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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Carregar com a cruz.

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho segundo Lucas 23,35-43, que corresponde a Solenidade de Cristo Rei ciclo C do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto
O relato da crucificação, proclamado na festa do Cristo Rei, recorda aos seguidores de Jesus que seu reino não é um reino de glória e de poder, mas de serviço, amor e entrega total para resgatar o ser humano do mal, do pecado e da morte.
Acostumados a proclamar a «vitória da Cruz», corremos o risco de esquecer que o Crucificado nada tem a ver com um falso triunfalismo que esvazia de conteúdo o gesto mais sublime de serviço humilde de Deus para com suas criaturas. A Cruz não é uma espécie de troféu que mostramos a outros com orgulho, mas o símbolo do Amor crucificado de Deus que nos convida a seguir seu exemplo.
Cantamos, adoramos e beijamos a Cruz de Cristo porque no profundo do nosso ser sentimos a necessidade de dar graças a Deus pelo seu amor insondável, mas sem esquecer que o primeiro que nos pede Jesus de forma insistente não é beijar a Cruz mas sim carregar com ela. E isso consiste simplesmente em seguir seus passos de forma responsável e comprometida, sabendo que esse caminho nos levará mais tarde ou mais cedo a partilhar seu destino doloroso.
Não nos está permitido aproximar-nos do mistério da Cruz de forma passiva, sem intenção alguma de carregar com ela. Por isso, temos que cuidar muito de algumas celebrações que podem criar em torno da Cruz uma atmosfera atrativa mas perigosa, se nos distraem do seguir fielmente o Crucificado fazendo-nos viver a ilusão de um cristianismo sem Cruz. É precisamente ao beijar a Cruz quando temos que escutar a chamada de Jesus: «Se alguém vem detrás de mim... que carregue com a sua cruz e me siga».
Para os seguidores de Jesus, reivindicar a Cruz é aproximar-nos serviçalmente aos crucificados; introduzir justiça onde se abusa dos indefesos; reclamar compaixão onde só há indiferença ante os que sofrem. Isto irá trazer-nos conflitos, rejeição e sofrimento. Será a nossa forma humilde de carregar com a Cruz de Cristo.
O teólogo católico Johann Baptist Metz insistiu no perigo que a imagem do Crucificado nos esteja a ocultar o rosto de quem vive hoje crucificado. No cristianismo dos países do bem-estar está acontecendo, segundo ele, um fenômeno muito grave: «A Cruz já não intranquiliza a ninguém, não tem nenhum aguilhão; perdeu a tensão do seguimento a Jesus, não chama a nenhuma responsabilidade, mas retira-nos dela».
Não teremos todos de rever qual a nossa verdadeira atitude ante o Crucificado? Não teremos de nos aproximarmos Dele de forma mais responsável e comprometida?

Cruz: “Misericórdia vulnerável”


“Acima d’Ele havia um letreiro: ‘Este é o Rei dos judeus’” (Lc 23,38).

A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, sacerdote jesuíta, comentando o evangelho da Solenidade de Cristo Rei (20/11/2016) que corresponde ao texto de Lucas 23,35-43.

Pode nos causar espanto o fato da liturgia escolher, para a festa de Cristo Rei, a cena da morte de Jesus na Cruz. Para Lucas, o Reino de Jesus é essencialmente o Reino da reconciliação do ser humano com Deus. Em outras palavras, a reconciliação tem como centro a Cruz, ato supremo de amor e expressão visível da Misericórdia de Deus. Podemos, então, afirmar que a “A CRUZ é o lugar por excelência da revelação visível da Misericórdia de Deus”.
No mistério da Paixão do Filho se manifestou radicalmente a Misericórdia do Pai. Na Paixão encontramos a Misericórdia de um Deus que desceu e chegou até o extremo da fragilidade para manifestar a força reconstrutora de seu Amor. Se Deus “sofre”, é por seu excesso de Amor, desde o princípio.
A Cruz de Jesus expressa de maneira penetrante o Amor Misericordioso do Pai. Ela é revelação do Amor levado até às últimas consequências. Ela nos fala daquilo que Deussente por nós.
Deus é capaz de sofrer porque é capaz de amar. Sua essência é a MISERICÓRDIA” (Moltmann).
A Misericórdia torna o próprio Deus vulnerável e passível de um sofrimento livre, ativo, fecundo.
Se Deus fosse impassível (incapaz de sofrer) seria também incapaz de amar.
De fato, o mistério do “amor em excesso” de Deus, revelado no silêncio junto ao sofrimento inocente, chama-se misericórdia compassiva. Só o amor é capaz desse sofrimento compassivo. Porque é Amor puro, Deus usa de paciência, de presença silenciosa, de misericórdia ativa e, assim, salva de forma compassiva toda criatura em seu seio regenerador. Só Ele é capaz de assumir para si o sofrimento e a fragilidade humana, abrindo um novo horizonte de vida.
No Novo Testamento, o mistério da Misericórdia do Pai atravessa toda a experiência de Jesus, de sua missão, mas também de sua própria paixão e de sua Páscoa. No sofrimento e morte do Filho há a dor de dilaceração, fragilidade e silêncio do Deus Pai/Mãe, como em dores de parto por uma criação que ainda precisa da compaixão e da misericórdia maternal do Criador. Se o Criador sofre em dores de parto por sua criação, nosso sofrimento está em suas mãos, em seu seio. É a maternidade divina regeneradora de sofrimentos.
Sem a Cruz seria muito difícil convencer o ser humano do amor misericordioso de Deus, e mais ainda de seu apaixonado interesse por nos salvar. Mas, a partir dela, será sempre possível dizer ao ser humano que a Cruz de Jesus tem um sentido, e que a última palavra é “salvação”.
No Jesus crucificado se encontram e se reconhecem todos os sofredores inocentes e crucificados da história; n’Ele se condensam todos os gritos da humanidade sofrida e excluída.
A “kénosis” de Jesus nos ensina, portanto, a encontrar Deus nos lugares onde a vida se acha bloqueada.
Deus “desceu” às zonas mais escuras da humanidade – sofrimentos, fracassos, amarguras, pecados... – para sentir como Seu nosso sofrimento e ali falar ao nosso coração. No silêncio, Deus não apenas se solidariza, mas sofre “em sua pele”, identificado com os sofredores, aqueles que sobram...
A primeira coisa que descobrimos ao contemplar o Crucificado do Gólgota, torturado injustamente até à morte pelo poder político-religioso, é a força destruidora do mal, a crueldade do ódio e o fanatismo da mentira. Precisamente aí, nessa vítima inocente, nós seguidores de Jesus, vemos o Deus identificado com todas as vítimas de todos os tempos. Está na Cruz do Calvário e está em todas as cruzes onde sofrem e morrem os mais inocentes. 
Jesus foi condenado como herege e subversivo, por elevar a voz contra os abusos do templo e do palácio, por colocar-se do lado dos perdedores, por ser amigo dos últimos, de todos os caídos.
“Jesus morreu de vida”: de bondade e de esperança lúcida, de solidariedade alegre, de compaixão ousada, de liberdade arriscada, de proximidade curadora...
“Morreu de vida”: isso foi a Cruz, e isso é a Páscoa. E é por isso que tem sentido recordar Jesus, olhando as chagas de seu corpo e as pegadas de sua vida.
O Crucificado nos revela que não existe, nem existirá nunca um Deus frio, insensível e indiferente, mas um Deus que padece conosco, sofre nossos sofrimentos e morre nossa morte.
A partir da Cruz, Deus não responde o mal com o mal; Ele não é o Deus justiceiro, ressentido e vingativo, pois prefere ser vítima de suas criaturas antes que verdugo.
Despojado de todo poder dominador, de toda beleza estética, de todo êxito político e de toda auréola religiosa, Deus se revela a nós, no mais puro e insondável de seu mistério, como amor misericordioso.
Nós cristãos contemplamos o Crucificado para não esquecer nunca o “amor louco” de Deus para com a humanidade e para manter sempre viva a memória de todos os crucificados da história.
Mais uma vez, no alto da Cruz, a Misericórdia visível em Jesus revela-se expansiva, envolvente e salvífica. 
Lucas, no evangelho de hoje, destaca diferentes reações das diferentes pessoas que estavam junto à Cruz. Elas representam toda a humanidade frente à Misericórdia solidária de Jesus. Por um lado, estão aquelas pessoas que não viram no rosto de Jesuso olhar misericordioso do Pai; parece não terem entendido a proposta de vida de Jesus. Por isso zombam, desprezam, pedem sinais...
Mas, por outro lado, do meio das zombarias e escárnios, alguém, tocado pelo silêncio e inocência de Jesus, deixa escapar uma surpreendente súplica: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado”. Não se trata de um discípulo nem um seguidor de Jesus, mas um dos ladrões crucificados junto a Ele. Ele só pede que Jesus não se esqueça dele. E Jesus responde prontamente: “Ainda hoje estarás comigo no paraíso”. Revela-se impactante que, dos lábios de homem derrotado e moribundo, brote uma palavra de vida, acompanhada de uma certeza que a torna eterna, em um presente sempre atual: “hoje”.
Esta cena nos indica até onde pode chegar a Misericórdia: do meio da morte ela se revela, mais uma vez, geradora de vida, e vida eterna.
Agora, na Cruz, estão os dois unidos no suplício e na impotência, mas Jesus, com sua presença misericordiosa, o acolhe como companheiro inseparável. Morrerão crucificados, mas entrarão juntos no mistério de Deus.
Estamos encerrando o “Jubileu extraordinário da Misericórdia”; e a vivência da Misericórdia é a que impulsiona a Igreja para fora de si mesma, para as margens, onde acontece o sofrimento humano. Uma Igreja configurada pelo “Princípio Misericórdia” tem força e coragem para denunciar os geradores de sofrimento e morte, para desmascarar a mentira daqueles que oprimem, para animar e despertar a esperança daqueles que são as vítimas.
Quando isso ocorre, a Igreja é ameaçada, atacada e perseguida; mas isso mostra que ela se deixou conduzir pelo “Princípio Misericórdia”. A ausência de tais ameaças, ataques e perseguições significa, por sua vez, que a Igreja não está sendo fiel a esta misericórdia reconstrutora que se fez visível na Paixão e Cruz de Jesus Cristo. Se ela leva a sério a misericórdia e deixa transparecer no seu modo de se fazer presente no mundo, então ela se torna conflitiva.
Diante do supremo indicador do amor misericordioso de Jesus e do amor do Pai, abre-se para a Igreja uma inesgotável inspiração e uma referência única para ser, também ela, presença misericordiosa.

Para meditar na oração
- Recordar momentos significativos vividos neste Jubileu de Misericórdia que ora se encerra.
- Mas a Misericórdia não se restringe a um jubileu, não é um evento; ela é habito de vida, pois é a marca distintiva de todo seguidor de Jesus: “Sede misericordiosos como o Pai”.
- Como deixar transparecer a Misericórdia do Deus Pai/Mãe no cotidiano de sua vida?

Os Crucificados reconhecem seu Reinado.


O povo permanecia aí, olhando. Os chefes, porém, zombavam de Jesus, dizendo: «A outros ele salvou. Que salve a si mesmo, se é de fato o Messias de Deus, o Escolhido!»
Os soldados também caçoavam dele. Aproximavam-se, ofereciam-lhe vinagre, e diziam: «Se tu és o rei dos judeus, salva a ti mesmo!» Acima dele havia um letreiro: «Este é o Rei dos judeus».
Um dos criminosos crucificados o insultava, dizendo: «Não és tu o Messias? Salva a ti mesmo e a nós também!». Mas o outro o repreendeu, dizendo: «Nem você teme a Deus, sofrendo a mesma condenação? Para nós é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal». E acrescentou: «Jesus, lembra-te de mim, quando vieres em teu Reino». Jesus respondeu: «Eu lhe garanto: hoje mesmo você estará comigo no Paraíso».
Evangelho de Lucas, 23, 35-43. (Correspondente à Festa de Cristo Rei, ciclo C, do Ano Litúrgico).
O Ano Santo da Misericórdia que iniciou com a abertura da Porta Santa na Basílica de S. Pedro no dia 8 de dezembro de 2015, Solenidade da Imaculada Conceição, encerra neste domingo, Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo.
Um ano centrado na Misericórdia de Deus como disse o Papa Francisco: “Deus abre o coração e a esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do pecado”. (Cfr Misericordiae Vultus)
O texto evangélico oferece um testemunho da misericórdia, como diz Andrea Grillo ao comentar o conceito que orienta o Ano Santo Extraordinário: “A misericórdia é o horizonte do perdão”, porque a “‘dependência do outro’ é a condição para se desejar, em primeiro lugar, a comunhão com o outro”. “Passa, inevitavelmente, por uma profunda redescoberta do ‘outro’”, no sentido de “ser capaz de ‘tirar os sapatos diante da terra sagrada do outro”. (Leia a entrevista completa aqui)
O Evangelho de Lucas apresenta-nos Jesus Crucificado e diferentes pessoas ao seu redor. Acima da cruz havia um letreiro onde estava escrito: Rei dos Judeus.
No primeiro parágrafo que lemos temos uma clara descrição da cena. Jesus na cruz e diferentes grupos de pessoas. Imaginemos essa situação.
Está o povo que fica olhando. Imaginamos que alguns olhavam Jesus crucificado, sem entender o que tinha acontecido e lembrando muitas coisas “dessa pessoa” que agora estava na sua frente sofrendo os tormentos de uma cruz. Uma sucessão dos fatos muito fugazes levaram seu profeta e mestre a estar agora condenado como um pecador! Tudo se desenvolveu depressa, quase sem perceber.
Outros dirigiam sua mirada a Maria. Sua serenidade e paz no meio da sua dor gerava neles confiança em Deus e uma paz incompreensível para estar ali. Como era possível que essa mulher tivesse tanta calma nessa situação? Ela trazia-lhes a lembrança de Jesus orando ao Pai, narrando parábolas e em tantos outros momentos dos três anos vividos juntos.
Outras pessoas dirigiram seus olhares ao seu redor por medo. Será que todos/as iam acabar como ele? Tudo era mentira? Porém a memória das curas, da vida recebida estando com ele continuava presente.
No texto aparecem também os chefes que zombavam dele e o ridicularizavam com suas críticas. São os que acreditam saber e eles consideram-se com autoridade para falar. Repetem ironicamente as palavras que mais os incomodavam: ele acreditava ser o Messias: “A outros ele salvou”. “Que salve a si mesmo se é de fato o Messias de Deus, o Escolhido!”.
Sua condenação para eles é justa porque Jesus engana os pobres, os que não têm cultura e, ainda pior, continuamente falava deles, os chefes, como se fossem corruptos e falsos. Além de tudo, "esse falso profeta" tentava convencer o povo de que era enganado com as exigências do culto e das celebrações. Para eles, Jesus lançava dardos de fogo contra uma religião estabelecida há muito tempo com suas leis e costumes.
Aparecem também os soldados que são os que estão a serviço do Império Romano. Estes não o conhecem muito, mas são os que neste momento estão realizando sua tarefa. Também caçoavam dele. “Aproximavam-se, ofereciam-lhe vinagre, e diziam:“Se tu és o rei dos judeus, salva a ti mesmo”!” Se unem aos chefes na burla e no escarnecimento. Oferecem-lhe vinagre para sua sede.
E ao final desta primeira cena disse que “Acima dele havia um letreiro: Este é o Rei dos judeus”.
Podemos perguntar-nos: para onde dirigimos nosso olhar diante de Jesus Crucificado? Se olharmos para ele, que significa na nossa vida considerá-lo Rei? Como é seu reinado que estamos chamados a imitar?
 dois criminosos crucificados junto com Jesus, que dialoga com eles. Um deles está preocupado por ser liberado dos tormentos da cruz e nas suas palavras percebemos ironia: “Não és tu o Messias? Salva a ti mesmo e a nós também!”. Ele se soma às críticas dos judeus sobre o Messias e o poder que um Messias devia ter para eles.
Mas o outro criminoso repreende-o: “Nem você teme a Deus, sofrendo a mesma condenação?”. ” Para nós é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal.”
Ele sabe os fatos que o levaram a estar aí nesse momento, mas também sabe que Jesus não fez nada e por isso é uma injustiça que estejam na mesma situação: os três condenados.
E ainda acrescenta um pedido: «Jesus, lembra-te de mim, quando vieres em teu Reino». Jesus respondeu: «Eu lhe garanto: hoje mesmo você estará comigo no Paraíso». Além de reconhecer sua culpa, ele proclama na pessoa de Jesus o Messias, e por isso pede-lhe para estar no seu Reino.
No meio de sua dor e do reconhecimento dos seus pecados, este ladrão tem uma mirada cheia de fé, e confia em Jesus. Sua pobreza e marginalização o levam a acreditar em Jesus como Rei dos Judeus.
Sua atitude de humildade e pobreza ante Jesus é um claro testemunho de que «Deus não é Deus de mortos, mas de vivos; pois, para Ele, todos estão vivos» (Lc 20, 38). Revela-nos assim que “esse é o verdadeiro rosto do Pai, cujo único desejo é a vida de todos os seus filhos”. Como diz o Papa Francisco na missa celebrada para os presos na Basílica de São Pedro: “Assim, para ser fiéis ao ensinamento de Jesus, tudo o que somos chamados a assumir e fazer nosso é a esperança de renascer para uma vida nova”. (Leia a Homilia completa do penúltimo Jubileu, os dos encarcerados: “A esperança não pode ser sufocada por nada e por ninguém”
Jesus é aceito e proclamado Rei pelos mais pobres, aqueles que estão crucificados junto com ele. Somos convidados a perguntar-nos se aceitamos seguir o caminho da Cruz que nos apresenta Jesus nesta data. Somente assim podemos reconhecer sua Realeza porque ele não é um rei glorioso, que triunfa diante dos poderes do mundo.
Pelo contrário, seu esplendor é percebido somente por aqueles e aquelas que, desde o sofrimento que experimentam na sua vida, olham para o Crucificado e recebem dele o consolo que acrescenta sua esperança.
Nele vemos realizadas suas próprias palavras: "quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado."(Lc 14,11). O Reinado de Jesus foi o serviço especialmente aos pobres e aos rejeitados da sociedade.
Podemos nos perguntar como olhamos para os/as outros/as, os que sofrem ao nosso lado? Os que padecem a marginalização, a pobreza, o desprezo? Temos um olhar misericordioso e compassivo ou consideramos que temos autoridade para julgar o que é justo e aquilo que é injusto? Nosso olhar é determinado seguindo as normas estabelecidas pela lei?
Peçamos a Paulo que possamos fazer nosso o seu mesmo sentir quando escreve aos Filipenses:
Tenham uma só aspiração, um só amor, uma só alma e um só pensamento. Não façam nada por competição e por desejo de receber elogios, mas por humildade, cada um considerando os outros superiores a si mesmo. Que cada um procure não o próprio interesse, mas o interesse dos outros. Tenham em vocês os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo:
Ele tinha a condição divina,
mas não se apegou a sua igualdade com Deus.
Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo,
assumindo a condição de servo
e tornando-se semelhante aos homens.
Assim, apresentando-se como simples homem,
humilhou-se a si mesmo,
tornando-se obediente até a morte,
e morte de cruz!
Por isso, Deus o exaltou grandemente,
e lhe deu o Nome
que está acima de qualquer outro nome;
para que, ao nome de Jesus,
se dobre todo joelho
no céu, na terra e sob a terra;
e toda língua confesse
que Jesus Cristo é o Senhor,
para a glória de Deus Pai. (Fl 2, 2-11)

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

FESTA DE CRISTO REI: Um juízo estranho.

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 25, 31-46 que corresponde a Solenidade de Cristo Rei, Ciclo A do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto
As fontes não admitem dúvidas. Jesus vive voltado para aqueles que vê necessitados de ajuda. É incapaz de passar ao largo. Nenhum sofrimento lhe é alheio. Identifica-se com os mais pequenos e desvalidos e faz por eles tudo o que pode. Para Ele a compaixão é o primeiro. O único modo de parecer-nos com Deus: “Sejam compassivos como o vosso Pai é compassivo”.
Como nos poderá estranhar que, ao falar do Juízo final, Jesus apresente a compaixão como o critério último e decisivo que julgará as nossas vidas e a nossa identificação com Ele? Como nos poderá estranhar que se apresente identificado com todos os pobres e desgraçados da história?
Segundo o relato de Mateus, comparecem ante o Filho do Homem, ou seja, ante Jesus, o compassivo, “todas as nações”. Não se faz diferenças entre “povo eleito” e “povo pagão”. Nada se diz das diferentes religiões e cultos. Fala-se de algo muito humano e que todos entendem: Que fizemos com todos os que viveram sofrendo?
O evangelista não se detém propriamente a descrever os detalhes de um juízo. O que destaca é um duplo diálogo que lança uma luz imensa sobre o nosso presente e nos abre os olhos para ver que, em definitivo, há duas formas de reagir ante os que sofrem: compadecemo-nos e os ajudamos, ou desinteressamo-nos e os abandonamos.
O que fala é um Juiz que está identificado com todos os pobres e necessitados: “Cada vez que ajudares a um destes meus pequenos irmãos, fizeste-o a Mim”. Quem se aproxima para ajudar a um necessitado, aproxima-se de Dele. Por isso estarão junto Dele no reino: “Vinde, benditos do Meu Pai”.
Logo dirige-se a quem viveu sem compaixão: “Cada vez que não ajudastes a um destes pequenos, deixastes de o fazer comigo”. Quem se afastou dos que sofrem, afastou-se de Jesus. É lógico que agora lhes diga: “Afastai-vos de Mim”. Segui o vosso caminho…
A nossa vida está-se a julgar agora mesmo. Não há que esperar nenhum juízo. Agora estamos aproximando-nos ou afastando-nos dos que sofrem. Agora estamos aproximando-nos ou afastando-nos de Cristo. Agora estamos decidindo a nossa vida.

sábado, 23 de novembro de 2013

34º Domingo do Tempo Comum: Cristo, um rei servido

Raymond Gravel
 
Festejar Cristo, Rei do Universo, é uma outra maneira de celebrar a Páscoa. Essa festa termina bem o ano litúrgico. Sem morte-ressurreição, a festa de hoje não teria nenhum sentido. De que realeza estamos falando? Que tipo de rei reconhecemos? Como dizia o biblista Jean-Pierre Prévost: "Para ser honesto com vocês, devo dizer francamente que não tenho nenhuma prelileção particular pela realeza e que, em si, o título de rei aplicado a Jesus não é aquele que mais me inspira". Por essa razão, devemos redefinir a realeza, caso quisermos aplicá-la ao Cristo ressuscitado na Igreja de hoje; caso contrário, corremos o risco de associar Cristo a um monarca igual a todos os outros e que nos faria perder de vista o que Cristo foi e ainda é na Igreja de hoje. Infelizmente, alguns dirigentes da Igreja com frequência confundiram a realeza de Cristo com aquela dos homens, a ponto de deformar o rosto de Jesus. Felizmente, em cada época, houve discípulos, homens e mulheres, que souberam devolver ao Cristo a sua verdadeira realeza, que consiste em servir e não em ser servido.
 
1. A problemática da realeza
Jean-Pierre Prévost escreve: "A história da realeza em Israel começou mal. Foi a contragosto que o profeta Samuelacabou por consagrar Saul primeiro rei de Israel, para responder à demanda do povo que queria ser como todas as outras nações" (1 Sm 8,5). Podemos acrescentar que esse não teve um sucesso real. E por quê? Simplesmente porque o poder corrompe e o prestígio sobe à cabeça daqueles que exercem o poder. É evidente que na história deIsrael houve reis melhores que outros; pensemos em Davi ou em Salomão. Mas esses dois reis, que a tradição bíblica soube embelezar, tornando-os símbolos idílicos, a história mostra que também eram muito humanos, portanto, limitados e pecadores.
No fundo, a Bíblia nos ensina que Deus não queria reis, porque a experiência da realeza era bastante negativa e a história de Israel é a prova disso, uma vez que a realeza não durou mais do que 400 anos e terminou de maneira trágica com o exílio de Sedecias para a Babilônia. O que Deus queria era um rei servidor e não um príncipe que dirige e que explora o seu povo. Esta má experiência da realeza permitiu ao povo de Israel purificar sua fé e imaginar um rei ideal, que seria um verdadeiro pastor e que viria estabelecer um reino de justiça e de paz a serviço dos pobres e dos desafortunados. Esse rei nós o reconhecemos no Cristo Pascal.
 
2. Cristo, Rei do Universo
Foi somente em 1925 que nasceu esta festa e não é pelas mesmas razões que nós continuamos a celebrá-la hoje. Jesus nunca se declarou rei; pelo contrário, o evangelho nos ensina que esse título foi dado a ele de maneira irônica e sarcástica por um rei, Herodes, e por um representante de César, Pôncio Pilatos... Jesus se defendeu: "Pilatosdisse a Jesus: ‘Então tu és rei?' Jesus respondeu: ‘Você está dizendo que eu sou rei'" (Jo 18,37a). Por outro lado, se dizemos que Cristo é rei, é porque reconhecemos nele o servidor que quis estabelecer o reino de justiça e de paz, tão desejado pelos homens e pelas mulheres do seu tempo. Mas ele não tem nada de outro rei: seu trono é a cruz; sua coroa é de espinhos e seu cetro é seu bastão de pastor. O evangelho de Lucas o apresenta, ao mesmo tempo, como um rei sem poder - "Se tu és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo" (Lc 23,37) - e como um rei muito humano, de sorte que o ladrão crucificado com ele que o interpela, não lhe diz: Majestade ou Senhor, ou Mestre ou ainda Sua Santidade ou Monsenhor... Não! Ele o chama de Jesus: "Jesus, lembra-te de mim quando vieres em teu Reino" (Lc 23,42). Esse bandido torna-se o primeiro sujeito do Reino: "Eu lhe garanto: hoje mesmo você estará comigo no Paraíso" (Lc 23,43). É o que fez São João Crisóstomo dizer: "Fiel à sua profissão de ladrão, ele rouba por sua confissão o reino dos céus".
 
3. Atualização
Atualmente, temos necessidade de reler este evangelho para celebrar Cristo, Rei do Universo. É preciso nos perguntar: como sociedade e como Igreja, que tipo de rei apresentamos? Que rosto de Cristo mostramos às mulheres e aos homens do nosso tempo? Quantos políticos e lideranças da Igreja exercem o seu poder como monarcas déspotas e cruéis que têm coração muito mais para enriquecer do que servir a coletividade, a comunidade? Na Igreja, quantas dores foram infligidas aos cristãos(as) por lideranças principescas que acreditaram ser os únicos detentores da verdade?
Há alguns anos, o Papa João Paulo II pediu perdão pela Igreja do Renascimento; o cardeal Marc Ouellet fez o mesmo pela Igreja de Quebec antes de 1960, por todos os sofrimentos infligidos às mulheres, aos autóctones, aos judeus, às crianças, aos homossexuais... A reação das pessoas foi muito negativa. Homens, mulheres, membros do clero criticaram duramente tanto o Papa como o cardeal. Diziam que seu perdão era incompleto e condicional; não acreditavam em sua sinceridade. De sorte que o jornalista do jornal Presse, Alain Dubuc, resumiu bem o pensamento de muitos quebequenses sobre o cardeal Marc Ouellet, durante sua passagem pela Comissão Bouchard-Taylor, em 2007. Ele escreve: "Com seu ardor e sua carta de perdão, o cardeal Ouellet conseguiu nos lembrar porque os quebequenses rejeitaram em massa e tão brutalmente a sua Igreja durante os anos 1960. As reações foram muito vivas, porque Ouellet, com sua rigidez e sua arrogância, nos mergulha novamente neste período que os mais velhos dentre nós querem esquecer. Ouellet, eu o digo pesando minhas palavras, após uma leitura atenta das suas intervenções públicas, é um reacionário no sentido mais forte da palavra, alguém que se insurge contra a evolução da sociedade que o cerca, que quer resistir às mudanças e que defende as práticas e os valores que pertencem ao passado".
Pessoalmente, acredito sinceramente que algumas lideranças eclesiais de hoje fazem muito mais mal à Igreja do que a ajudam; eles encarnam esta Igreja que os quebequenses não querem mais: uma Igreja dogmática e doutrinal que sempre exclui as mulheres, uma Igreja homofóbica que condena os homossexuais, uma Igreja obcecada pela sexualidade, uma Igreja que rejeita aquelas e aqueles que vivem um fracasso em seu casamento e que querem continuar a amar, uma Igreja que acredita ser a única detentora da verdade sobre Deus e sobre o mundo, uma Igreja que recusa qualquer evolução e qualquer mudança na sociedade, uma Igreja que não está a serviço do povo de Deus, mas que se serve dos cristãos para aumentar seu prestígio e seu poder. Com uma Igreja assim, estamos longe do Evangelho e, como durante muito tempo encontramos nela esses príncipes, não deveríamos nos surpreender ao ver mulheres e homens se afastarem desta instituição que lhes parece completamente ultrapassada. Felizmente, há o Papa Francisco que nos faz ter esperança e que se junta a todos os bispos, padres religiosos(as), cristãos que continuam a acreditar e que tanto gostariam de viver o evangelho hoje, apresentando um rosto de Cristo amável, misericordioso, tolerante, aberto, livre, justo, respeitoso do outro, dos outros, compassivo: um rosto de Cristo que faz o homem e a mulher na Quebec de hoje ter esperança.
Concluindo, eu gostaria de citar novamente o Alain Dubuc em sua reflexão sobre a Igreja e sua aproximação negativa ao cardeal Marc Ouellet: "De acordo com o cardeal Ouellet, um povo não pode se esvaziar tão rapidamente da sua essência sem consequências graves. De onde a confusão da juventude, a queda vertiginosa dos casamentos, a taxa ínfima de natalidade e o número espantoso de abortos e de suicídios para elencar apenas algumas das consequência que se somam às condições precárias dos idosos e da saúde pública. Esse retrato apocalíptico apaga convenientemente as misérias desta época passada, os efeitos da pobreza e da ignorância. Ele atribui à revolução silenciosa um fenômeno que encontramos em todas as partes do Ocidente. E o mais importante, ele se esquece de perguntar se este abandono brutal da religião não se deve às falhas da Igreja mais do que aos complôs dos artistas da revolução silenciosa.
A Igreja, em vez de acompanhar seus fiéis em um período de mudanças difíceis, os abandona, orgulhosa de sua rigidez, e dessa maneira falha em sua missão. Outras Igrejas, portadoras dos mesmos valores, escolheram um outro caminho, especialmente os anglicanos,  nossa Igreja irmã, onde os padres são casados, onde se ordena mulheres e onde o casamento gay começa, com dificuldades, a ser aceito.
De fato, o que é mais prejudicial é que a alternativa de Ouellet, uma iniciativa individual, compromete o verdadeiro diálogo no qual se engajaram muitos de seus colegas. Mas seria assombroso se tivesse um grande impacto, eleitoral ou qualquer outro, porque o cardeal está se tornando num personagem marginal para os menores de 70 anos. Exceto para nos lembrar porque a separação entre a Igreja e o Estado é tão boa".

34º - Domingo do Tempo Comum: Lembra-te de mim (Cristo Rei)

José Antonio Pagola
 
Segundo o relato de Lucas, Jesus agonizou em meio às zombarias e ao desprezo daqueles que o rodeavam. Ninguém parece ter entendido sua vida. Ninguém parece ter captado sua entrega aos que sofrem, nem seu perdão aos culpáveis. Ninguém viu no seu rosto o olhar compassivo de Deus. Neste momento, ninguém parece perceber naquela morte nenhum mistério.
As autoridades religiosas caçoam dele com gestos depreciativos: "A outros ele salvou. Que salve agora a si mesmo. Se é de fato o Messias de Deus, ‘o Escolhido!', Deus virá em sua defesa".
Também os soldados aderem às zombarias. Eles não acreditam em nenhum Enviado de Deus. Eles riem do letreiro que Pilatos mandou colocar na cruz: "Este é o Rei dos judeus". É absurdo que alguém possa reinar sem poder. Ele deve demonstrar sua força salvando-se a si mesmo.
Jesus permanece calado, porém não desce da cruz. Que faríamos nós se o Enviado de Deus procurasse sua própria salvação fugindo da cruz que o une para sempre a todos os crucificados da história? Como poderíamos acreditar num Deus que nos abandonasse para sempre à nossa sorte?
De repente, em meio a tantas zombarias e desprezo, acontece uma surpreendente invocação: "Jesus, lembra-te de mim, quando entrares em teu Reino". Não é um discípulo nem um seguidor de Jesus. É um dos criminosos crucificados junto dele. Lucas o propõe como exemplo admirável de fé no Crucificado.
Este homem a ponto de morrer executado sabe que Jesus é um homem inocente, que não fez nada mais que o bem para todos. Intui na sua vida um mistério que escapa dele, mas está convencido de que Jesus não será derrotado pela morte. De seu coração nasce uma súplica: somente pede a Jesus que não o esqueça. Só Jesus pode fazer alguma coisa por ele.
Jesus responde imediatamente: "Hoje mesmo você estará comigo no Paraíso". A partir deste momento os dois estão unidos na angústia e na impotência, mas Jesus o acolhe como companheiro inseparável. Os dois morreram crucificados, mas entraram juntos no mistério de Deus.
Em meio à sociedade descrente de nossos dias, muitos vivem confusos. Não sabem se acreditam ou não acreditam.Quase sem sabê-lo, levam no seu interior uma pequena e frágil fé. Às vezes, sem entender por que nem como, sobrecarregados pelo peso da vida, invocam Jesus à sua maneira.
"Jesus, lembra-te de mim", e Jesus escuta-os: "Você estará sempre comigo". Deus tem seus caminhos para encontrar cada pessoa, e nem sempre é por onde indicam os teólogos. É decisivo ter um coração que escute a própria consciência.