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quinta-feira, 27 de junho de 2013

E as manifestações nas ruas? (I e II)

Paulo Reims

         No início da semana passada, dia 17 de junho, escrevi sobre o assunto, e o partilhei no dia seguinte. Até este momento estava alegre com as manifestações nas ruas, apesar da preocupação com a violência, até então por iniciativa dos policiais, a mando do governo do Estado de São Paulo. Aliás, este foi o motivo principal a aumentar o número de manifestantes. Os dias foram se sucedendo, e minha alegria foi tomada por um misto de tristeza. Por quê?

Procurei acompanhar as manifestações bem de perto. Estava contente porque o povo estava despertando, e triste porque percebi que a maioria, sem se dar muita conta, após longos anos, acordou com cataratas, que deixam a visão muito embaçada. Como assim? Vamos recordar. No início, a reivindicação era a revogação do aumento das tarifas do transporte coletivo. A iniciativa foi do Movimento Passe Livre (MPL). A seguir, as manifestações foram tomando proporções maiores em número de pessoas, cidades, dentro e fora do país, e com uma pauta de reivindicações que aumentava dia após dia.

Dizia para mim mesmo: o MPL não está conseguindo coordenar as manifestações, e concluí que havia infiltrações de todo tipo, pessoas violentas, bandidos, saqueadores, depredadores. Mas, como ventilei no artigo da semana passada, havia infiltração truculenta e mascarada da direita burguesa, detentora do poder econômico, político que, por sua vez, é senhora, também, do Partido da Imprensa Golpista (PIG). Desta forma começou a conduzir o processo –dando a pauta das manifestações e provavelmente infiltrando alguns depredadores– o que poderia levar a um golpe, como aconteceu com as manifestações nas ruas em 1964. A direita quer o progresso, mas somente para os seus pares. Foi assim, inculcando terror na massa, que conseguiu fazer morrer na casca as reformas sociais incipientes do governo de João Goulart, e aumentar seus patrimônios.

Como faz falta a filosofia na escola, em todos os níveis e cursos! Creio que é a principal causa das cataratas nos olhos da massa, pois assim é manobrada com facilidade. Mas, então, você quer dizer que as manifestações não foram oportunas? Não é isso. Elas exerceram um papel importante ao fazer as "autoridades” despertarem, em todos os sentidos, também o da iminência de um golpe. Sacudiram as folhas secas para caírem e se transformarem em adubo, energia para uma retomada mais vigorosa do processo de transformação social, que tenha como escopo o bem comum, e não o acúmulo para aqueles que já têm demais.

Quando digo que o Brasil acordou com cataratas nos olhos, o faço pela parcialidade das manifestações. Como assim? Por acaso alguém viu um cartaz, faixa ou palavra de ordem contra o Judiciário, eivado de irregularidades, algumas clamorosas, como por exemplo: a venda de sentenças, viagens internacionais da esposas dos ministros do STF com dinheiro público, parcialidade nos julgamentos dos mensalões - até agora o processo contra o mensalão do PSDB está engavetado, sendo que é anterior ao do PT - , toda a privataria tucana, especialmente a da Vale do Rio Doce, e por aí...? Alguém viu uma palavra contra o Congresso Nacional, o mais bem pago do mundo, depois dos USA, e que continua agregando mordomias, com uma população tão pobre, uma das nações com a maior desigualdade social do mundo, apesar dos avanços dos últimos dez anos, não podemos negar? Nem os parlamentares da oposição se manifestam contra estas regalias e privilégios; com seus "bolsos” abarrotados eles silenciam, mesmo a custa do suor e do sangue dos verdadeiros trabalhadores que fazem o progresso deste país. Fora a manifestação contra as PECs 33 e 37, nada mais. Aliás, a PEC 37, quase por unanimidade, acabou de ser derrubada.

Ontem, dia 24 de junho, um senador do DEM foi contra a Presidente Dilma que, entre outras propostas concretas, anunciou a convocação de um plebiscito para uma constituinte exclusiva para fazer a reforma política, desde que o Congresso Nacional a aprove. Ele se pavoneou em dono da verdade, dizendo que isto é prerrogativa do Congresso Nacional. Igualmente, hoje, dia 25 de junho, Aécio Neves não perdeu tempo em também aparecer dizendo que as propostas da Presidente Dilma são uma afronta às reivindicações do povo nas ruas. Feliz mesmo foi o Presidente da OAB que falou da necessidade de se ouvir o povo, mas não criar uma constituinte, pois iria atrasar ainda mais o processo da reforma política. Admirável assessoria esta. E é isto que vai prevalecer.

Mas as saídas da oposição refletem que, na verdade, a voz do povo é um detalhe. Por que a Presidenta não pode propor uma constituinte através da escuta do povo? Qualquer cidadão pode fazer propostas que sejam do interesse da coletividade, e os parlamentares, se representam o povo, devem acolhê-las. A impressão que os membros da oposição passam, com suas reações, é a de que o povo é somente um detalhe que interessa na hora de lhes dar o voto.

Quero enaltecer o gesto da Presidenta Dilma por tal proposta, pois creio que a partir da reforma política, bem conduzida, muitas outras reformas de base poderão se suceder, se a direita fascista e a imprensa burguesa, assessorados pela CIA e outros mais, não derem o golpe. O MPL já percebeu esta intenção, tanto que avisou publicamente que saía das manifestações, uma vez que conseguiu o objetivo da sua luta: revogação do aumento das passagens do transporte coletivo.

E aqui uma vez mais se percebe que o Brasil acordou com cataratas nos olhos: onde estava a faixa solicitando do Congresso Nacional a regulamentação do artigo 14 da Constituição, para que tenhamos uma Democracia Participativa, ou seja, para que o povo seja sempre consultado a respeito dos assuntos importantes para a vida desta nação? Não encontrei nenhum cartaz contra a imprensa burguesa, e a favor da democratização e socialização da imprensa.

Realmente, as manifestações perderam sua originalidade na medida em que estão sendo parciais, permitindo, mesmo de forma incauta, a manipulação do terror da direita que quer voltar a tomar o poder para transformar nossos sonhos e ideais em pesadelos reais.

            Também não encontrei uma faixa que reivindicasse a reforma agrária, para diminuir a violência no campo e também a miséria...

Voltemos nosso olhar para aquilo que a imprensa vive chamando de primavera árabe. Com a desculpa de que queria ajudar estes povos a ter liberdade, a transformaram em rigoroso inverno. Um exemplo, a título de recordação: a Líbia tinha todos os seus jovens nas universidades. Hoje a Líbia virou ruína e miséria. É o que o Tio Sam e seus aliados sabem fazer. Os poderios econômico e bélico deles crescem e a miséria e o sofrimento dos países invadidos e subjugados também crescem assustadoramente. Quem será a próxima vítima?

Não estou afirmando que neste governo não existem problemas. Eles estão aí, são sérios e precisam ser enfrentados com vigor. A corrupção, infelizmente, é grande; desperdício de verbas também, a começar pela construção de algumas arenas que, após o mundial,terão pouco proveito; o orçamento para a transposição do Rio São Francisco já duplicou, e creio que não chegará ao fim, e se chegar será para satisfazer os donos do agronegócio; tem muita coisa errada sim. Porém, o atual senador Roberto Requião afirmou em uma entrevista à revista "Caros Amigos”, em 2005 –auge das denúncias do mensalão– "a gente não precisa nem de um roubômetro para avaliar; o FHC, com a privataria tucana, roubou 10.000 vezes mais do que qualquer possibilidade de desvio do governo Lula”. E que providências foram tomadas?

Concluo dizendo que precisamos cortar na própria carne, ou seja, precisamos fazer cirurgia para retirada de cataratas, para vermos melhor e agirmos de forma coerente e concreta.

Neste caso, proponho ao Congresso Nacional que tenha a coragem da Assembleia Nacional do Equador, que no dia 14 de junho pp, aprovou a sua Lei de Imprensa. Foram 108 votos a favor, 26 votos contra, certamente estes são os donos da imprensa de lá, e uma abstenção, ou seja, não sabe porque está lá. Realmente foi uma vitória popular. E aí, senhores senadores e deputados? Estão com medo de quem? Vocês representam o povo, ou os grupos econômicos que também são donos do PIG?

Precisamos urgentemente de uma Lei de Imprensa que venha favorecer a imprensa alternativa, para combater as mentiras com caras de verdades da imprensa burguesa e golpista.

Vamos lá, já, queremos enxergar melhor para sairmos às ruas com propostas concretas e sem parcialidade, pelo bem comum. Juntemo-nos aos movimentos sociais organizados, para não sermos manipulados pela direita fascista.

Este é o medo dos "poderosos” que tentam nos manter com cataratas, miopias, hipermetropia, astigmatismo...

E as manifestações nas ruas? (I)
Por Paulo Reims

          As manifestações tiveram início em São Paulo, a princípio contra o aumento das tarifas de transportes públicos. Mas, já se estendem por todo o país, com apoio no exterior, tendo várias reivindicações.

Jovens estudantes e trabalhadores, usando, também, a ferramenta das redes sociais, começam a despertar, sentindo o aperto no bolso.

O Movimento Passe Livre (MPL) já contagiou e agregou milhares de milhares por este país. Sinceramente, esta movimentação de pessoas despertando traz alegria e comprova que a esperança continua viva, apesar de uma multidão continuar em silêncio, induzida pela grande mídia, que também programa as mentes para o "delírio” durante as copas e carnavais, bem do jeito que os donos do poder apreciam.

E, de repente, se ouvem os adestrados do PIG anunciarem: "Manifestantes usam de violência e depredam patrimônios públicos e particulares”. Fiquei atento, e dizia para mim mesmo: Aí tem coisa! Certamente tem gente infiltrada para macular a imagem das manifestações e manipular a consciência dos incautos.

Depois veio à tona, pelos meios de comunicação alternativos, que havia policiais militares e civis, infiltrados à paisana, para dar início aos atos de vandalismo, a mando do governo estadual, justificando assim toda a violência do aparato militar, com bombas de efeito moral, tiros com balas de borracha, spray de pimenta, enfim, com toda truculência comparada à época da ditadura militar.

Pensei que fossem somente alguns da direita rançosa que estivessem infiltrados no meio da nossa juventude - que corre atrás do novo mundo possível - com o objetivo de distorcer os verdadeiros anseios juvenis, mas o velho chuchu também tentou produzir rebentos, dando ordens aos seus subordinados para que agissem com autoritarismo e violência.

           Realmente, as novas gerações que participaram e ou assistiram, no dia 13 de junho PP, toda a violência contra os manifestantes puderam ter uma ideia das repressões, torturas e mortes ocorridas durante os 21 anos de ditadura militar neste país, e uma multidão ficou atônita ao reviver a mesma realidade por algumas horas.

Toda esta truculência deve ser usada contra bandidos, mas quanto eu tenha conhecimento ali estava a juventude em busca dos seus ideais de vida, de dignidade.

Os bandidos estão em outras esferas. É nas esferas superiores que se encontram os baderneiros e vândalos do erário público. Quantas obras faraônicas, com desperdício de quantias astronômicas para satisfazer algumas pessoas e grupos inescrupulosos, em detrimento da quase totalidade do povo que tem que viver a duras penas.

Interessante é perceber a capacidade de se camuflar de alguns personagens que nos dias passados se apresentavam como ditadores. De repente, pareciam pessoas amistosas; e sobraram convites para o diálogo e negociações, vendo as manifestações tomarem grandes proporções.

Ficou muito feia a fotografia de várias autoridades deste país. Mas as imagens dos manifestantes, com algumas exceções, continuam repercutindo muito bem. É isso mesmo: "Sonho que se sonha junto é início de uma nova realidade”.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

BAHIA: Os Protestos chegam ao sertão

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 358. Caridade X Religião.

O desafio do jornalismo crítico numa democracia comprometida

Lúcio Flávio Pinto

 Entrevista do jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto aos alunos de jornalismo da Unesp (Universidade do Estado de São Paulo) de Bauru.

Recentemente, um ranking sobre o nível de liberdade de imprensa nos países foi divulgado e o Brasil ficou em uma posição bem ruim por conta do alto número de assassinatos de jornalistas, da constante influência empresarial e política no ramo e de ações sociais contra blogueiros e sites. O que você acha que pode mudar essa situação?

É uma situação grave e paradoxal. Esta é a mais longa democracia que já tivemos na república brasileira. Graças a essa longevidade (para o liliputiano padrão brasileiro de democracia), começam a surgir instituições e outras se fortalecem. No entanto, há menos liberdade de crítica e mesmo de informação. Várias das instituições em vigor, sobretudo as que deviam ser os esteios da sociedade, com destaque para o judiciário e o executivo, se mostram refratárias à fiscalização e ao controle social. Quem ficar acima e fora do alcance das representações menos institucionais da sociedade, como a imprensa.

Claro que não existe "uma” ou "a” imprensa. Há uma variedade enorme de entes individuais sob esse conceito. Mesmo as piores, no entanto, são vitais para a democracia. Todos devem poder se expressar, sobretudo quando dirigem suas baterias na direção do poder institucionalizado. E as chamadas autoridades, de que natureza ou formato sejam, devem reagir com a verdade, ou contribuir para a sua busca. Mas geralmente reagem com intolerância, abusando do próprio poder.

O judiciário, como autor ou instrumento da repressão à liberdade, tem tipo papel destacado. Daí haver tantos processos contra jornalistas e outros personagens que manifestam crítica e opinião. Levada ao extremo, essa reação resulta em atentados contra a integridade e a vida por dito crime de opinião. O Brasil enriquece, mas a liberdade tem sido empobrecida.

Em 2005, você foi premiado com o Internacional Press Freedom Award pela defesa da liberdade de imprensa. Acredita que no Brasil ainda sofremos muito com esse tipo de censura?

A censura tem remotas raízes no Brasil. É um valor muito mais cultuado do que a liberdade. Quando se compara com a evolução histórica de um país que se constitui ao mesmo tempo, como os Estados Unidos, é um contraste brutal. A imprensa surgiu no novo continente, das Américas, um século antes de colocar os seus pés no Brasil. E quando surgiu já encontrou postada a junta de censura do império português, que tentava impedir a independência da sua colônia americana. O primeiro jornal teve que circular fora do país, em Londres, em 1808, quando a imprensa já estava estabelecida na parte hispânica e anglo-saxônica das Américas.

Assim, tanto a sociedade quanto o poder são sempre tentados a cercear a liberdade de expressão. Ou pela intervenção política direta das ditaduras ou pela coação pessoal, psicológica, sem falar no instrumento mais eficaz: a compra. É esse instrumento que age agora, na nossa longeva democracia, depois de duas décadas de ditadura. A autocensura é o fato mais destacado e perigoso dos nossos dias. Não só as empresas se automutilam para servir aos seus interesses. Os jornalistas também se colocam a mordaça – e às vezes sem ordem patronal ou coação externa. É porque muitos jornalistas também se tornaram extensões do poder coercitivo, cúmplices da manipulação da opinião pública.

 Após deixar a grande imprensa e começar a trabalhar no Jornal Pessoal, você acredita que conquistou uma maior liberdade para se expressar e divulgar suas opiniões e ideias?

Sem dúvida. Adotei o menor formato possível que qualquer publicação podia ter para se viabilizar com plena liberdade. Escrevo todo o jornal, tenho apenas a participação do meu irmão na edição e ilustração, mais a gráfica para imprimir e uma agência para distribuir os exemplares. Não há custo menor. Não uso cores nem fotos. Assim, pude dispensar a receita da publicidade, para isso aceitando ser pequeno e pobre. Mas há o lado ruim dessa opção: não tenho capital para bancar viagens e outras despesas.

Mais do que nunca, a informação custa caro. É uma ilusão infantil achar que ela está toda na rede mundial de computadores. Há informações que só se obtém indo aos locais onde os fatores acontecem e conversando com os personagens dos fatos, que, evidentemente, não caem dos céus como maná semiológico. Esta mobilidade e capacidade de penetração o meu jornal não tem.

Como eu já estava havia 21 anos no jornalismo profissional quando comecei o Jornal Pessoal, depois de atuar em algumas das principais empresas jornalísticas do Brasil, uso esse capital até hoje para suprir minhas deficiências. O que me surpreende – e me entristece – é que mesmo sendo um anão empresarial, consigo dar informações que jamais aparecem na grande imprensa.

Você já sofreu algum tipo de censura em relação ao seu trabalho? Se sim, como isso se deu?

Muitas e distintas, na ditadura e na democracia. Mas reagi a todas. Pedi demissão três vezes de grandes empresas jornalísticas por não concordar com a censura. Tive que fazer isso porque, apenas dois meses depois de ter ingressado no jornalismo, em 1966, consegui meu primeiro espaço de opinião. Era uma coluna cultural chamada "De gente, fatos e livros”. Às vezes tive de negociar a publicação de algum artigo que a direção da empresa não queria publicar. Quando houve intolerância, pedi o boné.

Nunca aceitei a censura como uma ordem. Ela pode ser uma condição, que não temos o direito de ignorar. Se existe, é por resultar de um ato de força, que pode estar disfarçado e ser sutil. Temos que reagir à sua origem. Com meu Jornal Pessoal deixou de haver censura. Nem mesmo a subconsciente, dentro de mim. Pago caro, mas gozo de plena liberdade, como nubca tivce.

Já presenciou algum tipo de censura? No local de trabalho ou com colegas da área?

Sou de uma geração que conviveu com a censura, sobretudo a que veio com fúria depois do AI-5, no final de 1968, o "ano que não terminou”. A única vantagem desse relacionamento é que sabíamos perfeitamente quem era o inimigo: era aquela pessoa mandada para a redação com a missão de mutilar o trabalho dos profissionais da imprensa. Fazíamos o que podíamos para resistir e nos contrapormos a esse personagem, Hoje o jornalismo está ao nosso lado e pode ser um de nós.

Você foi professor visitante em várias universidades. Como você vê o assunto ‘liberdade de imprensa’ sendo tratado nas instituições de ensino? Acredita que esse é o modo correto de tal assunto ser abordado?

Há um grande preconceito acadêmico contra o jornalismo. Inclusive nos cursos de comunicação social. Há um tipo de acadêmico que não considera o jornalismo como fonte de referência confiável. É difícil encontrar fontes jornalísticas na bibliografia das dissertações e teses universitárias. Em parte, a restrição procede. Muitos jornalistas não são rigorosos na apuração dos fatos e poucos utilizam métodos de observação científicos. Mas o jornalismo de linha de frente, que está nos acontecimentos quando os canhões ainda estão quentes, de fato ou metaforicamente falando, esse é imprescindível nos nossos dias de vida digital e virtual. Mesmo assim, os acadêmicos viram os olhos dessa fonte. E muitos encaram a imprensa com preconceitos e dogmas. Acham a imprensa nada mais do que arauto do poder estabelecido. É uma visão esquerdista, no sentido daquela doença ideológica apontada por Lênin (antes de também se sujeitar a ela).

Acredita que com a internet e o maior número de meios para divulgar artigos e trabalhos a liberdade de imprensa possa ser, vamos dizer, ‘mais praticada’?

De fato há incomparavelmente mais liberdade, mas a taxa de eficiência dessa liberdade é espantosamente baixa. O caldo dessa cultura é engrossado por opinião em cima de opinião. A internet é o paraíso do "achismo”, praticado por donos da verdade capazes de qualquer juízo de valor, mas pouco propensos a demonstrá-lo. O mundo digital, prometendo o paraíso. É um doce desvio para o inferno.

Você acha que as leis deveriam proteger melhor os jornalistas ao exercerem sua liberdade de imprensa?

Fiel às remotas origens autoritárias da vida coletiva no Brasil, o legislador sempre está mais preocupado em cercear a imprensa do que em liberá-las das amarras e condicionantes do poder. Voltando ao paralelo com os EUA: terminada a constituição americana, Jefferson se voltou ao texto enxuto e adicionou-lhe a primeira das duas dezenas que ele viria a ter nos dois séculos e meio seguintes. Foi para não deixar dúvida que os pais fundadores da pátria consideravam a imprensa mais importante do que o governo. A imprensa traduz melhor a sociedade do que o governo. É mais porosa e permeável, a despeito de todos os seus vícios e defeitos. Graças a ela, o New York Times pode publicar os documentos secretos do Pentágono sobre a guerra no sudeste asiático e o Washington Post seguiu na apuração do escândalo de Watergate, num momento em que o presidente Nixon queria mandar cortar os seios de Katharina Graham, a dona do jornal.

Os casos de assassinatos mais recentes ocorreram em anos eleitorais. Você acredita que isso é apenas uma coincidência?

Os casos mais recentes de assassinato estão acontecendo durante o ano inteiro. Pode haver maior incremento em eleições de assassinatos políticos, que incluem a imprensa. Mas é um incremento sazonal típico. Há outros no curso do exercício de sangue de todos os anos. A expansão do homicídio é a contrafação do enriquecimento abusivo de certos setores sociais do país, um dos mais injustos do planeta.

Por fim, qual a sua opinião sobre a liberdade de imprensa no Brasil?

Continua a ser principalmente a do dono, seja o dono da empresa jornalística como daquele que pode comprá-lo e aos demais. A liberdade passou a ser uma commodity de mercado.


 

sábado, 22 de junho de 2013

12º Domingo do Tempo Comum - Ano C. Afinal, quem é Jesus para você?

“Jesus Cristo não é apenas doce de coco”. Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita da Ordem do Carmo.


Evangelho de Lucas 9,18-24

A liturgia deste domingo coloca no centro da nossa reflexão a figura de Jesus: quem é Ele e qual o impacto que a sua proposta de vida tem em nós? A Palavra de Deus que nos é proposta impele-nos a descobrir em Jesus o “messias” de Deus, que realiza a libertação dos homens através do amor e do dom da vida; e convida cada “cristão” à identificação com Cristo – isto é, a “tomar a cruz”, a fazer da própria vida um dom generoso aos outros.

O Evangelho confronta-nos com a pergunta de Jesus: “e vós, quem dizeis que Eu sou?” Paralelamente, apresenta o caminho messiânico de Jesus, não como um caminho de glória e de triunfos humanos, mas como um caminho de amor e de cruz. “Conhecer Jesus” é aderir a Ele e segui-l’O nesse caminho de entrega, de doação, de amor total.

ATUALIZAÇÃO

O Evangelho de hoje define a existência cristã como um “tomar a cruz” do amor, da doação, da entrega aos irmãos. Supõe uma existência vivida na simplicidade, no serviço humilde, na generosidade, no esquecimento de si para se fazer dom aos outros. É esse o “caminho” que eu procuro percorrer?

Na sociedade em geral e na Igreja em particular, encontramos muitos cristãos para quem o prestígio, as honras, os postos elevados, os tronos, os títulos são uma espécie de droga de que não prescindem e a que não podem fugir. Frequentemente, servem-se dos carismas e usam as tarefas que lhe são confiadas para se autopromover, gerando conflitos, rivalidades, ciúmes e mal-estar. À luz do “tomar a cruz e seguir Jesus”, que sentido é que isto fará? Como podemos, pessoal e comunitariamente, lidar com estas situações? Podemos tolerá-las – em nós ou nos outros? Como é possível usar bem os talentos que nos são confiados, sem nos deixarmos tentar pelo prestígio, pelo poder, pelas honras? Tem alguma importância, à luz do que Jesus aqui ensina que a Igreja apareça em lugar proeminente nos acontecimentos sociais e mundanos e que exija tratamentos de privilégio?

Quem é Jesus, para nós? É alguém que conhecemos das fórmulas do catecismo ou dos livros de teologia, sobre quem sabemos dizer coisas que aprendemos nos livros? Ou é alguém que está no centro da nossa existência, cujo “caminho” tem um real impacto no nosso dia a dia, cuja vida circula em nós e nos transforma com quem dialogamos com quem nos identificamos e a quem amamos?

É na oração que eu procuro perceber a vontade de Deus e encontrar o caminho do amor e do dom da vida? Nos momentos das decisões importantes da minha vida, sinto a necessidade de dialogar com Deus e de escutar o que Ele tem para me dizer?


 
A PALAVRA DO FREI PETRNÔNIO

SALMO RESPONSORIAL. Salmo 62 (63)

“A minha alma tem sede de Vós, meu Deus”.

 Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita da Ordem do Carmo, São Paulo. E-mail: missaodomgabriel@bol.com.br. Twitter: www.twitter.com/freipetronio  Facebook:  www.facebook.com/freipetronio2. Site: www.olharjornalistico.com.br Blog: www.mensagensdofreipetroniodemiranda.blogspot.com Youtube: www.youtube.com/olharjornalistico

 Neste 12º do Tempo Comum nós queremos rezar com o salmista: “A minha alma tem sede de Vós, meu Deus”. Sim, a nossa alma tem sede de um Deus que ouviu o clamor do povo e desceu para salvá-lo. Ele protegeu os famintos e desvalidos ao longo da história da salvação. Este Deus se encarnou no seio da Virgem Maria, nasceu no relento, cresceu na família pobre de Nazaré, sem nome ou prestígio, anunciou a Boa Nova, foi condenados, crucificado e morto em uma cruz, e no terceiro dia acrescentou uma nova página na história da salvação vencendo a morte.  
Sim, é este mesmo Deus que hoje nos interroga, joga-nos contra a parede e nos faz perceber à luz dos fatos e acontecimentos bíblicos que o seu olhar sempre esteve voltado para aqueles e aquelas que padeciam. Impossível confessar o seu nome e esquecer o lado negro, sofrido e corrompido dos milhares de seres humanos no esgoto social da discriminação, da fome, das prisões e dos porões da miséria étnica, sexual ou política.
Sim, este nosso Deus nos impulsiona para uma adesão radical na transformação das pessoas. Impossível confessar o seu nome e abandonar a sua compaixão, o seu sorriso acolhedor, o seu coração bondoso, o seu olhar sincero e a sua palavra amiga para todos que o procuravam.
O Jesus que nos interroga hoje é aquele da prostitua Madalena, do pecador Zaqueu, do teimoso Pedro, do traidor Judas, do soldado romano, do indeciso jovem rico, das crianças simples, do bom ladrão, das santas mulheres junto ao túmulo, dos amedrontados discípulos de Emaús, dos apóstolos tristes do cenáculo e da primeira comunidade fervorosa na oração, na fraternidade e na partilha dos bens.
O Jesus que nos interroga hoje não o conhecemos em grandes obras teológicas, nas tradicionais doutrinas, nas grandes reflexões ou nos luxuosos templos. Não, o Jesus de hoje e o Deus do Salmo de Meditação caminha nas vidas sem vida, nos sonhos interrompidos, no olhar triste das crianças passando fome, nos jovens protestando nas ruas, nas comunidades clamando por dignidade, ética e justiça social.
Meu caro. Você encontrou Jesus ou um passatempo? Você encontrou Jesus um alívio para a sua consciência? Você encontrou Jesus ou um suco de maracujá. Lembre-se, Jesus Cristo não é apenas um doce de coco. Ele também é jiló.  Você quer encontrá-lo?

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 356. O Grito da Favela.

Nota da CNBB: "Ouvir o clamor que vem das ruas"

Os bispos manifestam "solidariedade e apoio às manifestações, desde que pacíficas, que têm levado às ruas gente de todas as idades, sobretudo os jovens". A presidência da CNBB apresentou a Nota em entrevista coletiva e o documento foi aprovado na reunião do Conselho Permanente concluída na manhã desta sexta-feira, 21 de junho.
Leia a Nota:
Ouvir o clamor que vem das ruas
Nós, bispos do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reunidos em Brasília de 19 a 21 de junho, declaramos nossa solidariedade e apoio às manifestações, desde que pacíficas, que têm levado às ruas gente de todas as idades, sobretudo os jovens. Trata-se de um fenômeno que envolve o povo brasileiro e o desperta para uma nova consciência. Requerem atenção e discernimento a fim de que se identifiquem seus valores e limites, sempre em vista à construção da sociedade justa e fraterna que almejamos.
Nascidas de maneira livre e espontânea a partir das redes sociais, as mobilizações questionam a todos nós e atestam que não é possível mais viver num país com tanta desigualdade. Sustentam-se na justa e necessária reivindicação de políticas públicas para todos. Gritam contra a corrupção, a impunidade e a falta de transparência na gestão pública. Denunciam a violência contra a juventude. São, ao mesmo tempo, testemunho de que a solução dos problemas por que passa o povo brasileiro só será possível com participação de todos. Fazem, assim, renascer a esperança quando gritam: “O Gigante acordou!”
Numa sociedade em que as pessoas têm o seu direito negado sobre a condução da própria vida, a presença do povo nas ruas testemunha que é na prática de valores como a solidariedade e o serviço gratuito ao outro que encontramos o sentido do existir. A indiferença e o conformismo levam as pessoas, especialmente os jovens, a desistirem da vida e se constituem em obstáculo à transformação das estruturas que ferem de morte a dignidade humana. As manifestações destes dias mostram que os brasileiros não estão dormindo em “berço esplêndido”.
O direito democrático a manifestações como estas deve ser sempre garantido pelo Estado. De todos espera-se o respeito à paz e à ordem. Nada justifica a violência, a destruição do patrimônio público e privado, o desrespeito e a agressão a pessoas e instituições, o cerceamento à liberdade de ir e vir, de pensar e agir diferente, que devem ser repudiados com veemência. Quando isso ocorre, negam-se os valores inerentes às manifestações, instalando-se uma incoerência corrosiva que leva ao descrédito.
Sejam estas manifestações fortalecimento da participação popular nos destinos de nosso país e prenúncio de novos tempos para todos. Que o clamor do povo seja ouvido!
Sobre todos invocamos a proteção de Nossa Senhora Aparecida e a bênção de Deus, que é justo e santo.

Brasília, 21 de junho de 2013
Cardeal Raymundo Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida
Presidente da CNBB
Dom José Belisário da Silva
Arcebispo de São Luís
Vice-presidente da CNBB
Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB

‘Cura Gay’


Jardel Santana

          Hoje (18/06), infelizmente (ou será felizmente?) foi aprovado na Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados, o projeto popularmente conhecido como "Cura Gay”, o qual visa sustar dois trechos da resolução 001/99 do Conselho Federal de Psicologia (CFP). O primeiro afirma que "os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades" e o segundo determina que "os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica".
          Confesso que fiquei surpreso, não com a aprovação em si, pois isso já era esperado, considerando que a CDHM é composta, majoritariamente, por fundamentalistas religiosos. O que me deixou surpreso foi a votação ter ocorrido hoje, após as manifestações de ontem (17/06).
           Sinceramente, até gostei da notícia (algumas pessoas pensarão que sou favorável à "Cura Gay”, não sou! Mesmo porque não há cura para o que não é doença). Gostei, pois somente assim o projeto sai da CDHM (comissão que já há alguns meses deixou de representar verdadeiramente os Direitos Humanos e as Minorias) e, portanto, poderemos pressionar para que não passe nas demais comissões (Seguridade Social e Constituição e Justiça) e muito menos no plenário.
           Outro ponto positivo que percebo na aprovação, é o fato de que agora o presidente da CDHM, provavelmente, não estará tanto na mídia, quanto vinha estando (é óbvio que devemos esperar algumas estratégias dele e é por isso que agora devemos lutar ainda mais para sua saída da CDHM). Ele colocar o projeto em pauta e em cima da hora retirar, como vinha fazendo, era estratégia para chamar atenção, estratégia que foi ficando desgastada, tanto que para ele voltar a ter visibilidade, usou de artimanhas regimentais irregulares para colocar a matéria em discussão, conforme afirmou um dos deputados da CDHM. Exemplo de que essa era uma estratégia de Feliciano para manter-se na mídia, é a afirmação do deputado Simplício Araújo (PPS-MA), o qual afirmou que "Esse projeto é eleitoreiro, não atinge o clamor das multidões que tomam as ruas".
       Fazendo alusão a um texto publicado aqui no Miraculoso (http://www.miraculoso.com.br/brasil/378-agradeco-pelo-aumento), espero futuramente agradecer a aprovação do projeto na CDHM. Espero que com essa aprovação, assim como ocorreu com o aumento da passagem em São Paulo e que desencadeou uma onda de protestos país afora, as entidades de Direitos Humanos e de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (LGBTTT) se mobilizem ainda mais, não apenas virtualmente e nem protestando somente na porta do Plenário da CDHM, mas que intensifiquem ainda mais os atos/protestos, principalmente nas ruas, que voltemos a nos mobilizar nacionalmente contra o fundamentalismo religioso, nas ruas e nas praças.
Fonte: http://www.adital.com.br/

A pedagogia do medo na formação dos padres

José Lisboa Moreira de Oliveira

          O que vou narrar inicialmente não aconteceu na Idade Média e nem na primeira metade do século passado, antes da realização do Concílio Vaticano II. Aconteceu há poucas semanas atrás, em pleno século XXI, no ano da graça do Senhor de 2013.

Um seminarista, meu conhecido, pediu-me para ser seu amigo no Facebook. Como eu o conhecia, não tive problemas para adicioná-lo. Desde então comecei a receber mensagens dele. Logo notei a pobreza de tais mensagens ou, pior dizendo, o monte de baboseiras que era postado porele, que dizia estar cursando o segundo ano de teologia. Comecei, então, a fazer alguns comentários ao que ele postava. Na última postagem o seminarista colocou uma charge com a qual justificava a necessidade(notem bem o vocábulo!) do uso da batina. Na charge um padre, estando num lugar, sem batina, vestido como o comum dos mortais, recebia uma bela cantada de uma mulher.

Percebendo o absurdo, fiz um comentário no qual chamava a atenção para algumas coisas. Antes de tudo a presença da pedagogia do medo da mulher. Dizia para o seminarista que esse medo denotava insegurança vocacional e de identidade. Em segundo lugar, mostrava que tal posição estava carregada de preconceito contra a mulher, vista como a sedutora, aquela que induz ao "pecado da carne”. Além disso, mostrei-lhe que, pela minha experiência de mais de quarenta anos de convivência direta com os eclesiásticos, nem sempre é a mulher que seduz o padre. Na maioria absoluta dos casos são padres, afetivamente carentes e psicologicamente despreparados, os sedutores das mulheres. São constantes, ainda hoje, os casos de padres que engravidam mulheres e que, inclusive, as forçam a praticar o aborto. Na Itália existe uma ONG que cuida de filhos abandonados de padres. Por fim, lembrava ao ilustre seminarista queencontrei em vários seminários casos escabrosos que aconteciam na calada da noite, apesar do uso frequente da batina. Casos de pedofilia, de casais "estáveis” de seminaristas homossexuais, os quais eram defensores ferrenhos do celibato e do uso da batina até para dormir. Concluía, então, meu comentário dizendo que a batina, por si só, não funciona, se faltar ao seminarista e ao padre aquela maturidade psico-afetiva-sexual da qual tanto falam os documentos da Igreja sobre a formação dos presbíteros. O resultado do meu comentário você já deve ter deduzido: o seminarista me excluiu da sua lista de amigos no Facebook.

O caso me fez refletir sobre o que estaria acontecendo com a formação dos padres. O que leva um seminarista do segundo ano de teologia a ter uma visão tão desequilibrada e tão medrosa do celibato? E não tive alternativa a não ser me convencer, mais uma vez, de que a maioria absoluta dos seminaristas não está sendo preparada para encarar o celibato com naturalidade. E isso por uma simples razão: a maioria absoluta deles não é portadora desse dom do Espírito. Fingem tê-lo e os formadores e bispos, mais preocupados com a quantidade do que com a qualidade, continuam fazendo de conta que não estão vendo nada. Insistem em manter a lei obrigatória do celibato, mas se recusam a afastar do ministério presbiteral todos aqueles que não são portadores desse carisma. Toda opção tem consequências sérias. E a principal consequência séria da opção da hierarquia pelo celibato obrigatório é, sem dúvida alguma, a exclusão (esta é a palavra exata), através de um bom discernimento, de todos aqueles que não possuem este dom. E tal exclusão precisa ser realizada antes de tudo para o bem dos próprios seminaristas e depois para o bem da Igreja.

E ao dizer que estou convencido de que a maioria dos seminaristas não possui o dom do celibato, estou falando a partir de experiências concretas. Várias vezes, em diversos momentos e lugares, numa simples conversa, aberta e franca, aquela do tipo "olho no olho”, isso ficou muito claro para mim. Eles não conseguem esconder seus disfarces. É claro que os seminaristas não são culpados disso. A responsabilidade é da hierarquia da Igreja que insiste em fazer de conta que tudo vai muito bem; uma hierarquia que não é capaz de ler os sinais dos tempos e repensar a questão do celibato obrigatório.

De tudo isso, podemos deduzir duas consequências. A primeira é de termos padres distantes das pessoas; padres que colocam barreiras, como a batina, para não se aproximarem do povo e para que o povo não se aproxime deles. Padres que, diferentemente de Jesus, não se misturam com as pessoas, não assumem "em tudo a condição humana” (Hb 4,15). Padres incapazes de compaixão e de misericórdia porque não vivem como vive o povo, especialmente como vivem aquelas pessoas prostradas e abatidas, sem consolação, sem esperança, sem vida e para as quais eles deveriam ter um carinho especial (Mt 9,36). Por mais que se esforcem, estarão sempre distantes, uma vez que não há como ser próximo quando se usa de artimanhas para "passar adiante, pelo outro lado” (Lc 10,31-32), longe de quem está caído. Enquanto o Concílio Vaticano II pedia aos padres para mergulharem profundamente na vida do povo, convivendo com todas as pessoas (PO,6), a formação dada nos seminários, verdadeiros "redomas de vidro”, distancia o pastor das ovelhas.

A outra consequência grave é a constatação de uma profunda fragilidade desses futuros padres. A necessidade de usar escudos de proteção, como a batina, revela uma personalidade doente, imatura, carente e psicologicamente enfraquecida. Não se trata de pensar nos padres como super-heróis, mas de ajudá-los a serem, o quanto possível, pessoas normais, sem grandes amarras e humanamente acessíveis. Como podem padres assim ser sinais sacramentais do Cristo Pastor se são incapazes de "dar a vida” (Jo 10,11) pelas pessoas? Porque o dar a vida não se reduz ao martírio, mas implica um gastar-se, um consumir-se pela humanidade (Mc 6,31). E só é possível doar-se totalmente quando não se possui nenhum tipo de "reserva”, nenhum tipo de amarra, nenhum tipo de medo da outra pessoa (Mc 2,15-17).

Estudos sérios afirmam que o homem sempre teve medo da mulher inclusive do ponto de vista sexual. Giacomo Dacquino em sua obra Viver o prazer (Paulinas, 1992) chama a atenção para este aspecto, lembrando que esse medo se exasperou nas últimas décadas em razão da progressiva emancipação da mulher. Dacquino lembra que medos cultivados em relação à mulher podem revelar que o homem não superou o complexo de Édipo, mantendo certo vínculo edípico com a mãe e rejeitando a heterossexualidade, ou seja, qualquer relação ou aproximação afetiva com as outras mulheres (pp. 147-150).

O Concílio Vaticano II, no documento sobre a vida e o ministério dos presbíteros, afirmou que a missão do padre é ajudar as pessoas a conseguirem a maturidade cristã. Diz, sem meios-termos, que de nada adiantam cerimônias bonitas, "rebanhões”, procissões, curas, movimentos eclesiais florescentes se os cristãos e as cristãs não atingem a maturidade na fé. E para realizar essa tarefa os padres devem acolher todas as pessoas: jovens, casais, famílias etc. (PO, 6). O documento conciliar sobre a formação dos padres chega a dizer que para cumprirem fielmente essa missão os seminaristas devem ser educados sobre o valor e a dignidade do casamento e sobre o que significa realmente a renúncia ao matrimônio, a qual não é renúncia ao amor (OT, 10).

Causa, pois, enorme espanto que, cinquenta anos depois, ainda se dê uma formação que estimula o medo e o cultivo de barreiras na relação dos padres com as pessoas. Nico Dal Molin, em seu belíssimo livro sobre o amadurecimento psicoafetivo, intitulado Itinerário para o Amor (Paulinas, 1996), afirma que o amor maduro tem a coragem de derrubar barreiras, uma vez que as barreiras impedem a transparência e distorcem o modo de viver o amor (pp. 144-162). O amor, como sabemos, é o distintivo por excelência do discípulo e da discípula de Jesus (Jo 13,34-35). E "no amor não existe medo; pelo contrário o amor perfeito lança fora o medo, porque o medo supõe castigo. Por conseguinte, quem sente medo ainda não está realizado no amor” (1Jo 4,18). Tenho pena das comunidades que irão receber esses futuros padres, modelados na "fôrma”da lei do temor e não educados na pedagogia do amor.

domingo, 16 de junho de 2013

11º- DOMINGO DO TEMPO COMUM. ANO-C: Violência Policial em São Paulo.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 353. 11º Domingo do Tempo Comum.

11º Domingo do Tempo Comum. Ano- C.

A liturgia deste domingo apresenta-nos um Deus de bondade e de misericórdia, que detesta o pecado, mas ama o pecador; por isso, Ele multiplica “a fundo perdido” a oferta da salvação. Da descoberta de um Deus assim, brota o amor e a vontade de vivermos uma vida nova, integrados na sua família.

A primeira leitura apresenta-nos, através da história do pecador David, um Deus que não pactua com o pecado; mas que também não abandona esse pecador que reconhece a sua falta e aceita o dom da misericórdia.

Na segunda leitura, Paulo garante-nos que a salvação é um dom gratuito que Deus oferece, não uma conquista humana. Para ter acesso a esse dom, não é fundamental cumprir ritos e viver na observância escrupulosa das leis; mas é preciso aderir a Jesus e identificar-se com o Cristo do amor e da entrega: é isso que conduz à vida plena.

O Evangelho coloca diante dos nossos olhos a figura de uma “mulher da cidade que era pecadora” e que vem chorar aos pés de Jesus. Lucas dá a entender que o amor da mulher resulta de haver experimentado a misericórdia de Deus. O dom gratuito do perdão gera amor e vida nova. Deus sabe isso; é por isso que age assim.

EVANGELHO – Lc 7,36 – 8,3

MENSAGEM

           A personagem central é a mulher a quem Lucas apresenta como “uma mulher da cidade que era pecadora”. Não há qualquer indicação acerca de anteriores contactos entre Jesus e esta mulher, embora possamos supor que a mulher já se tinha encontrado com Jesus e tinha percebido n’Ele uma atitude diferente dos mestres da época, sempre preocupados em evitar os pecadores notórios e em condená-los.

A ação da mulher (o choro, as lágrimas derramadas sobre os pés de Jesus, o enxugar os pés com os cabelos, o beijar os pés e ungi-los com perfume) é descrita como uma resposta de gratidão, como consequência do perdão recebido (vers. 47). A parábola que Jesus conta, a este propósito (vers. 41-42), parece significar não que o perdão resulta do muito amor manifestado pela mulher, mas que o muito amor da mulher é o resultado da atitude de misericórdia de Jesus: o amor manifestado pela mulher nasce de um coração agradecido de alguém que não se sentiu excluído nem marginalizado, mas que, nos gestos de Jesus, tomou consciência da bondade e da misericórdia de Deus.

A outra figura central deste episódio é Simão, o fariseu. Ele representa aqueles zelosos defensores da Lei que evitavam qualquer contato com os pecadores e que achavam que o próprio Deus não podia acolher nem deixar-Se tocar pelos transgressores notórios da Lei e da moral. Jesus procura fazê-lo entender que só a lógica de Deus – uma lógica de amor e de misericórdia – pode gerar o amor e, portanto, a conversão e a vida nova. Jesus empenha-se em mostrar a Simão que não é marginalizando e segregando que se pode obter uma nova atitude do pecador; mas que é amando e acolhendo que se pode transformar os corações e despertar neles o amor: essa é a perspectiva de Deus. O perdão não se dá a troco de amor, mas dá-se, simplesmente, sem esperar nada em troca. A reação de Jesus não é um caso isolado, mas resulta da missão de que Ele se sente investido por Deus – atitude que Ele procurará manifestar em tantas situações semelhantes: dizer aos proscritos, aos moralmente fracassados, que Deus não os condena nem marginaliza, mas vem ao seu encontro para libertá-los, para dar-lhes dignidade, para os convocar para o banquete escatológico do Reino. É esta atitude de Deus que gera o amor e a vontade de começar vida nova, inserida na lógica do Reino.

O texto que nos é proposto termina com uma referência ao grupo que acompanha Jesus: os Doze e algumas mulheres. O facto de o “mestre” Se fazer acompanhar por mulheres (Lucas é o único evangelista que refere a incorporação de mulheres no grupo itinerante dos discípulos) era algo insólito, numa sociedade em que a mulher desempenhava um papel social e religioso marginal. No entanto, manifesta a lógica de Deus que não exclui ninguém, mas integra todos – sem excepção – na comunidade do Reino. As mulheres – grupo com um estatuto de subalternidade, cujos direitos sociais e religiosos eram limitados pela organização social da época – também são integradas nessa comunidade de irmãos que é a comunidade do Reino: Deus não exclui nem marginaliza ninguém, mas a todos chama a fazer parte da sua família.

 ATUALIZAÇÃO

 Considerar, na reflexão, as seguintes questões:

 1º-Em primeiro lugar, o nosso texto põe em relevo a atitude de Deus, que ama sempre (mesmo antes da conversão e do arrependimento) e que não Se sente conspurcado por ser tocado pelos pecadores e pelos marginais. É o Deus da bondade e da misericórdia, que ama todos como filhos e que a todos convida a integrar o seu família. É esse Deus que temos de propor aos nossos irmãos e que, de forma especial, temos de apresentar àqueles que a sociedade trata como marginais.

 2º- A figura de Simão, o fariseu, representa aqueles que, instalados nas suas certezas e numa prática religiosa feita de ritos e obrigações bem definidos e rigorosamente cumpridos, se acham em regra com Deus e com os outros. Consideram-se no direito de exigir de Deus a salvação e desprezam aqueles que não cumprem escrupulosamente as regras e que não têm comportamentos social e religiosamente correctos. É possível que nenhum de nós se identifique totalmente com esta figura; mas, não teremos, de quando em quando, “tiques” de orgulho e de auto-suficiência que nos levam a considerar-nos mais ou menos “perfeitos” e a desprezar aqueles que nos parecem pecadores, imperfeitos, marginais?

 3º- A exclusão e a marginalização não geram vida nova; só o amor e a misericórdia interpelam o coração e provocam uma resposta de amor. Frequentemente fala-se, entre nós, no agravamento das penas previstas para quem infringe as regras sociais, como se estivesse aí a solução mágica para a mudança de comportamentos… A lógica de Deus garante-nos que só o amor e a misericórdia conduzem à vida nova.

4º- Na linha do que a Palavra de Deus nos propõe hoje, como tratar esses excluídos, que todos os dias batem à porta da “fortaleza Europa” à procura de condições mínimas para viver com dignidade? E os moralmente fracassados, que testemunho de amor e de misericórdia encontram nas nossas comunidades?

 5º- Ultimamente, fala-se muito do papel e do estatuto das mulheres na comunidade cristã. Este texto diz-nos que, ao contrário do que era costume na época, as mulheres faziam parte do grupo de Jesus. Que significa isso: que elas devem ter acesso aos ministérios na comunidade cristã? Seja qual for a resposta, o que é importante é que não façamos disto uma luta pelo poder, ou uma reivindicação de direitos, mas uma questão de amor e de serviço.

 ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 11º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(Em parte adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

 1- ABERTURA DA CELEBRAÇÃO.

 A força dos textos deste domingo merece que nos preparemos desde o início da celebração para bem os acolher. Podemos realçar a palavra do salmo, mesmo antes do início do cântico de entrada: “perdoai, Senhor, minha culpa e meu pecado”. A fim de nos colocarmos em atitude de ser perdoados, um tempo de silêncio permitirá tomar consciência disso antes de serem proclamadas as primeiras palavras da saudação inicial: “a graça de Nosso Senhor…” O rito penitencial pode ser introduzido pelas palavras do salmo: “Feliz o homem a quem o Senhor não acusa de iniquidade e em cujo espírito não há engano”.

 2- BILHETE DE EVANGELHO.

 O fariseu que recebe Jesus à mesa pára o seu olhar sobre o que se vê: uma pecadora introduziu-se na sua casa; para ele, ela não é senão uma pecadora. Quanto a Jesus, lança o seu olhar sobre a mulher procurando ver, através do seu comportamento, tudo o que se passa no seu coração: se ela chora, é porque é infeliz e lamenta o seu passado; se ela molha com as suas lágrimas e limpa com os seus cabelos os pés de Jesus, se ela os beija e sobre eles derrama perfume precioso, é para manifestar o seu grande amor. Não é preciso mais nada para Jesus: Ele perdoa, não porque ela pecou muito, mas porque amou muito, mesmo se ela amou mal; sobretudo, é a sua fé que a salva. Ela faz a experiência do Amor louco de Deus que perdoa, experiência que o fariseu ainda não fez. Porque o fariseu e os convidados se ficam pelas aparências, encerram a mulher no passado. Porque Jesus olha para além das aparências, abre-se à mulher um futuro diferente, e ela parte em paz.

 3- À ESCUTA DA PALAVRA.

 Espantoso encontro na casa de Simão! O fariseu queria, sem dúvida, ver de mais perto este jovem rabino que dizia vir da parte de Deus. Falava bem, irradiava bondade. Porém… Tudo se desmorona! Eis que Jesus Se presta a uma cena no mínimo chocante, mesmo escabrosa. Esta mulher que se aproxima d’Ele é conhecida por ser da má vida, uma pecadora. Os seus gestos, ambíguos, dizem o que ela é. Mas o escândalo vem, sobretudo, da falta de reacção de Jesus. Simão pensava ter convidado um homem de Deus. E eis que está diante dele um homem como todos os outros, talvez mesmo um futuro “cliente” da mulher. Se ao menos Jesus tivesse retirado os seus pés, se tivesse protestado, colocado a mulher no seu devido lugar! Mas não! Segundo a Lei, deixar-se tocar por uma mulher impura tornava-o cúmplice do seu pecado. O paradoxo é grande! Cremos que Jesus é o Filho de Deus feito homem, totalmente santo, sem qualquer pecado.

Também para nós, a cena é incompreensível: de um lado, a pureza, a presença mesmo do Deus três vezes santo, o fogo ardente do seu amor; do outro, a impureza, o pecado, a água suja das nossas misérias. Como vai terminar este encontro? Jesus vai cumprir uma divina alquimia. Jesus dá a esta mulher um amor que transfigura os seus gestos ambíguos. Faz deste encontro uma ocasião para manifestar a maneira de agir de Deus para com os pecadores. Jesus não aprova o seu pecado. Mas acolhe esta mulher tal como ela é. Aceita o que ela é capaz de Lhe dar. Se Ele a tivesse afastado, tê-la-ia encerrado no seu pecado. Deixando-a fazer, quer fazer-lhe compreender que não quer tomá-la para Si, como os outros homens que ela encontrava. Dá-lhe um amor que ela nunca tinha recebido, um amor gratuito, para a fazer nascer ela própria. Ele transforma a água suja dos seus pecados em fonte purificadora, transfigurada pelo fogo do amor divino. Porque a pecadora recebeu um perdão infinito e gratuito, pôde, por sua vez, mostrar um grande amor, e nascer para a vida. É isso que Jesus nos convida a viver quando vamos até Ele!

4- PALAVRA PARA O CAMINHO.

A página do Evangelho deste domingo pode facilmente dar lugar a uma partilha. Porque não aproveitar para visitar uma pessoa um pouco isolada no seu sofrimento, e propor-lhe para falar à volta deste Evangelho? Isso poderia ajudá-la a se sentir amada e a “ir em paz”.

5- VIVER AS ATITUDES DO CORAÇÃO DE JESUS.

Estamos no mês do Coração de Jesus, cuja Solenidade celebrámos na passada sexta-feira. Podemos acolher a Palavra deste domingo sob essa luz, tentando descobrir as atitudes bem presentes no Coração de Jesus: pensar nas atitudes que recebemos do Coração de Jesus, tão presentes na liturgia da Palavra deste domingo: Amor, Misericórdia, Perdão, Bondade… (cada um pode continuar a lista); rezar essas atitudes em ambiente de adoração e vivê-las sempre com empenho, em particular ao longo deste mês. Mãos à obra! Continuação de fecundo mês do Coração de Jesus!
Fonte: http://www.dehonianos.org/

sexta-feira, 7 de junho de 2013

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 348. Festa do Coração de Jesus.

O Coração de Jesus: Deus de misericórdia

Frei Pedro  Caxito, O.Carm. In Memoriam
 
            Estamos em pleno mês de junho, mês do Sagrado Coração de Jesus. É um convite a celebrarmos o amor, as misericórdias do Coração do nosso Deus feito homem, que veio morar entre nós, "não para chamar os justos, mas os pecadores" (Mt 9,13).
            "As misericórdias do Senhor eternamente cantarei!" (Sl 88,2) dizia o salmista, repetia sempre Santa Teresa de Jesus e devemos nós mesmos sempre proclamar.
            Aquelas "entranhas de misericórdia do nosso Deus que, para nos visitar nos fez vir lá do alto o Sol Nascente" (Lc 1,78),  Jesus que de Maria veio até nós em Belém.
            Aquele Coração cheio de misericórdia, que como Bom Samaritano se inclinou sobre a pobre humanidade prostrada no caminho, sobre a pecadora da casa de Simão, o fariseu, sobre Mateus, Zaqueu e o paralítico de Cafarnaum e o outro da beira de Betesda, a piscina da "casa da misericórdia", sobre a adúltera envergonhada e tantos pecadores, sobre as criancinhas rejeitadas, sobre os pobres e sobre os doentes, porque "são os doentes que precisam de Médico e não os sãos" (Mt 9,12).
            «Andai, portanto, de volta para as vossas casas, a fim de aprenderdes o que é: "Quero misericórdia e não sacrifício" » (Mt 9,13), sacrifícios de bodes e carneiros (cf Os 6,6).
            Junho nos convida a vivermos a bem-aventurança: "Bem-aventurados os misericordiosos, porque misericórdia encontrarão" (Mt 5,7).
            Junho nos pede para reconhecermos as misericórdias do coração do nosso Deus, nelas confiarmos e as imitarmos. "Sede misericordiosos como é misericordioso o vosso Pai, que está no céu" (Lc 6,36).
           
RICO DE MISERICÓRDIA
 
            "Mas Deus, rico de Misericórdia, graças ao grande amor com que nos amou, mortos que estávamos por causa dos pecados, nos fez reviver com Cristo: de graça, na verdade, fostes salvos" (Ef 2,4-5).
            Misericordioso, o Coração de Jesus sente-se comover diante da miséria do povo cansado e abatido como ovelhas que não têm um pastor. Misericordioso quer dizer "um coração compadecido diante da miséria". E Ele é misericordioso. "Andava em volta por todas as cidades e aldeias, ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando toda doença e enfermidade" (Mt 9,35).
            Diz São Paulo aos Romanos: "Pois bem a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando ainda éramos pecadores. (...) É por Ele que já desde o tempo presente recebemos a reconciliação"
            É misericordioso e quer que o ajudemos a ser misericordioso: chama aqueles que Ele quer e "lhes dá o poder de expulsar os espíritos imundos e de curar todo tipo de doenças e enfermidades" (Mt 10.1), como Ele estava fazendo. "Proclamai que o Reino dos Céus está chegando. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, sarai os leprosos, expulsai os demônios" (Mt 10,7-8).
            Mas aqueles doze são poucos demais. "O Mediador único entre Deus e os homens" pede aos Homens que peçam ao Dono para mandar mais gente para a sua colheita. A messe está loura, esperando pela colheita (cf Jo 4,35), porque "Messe" é plantação já ansiosa por ser colhida. E o Dono deve ter pressa!...
            "Eu vos carreguei sobre asas de águia" como a águia carrega os seus filhinhos (Ex 19, 4). "Sacerdotes e reis, uma nação consagrada, um povo que Deus adquiriu para proclamarmos as suas obras maravilhosas" (1Pd 2,9), o seu amor e a sua misericórdia, devemos estar com Ele no seu esforço por libertar o irmão de toda miséria espiritual e material. "Filhinhos, não amemos com palavras ou com a língua, mas com os atos e com a verdade" (1Jo 3,18).

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 347. Menino de Ouro.

10º Domingo do Tempo Comum: O filho da viúva de Naim (Lucas 7,11-17).

Por irmã Kátia Rejane Sassi, da Congregação das Irmãs de São José de Chambéry. Teóloga, especialista em Assessoria Bíblica - DABAR - mestranda em Teologia Bíblica pelas Faculdades EST. Atualmente é professora e coordenadora do Curso Básico de Formação na ESTEF - Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana.
O texto da ressurreição do filho da viúva de Naim (Lc 7,11-17) só se encontra no evangelho de Lucas. Em seu ministério pela Galileia, Jesus se aproxima de uma pequena aldeia chamada Naim, próxima de Nazaré, onde se depara com uma cena comovente.
Vida x morte: dois cortejos se encontram
O evangelista Lucas relata dois cortejos, duas procissões que se encontram na entrada da aldeia de Naim. De um lado, o cortejo de morte, dos sem esperança, que sai da cidade: uma grande multidão acompanha a mãe viúva que leva seu filho único para ser sepultado. Naquele tempo, os cadáveres eram considerados impuros e, por isso, eram enterrados fora dos muros das cidades judaicas.
Do outro lado, o cortejo da vida que entra na cidade: Jesus é acompanhado de seus discípulos e também de uma grande multidão. Lucas emprega pela primeira vez o título de "Senhor", indicando que ele é o Cristo, o Senhor da Vida. 
 As lágrimas de uma mãe viúva
Na cena descrita por Lucas aparece uma mulher mãe e viúva. Naquele tempo, sua situação social como mulher viúva era muito difícil. Falecido o marido, ela ficava sob a proteção dos filhos e, não tendo estes, encontrava-se à mercê da própria sorte. O evangelho nos diz que o jovem falecido era filho único desta viúva (Lucas 7,12). Portanto, agora dependia da boa vontade dos seus vizinhos. Esta mulher estava sozinha no mundo.
Esta mãe e viúva encontrava-se num grande sofrimento, pois além de perder seu esposo perde também seu filho amado que constituía a única herança que tinha. Logo, enterraria sua única razão de viver. Sem nenhuma palavra, as lágrimas falam... A dor inconsolável das perdas e seu lamento profundo chegam até o coração misericordioso de Jesus, o Senhor da Vida.
 Jesus vê e tem compaixão
Jesus olha, contempla a situação de sofrimento e presta atenção na mãe viúva desamparada que acaba de perder seu único filho. Vê a angústia daquelas pessoas com quem se cruza ocasionalmente. O Senhor da Vida não é insensível e indiferente à dor humana, não passa ao lado, não se afasta.
Diferentemente de outros relatos de milagres e de pedidos de pais por seus filhos, aqui, ninguém pede a ajuda de Jesus. Seu olhar é cheio de ternura, sente-se tocado pela situação, toma a iniciativa diante das lágrimas de tristeza da mãe de Naim, movido pela compaixão. Em Jesus, o Deus libertador do êxodo está entranhado na história do seu povo: "Eu vi a aflição de meu povo... Ouvi os seus clamores...
Conheço os seus sofrimentos... Desci para libertar..." (Êxodo 3,7-8).
Jesus se compadece da viúva e de tantas pessoas cansadas, aflitas, enfermas e marginalizadas. Ele sente, sofre, assume a dor da mãe de Naim. E a compaixão entra em ação. Jesus se dirige à mulher que chorava e lhe diz apenas duas palavras de consolo: "Não chores!" Isso revela que havia uma esperança para aquela mulher e sua situação. Não vai mais existir motivo para essas lágrimas e essa dor.
Jesus se aproxima e suas palavras e gestos restituem a vida
A compaixão leva Jesus a falar e a agir. O Senhor da Vida se aproxima e, decidido, toca o esquife (caixão) e "os que o levavam pararam" (Lucas 7,14). Jesus se envolve com os dramas humanos e não tem receio de tocar algo impuro. Ele transgride o tabu religioso sobre a impureza legal de um cadáver (cf. Números 19,11.16). Para Jesus, a vida está acima de todo legalismo.
Com suas palavras, ele ordena ao jovem que se levante. "Levantar" é um dos verbos em grego para "ressuscitar". Jesus transforma as realidades de morte. Lucas acrescenta que o que estivera morto passou a falar. Restitui a vida e a palavra ao jovem. Num gesto de ternura, Jesus entregou à mãe de Naim seu precioso filho. Jesus não só chama o filho à vida, como também restitui a vida, a situação social desta mulher viúva.
Testemunho: Deus visitou o seu povo
A reação da multidão é de espanto e admiração que reconhece a ação salvífica de Deus: "Um grande profeta apareceu entre nós e Deus visitou seu povo" (Lucas 7,16). É o próprio Deus que visita seu povo; não mais através de profetas, mas ele mesmo que, assumindo a condição humana, vem nos trazer a libertação e a alegria. É o "Pai dos órfãos e o protetor das viúvas" (Salmo 68,6). Como Senhor da Vida e vencedor da morte, inaugura o tempo novo de esperança para todos os que creem.
E nós, hoje, que reescutamos esta narração de Lucas, somos interpelados/as pelos sentimentos, palavras e gestos de Jesus diante do sofrimento humano estampado nas páginas dos jornais e nas telas da televisão ou nas tragédias que acontecem perto de nós. Sua atitude nos ajuda a descobrir que nosso nível de humanidade é terrivelmente baixo. A dor dos outros produz em mim a mesma compaixão? Quando Jesus vê uma mãe chorando a morte de seu filho único, aproxima-se de sua dor como irmão, amigo, semeador de alegria e de vida. Que nossa presença junto aos pequenos, desamparados e sem esperança possa testemunhar: "Deus visitou o seu povo!".
Fonte: http://www.cebi.org.br

 

sábado, 1 de junho de 2013

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 343. 9º Domingo do Tempo Comum.

Reflexão para o IX Domingo do Tempo Comum

Pe. César Augusto dos Santos SJ

Cidade do Vaticano (RV) -   O tema da liturgia deste domingo enfoca o carinho de Deus por todos os homens, sejam seguidores da revelação judaico-cristã ou não. O importante é ter fé no Deus Vivo e Verdadeiro.

Na primeira leitura, extraída de 1Rs 8, 41-43, fica bem claro que o Povo de Israel tinha consciência de ser o povo escolhido, mas isso não era motivo para que somente suas súplicas fossem acolhidas, no Templo, pelo Senhor. Salomão faz uma bela oração naquele lugar sagrado e diz: “Senhor, escuta então do céu onde moras e atende todos os pedidos desse estrangeiro.”

No Evangelho de Lucas, no capítulo 7, versículos 7 a 10, Jesus age exatamente mostrando a misericórdia de Deus. Não importa se o pedido vem de um israelita ou de um estrangeiro, o que importa é que um ser humano suplica ao Senhor a cura de seu empregado. Mais ainda, esse estrangeiro mostra uma fé extraordinária no poder de Deus a ponto de dispensar a ida de Jesus à sua casa, pois sabe que para Deus basta querer para que alguém recupere a saúde ou algo seja mudado ou transformado, afinal, Deus é Deus! Essa atitude do estrangeiro foi louvada por Jesus exatamente por isso, por dar um salto qualitativo na fé. Se antes, na oração de Salomão aparecia a oração feita no Templo, agora fica claro que basta a fé no poder de Deus. A oração não só não precisa ser feita por um pertencente ao Povo de Israel, mas nem precisa ser feita no Templo de Jerusalém. Basta a fé no Deus Vivo e Verdadeiro.

Mas podemos tirar desse fato relatado por Lucas, outra lição. Deus dá maior importância à fé de quem suplica e não tanto à adequação de sua vida aos preceitos religiosos. O suplicante, um oficial romano, era um pagão. Apesar de ser um homem honesto e respeitoso para com os israelitas – até havia construído uma sinagoga para eles –, não havia se convertido, não havia feito a circuncisão e nem seguia os mandamentos de Moisés. Contudo, esse militar demonstra uma confiança radical em Jesus, no poder de Deus, que não se importa de modo público professar sua fé: “Senhor, ordena com tua palavra, e o meu empregado ficará curado”. Demonstra grande humildade: “Senhor, não sou digno de que entres em minha casa”. Mais ainda, nem se sentiu digno de ir ao encontro do Cristo, enviou alguns mensageiros para que, em seu nome, fizessem o pedido.

Qual a lição que levamos para o nosso dia a dia?

Deus quer que vivamos de acordo com seus mandamentos, de acordo com os preceitos que aprendemos quando fomos catequizados. Em uma ocasião Jesus disse que não veio abolir a Lei e nem mudar uma letra sequer. Mas só isso não basta, não faz levantar voo. O jovem rico cumpria todos os mandamentos, mas não foi capaz de largar tudo para seguir Jesus; o fariseu no Templo orava e agradecia a Deus por ele ser certo, honesto, correto com os preceitos religiosos, mas sua oração não foi ouvida porque ele atribuía tudo isso a si mesmo e se sentia orgulhoso por isso e desprezava o pecador publicano, que estava lá no fundo do Templo.

Devemos, antes de tudo, ter grande fé em Deus e sermos misericordiosos. Isso é o “plus”, o mais que o Senhor deseja de nós.
Neste Ano da Fé - proposto pelo Papa Bento XVI para o amadurecimento de nossa confiança em Deus, de nossa entrega total, radical ao Senhor -, a consciência de que Deus é Onipotente, que tudo pode; de que é Onisciente, que sabe tudo; e de que é Onipresente, que está em todo lugar; deverá atravessar nossa vida e nossas orações. Mas uma coisa nos falta ainda, é sabermos da radicalidade de Seu Amor por nós, de Sua Misericórdia, da grandeza de Seu Coração.
Somos chamados a sermos testemunhas vivas da fé no Amor de Deus para com todos os homens, sejam pecadores ou não, sejam cristãos ou não.