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sábado, 7 de junho de 2014

Pentecostes. O perdão para recriar o mundo

O Pentecostes é uma festa pascal; ela é o desenvolvimento do mistério da Páscoa. Não é uma festa independente do Espírito Santo; é a festa do Senhor ressuscitado que dá aos discípulos o seu Espírito, que é o Espírito de Deus Pai. É por isso que esta festa se situa, ao mesmo tempo, na noite da Páscoa no evangelho de São João, e 50 dias depois da Páscoa no livro dos Atos dos Apóstolos, inclusive na cruz da Sexta-Feira Santa em todos os evangelistas.
A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do Domingo de Pentecostes – Ciclo A do Ano Litúrgico (08 de junho de 2014). A tradução é de André Langer.
Referências bíblicas:
Primeira leitura: At 2,1-11
Segunda leitura: 1 Cor 12,3b-7.12-13
Evangelho: Jo 20,19-23

Eis o texto.
O Pentecostes é uma festa pascal; ela é o desenvolvimento do mistério da Páscoa. Não é uma festa independente do Espírito Santo; é a festa do Senhor ressuscitado que dá aos discípulos o seu Espírito, que é o Espírito de Deus Pai. É por isso que esta festa se situa, ao mesmo tempo, na noite da Páscoa no evangelho de São João, e 50 dias depois da Páscoa no livro dos Atos dos Apóstolos, inclusive na cruz da Sexta-Feira Santa em todos os evangelistas, em particular em João: “Tudo está realizado. E inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19,30).
No mistério pascal, todos os elementos desse mistério – a Morte, a Ressurreição, a Ascensão e o Pentecostes – são tão importantes que os primeiros cristãos fizeram deles acontecimentos distintos separados no tempo: três dias para a Ressurreição, 40 dias para a Ascensão e 50 dias para o Pentecostes. Mas, na realidade, trata-se de um mesmo e único acontecimento teológico que nos fala simultaneamente de Deus, do homem, de Cristo e da Igreja. Não há, portanto, contradições entre os escritos e seus autores; encontramos simplesmente maneiras diferentes de descrever a riqueza do mistério cristão.
Desde o início do tempo pascal, nós lemos os relatos da Páscoa e da Ascensão. Hoje, celebramos o Pentecostes, a festa do Espírito de Cristo, o Espírito de Deus, a festa da Igreja. O que nos dizem os textos bíblicos que a Igreja nos propõe hoje?

1. Atos dos Apóstolos 2,1-11
Neste texto de Lucas, sobre o dom do Espírito Santo dado aos apóstolos reunidos, o autor não procura descrever um acontecimento material e histórico que aconteceu num dado momento da história da Igreja nascente. O fato de que Lucas tenha escolhido compor seu relato por meio de uma série de alusões ao Antigo Testamento, pode desviar a nossa atenção para uma leitura de tipo histórico, que procurasse determinar como as coisas se passaram. Devemos, ao contrário, compreender as mensagens que Lucas quer dar à sua comunidade sobre o papel e a força do Espírito:
1) O Pentecostes judaico celebrava o dom da Lei ao Povo de Israel, o povo da antiga Aliança. O Pentecostes cristão celebra o dom do Espírito ao novo Povo de Deus, a Igreja, o povo da nova Aliança.
2) Assim como Moisés subiu ao Sinai para dar ao povo a Lei de Deus, Cristo subiu ao céu para derramar o Espírito de Deus, o Espírito da nova Aliança.

3) Assim como para Moisés o barulho do trovão e o fogo das luzes acompanham o dom da Lei de Deus, aqui o barulho, o vento e o fogo acompanham a vinda do Espírito Santo.
4) No Sinai, de acordo com tradições judaicas, Deus propôs os mandamentos nas diversas línguas do mundo, mas apenas Israel os aceitou. No livro dos Atos dos Apóstolos, Deus repara esse fracasso: todas as nações compreendem a linguagem do Espírito: “Cheios de espanto e de admiração, diziam: ‘Esses homens que estão falando não são todos galileus? Como é que nós os escutamos na nossa própria língua?’” (At 2,7-8)
5) No Antigo Testamento, as 12 tribos de Israel estão reunidas para ouvir Moisés. Aqui, os 12 povos são chamados para ouvir os 12 apóstolos investidos pelo Espírito do Cristo, proclamar as maravilhas de Deus: “todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua!” (At 2,11b)
Em suma, este relato de Lucas é o inverso de Babel, é a abertura à universalidade e o sopro do Espírito da nova Aliança que abole as fronteiras; não há mais exclusão nem rejeição.

2. 1 Cor 12,3b-7.12-13
Os coríntios acreditavam que o dom do Espírito Santo estava reservado a uma elite. Eles só reconheciam sua presença no sensacional, nos cristãos que tinham o dom de falar em línguas e, particularmente, naqueles que eram eloquentes na animação das assembleias. Paulo quer, aqui, restabelecer a realidade do Espírito Santo:
1) Todo fiel que proclamar que “Jesus é o Senhor” (1 Cor 12,3), é habitado pelo Espírito Santo. Portanto, o mais humilde e o menor dos batizados também recebeu o Espírito Santo.
2) O Espírito, o Senhor e Deus são inseparáveis. Sem mesmo chamá-lo pelo nome, Paulo nos fala da Trindade que se dispensa em carismas: dons da graça, mas o Espírito é o mesmo (v. 4), dons dos serviços na Igreja, mas o Senhor é o mesmo (v. 5) e dons das atividades, mas é o mesmo Deus que as realiza (v. 6). O Espírito põe, portanto, todos os fiéis a agir, cada um segundo seus carismas, em vista do bem de todos (v. 7).
3) Esta unidade na diversidade Paulo a exprime através de uma fábula, conhecida na sua época, sobre o corpo e seus membros, para significar que todos os cristãos, em sua diversidade, pertencem ao mesmo corpo, o Corpo do Cristo ressuscitado. Esta pertença transcende as clivagens étnicas: “De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito” (1 Cor 12,13).

3. João 20,19-23
Para João, é na noite da Páscoa que o Espírito Santo é dado aos discípulos reunidos. Que mensagens podemos tirar dessa passagem bíblica?
1) O medo: os discípulos têm medo, eles são fracos, eles se sentem abandonados. As portas estão trancadas. Apesar disso, Jesus se apresenta a eles (v. 19). É, portanto, na humanidade dos discípulos que Cristo se faz presente.
2) A Paz: duas vezes Cristo oferece a sua paz (vv. 19.21). Mas, por que esta insistência? O sentido bíblico da palavra paz não é a ausência de guerra ou de conflitos; é a plenitude de vida que lembra a presença do Ressuscitado (cf. TOB, Lc 1,79 nota J). É, portanto, a sua Vida de Ressuscitado que Cristo dá aos seus discípulos. É uma promessa de Ressurreição também para eles.

3) A Alegria: João sublinha que o Ressuscitado da Páscoa é o Crucificado da Sexta-Feira Santa: “mostrou-lhes as mãos e o lado” (Jo 20,20a). O evangelista não quer dizer que se trata do cadáver de Jesus reanimado; o Ressuscitado se apresenta como aquele que fica para sempre marcado por sua humanidade, aquele que, pela cruz, testemunhou o Amor infinito de Deus. Do seu lado aberto nasceu a Igreja, ápice do sangue da Vida nova e da água viva do Espírito. Esta é a Alegria pascal experimentada pelos discípulos reunidos na noite da Páscoa.
4) O perdão: o sopro do Cristo sobre os seus discípulos nos remete ao sopro de Deus no Gênesis, sopro que dá a vida ao ser humano. Aqui, o sopro de Cristo significa a Vida nova dada aos discípulos, pelo dom do Espírito Santo, para que advenha um mundo novo. Entretanto, uma coisa é essencial para que nasça esse mundo novo: é o perdão. Deus deve, em primeiro lugar, apagar a nossa história passada, derramando sobre nós o sopro do perdão dos pecados: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20,23). Cabe a nós, portanto, fazer nascer esse mundo novo e é com toda a liberdade que nós podemos fazê-lo ou recusá-lo. Que responsabilidade!
Para terminar, é uma missão que nos é confiada: nós temos a responsabilidade de fazer nascer o mundo novo desejado pelo Cristo da Páscoa. Esta missão é confiada a todos os cristãos em geral e, em particular, aos padres no ministério do perdão. É, portanto, pela nossa abertura ao outro, pela nossa acolhida da sua diferença que nós testemunhamos o Cristo ressuscitado e que nós trabalhamos para fazer nascer esse mundo novo. O Espírito que nos habita não é um Espírito de medo que recusaria a novidade; é um Espírito que nos torna capazes de inventar, criar, decifrar, abrir novos caminhos, a fim de permitir às mulheres e aos homens de hoje encontrar e reconhecer o Cristo sempre vivo através dos seus discípulos. O perdão é fundamental para a recriação do mundo, e o Espírito nos dá a possibilidade de dá-lo ao outro e de recebê-lo do outro, a fim de que nasça esse mundo novo desejado pelo Cristo da Páscoa.
Bom Pentecostes!

sexta-feira, 25 de abril de 2014

2º Domingo da Páscoa: “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20,28)

O Jesus ressuscitado ainda traz as marcas e as chagas da sua paixão. A ressurreição de Jesus não o fez retroagir ao passado, como se sua morte nunca tivesse acontecido. Pelo contrário, venceu a morte e ainda traz as marcas da crucificação. O Jesus ressuscitado não virou anjo; ele continua sendo homem. A ressurreição de Jesus muda o nosso olhar sobre o homem.
A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 2º Domingo da Páscoa – Ciclo A do Ano Litúrgico (27 de abril de 2014). A tradução é de André Langer.

Referência bíblica:
Evangelho: Jo 20,19-31

Eis o texto.
Cada ano, no segundo domingo da Páscoa, nós temos esse belíssimo relato que só se encontra em João, passagem que marcava, originalmente, o fim do seu evangelho. Esta dupla aparição do Ressuscitado aos discípulos, primeiro na ausência de Tomé, e depois na sua presença, nos diz algo sobre a Igreja primitiva, mas também sobre a nossa Igreja hoje. Como em todos os relatos evangélicos, encontramos o testemunho de fé dos primeiros cristãos, e podemos identificar, ao mesmo tempo, mensagens para os cristãos do século XXI.
1.A Ressurreição... uma questão. Ao ler os relatos da Páscoa dos quatro evangelistas, podemos ter a impressão de que a Ressurreição é uma realidade tangível que não deixa margem para dúvidas, de tal modo sua manifestação parece clara: pensemos no tremor de terra evocado por Mateus e o anjo luminoso que vem do céu, enquanto que os soldados que guardam o túmulo tremeram de medo e ficaram como mortos (Mt 28,1-4). De modo especial, não devemos esquecer que esses relatos, escritos muito tempo depois da Páscoa, querem simplesmente expressar a fé na Ressurreição que vai gradativamente se desenvolvendo nas comunidades cristãs e que esses relatos carregam as marcas do autor que os compôs. Portanto, Mateus que era judeu, procura mostrar que o Cristo ressuscitado realiza plenamente os profetas da Antiga Aliança e que ele é o novo Moisés, o libertador do seu povo, da Igreja, o que explica os sinais resplandecentes das teofanias que encontramos nos textos do Antigo Testamento. Por outro lado, nos outros evangelhos, os sinais da Ressurreição são antes necessários e colocam mais perguntas para as quais não têm respostas: um túmulo vazio, em Lucas; o silêncio das mulheres em Marcos; um lençol dobrado no canto, emJoão; uma palavra no caminho, uma partilha do pão, etc. Assim, em todos os evangelhos, as testemunhas devem passar da angústia e da dúvida ao momento em que eles reconhecem que é o Cristo que está aí, que está vivo, que é verdadeiramente ressuscitado. Todos esses testemunhos da primeira hora descobrem aos poucos o caminho da fé. É o que emerge do evangelho de João de hoje.
2. A Ressurreição... uma presença na ausência. Jesus morreu. Ele não pode estar aí fisicamente como antes; ele só pode está aí como depois, isto é, através dos seus discípulos. De fato, os discípulos se sentem sozinhos, nos dizJoão. Eles estão num lugar fechado, com todas as portas trancadas, por causa do medo que sentem (Jo 20,19a). Mesmo assim, o Cristo está no meio deles (Jo 20,19b). Ele é, em primeiro lugar, Palavra: “A paz esteja com vocês!” (Jo 20,19c). Depois destas palavras, ele mostra a sua humanidade ferida (Jo 20,20c). Não esqueçamos que estamos no final do século I, no momento das piores perseguições aos cristãos: na comunidade de João, muitos cristãos martirizados se reúnem, no primeiro dia da semana, no domingo, para recordar o Ausente, isto é, através da Palavra partilhada e do testemunho da sua vida, eles descobrem a presença do Ressuscitado na ausência do Crucificado. Imediatamente, é a alegria experimentada por toda a comunidade reunida (Jo 20,20b).
3. A Ressurreição... uma vida nova. No encontro dominical, os primeiros cristãos tomam consciência de que a missão do Cristo lhes pertence: “Jesus disse novamente: a paz esteja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês” (Jo 20,21). É a nova criação; assim como no tempo da primeira criação, quando Deus sopra nas narinas de Adão para lhe dar a vida, Cristo faz o mesmo com os seus discípulos reunidos: “Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: ‘Recebam o Espírito Santo’” (Jo 20,22).
4. A Ressurreição... uma libertação. Recriados, investidos pelo Espírito de Cristo, os discípulos tornam-se libertadores, capazes de reconciliar e de libertar as pessoas: “Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados” (Jo 20,23). É uma responsabilidade que lhes é confiada, já que os discípulos têm o poder de libertar as pessoas ou de se recusar a fazê-lo, e esta responsabilidade não é reservada apenas aos apóstolos; de agora em diante, todos os discípulos podem e devem fazê-lo, o que significa que ainda hoje somos todos responsáveis pela reconciliação e pela liberdade. Cabe a nós reconciliar as pessoas e de torná-las livres.
5. A comunidade... uma necessidade. A fé cristã não pode ser vivida de maneira isolada; ela tem necessidade dos outros, da comunidade. É o significado da segunda parte do relato de João, onde Tomé, nosso gêmeo, não se encontra com os outros. Esses lhe contaram que o Cristo está vivo e que se faz presente no seu encontro do domingo, mas Tomé na pode crê-lo, porque ele não se encontrou com ele, pois estava ausente dessa reunião. É, pois, no âmago da celebração dominical seguinte que Tomé, desta vez presente, poderá fazer a experiência do Ressuscitado. E temos então a profissão de fé de Tomé em toda a sua solenidade: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28). Mas!!!
6. A fé... um testemunho. Mas!!! O evangelista João parece dizer que a fé deverá nascer primeiramente e antes de tudo da experiência dos outros que testemunham seu encontro com o Ressuscitado. O que significa que o nosso testemunho deve ser muito confiável e convincente para que os outros adiram à fé e para que tenham o gosto, também eles, de vir à reunião dominical para encontrar e reconhecer o Ressuscitado. É através das chagas dos participantes da reunião que reconhecemos o Crucificado ressuscitado. É uma missão e uma responsabilidade que é confiada hoje a todos os cristãos.
Concluindo, podemos dizer que a experiência de Tomé, que é também a nossa, tem um valor importante para a Igreja de hoje. A este respeito, gostaria de compartilhar os comentários do exegeta francês Jean Debruynne: “Deste ponto de vista, Tomé nos presta um grande serviço: as perguntas que ele faz em voz alta, são as mesmas que nós fazemos em voz baixa. Tomé nos tranquiliza, uma vez que ele, um incrédulo, chega à experiência da fé. Isso deveria nos livrar de muitas das nossas dúvidas. Não precisamos refazer a busca, Tomé já a fez! Mas este pedido de Tomé de querer colocar os dedos nas chagas das mãos e dos pés de Jesus e suas mãos na chaga do seu lado, não é apenas expressão do ceticismo; é também uma afirmação muito importante para a nossa fé: o Jesus ressuscitado ainda traz as marcas e as chagas da sua paixão. A ressurreição de Jesus não o fez retroagir ao passado, como se sua morte nunca tivesse acontecido. Pelo contrário, venceu a morte e ainda traz as marcas da crucificação. O Jesus ressuscitado não virou anjo; ele continua sendo homem. A ressurreição de Jesus muda o nosso olhar sobre o homem. As chagas de Jesus dizem que o ressuscitado carrega em si todas as chagas de todos os humilhados do mundo. Elas dizem também que nenhuma chaga, por mais injusta e humilhante que seja, pode nos impedir de nos tornarmos pessoas de cabeça erguida no coração do mundo. De agora em diante, nenhuma das nossas chagas pode nos impedir de ser livres: Jesus ressuscitado é, em primeiro lugar, aquele que carrega as chagas da nossa condição humana. De maneira clara, não esperemos nos livrar dos nossos males para vivermos de cabeça erguida. Jesus ressuscitou e é hoje que, mesmo com as nossas chagas, podemos nascer para a liberdade.”

sábado, 23 de novembro de 2013

34º Domingo do Tempo Comum: Cristo, um rei servido

Raymond Gravel
 
Festejar Cristo, Rei do Universo, é uma outra maneira de celebrar a Páscoa. Essa festa termina bem o ano litúrgico. Sem morte-ressurreição, a festa de hoje não teria nenhum sentido. De que realeza estamos falando? Que tipo de rei reconhecemos? Como dizia o biblista Jean-Pierre Prévost: "Para ser honesto com vocês, devo dizer francamente que não tenho nenhuma prelileção particular pela realeza e que, em si, o título de rei aplicado a Jesus não é aquele que mais me inspira". Por essa razão, devemos redefinir a realeza, caso quisermos aplicá-la ao Cristo ressuscitado na Igreja de hoje; caso contrário, corremos o risco de associar Cristo a um monarca igual a todos os outros e que nos faria perder de vista o que Cristo foi e ainda é na Igreja de hoje. Infelizmente, alguns dirigentes da Igreja com frequência confundiram a realeza de Cristo com aquela dos homens, a ponto de deformar o rosto de Jesus. Felizmente, em cada época, houve discípulos, homens e mulheres, que souberam devolver ao Cristo a sua verdadeira realeza, que consiste em servir e não em ser servido.
 
1. A problemática da realeza
Jean-Pierre Prévost escreve: "A história da realeza em Israel começou mal. Foi a contragosto que o profeta Samuelacabou por consagrar Saul primeiro rei de Israel, para responder à demanda do povo que queria ser como todas as outras nações" (1 Sm 8,5). Podemos acrescentar que esse não teve um sucesso real. E por quê? Simplesmente porque o poder corrompe e o prestígio sobe à cabeça daqueles que exercem o poder. É evidente que na história deIsrael houve reis melhores que outros; pensemos em Davi ou em Salomão. Mas esses dois reis, que a tradição bíblica soube embelezar, tornando-os símbolos idílicos, a história mostra que também eram muito humanos, portanto, limitados e pecadores.
No fundo, a Bíblia nos ensina que Deus não queria reis, porque a experiência da realeza era bastante negativa e a história de Israel é a prova disso, uma vez que a realeza não durou mais do que 400 anos e terminou de maneira trágica com o exílio de Sedecias para a Babilônia. O que Deus queria era um rei servidor e não um príncipe que dirige e que explora o seu povo. Esta má experiência da realeza permitiu ao povo de Israel purificar sua fé e imaginar um rei ideal, que seria um verdadeiro pastor e que viria estabelecer um reino de justiça e de paz a serviço dos pobres e dos desafortunados. Esse rei nós o reconhecemos no Cristo Pascal.
 
2. Cristo, Rei do Universo
Foi somente em 1925 que nasceu esta festa e não é pelas mesmas razões que nós continuamos a celebrá-la hoje. Jesus nunca se declarou rei; pelo contrário, o evangelho nos ensina que esse título foi dado a ele de maneira irônica e sarcástica por um rei, Herodes, e por um representante de César, Pôncio Pilatos... Jesus se defendeu: "Pilatosdisse a Jesus: ‘Então tu és rei?' Jesus respondeu: ‘Você está dizendo que eu sou rei'" (Jo 18,37a). Por outro lado, se dizemos que Cristo é rei, é porque reconhecemos nele o servidor que quis estabelecer o reino de justiça e de paz, tão desejado pelos homens e pelas mulheres do seu tempo. Mas ele não tem nada de outro rei: seu trono é a cruz; sua coroa é de espinhos e seu cetro é seu bastão de pastor. O evangelho de Lucas o apresenta, ao mesmo tempo, como um rei sem poder - "Se tu és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo" (Lc 23,37) - e como um rei muito humano, de sorte que o ladrão crucificado com ele que o interpela, não lhe diz: Majestade ou Senhor, ou Mestre ou ainda Sua Santidade ou Monsenhor... Não! Ele o chama de Jesus: "Jesus, lembra-te de mim quando vieres em teu Reino" (Lc 23,42). Esse bandido torna-se o primeiro sujeito do Reino: "Eu lhe garanto: hoje mesmo você estará comigo no Paraíso" (Lc 23,43). É o que fez São João Crisóstomo dizer: "Fiel à sua profissão de ladrão, ele rouba por sua confissão o reino dos céus".
 
3. Atualização
Atualmente, temos necessidade de reler este evangelho para celebrar Cristo, Rei do Universo. É preciso nos perguntar: como sociedade e como Igreja, que tipo de rei apresentamos? Que rosto de Cristo mostramos às mulheres e aos homens do nosso tempo? Quantos políticos e lideranças da Igreja exercem o seu poder como monarcas déspotas e cruéis que têm coração muito mais para enriquecer do que servir a coletividade, a comunidade? Na Igreja, quantas dores foram infligidas aos cristãos(as) por lideranças principescas que acreditaram ser os únicos detentores da verdade?
Há alguns anos, o Papa João Paulo II pediu perdão pela Igreja do Renascimento; o cardeal Marc Ouellet fez o mesmo pela Igreja de Quebec antes de 1960, por todos os sofrimentos infligidos às mulheres, aos autóctones, aos judeus, às crianças, aos homossexuais... A reação das pessoas foi muito negativa. Homens, mulheres, membros do clero criticaram duramente tanto o Papa como o cardeal. Diziam que seu perdão era incompleto e condicional; não acreditavam em sua sinceridade. De sorte que o jornalista do jornal Presse, Alain Dubuc, resumiu bem o pensamento de muitos quebequenses sobre o cardeal Marc Ouellet, durante sua passagem pela Comissão Bouchard-Taylor, em 2007. Ele escreve: "Com seu ardor e sua carta de perdão, o cardeal Ouellet conseguiu nos lembrar porque os quebequenses rejeitaram em massa e tão brutalmente a sua Igreja durante os anos 1960. As reações foram muito vivas, porque Ouellet, com sua rigidez e sua arrogância, nos mergulha novamente neste período que os mais velhos dentre nós querem esquecer. Ouellet, eu o digo pesando minhas palavras, após uma leitura atenta das suas intervenções públicas, é um reacionário no sentido mais forte da palavra, alguém que se insurge contra a evolução da sociedade que o cerca, que quer resistir às mudanças e que defende as práticas e os valores que pertencem ao passado".
Pessoalmente, acredito sinceramente que algumas lideranças eclesiais de hoje fazem muito mais mal à Igreja do que a ajudam; eles encarnam esta Igreja que os quebequenses não querem mais: uma Igreja dogmática e doutrinal que sempre exclui as mulheres, uma Igreja homofóbica que condena os homossexuais, uma Igreja obcecada pela sexualidade, uma Igreja que rejeita aquelas e aqueles que vivem um fracasso em seu casamento e que querem continuar a amar, uma Igreja que acredita ser a única detentora da verdade sobre Deus e sobre o mundo, uma Igreja que recusa qualquer evolução e qualquer mudança na sociedade, uma Igreja que não está a serviço do povo de Deus, mas que se serve dos cristãos para aumentar seu prestígio e seu poder. Com uma Igreja assim, estamos longe do Evangelho e, como durante muito tempo encontramos nela esses príncipes, não deveríamos nos surpreender ao ver mulheres e homens se afastarem desta instituição que lhes parece completamente ultrapassada. Felizmente, há o Papa Francisco que nos faz ter esperança e que se junta a todos os bispos, padres religiosos(as), cristãos que continuam a acreditar e que tanto gostariam de viver o evangelho hoje, apresentando um rosto de Cristo amável, misericordioso, tolerante, aberto, livre, justo, respeitoso do outro, dos outros, compassivo: um rosto de Cristo que faz o homem e a mulher na Quebec de hoje ter esperança.
Concluindo, eu gostaria de citar novamente o Alain Dubuc em sua reflexão sobre a Igreja e sua aproximação negativa ao cardeal Marc Ouellet: "De acordo com o cardeal Ouellet, um povo não pode se esvaziar tão rapidamente da sua essência sem consequências graves. De onde a confusão da juventude, a queda vertiginosa dos casamentos, a taxa ínfima de natalidade e o número espantoso de abortos e de suicídios para elencar apenas algumas das consequência que se somam às condições precárias dos idosos e da saúde pública. Esse retrato apocalíptico apaga convenientemente as misérias desta época passada, os efeitos da pobreza e da ignorância. Ele atribui à revolução silenciosa um fenômeno que encontramos em todas as partes do Ocidente. E o mais importante, ele se esquece de perguntar se este abandono brutal da religião não se deve às falhas da Igreja mais do que aos complôs dos artistas da revolução silenciosa.
A Igreja, em vez de acompanhar seus fiéis em um período de mudanças difíceis, os abandona, orgulhosa de sua rigidez, e dessa maneira falha em sua missão. Outras Igrejas, portadoras dos mesmos valores, escolheram um outro caminho, especialmente os anglicanos,  nossa Igreja irmã, onde os padres são casados, onde se ordena mulheres e onde o casamento gay começa, com dificuldades, a ser aceito.
De fato, o que é mais prejudicial é que a alternativa de Ouellet, uma iniciativa individual, compromete o verdadeiro diálogo no qual se engajaram muitos de seus colegas. Mas seria assombroso se tivesse um grande impacto, eleitoral ou qualquer outro, porque o cardeal está se tornando num personagem marginal para os menores de 70 anos. Exceto para nos lembrar porque a separação entre a Igreja e o Estado é tão boa".

domingo, 29 de setembro de 2013

26º Domingo do Tempo Comum: A riqueza que cega!. Ano-C.

A mensagem da parábola de Lucas diz respeito a todas e todos nós, hoje. A injustiça, a exclusão, a opressão, a exploração, a pobreza e a situação miserável de alguns ainda são causados pela despreocupação e a indiferença dos ricos que somos nós. Acusamos Deus de não fazer nada para mudar a situação; rezamos com todas as nossas forças para que ele intervenha diretamente para mudar o curso dos acontecimentos... Mas, sem nós, Deus não pode fazer nada!
A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 26º Domingo do Tempo Comum – Ciclo C do Ano Litúrgico (29 de setembro de 2013). A tradução é de André Langer.
Referências bíblicas:
Primeira leitura: Am 6,1a.4-7
Evangelho: Lc 16,19-31
Eis o texto.
A primeira leitura e o evangelho de hoje são a continuação da Palavra de Deus do domingo passado sobre a riqueza e a pobreza, não porque uma é boa e a outra ruim, mas antes pelo abismo que se aprofunda sem cessar entre os dois. Tanto no caso do profeta Amós como no do evangelho de Lucas, entre o mundo dos ricos e o mundo dos pobres, devemos escolher, porque Deus mesmo escolheu. Quem escolhe o lado da humildade e da exclusão, toma partido por Deus. Mas o que devemos reter destes textos bíblicos, hoje, em 2013?
1. A riqueza não é um mal e a pobreza não é uma virtude
A parábola que é nos apresentada hoje por São Lucas não diz que a riqueza é um mal, nem que a pobreza é um bem e uma virtude. Infelizmente, uma leitura rápida do evangelho pode levar a esta confusão, de sorte que alguns viram aí um ensinamento sobre o céu e o inferno e uma promessa de felicidade no outro mundo que incitaria a sofrer pacientemente a extrema pobreza sobre a terra, para desfrutar desta promessa de felicidade no outro lado. Com outras palavras, uma interpretação errada da parábola convida os pobres a permanecerem pobres, para que sejam recompensados no céu. Esta interpretação é contrária à mensagem do evangelho de Lucas.
No tempo do evangelista Lucas, havia um conto egípcio, relatada sem dúvida por intermédio da comunidade judaica de Alexandria, uma história, portanto, que contava a viagem de um homem no país dos mortos e que terminava com estas palavras: “O que é bom na terra, é bom para ele no outro lado, mas o que é ruim, é ruim para ele no lado de cá”. São Lucas conhecia esta história e inspirou-se nela para introduzir motivos novos. A parábola é, portanto, construída sobre o tema da inversão da situação entre o céu e a terra. A cena terrestre apresenta dois personagens. O primeiro é uma pessoa muito rica, como mostram as suas luxuosas roupas e seus banquetes diários. O segundo é pobre, chamado Lázaro, o único personagem de uma parábola que tem nome, e que significa: Deus socorre. Sua miséria é destacada por sua doença e sua indigência. De um lado, o luxo e o supérfluo; do outro, a pobreza absoluta. Entre os dois, nenhuma comunicação, nenhuma relação: apenas um cachorro (o animal mais detestado pelos judeus) manifesta alguma compaixão para com esse Lázaro. A parábola não traz um julgamento moral: não é dito que o rico é mau ou egoísta. A menção aos banquetes deixa entrever que o rico é capaz de partilhar suas luxuosas refeições com os semelhantes. Não está dito que Lázaro seja um pobre particularmente merecedor.
O evangelista Lucas quis, portanto, opor duas situações. A morte dos dois personagens mantém a oposição, invertendo os papéis como na história egípcia. O pobre encontra-se no seio de Abraão (Lc 16,22), ao passo que o rico está entregue à tortura (Lc 16,23), sem mesmo um cachorro para lhe aliviar os sofrimentos. A sentença de Abraão trata precisamente sobre a inversão da situação: “Mas Abraão respondeu: ‘Lembre-se, filho: você recebeu seus bens durante a vida, enquanto o Lázaro recebeu males. Agora, porém, ele encontra consolo aqui, e você é atormentado’” (Lc 16,25).
Se a história terminasse aí, ela se pareceria com o conto egípcio adaptado pelos judeus e retomado por São Lucas. Ela soaria como uma consolação para o uso dos pobres contra os ricos: vocês são pobres... sejam pacientes, porque no céu a situação será a inversa. Mas na sequência do relato introduz uma dimensão ética da fé cristã e a mensagem que esperamos do Cristo do evangelho.
 2. O abismo entre os ricos e os pobres
O que Lucas quer dizer aos cristãos da sua comunidade é que o abismo que existe aqui entre os ricos e os pobres e que persistirá no outro lado não depende da riqueza nem da pobreza, mas antes da indiferença e da falta de preocupação dos ricos para com os pobres. Encontramos estas mesmas atitudes na primeira leitura de hoje, onde o profeta Amós denuncia os notáveis da Samaria que vivem na opulência e no luxo, sem se preocupar com os pobres, e são indiferentes ao ataque assírio que se prepara: “Deitam-se em camas de marfim; esparramam-se em cima de sofás, comendo cordeiros do rebanho e novilhos cevados em estábulos; cantarolam ao som da lira, inventando, como Davi, instrumentos musicais; bebem canecões de vinho, usam os mais caros perfumes, sem se importar com a ruína de José” (Am 6,4-6).
A indiferença e a negligência do rico para com o pobre são as duas atitudes que aumentam o abismo entre os dois e que provocam a queda, o desastre e a desolação. E a situação engendrada por essas duas atitudes pode ser irreversível, caso não se tome consciência antes que seja tarde demais. Foi o que aconteceu no tempo de Amós, quando a Assíria atacou a Samaria e deportou sua população, a começar pelos ricos indiferentes e negligentes para com os pobres: “Por isso, vocês irão acorrentados à frente dos exilados. Acabou-se a festa dos boas-vidas” (Am 6,7). A mesma coisa acontece no evangelho de Lucas, quando Abraão não pode fazer nada pelo rico, mesmo quando ele o reconhece afetuosamente como seu filho: “Além disso, há um grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, nunca poderia passar daqui para junto de vocês, nem os daí poderiam atravessar até nós” (Lc 16,26).
O exegeta francês Jean Debruynne escreve: “Esta história é realmente chocante. Abraão, que na parábola é o porta-voz de Deus, recusa que Lázaro molhe seu dedo na água para refrescar o rico que queima em seus tormentos. Perguntamo-nos pelo que Abraão fez com o perdão e a misericórdia da Deus!”. Mas, Jean Debruynne continua: “Esta parábola não fala do perdão, mas do ser humano. O rico nunca viu Lázaro como pessoa; ele o considerava menos que um cachorro. De repente, é o rico que deixou de ser pessoa humana. É o rico que caiu lá embaixo, ao passo que o pobre Lázaro está no alto da dignidade humana. O rico não é mais um ser humano, é apenas um rico. O verdadeiro abismo que existe não é entre Deus e o rico, mas entre o ser humano respeitado como tal e o ser humano ridicularizado. É preciso devolver ao ser humano sua dignidade de ser humano. Em nome de Deus, Abraão continua cheio de ternura para com esse rico, ele continua a chamá-lo: meu filho! Ele reenvia o rico aos gritos dos profetas que nunca fizeram outra coisa senão reclamar que seja concedido aos pobres o direito de serem pessoas humanas. É justamente este o trabalho da fé: devolver ao ser humano sua imagem de Deus”. E eu acrescentaria: só o ser humano pode fazer isso; Deus não pode fazer nada sem a nossa ajuda!
Para terminar, a mensagem da parábola de Lucas diz respeito a todas e todos nós, hoje. A injustiça, a exclusão, a opressão, a exploração, a pobreza e a situação miserável de alguns ainda são causados pela despreocupação e a indiferença dos ricos que somos nós. Acusamos Deus de não fazer nada para mudar a situação; rezamos com todas as nossas forças para que ele intervenha diretamente para mudar o curso dos acontecimentos... Mas, sem nós, Deus não pode fazer nada! Nós temos a Lei e os Profetas, nós temos o Cristo ressuscitado que nos interpela por sua Palavra. Isto basta para fazer desaparecer todos os abismos que nos separam e que fizeram perder o ser humano que excluímos, que exploramos, que ridicularizamos, que rejeitamos e que condenamos, sua dignidade e seu rosto de Deus. Enquanto é tempo, disponhamo-nos a amar de maneira gratuita, generosa e incondicional... porque, como dizia o francês Marc Joulin: “Se nós nos recusamos a amar hoje, como poderemos amar amanhã? Nós nos julgaremos em base ao Amor”.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

25º Domingo do Tempo Comum: A serviço de quem? De Deus ou do Dinheiro? (Lc 16,1-13)

Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá.

 A administração terrena das pequenas coisas que nos são confiadas, nos prepara não somente para administrar coisas mais importantes, mas para nos tornarmos coproprietários com Deus: o bem dos outros torna-se o nosso próprio bem.

 Referências bíblicas:

Primeira leitura: Am 8,4-7

Segunda leitura: 1 Tm 2,1-8

Evangelho: Lc 16,1-13

 Eis o texto.

Na semana passada, através de três parábolas, o evangelista Lucas nos convidou para dar uma atenção especial aos marginalizados, aos excluídos e aos pecadores. Esta semana, através de outra parábola, ele nos convida a escolher entre Deus e o Dinheiro com um D maiúsculo, isto é, Mammon, o deus sírio da riqueza, um ídolo. Lucas qualifica Mammon de desonesto (adikia), isto é, injusto (Lc 16,9), que é o contrário de Deus que é (dikia), isto é, justo. O que isto quer dizer? O dinheiro seria ruim? A fé cristã seria uma fé que recusa a riqueza e que louva a pobreza? Penso que não! A primeira leitura e o evangelho servem para nos esclarecer sobre o dinheiro e sobre o lugar que deve ocupar na vida dos cristãos.

1. Esta parábola do Evangelho de Lucas é difícil, certamente, mas podemos tirar dela duas mensagens:

1- Proprietário ou servo.

O administrador da parábola de Lucas, que perde sua administração, age como se fosse o proprietário dos bens que lhe são confiados. O homem rico é Deus que confia seus bens aos discípulos, aos dirigentes da Igreja. Os bens de Deus são confiados para frutificarem e não para serem desperdiçados em proveito dos administradores, que somos nós. Se, como administradores, nós nos arvoramos do papel de proprietários, esquecemos que temos que prestar contas a Deus, que é o verdadeiro proprietário. Por isso, a primeira sentença (Lc 16,10-12), onde há uma equivalência entre as pequenas coisas, o Dinheiro injusto e os bens alheios: expressões que designam aqui os bens desse mundo, das quais o homem não é o proprietário, mas o administrador e o responsável, diz bem que se ele se revela digno de confiança, em sua missão terrestre provisória, será considerado digno de administrar as grandes coisas, o verdadeiro bem, seu próprio bem. Com outras palavras, a administração terrena das pequenas coisas que nos são confiadas, nos prepara, não somente para administrar coisas mais importantes, mas para nos tornarmos coproprietários com Deus: o bem dos outros torna-se o nosso próprio bem.

O mesmo acontece com a Igreja. Nós somos os administradores do Reino e não seus proprietários. O exegeta francês Jean Debruynne escreve: “A riqueza de Deus não é como a riqueza dos homens; ela não é uma propriedade privada... Deus não pode ser roubado, Deus só sabe amar. Todos têm o direito a Deus, mesmo aqueles de outras religiões que nós consideramos muitas vezes como administradores injustos”. Eu gostaria de acrescentar: quem somos nós, como Igreja, para decidir dessa maneira?

2- Servir a Deus ou ao dinheiro.

Quando servimos ao dinheiro, só podemos ser injustos, desonestos. A habilidade com que o administrador da parábola serve ao dinheiro, não poderá ser utilizada para servir a Deus? O Senhor da parábola elogia seu administrador desonesto, não por sua desonestidade, mas por sua habilidade: “E o Senhor elogiou o administrador desonesto, porque este agiu com esperteza. De fato, os que pertencem a este mundo são mais espertos com a sua gente, do que aqueles que pertencem à luz” (Lc 16,8). De sorte que o evangelho nos convida a nos servir de dinheiro para servir a Deus: “E eu lhes declaro: ‘Usem o dinheiro injusto para fazer amigos, e assim, quando o dinheiro faltar, os amigos receberão vocês nas moradas eternas” (Lc 16,9). A segunda sentença da parábola assevera: “Nenhum empregado pode servir a dois senhores, porque, ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro” (Lc 16,13).

Como, na Igreja, podemos nos servir de dinheiro para servir a Deus? Partilhando, amando e construindo um mundo de justiça, de igualdade, de paz, devolvendo a dignidade àqueles e àquelas que a perderam e estando a serviço do Reino de Deus. Jean Debruynne prossegue em sua reflexão: “Hoje, a publicidade invade os jornais, as rádios e as telas de televisão para conjugar dois verbos: primeiro o verbo ter: ter dinheiro, ter relações, ter poder... e, depois, o verbo aparecer: aparecer na televisão, aparecer o melhor, o mais forte, o mais bonito... A fé tem apenas um verbo para conjugar: o verbo ser. Jesus nos diz, em primeiro lugar, que a fé não é como o dinheiro. Ela não é alguma coisa que se tem ou não se tem, que se ganha ou se perde. Crer é ser, é existir, é viver. Jesus nos disse, na sequência, que o que nós temos, o que possuímos, mesmo quando é pouco, deve servir para ser”.

2. Devemos denunciar os ricos que esmagam os pequenos, exploram os pobres e os dirigentes que se acham os donos dos bens que lhes são confiados.

O profeta Amós, na primeira leitura de hoje, não tem papas na língua. No século VIII a.C., sob o reinado do rei Jeroboão II, o comércio está em franca expansão e o luxo se estende, agora, na capital, Samaria. O profeta Amós denuncia as injustiças cometidas pelos grandes proprietários de terras contra os trabalhadores. Aqueles os exploram e os esmagam até torná-los escravos: “Nós podemos comprar os fracos por dinheiro, o necessitado por um par de sandálias, e vender o refugo do trigo” (Am 8,6). E pior ainda: esses novos ricos estão com pressa que o sábado termine para acelerar e continuar suas maldades: “Quando vai passar a festa da lua nova, para podermos pôr à venda o nosso trigo? Quando vai passar o sábado, para abrirmos o armazém, para diminuir as medidas, aumentar o peso e viciar a balança?” (Am 8,5).

Para terminar, gostaria de propor esta bela reflexão do século IV que nos vem de São Basílio de Cesareia: “O que faço de errado, diz o avarento, guardando o que é meu? Dize-me, de que modo é teu? Donde tiraste, tomando-o para teu sustento? És como alguém que, indo ao teatro, se apoderasse do espetáculo e quisesse excluir os que entrassem depois, pretendendo ser só teu aquilo que é comum a todos os que se apresentam, conforme lhes parece bem. Assim são os ricos: apoderando-se primeiro do que é de todos, tudo tomam para si por uma falsa ideia. Se cada um tirasse para si o que lhe é necessário e entregasse aos indigentes o que sobra, ninguém seria rico, ninguém seria pobre. Não saíste nu do útero e não retornarás nu para a terra? Os bens que possuis, de onde vêm? Se dizes que provêm do acaso, és ímpio, não reconhecendo o Criador e não dando graças ao doador. Se, ao invés, admites que são de Deus, dize-me por que os recebeste. É talvez injusto Deus, que nos distribui os meios de subsistência de modo desigual? Por que tu és rico e aquele é pobre? Certamente para que tu pudesses receber a recompensa da bondade da fiel administração e aquele pudesse conseguir o magnífico prêmio da paciência”.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Ascensão. Uma nova criação


Páscoa, Ascensão e Pentecostes são três festas cristãs teológicas, separadas no tempo e no espaço, para significar todo o mistério cristão: a morte de Jesus, a Ressurreição e a Ascensão do Senhor e o Pentecostes do Espírito Santo. Mas, na realidade material e histórica, tudo se passou na sexta-feira, 6 ou 7 de abril do ano 30, às portas de Jerusalém, onde Jesus foi condenado à morte pelo poder judaico e executado, crucificado pelo poder romano. Com a sua morte na cruz ele já ressuscitou, subiu ao céu e seu Espírito já foi dado aos discípulos. O Jesus crucificado era o Cristo e Senhor da Páscoa.
A reflexão é de Raymond Gravel, padre da arquidiocese de Quebec, Canadá, publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras da Festa da Ascensão do Senhor (12 de maio de 2013). A tradução é do Cepat.

Eis o texto.

Referências bíblicas:
Primeira leitura: At 1, 1-11
Evangelho: Lc 24, 46-53

A ascensão, segunda face da Páscoa: Jesus não somente ressuscitou; ele também subiu ao céu. A ascensão marca, portanto, o fim do tempo de Jesus: “No meu primeiro livro, ó Teófilo, já tratei de tudo o que Jesus começou a fazer e ensinar, desde o princípio, até o dia em que foi levado para o céu. Antes disso, ele deu instruções aos apóstolos que escolhera, movido pelo Espírito Santo” (At 1, 1-2), e anuncia o começo do tempo da Igreja: “Mas o Espírito Santo descerá sobre vocês, e dele receberão força para serem as minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os extremos da terra” (At 1, 8). Como compreender esta festa da ascensão? Nesse tempo da Igreja em que ainda nos encontramos, o que devemos fazer?

1. A ascensão: uma festa pascal
A ascensão está, ao mesmo tempo, voltada para o domingo da Páscoa: “Era preciso que se cumprisse o que estava nas Escrituras: O Messias sofrerá e ressuscitará dos mortos no terceiro dia” (Lc 24, 46), e para o Pentecostes: “Agora eu lhes enviarei aquele que meu Pai prometeu. Por isso, fiquem esperando na cidade, até que vocês sejam revestidos do poder do alto” (Lc 24, 49). Esta festa confirma, portanto, a missão dos discípulos que consiste em proclamar um batismo de conversão, em nome de Cristo, a todas as nações (Lc 24, 47): “E vocês são testemunhas disso” (Lc 24, 48).
Por outro lado, esta festa da ascensão, assim como a da Páscoa, foge ao tempo e ao espaço. De sorte que se procurarmos saber o lugar e o momento da ascensão, corremos o risco de encontrar contradições. Segundo o Evangelho de Lucas de hoje, será na Betânia, na noite da Páscoa, que Jesus se separa de seus discípulos e é levado ao céu (Lc 24, 50-51). De acordo com o livro dos Atos dos Apóstolos, escrito pelo próprio Lucas, será no monte das Oliveiras, em Jerusalém (At 1, 12), 40 dias após a Páscoa (At 1, 3), que Jesus se eleva e desaparece aos olhos dos discípulos envolto numa nuvem (At 1, 9). E se lermos o Evangelho de Mateus, esse último parece dizer que é sobre uma montanha da Galileia que a ascensão se dará (Mt 28, 16).
Quem tem razão? Todos têm razão, porque o que esses autores cristãos descrevem não é uma reportagem jornalística de um acontecimento material e histórico que teria acontecido num lugar e num momento precisos da sua história. Quanto a Lucas, que situa a ascensão do Senhor, ao mesmo tempo, na noite da Páscoa, no seu Evangelho, e 40 dias após a Páscoa, nos Atos dos Apóstolos, é para destacar esse tempo teológico de que precisou a Igreja do primeiro século para realizar sua missão e para fazer discípulos, testemunhas da Ressurreição de Cristo.
Páscoa, Ascensão e Pentecostes são três festas cristãs teológicas, separadas no tempo e no espaço, para significar todo o mistério cristão: a morte de Jesus, a Ressurreição e a Ascensão do Senhor e o Pentecostes do Espírito Santo. Mas, na realidade material e histórica, tudo se passou na sexta-feira, 6 ou 7 de abril do ano 30, às portas de Jerusalém, onde Jesus foi condenado à morte pelo poder judaico e executado, crucificado pelo poder romano. Com a sua morte na cruz ele já ressuscitou, subiu ao céu e seu Espírito já foi dado aos discípulos. O Jesus crucificado era o Cristo e Senhor da Páscoa.
O exegeta francês Jean Debruynne definiu a festa da ascensão como um ato de criação. Escreve ele: “Não encontramos mais no Evangelho de Lucas como isso aconteceu. Lucas não fez uma reportagem sobre a ascensão. Uma lástima para o culto das stars (estrelas). A ascensão não se parece com o lançamento de um foguete. A linguagem de Lucas é antes profética que aeroespacial: Jesus se separa de seus discípulos como um dia o Espírito separou o céu e a terra, os mares e os continentes para criá-los. É um ato de criação. De agora em diante os discípulos assumem suas responsabilidades. Esta promessa de Deus que Jesus anuncia não é nem a conquista nem o poder, mas a força que coloca o homem em pé”.

2. A ascensão: criação da Igreja
No Antigo Testamento, no segundo Livro dos Reis, no momento da ascensão do profeta Elias, seu discípulo Eliseu é investido pelo Espírito de seu mestre, porque ele o viu subir ao céu (2Rs 2, 11.15). Para São Lucas, que considera Jesus como o novo Elias, podemos supor que ele se inspira no relato dos Reis para evocar a partida de Jesus. Era preciso que seus discípulos o vissem subir ao céu para que eles pudessem herdar seu Espírito: “Depois de dizer isso, Jesus foi levado ao céu à vista deles. E quando uma nuvem o cobriu, eles não puderam vê-lo mais” (At 1, 9). Por outro lado, a missão da Igreja não consiste em ficar aí parado contemplando o céu, com os braços na cruz: “Homens da Galileia, por que vocês estão aí parados, olhando para o céu? Esse Jesus que foi tirado de vocês e levado para o céu, virá do mesmo modo com que vocês o viram partir para o céu” (At 1, 11). É, portanto, por meio dos seus discípulos que o Cristo ressuscitado pode se manifestar, mas será preciso esperar pelo Pentecostes para realizá-lo: “E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus” (Lc 24, 53).
No Pentecostes, quando os discípulos tomarão consciência de que são investidos pelo Espírito de Cristo, eles sairão do Templo para anunciar pelo mundo inteiro, em todas as línguas, a salvação oferecida gratuitamente a todas e todos. São Paulo dirá que a Igreja é Corpo de Cristo e São Mateus resumirá muito bem a missão confiada a toda a Igreja: “Portanto, vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês. Eis que eu estou com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 19-20).
Concluindo, para saber o que devemos fazer hoje, como Igreja de Cristo, eu vou sugerir esta bela sugestão do francês Charles Singer: “Não há mais o Cristo visível! Não há mais o Cristo para tocar! Os únicos traços para ver e tocar que atestam a realidade de sua presença são as pessoas de cada tempo que suscitam uma terra onde os leprosos e os excluídos terão seu lugar, onde o ódio não rege as relações, onde a bondade predomina sobre o desprezo, onde o respeito impede a violência capaz dos piores instintos, onde a acolhida impede o fechamento em si mesmo! Amigos, são vocês que atestam a vitalidade do Ressuscitado!”. Isso merece ser lido e relido!