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quinta-feira, 6 de março de 2014

NOTAS HISTÓRICAS SOBRE AS MISSÕES CARMELITANAS NO EXTREMO NORTE DO BRASIL (Séculos XVII e XVIII)

POR FR. ANDRÉ PRAT, O. CARM. (2ª Parte)

GALERIA DOS BISPOS CARMELITAS

D. Fr. Francisco de Lima, Bispo do Maranhão e Pará, depois Bispo de Pernambuco. Foi sagrado em 1691.
D. Fr. Bartolomeu do Pilar, Bispo do Grão-Pará, foi nomeado em 1720 e faleceu, em 9 de Abril de 1733.
D. Fr. Pedro de Santa Mariana, Bispo titular de Chrisópolis. Professou na Província do Recife, em 7 de Fevereiro de 1799. Foi sagrado em Junho de 1841. Faleceu a 7 de Maio de 1864. Foi preceptor do Imperador D. Pedro II.
D. Fr. Carlos de S. José e Sousa, irmão do precedente. Bispo do Maranhão. Professou no Recife em 4 de Dezembro de 1797. Sagrou-se em 2 de Junho de 1844 e faleceu aos 20 de Abril de 1850.

Outros religiosos que pertenceram às Províncias brasileiras do Carmo foram Bispos fora do Brasil. Em “O Paiz” de I de Maio de 1900 encontramos os nomes seguintes:

D. Fr. Manoel de Santa Catarina, Bispo de Angola (sagrou-se em 4 de Julho de 1720).

D. Fr. Inocêncio Antônio das Neves Portugal, Bispo de Algarves, (foi por vários anos Provincial da Província Carmelitana Fluminense).

D. Fr. Milesio Prendergast, Bispo titular de Centúria, ex-vigário apostólico de Malabar, Comendador da Ordem de Cristo, agraciado no dia da sagração de D. Pedro II. Natural da Inglaterra, porém naturalizado brasileiro por decreto n.” 201, de 14 de Setembro de 1841. Faleceu no Convento do Carmo do Rio de Janeiro a 30 de Setembro de 1843.

D. Fr. Bartolomeu dos Mártires, Bispo de São Tomé e mais tarde de Moçambique. Este Carmelita depois de sua nomeação para Bispo, residiu por algum tempo no Convento do Carmo da Lapa no Rio de Janeiro; parece, no entanto, que pertencia à Ordem dos Carmelitas Descalços.

D. Fr. José do Menino Jesus, Carmelita descalço, Bispo de Vizeu.

 D. Fr. Manoel de Santa Inês, Carmelita Descalço. Transferido da Diocese de Angola, chegou à Bahia em 1762, e governou o arcebispado como bispo, por estarem interrompidas as relações de Portugal com a Santa Sé. Confirmado como arcebispo em 1771, faleceu à 22 de Junho desse mesmo ano. Por provisão de 26 de Outubro de 1765 tinha conseguido estabelecer a Catedral Metropolitana na igreja do antigo Colégio dos Jesuítas.

D. Fr. Luís de Santa Teresa, carmelita descalço, doutor em direito pela universidade de Coimbra. Confirmado pelo Papa Clemente XII, a 5 de Setembro de 1738, no reinado de D. João V, tomou posse do Bispado de Pernambuco a 29 de Julho de 1739. Chamado a Portugal, deixou o bispado a 18 de Junho de 1754, e faleceu a 17 de Novembro de 1757. Era irmão do bispo do Rio de Janeiro, D. João da Cruz, que regeu essa diocese de 1739 a 1745.

D. Fr. João da Cruz, carmelita descalço, foi eleito Bispo do Rio de Janeiro pelo Papa Clemente XII, em 1740, foi sagrado em Lisboa pelo Cardeal Patriarca, a 5 de Fevereiro de 1741. Chegou ao Rio de Janeiro a 3 de Maio do mesmo ano, e fez a sua entrada solene na catedral, a 9 desse mês. Partiu em 1742 para Minas Gerais em visita pastoral e de volta em 1745, renunciou o bispado, retirando-se para Lisboa a 14 de Outubro do mesmo ano, e sendo transferido para a diocese de Miranda em 1756; lá faleceu a 20 de Outubro de 1756.

D. Frederico Benício de Sousa e Costa. Por Decreto de Pio X, de 22 de Setembro de 1904 foi nomeado Prelado de Santarém no bispado do Pará. Eleito Bispo do Amazonas, em 8 de Janeiro de 1907, foi sagrado em Roma pelo Cardeal Gotti, a 19 de Março desse ano, na capela do Colégio Pio Latino Americano, e tomou posse da diocese a 2 de Junho. Resignou o bispado em 1914, sendo então nomeado por Pio X, bispo titular de Tubuna. Retirando-se para a Europa entrou na Ordem dos Camaldulenses, da qual por motivos supervenientes retirou-se, ingressando na Ordem dos Carmelitas, onde continua satisfeito trabalhando pela glória de Deus e pelo reflorescimento do Carmelo.

D. Fr. Elizeu van de Weyer, Bispo titular de Gor. Sagrado em Rio de Janeiro no ano de 1941. Nasceu aos 29 de Dezembro de 1880. Há mais de 40 anos que pertence à Ordem Carmelitana. A seu cargo está a Prelatura de Paracatu (Minas Gerais).

NOTAS HISTÓRICAS SOBRE AS MISSÕES CARMELITANAS NO EXTREMO NORTE DO BRASIL (Séculos XVII e XVIII)

POR FR. ANDRÉ PRAT, O. CARM. (1ª Parte)

CATÁLOGO DE ALGUNS MISSIONÁRIOS CARMELITAS NO AMAZONAS.

A) 1720 - No lago de Cupaçá no Solimões, os Jumás matam Frei Antônio de Andrade.

B) 1721 - Diogo Pinto Gaia castiga os Jumás, assassinos de Frei Antônio.

C) Frei Martinho da Conceição, pioneiro no Rio Negro.

D) Frei André da Costa, que tinha uma missão na ilha dos Veados, transladou-a para a tapera da aldeia de Tefé, tendo por orago Santa Teresa, reunindo as relíquias dispersas das missões destruídas, e que foram fundadas pouco antes de 1689. (Rev. I. G. e H. do Amazonas, Manaus, 1939/36, V, 117).

E) Frei Crisóstomo. Escreve o Cônego José de Andrade que D. Antônio Costa, ao chegar em Belém, encontrou apenas um representante da Comunidade dos Carmelitas — Fr. Crisóstomo. (D. Lustosa, 17 S.).

F) No Solimões os Cayuvicenas mataram Frei Matias Diniz. (R. 44).

G) Frei Paulo de S. João, comissário do Carmo em 1734.

H) Frei Isidoro José, Carmelita de Belém, foi Vigário de Almeirim em 1820. (Von Martins, Reise in Brasilien, Edição alemã. München 1831. III, 1324, ss.).

I) Frei Inácio de Nossa Senhora do Carmo. (Baena, Comp. 244).

J) Devemos a Frei José Lopes (“As notícias sobre Japurá”).

L) O ex-Vigário Provincial do Carmo, Frei Caetano José Macário, dedicou-se a cura de almas no Marajó em 1786. (Brandão, 1.221).

M) Em 1740, no Rio Negro, Frei José de Magdalena empregou a vacinação, salvando, com a lição que seus companheiros foram seguindo, centenas de vidas. (R. 45).

N) Frei José de Santa Maria, missionário pioneiro no Rio Negro. (R. 39).

O) Frei Matias tomou posse da nova aldeia do Japurá, onde construiu uma igreja e a casa de residência. Em breve, porém, o padre que costumava reclamar contra os costumes livres do principal e dos índios seus vassalos que tinham muitas concubinas, viu-se obrigado a fugir. Avisado pelo devotado ajudante José Cardoso de que seria assassinado na manhã seguinte, meteram-se os dois numa canoa, entrando por um furo que dá passagem para o rio Urubaxí e daí tomaram o Uniuxí, onde encontraram o principal Camandari. Esse tuchaua recolheu o missionário, levando-o para a sua maloca. Em 1728 fundou a aldeia de Mariuá, (hoje Barcelos). (Rev. H. e G. Etnogr. do Brasil, 1886).

P) Frei Caetano de Oliveira.

Q) Frei José de Paiva foi Missionário em 1732, na aldeia de Jupurá.

R) Frei José Pinto.

S) Frei Sebastião da Purificação, missionário pioneiro no Rio Negro. (R. 39).

T) Frei Roque.

U) Frei Raimundo de Santo Elizeu foi trucidado pelos índios na aldeia de Dary (lugar de Lamalonga). (Baena, Comp. 249).

V) Frei Francisco Seixas dedicou-se às missões no Rio Negro em 1728.

X) Frei Andrade de Sousa, missionário pioneiro no Rio Negro.

quarta-feira, 5 de março de 2014

SHOW NO PELOURINHO: Carlinhos Brawn- 04.

SHOW NO PELOURINHO: Carlinhos Brawn- 03.

SEXTA FEIRA DO TRIUNFO.

(SEXTA FEIRA, ANTES DA SEXTA FEIRA DA PAIXÃO)
Frei Victor Kruger, Frade Liturgista da Ordem do Carmo. Convento do Carmo, Salvador-BA.
 ACOMPANHANDO OS 7 PASSOS DE JESUS, RUMO À RESSURREIÇÃO. 
ACOLHIDA / ABERTURA DA CELEBRAÇÃO 
COMENTARIO INICIAL:
(Cel. Celebrante. T- Todos).
C. Hoje celebramos de modo especial, o sofrimento, a incompreensão, a prisão, a tortura e a morte de Jesus.
Ele foi vítima das pessoas que se sentiam ameaçadas em seus privilégios pelas palavras e pelo modo de agir de Jesus
T. Então se armaram contra Ele e o maltrataram até a morte e morte de cruz.
C. A cruz de Jesus mostra o mal que existe no mundo. Mostra toda a violência da mentira, da injustiça e da exploração contra a vida.
T. E essa violência se manifesta ainda hoje na cruz pesada do nosso povo.
C. Eis o que significa a cruz de Jesus Cristo: Jesus não morreu para exaltar o sofrimento. Ele aceitou a cruz para ser fiel à sua missão e para não trair a verdade que viveu e pregou.
CAMINHANDO E ACOMPANHANDO JESUS ATRAVÉS DOS ÚLTIMOS 7 PASSOS  TRIUNFANDO  SOBRE A MORTE.
CANTANDO:
Eles queriam um grande rei que fosse forte dominador e por isso não creram nele e mataram o Salvador. ( bis )
1-NO PRIMEIRO PASSO CONTEMPLAMOS JESUS NO HORTO DAS OLIVEIRAS.
O SENHOR DA AGONIA
Cel. Nós vos adoramos Senhor Jesus Cristo e vos bendizemos!
T. Porque pela vossa Santa cruz remiste o mundo!
C. O quê se passa no íntimo de Jesus?
Uma luta dramática em que entra em confronto a companhia e a solidão, o medo e a serenidade, a coragem de continuar o Projeto de Deus até o fim e a vontade de desistir e fugir.
A oração é a fonte que reanima nosso projeto de vida, segundo a vontade de Deus.
Cel. LENDO MARCOS 14, 32 - 42
REFLEXÃO
Cel. Senhor Jesus! Na vossa agonia experimentastes  o mais intenso sofrimento e, diante da provação acolhestes sem reservas a vontade do Pai.
Concedei a nós vossos servos a graça de aceitar tudo, de suportar tudo, de confiar tudo, fazendo de nossa vida um ato contínuo de acolhida da vontade do Pai. Amém!
CANTANDO:
Eu vim para que todos tenham vida! Que todos tenham vida plenamente! ( bis )
2- NO SEGUNDO PASSO CONTEMPLAMOS A PRISÃO DE JESUS.
Cel. Nós vos adoramos...
C. Um dos discípulos se alia ao poder repressivo das autoridades  e trai Jesus com um gesto de amizade. Todos fogem e Jesus fica sozinho e preso.
Aquele que realiza o projeto de Deus e atrai o povo é considerado pelos poderosos como bandido perigoso.
Cel. LENDO MARCOS 14, 43- 46. 53
REFLEXÃO.
Cel. Senhor Jesus! Vós viestes não para condenar, mas para salvar, não para  aprisionar, mas para libertar.
Infundi em nós a vossa serenidade, a fim de que possamos enfrentar as grandes lutas de nossa vida, sem ódio e sem violência. Amém!
CANTANDO:
Tu és Senhor, o meu pastor, por isso nada em minha vida faltará! ( bis )
 3-NO TERCEIRO PASSO CONTEMPLAMOS JESUS ATADO À COLUNA E FLAGELADO.
Cel. Nós vos adoramos...
C. A flagelação de Jesus é ao mesmo tempo, uma covardia do sistema injusto de Pilatos e também já anuncia um julgamento premeditado.
Cel. LENDO JOÃO 18, 28 – 19, 1
REFLEXÃO
Cel. Senhor Jesus! Inspirai em cada um de nós a consciência de nossa fragilidade. Fazei-nos dignos do carinho e da confiança que depositastes em nós quando decidimos trilhar o caminho do Evangelho. Amém!
CANTANDO:
Entre nós está e não o conhecemos entre nós está e nós o desprezamos. ( bis )
4. NO QUARTO PASSO CONTEMPLAMOS JESUS ESCARNECIDO E COROADO DE ESPINHOS
Cel. Nós vos adoramos...
C. Revestido com todos os sinais de poder: manto de púrpura, coroa, cetro e adoração, Jesus é motivo de zombaria.
Cel. LENDO JOÃO 19, 2 – 3
REFLEXÃO
Cel. Senhor Jesus! Zombado por todos como caricatura de rei; no entanto, quando retoma suas próprias vestes se revela como verdadeiro rei, aquele que entrega sua vida para salvar seu povo.
Que Tu sejas para nós: caminho, verdade e vida para nos tornar imensamente felizes. Amém!
CANTANDO:
No peito eu levo uma cruz e no meu coração o que disse Jesus. ( bis )
5- NO QUINTO PASSO CONTEMPLAMOS JESUS APRESENTADO AO POVO POR PILATOS. EIS O HOMEM!
Cel. Nos vos adoramos ...
C. O dilema de Pilatos é o mesmo do homem de hoje, dependente do sistema capitalista injusto e violento. Ou arrisca sua posição de poder, ou sacrifica o inocente.
Cel. LENDO JOÃO 19, 4 - 7
REFLEXÃO
Cel. Senhor Jesus! Que Tu sejas para nós a força que nos sustenta na tentação, a mão que nos reergue no momento da queda e o bálsamo que alivia nossas chagas, afim de que perseveremos até o fim. Amém!
CANTANDO:
Prova da amor maior não há! Que doar a vida pelo irmão! ( bis )
6- NO SEXTO PASSO CONTEMPLAMOS JESUS CARREGANDO A CRUZ ÀS COSTAS.
O SENHOR DOS PASSOS.
Cel. Nós vos adoramos...
C.A cruz é o trono de onde Jesus exerce sua realeza. Ele não esta só, mas é a motivação daqueles que o seguem, aqueles que dão a vida como Ele “ para que todos tenham vida”.
Cel. LENDO JOÃO 19, 16 - 18
REFLEXÃO
Cel. Senhor Jesus! Nós te contemplamos carregando a cruz e Te reconhecemos como nosso Deus.
Aceitando a cruz, Jesus nosso Salvador aponta para a vida nova, para um mundo mais humano e para a libertação dos males que oprimem homens e mulheres. Amém!
CANTANDO:
Sou bom pastor ovelhas guardarei, não tenho outro ofício nem terei! Quantas vidas eu tiver eu lhes darei!
7- NO SÉTIMO PASSO CONTEMPLAMOS A CRUCIFIXÃO E MORTE DE JESUS.
Cel. Nós vos adoramos...
C.Jesus está completamente só. Seu corpo está reduzido a uma fraqueza extrema. Contudo, até o fim Ele permanece fiel e consciente de sua entrega.
Cel. LENDO JOÃO 19, 28 - 30
REFLEXÃO
Cel. Senhor Jesus! Tu não Te apegaste a tua condição divina, mas como homem  te esvaziaste por inteiro, assumindo a condição de servo, humilhando-se até a morte e morte de cruz.
Ensina-nos a dizer diante de cada angustia de nossa vida: “ Pai, nas tuas mãos entrego meu espírito”.
CANTANDO:
Vitória, tu reinarás! Ó cruz tu nos salvará! ( bis)
8.  CONCLUSÃO.   ( DIANTE DO SACRÁRIO ABERTO OU ... )
Cel. LENDO 1 Cor 15, 1- 14 . 20 - 21
Ao Celebrar os 7 Passos de Jesus rumo à Ressurreição sentimos quanto e fraco é ainda nosso amor, apesar de entendermos um pouco melhor o sofrimento dos outros.
Acreditamos que não há morte sem Ressurreição; essa é a razão de nossa fé!
T. A VIDA TRIUNFA SOBRE A MORTE!
Cel. Introdução ao...  Pai nosso que estais...
CANTANDO:
Porque Ele vive, eu posso crer no amanhã. Porque Ele vive, temor não há!
Mas eu bem sei que o meu futuro está nas mãos do meu Senhor que vivo está.
Cel.  Avisos / Despedida / Pedido de bênção.
“ Desde meados do Sec. XVII, os carmelitas introduziram na Colônia a devoção da Via Crucis ou Via Crucis, em que se representava o drama da Paixão através de quadros ou Estações. Essa devoção passou a ser representada inicialmente através de uma Procissão que se realizava na SEXTA-FEIRA anterior à Semana Santa, designada também como como SEXTA FEIRA do TRIUNFO.
No Sec.XIX Thomas Ewbank ainda pôde assistir a essa Procissão promovida pelos carmelitas, e que iniciava com o Quadro representando a Oração de Cristo no Horto das Oliveiras.
Em São Paulo, ao que consta, a primeira Procissão desta Via Crucis foi realizada em 1681.”
Fonte:
Riolando Azzi in A Teologia Católica na Formação da Sociedade Colonial Brasileira. Ed. Vozes, pg 197.

BATE PAPO CARMELITANO: Frei Victor Kruger

segunda-feira, 3 de março de 2014

PROVÍNCIA DOS CARMELITAS NA BAHIA: Olhar o passado com os pés no presente.

Por Frei Pedro Caxito O.Carm. In Memoriam

 
            A respeito desta Província da Bahia escreve Fr. André Prat que, segundo documentos existentes no Mosteiro, ainda nos tempos do Brasil-Colônia, reunia-se no Convento do Carmo de Salvador a Academia  dos  Ilustrados; mais  ainda: que  mantinha  escolas públicas, tendo recebido em 1871 os maiores elogios do Barão de São Lourenço e, já antes, em 1865, do próprio Dom Pedro II, por ter fundado escolas para educação da juventude, desde épocas remotas. O Visconde de Cairu, José da Silva Lisboa, carmelita terceiro, economista, político e jurisconsulto, confessa que fez os seus estudos no Carmo da Bahia ; sabemos que aos oito anos aprendeu com os frades música e piano e teve lições de filosofia e teologia moral .

            Em 1770, certo Jerônimo Ferreira da Costa e Góis, filho de Francisco Ferreira da Costa, para receber Ordens faz um requerimento, no qual pede certidão de ter freqüentado o curso de filosofia professado no Convento do Carmo por Fr. Francisco Félix de Santa Teresa .

            O Governador da Bahia, Marquês de Valença, aos 26 de abril de 1783, remete da Bahia um ofício a Martinho de Melo e Castro, onde informa a fundação e extinção do Colégio das Artes, e confessa que no restabelecimento do Colégio hão de seguir-se muitas vantagens para os moradores da Cidade e Capitania: tratava-se de um requerimento de Frei Francisco Xavier de Santana, "Procurador Geral do Carmo Calçado desta Província", diante do embargo oposto pela Irmandade do Santíssimo Sacramento da Freguesia do Pilar. Vem anexa cópia da provisão do Conselho Ultramarino dirigida ao Vice-Rei, Conde dos Arcos, datada de 16 de janeiro de 1755 com a ordem de extinção do Colégio. Frei Francisco Xavier apresenta um memorial, onde mostra as vantagens de restabelecer o Colégio, e um requerimento onde pede certidão do Breve de 6 de junho de 1747 e de outros documentos relativos à fundação do Colégio .

Compensa a publicação da íntegra do Ofício do Marquês de Valença:

            "Bahia, 26 de abril de 1783. Examinando, em execução da ordem de 2 de dezembro do ano passado, o como se erigiu nesta cidade o Colégio de Artes, de que faz menção o requerimento do Padre Fr. Francisco Xavier de Santana, procurador geral do Carmo Calçado desta Província, achei que fora pela patente do seu Geral Fr. Luís Laghius de 6 de junho de 1747 intimada aos Padres desta Província, os quais lhes deram execução com consentimento do atual Vice-Rei, talvez que pela carta de Aviso da Secretaria de Estado de 9 de novembro do dito ano para o Provincial desta mesma Província, em que lhe concedeu Sua Majestade poder executar os breves da Sé Apostólica e do Núncio, como também as patentes do Prior Geral da Ordem Carmelita, expedido tudo para concessão de graças aos religiosos nelas respectivamente declarados. A cópia da dita carta, com a patente, remeto a V.Excia. nesta ocasião.

            A Irmandade do Santíssimo Sacramento da freguesia do Pilar desta  Cidade se opôs  quando os religiosos  acrescentaram  o mencionado Hospício, pelo que houveram (sic) pleitos que chegaram à  Casa  da  Suplicação, até que  por  provisão  do  Conselho Ultramarino de 16 de janeiro de 1755 dirigida ao Conde dos Arcos se lhe ordenou a extinção do referido Colégio das Artes, vista a outra provisão de 21 de março de 1714 que proibiu no referido Hospício acrescentar obra ou fazer mais acomodações que as necessárias para dois religiosos. A dita provisão de 16 de janeiro de 55 igualmente vai remetida a V.Excia a qual foi executada e por isso se acha presentemente reduzido o sobredito Hospício ao seu primeiro estado.

            Sua Majestade pela mesma ordem de 2 de dezembro do ano passado me manda dar o meu parecer sendo este que, obrigando-se os referidos religiosos a ensinar, no sobredito Hospício, aos estudantes seculares gramática, filosofia e teologia, pondo-lhe mestres de virtudes e muito capazes nestas ciências, me parece que sendo do Real agrado da mesma Senhora o estabelecer-se novamente nele o Colégio das Artes não deixará de se seguir alguma utilidade aos moradores desta Cidade e Província..." O aviso régio sobre o qual fala o ofício vem também anexo .

            Passamos a citar alguns escritores, oradores sacros, poetas, mestres e doutores da nossa Província da Bahia

1. FREI EUSÉBIO DE MATOS

            "Nasceu o autor no ano de 1629, na Bahia. Em 1644 entrou para a Companhia de Jesus. Lecionou Filosofia, Letras Humanas  e Teologia. Em 1664 fez profissão solene no Rio de Janeiro. Segundo Barbosa Machado, em 1677 mudou-se para a Ordem de Nossa Senhora do Carmo, tomando então o nome de Frei Eusébio da Soledade. Faleceu na Bahia a 7 de julho de 1692". Entre as suas obras impressas cita-se Oraçam Funebre nas Exequias do Illustrissimo e Reverendissimo Senhor D.Estevam dos Santos Bispo do Brasil" .

            Em EDI encontramos: "Irmão do poeta satírico Gregório de Matos Guerra (...), substituiu Vieira na cátedra de filosofia, brilhando entre os seus colegas, Vieira e Antônio de Sá, pela subtileza e burilado da frase. Dedicou-se também à poesia, pintura, música e matemáticas; compôs vários hinos religiosos e profanos, que tocava e cantava com letra sua na harpa e na viola. Dizia dele o Pe. Antônio Vieira que «Deus se apostara em o fazer em tudo grande e não o fora mais por não querer...». Vieira ficou pesaroso e dizia, quando Eusébio deixou a Companhia para se tornar Carmelita: «Pois muito mal fizeram os Jesuítas, que tarde se criarão para a Companhia outros Matos».

            Os jesuítas, segundo o seu "modus agendi" severo e coerente, tiveram os seus motivos sérios para o não quererem, e tiveram os carmelitas os seus motivos para o quererem .

            Deixou Poema epicum latinum in laudem Ven.Patris Joannis Almeida (sem data), Oração Fúnebre (1672 - acima citada e publicada em 1735), Sermão da Soledade (1674) e Ecce Homo (1677), todos de quando na Companhia de Jesus; Sermões (1694), com o título Sermoens do Pe. Mestre Fr. Eusebio de Mattos, Religioso de Nossa Senhora do Carmo da Provincia do Brasil - Primeira Parte. Há algumas composições "litigiosas" entre ele e o seu irmão Gregório, e outras duvidosas .

            Conta-nos Manuel Duarte Moreira de Azevedo na obra acima citada: "Entrara o poeta Eusébio de Matos para a Companhia de Jesus em 1644, época em que era Reitor um Padre natural de Cabo Frio, mui rigoroso para os minoristas. Aconteceu ser afetado de um pleuris o Irmão Eusébio e tendo sido sangrado, vieram visitá-lo o Reitor e outros padres que observaram achar-se o sangue denegrido e como queimado, ao que replicou o doente: - «Pois não é queimado do calor, senão do vilão do Frio que logo ao princípio ia dando Cabo de mim»" .

            Renato de Almeida nos transmite a respeito da música no Séc. XVII: "Nesse século surge na Bahia, a única figura de músico, que se pode citar - Eusébio de Matos ou Frei Eusébio da Soledade (1629-1692). Manuel Raimundo Quirino, que o considera «o primeiro músico notável da Bahia», conta razão desse duplo nome . (...). "Além de músico exímio e inspirado compositor, tocava harpa e viola, instrumento muito em uso no seu tempo. Compôs muitos HINOS RELIGIOSOS e cantos profanos ameníssimos sobre poesias  suas  (...). Suas  obras  foram  em  grande  parte perdidas" .

            Podemos ler na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira: "Pedro Diniz, a p. 281 da sua obra «Das Ordens Religiosas», diz que Fr. Eusébio de Matos era homem muito douto e que a sua erudição  compreendia, além  da  Música, que  tinha  estudado seriamente e para a qual era naturalmente dotado de disposições vantajosas, a Teologia, Matemática e Filologia. Se era cultor distinto das ciências, não o era menos das Belas-Artes, pois à dedicação pela Música juntava os dotes do Desenho e da Pintura, sendo exímio em ambas estas artes".

            Foram seus discípulos Frei Inácio de Jesus, Frei José de Jesus Maria, Frei Joaquim Ramos, escritor notável, e muitos outros .

2. FREI JOSÉ DE JESUS MARIA

            "Religioso Carmelita, n. em 8 de janeiro de 1660, morreu em 8 de janeiro de 1727. Recebeu o hábito no convento do Carmo em 7 de dezembro de 1679, professou no convento de Goiana da Reforma de Pernambuco em 8 de dezembro de 1680. Foi eleito missionário apostólico pelo Arcebispo da Bahia, Dom Frei Manuel da Ressurreição, em 29 de março de 1690. Regressado a Portugal, exerceu o cargo de Comissário da Ordem Terceira, primeiro em Vila Franca de Xira, depois em Lisboa. Na vila Franca tinha erigido o Hospital junto ao Convento do Carmo, e mandou fazer, em 1722, com o produto de esmolas (e a soma que lhe renderam os seus sermões), o órgão do referido convento, que custou 7.000 cruzados (8:400$000). Foi definidor eleito em 1714. Escreveu: Tesouro Carmelitano Manifesto, e oferecido aos irmãos e irmãs da Venerável Ordem Terceira da Rainha dos Anjos, Mãe de Deus, Senhora do Carmo - Lisboa - 1705" . Discípulo de Eusébio de Matos.

 
3. FREI INÁCIO RAMOS

            "Pregador brasileiro; nasceu na Bahia em 1650 e morreu em 1731. Era irmão do padre Domingos Ramos (SJ). Professou (1672) no Convento de Nossa Senhora do Monte do Carmo, (onde adquiriu vasta ilustração e se  tornou  pregador  notável)  e indo  a  Portugal (1685) para tratar de negócios particulares, passou a Roma, a fim de assistir, na qualidade de representante do Provincial da Ordem, ao Capítulo celebrado em Santa Maria Transpontina (1692), sendo por essa ocasião nomeado Vigário Provincial do Brasil. Foi (na Bahia) também reformador e visitador geral dos conventos da Reforma de Pernambuco. Assistiu a um outro Capítulo celebrado em Roma (1700), ficando depois em Lisboa como Prior do Convento de São Domingos e secretário da Província de Portugal. Publicou os seus sermões em 4 volumes com o título Ramos Evangélicos (1724-1730)" - EDI . Era filho de Manuel Ramos Parente e D. Andrezza Casado  Ramos; foi definidor  perpétuo e faleceu no dia 18 de novembro de 1731 .

4. FREI ANTÔNIO DA PIEDADE

            "Religioso carmelita calçado; nasceu na Bahia e morreu na Cachoeira (1660-1724). Estudou filosofia na sua terra natal, recebendo o grau de Mestre em Artes. Entrando na Ordem do Carmo (1679), foi lente de filosofia e teologia na Vigararia do Maranhão, Prior do Convento do Pará, Vigário Provincial e Comissário da Bula (da Santa Cruzada) do Maranhão, Governador, Provisor e Visitador (e Vigário) Geral da Diocese do Pará. Deixou impressos dois sermões" - EDI. Segundo a Brasiliana da Coleção Barbosa Machado foi "Doutor em a sagrada Theologia, Diffinidor perpetuo desta Provincia da Bahia, & actualmente Missionario da aldea de Japaratuba em o Certaõ do Rio de Saõ Francisco da Praya", e um dos seus sermões é o Sermam qve em as Exeqvias da Serenissima Rainha Nossa Senhora D.Maria Sophia Isabel de Neobvrg, feitas pela nobre villa de S.Amaro das Grotas do Rio de Sergipe a 19 de abril de 1700 pregou o R.P.M. Fr. Antonio da Piedade . A Rainha Da. Maria Sofia era esposa de Dom Pedro II de Portugal e foi muito amiga do carmelita Frei Luís dos Anjos, acima citado.

            Pela Grande Enciclopédia, acompanhada por Raimundo de Menezes, ficamos sabendo que Fr. Antônio da Piedade "Foi lente de Filosofia e Teologia em Maranhão, cargo em que se jubilou em 27 de junho de 1694. Foi duas vezes prior do Convento do Pará, vigário provincial do Maranhão e comissário da Bula da Cruzada, governador, provisor e visitador geral do Bispado do Pará em 1693. Depois de passar algum tempo em Portugal, voltou para o Brasil, onde foi ainda prior do Convento da Bahia e Definidor perpétuo. Em 1703, além do sermão acima citado, publicou o Sermão de Santa Teresa, pregado no Convento das Religiosas Carmelitas Descalças da Bahia

5. FREI MANUEL DA MADRE DE DEUS BULHÕES

            Era filho do Capitão Manuel da Costa Campos e Da. Maria de Bulhões; nasceu na Bahia a 6 ou 26 de novembro de 1663 e faleceu em 1738, segundo Inocêncio Blake e Artur Mota, mas, segundo Pedro Calmon, o nascimento foi em 1666 e a morte em 1731 .            "Carmelita; nasceu na Bahia em 1663. Foi procurador da sua Ordem em Roma, Definidor Geral, Prior do Convento da Bahia e Provincial. Deixou um volume de sermões"  - EDI.

            "Religioso carmelita calçado, prior do convento da Bahia, definidor geral, provincial etc., nasceu na Bahia em 26 de novembro de 1663 e ignora-se a data do seu falecimento. Por morte dos  pais, apesar  de  ser  fidalgo  cavaleiro  e  alferes  de infantaria, entrou na vida claustral na ordem carmelitana, em 6 de dezembro de 1688 e professou um ano depois. Ensinou Filosofia no seu convento e ditou Teologia. Foi mandado a Roma como procurador da sua ordem para assistir ao capítulo geral em 1695, votando nele como definidor geral. Exerceu também o cargo de examinador sinodal do arcebispado da Bahia. Gozou fama de grande pregador e publicou em Lisboa os seguintes sermões pregados na Bahia: Sermão fúnebre pregado nas Exéquias de Roque da Costa Barreto, governador que foi do Brasil (1699); Sermão de Nossa Senhora da Ajuda (1704); Sermão em Ação de Graças pela saúde de El-Rei Nosso Senhor... Em 14 de maio de 1705 (1706); Sermão do Primeiro Sínodo Diocesano, que se celebrou no Brasil, pelo Ilmo. Sr. Dom Sebastião Monteiro, Arcebispo da Bahia, a 12 de junho de 1707 (1709); Sermão de Santa Teresa (1711); Sermão de São Félix de Cantalício (1717); Sermões da Soledade (1702, 1703, 1709); Sermão do Príncipe dos Apóstolos, na abertura do seu novo templo (1717); Sermão na festividade de Nossa Senhora da Barroquinha (1728); Oração Concionatória nas Exéquias da Ilma. Sra. Dona Mariana de Alencastro... (1732) ; Suma triunfal da nova e grande celebridade do Glorioso e Invicto Mártir São Gonçalo Garcia, dedicada ao sr. Capitão José Rebelo de Vasconcelos por seu autor (?) Sotério da Silva Ribeiro, com uma coleção de vários folguedos e danças, oração panegírica que recitou o Padre Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão na igreja do Sacramento em Pernambuco, no dia 1º de maio de 1745 (Lisboa, 1753); Sermões vários (2 tomos, 1737 e 1739)" .

            "Nasceu o autor a 6 de novembro de 1663 na Bahia. Entrou para a Ordem dos Carmelitas Calçados. Seguiu para Roma como Procurador da sua Ordem, onde votou como Definidor Geral. Foi ainda Prior no Convento da Bahia, Provincial do Carmo, Examinador Sinodal do Arcebispado da Bahia. Faleceu no ano de 1738". Foram publicados Sermam funebre nas Exequias do Senhor Roque da Costa Barreto, Sermam em Acçam de Graças pela saude DelRey Nosso Senhor (Dom Pedro II de Portugal) e Oraçam Concionatória nas sumptuosas Exequias da Excellentissima Senhora d. Marianna de Alencastro .

6. FREI JOSÉ DE SANTANA

            "Religioso carmelita, nascido no Porto no último quartel do século XVII. Professou no Convento dos Carmelitas em outubro de 1700, na Bahia, ao tempo capital da américa Portuguesa, para onde foi da pátria. Ascendeu, mais tarde, a Prior do Convento da Cachoeira, no Recôncavo da Bahia, e publicou THEZOURO EUCARISTICO em Lisboa, por Manuel Fernandes da Costa, impressor do Santo Ofício - 1731" .

7. FREI JOSÉ DE OLIVEIRA SERPA

            "Pregador do século XVIII; nasceu na Bahia em 1696 . Deixou  manuscritas  duas  obras  místicas:  Novo  Obséquio  do Patriarca São José e Trindade da Terra exaltada no temor de Deus por causa de uma grande trovoada" - EDI. Dele estão publicados 5 sonetos elegíacos, um soneto contínuo e ainda um mote com a sua glosa, e uma décima: estes últimos e 3 dos sonetos foram para lamentar a morte de Dom João V de Portugal . O Dicionário Literário Brasileiro cita-o como Jesuíta, sem o título de Frei.

8. FREI MANUEL ÂNGELO DE ALMEIDA

            "O autor, natural da Bahia, onde nasceu a 26 de fevereiro de 1697, em 1716 recebeu o hábito de Carmelita Calçado. Tendo sido nomeado sócio do Capítulo Geral celebrado em Roma em 1725, foi-lhe conferido pelo Geral o grau de Doutor em Teologia. De secretário da Província subiu a Provincial em 1735. Ignoramos a data do seu falecimento". Dele foi impresso um Sermam que nas exequias do Excellentissimo, e Reverend. Senhor D. Joseph Fialho, Bispo que foy de Pernambuco, Arcebispo da Bahia, e Bispo da Guarda. Celebradas com toda magnificencia na santa igreja de Olinda pelo Excelentissimo e Reverendissimo Senhor D. Fr. Luiz de Santa Teresa bispo actual de Pernambuco. Pregou o P.M.Fr. Manoel Angelo de Almeida mestre, e doutor na Sagrada Theologia, Ex-Provincial do Carmo da Provincia da Bahia, e o ofereceu ao mesmo Excellentissimo e Reverendissimo Senhor Bispo de Pernambuco (Lisboa - 1742)" .

            "Carmelita professo e grande orador sagrado, nasceu na Bahia em 1697. Lecionou ciências severas no convento de carmelitas de São Salvador, e foi eleito  para o Capítulo  Geral  celebrado em Roma em 1725. Foi-lhe  conferido pelo Geral da Ordem o grau de doutor em Teologia. Além do sermão acima citado, publicou Sermão de Ação de Graça a Nossa Senhora da Vitória em satisfação de um voto que lhe fez por um benefício alcançado pela dita Senhora na sua santa  igreja de Vitória da cidade de Elvas (Madri - 1733); Declamação moral na ocasião da rogativa que fez a venerável Ordem Terceira do Carmo da Bahia por ocasião da grande seca que sentiu a mesma cidade desde 1734 até 1735 (Lisboa - 1736)" .

9. FREI HENRIQUE DE SOUSA DE JESUS MARIA

            Foram impressos 2 sonetos, 1 cenotáfio pela morte do Abade Dom Manuel da Matos Botelho, irmão do Arcebispo da Bahia, Dom José Botelho de Matos, e 1 epitáfio e 2 sonetos por ocasião da morte de Dom João V, todos compostos na Bahia .

            "Religioso Carmelita da Província da Bahia, nasceu em Viana do Castelo em 16 de abril de 1705, morreu em data que se ignora. Foi para o Brasil aos 14 anos e residiu na Vila de Cachoeira, onde aprendeu a gramática latina. Aos 22 anos professou no Convento da Bahia e estudou, depois, as Ciências Escolásticas. Foi pregador notável e escreveu as seguintes obras: Sermão da Justiça na primeira oitava do Espírito Santo, estando presente o Ilmo. e Exmo. Sr. André de Melo e Castro, Conde das Galveias, Vice-Rei do Estado do Brasil com toda relação do mesmo estado, pregado no Convento do Carmo da Cidade da Bahia (Lisboa - 1745); Três sonetos no Diário Histórico das Celebridades, que na cidade da  Bahia  se  fizeram  pelos  felicíssimos  casamentos  dos sereníssimos Príncipes de Portugal e Castela (Lisboa - 1729); Dois sonetos e três décimas em aplauso do Reverendo Antônio de Oliveira (Lisboa - 1738); outra edição (1745); Três sonetos e um romance heróico às memórias fúnebres do Abade de Duas Igrejas, Manuel  de  Matos  Botelho  (Lisboa - 1745). Deixou  alguns manuscritos, entre os quais um volume de Sermões vários" .

10. FR. FRANCISCO FELIX DE SANTA THEREZA

            "Requerimento de Jeronymo Ferreira da Costa, em que pede certidão de sua frequencia no curso de philosophia, professado no Convento do Carmo (da Bahia) por Fr.Francisco Felix de Santa Thereza - ano de 1768" .

11. FR. INOCÊNCIO DO MONTE CARMELO SENA

            Nasceu em Santo Amaro da Purificação (BA) no dia 28 de julho de 1828; com dezesseis anos professou na Ordem do Carmo. Foi nomeado Passante à cadeira de Filosofia e Lente de Teologia no dia 23 de abril de 1853. Como Reitor do Colégio dos Órfãos de São Joaquim lecionou latim e francês, agradando muito ao Arcebispo da Bahia, Dom Manuel Joaquim da Silveira, que no dia 25 de fevereiro de 1873 lhe concedeu o direito de usar anel e solidéu. Pelo seu grande amor à Ordem, em 1890, chegou a empreender uma viagem difícil até Roma para pedir ao Pe. Geral o envio de socorro à Bahia, que contava apenas com 6 religiosos, poucos e idosos. Foi nomeado Provincial da Província da Bahia no dia 1º de abril de 1892. Teve a felicidade de ver chegar no dia 25 de novembro de 1899 os primeiros religiosos vindos da Espanha para cuidar da restauração. Tendo tomado todas as providências canônicas e civis para que os frades espanhóis, já naturalizados brasileiros, não encontrassem dificuldades na obra da restauração, retirou-se para a sua Santo Amaro, onde faleceu piedosamente no dia 25 de junho de 1909 .

No livro Bom Jesus da Lapa (resenha histórica) escrito pelo Pe. Turíbio Villa-nueva y Segura (3ª edição - 1948) encontrei a p. 178-179 o seguinte: "NOTA - Prof. de escultura no Liceu de Artes e Ofícios da Bahia, João Guilherme da Rocha Barros, apelidado «O Frade», segundo informação do Clérigo Guimarães, Vice-Secretário, então, do Arcebispado, nasceu em 1851 e, entre outras obras, "produziu também «Nossa Senhora das Portas do Céu» no Carmo" (Ver Arte Cristã por Fr. Pedro Sinzig OFM  p.51).

O Folheto: O Padre e seu sobrinho.


Todos os domingos à tarde, depois da missa da manhã na igreja, o velho padre e seu sobrinho de 11 anos saíam pela cidade e entregavam
folhetos sacros.

Numa tarde de domingo, quando chegou à hora do padre e seu sobrinho saírem pelas ruas com os folhetos, fazia muito frio lá fora e também
chovia muito. O menino se agasalhou e disse:
-Ok, tio padre, estou pronto. '
E o padre perguntou:
-'Pronto para quê?':
-'Tio, está na hora de juntarmos os nossos folhetos e sairmos. '
O padre respondeu:
-'Filho, está muito frio lá fora e também está chovendo muito. '
O menino olhou surpreso e perguntou:
-'Mas tio, as pessoas não sofrem até mesmo em dias de chuva?'
O padre respondeu:
-'Filho, eu não vou sair nesse frio. '
Triste, o menino perguntou:
-'Tio, eu posso ir? Por favor!'
O padre hesitou por um momento e depois disse:
-'Filho, você pode ir. Aqui estão os folhetos. Tome cuidado, filho. '
-'Obrigado, tio!'
Então ele saiu no meio daquela chuva. Este menino de onze anos caminhou pelas ruas da cidade de porta em porta entregando folhetos
sacros a todos que via
Depois de caminhar por duas horas na chuva, ele estava todo molhado, mas faltava o último folheto. Ele parou na esquina e procurou por alguém para entregar o folheto, mas as ruas estavam totalmente desertas. Então ele se virou em direção à primeira casa que viu e caminhou pela calçada até a porta e tocou a campainha. Ele tocou a campainha, mas ninguém respondeu. Ele tocou de novo, mais uma vez, mas ninguém abriu a porta. Ele esperou, mas não houve resposta.
Finalmente, este soldadinho de onze anos se virou para ir embora, mas algo o deteve. Mais uma vez, ele se virou para a porta, tocou a campainha e bateu na porta bem forte. Ele esperou, alguma coisa o fazia ficar ali na varanda. Ele tocou de novo e desta vez a porta se abriu bem devagar.
De pé na porta estava uma senhora idosa com um olhar muito triste. Ela perguntou gentilmente:
-'O que eu posso fazer por você, meu filho?'
Com olhos radiantes e um sorriso que iluminou o mundo dela, este pequeno menino disse:
-'Senhora, me perdoe se eu estou perturbando, mas eu só gostaria de dizer que JESUS A AMA MUITO e eu vim aqui para lhe entregar o meu último folheto que lhe dirá tudo sobre JESUS e seu grande AMOR. '
Então ele entregou o seu último folheto e se virou para ir embora.
Ela o chamou e disse:
-'Obrigada, meu filho!!! E que Deus te abençoe!!!'
Bem na manhã do seguinte domingo na igreja, o Padre estava no altar, quando a missa começou ele perguntou:
- 'Alguém tem um testemunho ou algo a dizer?'
Lentamente, na última fila da igreja, uma senhora idosa se pôs de pé. Conforme ela começou a falar, um olhar glorioso transparecia em seu rosto.
- 'Ninguém me conhece nesta igreja. Eu nunca estive aqui. Vocês sabem antes do domingo passado eu não era cristã. Meu marido faleceu a algum tempo deixando-me totalmente sozinha neste mundo. No domingo passado, sendo um dia particularmente frio e chuvoso, eu tinha decidido no meu coração que eu chegaria ao fim da linha, eu Então peguei uma corda e uma cadeira e subi as escadas para o sótão da minha casa. Eu amarrei a corda numa madeira no telhado, subi na cadeira e coloquei a outra ponta da corda em volta do meu pescoço. De pé naquela cadeira, tão só e de coração partido, eu estava a ponto de saltar, quando, de repente, o toque da campainha me assustou. Eu pensei:
-'Vou esperar um minuto e quem quer que seja irá embora. '
Eu esperei e esperei, mas a campainha era insistente; depois a pessoa que estava tocando também começou a bater bem forte. Eu pensei:
-'Quem neste mundo pode ser? Ninguém toca a campainha da minha casa ou vem me visitar. '
Eu afrouxei a corda do meu pescoço e segui em direção à porta, enquanto a campainha soava cada vez mais alta.
Quando eu abri a porta e vi quem era, eu mal pude acreditar, pois na minha varanda estava o menino mais radiante e angelical que já vi em minha vida. O seu SORRISO, ah, eu nunca poderia descrevê-lo a vocês!
As palavras que saíam da sua boca fizeram com que o meu coração que estava morto há muito tempo SALTASSE PARA A VIDA quando ele exclamou com voz de querubim:,
-'Senhora, eu só vim aqui para dizer QUE JESUS A AMA MUITO. '
Então ele me entregou este folheto que eu agora tenho em minhas mãos.
Conforme aquele anjinho desaparecia no frio e na chuva, eu fechei a porta e atenciosamente li cada palavra deste folheto.
Então eu subi para o sótão para pegar a minha corda e a cadeira. Eu não iria precisar mais delas. Vocês veem - eu agora sou uma FILHA FELIZ DE DEUS!!!
Já que o endereço da igreja estava no verso deste folheto, eu vim aqui pessoalmente para dizer OBRIGADO ao anjinho de Deus que no momento certo salvou a minha vida e abriu os meus olhos para a misericórdia de Jesus.
Não havia quem não tivesse lágrimas nos olhos na igreja. O Velho Padre desceu do altar e foi em direção a primeira fila onde o seu anjinho estava sentado. Ele tomou o seu sobrinho nos braços e chorou copiosamente.
 PARA REFLETIR E REZAR...
Provavelmente nenhuma igreja teve um momento tão glorioso como este...
Às vezes, achamos que a Igreja é a nossa Pastoral, o nosso Movimento, o nosso Grupo e nos fechamos para aqueles e aquelas que estão à margem da Sacristia, do Salão Paroquial e dos muros da nossa Paróquia.
Segundo o Papa Francisco, “devemos sentir o cheiro das ovelhas”. Quantos católicos estão fora da nossa Igreja? Você sabe quantos habitantes tem a sua Paróquia e quantos participam da Missa Dominical? E as outras pessoas? Ah! Elas são pecadoras- Alguém pode justificar. Será esta a melhor resposta para responder as interrogações das Igrejas vazias, das Pastorais e Grupos Paroquiais sem atrativo, sem coração e sem vida?
Lembre-se: a mensagem de Deus pode fazer a diferença na vida de alguém próximo a você.
Por isso...
- Me perdoe se eu estou perturbando, mas eu só gostaria de dizer que JESUS TE AMA MUITO e eu vim aqui para lhe entregar o meu último folheto.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A metáfora do “corpo místico” e sua importância para o estudo das tensões entre Ordens Terceiras e Religiões mendicantes na época colonial.

William de Souza Martins (USP)

 

Ao advertir que as categorias usadas pelos agentes históricos do passado lançam luz sobre as suas respectivas visões de mundo, Peter Burke fornece como exemplo a imagem muitas vezes recorrente do “mundo como um organismo”.  A metáfora da sociedade como um “corpo místico” constitui uma das vias mais acabadas de um modo de pensar a coletividade baseado nas diferentes funções exercidas pelos órgãos do corpo humano. Assim ocorre, desde seu aparecimento no século XII nos escritos de João de Salisbury: a res publica possui pés, os camponeses; mãos, os cavaleiros que brandem suas armas e uma cabeça, representada pelo príncipe. Não obstante a posição privilegiada desse último, a sociedade apresenta também uma alma, os sacerdotes, cuja sabedoria mostrava ao monarca os caminhos da verdade. Nesse esquema, é possível vislumbrar, portanto, ecos da imagem trifuncional da sociedade, baseada na divisão entre os que oram, os que combatem e os que trabalham, embora Salisbury introduza na representação do corpo social outras compartimentações, tais como o coração, em que figuram os conselheiros do rei; o ouvido e a língua, os instrumentos da jurisdição régia e o ventre, que representa as gentes de finança.  Quando aplicada para a caracterização da sociedade laica, a imagem do corpo místico atravessou a Baixa Idade Média, reaparecendo no pensamento jurídico moderno inglês que, ao reforçar a tradicional concepção corporativa da sociedade, punha limites ao poder régio.  Atendendo a propósitos semelhantes, a metáfora é também empregada no pensamento político quinhentista português, aparecendo por exemplo no segundo livro do Espelho do Perfeito Príncipe Cristão de Francisco de Monçon, cuja caracterização do corpo místico da República repete pontualmente os topoi anteriormente estabelecidos por João de Salisbury, com a excessão da alma, o que indica a secularização crescente do pensamento e a perda relativa de importância da Igreja, em comparação com a Idade Média.  Em última análise, a incrível vitalidade da imagem em questão é patente quando se verifica sua presença no Príncipe perfeito de Francisco Antônio Moraes de Campos, editado em 1790, que torna a atribuir ao rei o lugar de cabeça do corpo místico da República, cujas funções de comando, não obstante, não substituem as atribuições específicas do restante do corpo.

A Igreja medieval não permaneceu insensível ao uso sociológico da metáfora do corpo místico. Como resposta à secularização em curso na Baixa Idade Média, manifestada principalmente pela autonomização dos corpos políticos privados, urgia que a corporação eclesiástica reafirmasse sua preponderância por meio de uma imagem universalizante. Assim, no início do século XIV, o papa Bonifácio VIII aplicaria a referida metáfora para representar a sociedade cristã ou Igreja no sentido mais amplo, à cabeça da qual assomava o próprio Cristo. A reação manifestada pelo clero ao uso laico da metáfora do corpo místico também pressupôs uma mudança mais lenta ocorrida no pensamento teológico. Se na Alta Idade Média, a imagem do corpo místico aplicava-se ao sacramento eucarístico, por causa de movimentos heréticos a Igreja insistiu cada vez mais na presença real do Cristo na hóstia, culminando com a aprovação do dogma da transubstanciação, em 1215. A partir de então, nos escritos eclesiásticos, a metáfora do corpo místico teria um sentido cada vez menos sacramental, referindo-se preferencialmente ao mundo social.

Mais recentemente, a reflexão teológica retomou a abordagem sociológica da metáfora do corpo místico, atitude influenciada talvez indiretamente pelo movimento de centralização das estruturas eclesiásticas ocorrido a partir do século XIX e, de modo mais direto, pela publicação em 1943 da encíclica Mystici Corporis. Conforme apontou precisamente Georges Duby, a referida imagem traz subjacente uma “moral de enquadramento”, que sacraliza a multiplicidade e a desigualdade de funções exercidas pelos agentes sociais ou eclesiásticos, de modo que sobreviva a união mística do todo. Ao lado disso, o uso da metáfora implica na interdependência entre as diferentes partes de um agregado cívico, na medida que “os súditos se acham incorporados no rei e este nos súditos” ; de modo similar, estende a mesma propriedade para a sociedade cristã: a graça de Cristo se espraia aos fiéis para uni-los entre si e com sua cabeça. Não obstante, os usos da imagem corpo místico variaram consideravelmente, conforme era aplicada para representar o governo de uma república perfeita ou o governo de Deus sobre os homens. Assim, enquanto que no pensamento jurídico inglês ou português, a imagem do corpo místico apontava para uma concepção limitada do poder do soberano, a reflexão teológica reforça, como seria de esperar, a capitalidade de Cristo, que opera em dois planos: externo ou de governo, representado “com a ajuda dos homens que ensinam, administram ou governam em seu nome”, ou seja, a corporação eclesiástica; interno ou de santificação, por meio da graça que atua individualmente em cada homem.

No uso específico que a metáfora do corpo místico assume nas três obras analisadas a seguir, da lavra de religiosos observantes das regras de Nossa Senhora do Carmo, de Santo Agostinho, e de São Francisco, todas elas publicadas no século XVIII, torna-se evidente uma característica: a apropriação da imagem operada pelos respectivos frades assinala a pulverização jurisdicional característica do Antigo Regime. Assim, na metáfora orgânica que cada uma das ordens propunha como auto-representação de si, está subjacente o fato de que a jurisdição dos órgãos periféricos “era sua própria (e não delegada) e inatacável pela coroa”.  Era como se no interior do corpo místico da República operasse uma pluralidade de corpos místicos, com jurisdições e hierarquias próprias. No caso aqui enfocado, tratava-se da jurisdição espiritual que cada uma das referidas Religiões exercia em relação às suas correspondentes Ordens Terceiras, constituídas por irmãos leigos. Desse modo, justificava-se a isenção das Ordens Terceiras da jurisdição do ordinário, no plano diocesano, e da do pároco, ao nível paroquial, representantes mais diretos da Coroa. Ainda neste caso, portanto, a metáfora do corpo místico atuava como imposição de limites ao poder do soberano.

Buscando seguir uma linha cronológica, a primeira obra a considerar é o Tesouro carmelitano de fr. José de Jesus Maria, dada à impressão ainda na primeiro decênio dos Setecentos.  No capítulo X, ao tratar das amplas obras meritórias de que participavam os irmãos terceiros carmelitas, o autor representa tal participação por meio da seguinte imagem:

Não há dúvida que é o mesmo ser admitido qualquer Católico ao sagrado Hábito da nossa Venerável Ordem Terceira, que ficar sendo membro deste místico corpo da nossa Religião Carmelitana (...) e se os membros no corpo humano se ajudam uns aos outros em ordem a viver, assim também no corpo místico da Religião se ajudam, para que todos se venham a salvar, comunicando uns aos outros o merecimento das boas obras que fazem.

Assim, diferentemente das simples irmandades leigas, os irmãos das Ordens Terceiras estavam inseridos em uma coletividade religiosa que lhes franqueava diversas vantagens espirituais. Sem detalhar por enquanto o modo pelo qual recebiam tais privilégios, importa reter que, à semelhança do organismo humano, o “místico corpo” carmelita apresentava-se hierarquizado, nele ocupando lugar proeminente a própria mãe de Cristo. Seguram-lhe uma série de profetas e santos, até chegar aos religiosos e religiosas da Observância, ou carmelitas calçados, e aos carmelitas Descalços, que se pautavam pela reforma de Santa Teresa.  O autor não faz explícita menção à posição ocupada pelos irmãos terceiros que, deduz-se, deviam figurar depois dos religiosos.

O autor, não obstante, parece não se satisfazer com essa metáfora, e tentou aprimorá-la recorrendo à outra imagem, a da “árvore mística”:

É Árvore porque se esta se compõe de raiz, tronco, cortiça, ramos, folhas, flores e frutos, as quais cousas, ainda que sejam de diversa condição e natureza, da raiz procedem, e dela tiram a vida e a vigor, assim também esta nossa Terceira Ordem se compõe, como Árvore, de muitas e diversas pessoas nobres e mecânicas, homens, mulheres, ricos e pobres, Eclesiásticos e seculares (...) assim, como os membros procedem da cabeça, assim como os raios procedem do Sol, e assim como os rios procedem da fonte, assim espiritualmente procedem de Maria Santíssima todos os Carmelitas regulares e seculares (...) São os carmelitas todos, assim Religiosos como Terceiros, os filhos desta Mãe, os ramos deste tronco, os membros desta cabeça, os raios deste Sol, e os rios desta fonte.

Se no primeiro trecho da citação acima a “árvore mística” abrange apenas os membros das Ordens Terceiras, nos dois últimos há claramente a inclusão dos frades e freiras, haurindo todos eles os benefícios espirituais emanados da Virgem. Se o texto afirma a preponderância desta sobre toda a “árvore mística”, por outro lado não empreende uma hierarquia espiritual entre os membros religiosos e os seculares, que surgem genericamente identificados aos “ramos” e “rios”. Há alusões apenas à hierarquia interna dos irmãos terceiros, cuja origem se encontra nas ocupações do século  “pessoas nobres e mecânicas” mas não a divisões baseadas no modo religioso de vida e nas obras espirituais.

No escrito acima, o autor lança mão de imagens retiradas da natureza, cujos significados mais profundos adquirem uma feição moral, conforme ensinou Sérgio Buarque de Holanda.  Se teólogos contemporâneos como o dominicano Emílio Sauras, seguindo os passos de S. Tomás de Aquino, criticaram tal abundância de imagens como “naturalismo vulgar”, é preciso ver entretanto que a Teologia patrística incluía como técnica hermenêutica o essencialismo. De acordo com tal doutrina, Deus escrevera através de dois livros, a Bíblia e as criaturas, que constituíam as vias para o conhecimento de sua Verdade. Conforme expressou S. Boaventura, cujas concepções aparecem refletidas na obra do carmelita José de Jesus Maria, “todos os seres criados simbolizam Deus. Pois Deus é a origem de todas as coisas, e todo efeito é símbolo de sua causa.”

No texto que será analisado em seguida, tais imagens estão ausentes; no entanto, uma vez mais, a metáfora do corpo místico ocupa uma posição central no discurso. Na primeira metade do século XVIII, o frei agostiniano José de Santo Antônio propôs à irmandade de Nossa Senhora da Graça, em Lisboa, que fosse elevada à categoria de Ordem Terceira sob a jurisdição de sua Religião, tornando-se o referido sacerdote o primeiro comissário da Ordem. Obtendo consentimento do grupo de devotos, o frade constituiu-se em “Padre espiritual” dos irmãos terceiros, delegado imediato da autoridade do provincial dos religiosos de Santo Agostinho.  De simples irmandade, aqueles fiéis atingiram uma nova condição:

Não se extingue logo a Irmandade antiga de Nossa Senhora da Graça, melhora-se sim pelo ascenso à Terceira Ordem Augustiniana. Não se extingue porque os que eram até aqui Irmãos no serviço e obséquios da Virgem Maria, subindo a ser Terceiros de uma Religião (...) nesta dita logram sobre o título de Irmãos o de filhos, e assim ficam unidos à Senhora com vínculo mais estreito [tendo] por Mãe a Virgem Maria da Graça, e por Pai o grande Patriarca Santo Agostinho, Luz da Igreja e Mestre universal de toda a Cristandade, o afeto que lhes merece há de obrigar aos bons Católicos a agregar-se a este Corpo Místico...

Combinando a metáfora orgânica à da família, o autor assinala que o grupo de devotos doravante participa de um corpo hierarquizado, de uma família à cabeça da qual figura um místico casal.  Esse discurso assinala a mudança do estatuto do referido grupo de devotos: de irmandade a gozar de relativa autonomia no campo religioso a Ordem Terceira ligada jurídica e espiritualmente aos religiosos de santo Agostinho.

Havia uma importante contrapartida espiritual que, para os leigos, parecia compensar largamente certa perda de autonomia na gestão do sagrado: o ingresso no “Corpo Místico” de uma Religião transmitia-lhes quase todas as graças e benefícios espirituais durante muitos séculos acumulados pelos religiosos. O franciscano Manoel de Maria Santíssima, guardião do convento português de Varatojo, ao tentar representar as relações de complementaridade entre as diferentes partes que compunham o corpo de sua Religião, exprimiu com clareza a idéia da transmissão do patrimônio espiritual:

Ora, sendo certo que as três Ordens Seráficas, Primeira de Religiosos, Segunda de Religiosas, terceira da Penitência para Seculares, formam um corpo místico na participação das boas obras, e merecimentos, e são todas ramos de um mesmo tronco e de uma mesma árvore, de cuja virtude participam todos os seus ramos e folhas, que tesouro de bens se não encerra aqui para os irmãos Terceiros de que tão facilmente se podem aproveitar?

No interior do “Corpo Místico” franciscano, os bens espirituais não se transmitiam apenas em sentido vertical , ou seja, dos religiosos até os irmãos terceiros: no âmbito deste último grupo, ocorria também a difusão das graças espirituais através da extensa rede de Ordens Terceiras existente na Cristandade. Assim, segundo o autor, apenas as graças conquistadas numa das partes do corpo Seráfico já seria o bastante para atrair a participação dos simples fiéis:

Só em doze Ordens (Terceiras) sujeitas à direção de Varatojo se dizem cada ano mais de mil Missas pelos irmãos vivos e defuntos com serem Ordens pobres. Que será na Ordem da Cidade [Lisboa] que tinha o ano de 1701 vinte mil Irmãos? Que será na Ordem de Madri em Espanha, que entre Noviços e professos tinha o ano de 1690 68 mil Irmãos?

Os três escritos da autoria dos religiosos acima referidos enfatizam uma acepção muito particular da metáfora do “Corpo Místico”: este não designa o conjunto formado pelo clero e fiéis, a Igreja em sentido amplo. Pelo contrário, refere-se a um agregado formado por religiosos que observavam votos de castidade e de obediência; e por seculares que viviam de seus ofícios mundanos, situados todos sob a égide dos fundadores das respectivas Ordens e, acima de tudo, de Maria Santíssima. Assim, no cume de cada edifício representado pelas diferentes Ordens Religiosas, a pessoa de Maria substitui a de seu próprio filho, guardando uma importante distinção em relação ao conjunto da Igreja, para quem o alicerce ou o cimo  as duas posições são equivalentes  é ocupado pela figura de Cristo.

Nota:

Esse trabalho reflete algumas indagações presentes na pesquisa Membros do corpo místico: Ordens Terceiras da cidade do Rio de Janeiro, que se desenvolve junto à Universidade de São Paulo sob a orientação da prof.ª dr.ª Maria Beatriz Nizza da Silva, e que conta com o amparo financeiro da FAPESP.

O mundo como um teatro. Lisboa, Difel, 1992, p. 44.

Georges Duby. As três ordens ou o imaginário do feudalismo. Lisboa, Estampa, 1982, p. 288-93.

Segundo Ernst H. Kantorowicz, “o corpo político, místico ou público da Inglaterra não se definia somente pelo rei ou cabeça, mas sim pelo rei juntamente com o conselho e o Parlamento”. Vide Los dos cuerpos del rey. Un estudio de teología política medieval. Madrid, Alianza, 1985, p. 217.

Ana Isabel Buescu. Imagens do príncipe. Discurso normativo e representação (1525-1549). Lisboa, Cosmos, 1996, p. 193-211.

Vide Ângela Barreto Xavier e Antônio Manuel Hespanha “A representação da sociedade e do poder” In A. M. Hespanha (coord.) O Antigo Regime (1620-1807). Lisboa, Estampa, 1993, p. 123 (História de Portugal, dir. José Mattoso, v. 4).

Ernst H. Kantorowicz, Los dos cuerpos..., cit., p. 188-200.

Vide fr. Emílio Sauras, OP. El cuerpo mistico de Cristo. Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 1952, p. 1-27.

Antônio Manuel Hespanha “Para uma teoria da história institucional do Antigo Regime” In A. M. Hespanha (org.). Poder e instituições na Europa do Antigo Regime. Lisboa, Calouste Gulbenkian, 1984, p. 59.

Tesouro Carmelitano manifesto e oferecido aos Irmãos e Irmãs da Venerável Ordem Terceira da Rainha dos Anjos, Mãe de Deus, Senhora do Carmo, pelo..., Comissário da mesma Terceira Ordem no Convento do Carmo de Lisboa. Lisboa, na Oficina de Miguel Menescal da Costa, Impressor do Santo Ofício, 1760. Nos fichários da BNRJ, consta uma edição de 1705, que não foi possível consultar, impressa na mesma oficina.

Ibid., p. 247-9. A expressão “árvore mística” está na p. 243.

Visão do paraíso. Os motivos edênicos no descobrimento e colonização do brasil. 2.ª ed. rev. e amp. São Paulo, Nacional, 1969, cap. VIII, p. 236: “os cenários naturais, em terra onde tudo era insólito, pareciam importar, não tanto por aquilo que aparentavam, mas sobretudo pelo que pareciam anunciar ou dissimular”. Conforme expôs João Adolfo Hansen em obra analisada a seguir, pode-se chamar de essencialista o procedimento dos escritores portugueses que se encarregaram da descrição do Novo Mundo, adotando para a análise do mundo sensível procedimentos hermenêuticos próprios da Teologia.

El cuerpo místico..., cit., p. 34. O autor refere que “por querer valorizar mais que o devido a metáfora, se chega umas vezes a extremos pueris e outros a extremos francamente errôneos”.

Apud João Adolfo Hansen. Alegoria. Construção e interpretação da metáfora. São Paulo, Atual, 1987, p. 4. Segundo o referido autor, a novidade da teologia de S. Tomás de Aquino em relação à tradição dos Santos Padres é a exclusão do “sentido figurado  metafórico ou alegórico  do sentido espiritual, (...) aquele desejado e inscrito por Deus no mundo e na história (...) Teológica, a concepção hipervaloriza a alegoria fatual, a única que apresenta o sentido espiritual” (p. 57-8). Ainda de acordo com Hansen, a alegoria fatual, também conhecida como tipologia, designa o procedimento hermenêutico dos teólogos em interpretar passagens do Antigo Testamento como prefigurações do Novo (p. 47).

Fr. José de Santo Antônio, Ord. August. Iman Espiritual atrativo dos corações ao amor, veneração e séquito da Terceira Ordem Augustiniana... dedicado à sagrada imagem de Nossa Senhora da Graça, colocada em seu convento de Lisboa Oriental, Padroeira e protetora da mesma venerável Ordem... Lisboa Ocidental, na Oficina da Música, 1726, p. 305.

Acerca da imagem do matrimônio, desta vez aplicada à aliança entre o príncipe e sua república, que estabelecia direitos e obrigações para ambas as partes envolvidas, cf. Ernst H. Kantorowicz, Los dos cuerpos..., cit., p. 206-8.

Sobre a autonomia relativa desfrutada pelas irmandades,  Sergio Chahon assinala que apenas na segunda metade do século XVIII, graças às medidas tomadas por Pombal, o Padroado Real procurou defender com mais ênfase a sua jurisdição, fazendo valer as prerrogativas de seus agentes mais diretos, como os párocos e os bispos diocesanos, contra as pretensões de autonomia das Ordens religiosas e irmandades. Cf. Aos pés do altar e do trono: as irmandades e o poder régio no Brasil, 1808-1822. Dissertação de Mestrado apresentada à USP, sob a orientação de Maria Beatriz Nizza da Silva. São Paulo, 1996, p. 22-7.

Terceiro franciscano instruído nas obrigações do seu Instituto da Terceira Ordem da penitência; com a notícia das muitas Indulgências concedidas aos Professores deste Instituto... por Fr. Manoel de Maria Santíssima, Missionário Apostólico e Guardião de Varatojo. Lisboa, na Oficina de Antônio Gomes, 1787, p. 159.