• a atitude dialógica de escuta e de acolhimento da Palavra (RC, nn. 10, 11, 14, 24);
• a busca de Deus no quotidiano, baseada na interiorização (RC, nn.18-19; cf. também a espiritualidade do caminho-peregrinação);
• a abertura ao diálogo e à familiaridade com Deus que conduz à dimensão mais profunda e total da contemplação, colocando a pessoa não somente em relação dialógica e amorosa com Deus, mas também, conduzindo-a a viver em sua presença e a fazer tudo em nome do Senhor (isto emerge da contemplatio —> sapientia —> conformatio, conforme os nn. 10, 18-19).
8. A dinâmica da oração apresenta harmonia equilibrada e interação :

• entre a contemplação e a ação (a antinomia ou dicotomia entre contemplação e ação é desconhecida na Regra. Fica claro em todo o conjunto do “discurso” que esta é problemática mais tardia na vida da Ordem);
• entre a vida litúrgica e a oração individual/pessoal (nn. 10-14);
• entre indivíduo e comunidade (nn. 10, 11, 12, 14, 15);
• entre momento presente e futuro escatológico (cf. n. 24).

D. No sulco da perspectiva monástica
9. A dinâmica da oração que vem da Regra é apresentada fundamentalmente, e antes de tudo, com o caráter de continuidade segundo a oração monástica medieval e seu relativo modo de conceber a relação entre a oração e a própria vida monástica .
10.Isto está claramente indicado no texto albertino. O Carmelita realiza o seu ideal da oração contínua na tríade “lectio divina-vigilias-salmos” e na vital e harmônica relação entre a oração privada e a comunitária. Tal tríade e tal relação devem ser interpretadas no contexto monástico da oração contínua da qual S. Alberto usa a própria terminologia:
• Havia já nas primeiras comunidades cristãs uma preocupação de “orar sem cessar” (Lc 18,1). Continuando-se os usos da sinagoga e sob os desafios judaico-cristãos, a solução para isto foi encontrada no dedicar à oração alguns dias ou momentos especiais e algumas horas do dia (hora terça, hora sexta, hora nona). A esta última prática se interpreta, atribuindo-lhe um valor trinitário, assumindo ainda o seu simbolismo, o significado de plenitude da oração “contínua” (“3” é símbolo de perfeição). Na práxis, a esta oração comunitária acrescenta-se o uso da oração privada pela manhã, ao levantar do sol e à noite, ao cair da tarde. Outra referência é também aquela relativa à ressurreição (manhã) e ao advento final de Cristo (noite) na perspectiva de uma tensão escatológica da oração enquanto momento salvífico. Afirma-se ainda, para a oração “contínua”, a necessidade de que seja “pessoal”, com profunda interação entre as duas dimensões da pessoa individual e comunitária.
 • A preocupação da oração “contínua” é também dominante no mundo monástico, no qual se seguem duas pistas de solução não opostas e que se realizam entre ambas:
- a oração coral ininterrupta (isto é feita por turnos contínuos de grupos de monges ou em 7 vezes (número perfeito), como parte mesma do louvor “Opus et Laus Dei”.
- a oração contínua no espaço privado do monge, “no segredo do coração” e caminho da interioridade, é também apresentada por três exercícios (outro número perfeito que indica plenitude): lectio divina, salmos e vigílias.
11. A oração contínua vem a ser o “banco de prova” do monge e o elemento que caracteriza e resume sua vida. Pela forma como o monge considera a oração “contínua” (como atitude de atenção contínua a Deus, ou seja como “Vacare Deo”) emergem dois aspectos integrantes entre si:

• a oração como evento da história da salvação:
- os diversos nomes da oração monástica, do início ao fim, indicam aspectos-gestos-fases de uma mesma realidade do mistério salvífico.
- a divisão ente oração privada e litúrgica, que vem em seguida, mantendo entre si uma profunda integração.
- há também uma integração feita através da oração, entre o momento da experiência feita e a atualização da ação salvífica de Deus.
• a oração como expectativa escatológica e busca da “semelhança com Deus”:
- esta expectativa e retorno são realizados no momento concreto do quotidiano, no qual se constrói o futuro;
- a oração nesta prospectiva - como exercício do monge - é inseparável dos demais exercícios comuns da vida quotidiana (trabalho, etc.). Para chegar a isto insiste-se no recolhimento (como separação dos rumores e da agitação secular), na ascese (com a prática do jejum, vigílias, mortificações ou penitências corporais), na observância monástica (que compreende silêncio, purificação do coração, humildade, compunção, paciência).
- nesta unidade de vida a oração não é alienante, nem intimista, porém encarnada, ligada à vida e à realidade na qual se constrói o futuro.
12. No mundo monástico, obviamente, existiram problemas, sombras e luzes, no tecido deste ideal da “oração contínua”. Levando-se em conta esta situação, o texto albertino oferece oportunamente estruturas eremítico-cenobitícas (equilibradas em 1247 com a adaptação mendicante) e meios para o desenvolvimento da oração: o silêncio, a solidão, a mortificação corporal e o trabalho (cf. nn. 5, 6, 8, 16, 17 e 21).
E. A atitude dinâmica do “Vacare Deo”
13. Na Regra Carmelitana a oração, antes de ser um precioso exercício, constitui-se numa postura dinâmica no sentido do “Vacare Deo”, com seu caráter de continuidade, conduzindo a uma dependência de Deus, buscado na própria vida, em cada situação e aspecto da realidade quotidiana.
14. Por isto, segundo a Regra, o carmelita deve concretizar a oração numa atitude vital, tornando-se sempre disponível ao encontro com o Senhor, deixando-se tomar e conduzir por Ele, saboreando sua presença, buscada e experimentada na realidade da vida, nas várias circunstâncias que formam o seu quotidiano.
15. O “Vacare Deo” produz, como conseqüência, o desenvolvimento mais profundo da dimensão contemplativa do ser humano, levando-o à total transformação de seu mundo relacional: sair dos próprios esquemas mentais para, em Deus, ver a realidade com os seus “olhos” e amá-la com o seu “coração”, em cada um dos momentos da vida que se tornam momentos de salvação, doados a cada um, “enquanto espera o retorno definitivo do Senhor” (Regra, n. 24).

APROFUNDAMENTO E INTERIORIZAÇÃO

1 - Para pesquisar e partilhar ou fazer em grupos, como forma de aprofundamento:
• Segundo a Regra do Carmo a oração sempre é feita na perspectiva cristocêntrica, com um único e grande objetivo:“Viver em obséquio de Jesus Cristo” (prólogo citando 2Cor 10,5). Do que aprendeu na contemplação de Jesus Cristo, que aspectos lhe poderão ser úteis para a vivência carmelitana?
• Tomar os nn. 10, 11, 14 e 18-19 da Regra e verificar o que propõem a cada um de nós para a realização de nosso ser na vida Carmelitana.
• Ilustrar com fatos as seguintes afirmações (buscar testemunhos de nossos místicos - palavras ou exemplos):
- “A oração é o banco de prova da vida carmelitana”.
- “A oração do carmelita é um caminho excelente para a interiorização da Palavra de Deus e um testemunho de consagração a Ele”.
- “Para o Carmelita a oração não constitui um precioso exercício, mas consiste numa delicada e contínua atenção a Deus, para viver inteiramente em sua presença e conforme seu desígnio”.

• Considerando o ser humano em suas dimensões terrestre e escatológica, o n. 24 da Regra do Carmo faz duas importantes recomendações: (1) “fazer mais e colocar-se na expectativa da vinda do Senhor...” (2) “ser generoso, porém com discrição”. Qual é a função da oração em nossa vida em vista do atendimento destas recomendações?
• O Carmelita dos primeiros tempos não cria, nem teórica nem praticamente, problemas de antinomia entre a oração e o resto da vida (trabalhos, apostolado). Levando a sério o seu compromisso com Deus une perfeitamente:
- contemplação e ação
- vida litúrgica e oração individual
- vida em comunidade e solidão
- momento presente e futuro escatológico
Analise estes aspectos, ilustrando a possibilidade de harmonia entre os mesmos, com textos extraídos da Sagrada Escritura.
• Se você fosse escrever uma Regra Carmelitana, com base no que refletiu sobre a oração:
- o que confirmaria, em relação à oração?
- a que daria mais ênfase?
- o que acharia supérfluo, incompleto ou superado?
2 - As questões que seguem são para reflexão individual, anotação no próprio diário espiritual e partilha com o Mestre ou diretor espiritual. Esta parte deve ser feita com serenidade, em momentos de solidão previstos para o cuidado da vida espiritual do formando.
• Tomar como oração preparatória os textos bíblicos:
* 1Pe 2, 5-12 - Convite a viver em Cristo, como pedras vivas
* 2Pe 2, 1-10 - Revelação do poder da fé
* Jo 2, 1-11 - A postura e a prece de Maria em Caná
• Sendo a Eucaristia o centro da vida carmelitana, verificar como assume a sua preparação e participação na mesma. De que forma a prolonga no seu dia-a-dia?
• Verifique quais são os entraves ao silêncio interior que o impedem de ouvir a Palavra de Deus. Busque inspiração na leitura de “O silêncio na vida carmelitana”.
• Como você concilia em seu ser a oração litúrgica e a oração individual? De que forma uma enriquece a outra?
• Você tem experimentado a “Lectio Divina” como alimento da prática da oração contínua? Que dificuldades encontra para experimentar com fidelidade esta forma de oração? Que atitudes alimenta em sua vida?

PS: Feitos os exercícios não deixe de procurar ajuda com seu orientador espiritual. Ela é indispensável para o seu crescimento humano-espiritual-carmelitano.
Procure tirar as dúvidas, partilhar suas descobertas, desafios, dificuldades, expectativas, compromissos.


A PALAVRA... Nº 558. Aparecida do Norte.


ORDEM TERCEIRA: Assembleia Capitular-02

SANTA TERESA DE JESUS: V Centenário- 01.

A PALAVRA... Nº 557. 4º Domingo da Quaresma.

ORDEM TERCEIRA: Assembleia Capitular-04

terça-feira, 25 de março de 2014

Papa faz reflexão sobre encontro de Jesus com a Samaritana


Mais de 40 mil fiéis acompanharam a oração mariana do Angelus, na Praça de São Pedro, no Vaticano, no domingo, 23. O papa Francisco trouxe como tema de reflexão a passagem do Evangelho que retrata o encontro de Jesus com a Samaritana junto ao poço em Sicar.

Francisco observou que o pedido de Jesus à Samaritana – “Dá-me de beber“ - supera todas as barreiras de hostilidade entre judeus e samaritanos e rompe os esquemas de preconceito em relação às mulheres.

“O simples pedido de Jesus é o início de um diálogo sincero, mediante o qual Ele, com grande delicadeza, entra no mundo interior de uma pessoa à qual, segundo os esquemas sociais, não deveria nem mesmo dirigir uma palavra. Jesus se coloca no lugar dela, não a julgando, mas  fazendo sentir-se considerada, reconhecida, e suscitando assim nela o desejo de ir além da rotina cotidiana”, disse.

O papa explicou que ao pedir água à Samaritana, Jesus queria “abrir-lhe o coração”, “colocar em evidência a sede que havia nela”. “A sede de Jesus não era tanto de água, mas de encontrar uma alma sequiosa”, afirmou o papa.

A passagem do Evangelho conta que os discípulos ficaram maravilhados com o Mestre, pois tinha falado com aquela mulher. Mas, “o Senhor é maior do que os preconceitos. E isto devemos aprender bem” – exortou Francisco -, pois a misericórdia é maior do que os preconceitos”. Segundo o papa, o resultado do encontro junto ao poço foi o de uma mulher transformada.

“Deixou o seu jarro com o qual ia buscar água e correu à cidade para contar a sua experiência extraordinária. ‘Encontrei um homem que me disse todas as coisas que eu fiz. Era o Messias? Estava entusiasmada. Foi buscar água no poço e encontrou uma outra água, a água viva da misericórdia que jorra para a vida eterna. Encontrou a água que sempre procurou! Corre ao vilarejo, aquele vilarejo que a julgava, a condenava e a rejeitava, e anuncia que encontrou o Messias: alguém que mudou a sua vida. Pois cada encontro com Jesus nos muda a vida, sempre. É um passo em frente, um passo mais próximo a Deus”, acrescentou.

“Encontramos também nós o estímulo para ‘deixar o nosso jarro’, símbolo de tudo aquilo que aparentemente é importante, mas que perde valor diante do ‘amor de Deus’, e todos temos um, ou mais de um jarro", ressaltou Francisco.  

“Eu pergunto a vocês e também a mim: ‘Qual é o teu jarro interior, aquele que te pesa, aquele que te afasta de Deus? Deixemo-lo um pouco de lado e com o coração escutemos a voz de Jesus que nos oferece uma outra água, uma outra água que nos aproxima do Senhor”, disse.

De acordo com Francisco, todos são chamados a redescobrir a importância e o sentido da vida cristã, iniciada no Batismo, e a testemunhar como a Samaritana, "a alegria do encontro com Jesus e as maravilhas que o seu amor realiza".

Ao final do Angelus, o papa Francisco recordou o Dia Mundial da Tuberculose celebrado nesta segunda-feira, 24, e pediu orações por todas as pessoas atingidas pela doença e por todos que de alguma maneira se ocupam delas.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Oscar Romero, modelo profeta para hoje


Oscar Romero, modelo profeta para hoje
Dom Gregorio Rosa, amigo e colaborador do arcebispo salvadorenho, veio a Portugal, a convite dos Missionários da Consolata, para falar sobre pensamento e espiritualidade do homem de Igreja assassinado há 33 anos

 
OC/Agência ECCLESIAAgência ECCLESIA – Como conheceu D. Oscar Romero?
D. Gregorio Rosa –Ele era um sacerdote, quando eu o conheci – ele tinha 40 anos e eu tinha 15 anos, quando começava os meus estudos no seminário menor. Depois trabalhei com ele um ano inteiro no seminário menor de San Miguel, como seu assistente, em 1968, e tornamo-nos amigos.
No seu diário, o meu nome aparece muitas vezes, porque éramos muito próximos. Aparece sobretudo quando Romero era arcebispo e tinha de preparar relatórios para Roma, a fim de explicar-se e defender-se de ataques injustos que chegavam contra ele. Isso aparece no diário, era uma experiência de amizade muito profunda e uma graça para mim, muito especial.

AE – O percurso de vida de D. Oscar Romero ficou marcado por incompreensões, dúvidas. Pensa que ainda hoje há gente na Igreja e não só que não entendeu esta figura?
GR – Eu também sou jornalista e preparei com ele muitas vezes um programa de rádio, de 30 minutos, que era transmitido todas as semanas. Fazia questões muito provocadoras a Romero e uma vez perguntei-lhe: você transformou-se, monsenhor? Ele respondeu-me que não diria que era uma transformação, mas uma evolução.
Esta mesma ideia aparece num documentário da televisão suíça em 1979, um ano antes de morrer. Perguntam-lhe a mesma coisa e ele diz com mais pormenor como, quando era bispo no interior do país (Tambeae, ndr), via as coisas de uma forma e quando chegou a arcebispo e está na capital, descobre de forma brutal o que é a violência estrutural, o que chama de injustiça institucionalizada. E descobre que tem uma vocação, a de acompanhar o povo que está esmagado pela violência, pela repressão, pelos esquadrões da morte, e ser voz dos que não têm voz.
Romero vai evoluindo para uma missão profética – os profetas nunca são compreendidos -, ele nas suas homilias fala muito do tema do profeta e compara a missão de Jesus com a missão dos profetas. Ele foi um profeta e por isso foi incompreendido, perseguido, foi assassinado: é muito fácil perceber, a partir daí, o que foi a missão de Romero, o que foi a sua opção, a sua vida, também o seu martírio, um profeta fiel à sua missão, porque foi acima de tudo um discípulo de Jesus Cristo.
AE – Esse martírio aconteceu já há 33. Porque há tantas dificuldades no processo de beatificação de D. Oscar Romero?
GR – Essa pergunta aparece permanentemente e vou aprendendo a responder com elementos novos. Quero fazer uma breve história deste facto: Romero foi incompreendido em primeiro lugar pelos seus próprios irmãos bispos – quando era arcebispo, eram seis bispos no país (El Salvador, ndr), quatro contra dois, tinha apenas um bispo a seu favor (05h00), que foi depois seu sucessor em San Salvador (D. Arturo Rivera Damas), quando havia votações, perdia sempre. Este é um ponto importante.
Ele disse uma vez, falando com jovens de um colégio católico: “Para uns sou a causa de todos os males do país, para outros sou o pastor que acompanha o povo”. Portanto, há duas visões sobre Romero, o homem recusado e o homem amado como pastor.
Depois, há um segundo momento: Romero é assassinado por um grupo preparado por um militar (Roberto D'Aubuisson) que fundou um partido político (ARENA), e esse partido chegou ao Governo, governando durante 20 anos. Nunca nesses 20 ano se interessou por Romero, pelo contrário, interessou-se em ir contra ele, já que tinha morrido por causa deles. Por isso, Roma nunca teve um sinal positivo sobre a canonização por parte do Governo, porque Romero era um inimigo.
Há quatro anos, temos um primeiro Governo de esquerda, que levou Romero a sério. O presidente (Mauricio) Funes, no dia da sua proclamação, disse: Romero é a minha inspiração, o meu modelo, e quero como ele optar pelos pobres e seguir os seus ensinamentos. Assim, Roma começa a ouvir algo diferente, nos últimos anos.
Um terceiro elemento é que Romero é um Santo incómodo, os profetas são incómodos. Não é Madre Teresa de Calcutá, é outra coisa, por isso é um profeta que, como Jeremias, é incómodo e querem acabar com ele. Estes santos desinstalam-nos, tiram-nos do sítio, obrigam-nos a rever a nossa vida medíocre.
Isso também foi um fator contra Romero, mas ao mesmo tempo há uma corrente cada vez maior em seu favor e os Papas foram entendendo isto. O Papa João Paulo II entendeu Romero a partir do ano de 1983, quando visitou o seu túmulo pela primeira vez, e acabou por compreendê-lo bem a partir dos anos 2000 e 2001, quando disse que era um mártir da Igreja.
Tenho os testemunhos diretos dessa visão do Papa: não foi fácil para o Papa João Paulo II entender como é que um bispo é morto por cristãos, como eram os comunistas de El Salvador – que não eram como os da Polónia ou da Europa de Leste -, era outra coisa. Finalmente foi-o compreendendo, era outra visão do que era a esquerda, é um problema complexo que se foi esclarecendo, pouco a pouco.
AE – Essa visita de João Paulo II ao túmulo de D. Oscar Romero, em 1983, foi um momento de tensão…
GR – O que é surpreendente é o que conta o seu secretário pessoal, Dom Estanislau (Dziwisz), agora arcebispo de Cracóvia, num livro que se intitula ‘Uma vida com Karol’. Há um capítulo dedicado ao martírio, no qual fala de apenas um mártir, Romero, e relata dois factos relacionados com o Papa João Paulo II, que é importante partilhar com quem está a ver este programa.
O primeiro é do ano 1983: conta ele que antes da visita a El Salvador, disseram ao Papa que não convinha que visitasse o túmulo de Romero, porque esse era um tema muito politizado, e o Papa respondeu: Como não o vou visitar, se morreu no altar, durante a Eucaristia?
Houve pressões no país para que não fosse ao túmulo de Romero e quero contar uma história: para preparar essa visita, houve uma comissão mista, Governo-Igreja, para tratar da segurança, do protocolo, etc., e eu fui um dos encarregados. Estávamos reunidos quando chegou uma nota da Nunciatura que dizia que o Papa gostaria de visitar o túmulo. Diziam que não era adequado, que era perigoso, que não havia condições, que não o devia visitar.
Numa segunda reunião, chegou outra nota da Nunciatura onde se dizia que o Papa visitará o túmulo. Visitará. Então, negociamos com o Governo que a visita não seria publicada no programa, que seria privada e confidencial, digamos. A 6 de março de 1983, quando chega o dia da visita do Papa, prevista para depois do almoço, o cardeal Tucci disse-me de manhã: “Vamos já para a Catedral”. João Paulo II chegou ao túmulo quando não estava ninguém à sua espera.
Outro facto aconteceu no ano 2000, com o Jubileu dos Mártires, a 7 de maio, no Coliseu. Na quarta-feira anterior, anunciou-se na sala de imprensa da Santa Sé como seria a cerimónia, uma grande paraliturgia, e falou-se de cada continente, quem ia ser evocado como mártir. Na América Latina, são mencionados três nomes de bispos, mas não apareceu o de Romero, e os jornalistas perguntaram porque é que não estava. Houve uma reação em Roma, muito forte, de protesto.
Dois dias depois, o Papa convidou vários cardeais, para jantar, entre eles o cardeal Kasper, que também me contou o que vem no livro: João Paulo II pediu o livro que ia ser usado na cerimónia dos mártires, procurou a página da América Latina e a oração conclusiva dessa secção, onde escreveu “bispos como o inesquecível monsenhor Romero, que entregou a sua vida no altar”. E teve de se fazer um novo folheto.
Nós temos os dois folhetos, o que se ia utilizar, sem referência a Romero, e o que se usou, mencionando-o. Foi o único nome evocado.
Há um último dado, de que sou testemunha pessoal, no ano 2001, mês de novembro. Temos visita ‘ad Limina’ com João Paulo II, a última que lhe fizemos, e no momento pessoal com o Papa, o arcebispo (Fernando Sáenz Lacalle) chega e eu vou com ele. O Papa está muito cansado, muito doente, não reage ao que diz o arcebispo, mas de repente levanta a cabeça e pergunta: E Monsenhor Romero?
O arcebispo responde: Estamos a falar sobre a devoção, não sabemos se há algum milagre por sua intercessão…
O Papa pôs-se de pé, pega na bengala e diz: É um martírio. E vai-se embora.
São dados do pontificado de João Paulo II que indicam que ele foi compreendendo e chegou à convicção de que Romero é um mártir. São dados interessantes, totalmente comprovados, que indicam uma evolução no Papa: ele entendeu o que se passou com Romero e chegou à conclusão de que é um mártir da Igreja.
 Agência ECCLESIA –Que atualidade tem este arcebispo assassinado no altar para uma jovem geração que nunca teve contacto com ele?
GR – Vou responder com uma história do ano 2000. Nesse ano, no 20.º aniversário (da morte) de Romero, houve uma grande marcha nas ruas de San Salvador, com archotes. Havia bispos italianos na marcha e eu estava a celebrar em Roma. Quando eles voltaram, emocionados, os bispos vinham surpreendidos porque os jovens gritavam na marcha “Sente-se, sente-se, Romero está presente”.
Os jovens de hoje estão a conhecer Romero e entusiasmam-se com ele, porque veem um homem coerente com as suas convicções, um homem que é fiel ao ser humano e defende os Direitos Humanos, que é fiel a Jesus Cristo, que é fiel à Igreja e dá a vida por esses ideais.
Os jovens precisam de algo que dê sentido à sua vida e veem em Romero um discípulo de Jesus Cristo que é coerente com o que diz, com o que faz, e as pessoas precisam de modelos assim. Hoje vivemos num mundo que não tem modelos, não tem líderes. Romero é um líder, um modelo para os jovens de hoje, para as pessoas, e por isso é um santo muito atual.
É espantoso que mesmo no mundo dos não crentes, Romero seja uma inspiração, pelo que estamos em muito boa companhia e com o Papa Francisco temos, penso, o melhor momento para que o processo de canonização possa avançar até ao final.

 

34 ANOS DEPOIS: (24/03/1980- 24/03/2014: Dom Oscar Romero ajudou a fortalecer o compromisso com os mais pobres.


Ao passar sua mensagem de paz e justiça ao povo salvadorenho, Dom Romero nos deixou um legado importante de amor e luta. Um exemplo desse legado foi vivido por Anne Marie Crosville. A francesa conheceu Dom Romero numa favela no México e, neste momento, recebeu um convite para lutar junto com os salvadorenhos e levar a mensagem de que este povo lutava por paz e justiça à Europa. Anne Marie conta essa história e tudo o que aprendeu com Dom Romero nesta entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line. “O exemplo de Dom Oscar Romero me ajudou a melhorar e fortalecer meu compromisso ao lado dos mais pobres”, disse ela.
Anne Marie Crosville nasceu na França e é pedagoga. Ela já viveu em vários países do mundo. Hoje, mora em Cachoeirinha, região metropolitana de Porto Alegre, onde está à frente do Centro Infanto-Juvenil Luiz Itamar desde 1988.

Confira a entrevista.
A senhora trabalhou com Dom Romero, certo? Pode nos contar um pouco sobre como era ele?

Anne Marie – Eu conheci Dom Romero quando estava no México trabalhando numa favela com crianças e adolescentes de rua. Ele chegou a nosso bairro para visitar as famílias salvadorenhas que fugiam da guerra e da violência. Tinha sempre a preocupação de visitar seu povo e defender a vida deles contra a ditadura. Então, tive a oportunidade de conhecê-lo. Passei uma semana com ele em torno do bairro, mas não cheguei a trabalhar diretamente. Dom Romero me fez um convite para me solidarizar com o povo salvadorenho e poder ser sua mensageira quando voltasse para a Europa. Eu deveria dizer que o povo salvadorenho lutaria por justiça, dignidade e se voltaria contra a ditadura. Ele me fez esse convite para ser testemunha da luta do povo salvadorenho. O pedido mexeu muito comigo e, num primeiro momento, falei que não tinha vocação, que era um compromisso muito grande. Ele me disse, com sua voz muito terna e firme: “O convite está feito, mas você tem que pensar, pois precisamos de estrangeiros que apoiem essa luta tão sofrida”. Em setembro de 1979, ele me fez o convite e, em 24 de março de 1980, foi assassinado, o que foi muito forte para mim. Fui para El salvador depois e senti que era um chamado fazer essa experiência e apoiar o povo salvadorenho. Em 1983, entrei na zona de guerra e fiz um trabalho de alfabetização. O exemplo de Dom Oscar Romero me ajudou a melhorar e fortalecer meu compromisso ao lado dos mais pobres. Ele sempre estava lá pela Igreja e dizia que um Bispo não estava a serviço do poder, mas sim a serviço da vida.

Quais foram às circunstâncias do martírio de Dom Romero?
Anne Marie –
Ele foi ameaçado várias vezes de morte porque defendia sempre o povo. Falava na rádio todos os domingos, tratando da paz com justiça e dignidade, não como uma paz dos cemitérios. Na última homilia, falava para os soldados do exército que não podia continuar obedecendo à lei dos militares e dos comandantes, que tinham uma lei que matava os próprios irmãos, uma vez que os soldados eram originários do campo. Aos soldados, quando viviam no campo, diziam que iam ganhar muito dinheiro se aceitassem participar do exército militar. Ele falou para os soldados: “Vocês estão matando seus próprios irmãos. A lei de Deus é a lei da Fraternidade e da Justiça". Então você não pode obedecer a lei da morte. Assim, ele pediu para os soldados desobedecerem. Essas foram suas últimas palavras no rádio. No dia seguinte, ele celebrou uma missa num hospital onde morava. Romero tinha um quarto nesse hospital e durante a consagração o mataram a tiros. Ofereceu seu sangue, que se misturou ao sangue de Jesus. Até hoje, aqueles que o mataram estão soltos. Foi um choque muito grande para o povo, para os mais pobres, porque ele era a voz da justiça e do amor. No enterro dele, houve outro massacre, pois havia muitas pessoas presentes e cerca de 400 delas foram assassinadas. Isso porque havia franco-atiradores da oligarquia em cima dos telhados, matando aqueles que queriam homenagear Dom Romero.

O contexto em que viveu Oscar Romero é diferente do atual?
Anne Marie – O contexto em que ele viveu era de guerra civil. É um país que viveu muitos terremotos e sua construção é muito difícil, mas a esperança de agora é que o novo presidente, que ganhou a eleição recente, Mauricio Funes, mude a realidade. Depois de tantos anos de luta, agora a esquerda socialista ganhou a presidência. Eu tive de sair de lá em 1985, voltei dez anos depois e percebi que o povo continuava lutando pela reconstrução do país. Temos esperanças grandes no povo salvadorenho.

E, depois que Dom Romero morreu, que caminho a senhora percorreu?
Anne Marie –
Eu respondi ao convite que ele me fez uns meses antes. Senti o chamado. Me preparei para entrar na zona de guerra, entrei clandestinamente e fiz todo um trabalho de alfabetização dos combatentes. Eu não combatia com armas, mas sim para fazer acontecer a libertação através da educação. Acompanhei esse povo durante alguns anos. Para mim, foi a coisa mais forte da minha vida,pois acompanhei o povo de verdade,e o povo lutava para construir uma sociedade mais justa. Quando tínhamos de fugir dos militares que entravam nos acampamentos dos guerrilheiros, parecia que estávamos aminhando até a terra prometida. Foi muito forte isso em mim, marcou e renovou minha fé e meu compromisso ao lado dos pobres. Aprendi com os salvadorenhos que, a cada vez que caíam, não se falava de morte. Foi uma época muito intensa, mas tive de sair porque fui denunciada. Fui procurada, mas consegui sair e voltar para a França.

E por que a senhora veio para o Brasil depois?
Anne Marie – Eu trabalho em Cachoeirinha, na Vila Anair, um bairro bem pobre. Trabalho com crianças e adolescentes desfavorecidos. Vim para o Brasil só porque conheci um brasileiro daqui de Cachoeirinha. Foi uma escolha de amor. Ele era da fraternidade cristã de doentes e deficientes. Era uma pessoa parecida, talvez, com Oscar Romero, pois defendia a vida a partir de suas limitações, porque ele era tetraplégico. Ele teve esclerose e o conheci nos últimos anos de sua vida. Era quase totalmente paralisado, mas tinha uma força de vida, um sorriso... não sei, foi um amor bem bonito, intenso, mas durou pouco. Romero morreu em 1989, e ficamos um ano construindo esse projeto nessa vila onde estou. Ele deixou uma mensagem de lutar também por uma vida melhor.

E como à senhora vê a El Salvador de hoje, que acaba de colocar na presidência do país a linha que tem em Dom Romero o seu protagonista maior?
Anne Marie –Vejo o país com esperança, porque agora o presidente é da esquerda, da linha de Oscar Romero, se é que podemos dizer assim, pois ele não era de um partido, mas sim a favor da vida. Acho que essa vitória é um misto de promessa de vida melhor e uma recompensa para tanta gente que lutou. Eu tenho muita esperança apesar de ser cautelosa, pois não sei o que irá acontecer. Tenho muita fé de que o povo poderá viver um pouco melhor.
Que legado Dom Romero deixou, em sua opinião?
Anne Marie – Romero deixou bem claro que o compromisso nosso é estar ao lado dos mais pobres e dos que sofrem injustiça. É ir na contramão do poder dos ricos e dos conservadores. É amar com justiça e com dignidade, respeitar a cultura do povo e acompanhá-lo na sua vida cotidiana, sem importa uma doutrina. Ele deixou bem claro que quem não segue a vida com justiça não é cristão.